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sábado, 19 de setembro de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro, os 10 primeiros capítulos - Paulo Roberto de Almeida

Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro, os 10 primeiros capítulos

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Listagem dos dez primeiros capítulos da série.

  

Tive a ideia de escrever uma história autobiográfica do Estado brasileiro nos “bons tempos” do lulopetismo triunfante, ou seja, nos dois primeiros mandatos de Lula, não porque eu achasse que ele fosse um fora-da-lei propriamente dito, mas porque o Mensalão e depois o Petrolão (isso bem antes da Lava Jato) me diziam que algo era típico das instituições de Estado, independentemente de esquerda ou direita: o patrimonialismo, a corrupção geral e a desfaçatez com a qual os mandarins do Estado, e os políticos salafrários, se apossam dos recursos públicos e dos bens do próprio Estado para o seu usufruto pessoal. O lulopetismo entrava apenas numa nova metodologia da corrupção, o que eu explicava em termos marxistas: antes do PT, havia um modo artesanal de produção da corrupção, cada político arrumando uma ONG familiar, preparando algum edital adequada ao desvio de dotações, enfim, o roubo geralmente individual. Com o PT, entramos num modo industrial de produção da corrupção, com o partido organizando o saque do Estado, comprando parlamentares e até bancadas inteiras para alimentar seus projetos estatais (e o que saía nas margens).

Mas a Lava Jato submergiu o projeto original, pois como diria Lênin, se tratava de uma etapa superior de produção da corrupção, quando ela passa a se imiscuir em cada brecha do próprio Estado, numa colusão bem-sucedida de políticos e mandarins do Estado com os grandes magnatas da economia, empresas gigantescas que, abandonam o lado “utópico” da corrupção, para passar ao seu estágio “científico”, com planejamento, planilhas, organização e métodos, paraísos fiscais e todo o resto. O projeto ficou parado durante algum tempo.

Quando comecei a colaborar regularmente com a revista Será? – um empreendimento simpático e inteligente de alguns pernambucanos e outros espíritos livres em outras partes do Brasil –, achei que seria uma oportunidade para avançar e dar continuidade a esse projeto, que já tinha planejamento para mais de 50 capítulos. Por enquanto estou nos dez primeiros, mas já com um esquema para os próximos, de modo relativamente cronológico, ou seja, partindo de nossas raízes lusitanas para chegar aos tempos atuais.

Acredito que a realidade é bem mais rica do que a minha imaginação criadora, em todo caso bem-informada por um conhecimento amplo de nossa evolução histórica, que evidencia um itinerário exemplar de aperfeiçoamento da corrupção e dessa mania quase genética de viver à margem da lei, que parece ser a nossa doença de origem. Como se diz frequentemente, “aos amigos tudo, aos inimigos apenas a lei”, o que talvez resuma a chamada “alma nacional”. Não sei bem onde vai chegar este “fora-da-lei”, mas aguardando novos lampejos de imaginação, apresento a seguir apenas o registro de cada um dos dez primeiros capítulos, bastando aos curiosos acessar os links indicados do site da revista Será? ou os do meu blog Diplomatizzando, onde eles são invariavelmente divulgados.

Espero não estar falseando muito a história do Estado brasileiro, mas esse lado fora-da-lei, ou seja a corrupção endêmica, epidêmica e disseminada, me parece o lado menos distinguido em nosso itinerário de meio milênio, com mais de duzentos anos de independência, isto é, de corrupção feita em casa, por métodos originais e altamente pervasivos e resilientes. Ela agora chegou ao seu sommet, o ápice tentacular de velhos hábitos que foram capturando os mais altos mandarins do Estado, aqueles mesmos que deveriam, em princípio, garantir a higidez das instituições. Eu, como Estado, não existo no vácuo, apenas reproduzo o que fazem de mim os que comandam as instituições da governança, com suas paixões e interesses, suas ambições desmedidas e alguns poucos gestos de desprendimento, enfim, a síntese de nossas contradições permanentes e insanáveis vícios de comportamento.

Sem mais, tergiversações, vamos ver o que andamos fazendo até aqui, com uma promessa de fazer uma história a mais sincera possível, baseada na verità effettuale de la cosa, como diria Niccolò, um cara que me ensinou muitas coisas nesse domínio do poder do Estado, sem quaisquer ilusões românticas, ou seja, la realtà concreta ed effettiva dei fatti politici, sem qualquer concessão a apresentar o mundo como ele dovrebbe essere. Por falar em Macchiavelli, tenho de fazer uma nova edição, atualizada, do livro que publiquei em 2010, O Moderno Príncipe, pois são tantos os aggiornamenti que acabo me perdendo...

 

1645. “Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p. Introdução a uma biografia sincera de um contraventor da lei e dos bons costumes: o Estado brasileiro, narrada, de forma inédita, na primeira pessoa. Revista Será? (ano xiv, n. 710, 15/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1-a-trajetoria-do-estado-brasileiro/); divulgado no Diplomatizzando (15/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1.html). Relação de Originais n. 5303.

 

5304. “Autobiografia de um fora-da-lei, 2: o Estado visto por ele mesmo”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p.; revisão: 20/05/2026. Uma questão de método: como o Estado pode escrever sua própria biografia? Revista Será? (ano xiv, n. 711, 22/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o-estado-visto-por-ele-mesmo/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o.html). Relação de Publicados n. 1647.

 

5305. “Autobiografia de um fora-da-lei, 3: do nascimento a tempos incertos”, Brasília, 6 maio 2026, 4 p. Das origens ao vice-reinado: uma trajetória colonial a serviço da metrópole. Revista Será? (ano xiv, n. 712, 5/06/2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do-nascimento-a-tempos-incertos/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do.html ). Relação de Publicados n. 1650.

 

5342. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente”, Brasília, 6 junho 2026, 4 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro, para a revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de-colonia-a-reino-unido-ao-de-portugal-e-uma-promocao-merecida-a-imperio-independente/); divulgado no blog Diplomatizzando (26/06/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de.html); resumo comentado por Demoiselle IA, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz, registrado sob n. 5379; divulgado no blog Diplomatizzando (28/06/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/a-autobiografia-do-estado-relida-e.html). Relação de Publicados n. 1652.

 

5347. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais”, Brasília, 9 junho 2026, 4 p.; revisão 8 julho 2026, 5 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 707, 10/07/2026; link: https://revistasera.info/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como-me-livrei-dos-portugueses-mas-acabei-ficando-com-os-oligarcas-nacionais/). Divulgado no blog Diplomatizzando (10/07/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como.html). Relação de Publicados n. 1654.

 

5394. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República”, Brasília, 9 julho 2026, 4 p. Continuidade da série, desta vez fazendo um resumo reflexivo, antes de prosseguir. Enviado em 15/07/2026. Publicado na Revista Será? (ano xiv, n. 721, 24/07/2026; link: https://revistasera.info/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-6-chegando-ao-desafio-da-republica/); republicado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-6.html). Relação de Publicados n. 1655.

 

5396. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados”. Brasília, 10 julho 2026, 4 p. Mais um capítulo da história de um transgressor moderado. Encaminhado em 29/07/2026. Publicado na Revista Será? (ano xiv, n. 723, 7 de agosto de 2026; link: https://revistasera.info/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o-barao-em-todos-os-seus-estados/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o.html). Relação de Publicados n. 1664.

 

5430. “Autobiografia de um fora-da-lei, 8: Canudos, um crime que atingiu precocemente minha reputação”, Brasília, 9 agosto 2026, Revisão 16/08/2026, 4 p. Sobre Canudos, uma ferida ainda não devidamente cicatrizada. Reenviado em 19/08/2026. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 725, 21/08/2026; link: https://revistasera.info/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-8-canudos-um-crime-que-atingiu-precocemente-minha-reputacao/); republicado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-8.html). Relação de Publicados n. 1665.

 

5436. “Autobiografia de um fora-da-lei, 9: das oligarquias que me serviram”, Brasília, 25 agosto 2026, 4 p. As oligarquias, sempre a meu serviço; alguma novidade nisso? Para a série da história do Estado brasileiro, na revista Será? (ano xiv, n. 727, 4/09/2026, link: https://revistasera.info/2026/09/autobiografia-de-um-fora-da-lei-9-das-oligarquias-que-me-serviram/); disponível no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/autobiografia-de-um-fora-da-lei-9-das.html). Relação de Publicados n. 1667.

 

5437. “Autobiografia de um fora-da-lei, 10: comunismo e fascismo, meus filhos”, Brasília, 27 agosto 2026, 4 p. Sobre as ideologias de Estado, das quais não consegui escapar. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 729, 18/09/2026, link: https://revistasera.info/2026/09/autobiografia-de-um-fora-da-lei-10-comunismo-e-fascismo-meus-filhos/); disponível no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/autobiografia-de-um-fora-da-lei-10.html). Relação de Publicados n. 1668.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5465: 19 setembro 2026, 4 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/autobiografia-de-um-fora-da-lei-uma.html  

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 9: das oligarquias que me serviram - Paulo Roberto de Almeida

 Autobiografia de um fora-da-lei, 9: das oligarquias que me serviram

Por Paulo Roberto de Almeida

Revista Será?, ano xiv, n. 723, set 4, 2026 | Artigos


As oligarquias, sempre a meu serviço; alguma novidade nisso?


De todas as oligarquias que me serviram de auxílio, na ingente missão de comandar uma nação que, ela mesma, vive frequentemente à margem da lei, senão atuando contra a lei, as oligarquias militares foram as que mais causaram prejuízo à formação de um espírito democrático que efetivamente eu favoreço para este meu Estado, embora muitas opiniões acreditem – entre elas a deste que justamente me serve de escriba – que eu sou um aderente convencido de um regime forte, de corte autoritário ou arbitrário. Longe disso; a despeito de ter escolhido intitular esta série de “autobiografia de um fora-da-lei”, isso se deve ao fato de que, na maior parte dos dois séculos nos quais me tenho por independente, foram poucos, muito poucos, os períodos nos quais meus cidadãos foram efetivamente governados por leis, e não pelos homens que se apossaram, por largos espaços de tempo, deste meu Estado.


Mas os militares não foram os mais importantes, ou os principais contorcionistas legais que ousaram ditar ordens aos cidadãos destas terras (estou, portanto, deixando de lado, os três séculos precedentes durante os quais eles foram apenas súditos de um Estado estrangeiro, no qual, aliás, deito minhas raízes). Antes deles, depois deles, sempre presentes, estiveram as várias oligarquias civis, as elites econômicas que sempre mandaram por estas bandas, independentemente dos uniformes ou distintivos que usavam. Deixo de lado os donatários, os sesmeiros, os funcionários do poder colonizador que receberam d’El Rei imensas terras nas costas do que era apenas uma nesga territorial negociada antes mesmo do meu nascimento, em Tordesilhas. Nada diferente do que ocorria em outras paragens naquela mesma época. Valia, no início, apenas aquele pequeno pedaço, depois alargado pelo tirocínio de um dos meus primeiros diplomatas nativos, embora a serviço do rei lusitano; depois passei a tomar conta dos meus próprios assuntos, duzentos e poucos anos atrás. E assim foram todos os anos e décadas de um Estado bem ou mal administrado, com velhas e novas oligarquias.


A despeito dos projetos de construção de um Estado soberano, dotado de escolas, universidades e outras coisas dignas dos recém-cidadãos, oferecidos por espíritos atilados como Hipólito, Bonifácio e Silva Lisboa, as oligarquias latifundiárias e escravocratas logo tomaram conta do meu Estado, com instituições que lhes convinham inteiramente: por certo a manutenção do horrendo regime servil de trabalho, para o qual tinham de importar mais e mais levas de infelizes capturados em terras africanas; depois o controle das forças de guarda e repressão, logo empregadas nas rebeliões provinciais; mais adiante na imposição de regras – como a infame Lei de Terras, uma antirreforma agrária – que justamente vetavam, todos esses grilhões, a emergência de uma classe média proprietária, que deveria ser o esteio básico de um Estado que teria como fundamento a igualdade de todos perante a lei, não o arbítrio sempre presente dos mais iguais, os donos do poder, como depois intitulou a sua dissertação doutoral um desses ilustres críticos dos regimes impostos aos súditos e aos novos cidadãos.


Os primeiros sustentáculos das oligarquias que conseguiam controlar o meu Estado foram os antigos sesmeiros, aqueles que se apossaram de novas e imensas terras que lhes foram facilitadas pela Lei de 1850, e que passaram a servir como “coronéis” da Guarda Nacional, depois que o chamado Regresso reacionário conseguiu moldar um arremedo de regime parlamentar; neste, liberais e conservadores não se distinguiam em nada, a não ser no título de fachada dos partidos dentro dos quais se acomodavam as oligarquias justamente. Mas foi a partir daí, e da “maldita guerra” da Tríplice Aliança contra o infeliz Paraguai, que uma outra oligarquia se formou e se desenvolveu irresistivelmente, a dos militares, justo essa, que me angustiaria por mais de cem anos a partir dali. Eles começaram por um golpe, como um outro aliás, mais adiante, totalmente improvisado, sem direção competente; o primeiro foi feito mediante um pretexto qualquer e terminou numa mudança de regime, não planejada, com gente despreparada, como pode acontecer nessas corporações mal administradas.


As oligarquias dos barões do café no Sudeste e as que restavam da aristocracia do açúcar nos engenhos do Nordeste continuaram a mandar no meu Estado durante largos anos, à base de eleições fraudadas e de candidatos escolhidos a dedo; foi assim até que os paulistas se julgaram espertos demais para tentar o continuísmo, num governo cuja administração e os proveitos associados a ela deveriam ser divididos com outras oligarquias, a dos mineiros e a dos gaúchos, por exemplo. Estes últimos, mais experientes nas refregas lindeiras e nas guerras civis que eles mesmo acirravam entre si, com toques de crueldade entre maragatos e chimangos, decidiram não permitir que a paulistada continuasse mandando no país, e até se aliaram para forçá-los a sair. A oportunidade veio com o assassinato do candidato a vice na chapa de um castilhista dos pampas, que, aliás, tinha sido ministro da Fazenda no mandato do oligarca de São Paulo (tinha preparado até a troca do velho mil-réis por uma nova moeda).


Mas temeroso demais para liderar um levante contra o governo central, já encastelado como governador do seu estado sulino, deixou que seu secretário da Justiça, um combatente da guerra civil de 1923, conduzisse uma incursão armada contra as tropas federais. Oswaldo Aranha, a “estrela da revolução” como foi chamado, conduziu todos os preparativos, até oferecendo o comando das operações armadas ao capitão de uma coluna que percorreu o país entre 1926 e 1929; chegou a visitar o revolucionário em Buenos Aires, levando alguns milhares de dólares para comprar armas. Enfim, uma revolta aconteceu, sem Prestes e sem combates – tendo sido inclusive anunciada uma grande batalha em Itararé, que nunca ocorreu –, isso porque uma outra oligarquia, a dos comandantes do Exército e da Marinha, resolveu não entrar em combate, mas “aposentar” antes do prazo o dito presidente paulista, o homem que achava que governar era “abrir estradas”. Abriu uma, só sua, para o exílio em Portugal.


Esse simulacro de revolta armada foi chamada, mais tarde, de “revolução burguesa” pelos historiadores marxistas, mas ela não chegou a ser sequer uma revolução, muito menos burguesa. Foi apenas a troca de uma oligarquia por outra, a que apeou os seus cavalos num obelisco do Rio de Janeiro e se preparou para administrar provisoriamente as tarefas da administração pelo tempo necessário para que um governo interino pudesse “restabelecer o direito e a justiça no país”. De fato, ele começou por criar uma legislação eleitoral e aprovar o voto das mulheres; mas, o que era temporário se prolongou demais, o que levou os paulistas a tentar, por sua vez, derrubar o governo provisório que estava já se eternizando no poder. Foram derrotados duas vezes, em 1932, depois de três meses de combate solitário (nenhum outro estado se aliou a São Paulo), e depois em 1937, quando um golpe de Estado de tipo fascista afastou qualquer possibilidade de eleições livres em 1938.


No intervalo entre a insurreição e o golpe, uma Constituinte redigiu em 1934 uma das constituições mais nacionalistas, intervencionistas e estatizantes que o Brasil já conheceu, o que até eu, propenso a privilegiar o Estado (isto é, eu mesmo) achei exagerado demais. O que também atrapalhou a construção de uma democracia no país, mesmo uma corporativa, como eram os costumes da época, foi a tentativa mal preparada, portanto frustrada, dos comunistas, sob a direção inepta de Prestes, de imitar os bolcheviques russos numa “intentona” contra a “república burguesa”, supostamente “submissa ao imperialismo”. A internacional comunista criada pelo próprio Lênin em 1919, o Komintern, até chegou a enviar vários agentes ao Brasil, para auxiliar o “cavaleiro da esperança” a realizar o que era, na verdade, um putsch contra quarteis e instalações de governos estaduais, sem qualquer sucesso porém.


Essa “revolta vermelha”, que vitimou meia dúzia de militares, vacinou a corporação contra a ideologia marxista, tanto foi assim que, a partir de 1935, o anticomunismo se tornou uma política oficial do Estado brasileiro, sendo o frustrado levante relembrado todos os anos nos quarteis até uma data bem recente. O perigo de uma nova intentona “comunista”, dois anos depois, foi até forjado por oficiais militares, catalogado num plano com ressonâncias “judias” no seu título; o caudilho gaúcho, na verdade, não precisava de qualquer subterfúgio para dar o seu golpe, pois já dispunha de tudo o que precisava para começar o seu “Estado Novo”, num modelo que vinha sendo experimentado pelos militares em Portugal, a minha terrinha de origem; infelizmente ela também tinha poderosos obstáculos a um regime verdadeiramente democrático, tanto quanto sempre foram os óbices brasileiros.


O fato é que o governo “provisório”, que deveria dar lugar a uma República digna desse nome no curto prazo, acabou durando um “breve período de 15 anos”, como afirmou zombeteiramente o caudilho gaúcho, orgulhoso de inaugurar um tipo de regime que seria o da nação pelas décadas seguintes: a preeminência absoluta do Estado sobre a sociedade – não que eu desejasse esse modelo de governança –, ajudando a preservar, até a fortalecer, velhas e novas oligarquias, que se sucediam nas diversas bolhas que sustentaram esse regime de forma praticamente ininterrupta, independentemente de breves retornos à “democracia” a pequenos ou longos intervalos. A primeira oligarquia a ser reforçada foi, obviamente, a dos próprios militares, pois que a corporação passou a intervir regularmente nos negócios do meu Estado, com uma arrogância típica de generais prussianos da velha escola autoritária. Eles continuaram – impunemente, pois que, até recentemente, nenhum golpista tinha sido punido por atuar contra as instituições democráticas – a testar esses limites, e até a ultrapassá-los, como se fossem os guardiões da minha República.


Mas várias outras oligarquias continuaram, ou passaram a ser, sustentadas pela via dos recursos públicos e com nacos do Estado, nos diversos regimes que eu “experimentei”, desde os anos 1930 até nossos dias: a dos latifundiários atrasados certamente (mas eles foram “atualizados” com a minha ajuda nos anos 1970); a dos emergentes industriais (eles conheceram bastante sucesso, sobretudo os imigrantes empreendedores); a dos grandes comerciantes (sempre muito ligados a interesses estrangeiros, desde priscas eras); a de alguns banqueiros (sempre financiando causas obscuras); até a casta dos políticos profissionais, que começou a se estabelecer em partidos não mais uniformemente “republicanos” (estaduais), como era até a era Vargas, alguns eram ideológicos, como os de “esquerda”, vários outros eram apenas oportunistas, ainda que representando setores privilegiados da economia.


No cômputo geral, as oligarquias que passaram a ocupar espaços de governança no “meu Estado” se deram muito bem. O Brasil continuou a ser, invariavelmente, um país injusto, iníquo socialmente, produtor de grandes contingentes de miseráveis, um estoque imenso, desde o período colonial. Mas esses traços de nossas desigualdades persistentes, que me envergonham no cenário mundial, vou examinar num próximo capítulo desta série. 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5436: 25 agosto 2026, 4 p.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 7: O Barão em todos os seus estados - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?) + Madame IA

 Madame IA examina o mais recente artigo da série "Autobiografia de um fora-da-lei, 7", uma biografia sincera do Estado brasileiro, destacando a atuação do Barão, e outros aspectos da política externa e da política econômica brasileira, do Império à República Velha.

O artigo pode ser encontrado aqui: 

Revista Será? (ano xiv, n. 723, 7 de agosto de 2026; 

link: https://revistasera.info/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o-barao-em-todos-os-seus-estados/ 

divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o.html  Relação de Originais n. 5396.

   
 
O texto analisado é Fato, tratando-se de um ensaio histórico-literário legítimo publicado pelo diplomata Paulo Roberto de Almeida na revista Será? e reproduzido em seu blog pessoal. Sob uma técnica de personificação, o autor fala em nome do próprio Estado brasileiro para repassar marcos da história diplomática nacional.
 
Análise Crítica e Multifacetada
🏛 Perspectiva Política e de Governança
O texto utiliza a alegoria do Estado absolutista ("o Estado sou eu") para analisar de forma crítica os governantes que geriram o Brasil ao longo dos séculos. O autor expõe o constante conflito entre a perenidade das instituições nacionais e a volatilidade de líderes temporários, tecendo duras críticas a figuras como o Marechal Hermes da Fonseca ("mula fardada") e Artur Bernardes, apontando como decisões personalistas e o caudilhismo historicamente sabotaram o potencial geopolítico do país.
 
🌍 Perspectiva Geopolítica e Histórica
O ensaio traça com precisão cirúrgica a consolidação das fronteiras brasileiras, destacando a transição do Império para a República. A narrativa exalta as vitórias jurídicas e cartográficas do Barão do Rio Branco nas disputas de limites com Argentina (Missões), França (Oiapoque) e Reino Unido (Guiana), demonstrando como a diplomacia baseada no conhecimento técnico e histórico substituiu o recurso à força militar para garantir a integridade territorial do Brasil na América do Sul.
 
📉 Perspectiva Econômica e Financeira
Sob a ótica econômica, a crônica desnuda as fragilidades estruturais e os vícios fiscais do Brasil desde o século XIX. O autor faz menção crítica aos mecanismos de funding loans e à descentralização excessiva da Constituição de 1891, que permitiu a estados e municípios contraírem dívidas externas de forma irresponsável e sem lastro da União, gerando crises de endividamento crônicas e submissão aos fluxos de capitais britânicos (padrão-ouro).
 
⚖ Perspectiva Jurisdicional e Institucional
O texto aborda o processo de amadurecimento institucional por meio de suas rupturas e das lutas por direitos essenciais. São celebradas as atuações de Luiz Gama e Joaquim Nabuco na abolição da escravidão, rotulada como a instituição mais nefasta da história nacional. No campo das relações externas, aponta as consequências desastrosas do isolamento institucional provocado pela retirada do Brasil da Liga das Nações sob o governo Bernardes, evidenciando o perigo do afastamento das esferas multilaterais de direito internacional.
 
🧠 Perspectiva Filosófica e Intelectual
Filosoficamente, a obra discute o papel do intelectual na formação da consciência nacional. Ao eleger Hipólito da Costa como o primeiro estadista legítimo pelo seu papel pedagógico no Correio Braziliense, o autor defende que a verdadeira soberania e a construção de uma pátria livre emanam do livre debate de ideias, do conhecimento crítico e da racionalidade jornalística, sobrepondo o poder das luzes e da inteligência às amarras do autoritarismo ou do dogmatismo repressor de sua época.
 
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?); + resumo de Madame IA

 

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados

Eu tive muitos servidores em minha atribulada carreira de guardião, preceptor, indutor, patrocinador e corregedor de tantos administradores que atenderam aos meus propósitos, nem sempre com a habilidade necessária para fazer o Brasil despontar entre os melhores do mundo, como era o meu desejo (nem poderia, com tantas deficiências de origem e com as deformações criadas por alguns desses atendentes provisórios na grande missão de governança de um país dotado pela natureza de bondades não aproveitadas). A todos concedi certa liberdade para administrar os assuntos correntes, não hesitando, porém, em lhes sabotar as ações, direta ou indiretamente, sempre quando percebia algum desvio da minha lógica implacável: o Estado, ou seja, eu mesmo, deve sempre prevalecer, em face de quaisquer outros objetivos alheios a mim.

O primeiro e o maior de meus servidores foi um verdadeiro intelectual, jornalista esclarecido, homem de muitas luzes, a quem não hesito em chamar de primeiro estadista legitimamente brasileiro, mesmo sem residir nestas paragens durante toda a sua vida adulta: quero me referir ao jovem Hipólito da Costa, perseguido em Portugal por essa entidade maléfica chamada Inquisição, e que teve de se refugiar na Inglaterra para escapar de uma prisão injusta; para servir à sua verdadeira pátria, deu início a um “armazém literário” que manteve sozinho por 14 anos, até a consecução de uma independência que ele já considerava inevitável desde 1808, quando lançou o seu empreendimento informativo, elucidativo, instrutivo e pedagógico. Poucos intelectuais brasileiros podem exibir, como Hipólito, a glória de ter formado mais de uma geração de estadistas brasileiros (alguns portugueses também), apenas pela sua atividade de leitor, de redator e de intérprete dos grandes acontecimentos do seu tempo, numa dimensão propriamente internacionalista (que não deixa de ser também, de certo modo, a minha, pois que como Estado constituído, membro fundador da ONU, tenho frequentemente de me confrontar a outros poderes regionais e às grandes potências desse nosso planetinha redondo).

Tive muitos outros aprendizes e assessores, ao longo do século XIX, e desejo destacar Luiz Gama e Joaquim Nabuco, que lutaram contra a instituição mais nefasta da história da nação, a escravatura, que ainda assim se manteve impérvia por muito tempo, mais até do que deveria. Entre aqueles que mais se distinguiram na defesa de meus interesses, econômicos, políticos, diplomáticos, esteve um certo José Maria da Silva Paranhos Júnior, bon vivant na juventude, passada entre farras e aventuras amorosas, ingressado pela janela na carreira consular (quando o Imperador viajou ao exterior e sua filha assumiu o trono), dedicado aos estudos históricos nos 20 anos durante os quais serviu como cônsul em Liverpool, o maior porto comercial da Inglaterra do século XIX (mas ele passava a maior parte do tempo em Paris), e que, por um golpe de sorte, foi convidado a defender a minha causa num entrevero com os hermanos a propósito de uma disputa pelo território das Missões, no sul dos meus pagos. Alguém se lembrou dele, como estudioso de velhos mapas e manuscritos coloniais, quando o Barão que defendia os meus interesses veio a bater as botas inopinadamente; ele foi retirado da boa vida, recebendo em libras esterlinas, no padrão ouro legítimo, e gastando em francos, mero padrão prata, minoritário.

Não é que o estroina da juventude se converteu no maior sábio com respeito às minhas fronteiras, muitas ainda não demarcadas, derrotando as pretensões argentinas sobre um pedaço considerável do território sulino lindeiro com aqueles arrogantes vizinhos? Ele se revelou tão competente nesse primeiro caso, que eu fiz os presidentes seguintes continuarem a usar de seus serviços de historiador e negociador de minhas fronteiras, também com a França (sobre o Oiapoque) e logo em seguida como preparador dos materiais documentais para que o amigo Joaquim Nabuco passasse a defender minhas fronteiras com a Guiana inglesa, as quais os ambiciosos britânicos querem vê-la estendidas até os nossos rios amazônicos. Nabuco continuavam monarquista, dez anos depois da inauguração da República por aqueles milicos ressabiados para comigo, quando eu era um Império meio decadente, da mesma forma como Paranhos Jr., convertido em Barão do Rio Branco – no seguimento do pai, que era Visconde sob o mesmo título –, mas ele foi esperto o suficiente para acrescentar Rio-Branco ao próprio nome, dispensando o título honorífico de barão. Todos sabiam que, sob a República (que abolira todas aquelas honrarias), só havia um barão, aliás com B maiúsculo, sem precisar mais nada.

Era Barão para cá, Barão para lá, sobretudo depois que o presidente de turno o chamou para ser o seu chanceler, o que ele aceitou com relutância, pois teria de sair do universo da libra britânica, como ministro em Berlim, para cair na miséria dos mil-réis na capital do Brasil. O Barão atravessou quatro presidentes, sem que nenhum ousasse dispensar seus serviços – eu também não o faria, e teria gostado de vê-lo como presidente em 1910, no lugar daquela mula fardada, um tal de Marechal Hermes da Fonseca, sobrinho do primeiro presidente-ditador – e morreu no gabinete que ocupava no velho Palácio do Itamaraty em 1912, ainda deitado sobre velhos mapas e manuscritos coloniais. O Barão – que depois figurou em todas as oito moedas que tivemos nos 140 anos seguintes – foi o servidor que melhor me ajudou a consolidar as minhas fronteiras, ainda objeto de cobiça e disputas com os vizinhos hispânicos, sempre hostis aos nossos interesses, como os espanhóis sempre foram com os meus avós lusitanos. Devo dizer que ele também gastava à tripa forra, para desgosto do meu ministro da Fazenda, que tinha de satisfazer o apetite de Paranhos por recepções nababescas para os visitantes estrangeiros, o envio de preguiçosos diplomatas para conferências na Europa, além de subornos a certos jornalistas, para que lhe enaltecessem a figura e as suas vitórias nas páginas dos diários da capital.

Eu também defendia o Barão todas as vezes que podia, sussurrando aos presidentes que deixassem a política externa e a diplomacia (duas coisas diferentes) sob o domínio exclusivo do filho do Visconde, de tão nobre memória nos tempos do Império e do velho Senado: até um escritor mulato, que depois se tornou muito famoso, como fundador da Academia de Letras, fez uma crônica estupenda sobre a figura do Visconde, estadista ainda superior em qualidades no confronto com o filho, que tentou continuar suas virtudes (e conseguiu). Fiquei extremamente consternado quando ele morreu, pouco antes do Carnaval de 1912, e até tentei postergar os folguedos, o que o tal de “mula fardada” cumpriu, deslocando os festejos para o mês de abril; mas o povo carioca, zombeteiro e rebelde como sempre foi, aproveitou para ter dois carnavais, o postergado, em fevereiro, e o “oficial”, em abril daquele ano. Fui compreensivo com a tramoia, tanto porque os patrocinadores dos desfiles queriam impulsionar um tal de “jogo do bicho”, que havia começado clandestinamente pouco antes, e não perdiam oportunidade de lucrar contra os impostos oficiais (mas, confesso que eu também fazia uma fezinha, de vez em quando).

Depois do Barão, a maior parte dos chanceleres foram mais ou menos medíocres, não tanto pelos diplomatas, que tinham boas virtudes – mas eles viviam no exterior, pouco sabendo das coisas do Brasil – e sim pelos parlamentares ou magistrados que ocupavam o cargo, sem que eu os fizesse compreender nosso potencial no novo mundo americano que se formava depois da Grande Guerra, mas alguns presidentes também foram excepcionalmente estúpidos, como um que veio das Minas Gerais, o teimoso Artur Bernardes, que fez o Brasil abandonar a Liga das Nações, nossa primeira experiência multilateral, desperdiçada pela ignorância do presidente. O único parlamentar com estatura de estadista que poderia se ombrear a Rio Branco, foi um gaúcho com tino de estadista, que foi ministro, embaixador e chanceler na perigosa década de 30, aliás, o verdadeiro líder da Revolução de 1930, pois que o candidato derrotado nas urnas fraudadas do pleito presidencial daquele ano, o também gaúcho Getúlio Vargas, governador do seu estado, muito temeroso de empreender ele mesmo a marcha sobre o Rio de Janeiro, para derrubar o paulista Washington Luíz.

Mas, eu me adianto muito no relato dos meus feitos e malfeitos, pois que estou justamente pulando o evento seminal do século XX, a Grande Guerra, aquela que trouxe todas as misérias de um breve século, de menos de cem anos, que começou estrepitosamente com o bolchevismo e o fascismo, continuou na Grande Depressão, e provocou, vinte anos depois, uma nova e terrível conflagração mundial, que mudou terrivelmente a vida de milhões de pessoas. Os europeus tinham lá as suas desavenças – restos de guerras até feudais, segundo um historiador – e começaram as terríveis matanças nos Impérios centrais, nos Balcãs e nos mares, e eu fiz questão de preservar nossa estrita neutralidade, até onde foi possível. Mas, de repente, os alemães (sempre eles), começaram a afundar alguns dos nossos navios, e tivemos de seguir os Estados Unidos e entrar naquela terrível hecatombe. Até chegamos a enviar soldados para a Europa, mas eles morreram antes de entrar em combate, vitimados pela, ainda mais terrível, Gripe Espanhola, que também deixou milhões de mortos, mundo afora, não só na Europa; no Brasil, a incúria dos meus servidores oficiais só servia para mandar as carroças carregar os mortos que iam perecendo nas ruas e calçadas.

Logo depois da guerra terminar em armistício, houve uma conferência em Paris, em 1919, que tratou de fazer a paz entre os impérios guerreiros, mas aquilo só conseguiu colocar toda a culpa na Alemanha, que tinha de pagar reparações durante 40 anos aos vencedores: nunca o fez, e um novo ditador ridículo, em 1933, declarou que não pagaria mais nenhum centavo. Em todo caso, aquela nossa participação nas negociações de Paris, e no tratado de Versalhes, ofereceu uma oportunidade nunca antes vista na história da República: eleger um novo presidente que jamais fez campanha, sequer estava no Brasil quando foi “eleito” pela famosa “comissão de verificação”: Epitácio Pessoa voltou triunfante de Paris, enquanto o “homem mais inteligente do Brasil” (segundo os baianos), Rui Barbosa, perdia pela segunda vez uma campanha à presidência; a primeira tinha sido justamente em 1910, contra a “mula fardada”, o já mencionado Marechal Hermes.

Pouco antes da guerra começar na Europa, em 1914, tínhamos feito um último funding loan, uma mania que vinha do Império, mas que nos permitia alguma folga financeira ante os déficits habituais, empréstimos exacerbados pela Constituição de 1891, que permitiu aos estados e municípios contrair empréstimos no exterior sem o aval da União, o que redundou numa orgia de lançamento de títulos até por capitais de pequenos e pobres estados. Mas esse é um episódio trágico em minha história de vida, que vou contar em detalhes num próximo capítulo desta minha autobiografia razoavelmente sincera.

Brasília, 5396: 10 de julho de 2026

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Madame IA comenta: 

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-

de-um-fora-da-lei-7-o.html

 

O texto analisado é Fato, tratando-se de um ensaio histórico-literário legítimo publicado pelo diplomata Paulo Roberto de Almeida na revista Será? e reproduzido em seu blog pessoal. Sob uma técnica de personificação, o autor fala em nome do próprio Estado brasileiro para repassar marcos da história diplomática nacional.


Análise Crítica e Multifacetada

🏛 Perspectiva Política e de Governança

O texto utiliza a alegoria do Estado absolutista ("o Estado sou eu") para analisar de forma  os governantes que geriram o Brasil ao longo dos séculos. O autor expõe o

constante conflito entre a perenidade das instituições nacionais e a volatilidade de líderes temporários, tecendo duras críticas a figuras como o Marechal Hermes da Fonseca ("mula fardada") e Artur Bernardes, apontando como decisões personalistas e o caudilhismo abotaram o potencial geopolítico do país.


🌍 Perspectiva Geopolítica e Histórica

O ensaio traça com precisão cirúrgica a consolidação das fronteiras brasileiras, destacando do Império para a República. A narrativa exalta as vitórias jurídicas e

cartográficas do Barão do Rio Branco nas disputas de limites com Argentina (Missões), França (Oiapoque) e Reino Unido (Guiana), demonstrando como a diplomacia baseada no conhecimento técnico e histórico substituiu o recurso à força militar para garantir a integridade territorial do Brasil na América do Sul.


📉 Perspectiva Econômica e Financeira

Sob a ótica econômica, a crônica desnuda as fragilidades estruturais e os vícios fiscais do Brasil desde o século XIX. O autor faz menção crítica aos mecanismos de funding loans e à descentralização excessiva da Constituição de 1891a, que permitiu a estados e municípios contraírem dívidas externas de forma irresponsável e sem lastro da União, gerando crises de endividamento crônicas e submissão aos fluxos de capitais britânicos (padrão-ouro).


Perspectiva Jurisdicional e Institucional

O texto aborda o processo de amadurecimento institucional por meio de suas rupturas e das lutas por direitos essenciais. São celebradas as atuações de Luiz Gama e Joaquim Nabuco na abolição da escravidão, rotulada como a instituição mais nefasta da história nacional. No campo das relações externas, aponta as consequências desastrosas do isolamento institucional provocado pela retirada do Brasil da Liga das Nações sob o governo Bernardes, evidenciando o perigo do afastamento das esferas multilaterais de direito internacional.


🧠 Perspectiva Filosófica e Intelectual

Filosoficamente, a obra discute o papel do intelectual na formação da consciência nacional. Ao eleger Hipólito da Costa como o primeiro estadista legítimo pelo seu papel pedagógico no Correio Braziliense, o autor defende que a verdadeira soberania e a construção de uma pátria livre emanam do livre debate de ideias, do conhecimento crítico e da racionalidade jornalística, sobrepondo o poder das luzes e da inteligência às amarras do autoritarismo ou do dogmatismo repressor de sua época.


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?) + Madame IA

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República

O Estado

O Estado

Caros leitores: quem escreve sou mesmo, um velho conhecido de vocês, isto é, o Estado brasileiro, agora observando uma parada reflexiva, para reconsiderarmos o que eu andei fazendo até a inauguração da República para melhorar a vida de vocês (ou talvez não, mas pelo menos eu tentei). Concluí o meu relato anterior, por estas frases dubitativas: “O ‘meu’ Estado oligárquico se preparava para perpetrar mais maldades sob novas roupagens, mas com as mesmas perversas intenções de um fora-da-lei assumido, governando pelos caprichos e arbítrios habituais. Não sei o que melhorou com a troca da monarquia pela república, mas isso já é uma outra história que vou contar da próxima vez.”

Pois bem, chegou o momento de maior responsabilidade no relato que eu mesmo empreendi, por caminhos controversos, sempre aumentando o meu poder sobre a nação, sobre a sociedade e sobre os indivíduos que a integram, como você, caro amigo, que me lê neste momento. Será que minha trajetória, até chegar na República foi virtuoso ou, pelo contrário, esteve contaminado por ações irrefletidas, mais pensando em mim mesmo, do que na sociedade que me sustenta? Sim, tenho a impressão de que o tratamento que eu lhes concedo é, em vários casos, altamente desigual, com alguns aproveitando ao máximo regalias concedidas por mim, por vezes até regiamente (que o digam os aristocratas do Judiciário e outros aproveitadores conhecidos). Mas vamos primeiro reconsiderar o trajeto percorrido.

Eu já lhes expliquei por que eu decidi escrever minha própria biografia: foi para não deixar esse relato em mãos desavisadas e tendenciosas. Já falei de meu nascimento, aliás nas terras distantes dos meus avozinhos; lhes dei data e local do parto e a paternidade presumida. Também relatei minha criação por um método confuso, estilo tocata e fuga, sem qualquer partitura escrita, minha trajetória colonial; abordei a fuga da família real portuguesa em 1807 e sua instalação em 1808, o que me deu, pela primeira vez, vontade de me estabelecer sozinho, de cuidar de minha própria vida, de expandir meus poderes – o território já tinha sido ampliado, por um nativo da terra, a serviço de um monarca dominado por um ministro autoritário – e até gozei de um momento de glória, ao passar de colônia a Reino-Unido (que foi uma promoção merecida, reconheçamos), embora não tenha havido nenhum brasiliense no Congresso de Viena, que foi a minha iniciação na diplomacia multilateral (na verdade muito lateral, do ponto de vista dos meus preceptores). Reconheço, entretanto, que o príncipe regente, de nome João, fez algumas boas coisas, antes e depois de 1815.

Logo depois eu me encontrei em face do meu próprio destino, já a caminho da independência, mais negociada do que conquistada, e que durou alguns anos, até que eu me livrasse, finalmente, dos meus tutores. Eles foram embora, mas saquearam, ao partir, o meu primeiro banco, me deixando na penúria. O príncipe impulsivo que começou a tomar conta dos meus assuntos de Estado era muito afoito, mais ainda como imperador, e tinha muitos maus modos (sobretudo com as mulheres); começou fechando a minha primeira Assembleia Constituinte, que era uma chance que eu estava concedendo a meus súditos de deliberar eles mesmos sobre os mais importantes assuntos da vida prática. Não deu outra: ele acabou outorgando uma carta liberal-escravista, meu primeiro contrato constitucional, que acabou durando mais do que todos os outros: quando a escravidão acabou, tardiamente, acabou também aquele regime exótico, num hemisfério quase todo ele republicano.

Atravessei algumas revoltas, algumas bem violentas e cruentas, que esquartejaram o corpo da pátria: eram, digamos assim, revoltas e rebeliões “adolescentes”. Algumas, como naquela terra que já tinha lutado contra uma outra invasão estrangeira, Pernambuco, foram bem mais sérias. A insurreição de 1817, ainda no Reino “desunido”, foi selvagemente reprimida pelas tropas lusitanas; a de 1824, tentou corrigir aspectos pouco recomendáveis da Constituição de 1824, contra a qual se rebelou um religioso, conhecido como Frei Caneca, que até parecia um jurista respeitado. Ao fim e ao cabo, conseguiram, os agora brasileiros, expulsar o primeiro imperador, mas tiveram de passar pela confusa experiência das regências, um aprendizado de regime quase republicano. A partir daí, vivemos relativamente em paz com meu novo representante à frente do Estado: era um jovem inexperiente, mas de boas intenções, um rapaz muito lido e até sabichão em algumas matérias. Ele logo constatou como era duro reformar e modernizar um país que estava entregue aos conhecidos oligarcas que mandavam nestas terras desde o começo. As amarras conservadoras inviabilizaram todas as tentativas de abolir o tráfico, acabar com a escravidão, enfim, trazer progresso e indústria aos meus domínios (muitos ainda eram sertões completamente indevassados).

Não me estendo muito sobre os desafios externos, que também refletiam certa incapacidade interna; depois das guerras platinas, legado do precário imperialismo lusitano, tive de enfrentar alguns ditadores nos arredores, mas os perigos mais cruciais eram mesmo internos: os déficits fiscais criados com os desequilíbrios orçamentários, um mal crônico que redundou numa dívida externa impagável. Não posso dizer que o segundo imperador passou a sofrer de deliquescência senil, pois até começou a viajar muito ao exterior, mas parece que se agravaram os reumatismos de sua condição monárquica meio republicana (ele abusava um pouco do Poder Moderador). Os problemas maiores estavam mesmo no enfrentamento das questões sociais e políticas, embora os militares e os religioso tenham também passado a incomodar logo depois da guerra do Paraguai: meu genro, um francês pretensioso, não muito querido por meus súditos, por um momento no comando da ofensiva final, mandou perseguir até a morte o arremedo de Napoleão que tinha começado aquela maldita guerra: isso causou uma péssima impressão entre os vizinhos, que começaram a achar que eu era realmente um imperialista (um exagero, embora essa imagem tenha voltado a circular quando outros militares quiseram mandar na política interna e na externa, muitos anos depois).

O fato é que o nascimento da República se deu por meio de um golpe improvisado e algo canhestro, mas não quero entrar nos detalhes para não melindrar meus leitores. O fato é que, finalmente, eu virei “americano”, embora o adeus definitivo à velha Europa ainda teve de esperar mais um pouco. Em todo caso, minha primeira constituição “federativa” tinha vários artigos de imitação, copiando a primeira (até agora única) Constituição americana, inclusive no nome que deram ao Estado, só trocado várias décadas após a Constituição de 1891; ela tinha vários equívocos conceituais, que não pretendo discutir, para não me arvorar em jurista abusado. Ela começou a ser desrespeitada pelo próprio primeiro presidente, o mesmo marechal que tinha, sem o saber, dado o golpe republicano; depois foi desrespeitada múltiplas vezes pelo segundo marechal-presidente, um homem violento que achava que todos os problemas deviam ser, literalmente, resolvidos a bala.

O começo foi, portanto, difícil, mas com a eleição do primeiro civil para presidir o meu Estado, entramos, de alguma forma, na paz das oligarquias: foi aí que começou o café-com-leite do menu republicano, sobretudo paulista e mineiro, com algumas incursões de cariocas e outros pretendentes, mas sempre dentro dos arranjos oligárquicos que passaram a gerir nossa tradicional instabilidade político-econômica, feita de déficits e de dívida externa. O lado mais deprimente dessa sucessão de dirigentes civis era o percurso tradicional que eles tinham de fazer logo depois de eleitos, no mês de março (mediante aquelas falcatruas que vocês podem imaginar como era, com um mínimo de votantes alfabetizados): uma vez que a posse só se dava oito meses depois, em 15 de novembro, o eleito tomava um navio e ia para a Europa, negociar um novo funding loan com os banqueiros da City, ou implorar créditos, financiamentos e alguns investimentos no continente europeu. Aparentemente voltavam com mais alguns milhões prometidos, e assim continuou até o limite das possibilidades externas.

Mas antes de falar das crises externas, cabe mencionar, ainda que en passant, as controvérsias internas, bem mais complicadas que as externas, mas quase nada impedia o consenso das elites sempre em seu próprio favor. O povo continuou a assistir estupefato o espetáculo do poder dessas oligarquias, como já tinha sido o caso no golpe da República, e continuou a ficar assustado com a violência dos militares, no combate a algumas revoltas provinciais. A mais importante delas, nos sertões da Bahia, foi confundida com uma tentativa de insurreição monarquista, e devidamente massacrada até o último reduto daquela “Troia de barro”, como a chamou um jornalista atilado, que depois escreveu um maçudo livro, cientificista, mas em tons tolstoianos, sobre a incompetência dos milicos, que tiveram de empreender várias expedições até dar cabo dos rústicos “milenaristas”.

A característica principal da “Velha República”, como depois os historiadores alcunharam essa primeira fase de minha vida republicana, era o fato de as eleições serem perfeitamente falsas, muito embora a representação pudesse ser considerada “verdadeira”. Assim opinou, em suas tardias memórias, um jornalista de província, que começou sua vida política matando um crítico sincero de sua poesia desengonçada: ele se saiu melhor, bem mais tarde, como jurista internacionalista, amado ao que parece, dos diplomatas fidalgos que representavam a República no exterior (a despeito de serem clandestinamente monarquistas). O voto, como se sabe, era a “bico de pena”, e não valia muito, pois o que contava mesmo eram as contas da “comissão de verificação”, que já sabia de antemão quem merecia ser eleito. Essa toda poderosa instituição eleitoral, sabia exatamente como eleger um presidente, com um mínimo de votos, obviamente fraudando o que precisava ser fraudado.

Independentemente desses aspectos secundários na vida da nação, todo o resto marchava de modo tranquilo: os barões do Império, que deviam tudo, ou quase tudo, ao café, especulavam muito no câmbio e depois iam torrar a sua dinheirama nos cabarés de Paris, acendendo charutos com notas de 100 francos e tomando champagne nos calçados das demoiselles, que os fascinavam com danças provocantes. Bem, como a despeito de autossuficiente, sou também bibliófilo, relato o que encontrei num velho dicionário francês do início do século XX, num verbete intitulado “paulistade” (assim mesmo). E o que era a “paulistada”? Era exatamente o hábito de gastar à tripa forra nos cafés de Paris, a partir exatamente dos ganhos nababescos com a exportação do ouro verde, a base única das minhas receitas e da minha presença no mundo, até a segunda metade do século (e um pouco até hoje). Ou seja, eu devo tudo o que passei a ser, na era republicana, ao café.

Opa: faltou justamente explicar por que eu considero a República o desafio maior da minha auspiciosa trajetória: existem motivos suficientes, mas isso vou relatar nos próximos episódios destas minhas crônicas escritas em total sinceridade.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5394, 9 julho 2026, 4 p.

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 Madame IA reescreve esse capítulo da autografia do Estado em linguagem popular: 

Reescreva o conteúdo/texto da postagem do link https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-6.html (título da postagem, entre aspas: "Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)"). O texto reescrito deverá ser em linguagem coloquial do Brasil; deverá ter, no máximo, 5500 caracteres. 

Abaixo está o conteúdo completo da postagem do blog retrabalhado exatamente conforme as suas instruções, adaptado para o português coloquial do Brasil, mantendo o tom irônico do texto original e respeitando o limite de tamanho:
Texto Reescrito: O Estado Brasileiro Conta Sua História:
Fala, pessoal! Quem está falando aqui sou eu mesmo, o Estado brasileiro. Dei uma parada para refletir sobre o que andei aprontando até a chegada da República. Quero ver se melhorei a vida de vocês (ou se só tentei e falhei!). No último papo, comentei que minha versão antiga ia aprontar mais sob uma nova roupagem. Eu agi como um verdadeiro fora-da-lei, mandando na base do capricho. [1, 2, 3, 4, 5]
Agora chegou a hora de falar a real. Sempre acumulei poder sobre a nação e sobre você, que está me lendo. Será que fui legal ou só pensei no meu próprio umbigo?. O jogo sempre foi meio desigual por aqui. Tem gente que aproveita regalias demais, tipo a elite do Judiciário e outros espertalhões. [1, 2, 3, 4, 5]
O Começo de Tudo: Da Colônia ao Império:
Escrevo minha própria biografia para ninguém contar mentiras sobre mim. Nasci em terras distantes, num parto bem confuso. Em 1808, a família real portuguesa fugiu para cá. Ali me deu vontade de virar dono do meu próprio nariz e expandir meus poderes. Viramos Reino-Unido, mas não apitamos nada no Congresso de Viena. O Rei Dom João até que quebrou uns galhos antes de ir embora. [1, 2, 3, 4, 5]
Depois veio a Independência, que foi mais comprada e negociada do que lutada. Os tutores portugueses foram embora, mas limparam o caixa do nosso primeiro banco. Dom Pedro I era bem afoito e meio sem modos. Fechou a Assembleia Constituinte e impôs uma Carta liberal-escravista. Quando a escravidão acabou, o regime exótico caiu junto. [1, 2, 3, 4, 5]
Revoltas, Regências e o Segundo Imperador:
Passei por várias rebeliões violentas na minha fase "adolescente". Em Pernambuco, o pau quebrou em 1817 e 1824. Frei Caneca peitou as ordens da Constituição e acabou virando mártir. Expulsamos o primeiro imperador e caímos na bagunça das Regências. [1, 2, 3]
Depois, assumiu o herdeiro novo: um rapaz muito lido e meio sabichão. Dom Pedro II logo viu como era difícil modernizar um país entregue às oligarquias. Os fazendeiros travaram o fim do tráfico, da escravidão e o progresso industrial. Tivemos crises fiscais graves e uma dívida externa que parecia impagável. Na Guerra do Paraguai, pegamos pesado demais com o ditador vizinho. Ficamos com fama de imperialistas na região. [1, 2, 3, 4, 5]
A República do Café com Leite:
A República nasceu de um golpe improvisado e bem esquisito. Nossa primeira Constituição federativa copiou os americanos descaradamente. O primeiro presidente marechal já nasceu desrespeitando as regras. O segundo marechal era pior: achava que problema se resolvia na bala. [1, 2, 3, 4]
Depois dos militares, veio a calmaria dos políticos civis. Entramos no esquema do café-com-leite entre paulistas e mineiros. A rotina dos eleitos era sempre a mesma: [1, 2]
  • Ganhavam a eleição em março com fraudes descaradas.
  • Pegavam um navio rumo à Europa antes de assumir.
  • Imploravam novos empréstimos para os banqueiros de Londres. [1, 2]
O povo assistia a tudo chocado, enquanto o exército massacrava revoltas provinciais. No sertão da Bahia, em Canudos, destruíram tudo até o último reduto. Um jornalista escreveu um livro enorme criticando a burrice dos milicos contra os sertanejos. Nessa Velha República, as eleições eram totalmente de fachada. O voto "a bico de pena" não valia nada. Quem mandava de verdade era a comissão de verificação que escolhia quem ia vencer. [1, 2, 3, 4, 5, 6]
Enquanto isso, os barões do café enchiam os bolsos com o ouro verde. Eles viajavam para Paris para torrar a dinheirama nos cabarés. Acendiam charutos com notas de 100 francos para ostentar com as francesas. Isso era a famosa "paulistada", que virou até verbete em dicionário francês. No fim das contas, eu devo tudo o que sou ao café. Mas por que a República virou meu maior desafio?. Isso eu conto nos próximos episódios!. [1, 2, 3, 4, 5, 6]


 

 

 

 

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