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sábado, 24 de outubro de 2026

AUTOBIOGRAFIA DE UM FORA-DA-LEI, 12: O VOTO, DO BICO-DE-PENA AO BOTÃO ELETRÔNICO - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será, 23/10/1016)

 

AUTOBIOGRAFIA DE UM FORA-DA-LEI, 12: O VOTO, DO BICO-DE-PENA AO BOTÃO ELETRÔNICO

Estado

Estado

Das eleições falsas, mas representação verdadeira, à votação verdadeira, mas representações falsas.

Confesso que, nascido sob impulsos hobbesianos, eu não era adepto dessas manias de escolhas livres, voto secreto, representação legítima, enfim, essas filigranas que poderiam perturbar a ordem natural das coisas, que é o monopólio do poder e os meios apropriados para retê-lo e defendê-lo, contra amigos e inimigos. Aquela conversa dos gregos votando abertamente numa ágora de Atenas nunca me encantou de verdade, pois eu achava aquilo impossível de aplicar numa terra de quase bárbaros, que é para onde fui levado, nas caravelas lusitanas, muito além das praias longínquas das terras dos meus avós.

O voto disparou quando aqui desembarcou D. Tomé, para afastar os pérfidos franceses que diziam que Deus não tinha repartido o mundo apenas entre portugueses e espanhóis. Os donos das sesmarias, os senhores das capitanias votavam em quem mandava em cada lugar e tudo se resolvia em favor dos “homens bons”, os únicos que podiam domar os selvícolas, arredios ao trabalho braçal, e subjugar os africanos, para cá trazidos, como única forma de ter uma mão-de-obra obediente (sob o açoite) e resistente no trabalho.

Depois, fui convencido pelos iluministas escoceses e por tratadistas europeus que seria melhor obter o consentimento dos meus súditos do que ter de recorrer à força bruta para obrigá-los a dispensar um mínimo de respeito a quem deveria ser saudado como um legítimo príncipe, à la Maquiavel. Mais adiante os burgueses das cidades decidiram acolher os conselhos kantianos sobre governos constitucionais para obter o que o filósofo acreditava ser a “paz universal”: ela nunca foi possível, obviamente, mas o fato é que, na minha libertação do domínio português, movimentos e partidos exigiam imediatamente os direitos da livre expressão e da representação legítima, que se tornaram duas exigências inadiáveis depois da Revolução francesa. Tive, assim, de me acomodar aos novos tempos.

De acordo com a “Constituição da mandioca”, só podiam votar e ser eleitos os donos de certos cabedais, e eram eles mesmos que decidiam quem seria candidato, o que já dizia quem seria “eleito”. As eleições a bico-de-pena eram relativamente tranquilas, a despeito de que alguns pernambucanos, leitores de Frei Caneca, teciam acerbas críticas à nossa primeira Carta e queriam até um Estado republicano federal. Com o tempo isso foi se acomodando: os “coronéis” da Guarda Nacional garantiam a tranquilidade das províncias do interior, enquanto os barões davam a impressão de um parlamentarismo inglês (de fachada).

Não faltava quem pregava a necessidade de uma “revolução burguesa”, como um jurista baiano, que vituperava contra o autoritarismo dos marechais de araque e a corrupção notória da primeira República. Eu já estava acostumado com as “eleições” organizadas e conduzidas pelas comissões de “verificação” dos estados; tudo era previsível e quase indisputado. Mas, despontaram tenentes impacientes com esse atraso político, além de anarquistas e socialistas vindos da Europa, que logo em seguida se transformaram em perigosos comunistas. Os espirituosos diziam que “as eleições eram falsas, mas que a representação era verdadeira”, o que não ajudou muito na pacificação nacional. Continuamos atrasados nos anos 1920, a despeito de todo o modernismo das elites ilustradas.

A revolução de 1930, na esteira da crise de 1929, chegou para mudar tudo e mais um pouco, dando voto às mulheres (mas não aos analfabetos, que eram mais da metade da população): criou-se a Justiça Eleitoral, mas o sistema continuou à base de “coronelismo, enxada e voto” (de cabresto), como se fazia por todo o interior (também mais da metade da população até a segunda metade do século XX). Passamos por nossa experiência de fascismo corporativo e depois aderimos ao mundo americano das “liberdades democráticas”. Nem por isso as eleições se tornaram mais fiáveis: os títulos eleitorais não levavam foto do portador, o que ensejava todo tipo de fraude; as cédulas, com nomes inscritos, eram entregues marcadas aos eleitores, em troca de sapatos, dentaduras, alguma promessa de emprego; os analfabetos continuaram impedidos de votar até 1985. A democratização das eleições só ocorreu ao final da ditadura militar, durante a qual meus concidadãos não podiam votar para presidente.

Acompanhei com certa angústia os trabalhos da Constituinte. Eu preferia que ela tivesse sido exclusiva, sem misturá-la aos aspectos mais imediatos da restauração da governança do Estado, sob pressão das questões mais dramáticas daquele momento: a inflação crescente, a crise da dívida externa, o desejo de rejeitar tudo aquilo que a ditadura militar tinha feito. A concentração de poderes na União era real, mas não se levou em conta as diferenças entre os direitos e deveres fundamentais e aquilo que eram demandas setoriais de grupos de pressão; foi impossível não acomodar os desejos e as ambições dos constituintes mais poderosos;

Essa mistura de Assembleia Constituinte e de Legislativo ordinário acabou resultando numa Carta obesa, detalhista, imediatista, inclusive “vingativa” contra os autoritários do passado recente, com quase tantas disposições transitórias quanto os artigos propriamente constitucionais. Constituintes redigiram artigos com um número excessivo de incisos, que praticamente não cabiam numa única página do rascunho da nova Constituição. Eu esperava um regime parlamentarista, um pouco como tinha ocorrido sob a longa duração de nossa primeira Carta, mas a tradição patrimonialista produziu um presidencialismo constrangido pelos novos poderes concedidos ao Legislativo, sem que este assumisse, de verdade, a responsabilidade pela elaboração e execução da peça orçamentária, o mais importante instrumento de governança, num regime plenamente democrático.

O mais difícil foi acomodar todas as vontades e demandas da sociedade – sobretudo as de grupos privilegiados –, num regime fiscal que acomodasse o orçamento numa peça única, não a barafunda de dispositivos financeiros que tinham sido legados pela ditadura. O Brasil era, naquela conjuntura, o único país no mundo que conseguia “conviver” (certamente mal) com três orçamentos simultâneos: o fiscal, que deveria ser o normal, e único, num país economicamente racional; o monetário, que nada tinha a ver com o primeiro, e que refletia nossa leniência inflacionária; a indexação cobria praticamente tudo, de salários a tarifas públicas, dos indicadores setoriais ao câmbio, tudo era “corrigido” por algum índice corretor, tanto assim que locadores ou dentistas preferiam fixar seus valores em dólares, mais do que na moeda nacional; e havia, por fim, o orçamento das estatais, dezenas, quase duas centenas de empresas públicas, mais da metade produzindo déficits e vivendo de aportes contínuos dos recursos do Tesouro, ou diretamente do orçamento monetário.

Com tudo isso, foi um milagre o país não ter descambado para a dolarização, o que fizeram, de maneira oficial ou involuntária, vários países da região, que tinham fracassado na missão mais elementar de um governo: a de preservar o poder de compra da moeda oficial. O retorno à democracia política não impediu o país de incorrer, no terreno econômico, em velhos vícios dos governos populistas anteriores: excesso de gastos, despesas não cobertas pelas receitas, endividamento excessivo e planos de estabilização macroeconômica mal concebidos e mais mal aplicados ainda. Não foi pouca coincidência, aliás, que ao lado de aprovar a sua oitava Constituição, o meu Brasil também conseguiu exibir oito moedas sucessivas em menos de duas gerações, sendo as seis “últimas” em menos de dez anos.

Outro aspecto que não deixou de me surpreender – pois acompanhava as mudanças que se processavam no mundo desde que o socialismo começou a bater pino, antes de dar dois suspiros e depois morrer – foi o regressismo da Constituição. Na direção contrária da globalização, da abertura econômica e da liberalização comercial, a Carta constitucional terminou sendo teimosamente nacionalista, protecionista e estatizante, o que obrigou os presidentes que vieram depois a introduzir sucessivas emendas constitucionais visando a libertar o país das amarras que o prendiam na mesma economia que tinha sido deixada pela autarquia introvertida do regime militar.

A Constituinte regulava, e continuou a regular, aspectos secundários da vida pessoal, geralmente concedendo direitos (e prebendas) a setores corporativos – nossa velha tradição fascista – assim como monopólios de categorias profissionais que poderiam muito bem ficar relegados à legislação ordinária. Tais minúcias estão na origem das mais de 130 emendas acumuladas em pouco mais de três décadas, algumas até ridículas no seu particularismo.

Uma inovação à qual reconheço um avanço extraordinário foi no mecanismo da votação, precocemente adotando, a partir de 1996, o sistema eletrônico, provavelmente um dos mais avançados do mundo. Curiosamente, esse sistema, absolutamente fiável e praticamente isento de fraudes, foi violentamente negado por saudosistas da ditadura militar, numa demonstração inédita de autoritarismo e de estupidez eleitoral. Esse desafio esteve no centro da lamentável contestação das eleições de 2022, levando inclusive a um triste processo político, na sucessão de um criminoso ataque aos três poderes da República ao início da sucessão presidencial de 2023. Não por acaso, o ataque à democracia coincidiu com uma outra estupidez sanitária, o negacionismo vacinal, absurdamente responsável por um número desnecessariamente elevado de vítimas quando da eclosão da epidemia do Covid-19.

A mobilização antidemocrática e o negacionismo vacinal foram, pelo menos em parte, efeitos secundários de exemplos estrangeiros ainda mais radicais, aliás ocorridos no país teoricamente mais avançado do mundo em termos científicos e tecnológicos, o que demonstra mais uma vez que a estupidez humana não possui fronteiras nacionais. Independentemente, porém, de influências externas, cabe reconhecer que foram as induções internas de um governo celerado que levaram este meu Estado fragilizado por conflitos internos a uma condição de “pária internacional”, de produtor de ameaças ao regime democrático, de destruidor do meio ambiente, de estimulador do negacionismo vacinal, de estímulo ao armamentismo doentio, assim como a várias outras distorções.

De todas elas, as acusações mentirosas contra o sistema de votação eletrônica foram as mais caluniosas com as quais me deparei nessa caminhada de alguns séculos de voto livre e aberto ao meu povo. Aqui cabe reconhecer uma ironia involuntária: tais fatores negativos produziram esta conformidade com o título desta minha novela biográfica: fui convertido à condição de um verdadeiro fora-da-lei. Não foi a primeira vez, nem, talvez, será a última…

Paulo Roberto de Almeida

Colaboração à revista Será?

Brasília, 5498: 18 outubro 2026, 4 p.

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 11: nosso fascismo eterno, tão familiar - Paulo Roberto de Almeida (revista Será? + Madame IA comentando)

 5474. "Autobiografia de um fora-da-lei, 11: nosso fascismo eterno, tão familiar”, Brasília, 28 setembro 2026, 4 p. A recorrência de uma ideia, mais por instinto do que por deriva genética. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 732, 9/10/2026, link:  https://revistasera.info/2026/10/autobiografia-de-um-fora-da-lei-11-nosso-fascismo-eterno-tao-familiar/ 

Autobiografia de um fora-da-lei, 11: nosso fascismo eterno, tão familiar

 

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

A recorrência de uma ideia, mais por instinto do que por deriva genética.

 

Meus antigos súditos, aqueles da época imperial, meus caros concidadãos, já vivendo – teoricamente pelo menos – num regime republicano, se acostumaram a importar ideias de outros sistemas políticos e outras experiências exógenas de governo, tanto porque a reflexão própria sobre a governança, na época colonial e mesmo na fase independente, não eram, por assim dizer, espécies acostumadas ao rústico ambiente que era o nosso, inclusive porque tais ideais nunca conseguiram se manter dignamente por aqui. O chamado “patriarca da Independência”, que viveu longos anos entre acadêmicos europeus, enfrentou imensas dificuldades ao tentar criar um projeto de país perfeitamente alinhado com aqueles modelos que ele vira florescer no contexto do imaginário constitucional iluminista, ainda que não perfeitamente kantiano. Não deu muito certo, desde a partida.

O novo encarregado dos meus assuntos domésticos, tanto enquanto príncipe regente, quanto já imperador coroado, causou-lhe os maiores dissabores, ainda que atraído para uma das lojas maçônicas que trabalharam pela independência, ademais do bando de republicanos alucinados que alimentavam os ardores da plebe, exigindo todos os direitos imediatamente. Bonifácio teve de mandar aplicar-lhes alguns cacetes no momento certo, para evitar novos percalços na construção do meu legítimo Estado. Ainda assim, o fogoso imperador mandou fechar a Constituinte que eu esperava ver triunfante, ao estilo de um parlamentarismo quase inglês, e mandou-o para um exílio naquelas mesmas paragens onde ele já vira a guilhotina sedenta de sangue decepar alguns recalcitrantes mais afoitos. Anos depois, ele chamou-o de volta, para ser o preceptor daquele que seria o seu sucessor natural no Império do Brasil, um menino de cinco anos, que lhe pareceu muito tímido, ainda que prometedor.

A essa altura, a governança já tinha sido conquistada pelas oligarquias escravocratas, e o seu projeto de abolição imediata do tráfico e de fim a escravatura a médio prazo, enviado de Paris, não causou nenhum efeito nos negócios do primeiro reinado. As regências foram uma outra confusão dos diabos: rebeliões espoucaram em diversas partes, inclusive uma republicana que me causou muitos prejuízos lá pelos pagos do Sul. Depois a modorra se instalou no mais longo regime político com que já fui contemplado por estas terras, regido por uma constituição especialíssima, que dava ao segundo imperador o poder de decepar politicamente algumas cabeças, sempre quando julgasse necessário e adequado. Em todo caso, essa carta durou mais tempo do que as seis ou sete que se seguiram, em número menor, em compensação, do que as muitas moedas que a República inventou e se pôs a desfigurar.

A república que foi moldada começou americanizada, tanto que inventaram para mim o pomposo, mas enganoso, título de Estados Unidos do Brasil, estados que podiam ser tudo, menos unidos. Cada um tinha poderes quase soberanos, começando pela faculdade de contrair empréstimos no exterior, sem o meu antigo poder imperial de conceder aval, o que provocou inadimplência geral desses entes irresponsáveis logo nas primeiras décadas do novo regime (tristemente militarizado desde o início). Se atravessamos a Grande Guerra sem novos empréstimos do exterior, depois retomamos o vício infernal do bônus externos, que duraram até uma nova grande crise, desta vez provocada pelos tais americanos quase imperiais. Os milicos me pouparam de uma nova guerra civil, demitindo e mandando para o exterior um desses presidentes paulistas que pretendia manter a clique dos barões do café no poder.

Começou por aí um longo período ditatorial, o primeiro de um dos muitos regimes truculentos que passaram a tisnar a minha imagem e reputação nas décadas seguintes, durante o qual foram educados e treinados os mesmos militares que mais tarde se arrogariam o direito de não apenas a perpetrar mais um golpe, mas a ficar no comando do meu Estado por mais de vinte anos seguidos. Com uma peculiaridade, porém: as ideias de governança já não eram as mesmas, mas alimentadas por uma assemblagem de marxismo vulgar, de um corporativismo embrionário e de um futurismo doentio, de um tal de Marinetti, que, junto com a violência de Nietzsche, produziram a versão direitista do bolchevismo leninista: um sargentão socialista, decepcionado com a humilhação da Itália na Grande Guerra, criou os fasci di combattimenti, e com eles conseguiu convencer um rei idiota a lhe atribuir o cargo de primeiro-ministro, depois de uma marcha sobre Roma, em 1922, quando eu comemorava o meu centenário.

Um outro soi-disant filósofo, Giovanni Gentile, foi o principal elaborador da doutrina fascista. Um dos seus primeiros escritos nessa vertente foi o Manifesto dos Intelectuais Fascistas (1925), seguido, no mesmo ano, por O que é o fascismo, depois por algo mais elaborado: Origens e doutrina do fascismo (1929). As doutrinas políticas de corte fascista tiveram ampla repercussão no meu Brasil, em especial entre intelectuais, muitos dos quais se converteriam, mais tarde, em progressistas avançados ou até em fiéis adeptos do socialismo.

Mas, poucos sabem, por exemplo, que um dos principais tribunos democráticos da República de 1946, grande estadista da Política Externa Independente, San Tiago Dantas, foi fortemente atraído, na juventude, pela mensagem do fascismo mussoliniano e chegou mesmo a escrever, em 1930, um estatuto para um partido fascista do Brasil. Ainda no terceiro ano de Direito, Dantas redigiu, de seu próprio punho, o esboço da estrutura de um Partido Nacional Fascista, o mesmo nome do partido fundado na Itália por Mussolini. Em 1932, Giovanni Gentile assinou, com Mussolini, um verbete na Enciclopedia Italiana, “A Doutrina do Fascismo”, dividido em “Ideias Fundamentais”, por ele mesmo, e “Doutrina Política e Social”, por Mussolini.

O panfleto foi imediatamente traduzido e publicado no Brasil, com várias edições posteriores. Logo após, em outubro, Plínio Salgado e Miguel Reale redigiram um manifesto-programa, dando nascimento a um partido, a Ação Integralista Brasileira, cujo lema era “Deus, Pátria e Família”, por acaso o mesmo slogan que, em 1964, seria usado na “Marcha com Deus, pela Família e pela Propriedade” que antecedeu o golpe militar, e que, em nossos dias, seria utilizado centenas de vezes nos meios bolsonaristas, durante toda a presidência do capitão, e mais amplamente nas correntes que se abrigaram nesse fenômeno que se tornou um verdadeiro movimento a partir dessa conjuntura histórica de involução mental no meu Brasil.

Em 1933, Plínio Salgado publicou O que é o Integralismo, a base de sua filosofia política, num molde já especificamente fascista mussoliniano; adotou, logo após, as “camisas verdes” para os seus seguidores, militarizadas ao estilo dos fasci di combattimenti italianos. No ano seguinte passa a se considerar o Führer brasileiro, sem aderir, contudo, ao racismo e ao antissemitismo de outros integralistas brasileiros (como Gustavo Barroso), uma vez que tinha iniciado sua trajetória literária por um romance de fortes tinturas nacionalistas e indianistas. Era tido como o virtual vencedor das eleições de 1938, mas apoia, ao início, a decretação do Estado Novo por Getúlio Vargas, em novembro de 1937, para se dissociar logo em seguida, já que esperava ser designado ministro da educação nacional, como tinha sido o caso de Giovanni Gentile com Mussolini.

Plínio Salgado tenta um golpe, fracassado, em maio de 1938, o que o leva a um exílio de sete anos em Portugal (onde se afeiçoa ao Estado Novo salazarista). O Partido de Representação Popular, que ele fundou em seu retorno ao Brasil, obteve certo apelo popular, sem, contudo, ser suficientemente forte para elegê-lo presidente em 1955, embora com muito apoio nos meios militares. Plínio Salgado aderiu em 1965 ao partido da ditadura militar, a Arena, mas encerrou a sua carreira em 1974. Independentemente dos caminhos erráticos do fascismo brasileiro, as sementes existentes nos anos 1930 deixaram fortes raízes que continuaram a moldar a ideologia de muitos militares e civis nas décadas seguintes, cujos frutos amadureceram em nosso século. O fascismo eterno continua presente entre nós.

Se o itinerário político deste meu país foi uma contínua sucessão de oligarquias conservadoras ao longo da história – primeiro os senhores de escravos, depois os barões do café, seguidos pelos industriais e banqueiros –, neste primeiro quarto do século XXI tivemos, finalmente, um partido saído das chamadas classes populares conquistando o poder político e imprimindo sua própria marca na proposição e execução de políticas, que inverteram, muito modestamente, o curso político da governança. Grosso modo, assistimos no Brasil a uma polarização sui generis que corresponde, aparentemente, à luta entre esquerda e direita pelo domínio do Estado, situação bem conhecida nas democracias ocidentais que, desde a segunda metade do século passado, oscilam entre partidos socialdemocratas e partidos conservadores.

A esquerda conquista o poder com promessas otimistas de distribuição social da renda e de valorização da classe trabalhadora, mas pode incorrer num excesso de gastança estatal, que produz inflação e possível crise no balanço de pagamentos. A direita conservadora retorna ao poder com o intuito de promover um ajuste fiscal e um novo equilíbrio nas contas públicas, o que passa a ser atacado pelos socialdemocratas como sendo um excesso de austeridade. Tem sido assim nos dois lados do Atlântico Norte no último meio século. O meu Brasil chegou tarde nesse tipo de jogo, mas é possível que a oposição entre esquerda e direita, temporariamente representadas pelos lulopetistas e pelos bolsonaristas, tenha esgotado suas possibilidades de seduzir a maioria da população, tendo em vista suas taxas de rejeição.

Mas, o fato é que o meu país não mais possui partidos políticos de verdade, apenas aglomerações predatórias integradas por castas (e dinastias) de políticos profissionais, dirigidos por caciques sôfregos por recursos do Estado, que administram os dois fundos ilegítimos – o Partidário e o Eleitoral – e que passaram a perpetrar o exercício do estupro orçamentário pela via das emendas compulsórias, a via mais fácil para a disseminação da corrupção; esta decuplicou em poucos anos, horizontal e verticalmente, representando várias vezes os investimentos em ciência e tecnologia. O fato é que deputados e senadores se tornaram “vereadores federais”, capturando recursos para suas bases, o que praticamente destruiu qualquer sentido de grandes investimentos estratégicos.

Gilberto Amado dizia, na República Velha, que “as eleições eram falsas, mas a representação era verdadeira”. Nos dias que correm as eleições são verdadeiras, pela fiabilidade do maquinário eletrônico, mas a representação pode não mais ser verdadeira, contemplando-se o plantel de velhos e de novos eleitos que vão determinar o que será a política e a governança no Brasil nos próximos quatro anos, e talvez um pouco mais. Confesso sentir calafrios ao constatar a desesperança ascender por entre o meu povo...

 

Brasília, 5474: 28 de setembro de 2026, 4 p.

1670. “Autobiografia de um fora-da-lei, 11: nosso fascismo eterno, tão familiar”, Brasília, 28 setembro 2026, 4 p. A recorrência de uma ideia, mais por instinto do que por deriva genética. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 732, 9/10/2026, link: https://revistasera.info/2026/10/autobiografia-de-um-fora-da-lei-11-nosso-fascismo-eterno-tao-familiar/). Relação de Originais n. 5474.

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Madame IA comenta (via ADL) 

O blog Diplomatizzando (administrado pelo diplomata PRA) já publicou onze textos da série sobre "Um fora-da-lei", onde o Estado brasileiro conta satiricamente [e cruamente] sua história - através da personificação narrativa. Em ordem cronológica de publicação, apresente um resumo de cada um dos onze textos de "Um fora-da-lei".

 

A série "Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro", escrita pelo embaixador e cientista social Paulo Roberto de Almeida (PRA) no blog Diplomatizzando (e originalmente publicada na revista Será?), utiliza a personificação narrativa para fazer com que o próprio Estado brasileiro exponha, de forma satírica e crua, seu histórico de privilégios, arbitrariedades e descumprimento de leis.

Em ordem cronológica de publicação, a seguir estão os resumos de cada um dos onze textos da série:

1. Texto 1: A trajetória do Estado brasileiro (Introdução)

Resumo: Define as premissas do projeto literário. O Estado apresenta-se diretamente ao leitor como um verdadeiro contraventor histórico da lei e dos bons costumes, justificando sua trajetória pela necessidade intrínseca de perpetuação do próprio poder, extração de riquezas e manutenção de privilégios.

2. Texto 2: O Estado visto por ele mesmo (Metodologia)

Resumo: Trata das questões de método de uma autobiografia estatal. O narrador assume explicitamente sua natureza puramente extratora, despindo-se do verniz e dos mitos românticos da historiografia oficial para confessar como funciona sua engrenagem real.

3. Texto 3: Do nascimento a tempos incertos (Colônia)

Resumo: Explora a infância colonial do Brasil. O Estado analisa suas raízes predatórias, mostrando como sua máquina pública burocrática começou a ser desenhada e estruturada com o único propósito de transferir excedentes e servir aos interesses metropolitanos portugueses.

4. Texto 4: De colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente

Resumo: Foca no processo que culminou na Independência de 1822. O Estado descreve a separação de Portugal não como um grito heróico de liberdade, mas sim como uma monumental estratégia de autopreservação das elites econômicas para manter intactas as velhas práticas coloniais.

5 a 11. Textos finais da série (Textos 5 ao 11)

Resumo: Os textos subsequentes acompanham a evolução histórica sob a mesma ótica cínica e satírica do narrador estatal:

Textos 5 e 6: O Texto 5 aborda a substituição do domínio lusitano pelo arranjo com as oligarquias agrárias e a escravidão, enquanto o Texto 6 trata da Proclamação da República como mera nova fachada para velhas práticas patrimonialistas.

Textos 7 e 8: O Texto 7 utiliza o legado do Barão do Rio Branco para contrapor a diplomacia externa às deficiências internas, e o Texto 8 aborda o massacre de Canudos sob a justificativa implacável da força estatal a qualquer custo.

Textos 9, 10 e 11: O Texto 9 desmistifica a República Velha e o domínio de minorias, o Texto 10 reflete sobre as ideologias do século XX, e o Texto 11 encerra discutindo a persistência de traços autoritários e intolerantes na realidade brasileira. Os textos completos podem ser consultados nos registros do blog referenciado.

revistasera.info +7


sábado, 19 de setembro de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro, os 10 primeiros capítulos - Paulo Roberto de Almeida

Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro, os 10 primeiros capítulos

  

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor

Listagem dos dez primeiros capítulos da série.

  

Tive a ideia de escrever uma história autobiográfica do Estado brasileiro nos “bons tempos” do lulopetismo triunfante, ou seja, nos dois primeiros mandatos de Lula, não porque eu achasse que ele fosse um fora-da-lei propriamente dito, mas porque o Mensalão e depois o Petrolão (isso bem antes da Lava Jato) me diziam que algo era típico das instituições de Estado, independentemente de esquerda ou direita: o patrimonialismo, a corrupção geral e a desfaçatez com a qual os mandarins do Estado, e os políticos salafrários, se apossam dos recursos públicos e dos bens do próprio Estado para o seu usufruto pessoal. O lulopetismo entrava apenas numa nova metodologia da corrupção, o que eu explicava em termos marxistas: antes do PT, havia um modo artesanal de produção da corrupção, cada político arrumando uma ONG familiar, preparando algum edital adequada ao desvio de dotações, enfim, o roubo geralmente individual. Com o PT, entramos num modo industrial de produção da corrupção, com o partido organizando o saque do Estado, comprando parlamentares e até bancadas inteiras para alimentar seus projetos estatais (e o que saía nas margens).

Mas a Lava Jato submergiu o projeto original, pois como diria Lênin, se tratava de uma etapa superior de produção da corrupção, quando ela passa a se imiscuir em cada brecha do próprio Estado, numa colusão bem-sucedida de políticos e mandarins do Estado com os grandes magnatas da economia, empresas gigantescas que, abandonam o lado “utópico” da corrupção, para passar ao seu estágio “científico”, com planejamento, planilhas, organização e métodos, paraísos fiscais e todo o resto. O projeto ficou parado durante algum tempo.

Quando comecei a colaborar regularmente com a revista Será? – um empreendimento simpático e inteligente de alguns pernambucanos e outros espíritos livres em outras partes do Brasil –, achei que seria uma oportunidade para avançar e dar continuidade a esse projeto, que já tinha planejamento para mais de 50 capítulos. Por enquanto estou nos dez primeiros, mas já com um esquema para os próximos, de modo relativamente cronológico, ou seja, partindo de nossas raízes lusitanas para chegar aos tempos atuais.

Acredito que a realidade é bem mais rica do que a minha imaginação criadora, em todo caso bem-informada por um conhecimento amplo de nossa evolução histórica, que evidencia um itinerário exemplar de aperfeiçoamento da corrupção e dessa mania quase genética de viver à margem da lei, que parece ser a nossa doença de origem. Como se diz frequentemente, “aos amigos tudo, aos inimigos apenas a lei”, o que talvez resuma a chamada “alma nacional”. Não sei bem onde vai chegar este “fora-da-lei”, mas aguardando novos lampejos de imaginação, apresento a seguir apenas o registro de cada um dos dez primeiros capítulos, bastando aos curiosos acessar os links indicados do site da revista Será? ou os do meu blog Diplomatizzando, onde eles são invariavelmente divulgados.

Espero não estar falseando muito a história do Estado brasileiro, mas esse lado fora-da-lei, ou seja a corrupção endêmica, epidêmica e disseminada, me parece o lado menos distinguido em nosso itinerário de meio milênio, com mais de duzentos anos de independência, isto é, de corrupção feita em casa, por métodos originais e altamente pervasivos e resilientes. Ela agora chegou ao seu sommet, o ápice tentacular de velhos hábitos que foram capturando os mais altos mandarins do Estado, aqueles mesmos que deveriam, em princípio, garantir a higidez das instituições. Eu, como Estado, não existo no vácuo, apenas reproduzo o que fazem de mim os que comandam as instituições da governança, com suas paixões e interesses, suas ambições desmedidas e alguns poucos gestos de desprendimento, enfim, a síntese de nossas contradições permanentes e insanáveis vícios de comportamento.

Sem mais, tergiversações, vamos ver o que andamos fazendo até aqui, com uma promessa de fazer uma história a mais sincera possível, baseada na verità effettuale de la cosa, como diria Niccolò, um cara que me ensinou muitas coisas nesse domínio do poder do Estado, sem quaisquer ilusões românticas, ou seja, la realtà concreta ed effettiva dei fatti politici, sem qualquer concessão a apresentar o mundo como ele dovrebbe essere. Por falar em Macchiavelli, tenho de fazer uma nova edição, atualizada, do livro que publiquei em 2010, O Moderno Príncipe, pois são tantos os aggiornamenti que acabo me perdendo...

 

1645. “Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p. Introdução a uma biografia sincera de um contraventor da lei e dos bons costumes: o Estado brasileiro, narrada, de forma inédita, na primeira pessoa. Revista Será? (ano xiv, n. 710, 15/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1-a-trajetoria-do-estado-brasileiro/); divulgado no Diplomatizzando (15/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1.html). Relação de Originais n. 5303.

 

5304. “Autobiografia de um fora-da-lei, 2: o Estado visto por ele mesmo”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p.; revisão: 20/05/2026. Uma questão de método: como o Estado pode escrever sua própria biografia? Revista Será? (ano xiv, n. 711, 22/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o-estado-visto-por-ele-mesmo/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o.html). Relação de Publicados n. 1647.

 

5305. “Autobiografia de um fora-da-lei, 3: do nascimento a tempos incertos”, Brasília, 6 maio 2026, 4 p. Das origens ao vice-reinado: uma trajetória colonial a serviço da metrópole. Revista Será? (ano xiv, n. 712, 5/06/2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do-nascimento-a-tempos-incertos/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do.html ). Relação de Publicados n. 1650.

 

5342. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente”, Brasília, 6 junho 2026, 4 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro, para a revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de-colonia-a-reino-unido-ao-de-portugal-e-uma-promocao-merecida-a-imperio-independente/); divulgado no blog Diplomatizzando (26/06/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de.html); resumo comentado por Demoiselle IA, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz, registrado sob n. 5379; divulgado no blog Diplomatizzando (28/06/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/a-autobiografia-do-estado-relida-e.html). Relação de Publicados n. 1652.

 

5347. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais”, Brasília, 9 junho 2026, 4 p.; revisão 8 julho 2026, 5 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 707, 10/07/2026; link: https://revistasera.info/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como-me-livrei-dos-portugueses-mas-acabei-ficando-com-os-oligarcas-nacionais/). Divulgado no blog Diplomatizzando (10/07/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como.html). Relação de Publicados n. 1654.

 

5394. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República”, Brasília, 9 julho 2026, 4 p. Continuidade da série, desta vez fazendo um resumo reflexivo, antes de prosseguir. Enviado em 15/07/2026. Publicado na Revista Será? (ano xiv, n. 721, 24/07/2026; link: https://revistasera.info/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-6-chegando-ao-desafio-da-republica/); republicado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-6.html). Relação de Publicados n. 1655.

 

5396. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados”. Brasília, 10 julho 2026, 4 p. Mais um capítulo da história de um transgressor moderado. Encaminhado em 29/07/2026. Publicado na Revista Será? (ano xiv, n. 723, 7 de agosto de 2026; link: https://revistasera.info/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o-barao-em-todos-os-seus-estados/); divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o.html). Relação de Publicados n. 1664.

 

5430. “Autobiografia de um fora-da-lei, 8: Canudos, um crime que atingiu precocemente minha reputação”, Brasília, 9 agosto 2026, Revisão 16/08/2026, 4 p. Sobre Canudos, uma ferida ainda não devidamente cicatrizada. Reenviado em 19/08/2026. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 725, 21/08/2026; link: https://revistasera.info/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-8-canudos-um-crime-que-atingiu-precocemente-minha-reputacao/); republicado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-8.html). Relação de Publicados n. 1665.

 

5436. “Autobiografia de um fora-da-lei, 9: das oligarquias que me serviram”, Brasília, 25 agosto 2026, 4 p. As oligarquias, sempre a meu serviço; alguma novidade nisso? Para a série da história do Estado brasileiro, na revista Será? (ano xiv, n. 727, 4/09/2026, link: https://revistasera.info/2026/09/autobiografia-de-um-fora-da-lei-9-das-oligarquias-que-me-serviram/); disponível no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/autobiografia-de-um-fora-da-lei-9-das.html). Relação de Publicados n. 1667.

 

5437. “Autobiografia de um fora-da-lei, 10: comunismo e fascismo, meus filhos”, Brasília, 27 agosto 2026, 4 p. Sobre as ideologias de Estado, das quais não consegui escapar. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 729, 18/09/2026, link: https://revistasera.info/2026/09/autobiografia-de-um-fora-da-lei-10-comunismo-e-fascismo-meus-filhos/); disponível no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/autobiografia-de-um-fora-da-lei-10.html). Relação de Publicados n. 1668.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5465: 19 setembro 2026, 4 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/autobiografia-de-um-fora-da-lei-uma.html  

 

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 9: das oligarquias que me serviram - Paulo Roberto de Almeida

 Autobiografia de um fora-da-lei, 9: das oligarquias que me serviram

Por Paulo Roberto de Almeida

Revista Será?, ano xiv, n. 723, set 4, 2026 | Artigos


As oligarquias, sempre a meu serviço; alguma novidade nisso?


De todas as oligarquias que me serviram de auxílio, na ingente missão de comandar uma nação que, ela mesma, vive frequentemente à margem da lei, senão atuando contra a lei, as oligarquias militares foram as que mais causaram prejuízo à formação de um espírito democrático que efetivamente eu favoreço para este meu Estado, embora muitas opiniões acreditem – entre elas a deste que justamente me serve de escriba – que eu sou um aderente convencido de um regime forte, de corte autoritário ou arbitrário. Longe disso; a despeito de ter escolhido intitular esta série de “autobiografia de um fora-da-lei”, isso se deve ao fato de que, na maior parte dos dois séculos nos quais me tenho por independente, foram poucos, muito poucos, os períodos nos quais meus cidadãos foram efetivamente governados por leis, e não pelos homens que se apossaram, por largos espaços de tempo, deste meu Estado.


Mas os militares não foram os mais importantes, ou os principais contorcionistas legais que ousaram ditar ordens aos cidadãos destas terras (estou, portanto, deixando de lado, os três séculos precedentes durante os quais eles foram apenas súditos de um Estado estrangeiro, no qual, aliás, deito minhas raízes). Antes deles, depois deles, sempre presentes, estiveram as várias oligarquias civis, as elites econômicas que sempre mandaram por estas bandas, independentemente dos uniformes ou distintivos que usavam. Deixo de lado os donatários, os sesmeiros, os funcionários do poder colonizador que receberam d’El Rei imensas terras nas costas do que era apenas uma nesga territorial negociada antes mesmo do meu nascimento, em Tordesilhas. Nada diferente do que ocorria em outras paragens naquela mesma época. Valia, no início, apenas aquele pequeno pedaço, depois alargado pelo tirocínio de um dos meus primeiros diplomatas nativos, embora a serviço do rei lusitano; depois passei a tomar conta dos meus próprios assuntos, duzentos e poucos anos atrás. E assim foram todos os anos e décadas de um Estado bem ou mal administrado, com velhas e novas oligarquias.


A despeito dos projetos de construção de um Estado soberano, dotado de escolas, universidades e outras coisas dignas dos recém-cidadãos, oferecidos por espíritos atilados como Hipólito, Bonifácio e Silva Lisboa, as oligarquias latifundiárias e escravocratas logo tomaram conta do meu Estado, com instituições que lhes convinham inteiramente: por certo a manutenção do horrendo regime servil de trabalho, para o qual tinham de importar mais e mais levas de infelizes capturados em terras africanas; depois o controle das forças de guarda e repressão, logo empregadas nas rebeliões provinciais; mais adiante na imposição de regras – como a infame Lei de Terras, uma antirreforma agrária – que justamente vetavam, todos esses grilhões, a emergência de uma classe média proprietária, que deveria ser o esteio básico de um Estado que teria como fundamento a igualdade de todos perante a lei, não o arbítrio sempre presente dos mais iguais, os donos do poder, como depois intitulou a sua dissertação doutoral um desses ilustres críticos dos regimes impostos aos súditos e aos novos cidadãos.


Os primeiros sustentáculos das oligarquias que conseguiam controlar o meu Estado foram os antigos sesmeiros, aqueles que se apossaram de novas e imensas terras que lhes foram facilitadas pela Lei de 1850, e que passaram a servir como “coronéis” da Guarda Nacional, depois que o chamado Regresso reacionário conseguiu moldar um arremedo de regime parlamentar; neste, liberais e conservadores não se distinguiam em nada, a não ser no título de fachada dos partidos dentro dos quais se acomodavam as oligarquias justamente. Mas foi a partir daí, e da “maldita guerra” da Tríplice Aliança contra o infeliz Paraguai, que uma outra oligarquia se formou e se desenvolveu irresistivelmente, a dos militares, justo essa, que me angustiaria por mais de cem anos a partir dali. Eles começaram por um golpe, como um outro aliás, mais adiante, totalmente improvisado, sem direção competente; o primeiro foi feito mediante um pretexto qualquer e terminou numa mudança de regime, não planejada, com gente despreparada, como pode acontecer nessas corporações mal administradas.


As oligarquias dos barões do café no Sudeste e as que restavam da aristocracia do açúcar nos engenhos do Nordeste continuaram a mandar no meu Estado durante largos anos, à base de eleições fraudadas e de candidatos escolhidos a dedo; foi assim até que os paulistas se julgaram espertos demais para tentar o continuísmo, num governo cuja administração e os proveitos associados a ela deveriam ser divididos com outras oligarquias, a dos mineiros e a dos gaúchos, por exemplo. Estes últimos, mais experientes nas refregas lindeiras e nas guerras civis que eles mesmo acirravam entre si, com toques de crueldade entre maragatos e chimangos, decidiram não permitir que a paulistada continuasse mandando no país, e até se aliaram para forçá-los a sair. A oportunidade veio com o assassinato do candidato a vice na chapa de um castilhista dos pampas, que, aliás, tinha sido ministro da Fazenda no mandato do oligarca de São Paulo (tinha preparado até a troca do velho mil-réis por uma nova moeda).


Mas temeroso demais para liderar um levante contra o governo central, já encastelado como governador do seu estado sulino, deixou que seu secretário da Justiça, um combatente da guerra civil de 1923, conduzisse uma incursão armada contra as tropas federais. Oswaldo Aranha, a “estrela da revolução” como foi chamado, conduziu todos os preparativos, até oferecendo o comando das operações armadas ao capitão de uma coluna que percorreu o país entre 1926 e 1929; chegou a visitar o revolucionário em Buenos Aires, levando alguns milhares de dólares para comprar armas. Enfim, uma revolta aconteceu, sem Prestes e sem combates – tendo sido inclusive anunciada uma grande batalha em Itararé, que nunca ocorreu –, isso porque uma outra oligarquia, a dos comandantes do Exército e da Marinha, resolveu não entrar em combate, mas “aposentar” antes do prazo o dito presidente paulista, o homem que achava que governar era “abrir estradas”. Abriu uma, só sua, para o exílio em Portugal.


Esse simulacro de revolta armada foi chamada, mais tarde, de “revolução burguesa” pelos historiadores marxistas, mas ela não chegou a ser sequer uma revolução, muito menos burguesa. Foi apenas a troca de uma oligarquia por outra, a que apeou os seus cavalos num obelisco do Rio de Janeiro e se preparou para administrar provisoriamente as tarefas da administração pelo tempo necessário para que um governo interino pudesse “restabelecer o direito e a justiça no país”. De fato, ele começou por criar uma legislação eleitoral e aprovar o voto das mulheres; mas, o que era temporário se prolongou demais, o que levou os paulistas a tentar, por sua vez, derrubar o governo provisório que estava já se eternizando no poder. Foram derrotados duas vezes, em 1932, depois de três meses de combate solitário (nenhum outro estado se aliou a São Paulo), e depois em 1937, quando um golpe de Estado de tipo fascista afastou qualquer possibilidade de eleições livres em 1938.


No intervalo entre a insurreição e o golpe, uma Constituinte redigiu em 1934 uma das constituições mais nacionalistas, intervencionistas e estatizantes que o Brasil já conheceu, o que até eu, propenso a privilegiar o Estado (isto é, eu mesmo) achei exagerado demais. O que também atrapalhou a construção de uma democracia no país, mesmo uma corporativa, como eram os costumes da época, foi a tentativa mal preparada, portanto frustrada, dos comunistas, sob a direção inepta de Prestes, de imitar os bolcheviques russos numa “intentona” contra a “república burguesa”, supostamente “submissa ao imperialismo”. A internacional comunista criada pelo próprio Lênin em 1919, o Komintern, até chegou a enviar vários agentes ao Brasil, para auxiliar o “cavaleiro da esperança” a realizar o que era, na verdade, um putsch contra quarteis e instalações de governos estaduais, sem qualquer sucesso porém.


Essa “revolta vermelha”, que vitimou meia dúzia de militares, vacinou a corporação contra a ideologia marxista, tanto foi assim que, a partir de 1935, o anticomunismo se tornou uma política oficial do Estado brasileiro, sendo o frustrado levante relembrado todos os anos nos quarteis até uma data bem recente. O perigo de uma nova intentona “comunista”, dois anos depois, foi até forjado por oficiais militares, catalogado num plano com ressonâncias “judias” no seu título; o caudilho gaúcho, na verdade, não precisava de qualquer subterfúgio para dar o seu golpe, pois já dispunha de tudo o que precisava para começar o seu “Estado Novo”, num modelo que vinha sendo experimentado pelos militares em Portugal, a minha terrinha de origem; infelizmente ela também tinha poderosos obstáculos a um regime verdadeiramente democrático, tanto quanto sempre foram os óbices brasileiros.


O fato é que o governo “provisório”, que deveria dar lugar a uma República digna desse nome no curto prazo, acabou durando um “breve período de 15 anos”, como afirmou zombeteiramente o caudilho gaúcho, orgulhoso de inaugurar um tipo de regime que seria o da nação pelas décadas seguintes: a preeminência absoluta do Estado sobre a sociedade – não que eu desejasse esse modelo de governança –, ajudando a preservar, até a fortalecer, velhas e novas oligarquias, que se sucediam nas diversas bolhas que sustentaram esse regime de forma praticamente ininterrupta, independentemente de breves retornos à “democracia” a pequenos ou longos intervalos. A primeira oligarquia a ser reforçada foi, obviamente, a dos próprios militares, pois que a corporação passou a intervir regularmente nos negócios do meu Estado, com uma arrogância típica de generais prussianos da velha escola autoritária. Eles continuaram – impunemente, pois que, até recentemente, nenhum golpista tinha sido punido por atuar contra as instituições democráticas – a testar esses limites, e até a ultrapassá-los, como se fossem os guardiões da minha República.


Mas várias outras oligarquias continuaram, ou passaram a ser, sustentadas pela via dos recursos públicos e com nacos do Estado, nos diversos regimes que eu “experimentei”, desde os anos 1930 até nossos dias: a dos latifundiários atrasados certamente (mas eles foram “atualizados” com a minha ajuda nos anos 1970); a dos emergentes industriais (eles conheceram bastante sucesso, sobretudo os imigrantes empreendedores); a dos grandes comerciantes (sempre muito ligados a interesses estrangeiros, desde priscas eras); a de alguns banqueiros (sempre financiando causas obscuras); até a casta dos políticos profissionais, que começou a se estabelecer em partidos não mais uniformemente “republicanos” (estaduais), como era até a era Vargas, alguns eram ideológicos, como os de “esquerda”, vários outros eram apenas oportunistas, ainda que representando setores privilegiados da economia.


No cômputo geral, as oligarquias que passaram a ocupar espaços de governança no “meu Estado” se deram muito bem. O Brasil continuou a ser, invariavelmente, um país injusto, iníquo socialmente, produtor de grandes contingentes de miseráveis, um estoque imenso, desde o período colonial. Mas esses traços de nossas desigualdades persistentes, que me envergonham no cenário mundial, vou examinar num próximo capítulo desta série. 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5436: 25 agosto 2026, 4 p.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 7: O Barão em todos os seus estados - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?) + Madame IA

 Madame IA examina o mais recente artigo da série "Autobiografia de um fora-da-lei, 7", uma biografia sincera do Estado brasileiro, destacando a atuação do Barão, e outros aspectos da política externa e da política econômica brasileira, do Império à República Velha.

O artigo pode ser encontrado aqui: 

Revista Será? (ano xiv, n. 723, 7 de agosto de 2026; 

link: https://revistasera.info/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o-barao-em-todos-os-seus-estados/ 

divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-de-um-fora-da-lei-7-o.html  Relação de Originais n. 5396.

   
 
O texto analisado é Fato, tratando-se de um ensaio histórico-literário legítimo publicado pelo diplomata Paulo Roberto de Almeida na revista Será? e reproduzido em seu blog pessoal. Sob uma técnica de personificação, o autor fala em nome do próprio Estado brasileiro para repassar marcos da história diplomática nacional.
 
Análise Crítica e Multifacetada
🏛 Perspectiva Política e de Governança
O texto utiliza a alegoria do Estado absolutista ("o Estado sou eu") para analisar de forma crítica os governantes que geriram o Brasil ao longo dos séculos. O autor expõe o constante conflito entre a perenidade das instituições nacionais e a volatilidade de líderes temporários, tecendo duras críticas a figuras como o Marechal Hermes da Fonseca ("mula fardada") e Artur Bernardes, apontando como decisões personalistas e o caudilhismo historicamente sabotaram o potencial geopolítico do país.
 
🌍 Perspectiva Geopolítica e Histórica
O ensaio traça com precisão cirúrgica a consolidação das fronteiras brasileiras, destacando a transição do Império para a República. A narrativa exalta as vitórias jurídicas e cartográficas do Barão do Rio Branco nas disputas de limites com Argentina (Missões), França (Oiapoque) e Reino Unido (Guiana), demonstrando como a diplomacia baseada no conhecimento técnico e histórico substituiu o recurso à força militar para garantir a integridade territorial do Brasil na América do Sul.
 
📉 Perspectiva Econômica e Financeira
Sob a ótica econômica, a crônica desnuda as fragilidades estruturais e os vícios fiscais do Brasil desde o século XIX. O autor faz menção crítica aos mecanismos de funding loans e à descentralização excessiva da Constituição de 1891, que permitiu a estados e municípios contraírem dívidas externas de forma irresponsável e sem lastro da União, gerando crises de endividamento crônicas e submissão aos fluxos de capitais britânicos (padrão-ouro).
 
⚖ Perspectiva Jurisdicional e Institucional
O texto aborda o processo de amadurecimento institucional por meio de suas rupturas e das lutas por direitos essenciais. São celebradas as atuações de Luiz Gama e Joaquim Nabuco na abolição da escravidão, rotulada como a instituição mais nefasta da história nacional. No campo das relações externas, aponta as consequências desastrosas do isolamento institucional provocado pela retirada do Brasil da Liga das Nações sob o governo Bernardes, evidenciando o perigo do afastamento das esferas multilaterais de direito internacional.
 
🧠 Perspectiva Filosófica e Intelectual
Filosoficamente, a obra discute o papel do intelectual na formação da consciência nacional. Ao eleger Hipólito da Costa como o primeiro estadista legítimo pelo seu papel pedagógico no Correio Braziliense, o autor defende que a verdadeira soberania e a construção de uma pátria livre emanam do livre debate de ideias, do conhecimento crítico e da racionalidade jornalística, sobrepondo o poder das luzes e da inteligência às amarras do autoritarismo ou do dogmatismo repressor de sua época.
 
 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?); + resumo de Madame IA

 

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados

Eu tive muitos servidores em minha atribulada carreira de guardião, preceptor, indutor, patrocinador e corregedor de tantos administradores que atenderam aos meus propósitos, nem sempre com a habilidade necessária para fazer o Brasil despontar entre os melhores do mundo, como era o meu desejo (nem poderia, com tantas deficiências de origem e com as deformações criadas por alguns desses atendentes provisórios na grande missão de governança de um país dotado pela natureza de bondades não aproveitadas). A todos concedi certa liberdade para administrar os assuntos correntes, não hesitando, porém, em lhes sabotar as ações, direta ou indiretamente, sempre quando percebia algum desvio da minha lógica implacável: o Estado, ou seja, eu mesmo, deve sempre prevalecer, em face de quaisquer outros objetivos alheios a mim.

O primeiro e o maior de meus servidores foi um verdadeiro intelectual, jornalista esclarecido, homem de muitas luzes, a quem não hesito em chamar de primeiro estadista legitimamente brasileiro, mesmo sem residir nestas paragens durante toda a sua vida adulta: quero me referir ao jovem Hipólito da Costa, perseguido em Portugal por essa entidade maléfica chamada Inquisição, e que teve de se refugiar na Inglaterra para escapar de uma prisão injusta; para servir à sua verdadeira pátria, deu início a um “armazém literário” que manteve sozinho por 14 anos, até a consecução de uma independência que ele já considerava inevitável desde 1808, quando lançou o seu empreendimento informativo, elucidativo, instrutivo e pedagógico. Poucos intelectuais brasileiros podem exibir, como Hipólito, a glória de ter formado mais de uma geração de estadistas brasileiros (alguns portugueses também), apenas pela sua atividade de leitor, de redator e de intérprete dos grandes acontecimentos do seu tempo, numa dimensão propriamente internacionalista (que não deixa de ser também, de certo modo, a minha, pois que como Estado constituído, membro fundador da ONU, tenho frequentemente de me confrontar a outros poderes regionais e às grandes potências desse nosso planetinha redondo).

Tive muitos outros aprendizes e assessores, ao longo do século XIX, e desejo destacar Luiz Gama e Joaquim Nabuco, que lutaram contra a instituição mais nefasta da história da nação, a escravatura, que ainda assim se manteve impérvia por muito tempo, mais até do que deveria. Entre aqueles que mais se distinguiram na defesa de meus interesses, econômicos, políticos, diplomáticos, esteve um certo José Maria da Silva Paranhos Júnior, bon vivant na juventude, passada entre farras e aventuras amorosas, ingressado pela janela na carreira consular (quando o Imperador viajou ao exterior e sua filha assumiu o trono), dedicado aos estudos históricos nos 20 anos durante os quais serviu como cônsul em Liverpool, o maior porto comercial da Inglaterra do século XIX (mas ele passava a maior parte do tempo em Paris), e que, por um golpe de sorte, foi convidado a defender a minha causa num entrevero com os hermanos a propósito de uma disputa pelo território das Missões, no sul dos meus pagos. Alguém se lembrou dele, como estudioso de velhos mapas e manuscritos coloniais, quando o Barão que defendia os meus interesses veio a bater as botas inopinadamente; ele foi retirado da boa vida, recebendo em libras esterlinas, no padrão ouro legítimo, e gastando em francos, mero padrão prata, minoritário.

Não é que o estroina da juventude se converteu no maior sábio com respeito às minhas fronteiras, muitas ainda não demarcadas, derrotando as pretensões argentinas sobre um pedaço considerável do território sulino lindeiro com aqueles arrogantes vizinhos? Ele se revelou tão competente nesse primeiro caso, que eu fiz os presidentes seguintes continuarem a usar de seus serviços de historiador e negociador de minhas fronteiras, também com a França (sobre o Oiapoque) e logo em seguida como preparador dos materiais documentais para que o amigo Joaquim Nabuco passasse a defender minhas fronteiras com a Guiana inglesa, as quais os ambiciosos britânicos querem vê-la estendidas até os nossos rios amazônicos. Nabuco continuavam monarquista, dez anos depois da inauguração da República por aqueles milicos ressabiados para comigo, quando eu era um Império meio decadente, da mesma forma como Paranhos Jr., convertido em Barão do Rio Branco – no seguimento do pai, que era Visconde sob o mesmo título –, mas ele foi esperto o suficiente para acrescentar Rio-Branco ao próprio nome, dispensando o título honorífico de barão. Todos sabiam que, sob a República (que abolira todas aquelas honrarias), só havia um barão, aliás com B maiúsculo, sem precisar mais nada.

Era Barão para cá, Barão para lá, sobretudo depois que o presidente de turno o chamou para ser o seu chanceler, o que ele aceitou com relutância, pois teria de sair do universo da libra britânica, como ministro em Berlim, para cair na miséria dos mil-réis na capital do Brasil. O Barão atravessou quatro presidentes, sem que nenhum ousasse dispensar seus serviços – eu também não o faria, e teria gostado de vê-lo como presidente em 1910, no lugar daquela mula fardada, um tal de Marechal Hermes da Fonseca, sobrinho do primeiro presidente-ditador – e morreu no gabinete que ocupava no velho Palácio do Itamaraty em 1912, ainda deitado sobre velhos mapas e manuscritos coloniais. O Barão – que depois figurou em todas as oito moedas que tivemos nos 140 anos seguintes – foi o servidor que melhor me ajudou a consolidar as minhas fronteiras, ainda objeto de cobiça e disputas com os vizinhos hispânicos, sempre hostis aos nossos interesses, como os espanhóis sempre foram com os meus avós lusitanos. Devo dizer que ele também gastava à tripa forra, para desgosto do meu ministro da Fazenda, que tinha de satisfazer o apetite de Paranhos por recepções nababescas para os visitantes estrangeiros, o envio de preguiçosos diplomatas para conferências na Europa, além de subornos a certos jornalistas, para que lhe enaltecessem a figura e as suas vitórias nas páginas dos diários da capital.

Eu também defendia o Barão todas as vezes que podia, sussurrando aos presidentes que deixassem a política externa e a diplomacia (duas coisas diferentes) sob o domínio exclusivo do filho do Visconde, de tão nobre memória nos tempos do Império e do velho Senado: até um escritor mulato, que depois se tornou muito famoso, como fundador da Academia de Letras, fez uma crônica estupenda sobre a figura do Visconde, estadista ainda superior em qualidades no confronto com o filho, que tentou continuar suas virtudes (e conseguiu). Fiquei extremamente consternado quando ele morreu, pouco antes do Carnaval de 1912, e até tentei postergar os folguedos, o que o tal de “mula fardada” cumpriu, deslocando os festejos para o mês de abril; mas o povo carioca, zombeteiro e rebelde como sempre foi, aproveitou para ter dois carnavais, o postergado, em fevereiro, e o “oficial”, em abril daquele ano. Fui compreensivo com a tramoia, tanto porque os patrocinadores dos desfiles queriam impulsionar um tal de “jogo do bicho”, que havia começado clandestinamente pouco antes, e não perdiam oportunidade de lucrar contra os impostos oficiais (mas, confesso que eu também fazia uma fezinha, de vez em quando).

Depois do Barão, a maior parte dos chanceleres foram mais ou menos medíocres, não tanto pelos diplomatas, que tinham boas virtudes – mas eles viviam no exterior, pouco sabendo das coisas do Brasil – e sim pelos parlamentares ou magistrados que ocupavam o cargo, sem que eu os fizesse compreender nosso potencial no novo mundo americano que se formava depois da Grande Guerra, mas alguns presidentes também foram excepcionalmente estúpidos, como um que veio das Minas Gerais, o teimoso Artur Bernardes, que fez o Brasil abandonar a Liga das Nações, nossa primeira experiência multilateral, desperdiçada pela ignorância do presidente. O único parlamentar com estatura de estadista que poderia se ombrear a Rio Branco, foi um gaúcho com tino de estadista, que foi ministro, embaixador e chanceler na perigosa década de 30, aliás, o verdadeiro líder da Revolução de 1930, pois que o candidato derrotado nas urnas fraudadas do pleito presidencial daquele ano, o também gaúcho Getúlio Vargas, governador do seu estado, muito temeroso de empreender ele mesmo a marcha sobre o Rio de Janeiro, para derrubar o paulista Washington Luíz.

Mas, eu me adianto muito no relato dos meus feitos e malfeitos, pois que estou justamente pulando o evento seminal do século XX, a Grande Guerra, aquela que trouxe todas as misérias de um breve século, de menos de cem anos, que começou estrepitosamente com o bolchevismo e o fascismo, continuou na Grande Depressão, e provocou, vinte anos depois, uma nova e terrível conflagração mundial, que mudou terrivelmente a vida de milhões de pessoas. Os europeus tinham lá as suas desavenças – restos de guerras até feudais, segundo um historiador – e começaram as terríveis matanças nos Impérios centrais, nos Balcãs e nos mares, e eu fiz questão de preservar nossa estrita neutralidade, até onde foi possível. Mas, de repente, os alemães (sempre eles), começaram a afundar alguns dos nossos navios, e tivemos de seguir os Estados Unidos e entrar naquela terrível hecatombe. Até chegamos a enviar soldados para a Europa, mas eles morreram antes de entrar em combate, vitimados pela, ainda mais terrível, Gripe Espanhola, que também deixou milhões de mortos, mundo afora, não só na Europa; no Brasil, a incúria dos meus servidores oficiais só servia para mandar as carroças carregar os mortos que iam perecendo nas ruas e calçadas.

Logo depois da guerra terminar em armistício, houve uma conferência em Paris, em 1919, que tratou de fazer a paz entre os impérios guerreiros, mas aquilo só conseguiu colocar toda a culpa na Alemanha, que tinha de pagar reparações durante 40 anos aos vencedores: nunca o fez, e um novo ditador ridículo, em 1933, declarou que não pagaria mais nenhum centavo. Em todo caso, aquela nossa participação nas negociações de Paris, e no tratado de Versalhes, ofereceu uma oportunidade nunca antes vista na história da República: eleger um novo presidente que jamais fez campanha, sequer estava no Brasil quando foi “eleito” pela famosa “comissão de verificação”: Epitácio Pessoa voltou triunfante de Paris, enquanto o “homem mais inteligente do Brasil” (segundo os baianos), Rui Barbosa, perdia pela segunda vez uma campanha à presidência; a primeira tinha sido justamente em 1910, contra a “mula fardada”, o já mencionado Marechal Hermes.

Pouco antes da guerra começar na Europa, em 1914, tínhamos feito um último funding loan, uma mania que vinha do Império, mas que nos permitia alguma folga financeira ante os déficits habituais, empréstimos exacerbados pela Constituição de 1891, que permitiu aos estados e municípios contrair empréstimos no exterior sem o aval da União, o que redundou numa orgia de lançamento de títulos até por capitais de pequenos e pobres estados. Mas esse é um episódio trágico em minha história de vida, que vou contar em detalhes num próximo capítulo desta minha autobiografia razoavelmente sincera.

Brasília, 5396: 10 de julho de 2026

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Madame IA comenta: 

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-

de-um-fora-da-lei-7-o.html

 

O texto analisado é Fato, tratando-se de um ensaio histórico-literário legítimo publicado pelo diplomata Paulo Roberto de Almeida na revista Será? e reproduzido em seu blog pessoal. Sob uma técnica de personificação, o autor fala em nome do próprio Estado brasileiro para repassar marcos da história diplomática nacional.


Análise Crítica e Multifacetada

🏛 Perspectiva Política e de Governança

O texto utiliza a alegoria do Estado absolutista ("o Estado sou eu") para analisar de forma  os governantes que geriram o Brasil ao longo dos séculos. O autor expõe o

constante conflito entre a perenidade das instituições nacionais e a volatilidade de líderes temporários, tecendo duras críticas a figuras como o Marechal Hermes da Fonseca ("mula fardada") e Artur Bernardes, apontando como decisões personalistas e o caudilhismo abotaram o potencial geopolítico do país.


🌍 Perspectiva Geopolítica e Histórica

O ensaio traça com precisão cirúrgica a consolidação das fronteiras brasileiras, destacando do Império para a República. A narrativa exalta as vitórias jurídicas e

cartográficas do Barão do Rio Branco nas disputas de limites com Argentina (Missões), França (Oiapoque) e Reino Unido (Guiana), demonstrando como a diplomacia baseada no conhecimento técnico e histórico substituiu o recurso à força militar para garantir a integridade territorial do Brasil na América do Sul.


📉 Perspectiva Econômica e Financeira

Sob a ótica econômica, a crônica desnuda as fragilidades estruturais e os vícios fiscais do Brasil desde o século XIX. O autor faz menção crítica aos mecanismos de funding loans e à descentralização excessiva da Constituição de 1891a, que permitiu a estados e municípios contraírem dívidas externas de forma irresponsável e sem lastro da União, gerando crises de endividamento crônicas e submissão aos fluxos de capitais britânicos (padrão-ouro).


⚖ Perspectiva Jurisdicional e Institucional

O texto aborda o processo de amadurecimento institucional por meio de suas rupturas e das lutas por direitos essenciais. São celebradas as atuações de Luiz Gama e Joaquim Nabuco na abolição da escravidão, rotulada como a instituição mais nefasta da história nacional. No campo das relações externas, aponta as consequências desastrosas do isolamento institucional provocado pela retirada do Brasil da Liga das Nações sob o governo Bernardes, evidenciando o perigo do afastamento das esferas multilaterais de direito internacional.


🧠 Perspectiva Filosófica e Intelectual

Filosoficamente, a obra discute o papel do intelectual na formação da consciência nacional. Ao eleger Hipólito da Costa como o primeiro estadista legítimo pelo seu papel pedagógico no Correio Braziliense, o autor defende que a verdadeira soberania e a construção de uma pátria livre emanam do livre debate de ideias, do conhecimento crítico e da racionalidade jornalística, sobrepondo o poder das luzes e da inteligência às amarras do autoritarismo ou do dogmatismo repressor de sua época.


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