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domingo, 12 de julho de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro: publicados na série, de 1 a 5 - Paulo Roberto de Almeida

  

Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro

Capítulos publicados na série, 2026, do n. 1 ao n. 5

  

Paulo Roberto de Almeida

Atualizada em 12 de julho de 2026


Capítulos já publicados:

1645. “Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p. Introdução a uma biografia sincera de um contraventor da lei e dos bons costumes: o Estado brasileiro, narrada, de forma inédita, na primeira pessoa. Revista Será? (ano xiv, n. 710, 15/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1-a-trajetoria-do-estado-brasileiro/); divulgado no Diplomatizzando (15/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1.html). Relação de Originais n. 5303.

 

1647. "Autobiografia de um fora-da-lei, 2: o Estado visto por ele mesmo”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p.; revisão: 20/05/2026. Uma questão de método: como o Estado pode escrever sua própria biografia? Revista Será? (ano xiv, n. 711, 22/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o-estado-visto-por-ele-mesmo/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o.html). Relação de Originais n. 5304.

 

1650. “Autobiografia de um fora-da-lei, 3: do nascimento a tempos incertos”, Brasília, 6 maio 2026, 4 p. Das origens ao vice-reinado: uma trajetória colonial a serviço da metrópole. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 712, 5/06/2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do-nascimento-a-tempos-incertos/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do.html). Relação de Originais n. 5305.

 

1652. Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente”, Brasília, 6 junho 2026, 4 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro, para a revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de-colonia-a-reino-unido-ao-de-portugal-e-uma-promocao-merecida-a-imperio-independente/);  divulgado no blog Diplomatizzando (26/06/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de.html); resumo comentado por Demoiselle IA, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz, registrado sob n. 5379; divulgado no blog Diplomatizzando (28/06/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/a-autobiografia-do-estado-relida-e.html). Relação de Originais n. 5342.

 

1654. Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais”, Brasília, 9 junho 2026, 4 p.; revisão 8 julho 2026, 5 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 707, 10/07/2026; link: https://revistasera.info/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como-me-livrei-dos-portugueses-mas-acabei-ficando-com-os-oligarcas-nacionais/). Divulgado no blog Diplomatizzando (10/07/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como.html). Relação de Originais n. 5347.

  

Capítulos aguardando publicação:

 

5394. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República”, Brasília, 9 julho 2026, 4 p. Continuidade da série, desta vez fazendo um resumo reflexivo, antes de prosseguir.

 

5396. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados”. Brasília, 10 julho 2026, 4 p. Mais um capítulo da história de um transgressor moderado.

  

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 12 julho 2026, 2 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-uma.html)

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?); + Madame IA refaz a história

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais

O Estado pantagruélico

O Estado pantagruélico

Uma coisa me incomodava bastante, quando eu finalmente me instalei, com todos os meus apetrechos e bagagens, nestas terras que me eram prometidas desde que aqui aportou uma tropa de navegantes no caminho das Índias. Os navegadores, todos buscando as riquezas que Marco Polo tinha visto em Cathay, mas que sabíamos de outras, mais prosaicas, nas Índias, buscavam justamente confirmar o que um dos meus patrícios da terrinha, tinha antevisto ainda antes de Tordesilhas: havia terras mais além daqueles mares nunca de antes navegados. Mas tínhamos de agir rápido, contra as pretensões dos furbos espanhóis, ajudados por aquele papa corrupto e fornicador, que tinha antes feito uma partição muito em nosso prejuízo. O que tinha ficado de Tordesilhas era pouco, comparado à vastidão das novas terras, mas essa limitação foi sanada dois séculos e meio depois, quando mais um daqueles espertos brazilienses, servindo na Corte de Lisboa, foi a Madri tratar de alargar minhas paragens. E não é conseguiu, traficando alguns mapas feitos por um francês experiente nessas matérias?

O fato é que as terras era muitas, e passaram a atrair muitos lusitanos, ocorrendo inclusive uma invasão exagerada deles, quando por aqui começou a aparecer ouro, pedras de diamante, e outras preciosidades. Eu já estava afeiçoado aos novos ermos e achava que estas paragens bravias deveriam pertencer prioritariamente àqueles mestiços que realmente desbravaram os sertões desconhecidos e selvagens. A invasão se repetiu, já com gente de mais fino trato, quando, a pretexto de fugir daquele imperador dominador à outrance, tinham vindo para cá levas e mais levas de fidalgos incapazes sequer de defender o reino contra os trôpegos soldados de Junot, além de centenas de cortesãos que só sabiam viver às expensas do Tesouro Real.

Bem, mas eu já contei essa história, assim que vamos passar adiante. O rapazote que fazia figuração de imperador vivia cercado desses cortesãos que por aqui haviam ficado, depois que o seu augusto pai tinha sido recambiado para a minha antiga metrópole (o que ele jamais aceitou de bom grado, pois se afeiçoara aos modos daqui). Afinal de contas, tinha sido um diplomata de um porto paulista que tinha alargado os meus domínios sobre algumas terras pretensamente espanholas, e tinham sido aqueles caçadores de índios da mesma capitania que foram abrindo caminhos nos ermos do planalto central, fazendo filhos com as índias das quais se apossavam. Quando veio a separação, era o caso de os lusitanos partirem, para que eu assim ficasse com os meus brasilienses, que tanto haviam lutado para tomar a si o comando do Estado. Mas muitos lusitanos teimavam em ficar, a mando do príncipe convertido abusadamente em imperador nos meus domínios. Bem fizeram os bravos pernambucanos que, por duas ou três vezes, andaram atacando aqueles que os exploravam no comércio e nos demais negócios, com a consigna até exagerada de “mata marinheiro!” Eles até tentaram a república, umas duas vezes, mas estavam muito longe da capital para serem bem-sucedidos. Foi uma pena, pois um Brasil pernambucano teria sido muito melhor.

Enfim libertos dos antigos reinóis – não sem antes deixarem o meu primeiro banco totalmente carente de lingotes e patacões –, passei a governar o que era finalmente o Brasil, mas tendo de me valer de uma nova malta de aproveitadores pretensamente patriotas: eram os velhos traficantes locais, os latifundiários que herdaram as antigas sesmarias, os arrivistas de toda espécie, alguns até de boa índole, que tinham estado nas Cortes, na Constituinte, e que depois se ajeitaram nos novos encargos do Estado em construção. Como não quiseram romper com o sistema monárquico – a pretexto de defender a unidade nacional, então sob ameaças separatistas de várias revoltas provinciais, ao norte e ao sul –, se arranjaram num sistema muito instável de regências, enquanto o rebento da dinastia bragantina não deixasse a tenra infância para alcançar a maioridade. Que só veio por um golpe, mais um, como parece ter virado um costume nestas terras de paixões desabridas.

Nas brigas entre os dois clãs políticos, liberais e regressistas, acabaram por fazer um ajuste próprio aos arranjos exóticos numa terra dada a todo tipo de expediente: promoveram o rapaz a imperador antes do tempo, com a vantagem de que ele tinha sido educado por aquele velho Andrada, que era tido por um dos “pais da pátria”. Pelo menos parece ter lhe dado um bom conhecimento da literatura e das coisas da natureza, por tinha sido membro de diversas academias europeias. E assim me instalei, de manto e coroa, ainda aprendendo esse ofício de governar, que não parece ser tão difícil numa terra em que se plantando tudo dá, como dizia um daqueles escrevinhadores dos primeiros tempos. Parece que se acertaram com aquela fruta etiópica, chamada de café, que me trouxe muita riqueza durante mais de 200 anos.

Não tardou quatro anos do início do novo reinado, para que eu, instruído por alguns oligarcas experimentados, me decidisse por dar fim aos tratados desiguais que nos prendiam aos astutos ingleses desde as priscas eras dos Braganças, muito em especial com o espoliador tratado comercial de 1810. O marquês de Caravelas – sim, todos os oligarcas bajuladores viraram barões, marqueses ou duques, vários mediante pagamento – arranjou uma nova pauta aduaneira que começou a sugar libras-ouro, patacões ou mil-réis para as minhas caixas exauridas, na tributação dos bens importados e, também, das matérias primas exportadas, com destaque para o café, que começava a desbancar os velhos produtos da terra, o açúcar, os couros e os demais. Fiquei à larga por alguns anos, com saldos crescentes nas contas externas, até que alguns malditos vizinhos, primeiro um tal de Rosas, ditador do Prata, depois um pretendente a Napoleão paraguaio, o tal de Lopez, viessem acabar com minhas reservas, em duas guerras sucessivas, que nos deixaram com o duvidoso epíteto de “imperialistas”.

Também tivemos vários entreveros com os arrogantes ingleses, que se acreditavam os donos do Atlântico e de outras paragens, apresando nossos navios negreiros, até em águas territoriais, nos forçando por todos os meios a terminar com o rendoso comércio. O tal de Lorde Aberdeen chegou inclusive a equiparar o tráfico à pirataria, com o que pretendiam jogar pela prancha, aos tubarões, os honrados capitães dos navios negreiros. Aquilo foi um verdadeiro absurdo, como argumentaram em notas ao Foreign Office os meus diplomatas, pois que o tráfico escravo era perfeitamente legal (pelo menos para nós) e ele não ameaçava o comércio legítimo como os verdadeiros piratas, microempresários do crime em causa própria. Tudo muito diferente dos corsários, médios empresários a serviço das coroas, sem esquecer que eles dividiam o botim com os soberanos que lhes davam cartas patentes. Sim, cabe não esquecer que foram corsários ingleses – Fulton, Drake, Cavendish – que infestaram as nossas costas durante séculos, saqueando portos e navios, antes de se aventurarem nos portos mais ricos do Pacífico e das ilhas do Caribe, de onde saíam ouro e prata nos galeões espanhóis.

Além do fato que os ingleses nos espoliavam mais sutilmente pelos empréstimos na City, o que éramos seguidamente compelidos a fazer, também com lucros extorquidos no próprio ato dos contratos de financiamento (e que nunca relutamos em pagar); antes de começar o meu segundo reinado houve até um empréstimo dito “ruinoso”, do qual só nos veio a metade do que foi contratado, pois isso foi logo depois que tive de encerrar o primeiro Banco do Brasil, completamente inadimplente em 1829.

Minha diplomacia não era sobranceira, nem descortês com os enviados que aqui arribavam, mas alguns dos ministros que por aqui chegavam como representantes de Sua Majestade Britânica se comportavam da forma mais arrogante possível. Tive até de romper relações diplomáticas, por esse mesmo motivo, com a Corte de St. James, por infelicidade ao mesmo tempo em que eu era obrigado a me meter em novas aventuras no Prata, o que nos privou de acesso à praça londrina durante algum tempo. Mas, quando se instalou a “maldita guerra” voltamos para novas contratações, inclusive sob a forma de funding loan, que era quando não podíamos resgatar o principal, e tínhamos de jogar tudo para a frente..

O fato é que os mesmos oligarcas que se locupletavam nos gabinetes (muitos) do meu Estado não fizeram quase nada para estimular novos negócios, além do café e poucos outros produtos de exportação. Não só eram inoperantes, como entravavam os negócios dos que queriam abrir novas frentes de trabalho, como o ativíssimo banqueiro e empresário Mauá (que chegou inclusive a atuar como provedor informal de empréstimos para nossos amigos no Prata, depois ressarcido com concessões na capital e em províncias longínquas). Tiveram até a petulância de expropriar o segundo Banco do Brasil que ele tinha criado com o seu alto tino de financista, sendo que o segundo e o terceiro banco do mesmo nome foram à falência ainda antes do final do meu reinado, pelos acintosos atos de corrupção que esses novos banqueiros de araque praticavam nos conluios políticos. Suspeito que essa mania perdurou…

Valendo-me do dispositivo constitucional do Poder Moderador – esperteza que o primeiro imperador buscara num dos manuais de Direito de um tal de Benjamin Constant –, eu não hesitava em acabar extemporaneamente com um ou outro gabinete de ministros, não importando que fossem Liberais ou Conservadores, e dele fiz tanto uso que meus críticos diziam que eu vivia numa monarquia presidencialista. Não me importavam os ataques, desde que eu consentisse que eles pudessem conservar a maldade mais renitente que assegurava a paz do reino, que era o nefando regime da escravidão. Tanto foi assim, que enquanto durou a iniquidade, a monarquia se manteve; foi só terminarem com esse esteio da nação produtora que o Império veio abaixo, num complô entre republicanos sonhadores e militares vingativos.

Mas como o Estado opressor é eterno – como eu já afirmei nestas minhas memórias, a que chamam de autobiografia – os mesmos oligarcas patrimonialistas continuaram, como de hábito, mandando no país, controlando todos os gabinetes do meu Estado, apenas que, depois de mais um golpe, terminou por ser o início de um novo regime. O velho monarca, que dizia me representar dignamente, foi embarcado às pressas para a Europa, deixando muitos monarquistas saudosistas, à espera de algum novo golpe regressista (essa mania nunca terminou por aqui, mas os Braganças que sobraram não prestavam para muita coisa).

Os nossos jacobinos quiseram imitar os franceses, introduzindo como saudação o slogan ridículo de “Saúde e Fraternidade” nas novas comunicações oficiais. Os republicanos ilustrados também quiseram imitar a grande república do Norte, trocando o meu nome para “Estados Unidos do Brasil”, num exagero de federalismo que tive de cortar mais adiante, pois os estados começaram a gastar à tripa forra, tomando empréstimos e mais empréstimos com os banqueiros da belle époque, o que logo se revelou insustentável (e tome mais funding loans, com a garantia das alfândegas, as únicas a produzir alguma receita).

Monarquistas saudosos, sobretudo os aristocratas da Armada, ainda tentaram um golpe, mas um segundo presidente militar, apodado de “Marechal de Ferro”, mandou combatê-los a ferro e a fogo. Tudo isso junto a uma tremenda crise econômica provocada pelo ministro da Fazenda inaugural do novo regime, chamada de “Encilhamento”, que deu início um ciclo de insolvências que perdurou por quase toda a extensão da República do “café-com-leite”. O “meu” Estado oligárquico se preparava para perpetrar mais maldades sob novas roupagens, mas com as mesmas perversas intenções de um fora-da-lei assumido, governando pelos caprichos e arbítrios habituais. Não sei o que melhorou com a troca da monarquia pela república, mas isso já é uma outra história que vou contar da próxima vez.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5347, 9 junho 2026; revisão 8 julho 2026, 5 p.

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Madame IA refaz, a mando de Airton Dirceu Lemmertz, o meu relato acima, mas num tom jocoso e descontraído: 

"Acesse o conteúdo/texto do link https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como.html (título, entre aspas: "Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)") e apresente um texto reescrito. O texto reescrito deverá ter, no mínimo, 3300 caracteres; deverá ser em linguagem coloquial; deverá manter a linha de pensamento e as ideias e opiniões. 


Aqui está a reescrita do texto do embaixador Paulo Roberto de Almeida, adaptada para um bate-papo bem informal e direto, mas mantendo todo o deboche, as críticas históricas e a linha de pensamento original do autor sobre o "Estado fora-da-lei" brasileiro.

Olha, tem uma parada que sempre me incomodou desde que botei os pés nessa terra, lá atrás, quando a frota portuguesa aportou por aqui fingindo que estava só de passagem para as Índias. A verdade é que os navegantes já sabiam que tinha chão para além do Atlântico. O problema é que a Espanha também estava de olho, com a ajuda daquele Papa corrupto da época. Tivemos que correr com o Tratado de Tordesilhas para não perder o pedaço, e o que sobrou no papel era pouco perto do tamanho real do Brasil. A sorte é que, séculos depois, um sujeito esperto pegou uns mapas de um francês e conseguiu esticar nossas fronteiras lá em Madri.
O fato é que a terra era gigante e começou a atrair português que não acabava mais, principalmente quando descobriram ouro e diamante no meio do mato. Eu já estava apegado ao lugar e achava que esse sertão bruto devia ser dos mestiços que realmente ralaram para desbravar tudo, e não daquela elite que veio de Lisboa. Depois, a história se repetiu quando o rei de Portugal fugiu de Napoleão e trouxe para cá uma dinastia inteira de fidalgos e cortesãos que não sabiam fazer nada além de viver pendurados nas tetas do Tesouro Real.
Quando o rei finalmente voltou para Portugal, deixou o filho por aqui fazendo figuração de imperador, cercado por essa mesma malta de aproveitadores. Quem bateu o pé contra essa exploração foram os pernambucanos, que tentaram fazer uma república algumas vezes gritando "mata marinheiro!". Sinceramente, se o Brasil tivesse seguido a cabeça de Pernambuco, a gente estaria bem melhor hoje. Mas os portugueses continuaram mandando em tudo, limparam os cofres do nosso primeiro banco e nos deixaram com uma nova leva de sanguessugas que se diziam patriotas: os grandes latifundiários, os traficantes locais e os arrivistas que se ajeitaram nos cargos do novo Estado.
Para manter a unidade do país e segurar as revoltas que estouravam de Norte a Sul, resolveram continuar com a monarquia. E como não dava para esperar o herdeiro crescer, inventaram um golpe da maioridade para coroar o garoto Pedro II antes da hora. O menino até que era estudioso, mas governar por aqui virou aquele negócio: "em se plantando, tudo dá". E o que deu muito certo por mais de 200 anos foi o café, que encheu os cofres da elite.
Não demorou muito para o império cortar as regalias que os ingleses tinham por aqui desde os tempos coloniais. Criamos taxas alfandegárias que começaram a puxar dinheiro para o nosso caixa esvaziado. O problema é que o dinheiro sumiu rápido quando arrumamos briga com os vizinhos do Sul, primeiro com o ditador argentino Rosas e depois com o Solano López do Paraguai, o que limpou nossas economias e nos deu a fama de imperialistas.
Para piorar, os ingleses cismaram de fiscalizar o Atlântico para acabar com o tráfico de escravos, tratando os capitães dos navios negreiros como piratas. Nossos diplomatas reclamavam, dizendo que o tráfico era legalizado aqui e que pirata de verdade eram os corsários que a própria Coroa britânica financiava para roubar galeões espanhóis no passado. Mas a verdade é que a gente dependia dos empréstimos dos bancos de Londres. Teve financiamento tão ruim que só recebemos a metade do valor contratado, tudo porque o primeiro Banco do Brasil faliu por calote total em 1829.
Nossos políticos e barões — a maioria comprava esses títulos de nobreza — não faziam nada para modernizar o país. Pelo contrário, só atrapalhavam quem queria trabalhar, como o barão de Mauá, um baita empresário que financiava até o governo no exterior, mas acabou sendo boicotado pela elite política, que tomou o banco dele. Essa mania de corrupção e conluio político entre banqueiros de araque e governantes começou ali e, pelo visto, nunca mais parou.
O imperador usava o tal do Poder Moderador para demitir ministros e fechar o gabinete a hora que quisesse, parecendo mais um presidente autoritário. Mas ele deixava a elite manter a pior maldade de todas: a escravidão. Enquanto o regime escravocrata existiu, a monarquia ficou de pé. Foi só assinarem o fim da escravidão que o Império desmoronou num complô de militares vingativos e republicanos idealistas. O velho monarca foi enxotado para a Europa e o Estado opressor continuou igualzinho.
Os caras que assumiram a República quiseram imitar a França com slogans cafonas e tentaram copiar o federalismo dos Estados Unidos, mudando o nome para "Estados Unidos do Brasil". O resultado? Os estados começaram a gastar o que não tinham, pegando empréstimos bilionários fora do país e quebrando as pernas da economia na crise que ficou conhecida como "Encilhamento". No fim das contas, saíram os barões do Império e entraram os oligarcas do café com leite, mas as perversões de um Estado que joga fora da lei continuaram exatamente as mesmas. No jogo do poder no Brasil, muda o regime, mudam as moscas, mas a exploração continua a mesma."


sexta-feira, 3 de julho de 2026

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

Revista Será? ANO XIV 

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente

Paulo Roberto de Almeida 


Em seu quarto capítulo da série Autobiografia de um Fora-da-Lei, Paulo Roberto de Almeida revisita a transformação do Brasil de colônia a Reino Unido e, depois, a Império independente. Com fina ironia, sólida erudição e um original recurso narrativo, o autor oferece uma leitura instigante da formação do Estado brasileiro, convidando o leitor a revisitar alguns dos momentos decisivos de nossa história.

Segue o link para o artigo.
https://bit.ly/3SojKBv

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segunda-feira, 25 de maio de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 2: o Estado visto por ele mesmo - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

Autobiografia de um fora-da-lei, 2: o Estado visto por ele mesmo

Paulo Roberto de Almeida

*Revista Será? ano xiv, 22/05/2026

Em um exercício intelectual original e provocador, Paulo Roberto de Almeida transforma o próprio Estado brasileiro em narrador de sua trajetória histórica. Entre ironia, filosofia política e crítica institucional, o artigo revela como o poder se perpetua, molda leis e atravessa regimes sem perder sua essência dominadora. Uma reflexão instigante sobre autoridade, soberania e os mecanismos profundos do Estado ao longo da história brasileira.

Segue o link para o artigo.

https://bit.ly/43vhpGR 

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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro — Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

 Revista Será? ANOXIV | 

Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro

Paulo Roberto de Almeida* 

Com ironia refinada e crítica contundente, Paulo Roberto de Almeida coloca o próprio Estado brasileiro como narrador de sua trajetória marcada por contradições, ilegalidades e promessas frustradas. Entre confissão autobiográfica e sátira política, o texto desmonta mitos da formação institucional brasileira e expõe um Estado frequentemente distante dos cidadãos que o sustentam. Um ensaio original e provocador sobre poder, burocracia, democracia e a longa crise da vida pública nacional.

Segue o link para o artigo.

https://bit.ly/4wtQtF3


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sábado, 16 de maio de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)


Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro

O Estado

O Estado

Introdução a uma biografia sincera de um contraventor da lei e dos bons costumes: o Estado brasileiro, narrada, de forma inédita, na primeira pessoa.

Como está, caro leitor? Alô, cidadãos! Como estão, prezados contribuintes, caros amigos, eventuais súditos deste que vos escreve? Como têm passado, distintos trabalhadores, caros empresários, senhoras donas-de-casa? Escrevo estas linhas – ou parágrafos, que podem virar páginas, algum alfarrábio, talvez até um livro – porque senti que era chegado o momento de me dirigir diretamente a vocês, pessoas comuns, dispensando tantos intermediários – sociólogos, ou cientistas políticos – que, ao longo do tempo, têm tentado cobrir meu itinerário histórico, desvendar o meu passado, interpretar o meu desenvolvimento institucional, analisar o modo de funcionamento dos meus órgãos internos (oh!, perturbadores), ou até desvendar o meu futuro, como cabe a especialistas tão reputados (e, por vezes, tão enganados ou tão enganosos).

Depois de tantas páginas memoráveis dedicadas ao meu modo de ser e às mais variadas formas de minha intervenção na vida de todos vocês, cheguei à conclusão que era a hora de tomar da pluma – ops, que antiquado sou, melhor dito: sentar-me à frente do computador – para, em mal traçadas linhas, escrever minha própria biografia, algo raro em se tratando de uma instituição pública que emana da própria sociedade, como vocês podem bem suspeitar. Mas, vocês bem que mereciam este gesto, pois, afinal de contas, são vocês que pagam as minhas contas, alimentam os meus cofres, financiam a construção de um palácio aqui, outro acolá, provêm os recursos dos quais eu tiro os salários de tantos empregados a meu serviço – sim, sim, não me enganei, a meu serviço, eu disse – me permitem, enfim, umas tantas loucuras de vez em quando (ou tantas quantas eu consigo levar adiante, sem maiores turbulências nas redondezas). Eu estava, de fato, devendo isso a vocês. Já estou ficando velho e gordo, atacado da gota e de alguns achaques aqui e ali, e queria dar a vocês alguma satisfação sobre o que tenho feito nestes últimos anos, nestes últimos duzentos anos, quero dizer, mas com certa ênfase no período recente, talvez os mais movimentados de minha longa e periclitante trajetória de vida (claro, cabe não esquecer os golpes, as tentativas, as ditaduras de fato e de direito; mas, estas existem?).

Se ouso tomar da pluma – ops, teclar estas notas, na tela à minha frente – para contar algumas coisas edificantes e outras talvez menos dignas, não o faço movido por ódios ou paixões, nem como reação a tantas bobagens que tenho lido nos livros, revistas ou jornais a meu respeito, tampouco em função de alguma urgência do momento. Afinal de contas, eu sou, aparentemente, “eterno”, e nada obsta a que uma nova biografia seja escrita sobre mim em mais cem ou duzentos anos. Apenas senti necessidade de colocar no papel – ou melhor, em bits and bytes do meu laptop – uma trajetória de vida que tem muito a ver com a vida de cada um de vocês, especialistas em destrinchar as minhas entranhas, cidadãos preocupados com os assaltos que faço regularmente em seus bolsos ou no caixa de suas empresas, ou nas contas e colchões dos residentes mais simples, que sofrem ou se beneficiam com minhas ações e omissões.

De fato, senti que devia a todos vocês este racconto storico eminentemente pessoal sobre a minha carreira, as minhas aventuras de vida, as minhas expectativas e os meus projetos. Tenho estado – sem trocadilho – insatisfeito com tantas análises capciosas que encontro nos livros de supostos estudiosos de minha trajetória e ações, com tantos ataques furibundos que venho constatando nas folhas liberais, assim como em face de tantas reclamações que tenho lido, visto e ouvido, como resultado de frustrações acumuladas por cidadãos que confessam não terem sido atendidos em esperanças e promessas que me teriam sido endereçadas por vocês mesmos, cidadãos do país. Desconto dessa maçaroca, os tratados dos acadêmicos, alguns até intelectuais reputados, pois eles complicam coisas que deveriam ser simples, no entendimento comum.

Antes de começar, porém, a reconstituição de minha trajetória, vale uma explicação pelo título e subtítulo escolhidos para este ensaio autobiográfico. Por que “fora-da-lei”, exatamente? E por que o subtítulo não mais pessoal e sim, aparentemente, impessoal, ou, pelo menos, na terceira pessoa? A que se deve este exercício de autoflagelação, esta decisão em prol da autoacusação?

De fato, hesitei muito quanto à qualificação que eu deveria dar à minha própria trajetória de vida, sendo eu, supostamente, o personagem mais importante da história brasileira, aliás, ainda antes que o Brasil se conhecesse por esse nome, ou que fosse ele um Estado independente, como tal reconhecido pelas outras potências soberanas. Tendo estado – perdão pela nova redundância estilística – na origem da nação antes mesmo que ela se constituísse em Estado, eu deveria ser, presumivelmente, o personagem em princípio mais interessado no estrito cumprimento da lei, na correta observância da legalidade, no fiel atendimento das regras de vida social e das normas de organização pública que orientam, pelo menos em teoria, a vida dos cidadãos, a conduta dos agentes públicos, a atividade dos agentes econômicos privados e, a rigor, de todos aqueles que estabeleceram residência regular (ou passageira) no território colocado sob a minha jurisdição exclusiva. Por que, então, “fora-da-lei”? Sim, o que justificaria uma tal infração ao gentil tratamento de praxe que se deve estabelecer entre o detentor da soberania e súditos ou cidadãos – como você que está me lendo agora –, com essa autoclassificação de “infrator da legalidade”?

Tal se deve a uma razão muito simples (e vou ser absolutamente sincero com vocês). Eu tenho sido, a despeito de todos os preceitos constitucionais que me cercam (aliás, por sete ou oito vezes consecutivas), o mais frequente e o mais constante violador da legalidade criada por vocês – ou por seus representantes, reunidos em assembleia constituinte várias vezes – para orientar minha conduta e as minhas ações práticas. Confesso que tenho sido um mau cumpridor desses preceitos e admito abertamente violar a lei em tantas ocasiões que já perdi a conta de todas as ilegalidades cometidas ao longo desta minha vida de, digamos, dois séculos justos (e mais um pouco, dois ou três séculos, nas antigas câmaras dos “homens bons”). Eu sou, reconhecidamente, o maior infrator constitucional já conhecido neste país e um grande descarado quando se trata de atender às obrigações constitucionais ou infraconstitucionais que me foram historicamente atribuídas por nada menos do que – acho que já perdi a conta – cinco ou seis processos de elaboração constitucional e outros tantos remendos constitucionais (alguns a fórceps), ao longo dessa minha trajetória conturbada. Sim, confesso que sou um reincidente declarado, por vezes involuntário, nas violações constitucionais, e mais ainda nas pequenas normas que deveriam, supostamente, guiar a vida dos meus súditos – ops, cidadãos – e orientar-lhes a conduta diária.

A bem da verdade, não posso reclamar dos meus conterrâneos, a maior parte formada por honestos cidadãos e modestos trabalhadores, cumpridores da lei e defensores da normalidade democrática, desejosos que sempre foram de uma vida normal, feita de segurança na vida diária, oportunidades abertas a todos para o desenvolvimento de atividades respeitadoras dos direitos de propriedade, eleitores fiéis em todos os momentos em que foram chamados às urnas, enfim, pessoas que aspiram a uma vida digna e merecedora de respeito por parte daquele mesmo que deveria atender a esses requisitos mínimos da vida em sociedade, ou seja, eu mesmo. Sei disso, e é por isso que eu tive este ataque de franqueza e de sinceridade e resolvi me classificar como um “fora-da-lei”, nesta biografia tão crítica quanto desautorizada (digo isto porque não solicitei a autorização de nenhum dos meus poderes constituíd2os para escrevê-la, sendo ela, mais exatamente, a pura expressão de uma vontade passageira e irrefletida, um desejo repentino de autoconfissão, que provavelmente não se repetirá nos próximos cem anos). Aproveitem, pois!

Quanto ao subtítulo, que parece contradizer o título, ele se deve, tão simplesmente, a que pretendi que esta minha autobiografia fosse concebida e escrita com o maior grau de isenção possível, com tanta objetividade quanto seja admissível num panfleto crítico centrado sobre um personagem suscetível de todas as críticas, e que ainda assim se dispõe a desvendar um pouco de suas reflexões sobre sua longa trajetória de logros e frustrações. Atentos, pois, aos próximos capítulos desta novela que pode não ter fim, tantos são os desmazelos a contar, tantas as infrações por mim cometidas ao longo de uma vida nem sempre divertida, por vezes emocionante, no mais das vezes, aborrecida, tantas são as reclamações que ouço sobre a minha conduta, variados os artigos que me condenam, infinitas as imprecações contra mim, frequentemente as mais chulas.

Não digo que eu vou me desnudar, pois isto seria impróprio aos leitores menores de idade ou às senhoras recatadas, mas vou tentar despir minhas togas, pendurar esses ternos pesados – o Jânio tinha razão, quando quis introduzir uma vestimenta africana, obrigatória para todos os funcionários públicos –, envergar uma simples bermuda, colocar duas ou três garrafas de água de coco aqui ao lado, deixar à mão a máquina de legítimo espresso, e coletar recordações, afiar as ideias, que são muitas, as melhores em todo caso, e tentar satisfazer as curiosidades de todos vocês. Sim, fico imaginando como foi possível, a um ente estatal que existe há duzentos e tantos anos, que sou eu, mais aqueles séculos que foram lusitanos no comando, errar tanto ao longo de todo esse tempo, deixar tanta gente ao relento, sem casa, sem educação, sem segurança, sem futuro, para sermos mais simples, como chegamos ao Estado em que que chegamos, nesse estado de penúria, de desavenças entre meus súditos (ops!, desculpem outra vez), de tanta acrimônia acumulada, de tantas aposentadorias não confirmadas, tanto temor na segurança pessoal e tantas incertezas na saúde coletiva?

Vejam que estou sendo absolutamente sincero ao confessar meus primeiros pecados. Eles são muitos, pequenos e grandes, veniais e mortais (mas o Estado não morre, ele tem um espírito à la Lavoisier), mas com a ajuda de vocês – menos xingamentos, por favor – vou tentar esvaziar meu saco de maldades à vista de todo mundo. Aguardem a torrente…

Pelo Estado, para o Estado, tudo no Estado: Paulo Roberto de Almeida

[Brasília, 5303, 5 maio 2026, 4 p.]

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