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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?); + resumo de Madame IA

 

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados

Eu tive muitos servidores em minha atribulada carreira de guardião, preceptor, indutor, patrocinador e corregedor de tantos administradores que atenderam aos meus propósitos, nem sempre com a habilidade necessária para fazer o Brasil despontar entre os melhores do mundo, como era o meu desejo (nem poderia, com tantas deficiências de origem e com as deformações criadas por alguns desses atendentes provisórios na grande missão de governança de um país dotado pela natureza de bondades não aproveitadas). A todos concedi certa liberdade para administrar os assuntos correntes, não hesitando, porém, em lhes sabotar as ações, direta ou indiretamente, sempre quando percebia algum desvio da minha lógica implacável: o Estado, ou seja, eu mesmo, deve sempre prevalecer, em face de quaisquer outros objetivos alheios a mim.

O primeiro e o maior de meus servidores foi um verdadeiro intelectual, jornalista esclarecido, homem de muitas luzes, a quem não hesito em chamar de primeiro estadista legitimamente brasileiro, mesmo sem residir nestas paragens durante toda a sua vida adulta: quero me referir ao jovem Hipólito da Costa, perseguido em Portugal por essa entidade maléfica chamada Inquisição, e que teve de se refugiar na Inglaterra para escapar de uma prisão injusta; para servir à sua verdadeira pátria, deu início a um “armazém literário” que manteve sozinho por 14 anos, até a consecução de uma independência que ele já considerava inevitável desde 1808, quando lançou o seu empreendimento informativo, elucidativo, instrutivo e pedagógico. Poucos intelectuais brasileiros podem exibir, como Hipólito, a glória de ter formado mais de uma geração de estadistas brasileiros (alguns portugueses também), apenas pela sua atividade de leitor, de redator e de intérprete dos grandes acontecimentos do seu tempo, numa dimensão propriamente internacionalista (que não deixa de ser também, de certo modo, a minha, pois que como Estado constituído, membro fundador da ONU, tenho frequentemente de me confrontar a outros poderes regionais e às grandes potências desse nosso planetinha redondo).

Tive muitos outros aprendizes e assessores, ao longo do século XIX, e desejo destacar Luiz Gama e Joaquim Nabuco, que lutaram contra a instituição mais nefasta da história da nação, a escravatura, que ainda assim se manteve impérvia por muito tempo, mais até do que deveria. Entre aqueles que mais se distinguiram na defesa de meus interesses, econômicos, políticos, diplomáticos, esteve um certo José Maria da Silva Paranhos Júnior, bon vivant na juventude, passada entre farras e aventuras amorosas, ingressado pela janela na carreira consular (quando o Imperador viajou ao exterior e sua filha assumiu o trono), dedicado aos estudos históricos nos 20 anos durante os quais serviu como cônsul em Liverpool, o maior porto comercial da Inglaterra do século XIX (mas ele passava a maior parte do tempo em Paris), e que, por um golpe de sorte, foi convidado a defender a minha causa num entrevero com os hermanos a propósito de uma disputa pelo território das Missões, no sul dos meus pagos. Alguém se lembrou dele, como estudioso de velhos mapas e manuscritos coloniais, quando o Barão que defendia os meus interesses veio a bater as botas inopinadamente; ele foi retirado da boa vida, recebendo em libras esterlinas, no padrão ouro legítimo, e gastando em francos, mero padrão prata, minoritário.

Não é que o estroina da juventude se converteu no maior sábio com respeito às minhas fronteiras, muitas ainda não demarcadas, derrotando as pretensões argentinas sobre um pedaço considerável do território sulino lindeiro com aqueles arrogantes vizinhos? Ele se revelou tão competente nesse primeiro caso, que eu fiz os presidentes seguintes continuarem a usar de seus serviços de historiador e negociador de minhas fronteiras, também com a França (sobre o Oiapoque) e logo em seguida como preparador dos materiais documentais para que o amigo Joaquim Nabuco passasse a defender minhas fronteiras com a Guiana inglesa, as quais os ambiciosos britânicos querem vê-la estendidas até os nossos rios amazônicos. Nabuco continuavam monarquista, dez anos depois da inauguração da República por aqueles milicos ressabiados para comigo, quando eu era um Império meio decadente, da mesma forma como Paranhos Jr., convertido em Barão do Rio Branco – no seguimento do pai, que era Visconde sob o mesmo título –, mas ele foi esperto o suficiente para acrescentar Rio-Branco ao próprio nome, dispensando o título honorífico de barão. Todos sabiam que, sob a República (que abolira todas aquelas honrarias), só havia um barão, aliás com B maiúsculo, sem precisar mais nada.

Era Barão para cá, Barão para lá, sobretudo depois que o presidente de turno o chamou para ser o seu chanceler, o que ele aceitou com relutância, pois teria de sair do universo da libra britânica, como ministro em Berlim, para cair na miséria dos mil-réis na capital do Brasil. O Barão atravessou quatro presidentes, sem que nenhum ousasse dispensar seus serviços – eu também não o faria, e teria gostado de vê-lo como presidente em 1910, no lugar daquela mula fardada, um tal de Marechal Hermes da Fonseca, sobrinho do primeiro presidente-ditador – e morreu no gabinete que ocupava no velho Palácio do Itamaraty em 1912, ainda deitado sobre velhos mapas e manuscritos coloniais. O Barão – que depois figurou em todas as oito moedas que tivemos nos 140 anos seguintes – foi o servidor que melhor me ajudou a consolidar as minhas fronteiras, ainda objeto de cobiça e disputas com os vizinhos hispânicos, sempre hostis aos nossos interesses, como os espanhóis sempre foram com os meus avós lusitanos. Devo dizer que ele também gastava à tripa forra, para desgosto do meu ministro da Fazenda, que tinha de satisfazer o apetite de Paranhos por recepções nababescas para os visitantes estrangeiros, o envio de preguiçosos diplomatas para conferências na Europa, além de subornos a certos jornalistas, para que lhe enaltecessem a figura e as suas vitórias nas páginas dos diários da capital.

Eu também defendia o Barão todas as vezes que podia, sussurrando aos presidentes que deixassem a política externa e a diplomacia (duas coisas diferentes) sob o domínio exclusivo do filho do Visconde, de tão nobre memória nos tempos do Império e do velho Senado: até um escritor mulato, que depois se tornou muito famoso, como fundador da Academia de Letras, fez uma crônica estupenda sobre a figura do Visconde, estadista ainda superior em qualidades no confronto com o filho, que tentou continuar suas virtudes (e conseguiu). Fiquei extremamente consternado quando ele morreu, pouco antes do Carnaval de 1912, e até tentei postergar os folguedos, o que o tal de “mula fardada” cumpriu, deslocando os festejos para o mês de abril; mas o povo carioca, zombeteiro e rebelde como sempre foi, aproveitou para ter dois carnavais, o postergado, em fevereiro, e o “oficial”, em abril daquele ano. Fui compreensivo com a tramoia, tanto porque os patrocinadores dos desfiles queriam impulsionar um tal de “jogo do bicho”, que havia começado clandestinamente pouco antes, e não perdiam oportunidade de lucrar contra os impostos oficiais (mas, confesso que eu também fazia uma fezinha, de vez em quando).

Depois do Barão, a maior parte dos chanceleres foram mais ou menos medíocres, não tanto pelos diplomatas, que tinham boas virtudes – mas eles viviam no exterior, pouco sabendo das coisas do Brasil – e sim pelos parlamentares ou magistrados que ocupavam o cargo, sem que eu os fizesse compreender nosso potencial no novo mundo americano que se formava depois da Grande Guerra, mas alguns presidentes também foram excepcionalmente estúpidos, como um que veio das Minas Gerais, o teimoso Artur Bernardes, que fez o Brasil abandonar a Liga das Nações, nossa primeira experiência multilateral, desperdiçada pela ignorância do presidente. O único parlamentar com estatura de estadista que poderia se ombrear a Rio Branco, foi um gaúcho com tino de estadista, que foi ministro, embaixador e chanceler na perigosa década de 30, aliás, o verdadeiro líder da Revolução de 1930, pois que o candidato derrotado nas urnas fraudadas do pleito presidencial daquele ano, o também gaúcho Getúlio Vargas, governador do seu estado, muito temeroso de empreender ele mesmo a marcha sobre o Rio de Janeiro, para derrubar o paulista Washington Luíz.

Mas, eu me adianto muito no relato dos meus feitos e malfeitos, pois que estou justamente pulando o evento seminal do século XX, a Grande Guerra, aquela que trouxe todas as misérias de um breve século, de menos de cem anos, que começou estrepitosamente com o bolchevismo e o fascismo, continuou na Grande Depressão, e provocou, vinte anos depois, uma nova e terrível conflagração mundial, que mudou terrivelmente a vida de milhões de pessoas. Os europeus tinham lá as suas desavenças – restos de guerras até feudais, segundo um historiador – e começaram as terríveis matanças nos Impérios centrais, nos Balcãs e nos mares, e eu fiz questão de preservar nossa estrita neutralidade, até onde foi possível. Mas, de repente, os alemães (sempre eles), começaram a afundar alguns dos nossos navios, e tivemos de seguir os Estados Unidos e entrar naquela terrível hecatombe. Até chegamos a enviar soldados para a Europa, mas eles morreram antes de entrar em combate, vitimados pela, ainda mais terrível, Gripe Espanhola, que também deixou milhões de mortos, mundo afora, não só na Europa; no Brasil, a incúria dos meus servidores oficiais só servia para mandar as carroças carregar os mortos que iam perecendo nas ruas e calçadas.

Logo depois da guerra terminar em armistício, houve uma conferência em Paris, em 1919, que tratou de fazer a paz entre os impérios guerreiros, mas aquilo só conseguiu colocar toda a culpa na Alemanha, que tinha de pagar reparações durante 40 anos aos vencedores: nunca o fez, e um novo ditador ridículo, em 1933, declarou que não pagaria mais nenhum centavo. Em todo caso, aquela nossa participação nas negociações de Paris, e no tratado de Versalhes, ofereceu uma oportunidade nunca antes vista na história da República: eleger um novo presidente que jamais fez campanha, sequer estava no Brasil quando foi “eleito” pela famosa “comissão de verificação”: Epitácio Pessoa voltou triunfante de Paris, enquanto o “homem mais inteligente do Brasil” (segundo os baianos), Rui Barbosa, perdia pela segunda vez uma campanha à presidência; a primeira tinha sido justamente em 1910, contra a “mula fardada”, o já mencionado Marechal Hermes.

Pouco antes da guerra começar na Europa, em 1914, tínhamos feito um último funding loan, uma mania que vinha do Império, mas que nos permitia alguma folga financeira ante os déficits habituais, empréstimos exacerbados pela Constituição de 1891, que permitiu aos estados e municípios contrair empréstimos no exterior sem o aval da União, o que redundou numa orgia de lançamento de títulos até por capitais de pequenos e pobres estados. Mas esse é um episódio trágico em minha história de vida, que vou contar em detalhes num próximo capítulo desta minha autobiografia razoavelmente sincera.

Brasília, 5396: 10 de julho de 2026

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Madame IA comenta: 

https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/autobiografia-

de-um-fora-da-lei-7-o.html

 

O texto analisado é Fato, tratando-se de um ensaio histórico-literário legítimo publicado pelo diplomata Paulo Roberto de Almeida na revista Será? e reproduzido em seu blog pessoal. Sob uma técnica de personificação, o autor fala em nome do próprio Estado brasileiro para repassar marcos da história diplomática nacional.


Análise Crítica e Multifacetada

🏛 Perspectiva Política e de Governança

O texto utiliza a alegoria do Estado absolutista ("o Estado sou eu") para analisar de forma  os governantes que geriram o Brasil ao longo dos séculos. O autor expõe o

constante conflito entre a perenidade das instituições nacionais e a volatilidade de líderes temporários, tecendo duras críticas a figuras como o Marechal Hermes da Fonseca ("mula fardada") e Artur Bernardes, apontando como decisões personalistas e o caudilhismo abotaram o potencial geopolítico do país.


🌍 Perspectiva Geopolítica e Histórica

O ensaio traça com precisão cirúrgica a consolidação das fronteiras brasileiras, destacando do Império para a República. A narrativa exalta as vitórias jurídicas e

cartográficas do Barão do Rio Branco nas disputas de limites com Argentina (Missões), França (Oiapoque) e Reino Unido (Guiana), demonstrando como a diplomacia baseada no conhecimento técnico e histórico substituiu o recurso à força militar para garantir a integridade territorial do Brasil na América do Sul.


📉 Perspectiva Econômica e Financeira

Sob a ótica econômica, a crônica desnuda as fragilidades estruturais e os vícios fiscais do Brasil desde o século XIX. O autor faz menção crítica aos mecanismos de funding loans e à descentralização excessiva da Constituição de 1891a, que permitiu a estados e municípios contraírem dívidas externas de forma irresponsável e sem lastro da União, gerando crises de endividamento crônicas e submissão aos fluxos de capitais britânicos (padrão-ouro).


Perspectiva Jurisdicional e Institucional

O texto aborda o processo de amadurecimento institucional por meio de suas rupturas e das lutas por direitos essenciais. São celebradas as atuações de Luiz Gama e Joaquim Nabuco na abolição da escravidão, rotulada como a instituição mais nefasta da história nacional. No campo das relações externas, aponta as consequências desastrosas do isolamento institucional provocado pela retirada do Brasil da Liga das Nações sob o governo Bernardes, evidenciando o perigo do afastamento das esferas multilaterais de direito internacional.


🧠 Perspectiva Filosófica e Intelectual

Filosoficamente, a obra discute o papel do intelectual na formação da consciência nacional. Ao eleger Hipólito da Costa como o primeiro estadista legítimo pelo seu papel pedagógico no Correio Braziliense, o autor defende que a verdadeira soberania e a construção de uma pátria livre emanam do livre debate de ideias, do conhecimento crítico e da racionalidade jornalística, sobrepondo o poder das luzes e da inteligência às amarras do autoritarismo ou do dogmatismo repressor de sua época.


sexta-feira, 24 de julho de 2026

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?) + Madame IA

Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República

O Estado

O Estado

Caros leitores: quem escreve sou mesmo, um velho conhecido de vocês, isto é, o Estado brasileiro, agora observando uma parada reflexiva, para reconsiderarmos o que eu andei fazendo até a inauguração da República para melhorar a vida de vocês (ou talvez não, mas pelo menos eu tentei). Concluí o meu relato anterior, por estas frases dubitativas: “O ‘meu’ Estado oligárquico se preparava para perpetrar mais maldades sob novas roupagens, mas com as mesmas perversas intenções de um fora-da-lei assumido, governando pelos caprichos e arbítrios habituais. Não sei o que melhorou com a troca da monarquia pela república, mas isso já é uma outra história que vou contar da próxima vez.”

Pois bem, chegou o momento de maior responsabilidade no relato que eu mesmo empreendi, por caminhos controversos, sempre aumentando o meu poder sobre a nação, sobre a sociedade e sobre os indivíduos que a integram, como você, caro amigo, que me lê neste momento. Será que minha trajetória, até chegar na República foi virtuoso ou, pelo contrário, esteve contaminado por ações irrefletidas, mais pensando em mim mesmo, do que na sociedade que me sustenta? Sim, tenho a impressão de que o tratamento que eu lhes concedo é, em vários casos, altamente desigual, com alguns aproveitando ao máximo regalias concedidas por mim, por vezes até regiamente (que o digam os aristocratas do Judiciário e outros aproveitadores conhecidos). Mas vamos primeiro reconsiderar o trajeto percorrido.

Eu já lhes expliquei por que eu decidi escrever minha própria biografia: foi para não deixar esse relato em mãos desavisadas e tendenciosas. Já falei de meu nascimento, aliás nas terras distantes dos meus avozinhos; lhes dei data e local do parto e a paternidade presumida. Também relatei minha criação por um método confuso, estilo tocata e fuga, sem qualquer partitura escrita, minha trajetória colonial; abordei a fuga da família real portuguesa em 1807 e sua instalação em 1808, o que me deu, pela primeira vez, vontade de me estabelecer sozinho, de cuidar de minha própria vida, de expandir meus poderes – o território já tinha sido ampliado, por um nativo da terra, a serviço de um monarca dominado por um ministro autoritário – e até gozei de um momento de glória, ao passar de colônia a Reino-Unido (que foi uma promoção merecida, reconheçamos), embora não tenha havido nenhum brasiliense no Congresso de Viena, que foi a minha iniciação na diplomacia multilateral (na verdade muito lateral, do ponto de vista dos meus preceptores). Reconheço, entretanto, que o príncipe regente, de nome João, fez algumas boas coisas, antes e depois de 1815.

Logo depois eu me encontrei em face do meu próprio destino, já a caminho da independência, mais negociada do que conquistada, e que durou alguns anos, até que eu me livrasse, finalmente, dos meus tutores. Eles foram embora, mas saquearam, ao partir, o meu primeiro banco, me deixando na penúria. O príncipe impulsivo que começou a tomar conta dos meus assuntos de Estado era muito afoito, mais ainda como imperador, e tinha muitos maus modos (sobretudo com as mulheres); começou fechando a minha primeira Assembleia Constituinte, que era uma chance que eu estava concedendo a meus súditos de deliberar eles mesmos sobre os mais importantes assuntos da vida prática. Não deu outra: ele acabou outorgando uma carta liberal-escravista, meu primeiro contrato constitucional, que acabou durando mais do que todos os outros: quando a escravidão acabou, tardiamente, acabou também aquele regime exótico, num hemisfério quase todo ele republicano.

Atravessei algumas revoltas, algumas bem violentas e cruentas, que esquartejaram o corpo da pátria: eram, digamos assim, revoltas e rebeliões “adolescentes”. Algumas, como naquela terra que já tinha lutado contra uma outra invasão estrangeira, Pernambuco, foram bem mais sérias. A insurreição de 1817, ainda no Reino “desunido”, foi selvagemente reprimida pelas tropas lusitanas; a de 1824, tentou corrigir aspectos pouco recomendáveis da Constituição de 1824, contra a qual se rebelou um religioso, conhecido como Frei Caneca, que até parecia um jurista respeitado. Ao fim e ao cabo, conseguiram, os agora brasileiros, expulsar o primeiro imperador, mas tiveram de passar pela confusa experiência das regências, um aprendizado de regime quase republicano. A partir daí, vivemos relativamente em paz com meu novo representante à frente do Estado: era um jovem inexperiente, mas de boas intenções, um rapaz muito lido e até sabichão em algumas matérias. Ele logo constatou como era duro reformar e modernizar um país que estava entregue aos conhecidos oligarcas que mandavam nestas terras desde o começo. As amarras conservadoras inviabilizaram todas as tentativas de abolir o tráfico, acabar com a escravidão, enfim, trazer progresso e indústria aos meus domínios (muitos ainda eram sertões completamente indevassados).

Não me estendo muito sobre os desafios externos, que também refletiam certa incapacidade interna; depois das guerras platinas, legado do precário imperialismo lusitano, tive de enfrentar alguns ditadores nos arredores, mas os perigos mais cruciais eram mesmo internos: os déficits fiscais criados com os desequilíbrios orçamentários, um mal crônico que redundou numa dívida externa impagável. Não posso dizer que o segundo imperador passou a sofrer de deliquescência senil, pois até começou a viajar muito ao exterior, mas parece que se agravaram os reumatismos de sua condição monárquica meio republicana (ele abusava um pouco do Poder Moderador). Os problemas maiores estavam mesmo no enfrentamento das questões sociais e políticas, embora os militares e os religioso tenham também passado a incomodar logo depois da guerra do Paraguai: meu genro, um francês pretensioso, não muito querido por meus súditos, por um momento no comando da ofensiva final, mandou perseguir até a morte o arremedo de Napoleão que tinha começado aquela maldita guerra: isso causou uma péssima impressão entre os vizinhos, que começaram a achar que eu era realmente um imperialista (um exagero, embora essa imagem tenha voltado a circular quando outros militares quiseram mandar na política interna e na externa, muitos anos depois).

O fato é que o nascimento da República se deu por meio de um golpe improvisado e algo canhestro, mas não quero entrar nos detalhes para não melindrar meus leitores. O fato é que, finalmente, eu virei “americano”, embora o adeus definitivo à velha Europa ainda teve de esperar mais um pouco. Em todo caso, minha primeira constituição “federativa” tinha vários artigos de imitação, copiando a primeira (até agora única) Constituição americana, inclusive no nome que deram ao Estado, só trocado várias décadas após a Constituição de 1891; ela tinha vários equívocos conceituais, que não pretendo discutir, para não me arvorar em jurista abusado. Ela começou a ser desrespeitada pelo próprio primeiro presidente, o mesmo marechal que tinha, sem o saber, dado o golpe republicano; depois foi desrespeitada múltiplas vezes pelo segundo marechal-presidente, um homem violento que achava que todos os problemas deviam ser, literalmente, resolvidos a bala.

O começo foi, portanto, difícil, mas com a eleição do primeiro civil para presidir o meu Estado, entramos, de alguma forma, na paz das oligarquias: foi aí que começou o café-com-leite do menu republicano, sobretudo paulista e mineiro, com algumas incursões de cariocas e outros pretendentes, mas sempre dentro dos arranjos oligárquicos que passaram a gerir nossa tradicional instabilidade político-econômica, feita de déficits e de dívida externa. O lado mais deprimente dessa sucessão de dirigentes civis era o percurso tradicional que eles tinham de fazer logo depois de eleitos, no mês de março (mediante aquelas falcatruas que vocês podem imaginar como era, com um mínimo de votantes alfabetizados): uma vez que a posse só se dava oito meses depois, em 15 de novembro, o eleito tomava um navio e ia para a Europa, negociar um novo funding loan com os banqueiros da City, ou implorar créditos, financiamentos e alguns investimentos no continente europeu. Aparentemente voltavam com mais alguns milhões prometidos, e assim continuou até o limite das possibilidades externas.

Mas antes de falar das crises externas, cabe mencionar, ainda que en passant, as controvérsias internas, bem mais complicadas que as externas, mas quase nada impedia o consenso das elites sempre em seu próprio favor. O povo continuou a assistir estupefato o espetáculo do poder dessas oligarquias, como já tinha sido o caso no golpe da República, e continuou a ficar assustado com a violência dos militares, no combate a algumas revoltas provinciais. A mais importante delas, nos sertões da Bahia, foi confundida com uma tentativa de insurreição monarquista, e devidamente massacrada até o último reduto daquela “Troia de barro”, como a chamou um jornalista atilado, que depois escreveu um maçudo livro, cientificista, mas em tons tolstoianos, sobre a incompetência dos milicos, que tiveram de empreender várias expedições até dar cabo dos rústicos “milenaristas”.

A característica principal da “Velha República”, como depois os historiadores alcunharam essa primeira fase de minha vida republicana, era o fato de as eleições serem perfeitamente falsas, muito embora a representação pudesse ser considerada “verdadeira”. Assim opinou, em suas tardias memórias, um jornalista de província, que começou sua vida política matando um crítico sincero de sua poesia desengonçada: ele se saiu melhor, bem mais tarde, como jurista internacionalista, amado ao que parece, dos diplomatas fidalgos que representavam a República no exterior (a despeito de serem clandestinamente monarquistas). O voto, como se sabe, era a “bico de pena”, e não valia muito, pois o que contava mesmo eram as contas da “comissão de verificação”, que já sabia de antemão quem merecia ser eleito. Essa toda poderosa instituição eleitoral, sabia exatamente como eleger um presidente, com um mínimo de votos, obviamente fraudando o que precisava ser fraudado.

Independentemente desses aspectos secundários na vida da nação, todo o resto marchava de modo tranquilo: os barões do Império, que deviam tudo, ou quase tudo, ao café, especulavam muito no câmbio e depois iam torrar a sua dinheirama nos cabarés de Paris, acendendo charutos com notas de 100 francos e tomando champagne nos calçados das demoiselles, que os fascinavam com danças provocantes. Bem, como a despeito de autossuficiente, sou também bibliófilo, relato o que encontrei num velho dicionário francês do início do século XX, num verbete intitulado “paulistade” (assim mesmo). E o que era a “paulistada”? Era exatamente o hábito de gastar à tripa forra nos cafés de Paris, a partir exatamente dos ganhos nababescos com a exportação do ouro verde, a base única das minhas receitas e da minha presença no mundo, até a segunda metade do século (e um pouco até hoje). Ou seja, eu devo tudo o que passei a ser, na era republicana, ao café.

Opa: faltou justamente explicar por que eu considero a República o desafio maior da minha auspiciosa trajetória: existem motivos suficientes, mas isso vou relatar nos próximos episódios destas minhas crônicas escritas em total sinceridade.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5394, 9 julho 2026, 4 p.

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 Madame IA reescreve esse capítulo da autografia do Estado em linguagem popular: 

Reescreva o conteúdo/texto da postagem do link https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-6.html (título da postagem, entre aspas: "Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)"). O texto reescrito deverá ser em linguagem coloquial do Brasil; deverá ter, no máximo, 5500 caracteres. 

Abaixo está o conteúdo completo da postagem do blog retrabalhado exatamente conforme as suas instruções, adaptado para o português coloquial do Brasil, mantendo o tom irônico do texto original e respeitando o limite de tamanho:
Texto Reescrito: O Estado Brasileiro Conta Sua História:
Fala, pessoal! Quem está falando aqui sou eu mesmo, o Estado brasileiro. Dei uma parada para refletir sobre o que andei aprontando até a chegada da República. Quero ver se melhorei a vida de vocês (ou se só tentei e falhei!). No último papo, comentei que minha versão antiga ia aprontar mais sob uma nova roupagem. Eu agi como um verdadeiro fora-da-lei, mandando na base do capricho. [1, 2, 3, 4, 5]
Agora chegou a hora de falar a real. Sempre acumulei poder sobre a nação e sobre você, que está me lendo. Será que fui legal ou só pensei no meu próprio umbigo?. O jogo sempre foi meio desigual por aqui. Tem gente que aproveita regalias demais, tipo a elite do Judiciário e outros espertalhões. [1, 2, 3, 4, 5]
O Começo de Tudo: Da Colônia ao Império:
Escrevo minha própria biografia para ninguém contar mentiras sobre mim. Nasci em terras distantes, num parto bem confuso. Em 1808, a família real portuguesa fugiu para cá. Ali me deu vontade de virar dono do meu próprio nariz e expandir meus poderes. Viramos Reino-Unido, mas não apitamos nada no Congresso de Viena. O Rei Dom João até que quebrou uns galhos antes de ir embora. [1, 2, 3, 4, 5]
Depois veio a Independência, que foi mais comprada e negociada do que lutada. Os tutores portugueses foram embora, mas limparam o caixa do nosso primeiro banco. Dom Pedro I era bem afoito e meio sem modos. Fechou a Assembleia Constituinte e impôs uma Carta liberal-escravista. Quando a escravidão acabou, o regime exótico caiu junto. [1, 2, 3, 4, 5]
Revoltas, Regências e o Segundo Imperador:
Passei por várias rebeliões violentas na minha fase "adolescente". Em Pernambuco, o pau quebrou em 1817 e 1824. Frei Caneca peitou as ordens da Constituição e acabou virando mártir. Expulsamos o primeiro imperador e caímos na bagunça das Regências. [1, 2, 3]
Depois, assumiu o herdeiro novo: um rapaz muito lido e meio sabichão. Dom Pedro II logo viu como era difícil modernizar um país entregue às oligarquias. Os fazendeiros travaram o fim do tráfico, da escravidão e o progresso industrial. Tivemos crises fiscais graves e uma dívida externa que parecia impagável. Na Guerra do Paraguai, pegamos pesado demais com o ditador vizinho. Ficamos com fama de imperialistas na região. [1, 2, 3, 4, 5]
A República do Café com Leite:
A República nasceu de um golpe improvisado e bem esquisito. Nossa primeira Constituição federativa copiou os americanos descaradamente. O primeiro presidente marechal já nasceu desrespeitando as regras. O segundo marechal era pior: achava que problema se resolvia na bala. [1, 2, 3, 4]
Depois dos militares, veio a calmaria dos políticos civis. Entramos no esquema do café-com-leite entre paulistas e mineiros. A rotina dos eleitos era sempre a mesma: [1, 2]
  • Ganhavam a eleição em março com fraudes descaradas.
  • Pegavam um navio rumo à Europa antes de assumir.
  • Imploravam novos empréstimos para os banqueiros de Londres. [1, 2]
O povo assistia a tudo chocado, enquanto o exército massacrava revoltas provinciais. No sertão da Bahia, em Canudos, destruíram tudo até o último reduto. Um jornalista escreveu um livro enorme criticando a burrice dos milicos contra os sertanejos. Nessa Velha República, as eleições eram totalmente de fachada. O voto "a bico de pena" não valia nada. Quem mandava de verdade era a comissão de verificação que escolhia quem ia vencer. [1, 2, 3, 4, 5, 6]
Enquanto isso, os barões do café enchiam os bolsos com o ouro verde. Eles viajavam para Paris para torrar a dinheirama nos cabarés. Acendiam charutos com notas de 100 francos para ostentar com as francesas. Isso era a famosa "paulistada", que virou até verbete em dicionário francês. No fim das contas, eu devo tudo o que sou ao café. Mas por que a República virou meu maior desafio?. Isso eu conto nos próximos episódios!. [1, 2, 3, 4, 5, 6]


 

 

 

 

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Continuidade da série Uma História do Estado brasileiro: autobiografia de um fora-da-lei - Paulo Roberto de Almeida (síntese Madame IA)

PRA: Não vai entrar no catálogo da historiografia, no máximo, ou no mínimo, para o rol da literatice apenas curiosa, mas a peculiaridade de apoiar-se num conhecimento relativamente amplo do processo histórico e dos eventos e episódios que trouxeram o Brasil a ser o que basicamente é: um gigante pela própria natureza, como cantam alguns, mas com muitas oportunidade desperdiçadas de servir bem ao seu povo, dando-lhe educação de qualidade, condições dignas de trabalho, inserção na economia mundial, prosperidade e bem-estar. Perdemos tudo isso, ou apenas realizamos nossas possibilidades parcialmente e grotescamente, pela natureza oligárquica do tipo de dominação política, ao longo de quatro séculos e meio, pela atitude predatória da maior partes dos dirigentes políticos na atualidade e pela mediocridade de suas elites econômicas, incapazes de formular um plano de desenvolvimento coerente para o país.

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Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro: publicados na série, de 1 a 5 - Paulo Roberto de Almeida: 

Acesse especificamente as partes que trazem o texto reescrito (em linguagem popular/coloquial) nos links: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/a-autobiografia-de-um-fora-da-lei-o.html (partes 1 e 2), https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do.html(parte3), https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/a-autobiografia-do-estado-relida-e.html (parte 4); além do texto original em: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como.html (parte 5). Aglutine/Junte os textos citados anteriormente em um único texto. O texto juntado/aglutinado será reescrito novamente e deverá considerar os links na ordem que aparecem; deverá ser novamente em linguagem popular do interior do Brasil; deverá ter, aproximadamente, 5500 caracteres; deverá manter a linha de pensamento e as ideias e opiniões. 

O Causo do Estado Sem-Vergonha (Partes 1 e 2)
Achegue o banco, tire o chapéu e escute esse causo comprido. Sabe o Estado brasileiro? Pois é, esse danado resolveu ele mesmo contar a sua própria vida, numa prosa sincera que nem conversa de compadre na beira do fogão a lenha. Mas já vou avisando: o sujeito não é flor que se cheire, não! Ele mesmo já começa batendo no peito e confessando que é um baita de um fora-da-lei, um cabra sem-vergonha que nunca ligou pros bons costumes e muito menos pras leis que ele mesmo inventa pro povo cumprir. [1]
Na Parte 1, esse malandro chega proseando com todo mundo: com o trabalhador de enxada na mão, com as donas de casa, com os donos de venda e os doutores. Ele destampa o bico pra dizer que canso de se esconder atrás de conversa fiada de político e resolveu confessar como é que ele funciona por dentro. O bicho confessa que a sua verdadeira lida, desde que fincou os pés nessas terras, é viver às custas do suor alheio. Ele se acha o dono do terreiro e olha pro cidadão comum não como um patrão, mas como um "contribuinte" passivo — ou seja, uma vaquinha leiteira que tá ali só pra ser ordenhada dia e noite através de imposto. [1]
Já na Parte 2, o Estado vem explicar o seu "modo de fazer as coisas", o tal do método. Ele dá uma risada rasteira e zomba da cara de quem acha que ele foi feito pra ajudar os mais necessitados ou pra botar ordem no galinheiro. Que nada! Ele conta que a sua história de contraventor foi escrita sob medida pra proteger o bolso dos coronéis, dos barões e dos ricaços de plantão. Ele cria as regras do jogo, mas na hora de jogar, ele mesmo passa a perna na lei pra favorecer os seus chegados. O danado do Estado se pinta como uma engrenagem pesada, que engole o dinheiro do povo e devolve muito pouco, mandando e desmandando conforme o capricho de quem tá sentado na cadeira do poder. É um legítimo lobo em pele de cordeiro contando como aprendeu a dominar o galinheiro sem precisar pedir licença pra ninguém! [1]
O Causo do Estado Sem-Vergonha (Parte 3: Do Nascimento a Tempos Incertos)
Pois é, compadre, na Parte 3 esse cabra sem-vergonha do Estado resolveu contar como foi que ele nasceu. E olha que a parteira dele não foi nenhuma santa, não! Ele confessa que nasceu de um cruzamento heróico, mas bem do esquisito, lá pelos idos de mil e quinhentos, quando umas caravelas de Portugal aportaram por aqui cheias de marujos que não queriam saber de pegar na enxada.
O bicho conta que, desde o primeiro choro de recém-nascido, a sua sina já era ser meio "torto". Ele não nasceu com aquele propósito bonito de cuidar da terra ou de fazer o bem pro povo que já morava aqui ou pros coitados que vieram amarrados nos porões dos navios. Que nada! O Estado brasileiro assume que nasceu com uma fome de leão, criado sob medida por um rei que morava lá na baixa do amparo, do outro lado do mar, só para arrancar tudo o que essa terra dava e mandar de balsa para a Europa. Era ouro, era pau-brasil, era açúcar... o Estado era o capataz que vigiava o eito para garantir que ninguém escondesse uma pepita no bolso.
Nesses tempos antigos e incertos, ele era uma mistura de soldado com cobrador de impostos. Não tinha essa conversa de escola pública, de posto de saúde ou de estrada boa para a carroça passar. A única coisa que funcionava direito era a tal da "derrama" — que era quando o Estado entrava nas fazendas chutando a porta para levar até as panelas de cobre se o povo não pagasse os quintos do ouro pro rei.
Ele dá risada contando que o povo da roça achava que as coisas iam mudar quando o tempo passasse, mas o Estado já tinha aprendido o truque de ser folgado desde o berço. Ele foi crescendo, fincando as garras em cada canto desse sertão e mostrando que, mudando o vento ou mudando o mestre, a única certeza é que o lombo do caboclo continuaria servindo de esteira para a bota do jandala passar. Nasceu na malandragem e, pelo que ele mesmo diz, tomou gosto pelo serviço!
O Causo do Estado Sem-Vergonha (Partes 4 e 5: De Reino Unido a Dono do Terreiro)
Na Parte 4, esse danado do Estado conta com um sorriso de orelha a orelha a época em que a corte de Portugal veio correndo pra cá, com medo de um tal de Napoleão que tava tocando o terror lá na Europa. O Estado achou bom demais! Ele se gabava dizendo que o Brasil deu um salto: deixou de ser uma colônia largada às moscas e virou "Reino Unido" junto com Portugal. Foi uma promoção merecida, sô!
Pouco tempo depois, veio aquele grito na beira do riacho do Ipiranga e a gente virou um Império independente. Mas o Estado confessa, na maior cara de pau, que essa independência foi só para inglês ver. Por fora, a carcaça mudou, ganhou brasão bonito e coroa de ouro; por dentro, a engrenagem continuou a mesmíssima coisa: cobrando caro do povo para sustentar a corte e os mimos do imperador.
Aí a prosa chega na Parte 5, e o bicho destampa o bico para contar o maior golpe de mestre. Ele dá risada dizendo: "Pois é, compadre, eu consegui me livrar dos portugueses, mas acabei ficando amarrado no toco com os oligarcas nacionais!". Quando proclamaram a tal da República, o povo da roça achou que ia finalmente ter vez. Que bobagem!
O Estado conta que só trocou de patrão. Saíram os nobres de Lisboa e entraram os barões do café com leite e os coronéis do interior. Esse Estado malandro se uniu com os ricaços das finanças e os donos de grandes terras para mandar no terreiro. Ele criou um sistema onde as leis só valem para o caboclo descalço, enquanto a turma do colarinho branco faz a festa, divide o bolo do orçamento entre os seus chegados e deixa as migalhas para o resto do espólio. O bicho termina a prosa rindo da nossa cara, dizendo que passou séculos mudando de roupa e de nome, mas continua sendo o mesmo fora-da-lei de sempre, mandando no sertão e vivendo da nossa lida!

domingo, 12 de julho de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro: publicados na série, de 1 a 5 - Paulo Roberto de Almeida

  

Autobiografia de um fora-da-lei: uma história do Estado brasileiro

Capítulos publicados na série, 2026, do n. 1 ao n. 5

  

Paulo Roberto de Almeida

Atualizada em 12 de julho de 2026


Capítulos já publicados:

1645. “Autobiografia de um fora-da-lei, 1: a trajetória do Estado brasileiro”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p. Introdução a uma biografia sincera de um contraventor da lei e dos bons costumes: o Estado brasileiro, narrada, de forma inédita, na primeira pessoa. Revista Será? (ano xiv, n. 710, 15/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1-a-trajetoria-do-estado-brasileiro/); divulgado no Diplomatizzando (15/05/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-1.html). Relação de Originais n. 5303.

 

1647. "Autobiografia de um fora-da-lei, 2: o Estado visto por ele mesmo”, Brasília, 5 maio 2026, 4 p.; revisão: 20/05/2026. Uma questão de método: como o Estado pode escrever sua própria biografia? Revista Será? (ano xiv, n. 711, 22/05/2026; link: https://revistasera.info/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o-estado-visto-por-ele-mesmo/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/05/autobiografia-de-um-fora-da-lei-2-o.html). Relação de Originais n. 5304.

 

1650. “Autobiografia de um fora-da-lei, 3: do nascimento a tempos incertos”, Brasília, 6 maio 2026, 4 p. Das origens ao vice-reinado: uma trajetória colonial a serviço da metrópole. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 712, 5/06/2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do-nascimento-a-tempos-incertos/); divulgado no Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-3-do.html). Relação de Originais n. 5305.

 

1652. Autobiografia de um Fora-da-Lei, 4: de colônia a Reino Unido ao de Portugal e uma promoção merecida a Império independente”, Brasília, 6 junho 2026, 4 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro, para a revista Será? (ano xiv, n. 715, 26 junho 2026; link: https://revistasera.info/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de-colonia-a-reino-unido-ao-de-portugal-e-uma-promocao-merecida-a-imperio-independente/);  divulgado no blog Diplomatizzando (26/06/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/autobiografia-de-um-fora-da-lei-4-de.html); resumo comentado por Demoiselle IA, a pedido de Airton Dirceu Lemmertz, registrado sob n. 5379; divulgado no blog Diplomatizzando (28/06/2026, link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/a-autobiografia-do-estado-relida-e.html). Relação de Originais n. 5342.

 

1654. Autobiografia de um Fora-da-Lei, 5: como me livrei dos portugueses, mas acabei ficando com os oligarcas nacionais”, Brasília, 9 junho 2026, 4 p.; revisão 8 julho 2026, 5 p. Continuidade da série sobre a história do Estado brasileiro. Publicado na revista Será? (ano xiv, n. 707, 10/07/2026; link: https://revistasera.info/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como-me-livrei-dos-portugueses-mas-acabei-ficando-com-os-oligarcas-nacionais/). Divulgado no blog Diplomatizzando (10/07/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-5-como.html). Relação de Originais n. 5347.

  

Capítulos aguardando publicação:

 

5394. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 6: chegando ao desafio da República”, Brasília, 9 julho 2026, 4 p. Continuidade da série, desta vez fazendo um resumo reflexivo, antes de prosseguir.

 

5396. “Autobiografia de um Fora-da-Lei, 7: o Barão em todos os seus estados”. Brasília, 10 julho 2026, 4 p. Mais um capítulo da história de um transgressor moderado.

  

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 12 julho 2026, 2 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/07/autobiografia-de-um-fora-da-lei-uma.html)

 

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