sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Autobiografia de um fora-da-lei, 10: comunismo e fascismo, meus filhos - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

 Revista Será?

Desde 2012 acompanhando o fluxo da história.

ANO XIV Nº729

 Recife, 18 de setembro de 2026


Em “Autobiografia de um fora-da-lei, 10: comunismo e fascismo, meus filhos”, Paulo Roberto de Almeida personifica o Estado brasileiro e, por essa voz, percorre experiências comunistas, fascistas e autoritárias. Seu ensaio relaciona ideologias de Estado, centralismo e traços históricos da formação política brasileira, advertindo para a persistência de impulsos autoritários sob diferentes roupagens.


Autobiografia de um fora-da-lei, 10: comunismo e fascismo, meus filhos

Por Paulo Roberto de Almeida | set 18, 2026 | Artigos

Sobre as ideologias de Estado, das quais não consegui escapar.


Sei que sou dado a certa arrogância quanto a meus poderes intrínsecos, entre eles o de dominar meus subordinados, pelo monopólio do uso da força, o de regular direitos e deveres desses indivíduos, assim como o de determinar o que podem ou não podem fazer aqueles que decidiram me instituir como seu guardião e protetor; tudo isso é consequência de uma evolução quase que natural. Sou um produto sofisticado dos progressos civilizatórios que antigas comunidades humanas urbanizadas escolheram como a forma principal de organização social, para evitar a violência gratuita entre meus constituintes (súditos ou cidadãos, segundo o caso). Nesse caminho fui adotando diversas formas, desde as velhas monarquias absolutas, passando pelas constitucionais, pelas repúblicas burguesas, além dos despotismos também frequentes.


Nesse curso, não pude evitar ser seduzido por ideologias, tanto as que emergiram naturalmente, como resultado da convivência tolerante dos indivíduos entre si, como as que foram concebidas por “filósofos”, ou conselheiros dos príncipes. Algumas dessas ideias costumam dar muito errado, pois que esses intelectuais acham que podem regular tudo numa sociedade complexa a partir de suas concepções próprias, que não brotam da experiência vivida, testada e experimentada ao longo do tempo, mas de ideias absurdas, geralmente em contradição com as aspirações mais prosaicas da maior parte das pessoas que vivem sob minha jurisdição.


Sei que, na minha condição atual, a de Estado brasileiro (nos últimos dois séculos), sou o produto original das tradições acumuladas pela formação social lusitana, depois temperada pela mistura racial, social e cultural das muitas comunidades que vieram se estabelecer por aqui; várias delas vieram voluntariamente; outras, porém, foram forçadas, como os milhões de africanos trazidos como mercadoria sempre renovada para os trabalhos mais duros.


Não se pode dizer – e nisso estou sendo mais uma vez sincero – que consegui construir o modelo ideal de Estado que ofereça as melhores oportunidades de vida, de trabalho, de bem-estar e de felicidade para todos os meus “filhos”; basta para isso olhar o cenário mundial da felicidade humana, onde não estamos, cabe reconhecer, numa das posições mais satisfatórias. Não somos uma democracia plena – isto reconheço, francamente – não temos atendidas todas as necessidades da população (saúde, educação, segurança pessoal, oportunidades de prosperar) e nem sabemos se as teremos no futuro previsível. Mas nem as sociedades atualmente tidas por mais desenvolvidas tiveram uma trajetória retilínea em direção das liberdades, da riqueza e da segurança, na vida em geral e sobretudo na senectude, que é para onde caminha a humanidade.


Muitos desses países hoje tidos por prósperos e democráticos já passaram por sua cota de iniquidades, revoluções, tiveram de decapitar ou expulsar tiranos e ditadores, corrigir os vícios mais execráveis dos donos do poder e das riquezas, para, daí em diante, construir instituições, amenizar as durezas da vida, por meio de fórmulas políticas aceitáveis por todos. Nesse caminho, algumas nações caminharam para a tolerância convivial, enquanto outras, sob recomendações dos ditos “filósofos”, enveredaram por regimes políticos autoritários, quando não totalitários.


Reconheço que, em nosso Estado brasileiro, somos uma democracia de baixa qualidade, ainda muito injusta para os cidadãos mais humildes, mas temos feito esforços para melhorar as condições gerais, por pressão da sociedade, embora nem sempre os caminhos sugeridos são, exatamente, os mais compatíveis com as melhores aspirações democráticas. Gostamos de apontar os nórdicos e outras sociedades avançadas como o modelo ideal de organização política e social, mas quero mencionar aqui dois desvios insistentes, repetitivos, que se apresentam de maneira recorrente desde pelo menos a Revolução francesa e suas derivações políticas desde aquela época. Antes e depois desse evento seminal, os progressos do Iluminismo europeu foram capazes de aproximar defesa dos direitos humanos e das liberdades democráticas em regimes políticos mais ou menos compatíveis com a prosperidade progressiva, dentro dos princípios do Direito Natural e das aspirações à convivência pacífica; mas isso depois de passar pela revolta dos barões na Magna Carta, pela decapitação de um rei, por uma Revolução dita Gloriosa (que colocou as bases do parlamentarismo moderno) e, sobretudo por duas revoluções que consagraram o primado dos direitos humanos e da representação política liberal, num dos casos com muita guilhotina antes de terminar numa república burguesa.


Quero me referir agora aos casos desviantes do comunismo, de extração marxista, e do fascismo, que possui certo parentesco com o primeiro, mas que se revelou mais resiliente, embora com derivações autoritárias e totalitárias que marcaram a trajetória de algumas de suas vertentes. O comunismo dito “científico” foi obra de um cérebro altamente filosófico que acreditou, ingenuamente, que acabando com a propriedade privada dos meios de produção – que é o que caracteriza uma das formas das economias de mercado, aquela temporariamente superior, também chamada de capitalismo – e daí, colocando todos os empreendimentos produtivos sob propriedade estatal, seria possível acabar com a desgraça da exploração do homem pelo homem e assim fazer com que todos poderiam trabalhar de acordo a suas capacidades e receber de acordo às suas necessidades. Essa ingenuidade era apenas filosófica, mas um gênio em política, mas ignorante em economia, chamado Vladimir Iliych, achou que poderia colocar em prática essa maluquice, e assim criou o comunismo real, ou seja, a estatização total de uma sociedade.


Foi como fazer um elefante voar, como contestou quase imediatamente um socialista austríaco, mas, com base em muita violência, e uma espécie de escravismo moderno, o elefante voou, durante mais ou menos setenta anos, até estatelar-se no chão, por força de suas próprias contradições insanáveis. Nesse meio tempo, um socialista italiano, achando que poderia achar uma forma intermediária de controle estatal, preservando a propriedade privada, mas fazendo-a trabalhar de acordo a diretivas do Estado, criou o socialismo fascista italiano, que também foi adaptado para uso de outro maluco alemão, embora com uma dose explosiva de violência política e racial. Não é o caso de refazer aqui e agora o itinerário desses dois experimentos que soçobraram devido a ímpeto totalitário de seus respectivos chefes, um na via do comunismo, os outros dois na via do fascismo.


Cabe reconhecer que o comunismo de tipo marxista-leninista não sobreviveu à equação distintamente econômica de sua forma de organização produtiva, embora sua vertente política possa ter sobrevivido aqui e ali, com adaptações às economias de mercado. Sobrou apenas e tão simplesmente o lado ditatorial do seu núcleo de dominação política. Do outro lado, o fascismo, na sua forma puramente política (que sempre foi sua “alma” profunda) sobreviveu e sobrevive em diversos países, pois que não violenta tanto o substrato econômico da sociedade quanto a estatização completa dos meios de produção do seu “primo” inspirador do comando estatal.


Confesso que sinto calafrios ao pensar nos milhões de mortos produzidos pelos dois sistemas, um pela própria violência interna de fazer um elefante voar, os outros pela violência animada por um desejo expansionista e colonizador, que redundou no maior confronto bélico da história humana. O comunismo deu dois suspiros e depois morreu – salvo em dois medíocres fósseis, situados nas antípodas –, mas o fascismo eterno permanece como aspiração e modelo, não apenas de aventureiros de ânimo totalitário, mas igualmente de amplas camadas de indivíduos comuns, seduzidos pela ilusão da paz social pela imposição da “lei e da ordem” por meio de algum caminho simplista indicado por um dirigente iluminado. Umberto Eco já disse que o fascismo não morreu, e acho que ele tem razão, na forma e na substância.


Quando digo que eu sou um “fora-da-lei” apenas quero dizer que nem sempre minha conduta se pautou pelos princípios e valores iluministas da democracia e das amplas liberdades individuais, num sistema de economia de mercado baseada unicamente em leis e regras ditadas e aprovadas pela livre expressão de todos os cidadãos (súditos em grande parte de nossa história). Minha formação ibérica, ou lusitana, me deixou com todos os defeitos centralistas, muito pouco liberais, que marcaram minha conduta desde a origem. A diferença está nessa regra simples, que comanda o exercício das atividades produtivas num regime liberal ou num outro comandado pelo Estado, ou seja, por mim mesmo: tudo o que não for regulado pelo governo, ao abrigo de leis aprovadas consensualmente, está ipso facto aberto às iniciativas individuais segundo as velhas regras de propriedade privada do Direito Natural; em contrapartida, o que não for aprovado por um édito estatal, por uma aprovação régia, por um ukase do mandatário, não pode ser objeto de qualquer empreendimento individual, sem antes passar por algum carimbo supremo.


Este meu Brasil teve a sorte de não ter passado nem pelo comunismo clássico, nem pelo fascismo total. Do primeiro tivemos um arremedo, muito mal concebido, implementado de modo ainda mais desastroso, o que de certa vacinou a sociedade, principalmente as oligarquias, contra novas tentativas nessa mesma vertente. Do fascismo conhecemos um modelo prêt-à-porter, constitucionalizado por uma Carta dita “polaca”, adaptada a um título de inspiração portuguesa, mas seguindo várias disposições do fascismo mussoliniano, que atraiu muita gente inteligente, no começo, mas que depois se dividiu em vertentes nacionalistas, sempre muito presentes, ou então internacionalistas, estas levemente seduzidas pela ideia da “construção do homem novo”, o que sempre foi um tremendo equívoco político, gerado por propaganda enganosa.


Ainda existem comunistas por aí, mas eles parecem estar todos em busca de um emprego público, devidamente alimentados por impostos vindos dos capitalistas, generosamente tratados pelos populistas de direita e de esquerda. Quanto aos fascistas, desconfio que eles são bem mais numerosos do que o comumente admitido por essas estatísticas que medem as ideologias que são fartamente ofertadas nos supermercados de ideias políticas. Em parte, eles são criados pelo clima de insegurança na vida civil, em parte por preconceitos criados por nosso espírito arraigadamente autoritário. Aqui eu me penitencio, mas as razões requerem um minitratado, que prometo fazer…

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5437: 27 agosto 2026, 4 p.; rev.: 10/09/2026

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