O Brasil tem, de verdade, alguma concepção estratégica credível sobre o mundo atual?
Aparentemente NÃO.
Em recente discurso feito em Singapura (neste link), o chanceler Mauro Vieira conseguiu condenar as violações à ordem internacional, sem jamais indicar as fontes e os atores-autores dessas violações, como se elas viessem do ar, causadas por forças desconhecidas, não identificadas. Senão vejamos:
“O que está em jogo agora não é a crise passageira de uma instituição, mas a própria ideia de que as relações entre os Estados devem ser regidas por regras, e não pela força. Violações à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão tornando-se a regra, e não a exceção.
O paralelo entre as crises do multilateralismo e o enfraquecimento da democracia é claro. Como uma jovem nação democrática, reconstruída em 1985 após 20 anos de ditadura militar, o Brasil não pode deixar de levantar sua voz enquanto forças antidemocráticas buscam enfraquecer instituições e restringir liberdades em todo o mundo.”
Faltou dizer quem, qual país, quais “forças antidemocráticas” praticaram essas “Violações à soberania” e essas “intervenções unilaterais”.
Mas tem mais:
“Como membro fundador do BRICS, o Brasil está firmemente convencido de que o grupo tem uma grande responsabilidade na conformação da ordem global para as próximas décadas. O BRICS, assim como o Brasil, é uma força de mudança positiva na política mundial.”
Como dizer que o BRICS é “uma força de mudança positiva na política mundial” se um dos seus membros é o responsável único e direto pela guerra de agressão mais brutal e criminosa desde o final da segunda guerra mundial? Como explicar que o Brasil assinou as últimas declarações ministerial e presidencial do BRICS sem tocar nesse assunto, sem mencionar uma única vez a guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia?
Existe, por outro lado, certa ingenuidade ou idealismo excessivo nesta afirmação:
“Somente um Conselho de Segurança ampliado, tanto em assentos permanentes quanto não permanentes, será capaz de cumprir plenamente sua responsabilidade primordial pela manutenção da paz e da segurança internacionais.”
O mais provável que que um CSNU ampliado tenha ainda mais dificuldade em encontrar soluções consensuais para as violações mais frequentes à paz internacional, que são aquelas justamente provocadas pelas duas maiores potências bélicas do planeta.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5451: 9 de setembro de 2026
Link para o discurso:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/a-estrategia-global-do-brasil-em-um.html
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