sábado, 26 de setembro de 2026

Nossa tão decantada miscigenação racial não foi toda ela voluntária ou consentida: a violência dos dominadores responde por parte dela

Nossa tão decantada miscigenação racial não foi toda ela voluntária ou consentida: a violência dos dominadores responde por parte dela 

Entrevista

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Brasil

Miscigenação no Brasil tem a ver com estupros? ‘Histórico de violência’, diz geneticista da USP

Lygia da Veiga Pereira comenta repercussão causada por obra lançada pela historiadora Mary Del Priore, que mostra a existência de redes familiares inter-raciais estáveis e consensuais no Brasil desde o século 16.

 

Por Roberta Jansen

O Estado de S. Paulo, 24/09/2026 


 

Entrevista comLygia da Veiga Pereira, Geneticista da USP

A discussão sobre as origens e a formação da população brasileira tem dividido acadêmicos. De um lado, geneticistas demonstram que o processo de miscigenação racial no País foi fruto, majoritariamente, de estupros perpetrados por homens brancos contra mulheres negras e indígenas. De outro, historiadores apontam a existência de documentos que comprovam a existência de arranjos e redes familiares inter-raciais estáveis (e consensuais) desde o século 16.

 

A historiadora Mary Del Priore lançou este mês na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo o livro Histórias das Mestiçagens do Brasil (Ed. Unesp). O trabalho reúne textos de 20 autores, organizados por ela e pelo colega Gian Melo, e desafia premissas defendidas por alas do movimento negro e setores do pensamento identitário. A organização da Bienal precisou providenciar segurança especial para os autores em razão das ameaças recebidas.

 

A geneticista Lygia da Veiga Pereira publicou em 2025 na revista Science o maior estudo genético já feito sobre a formação da população brasileira. Segundo o trabalho, os genomas revelaram que 71% dos cromossomos Y (herdados somente via linhagem paterna) são de origem europeia; enquanto que 42% e 35% do DNA mitocondrial (herdado apenas pela linhagem materna) são de ancestralidade africana e indígena, respectivamente.

Esse resultado, segundo a pesquisadora da da Universidade de São Paulo 

(USP), reforça a ideia de umpadrão histórico de acasalamento assimétrico entre homens europeus e mulheres indígenas e africanas.

 

O argumento de Lygia é: se a mestiçagem brasileira não tem origem na violência sexual, por que, então, a linhagem paterna não é mais equilibrada? Onde estão os pais indígenas e de ancestralidade negra? Por que não passaram seus cromossomos Y adiante na mesma proporção que os brancos, sobretudo levando-se em conta que eles eram mais numerosos naquele momento inicial?

Nesta entrevista ao Estadão, Lygia reafirma seus argumentos. Porém, diz ela, as teses não são necessariamente excludentes. Segundo a geneticista, a miscigenação consensual, dentro das famílias, pode, sim, ter ocorrido em maior grau posteriormente, sem que isso apagasse a marca genética da violência original carregada até hoje pelos brasileiros.

“Homens brancos tiveram muito mais oportunidades de se reproduzir do que negros e indígenas, apesar de estarem em minoria” afirma, “e este é um dado biológico concreto”.

Porém, argumenta, em um segundo momento, sobretudo depois do fim da escravidão, os arranjos familiares inter-raciais consensuais podem ter prevalecido, “ainda que eles não apaguem o histórico de violência dos séculos anteriores, que determinou a estrutura genética do brasileiro atual”.

 

Leia os principais trechos da entrevista:

Como a análise do DNA da população brasileira comprova a violência de homens brancos contra mulheres negras e indígenas a partir do século 16?

O Brasil apresenta um dos mais altos graus de miscigenação do mundo, principalmente com as ancestralidades europeias, africanas e indígenas americanas. Essa genética única remonta à ocupação do território a partir do século 16, com a chegada dos europeus. O início da colonização marcou também o extermínio de mais de 90% da população indígena e a escravização forçada de mais de cinco milhões de africanos de diferentes partes do continente para o Brasil. O nosso trabalho mostra que essa conturbada história demográfica deixou uma marca que segue em nosso genoma.

 

Lygia Pereira da Veiga é uma das mais prestigiadas geneticistas do Brasil  


Mas como é possível ‘enxergar’ essa marca?

A pesquisa revela ainda que a maioria das linhagens do cromossomo Y (herdado somente pela linhagem paterna) analisados no estudo era de ascendência europeia (71%), enquanto a maioria das linhagens mitocondriais (passadas à frente apenas pela linhagem materna) era africana (42%) ou indígena americana (35%). Nossa conclusão é de que isso se deve a um padrão histórico de acasalamento assimétrico entre homens brancos e mulheres indígenas e africanas. Ou seja, revelamos as cicatrizes biológicas deixadas pela história da formação da população brasileira.

 

Mas de que forma essa predominância da linhagem paterna europeia prova a violência?

O fato de os cromossomos Y serem majoritariamente de ancestralidade europeia é um dado muito forte, concreto e mensurável. Ele indica que homens brancos tiveram muito mais oportunidades de se reproduzir do que os homens negros e indígenas, apesar de não estarem em maior número. Como explicar isso? Por que temos tanto cromossomo Y europeu? Porque esses homens deixaram muito mais descendentes do que os outros, que eram maioria? Algo aconteceu. Podemos dizer, cinicamente, que as mulheres negras e indígenas achavam os brancos mais atraentes? Ou podemos deduzir que houve violência contra os outros homens e também contra as mulheres.

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E como seria esse perfil genético se a miscigenação fosse menos assimétrica, digamos assim, mais consensual?

O esperado seria que os cromossomos Y de ancestralidade europeia, indígena e negra aparecessem em proporções mais ou menos parecidas.

Os historiadores Mary Del Priore e Gian Melo lançaram recentemente o livro Histórias das Mestiçagens do Brasil, que reúne textos de 20 autores que investigam relações raciais no Brasil. Eles não negam a ocorrência da violência, mas dizem que a miscigenação brasileira não pode ser explicada por ela, mas sim por arranjos familiares inter-raciais consensuais demonstrados em vários documentos. Como conciliar essas duas teorias?

Temos no nosso DNA a marca genética estabelecida ao longo de anos de colonização violenta, esse é um fato biológico concreto. Por pelo menos uns três séculos essa foi a regra. Certamente, depois, houve outros tipos de relacionamento, mas, àquelas alturas, já tínhamos perdido os componentes genéticos das outras ancestralidades. Mas isso não apaga as consequências genéticas. Tanto é assim que, por exemplo, temos negros quilombolas com ancestralidade branca.

Isso ainda pode mudar com mais miscigenação?

Para termos mais cromossomos Y de outras ancestralidades teríamos que ter em algum momento um influxo significativo de homens africanos, por exemplo, no Brasil.

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