Nossa tão decantada miscigenação racial não foi toda ela voluntária ou consentida: a violência dos dominadores responde por parte dela
Entrevista
Miscigenação no Brasil tem a ver com estupros? ‘Histórico de violência’, diz geneticista da USP
Lygia da Veiga Pereira comenta repercussão causada por obra lançada pela historiadora Mary Del Priore, que mostra a existência de redes familiares inter-raciais estáveis e consensuais no Brasil desde o século 16.
Por Roberta Jansen
O Estado de S. Paulo, 24/09/2026
Entrevista comLygia da Veiga Pereira, Geneticista da USP
A discussão sobre as origens e a formação da população brasileira tem dividido acadêmicos. De um lado, geneticistas demonstram que o processo de miscigenação racial no País foi fruto, majoritariamente, de estupros perpetrados por homens brancos contra mulheres negras e indígenas. De outro, historiadores apontam a existência de documentos que comprovam a existência de arranjos e redes familiares inter-raciais estáveis (e consensuais) desde o século 16.
A historiadora Mary Del Priore lançou este mês na 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo o livro Histórias das Mestiçagens do Brasil (Ed. Unesp). O trabalho reúne textos de 20 autores, organizados por ela e pelo colega Gian Melo, e desafia premissas defendidas por alas do movimento negro e setores do pensamento identitário. A organização da Bienal precisou providenciar segurança especial para os autores em razão das ameaças recebidas.
A geneticista Lygia da Veiga Pereira publicou em 2025 na revista Science o maior estudo genético já feito sobre a formação da população brasileira. Segundo o trabalho, os genomas revelaram que 71% dos cromossomos Y (herdados somente via linhagem paterna) são de origem europeia; enquanto que 42% e 35% do DNA mitocondrial (herdado apenas pela linhagem materna) são de ancestralidade africana e indígena, respectivamente.
Esse resultado, segundo a pesquisadora da da Universidade de São Paulo
(USP), reforça a ideia de umpadrão histórico de acasalamento assimétrico entre homens europeus e mulheres indígenas e africanas.
O argumento de Lygia é: se a mestiçagem brasileira não tem origem na violência sexual, por que, então, a linhagem paterna não é mais equilibrada? Onde estão os pais indígenas e de ancestralidade negra? Por que não passaram seus cromossomos Y adiante na mesma proporção que os brancos, sobretudo levando-se em conta que eles eram mais numerosos naquele momento inicial?
Nesta entrevista ao Estadão, Lygia reafirma seus argumentos. Porém, diz ela, as teses não são necessariamente excludentes. Segundo a geneticista, a miscigenação consensual, dentro das famílias, pode, sim, ter ocorrido em maior grau posteriormente, sem que isso apagasse a marca genética da violência original carregada até hoje pelos brasileiros.
“Homens brancos tiveram muito mais oportunidades de se reproduzir do que negros e indígenas, apesar de estarem em minoria” afirma, “e este é um dado biológico concreto”.
Porém, argumenta, em um segundo momento, sobretudo depois do fim da escravidão, os arranjos familiares inter-raciais consensuais podem ter prevalecido, “ainda que eles não apaguem o histórico de violência dos séculos anteriores, que determinou a estrutura genética do brasileiro atual”.
Leia os principais trechos da entrevista:
Como a análise do DNA da população brasileira comprova a violência de homens brancos contra mulheres negras e indígenas a partir do século 16?
O Brasil apresenta um dos mais altos graus de miscigenação do mundo, principalmente com as ancestralidades europeias, africanas e indígenas americanas. Essa genética única remonta à ocupação do território a partir do século 16, com a chegada dos europeus. O início da colonização marcou também o extermínio de mais de 90% da população indígena e a escravização forçada de mais de cinco milhões de africanos de diferentes partes do continente para o Brasil. O nosso trabalho mostra que essa conturbada história demográfica deixou uma marca que segue em nosso genoma.
Lygia Pereira da Veiga é uma das mais prestigiadas geneticistas do Brasil
Mas como é possível ‘enxergar’ essa marca?
A pesquisa revela ainda que a maioria das linhagens do cromossomo Y (herdado somente pela linhagem paterna) analisados no estudo era de ascendência europeia (71%), enquanto a maioria das linhagens mitocondriais (passadas à frente apenas pela linhagem materna) era africana (42%) ou indígena americana (35%). Nossa conclusão é de que isso se deve a um padrão histórico de acasalamento assimétrico entre homens brancos e mulheres indígenas e africanas. Ou seja, revelamos as cicatrizes biológicas deixadas pela história da formação da população brasileira.
Mas de que forma essa predominância da linhagem paterna europeia prova a violência?
O fato de os cromossomos Y serem majoritariamente de ancestralidade europeia é um dado muito forte, concreto e mensurável. Ele indica que homens brancos tiveram muito mais oportunidades de se reproduzir do que os homens negros e indígenas, apesar de não estarem em maior número. Como explicar isso? Por que temos tanto cromossomo Y europeu? Porque esses homens deixaram muito mais descendentes do que os outros, que eram maioria? Algo aconteceu. Podemos dizer, cinicamente, que as mulheres negras e indígenas achavam os brancos mais atraentes? Ou podemos deduzir que houve violência contra os outros homens e também contra as mulheres.
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E como seria esse perfil genético se a miscigenação fosse menos assimétrica, digamos assim, mais consensual?
O esperado seria que os cromossomos Y de ancestralidade europeia, indígena e negra aparecessem em proporções mais ou menos parecidas.
Os historiadores Mary Del Priore e Gian Melo lançaram recentemente o livro Histórias das Mestiçagens do Brasil, que reúne textos de 20 autores que investigam relações raciais no Brasil. Eles não negam a ocorrência da violência, mas dizem que a miscigenação brasileira não pode ser explicada por ela, mas sim por arranjos familiares inter-raciais consensuais demonstrados em vários documentos. Como conciliar essas duas teorias?
Temos no nosso DNA a marca genética estabelecida ao longo de anos de colonização violenta, esse é um fato biológico concreto. Por pelo menos uns três séculos essa foi a regra. Certamente, depois, houve outros tipos de relacionamento, mas, àquelas alturas, já tínhamos perdido os componentes genéticos das outras ancestralidades. Mas isso não apaga as consequências genéticas. Tanto é assim que, por exemplo, temos negros quilombolas com ancestralidade branca.
Isso ainda pode mudar com mais miscigenação?
Para termos mais cromossomos Y de outras ancestralidades teríamos que ter em algum momento um influxo significativo de homens africanos, por exemplo, no Brasil.
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https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/09/nossa-tao-
decantada-miscigenacao-racial.html
O link enviado direciona para uma postagem no blog "Diplomatizzando", de Paulo
Roberto de Almeida, que reproduz uma entrevista concedida ao jornal O Estado de
S. Paulo em 24 de setembro de 2026. A entrevistada é a renomada geneticista Lygia
da Veiga Pereira (USP), que discute os resultados de seu amplo estudo genético
publicado na prestigiada revista Science em 2025.
A informação de que os dados genéticos comprovam um padrão de acasalamento
fortemente assimétrico no Brasil colonial é um FATO. As conclusões científicas baseadas na amostragem cromossômica e no DNA mitocondrial são dados
biológicos exatos e validados por pares na comunidade acadêmica. O texto retrata
um debate epistemológico real entre a Genética População e a Historiografia
Tradicional (representada pelo novo livro da historiadora Mary Del Priore).
⚖ Perspectiva Jurisdicional e Legal
O debate toca nas origens institucionais do direito no Brasil. A assimetria reprodutiva
identificada pela genética — em que 71% dos cromossomos Y (linhagem paterna)
são europeus e a maioria do DNA mitocondrial (linhagem materna) é indígena (35%)
ou africana (42%) — reflete a ausência de subjetividade jurídica das populações
dominadas durante o período colonial.
Sob o ordenamento jurídico da época (como as Ordenações Filipinas) e o estatuto da
escravidão, o corpo das mulheres negras e indígenas era tratado como propriedade
ou extensão do direito de posse do colonizador. A violência sexual colonial não era
tipificada ou punida como o crime de estupro contemporâneo, operando sob uma
estrutura legal que legitimava a exploração.
🏛 Perspectiva Política e Identitária
Historicamente, o Estado brasileiro promoveu o mito da "Democracia Racial",
fortemente ancorado nas teses de Gilberto Freyre, que romantizava a miscigenação
como um processo harmonioso, voluntário e integrador.
A reação violenta sofrida por Mary Del Priore na Bienal do Livro de São Paulo (que
demandou segurança especial) e o tensionamento com setores do movimento negro
e do pensamento identitário demonstram que a narrativa sobre a origem do povo
brasileiro é altamente politizada. Confrontar o mito da miscigenação romântica com
dados biológicos de violência original mexe diretamente com as bases de políticas
públicas contemporâneas, como as ações afirmativas e cotas raciais.
🌐 Perspectiva Geopolítica e DemográficaA estrutura do genoma brasileiro é o resultado direto de fluxos geopolíticos globais dos séculos 16 ao 19: o colonialismo mercantilista europeu, o extermínio sistemático de mais de 90% das populações nativas americanas e o tráfico transatlântico forçado de mais de cinco milhões de africanos.
A genética atua aqui como um arquivo biológico indestrutível da expansão
imperial europeia. O fato de o cromossomo Y europeu ter se sobressaído
massivamente sobre os demais demonstra como o poder geopolítico e militar se
traduziu diretamente em dominância reprodutiva no "Novo Mundo".
📈 Perspectiva Econômica
O viés econômico explica a assimetria apontada pela geneticista: "Homens brancos
tiveram muito mais oportunidades de se reproduzir do que negros e indígenas,
apesar de estarem em minoria". Na economia colonial plantation e extrativista, o
homem branco detinha o monopólio do capital, da terra e dos meios de subsistência.
Inversamente, homens negros e indígenas sofriam com o encarceramento, o trabalho
forçado exaustivo, a subnutrição e taxas altíssimas de mortalidade, o que limitava
drasticamente sua capacidade reprodutiva e de transmissão de sua linhagem
genética (Y). A riqueza econômica, portanto, determinou o sucesso reprodutivo.
💻 Perspectiva Tecnológica e Metodológica
Este caso ilustra uma fascinante revolução metodológica nas ciências humanas.
Tradicionalmente, o entendimento do passado dependia exclusivamente de registros
cartoriais, cartas, testamentos e literatura (método histórico).
Com o avanço do sequenciamento genômico de larga escala e da bioinformática, a
biologia molecular passa a atuar como uma "máquina do tempo" empírica. Quando a
historiografia aponta que documentos provam arranjos inter-raciais estáveis e
consensuais no século 16, a genética replica com uma amostragem matemática
irrefutável de que, no macrocenário, tais arranjos foram exceções que não alteraram
a macroestrutura de assimetria e violência gravada no DNA.
🧠 Perspectiva Filosófica e Ética
Sob o aspecto ético, a entrevista de Lygia da Veiga Pereira propõe uma importante
conciliação que evita o determinismo biológico ou o negacionismo histórico. As duas
teses não são necessariamente excludentes: a violência original fundou a estrutura
do genoma do brasileiro atual, mas isso não impede que, em séculos posteriores
(especialmente pós-abolição), arranjos afetivos consensuais e agência social tenham
prosperado.
Filosoficamente, o genoma humano é apresentado como um memorial ético: a
história humana, com todas as suas dores e opressões, não se dissolve no tempo;
ela permanece fisicamente inscrita nos corpos dos descendentes.