Sem alarmismo
O economista Felipe Salto reclama do “alarmismo” de certos analistas econômicos, que estariam inflando artificialmente as taxas de juros. Como se os traders do mercado fossem crianças assustadiças, que se impressionam com histórias de bicho-papão. A narrativa, e não os fatos, seria a culpada pelo nível de taxa de juros. Patético.
Sem nomear ninguém especificamente, Salto acusa alguém indeterminado de espalhar que o Estado brasileiro caminha para a insolvência. “Diz-se” e “afirma-se” são os tempos verbais usados. Trata-se do velho truque de eleger um falso espantalho para vencer uma discussão que não está sendo travada. Desafio Salto a indicar um analista sério que esteja falando de insolvência. O que se fala sim é que a trajetória da dívida é insustentável, e que a saída mais provável, se nada for feito, será um surto inflacionário que “queime” a dívida. Daí o prêmio de risco nos juros, que nada mais é do que um seguro contra a inflação. Se houvesse realmente receio de um calote, não haveria taxa de juros suficiente para a colocação da dívida.
Não Salto, não é o “alarmismo” que provoca as altas taxas de juros. É o justo oposto: são as altas taxas de juros que provocam o acionamento dos alarmes nas mesas de operações. E o que provoca as altas taxas de juros? A possibilidade de reeleição de um governo que “não vê problema” na alta dívida pública e no déficit primário, é isso que provoca as altas taxas de juros.
Salto acusa analistas genéricos de causarem pânico com suas “avaliações catastrofistas, descoladas da realidade”, ao invés de “colaborar com a construção de saídas inteligentes”. Vamos aqui deixar de lado a contradição em termos de um raciocínio que, a um só tempo afirma que “não temos um problema” e “precisamos construir uma solução para o problema”. Vou apenas constatar a sabujice do economista, que exige dos analistas uma colaboração com o governo, naquilo que o governo que ele sempre apoiou jamais foi capaz de entregar. Ora, quem tem que aparecer com “saídas inteligentes” é o governo, não os analistas. É o governo que tem a responsabilidade política de resolver os problemas. Os analistas não fazem parte do governo, ainda que Salto desejasse muito.
Como nota final, a bandeira do aumento da meta de inflação, abraçada por Salto e outros economistas ligados ao governo, é também um dos fatores que pressionam as taxas de juros. Os agentes do mercado não são idiotas, e vendo essa discussão crescer, já colocam no preço dos ativos a perspectiva de uma inflação estruturalmente mais alta no futuro. Salto, portanto, colabora para que tenhamos taxas de juros mais altas. Sem alarmismo.

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