O sentido do meu voto
Paulo Roberto de Almeida
Já desobrigado do voto obrigatório, não penso num candidato a presidente ou nos demais candidatos aos cargos executivos e parlamentares em dispusta no mês de outubro de 2026 como sendo pessoas, executivos ou representantes, que possam “resolver” problemas meus, preocupações ou aspirações pessoais ou individuais. Já atingi, pela educação e pelo trabalho, uma condição que me permite dispor de uma situação de segurança alimentar, civil, econômica que pode ser descrita como satisfatória, sem ser dotada de meios abundantes ou excessivos a um padrão aceitável de estabilidade, que já foi atingido na vida ativa.
Penso, ao contrário, nas pessoas que encontro nas ruas, nos semáforos, nas portas do comércio varejista, que são obrigadas, de certa forma, a pedir ajuda para algum alimento ou necessidade — ainda que entre eles se encontrem pessoas perfeitamente válidas para algum trabalho manual —, penso nos milhões de brasileiros ainda pobres e deseducados, entre eles muitos verdadeiramente miseráveis, que não possuem sequer um lugar para morar, e que estão na luta diária para sobreviver, com dignidade ou mesmo sem ela, nas pequenas contravenções.
Tendo nascido num Brasil atrasado, e claramente miserável, e participado da construção de um país razoavelmente dotado de meios próprios para satisfazer necessidades básicas de toda a população, me angustia o fato de ainda sermos um país inaceitavelmente desigual, incapaz de oferecer a todos um minimo de oportunidades de subsistência própria e de condições para acender a um patamar de prosperidade razoável: saúde, educação, trabalho, segurança na vida civil, certeza de que os filhos e netos possam aspirar uma condição ao menos equivalente, se for possível até melhor.
A incapacidade das elites políticas de satisfazer tais critérios me choca, mais profundamente até do que a incapacidade das elites econômicas de se convencer, entre si, de que deveriam buscar menos proteção do Estado, coletivamente, e mais engajamento na escolha de dirigentes políticos voltados para propósitos sociais justamente focados na superação da condição de pobreza e miséria de largos estratos de uma população desprovida de condições para se alçarem, por esforço próprio, dessa condição inacessível sob qualquer ponto de vista moral. O único critério suscetível de fazer isso é uma educação de massa de qualidade, repito, o único, isso num espaço de pelo menos quinze anos, ou uma geração inteira.
Ainda não chegamos a esse consenso, e me choca que ainda estejamos vendo as eleições em termos ideológicos ou no plano da confrontação entre dois extremos políticos. Lamento que seja assim.
Permito-me repostar aqui um artigo que se aproxima muito dessa concepção de vida e de voto, ainda que eu tivesse outras considerações a fazer sobre diretrizes ou orientações básicas em matéria de políticas macro e setoriais.
Fico no essencial, na dignidade dos mais desprovidos de condições minimas de uma existência razoável, rejeitando qualquer instrumentalização do voto pela religião ou pela ideologia securitária repressiva, mas também, como diplomata, rejeitando toda e qualquer subordinação da nação a interesses espúrios estrangeiros (o que também implica alinhamento ou apoio objetivo a ditaduras execráveis que cometem crimes de guerra, contra a humanidade e contra as liberdades democráticas).
Brasília, 6/09/2026
=================
Meus interesses? Deixem-os pra lá.
Martha Medeiros
Zero Hora, 6/09/2026
Aviso aos candidatos à presidência e demais cargos públicos. Sou uma mulher branca e heterossexual. Minha família pagou meu colégio e a faculdade. Na juventude, pude me exercitar, estudar idiomas, viajar. Fui criada em meio a livros, filmes e teatro. Nenhum homem jamais levantou a mão para mim.
Tenho plano de saúde e previdência privada. Trabalho há 45 anos. Minhas duas filhas estão criadas. Vivo no meu próprio país, nunca tive que abandoná-lo para fugir da fome ou de uma guerra. Se eu me apertar, aciono minha rede de contatos. Deveria votar em quem defende os meus interesses? Os meus???
Meus interesses foram atendidos desde o dia em que nasci — aliás, antes mesmo de eu nascer, pois minha mãe teve condições de realizar os exames de pré-natal.
Preciso do governo infinitamente menos do que aqueles que ainda lutam por seus direitos básicos. Tenho 65 anos de privilégios. Voto por quem tem 3 anos e é cuidado por um irmãozinho de 9, enquanto a mãe realiza serviços domésticos na casa dos outros — aos sábados, inclusive. Voto por quem tem 12 e teve que sair da escola para ajudar na renda familiar. Voto por quem tem 24 e ainda não conseguiu o primeiro emprego. Voto por quem mora em encostas, por quem sofre violência, por quem mal sabe escrever.
Seria uma indecência se eu votasse pensando em mim.
Voto em quem pode impedir a escalada do retrocesso, da ignorância e da irresponsabilidade de indivíduos que nunca conceberam um projeto social de inclusão e negam evidências científicas. Voto em qualquer um que, em vez de ser um entreguista lambe-botas, defende nossa independência e democracia, em vez de tratar o Brasil como sucursal dos Estados Unidos.
Obviamente, quem assumir em janeiro vai cometer erros e será cobrado, como acontece em todas as gestões de todas as nações.
Mas não contem comigo para dar poder a quem nunca demonstrou compaixão por homens e mulheres que dependem de um governo consciente. O mercado importa, o agro importa, a economia importa, o empresariado importa, desde que beneficiem também a população, e não apenas suas bolhas.
Minhas angústias emocionais, conhecidas como white people problem, atenuo com amigos, leitura e terapia, sob um teto sólido e com a certeza de que almoçarei amanhã. Desejo, claro, ver meus impostos bem investidos, a valorização da cultura, o meio ambiente preservado e a corrupção combatida, mas sem esquecer o principal: nunca iremos decolar enquanto o Brasil for um dos países mais desiguais do mundo. É o nosso problema maior, que origina tantos outros.
Portanto, nobres candidatos, obrigada pela consideração, mas deixem para lá meus interesses.
Vocês têm mais com o que se preocupar.
Nenhum comentário:
Postar um comentário