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domingo, 16 de agosto de 2026

Um país NÃO SE DESENVOLVE pela assistência pública, mas petistas e populistas não concordam - Marcelo Guterman e Paulo Roberto de Almeida

Um país NÃO SE DESENVOLVE pela assistência pública, mas petistas e populistas não concordam - Marcelo Guterman e Paulo Roberto de Almeida  

Introdução PRA: Vindos da pobreza, minha família e eu, junto com meus irmãos, nos alçamos pelo trabalho duro, por vezes mais duro do que muitos podem imaginar. Sempre achei isso, e atuei em conformidade com essa postura. Estudei, trabalhei e venci, como alguns poderiam dizer, ou seja, me alcei a uma posição de classe média, pelo estudo e pelo trabalho, e passei a integrar – como ressaltado por essas estatísticas da Oxfam – a minoria dos privilegiados, aqueles que possuem "renda alta", mas alta apenas em relação à miséria miserável da renda média da população brasileira, que é reconhecidamente muito baixa, ainda assim figurando entre os países de "renda média superior" (mas apenas porque existem alguns bilhões de miseráveis mundo afora). 

Eles não são pobres ou miseráveis por culpa dos ricos e milionários gananciosos, como acredita a Oxfam, ou pela falta de assistência pública dada por um Estado generoso, como acreditam os petistas e os esquerdistas. São pobres porque não tiveram educação e trabalho dignos, e isso não é culpa dos países ricos, ainda que estes tenham sido colonialistas e imperialistas no passado (vários ainda o são). Só é colonialista, imperialista, dominador, explorador QUEM PODE, não quem quer. A capacitação tecnológica (e militar) é uma condição prévia a qualquer dominação, sobre o meio e sobre as pessoas. Mas ela não veio do céu, ou dada por outros, generosos e desinteressados. Só existe pela própria sociedade, pelas suas instituições, cultura, governos. Povos ricos tendem a produzir ricos, eventualmente dominadores. 

O Brasil, por formação, foi colonizado por um país atrasado, mas empreendedor: Portugal dos Descobrimentos. Mas Portugal manteve analfabetos até meados do século XX, como meus avós de Trás os Montes, que vieram analfabetos ao Brasil mais de cem anos atrás, para simplesmente substituir os escravos nas fazendas de café. Minhas duas avós  – os avôs já tinham morrido ou desaparecido antes de eu nascer –, a portuguesa e a italiana, morreram analfabetas, mas tinham orgulho de meus estudos, com razão, pois cedo eu me tornei um rato de biblioteca. Foi isso que me retirou de uma profissão manual e me permitiu ingressar na diplomacia, um dos exames de ingresso na burocracia estatal mais difíceis que existem no Brasil.

Muitos anos atrás, ostracizado no regime Lula 1 para trabalhar na Secretaria de Estado, acabei trabalhando  no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, por contraditório que isso possa parecer. Acompanhei todos os "planejamentos" do governo, inclusive a famosa reconstrução do Bolsa Família a partir de programas dispersos da era FHC. Sempre me pronunciei contrariamente a esses programas de assistência pública, enquanto o NAE preparava um programa de desenvolvimento com mais de 50 prioridades. Eu preconizava apenas um programa modesto, de apenas 5 prioridades, todas elas concentradas na eduçação de base e profissional, apenas isso. Claro que fui execrado pelos "assistencialistas" mais extremados. Eu tinha certeza, então e agora, que o Brasil NÃO se desenvolveria pela via da assistência pública, mas foi o que mais cresceu, de 6 milhões de famílias, para mais de 12 milhões atualmente, ou 1/4 da população total do Brasil toda ela no cartão salvador e em vários outros programas complementares. 

O artigo abaixo de Marcelo Guterman apenas confirma minhas percepções de várias décadas, mas infelizmente também reproduz certas crenças inabaláveis na esquerda econômica. O Brasil padece de excesso de estatismo, de assistencialismo, de intervencionismo, de nacionalismo e de outros ismos nefastos, mas carece do mais simples, que começa na escola primária e termina na adolescência (ou deveria): uma educação de qualidade,  faria com que as pessoas trabalhassem, produzissem, inovassem e enriquecessem.

Infelizmente, a esquerda econômica, estilo Piketty e outros, acham que a função dos economistas é a de empobrecer os mais ricos, não a de enriquecer os mais pobres. Estamos nisso e parece que vamos continuar, pois isso não é privilégio da esquerda: todos os oligarcas, geralmente de direita, também acreditam no populismo assistencialista, no papel do Estado, e acabam produzindo a perpetuação da pobreza.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 16/08/2026 

 

 

A mitologia completa de Lula
MARCELO GUTERMAN
AGO 16, 2026

Sérgio Fausto, presidente da Fundação FHC, em linha com a inspiração ideológica de seu patrono, não consegue largar das bolas de Lula. Crente da Igreja do Ajuste Fiscal Inevitável, está à espera desse profeta mítico, o Lula Pragmático, que, finalmente, colocará as contas públicas em ordem.

Mas antes de comentar esse ponto, não podia deixar de falar sobre outro ser mítico, igualmente adorado pelos filopetistas: o “Lula Redentor dos Pobres”. Segundo essa crença, Lula teria tirado um sem número de brasileiros da pobreza, em linha com as suas mais profundas convicções. Lamento dizer, mas não passa de mais uma mistificação, em que só caem aqueles mesmerizados pela pregação petista. Vejamos.

Há duas formas de tirar pessoas da pobreza: de maneira relativa, através da melhora da distribuição de renda, e de maneira absoluta, através do aumento do PIB/capita.

Em relação à distribuição de renda, de acordo com dados do Banco Mundial, de fato o Brasil melhorou desde que o PT chegou ao poder. Em 2002, o Brasil tinha um índice de Gini de 58,1 e em 2024 (último dado disponível), o Gini estava em 50,3. Lembrando que, quanto menor o Gini, melhor a distribuição de renda de um país. Então, de fato, houve uma melhora significativa da distribuição de renda nos últimos quase 25 anos.

Mas vejamos o que aconteceu em países similares (o primeiro número representa o Gini de 2002 e o segundo, o Gini de 2024):

África do Sul: 65,0 / 54,1
Argentina: 53,8 / 42,4
México: 50,6 / 43,5

Observamos, nestes países, também quedas significativas do Gini. A não ser que Lula tenha também implementado políticas públicas nesses países, devemos concluir que esse fenômeno de melhora na distribuição de renda foi universal, e o Brasil apenas embarcou nessa nau. Nossa melhora foi, inclusive, menor do que a dos países citados, o que pode nos levar à conclusão que as políticas adotadas por Lula, na verdade, atrapalharam a tendência global.

Com relação ao crescimento do PIB/capita, o Brasil saiu de um PIB/capita de US$ 14,2 mil em 2002 para US$ 19,9 mil em 2025 (conceito Purchase Power Parity). Melhorou, sem dúvida. Mas observando-se o que aconteceu no resto do mundo, a fotografia não parece tão bonita. Segundo dados do FMI, a renda/capita global em 2002 era de US$ 8,7 mil, tendo subido para US$ 25,2 mil em 2025. Ou seja, em 2002, a renda/capita do brasileiro era 60% maior que a média global. Em 2025, é 20% menor.

Então, sim, Lula tirou muitos brasileiros da pobreza. Mas a pergunta é: não teria sido ainda melhor se tivéssemos outras políticas econômicas? Se ao menos tivéssemos acompanhado o aumento do PIB global, seríamos hoje duas vezes mais ricos do que somos. Mesmo tirando a China dessa conta, hoje seríamos 75% mais ricos. Teríamos ainda menos pobres, certo?

Mas, de todas as evidências dessa fraude intelectual, a que eu realmente prefiro é o número de beneficiários do bolsa família: temos hoje quase 50 milhões de brasileiros dependendo desse programa governamental, ou quase 25% da população. E isso porque, segundo Sérgio Fausto, “com Lula na presidência, a pobreza se reduziu de maneira importante”. Imagine se não tivesse se reduzido!

Fausto, depois dessa hagiografia de Lula, afirma que o ajuste fiscal é necessário justamente para manter essas políticas públicas que beneficiam os mais pobres. Mas esse é justamente o raciocínio dos “neoliberais”. Os petistas, Lula incluído, execram esse tipo de racional. Isso aí não passaria de uma versão requentada do Consenso de Washington, que condenaria os países subdesenvolvidos à pobreza e dependência eternas. Bom mesmo são programas sociais, incentivos ao crédito, manipulação do câmbio, fechamento do mercado nacional e subsídios a indústrias ineficientes.

O problema fundamental de Sérgio Fausto e de todos os filopetistas racionais que pensam como ele, é achar que Lula concorda com o diagnóstico de que contas públicas equilibradas são fundamentais para que o Estado tenha capacidade para ajudar os mais pobres. Esse tipo de premissa é totalmente estranha ao modo petista de pensar e governar. Para os petistas, o “mercado” precisa ser domado, como confessou, em um momento de sincericídio, o coordenador do programa de governo de Lula, Sérgio Gabrielli.

Fausto, assim como todos os tucanos da velha guarda, acham que os petistas são tucanos que vestem vermelho. Não, os petistas não são como os tucanos. Os petistas são… petistas. E sempre agirão como petistas.

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Contradição em termos - Marcelo Guterman

 Contradição em termos

O economista Felipe Salto foi um dos agraciados com o ar puro de Lisboa. Bateu ponto no Gilmarpalooza e nos brindou com um artigo sobre a palestra do Nobel de economia Joel Mokyr.

Salto certamente não notou a profunda contradição em termos que seu artigo representa. Mokyr ganhou o seu prêmio Nobel pela sua análise da interação entre ciência e inovação tecnológica como propulsor do crescimento econômico, e do papel das instituições de um país para que esse processo ocorra. Segundo Mokyr, não foi acaso a Revolução Industrial ter ocorrido inicialmente na Inglaterra, primeiro lugar em que o Rule of Law, e não o Rule of King, encontrou lugar. Segundo Salto, “é o progresso técnico, aliado a estruturas democráticas e confiáveis, sob instituições à altura, o caminho para elevar o crescimento ao longo prazo”. Perfeito, não estivesse Salto em um evento que representa a antítese desse conceito.

O economista não consegue perceber que Gilmar Mendes não é somente “uma mente privilegiada, cujo espírito público é gigantesco”. Ele é o mais influente ministro da mais alta Corte do país, com poder de vida e morte sobre cidadãos e empresas. Uma pessoa em sua posição deveria resguardar-se de qualquer suspeita de conflitos de interesses, o justo oposto do que esse festival de Lisboa representa. Nunca vamos saber se a presença de empresários brasileiros é motivada pela pura busca por conhecimento (como certamente é o caso do articulista), ou há outros interesses envolvidos. Afinal, Gilmar tem uma caneta poderosa, e não é possível separar uma coisa da outra.

Não para por aí. Gilmar Mendes é o principal responsável, na Corte, pelo fim da Lava Jato, a primeira operação policial que realmente chegou aos próceres da República. Por um breve período, sentimos a gostosa sensação de vivermos nesse país de Mokyr, onde as instituições garantem o Rule of Law, e não a proteção de quem domina a máquina do Estado. Juntar os termos “Gilmar Mendes” e “instituições” no mesmo artigo chega a ser um insulto à inteligência.

O fato de o Gilmarpalooza ocorrer em Lisboa e não em São Paulo ou Brasília é somente pitoresco. Não há noção do quão ridículo que é juntar brasileiros para discutir o Brasil na capital do colonizador. Ou até há, mas é vencida pela tentação de ter um bom motivo para viajar para a Europa em classe executiva. Salto acha isso tudo muito normal, até louvável, mas não percebe que é a mais pura tradução do patrimonialismo jeca que nos define como nação, e que verdadeiramente impede o nosso desenvolvimento econômico.

terça-feira, 10 de março de 2026

Os votos de São Paulo - Marcelo Guterman

 

Os votos de São Paulo

Existe uma mística nas eleições presidenciais brasileiras de que os votos do Nordeste dão a vitória ao PT. Isso é verdade, mas não é realmente o Nordeste que tem decidido as últimas eleições. A região funciona como um muro a ser transposto pelo desafiante do PT, e são as outras regiões do país que funcionam como a vara para saltar o muro. O gráfico 1 explica o conceito.

Neste gráfico, temos a diferença percentual entre o candidato do PT e o seu desafiante no Nordeste, em São Paulo, no restante do Brasil e no país inteiro. Podemos observar que, nas últimas 4 eleições, a diferença do PT para os adversários no Nordeste é de cerca de 40 pontos percentuais. O que definiu a eleição foi a diferença nas outras regiões, que variou bastante nesse período.

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O caso de São Paulo é especial, por isso destaquei o Estado. Além de ser o maior colégio eleitoral do país (21,7% dos votos válidos em 2022), foi o que mostrou a maior variação na eleição passada. Até 2022, o eleitor de São Paulo sempre deu menos votos para o PT do que a média de todas as outras Estados ex-Nordeste. Em 2022, no entanto, essa tendência se inverteu, como podemos observar no gráfico 2.

Se São Paulo tivesse mantido a mesma diferença de 2018 em relação ao restante do país ex-Nordeste (-9,4 p.p.), tudo o mais constante, Bolsonaro teria ganho a eleição por 50,4% a 49,6% dos votos nacionais. E considere que esta diferença de -9,4 p.p. havia sido a menor da série histórica desde 2002.

Assim, a eleição nacional em São Paulo ganha uma cor diferente. O paulista vai voltar ao padrão anterior, ou este seria um “novo normal”? Podemos ter um “cheiro” analisando as eleições para governador. Em São Paulo, o PT nunca ganhou uma eleição. É difícil fazer a comparação com os números da eleição nacional porque não houve 2o turno em 2006, 2010 e 2014, e em 2018 o PT sequer foi ao 2o turno. As duas únicas eleições comparáveis são as de 2002 e 2022.

Vamos lembrar que 2002 foi o único ano da história em que o PT ganhou a eleição presidencial no estado de São Paulo. Naquele ano, o candidato a governador, José Genoíno, perdeu para Geraldo Alckmin por 5,8 pontos percentuais. Em 2022, Haddad perdeu para Tarcísio por 6,6 pontos percentuais. Foram os dois anos em que o PT chegou mais perto do Palácio dos Bandeirantes.

É neste ponto que entra a pesquisa Datafolha para o governo de São Paulo, que dá 17 pontos de vantagem de Tarcísio sobre Haddad no 2o turno (considerando apenas os votos válidos). Comparando com os 6,6 pontos de 2022, temos uma deterioração significativa do candidato do PT em SP, o que poderia indicar que a diferença na eleição presidencial também será mais larga para o candidato desafiante no Estado. Como vimos, na eleição passada, não precisava de muito para virar o jogo, tudo o mais constante.

Claro que a campanha é nacional, cada voto conta. Mas em termos regionais, São Paulo deu a vitória a Lula em 2022. E pode tirar em 2026.

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segunda-feira, 9 de março de 2026

Guerra civil, caos, continuidade do regime no Irã: escolha a sua opção - Ali Vaez, Marcelo Guterman

 

Excelente entrevista do diretor para o Irã do International Crisis Group, Ali Vaez. Destaco o trecho acima, em que Vaez traça possíveis resultados para a guerra. São quatro:

1) Continuidade do regime atual dos aiatolás

2) Fim do regime dos aiatolás e ascensão de um homem forte das fileiras da Guarda Revolucionária 

3) Guerra civil e caos

4) Transição democrática com sob a liderança do filho do xá Reza Pahlevi.

Desses quatro cenários, o menos provável é o quarto, porque o filho do xá “não tem base nem capacidade organizacional dentro do Irã”. Você já leu isso aqui.

Restam os três primeiros cenários, nenhum deles alvissareiro para os amantes da democracia. Para os iranianos, a escolha é entre o caos ou um velho ou novo regime autoritário.

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domingo, 14 de setembro de 2025

Argentina, o país do déjà vu - Marcelo Guterman

A Argentina não é uma exeção: câmbio fixo ou bandas ajustáveis são dificilmente sustentáveis...

Argentina, o país do déjà vu

A Argentina é um eterno déjà vu. Agora mesmo estou lendo um livro (gentilmente emprestado pela amiga Nora Gonzalez) que reúne entrevistas de economistas argentinos sobre a convertibilidade. O livro é de 1995, a convertibilidade (1 peso-1 dólar, garantido pelo governo) havia sido instituída em 1991, e passava por seu primeiro grande teste, após a crise do México, em março daquele ano.

A primeira pergunta do jornalista é a mesma para todos os entrevistados: “poderá se manter a convertibilidade?”. Estou ainda na metade do livro, mas a resposta, até o momento, oscilou entre “se manterá” e “precisa ser mantida”. E não pensem tratar-se de economistas heterodoxos ou desenvolvimentistas. Pelo contrário, o apoio à convertibilidade se dá mesmo entre os entrevistados que se alinham à ortodoxia, que citam o problema do déficit fiscal como o principal para a manutenção da convertibilidade.

Havia uma leitura de que a convertibilidade seria um instrumento para forçar o mundo político a se adequar. Como sabemos, ocorreu o inverso: o Estado não se adequou, e a convertibilidade foi pelos ares 6 anos depois.

O problema do câmbio fixo, mesmo com o governo fazendo tudo certo, é a incapacidade de absorver choques de externos. O efeito é o esgotamento das reservas na vã tentativa de blindar a economia doméstica do choque, dando tempo para que o mundo político faça a lição de casa, adaptando o país às novas condições externas. O problema, como sabemos, é que o mundo político, ainda mais na América Latina, não faz a lição de casa, sobrando para o BC a tarefa inglória de sustentar um câmbio distorcido.

Milei, que se elegeu com uma plataforma de não intervenção na economia, insiste em manter o câmbio sob controle. Adotou um sistema de bandas reajustáveis, as mesmas que praticamos durante 4 anos, entre 1995 e 1999, e que foi pelos ares, substituída pelo atual regime de câmbio flutuante. Ou seja, Milei está só 30 anos atrasado.

Alguns dirão que não dá para fazer tudo de uma vez, o câmbio flutuante virá a seu tempo, quando todo o resto da casa estiver arrumado e a inflação estiver em patamares mais baixos. O problema, claro, é combinar com o cenário externo e o fornecimento de dólares para manter as reservas. Não há caso de câmbio fixo que tenha terminado bem. Talvez essa seja uma exceção.

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quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Onde está a oposição moderada? - Ação e reação - Marcelo Guterman

 

Ação e reação

O jornalista Marcelo Godoy é mais um que já está rouco de tanto clamar por uma “direita moderada”. O desespero é tanto que Godoy lista até Ciro Gomes no rol de “políticos moderados”, talvez porque ele fale mal tanto de Lula quanto de Bolsonaro. Mas, convenhamos, chamar Ciro de “moderado” é a própria definição de contradição em termos.

Mas voltemos ao leito do rio principal. A questão sempre omitida nesse clamor por uma “direita anti-bolsonarista” é que Bolsonaro foi somente uma reação à extrema-esquerda representada pelo PT.

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Alguns podem estranhar o termo “extrema-esquerda” aplicada ao PT. Afinal, a esquerda somente seria “extrema” no caso de partidos nanicos como PSTU ou PCO ou mesmo o PSOL. Eu diria que esses partidos são mais folclóricos do que radicais. Em outras palavras, o seu radicalismo é caricato. “Extrema” mesmo, operacional, é o PT.

Durante duas décadas, houve a impressão de que o PT era a esquerda e o PSDB era a direita brasileira, mas ambos mais ao centro do espectro ideológico. À esquerda do PT havia os partidos folclóricos, enquanto à direita do PSDB havia… o nada, o que permitiu ao PT levar adiante esse jogo de ilusão de ótica. Não à toa, nessa época os petistas chamavam os tucanos de “fascistas”.

O truque se desfez como uma bolha de sabão com o surgimento de Bolsonaro. Os tucanos voaram para o ninho petista, FHC apertou a mão de Lula e Alckmin, tucano histórico, cantou a Internacional Socialista. O fato é que, nesses anos todos, nunca houve uma direita política. Houve uma centro-esquerda (os tucanos) e o PT mais à esquerda. A esquerda da esquerda é chamada de extrema-esquerda. CQD.

Em reação a essa extrema-esquerda surge uma extrema-direita, personificada em Bolsonaro. Para que haja espaço para os moderados da direita, é necessário que haja espaço para os moderados da esquerda. Mas procure artigos e editoriais clamando por políticos à esquerda que se descolem de Lula. Eles até existem, mas não têm, obviamente, nenhuma chance eleitoral. É o beneplácito de Lula que atrai votos, como se viu em 2018, quando um poste desconhecido foi ao 2o turno.

Adoraria ter um segundo turno, por exemplo, entre Eduardo Leite e Kim Kataguire. Um de esquerda, outro de direita, ambos críticos tanto de Lula quanto de Bolsonaro. Mas a vida real não é assim. Enquanto a esquerda estiver dominada por Lula e seus extremistas, a direita estará dominada por Bolsonaro e seus extremistas. Ação e reação, como diria Newton.

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sábado, 6 de setembro de 2025

A explicação de Haddad para a crise dos Correios - Marcelo Guterman

O déficit operacional dos Correios é mostruoso; mas o ministro da Fazenda acha que não é má gestão; é concorrência desleal. Marcelo Guterman desmonta o argumento.

Os Correios anunciaram o resultado do 2o tri, totalizando o recorde de R$ 4,4 bilhões de prejuízo só no 1o semestre do ano. Para termos uma ideia, o prejuízo no ano passado inteiro foi de R$ 2,6 bilhões, tendo sido o recorde da empresa. Pelo visto, neste ano os Correios baterão o próprio recorde com louvor.

Para vocês terem uma ideia da enormidade do que isso significa, o maior prejuízo de uma empresa brasileira na história foi o da Petrobras em 2015: R$ 35 bilhões. A diferença é que a Petrobrás é a maior empresa do Brasil, com faturamento, à época, de cerca de R$ 320 bilhões/ano. Os Correios, por outro lado, faturaram, neste ano, R$ 8,2 bilhões. Então, prestem atenção: a Petrobrás perdeu R$ 35 bi sobre um faturamento de R$ 320 bi, ou aproximadamente 11%. Os Correios perderam, R$ 4,4 bi, sobre um faturamento de R$ 8,2 bi, ou incríveis 54% do faturamento!!! Se esse não é o recorde mundial de prejuízo, deve estar próximo.

Tendo esse quadro em mente, podemos apreciar a fala do ministro da Fazenda mais fanfarrão da história brasileira. Haddad, com a cara de pau que a natureza lhe deu, afirmou sem ruborizar: o problema foi a "quebra do monopólio", que fez os Correios ficarem com a carne de pescoço enquanto as empresas privadas ficaram com o filé.

Essa fala é simplesmente mentirosa. Vejamos.

O monopólio da União sobre as entregas postais foi determinada no governo Vargas, através do Decreto-Lei 1.681, de 13/10/1939 (https://tinyurl.com/4n5pm3kr). Lá está escrito:

"Art. 1º A União tem monopólio:

I – Da expedição para o exterior da República e do transporte e da distribuição no território nacional:

a) de cartas missivas fechadas ou abertas;

b) de cartões postais que trouxerem o endereço do destinatário;

c) de qualquer correspondência fechada como carta."

O item c) poderia ser interpretado como qualquer encomenda. No entanto, o artigo 2o esclarece:

"Art. 2º Estão excluidos do monopólio de transporte pelo Correio:

I – As cartas e os objetos fechados como carta, de peso superior a 2 kgs.;"

Portanto, encomendas com mais de 2 kgs já estavam fora do monopólio desde 1939. Mas a Lei 6.538, de 22/06/1978 (https://tinyurl.com/242mayyr), torna o monopólio ainda mais restrito, conforme se lê no artigo 9o:

"Art. 9º - São exploradas pela União, em regime de monopólio, as seguintes atividades postais:

I - recebimento, transporte e entrega, no território nacional, e a expedição, para o exterior, de carta e cartão-postal;

II - recebimento, transporte e entrega, no território nacional, e a expedição, para o exterior, de correspondência agrupada"

Por "correspondência agrupada" entende-se mais de uma correspondência, em que pelo menos uma seja carta ou cartão-postal. Portanto, o monopólio é bastante específico, ao referir-se somente a cartas e cartões-postais.

Tanto é assim, que o único projeto de lei que tramita no Congresso para quebra de monopólio é o PL 7488/2017, do deputado Eduardo Bolsonaro, e que só agora, em maio deste ano, foi aprovado na Comissão de Comunicação da Câmara, e ainda tem um longo caminho pela frente.

A depender dos Correios e do PT e suas franjas, esse monopólio nunca será quebrado. Reportagem da revista Época, em julho/2017 (https://tinyurl.com/57fyznks) descreve como os Correios mantinham (não sei se mantém até hoje) um exército de advogados para processarem quem ousasse mandar cartas por fora do sistema da empresa. A CUT, por sua vez, "alerta" para o entreguismo do PL 7488/2017, em função do seu avanço na Câmara (https://tinyurl.com/yb59ujfn).

Assim, quando Haddad afirma que o prejuízo dos Correios é função da "quebra do monopólio", está mentindo. Nunca houve monopólio para encomendas. Tanto é assim, que, por exemplo, a Fedex está no Brasil desde 1989 entregando encomendas, e não me consta que estivessem, em algum momento, operando fora da lei. Portanto, os Correios sempre enfrentaram concorrência para outras coisas que não cartas e cartões-postais.

Na verdade, o problema dos Correios não é a "quebra do monopólio" para encomendas, mas a incompetência da empresa para competir em um mercado que sempre esteve aberto. Enquanto o monopólio na entrega de cartas ainda garantia algum faturamento, essa incompetência não pesava tanto. Agora, que o mercado de cartas quase desapareceu, só sobrou a incompetência.

Entendo que possa haver habitantes de rincões do país que precisem receber cartas. O ponto é que, para essas exceções, certamente não é necessária uma empresa do tamanho dos Correios. Leia o manifesto da CUT, e você vai entender que a grande preocupação é proteger os funcionários de uma empresa que poderia ser, hoje, muito menor do que é, se o único motivo de sua existência for somente entregar cartas.

Em entrevista ontem no SBT, Lula afirmou que vai regular as redes sociais doa a quem doer, porque "não se pode brincar com a verdade". Concordo. Lula poderia começar regulando a fala de seu ministro da Fazenda.

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