Memórias da Biblioteca do Itamaraty
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre meu segundo exílio, passado num ambiente de leitura e de reflexão.
Dos meus 44 anos de carreira diplomática, treze anos e meio foram perdidos para o próprio Itamaraty, como sabem todos aqueles que seguem – dezoito leitores, calculo – minhas postagens neste quilombo de resistência intelectual que é o Diplomatizzando.
Perdidos no sentido em que, no momento mais crucial e supostamente mais produtivo da carreira, a de ministro de segunda classe, eu não tive nenhum cargo na Secretaria de Estado, efetuando, a partir de 2003 até meados de 2016, uma longa travessia do deserto burocrático e corporativo da Casa de Rio Branco, na qual ingressei em plena ditadura militar, mais exatamente no final de 1977, e da qual me aposentei no final de 2021.
A maior parte dessas "férias forçadas", ou ostracismo político, eu passei na Biblioteca do Itamaraty, da qual tenho gratas lembranças (mas que frequento ainda atualmente), como tenho gratas lembranças de todas as bibliotecas que frequentei, desde a mais "tenra infância", se ouso dizer, e em muitos países, já na fase adulta.
Um dia vou escrever mais detidamente sobre esse exílio involuntário que me foi imposto em circunstâncias que também merecem esclarecimento – sobre as quais já me pronunciei brevemente em algumas ocasiões –, um exílio forçado que completou um primeiro exílio, mas voluntário, em minha primeira maturidade, ou forçado pelas circunstâncias do momento, os anos de chumbo da ditadura militar, da qual escapei num dos momentos mais sombrios da luta política contra o regime.
No primeiro exílio, passado na Europa, foram quase sete anos, mais exatamente 6 anos e quatro meses. O segundo, passado no próprio Brasil, com uma estada no exterior, para dar aulas na Sorbonne durante um semestre, foi o dobro do primeiro, foram 13 anos e oito meses, até ser reintegrado como diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais.
Os anos de biblioteca, no Bolo de Noiva (anexo II do Itamaraty) foram extremamente gratificantes, pois além de todos os periódicos (já poucos, comparativamente aos anos anteriores, quando o Itamaraty tinha recursos para fazer muitas assinaturas) e da imensa coleção de livros no acervo geral, eu ficava lendo e retirando manualmente muitos livros das coleções particulares que diplomatas doaram antes de mim (sim, a biblioteca agora tem uma coleção PRA), verdadeiras preciosidades, de outras eras, algumas até recuadas. Além da imensa coleção de Ronald de Carvalho (mais literatura do que história), eu olhava a do Dario de Castro Alves (casado com a Dinah Silveira de Queiroz), a de Teixeira Soares, Jayme de Azevedo Rodrigues, Mario de Pimentel Brandão, Miguel Ozório de Almeida, ademais de dois outros que foram justamente os responsáveis pelo meu segundo exílio forçado. Em todas as coleções eu encontrei munição para escrever muitos artigos, até livros, além de centenas de notas postadas no meu próprio quilombo particular.
Além de consultar sur place, pois eu era um habitué, quase um residente local, eu tinha mandato para emprestar quantos livros eu desejasse, e também ficar com eles o tem que quisesse.
Como disse, encontrei preciosidades, às quais ainda vou retornar para, provavelmente, traças muitas páginas desse capítulo que figura acima, memórias de uma biblioteca, provavelmente rememorando também todas as demais que frequentei ao longo de uma vida dedicada aos livros talvez pela metade do meu tempo útil, mais do que qualquer outro lazer ou atividade.
Devo aos agentes do SNI, durante a ditadura, a preservação de um texto meu escrito aos poucos meses de carreira, o que me levou a um registro no Diretório vivo da agência de informação (hoje preservado no Arquivo Nacional de Brasília) como sendo um "diplomata subversivo", com menos de seis meses de serviço ativo. Devo também aos responsáveis pelo segundo exílio o "favor" de me concederem tempo livre para escrever muito, geralmente no sentido contrarianista, que sempre me foi, também, habitual numa trajetória feita de leitura, conhecimento, reflexões, ceticismo sadio sobre as "verdades reveladas" e um certo caráter frondeur, ou anarquista, o que virou traço quase permanente de uma carreira autrement muito feliz e bem-sucedida. Fiz o que eu teria feito em qualquer outra profissão: além do trabalho regular, burocrático, a dedicação às leituras, às notas e à escrevinhação (como eu designo a minha segunda, talvez primeira, profissão).
Voltarei ao assunto...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5404, 18 julho 2026, 2 p.
Divulgado no blog Diplomatizzando (link: ).