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segunda-feira, 13 de outubro de 2014
terça-feira, 13 de agosto de 2013
Interesse ampliado pela diplomacia no Brasil - Revista Fapesp
Gosto pela diplomacia
Cresce o interesse de brasileiros pelos rumos da política externa
CARLOS HAAG
Pesquisa Fapesp, Edição 210 - Agosto de 2013
© CATARINA BESSELL
Mesmo com um papa argentino, os brasileiros acreditam que o país está muito bem colocado no plano internacional e nem precisa do trono de São Pedro para se projetar: 85% afirmam que o Brasil conseguiu firmar uma imagem de independência perante o mundo. Aliás, o fato de o pontífice vir de uma nação vizinha impressiona pouco, pois menos de 20% dos brasileiros se consideram latino-americanos ou sul-americanos. Além disso, pode-se admirar o lado espiritual, mas cerca de 85% dos brasileiros se animam mesmo é com os resultados econômicos da globalização e com os efeitos da abertura comercial.
Esses são resultados da pesquisa Brasil, as Américas e o mundo, coordenada pela professora Maria Hermínia Tavares de Almeida, com uma equipe do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (IR-USP) composta também pelos professores Janina Onuki e Leandro Piquet Carneiro, e que contou com apoio da FAPESP. Segundo o estudo, cada vez mais cresce o interesse nacional pela política externa, na contramão de consensos passados. “Não se pode mais falar de uma suposta indiferença das lideranças e da população e, apesar do Ministério das Relações Exteriores continuar ocupando uma posição central no comando da política externa do Brasil, é um engano continuar a pensar que o Itamaraty seja um caso bem-sucedido de insulamento burocrático”, explica a pesquisadora. O estudo é parte do projeto colaborativo Las Américas y el mundo, capitaneado por pesquisadores do Centro de Investigación y Docencia Económicos (Cide – México) e reúne vários países latino-americanos para analisar a ligação entre a opinião pública e temas centrais de política externa e relações internacionais.
“Esse estudo é uma resposta às necessidades crescentes de informação numa área estratégica para o desenvolvimento e estabilidade dos países da região que em geral acabam dependendo de dados pouco confiáveis e dispersos. Num contexto democrático, os tomadores de decisões precisam contar com as informações sobre o que pensam os cidadãos para desenhar suas políticas externas”, afirma Guadalupe González González, diretora-geral do projeto do Cide. “O Brasil, no novo cenário mundial, aumentou seu peso dentro e fora da região, se posicionando como o agente de ligação latino-americano com o grupo dos Brics de economias emergentes (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e o principal promotor da cooperação Sul-Sul e da integração sul-americana”, analisa a pesquisadora, para quem Brasil e México se configuram como os líderes potenciais da região latino-americana.
Nesse novo quadro, para Maria Hermínia, a política estatal para pensar o país e o mundo não pode mais depender apenas da capacidade e disciplina duma elite burocrática como a do Itamaraty, mas também do consenso sobre o mundo e do lugar do país nele por parte de uma comunidade mais envolvida na discussão política. Apesar do crescimento do número de interessados em discussões de questões internacionais, que os pesquisadores denominam de público interessado e informado (PII), o papel ativo na contribuição de ideias cabe à chamada comunidade de política externa (CPE): há um grande diferencial entre o interesse dos seus membros (91%) mesmo se comparado com o PII (22%).
No público “comum”, os quesitos “pouco” e “nenhum” interesse chegam a, respectivamente, 25% e 20%. Em boa parte isso decorre do pouco contato do público comum com o exterior: 88% nunca saíram do país. No caso da amostra brasileira, foram entrevistados 200 líderes políticos e sociais e uma amostra aleatória de 2.400 pessoas representativa da população urbana brasileira entre o final de 2010 e 2011. A equipe pretende repetir a pesquisa em 2014 para comparar os resultados.
“Ninguém havia feito uma pesquisa com o público até então. A novidade é revelar que não se pode mais falar numa política externa insulada no MRE ou na Presidência. Embora não tenham impacto eleitoral, não significa que as relações internacionais não sejam importantes para as pessoas e tema de discussões”, diz Maria Hermínia. Mas a pesquisadora avisa que os resultados mostram percepções e não necessariamente verdades. “Basta ver o entusiasmo exagerado com o papel do Brasil no mundo ou a visão de que países desenvolvidos não vão ter importância no futuro, uma aposta algo exagerada nos emergentes”, fala.
Prova disso é a comparação entre os dados obtidos nessa pesquisa recente com os conseguidos pelo cientista político Amaury de Souza (falecido em 2012), nas duas versões da pesquisa O Brasil na região e no mundo: percepções da comunidade brasileira de política externa que fez para o Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) nos anos de 2001 e 2008.
Para se ter ideia de como a percepção da CPE cresceu, em 2001, 74% acreditavam no crescimento do papel internacional do Brasil em 10 anos; em 2008, o percentual passou para 85%; e, agora, em 2010, chegou aos 97% de visões otimistas. Esse otimismo se estende também ao cenário internacional como um todo. “O otimismo cresce com a informação e o interesse pelas questões mundiais. Por isso a CPE mostra altas porcentagens, 85%, de satisfação com a capacidade do Brasil de se afirmar autonomamente na cena internacional”, nota a autora. Já entre o público dos desinteressados e desinformados, essa satisfação cai para 37%.
Outro dado que chamou a atenção da pesquisadora: menos de 15% dos entrevistados da comunidade e do público informado acreditam que os Estados Unidos serão mais importantes no futuro, enquanto a esmagadora maioria afirma que o futuro pertenceria à China, ao Brasil e à Índia. “Claro que já se pressentia um mundo onde o poder estivesse mais descentralizado, mas eu esperava ao menos da CPE uma visão mais matizada”, analisa Maria Hermínia.
Outro fato notável para a pesquisadora é a existência de um consenso entre a comunidade de política externa e o público interessado e informado. Na pesquisa de Amaury de Souza, nos anos de 2001 e 2008, os Estados Unidos ainda eram vistos por 49% dos entrevistados da comunidade de política externa como um ator global respeitável na década seguinte, percentual que caiu para 15% em 2008 e permanece o mesmo em 2010. Outros países de peso como Alemanha, Rússia e Japão também perderam força como nações importantes para o Brasil, segundo a percepção da comunidade.
A queda de 30% no caso americano, a despeito das crises financeiras recentes, observa Maria Hermínia, revela uma percepção pouco realista das relações internacionais e do papel que os EUA e seus aliados ocidentais ainda manterão por muito tempo. Além disso, os EUA despertam atitudes e sentimentos complexos de admiração e desconfiança entre todos os grupos de entrevistados e, ainda que a admiração pelos americanos seja mais elevada entre a CPE do que entre os setores do público, existe uma parcela importante de membros da comunidade de política externa que não gosta deles.
“Parece existir um antiamericanismo entranhado nos brasileiros e os dados mostram que ele é inversamente proporcional ao interesse, conhecimento e envolvimento em questões internacionais”, nota Maria Hermínia. Enquanto o país se esforça em se aproximar dos EUA, a comunidade de política externa, na contramão do esperado, ainda mantém ressalvas. Efetivamente o insulamento da política externa vem caindo.“Desde a década de 1990 há indícios importantes na alteração desse padrão tradicional e pressões crescentes para que o processo se torne mais permeável às articulações, interesses e demandas de uma diversidade de outros atores”, observa o cientista político Carlos Aurélio Pimenta de Faria, da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-Minas) e autor do artigo “Opinião pública e política externa: insulamento, politização e reforma na produção da política exterior do Brasil” (2008).
© CATARINA BESSELL
Para o pesquisador, a falta persistente de preocupação do Itamaraty com a opinião pública não se liga apenas ao caráter público da diplomacia nacional, mas a uma demanda, até há pouco, muito baixa da sociedade brasileira por maior prestação de contas dos agentes estatais. “Era quase uma delegação da produção da política externa ao Itamaraty que, com a globalização, que fazia as relações internacionais impactarem diretamente na sociedade, estaria se convertendo em abdicação”, nota.
Mas, passados os primeiros impactos, o Brasil agora é amplamente favorável à globalização, com a CPE (84%) e o PII (82,1%) muito mais otimistas do que a parcela do público pouco interessada e informada sobre política externa (60%). O mesmo vale para a atração de investimentos como sendo um benefício para o país. A única ressalva é sobre a questão do meio ambiente: 42,2% da CPE considera o livre-comércio bom para o meio ambiente, algo superior aos 58,9% do PII e os 50,3% do público desinformado. “Em função das políticas protecionistas, o país viveu fechado durante muito tempo. Nos anos 1990 isso mudou, abrimos para o mundo e não há volta”, analisa Maria Hermínia. Segundo ela, o ideal que o Brasil está se integrando ao mundo tem apoio quase integral dos brasileiros pesquisados, para além dos discursos que são contrários à globalização.
“Essa atitude afirmativa diante do mundo vem do governo Fernando Henrique e foi reafirmada no governo Lula, que deu corda ao otimismo”, observa a pesquisadora. A visão para fora parece não incluir a vizinhança latino-americana e a identidade regional é ambivalente. “A autoidentificação dos brasileiros como latino-americanos sempre foi tênue. A percepção de pertencer a uma nação diferente da dos seus vizinhos, por causa da experiência colonial distinta, língua e trajetória particular como país independente, sempre caracterizou o pensamento das elites e do público de massas”, fala Maria Hermína.
Recentemente, a política externa, lembra a professora, definiu a América do Sul, e não a América Latina, como espaço para o exercício da liderança política brasileira. Segundo a pesquisa, apenas um quarto da comunidade de política externa se reconhece como latino-americana, apenas 18,5% como sul-americana e é irrisória a porcentagem daqueles para os quais serem do Mercosul é uma identidade importante (1,5%). A grande maioria (90%) se vê como brasileiros.
Isso se reflete, no caso do comércio, diante de várias estratégias de inserção na economia mundial, a CPE privilegia a atuação multilateral na Organização Mundial do Comércio (OMC) e, secundariamente, a realização de acordos comerciais bilaterais, em detrimento de estratégias envolvendo coordenação regional, no âmbito do Mercosul ou da vizinhança sul-americana. Quando questionados em que região o Brasil deve prestar mais atenção no mundo, pouco menos da metade da CPE (48%) e uma parcela ainda mais reduzida do PPI (32,4%) respondem América Latina.
Sobre o papel do Brasil na América do Sul há uma divisão precisa na CPE: metade afirma que o país deveria liderar sozinho e outra metade que deveria compartilhar a responsabilidade com os vizinhos. A maioria (55,1%) do PII pensa que o Brasil deveria liderar. Embora não vejam problemas futuros com os vizinhos, os brasileiros da PII apontam Venezuela (21%) e Colômbia (24,6%) como países como fonte potencial de conflitos.
A integração regional, tema importante da agenda internacional, é apoiada por 71,5% da CPE, que quer que ela seja feita de forma aprofundada. Mas quando se vai a fundo nisso os pesquisadores verificaram que o comércio, investimentos e infraestrutura são as dimensões que têm apoio expressivo. Seria até esse ponto que deveriam ir os esforços para aprofundar a integração. “O discurso era de que, justamente por causa dessa distância, o Mercosul era importante para construir uma plataforma de cooperação. Mas os resultados mostram que a região, para o Brasil, é mais uma plataforma para falar para o mundo do que um espaço para manter diálogos ou exercer protagonismo. Essa visão é muito diferente da que se encontrou nas pesquisas feitas em outros países.”
Efetivamente, nota Guadalupe González, para a Colômbia, Equador e México o mundo se limitaria quase exclusivamente ao continente onde concentram suas aspirações internacionais e a sua participação internacional. Apenas Brasil e Peru têm uma visão mais global de seus interesses que abarcam outras regiões do mundo, em especial a Ásia, vista como novo motor da economia mundial.
© CATARINA BESSELL
Por fim, a surpresa maior da pesquisa feita pelo IR-USP é que o novo interesse vem na forma de um consenso entre especialistas e o público informado. “Assim, apesar de os analistas terem chamado a atenção para uma real ou suposta ‘partidarização’ recente da política externa e, em consequência, para o surgimento de divergências que indicariam a perda de seu caráter de política de Estado, a verdade é que o consenso no interior da CPE e do PII é muito extenso, como é extensa e significativa a convergência entre os dois grupos”, fala a professora.
Naturalmente, observa Maria Hermínia, existem temas mais controversos que afastam os dois, mas, no geral, apesar das críticas abertas às políticas governamentais, a discussão não dividiu os segmentos. “Será necessário verificar isso numa segunda amostra em 2014 para confirmar se essa observação procede”, avisa.
No geral, seja por visão própria, seja pelo consenso com a CPE, há uma visão de que o Brasil tem condições de ser um ator global, consequência natural da sua inserção no mundo globalizado. “A parcela mais informada da população apresenta um otimismo que não é muito visto no público que possui meios menos reduzidos de acompanhar os noticiários”, diz Maria Hermínia. “Isso revela um desafio para a diplomacia brasileira: fazer com que o sentimento otimista sobre as ações internacionais passe para uma população que as vê como intangíveis, diante de uma situação econômica mais próxima que desnorteia os cidadãos”, avisa a professora.
Projeto
Brasil, as Américas e o Mundo – política externa e opinião pública 2010 (2010/06356-3); Modalidade Linha Regular de Auxílio a Projeto de Pesquisa; Coord. Maria Hermínia Tavares de Almeida/USP; Investimento R$ 242.291,24 (FAPESP).
Brasil, as Américas e o Mundo – política externa e opinião pública 2010 (2010/06356-3); Modalidade Linha Regular de Auxílio a Projeto de Pesquisa; Coord. Maria Hermínia Tavares de Almeida/USP; Investimento R$ 242.291,24 (FAPESP).
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013
Dinamarca: estudos brasileiros na universidade de Aarhus - Prof. Vinicius Mariano
Entrevista: Prof. Dr.Vinicius Mariano do Carvalho (Universidade de Aarhus)
Café História, 5/02/2013
O
Café História entrevistou o Prof. Dr. Vinicius Mariano do Carvalho,
coordenador do programa de estudos brasileiros da Universidade de
Aarhus, da Dinamarca. O programa existe há vinte anos e acaba de lançar
uma revista acadêmica totalmente dedicado ao tema: Brasiliana.
Graduado
em letras, mas com uma formação acadêmica interdisciplinar, o
professor Vinícius Mariano conta nesta entrevista exclusiva como surgiu o
projeto da revista Brasiliana, além de refletir sobre o tema
“estudos brasileiros” e as transformações em relação ao Brasil que ele
enxerga no âmbito acadêmico dinamarquês e do exterior. Além da revista, a
Universidade de Aarhus oferece ainda um programa de estudos brasileiros
que cada vez mais vem atraindo mais e mais alunos, que aprendem não
apenas a língua portuguesa, mas também elementos da cultura e da
história do Brasill. Confira e comente!
Café História: Professor,
muito obrigado por conversar conosco. Foi com muito interesse e
animação que recebemos a notícia do lançamento da “Brasiliana”. Como
surgiu a ideia de uma revista de estudos brasileiros em uma universidade
dinamarquesa?
Prof.Vinicius Mariano: Primeiramente,
eu que tenho que agradecer pelo interesse em conhecer mais sobre nosso
programa de Estudos Brasileiros na universidade de Aarhus e sobre nossa
Revista, a Brasiliana. A revista nasceu
de uma demanda não apenas dinamarquesa, mas eu diria que muito maior.
Uma demanda por um meio específico para se discutir o Brasil e com o
Brasil. Professores, acadêmicos e pesquisadores de uma comunidade que
está se tornando maior a cada dia, a dos brasilianistas, normalmente
utilizaram fóruns acadêmicos mais amplos, como as revistas sobre América
Latina, Mundo Lusófono, Mundo Ibérico,etc., porém poucas são as
revistas que se dedicam exclusivamente ao Brasil no ambiente das
ciências sociais e humanas. Essa foi a motivação primeira para a criação
da Brasiliana. A segunda motivação é de caráter estratégico local.
Dentro de um plano de inserir nosso programa de Estudos Brasileiros da
Universidade de Aarhrus em um contexto mais internacional e de certa
maneira situá-lo mais ativamente no debate sobre e com o Brasil,
Brasiliana foi o resultado natural desta estratégia.
Café História: Recentemente,
entrevistamos o historiador Jurandir Malerba, professor de história na
PUCRS e que atualmente está em Berlim terminando seu curso na novíssima
cátedra Sérgio Buarque de Holanda de Estudos Brasileiros, na
Universidade Livre de Berlim. Mais recentemente, foi lançada a
"Brasiliana", revista de estudos brasileiros que o senhor coordena na
Universidade de Aarhus, Dinamarca. Que o Brasil nos últimos anos veem
ganhando destaque internacional em termos políticos e econômicos é
razoavelmente (re)conhecido. Mas parece que há também um destaque do
Brasil no meio acadêmico. Ao que parece, os pesquisadores e estudantes
estrangeiros querem saber mais sobre a cultura e a história de nosso
país. O senhor concorda? Se sim, como avalia este momento?
Prof.Vinicius Mariano: Sim,
podemos dizer que têm havido uma maior busca por estudos sobre o
Brasil, e também a presença de pesquisadores brasileiros no exterior tem
sido muito importante para mostrar o que se produz de ciência no
Brasil. Eu repito o que para mim é muito importante: acho que quando se
trata de academia, precisamos sempre pensar de forma dialogal. Uma
questão é o aumento da procura por conhecimento sobre o Brasil no
exterior, outra coisa é o aumento da inserção do pensamento produzido no
Brasil em todo o mundo. Quanto mais conseguirmos equilibrar esta
balança, melhor será. Precisamos de estudar o Brasil, mas também com o
Brasil. Neste ponto, o intercâmbio de pesquisadores e estudantes é
fundamental. Se as condições são mais favoráveis hoje que há dez anos,
então aproveitemos estas oportunidades.
Café História: Criar
uma revista acadêmica exige muita dedicação, seja no Brasil ou no
estrangeiro. Qual foi o maior desafio que o senhor encontrou na
construção e execução deste projeto?
Prof.Vinicius Mariano: Primeiramente
é preciso dizer que a revista me traz muito mais prazer que trabalho.
Acho que é um grande privilégio poder, de certa maneira, provocar algum
debate acadêmico e receber tantas respostas em forma de artigos de
excelente qualidade, rigor científico e criatividade analítica. Além
disso, a possibilidade de, virtualmente, estar envolvido nosurgmiento de
uma comunidade de leitores, autores, editores é imprescidível no
desenvolvimento do pensamento humanístico. Estas alegrias fazem com que
qualquer desafio se torne pequeno e superável.É
claro que, sendo um projeto que começa a dar seus passos agora, há
muitos acertos a serem feitos. A Revista não conta com patrocínio e é de
fato a colaboração que a faz mover-se. Penso que muitos colegas que
estão colaborando com a realização deste projeto também podem ver o
potencial da Revista e investem seu tempo e dedicação para que logremos
fazer da revista um canal sério e que dê frutos.
Café História: Professor,
no editorial de estreia da “Brasiliana”, o senhor sublinha que as
universidades estrangeiras passaram a usar mais o termo “Brazilian
Studies” do que o tradicional (e genérico) “Latin American Studies” para
se referir ao campo de pesquisas acadêmicas sobre Brasil. E, neste
sentido, diz que a “Brasiliana” tenta já neste primeiro número definir o
que significa esta categoria: “Brazilian Studies”. Em resumo, na sua
opinião, como o senhor definiria os “Brazilian Studies”?
Prof.Vinicius Mariano: Academicamente
venho defendendo a idéia de que, ainda que prático e necessário em
algum momento, é preciso cuidado com a generalização do termo América
Latina. Quais são os critérios para esta categorização? Linguísticos?
Coloniais? Ademais, o que se vê normalmente é uma associação entre os
termos América Latina e América de língua espanhola. Obviamente que há
um número bastante consideravel de países no continente americano que
falam espanhol, porém parece-me que esta associação é um pouco confusa.
Neste sentido, venho defendendo que é preciso diferenciar Estudos
Brasileiros de Estudos Latinoamericanos. A grande maioria dos
departamentos nas universidades que oferecem algo sobre Brasil, incluem o
estudo do país no quadro dos estudos latinoamericanos. Outra
vez, compreendo que é necessário pensar de maneira prática e seria de
certa forma inviável que universidades criassem um departamento de
estudos brasileiros, um de estudos cubanos, um de estudos mexicanos, um
de estudos nicaragueneses, etc. Mas observo, e não apenas eu, mas muitos
outros brasilianistas e latinoamericanistas, que os estudos brasileiros
vêm ganhando certa projeção e, mesmo ainda dentro de departamentos de
estudos latino americanos ou hispano americanos, solidifica-se mais e
mais como uma área de estudos. Não arisco a levantar hipóteses sobre as
razões para esta projeção, mas creio que é nossa tarefa como acadêmicos
estarmos abertos e atentos para discutir uma possível ontologia e
epistemologia dos estudos brasileiros. Você
me pergunta como eu definiria estudos brasileiros. Deixarei sua
pergunta sem uma resposta final, uma vez que é exatamente este debate
que pretendemos que a Brasiliana venha articular e trazer. O que eu
diria é que, a meus olhos, estes “estudos brasileiros” não devem pensar o
Brasil apenas como um objeto, mas também como um sujeito da reflexão
social e humanística, uma reflexão sobre si mesmo e sobre o mundo.
Café História: O
corpo editorial da revista é bastante global. Há professores do Brasil,
da Dinamarca, da Inglaterra e dos Estados Unidos. Isso reforça o perfil
interdisciplinar da publicação? E, mais, como tem sido o feedback deste
trabalho?
Prof.Vinicius Mariano: Como
eu disse acima, a idéia é que Brasiliana se torne um fórum
internacional para debater sobre e com o Brasil. Acredito que apenas uma
pluralidade de vozes, interepretações e análises poderão de fato
contribuir para a construção de um pensar amplo em torno do Brasil. Isso
porque, em nosso ponto de vista, o Brasil também é plural, seja em suas
potencialidades e em seus problemas, o que nos obriga a também pensar
de maneira plural. As respostas têm sido muito positivas. Somos
surpreendidos com a visibilidade que a revista alcançou em pouco tempo
de existência. Obviamente há críticas acerca do caráter amplo de
abrangência da revista, porém esta é a perspectiva que lançamos e que
insistiremos em seguir.
Café História: Como
os pesquisadores brasileiros podem colaborar com a revista? Ela aceita
trabalhos em fluxos contínuos? Quem pode enviar artigos ou resenhas?
Prof.Vinicius Mariano: A
revista têm 4 sessões. A primeira, chamada dossiê, é uma sessão mais
temática, para a qual lançamos duas chamadas para artigos anualmente. Os
temas para esta sessão são definidos pelo Conselho Editorial e estamos
neste principio privilegiando uma discussão em torno do significado do
conceito Estudos Brasileiros. Posteriormente estes temas ampliar-se-ão a
tópicos emergentes no debate acadêmico e social do e sobre o Brasil. As
demais sessões, Geral, Resenhas e “Varia”, têm um fluxo contínuo de
recepção de textos. Na sessão Geral recebemos textos que discutam
academicamente temas relevantes sobre o Brasil nos campos das Ciências
Sociais e Humanas. O espaço é amplo e não excludente, conquanto o texto
reflita sobre e com o Brasil. Resenhas de publicações, exposições,
concertos ou performances recentes sobre o Brasil ou com artistas
brasileiros são sempre bem vindas. A sessão “Varia” é mais livre, traz
entrevistas relevantes que podem provocar outros textos e debates,
reportagens ou ensaios que não passam pelo processo de “peer review”.
Para esta sessão preferimos falar em “aceitamos sugestões” do que
“recebemos artigos”, já que neste caso os Editores têm uma agenda a
seguir.Todo pesquisador que
queira submeter um artigo científico que reflita algum aspecto do
Brasil, nas áreas das ciências sociais e humanas, encontrará Brasiliana
de portas abertas. A revista publica em português, inlgês, espanhol e
dinamarquês.
Café História: Professor,
o senhor pode nos falar um pouco sobre a sua trajetória acadêmica e
objetos de pesquisa? Como começou a sua relação com a Dinamarca?
Prof.Vinicius Mariano: Minha
trajetória acadêmica também é plural, dentro das ciências humanas.
Venho das letras, da filosofia, da literatura, da música, da teologia;
gosto da história, da antropologia, da sociologia, da política, da
geografia, da linguística. Enfim, das humanidades. Passei, tanto como
estudante quanto professor, por universidades no Brasil e na Alemanha
antes de vir para a Dinamarca, onde cheguei quase casualmente em 2008,
no programa de Leitorado do MRE-CAPES, vindo depois a tornar-me
professor de Estudos Brasileiros da própria universidade de Aarhus.
Café História: A
revista é apenas uma de suas ocupações na Universidade de Aarhus. O
senhor também está à frente do Programa de Estudos Brasileiros desta
universidade. Como funciona esse programa? Ele funciona há muito tempo?
Que cursos e que formação oferece atualmente?
Prof.Vinicius Mariano: Sim,
atualmente coordeno os Estudos Brasileiros na Universidade de Aarhus.
Este programa, que já tem quase 20 anos, vem passando por reformulações
com o objetivo de fazê-lo mais dinâmico e capaz de dar respostas à
demandas contemporâneas, bem como formar profissionais que sejam
mediadores entre o Brasil e a Dinamarca. A principio o programa teve um
caráter mais filológico, com muita ênfase no aprendizado da língua
portuguesa na sua variante brasileira, porém, como eu disse, estamos já
há alguns anos promovendo modificações no programa, de modo dar um
conhecimento mais abrangente sobre o Brasil. Temos um programa de
Bacharelado e de Mestrado em Estudos Brasileiros e também temos
estudantes de Doutorado em nosso programa. Aqui o aluno aprende a língua
portuguesa, obviamente, e também literatura, cultura e história do
Brasil, além de ter cursos sobre cultura organizacional, estudos de
problemas brasileiros, etc.Oferecemos
também com frequencia mensal uma série de palestras chamadas “Lectures
on Brazilian Studies”, nas quais buscamos trazer pesquisadores
brasileiros ou de outras partes do mundo para apresentarem suas
pesquisas sobre o Brasil. Uma vez por ano temos um grande evento chamado
“Brazilian Days”, normalmente na última semana de setembro, quando
tratamos de um tema específico da cultura brasileira com palestras,
concertos, exibições de filmes, workshops, etc. Durante o “Brazilian
Days” também realizamos reuniões internas buscando aprimorar as relações
e colaborações com universidades brasileiras. Nossos
alunos, em sua maioria esmagadora, passam um semestre de seus estudos
em alguma de nossa universidades parceiras no Brasil, para que conheçam
mais da realidade brasileira e convivam com estudantes brasileiros.
Realizamos excursões de estudos ao Brasil e buscamos provomer a difusão
da cultura do Brasil dentro da universidade em geral. É bastante
trabalho!
Café História: Que
estudantes procuram este programa de estudos brasileiros? O que motiva
tais alunos a se interessarem pelo Brasil? Que nível de conhecimento do
país eles geralmente possuem ao entrar e, mais tarde, ao sair do curso?
Prof.Vinicius Mariano: Nosso
público é bastante variado no que diz respeito à suas motivações. Tenho
alunos que vieram para o curso porque gostam do futebol do Brasil,
outros por causa da música, outros porque gostariam de saber como
negociar com o Brasil, outros porque são apaixonados por um ou por uma
brasileira! Enfim, as motivações são diversas, o que se torna um grande
desafio para nós. Buscamos satisfazer-lhes em suas aspirações, mas
dar-lhes também uma perspectiva mais abrangente sobre o país e
motivá-los para que busquem, por eles mesmos, maneiras de inserirem-se
na cultura brasileira. Nos últimos 4 anos o crescimento pela procura do
curso foi vertiginoso. Saimos de 9 estudantes para 51 em nível de
bacharelado. Comemorarmos isso, mas também sentimos a responsabilidade
em dar-lhes uma formação apropriada e motivadora.
Café História: Professor,
muito obrigado por esta excelente conversa. Foi um prazer para
administração do Café História abordar um projeto tão estimulante. Fique
à vontade para passar qualquer recado aos quase 50 mil participantes de
nossa rede.
Prof.Vinicius Mariano:
Mais uma vez, eu que agradeço a oportunidade e interesse. Parabenizo a
todos que participam deste web site, promovendo um diálogo necessário e
frutífero e espero que os leitores se sintam motivados a participar da
Brasiliana, seja como autores ou leitores, e nos ajudem a construir
estes estudos brasileiros.
Confira fotos de algumas atividades do programa de estudos brasileiros da Universidade de Aarhus:http://cafehistoria.ning.com/entrevista/viniciusmariano?xg_source=msg_mes_network
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