quarta-feira, 3 de junho de 2026

Três quartos de século já passados: o que eu tenho, o que vem pela frente? - Paulo Roberto de Almeida (2024) + Madame IA

Ao final de tudo, Madame IA, sempre provocada por Airton Dirceu Lemmertz, se pronuncia sobre esta minha nota. 

 Mensagem aberta aos leitores do Diplomatizzando nos meus 75 anos

Brasília, 3 junho 2026, 8 p.  

        De vez em quando, pulam na tela coisas de priscas eras, ou de períodos mais recentes, como é o caso do texto abaixo, feito no dia em que eu completava 75 anos, três quartos de século, um ano e meio atrás. Não creio que eu vá completar mais um quarto de século, portanto tenho de me preparar para a diminuição dos anos que tenho pela frente. Como apareceu na minha tela, reproduzo aqui novamente, pois parece servir inteiramente para os tempos atuais (e para os que me restam). Aproveito para reproduzir abaixo, os comentários que foram postados nesta postagem, de 2024, e também para agradecer, sinceramente, e me desculpar, envergonhadamente, por não ter respondido a todos, sequer agradecido devidamente, o que faço agora. Uma razão para esta descortesia: devo ter um fluxo diários de centenas de msgs, pelos diversos canais, e quando consigo repassar tudo o que me chega, constato que já são 3hs da madrugado e o cansaço bate forte, assim como os apelos conjugais para deixar o computador e ir descansar. MUITO OBRIGADO A TODOS, e prometo novas reflexões sobre as atividades no último ano e meio (este texto recebeu o número 4792, uma numeração serial que uso para os meus registros e controles dos trabalhos, pois de outra forma eu me perderia; hoje, 3 junho de 2026, já estou no trabalho 5338, ou seja, neste intervalo "apareceram" 546 trabalhos a mais, com algum Lavoisier...).

Abraço a todos

Brasília, 3/06/2026 


5338. “Mensagem aberta aos leitores do Diplomatizzando nos meus 75 anos”, Brasília, 3 junho 2026, 8 p. Reprodução de um texto (4792), de 19 de novembro de 2024, revisando um pouco do que fiz nestes três quartos de séculos, de muita leitura, muita busca de conhecimento, uma atividade docente intensa, e uma carreira diplomática um tanto turbulenta, dado meu “contrarianismo” voltado para o aperfeiçoamento (nem sempre bem compreendido e aceito). Postado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/06/tres-quartos-de-seculo-ja-passados-o.html).

 


Três quartos de século, três gerações 
 
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
19 novembro 2024 
 
        Nota sobre a passagem do tempo, dedicada a Carmen Lícia Palazzo, que me acompanhou pela maior parte desta trajetória de vida, tendo lido muito mais livros do que eu, sendo bem mais inteligente do que eu, e que me confortou, assim como a todos da família, em todos os momentos de uma vida nômade e repleta de boas surpresas intelectuais.
        A demografia histórica tem uma função precisa: medir e analisar dados populacionais ao longo do tempo em comunidades definidas; é ela quem nos diz quais países ou sociedades estão registrando crescimento demográfico e quais já entraram na direção da redução da natalidade e diminuição progressiva da população. Ela faz, digamos, o lado macro da evolução demográfica dos países e, cumulativamente, do mundo, no decorrer do tempo. Ao nível micro, a demografia tem de ser vista pelo tempo de vida de cada indivíduo, o que normalmente se estende por três gerações, ou aproximadamente 75 anos: pais, filhos e netos, mais frequentemente agora bisnetos, mas é bem mais raro, sobretudo nos países de esperança de vida reduzida.
        A vida das pessoas é, portanto, medida geralmente pelo ciclo da infância, da maturidade (seguida pela maternidade e paternidade) e pela continuidade dessa geração nos filhos dos seus filhos. A realização pessoal de cada individuo de uma geração se faz pelos estudos na infância e na adolescência, pelo trabalho na vida adulta e depois pela ajuda na administração da família que segue na geração seguinte, filhos já adultos e os netos. Esse é, via de regra, o itinerário de uma vida humana que fica geralmente limitada a três quartos de século, considerando-se uma trajetória “normal”, com boa alimentação e cuidados de saúde.
        No que me concerne, pessoalmente, minha infância e adolescência foram ocupadas simultaneamente por estudos e trabalhos, aliás praticamente a vida inteira, pois que nunca deixei de estudar e de dar aulas, mesmo quando profissionalmente dedicado à carreira diplomática já na idade adulta. Mas comecei a dar aulas para preparação de ingresso na universidade, antes mesmo de ingressar eu mesmo nos estudos superiores, dada a minha precocidade nas leituras e nos estudos desde que aprendi a ler, na idade tardia de sete anos (sempre achei que perdi dois ou três anos de leituras, por pertencer a uma família de avós analfabetos, completamente, e de pais saídos da escola primária para começar a trabalhar). Leituras, estudos, docência fizeram parte de minha vida muito mais, provavelmente, do que as mais de quatro décadas voltadas para o desempenho na diplomacia profissional.
        Aliás, a diplomacia foi a profissão ideal para quem se destinava a uma carreira puramente acadêmica, voltada para minha primeira profissão, que foi a de professor, continuada ao longo dos anos. A diplomacia é a mais intelectual das profissões na burocracia estatal, pois que obriga e combina atividades de pesquisa, de informação, de reflexão, de produção de soluções e de respostas aos desafios das relações exteriores do país, levando em conta um conhecimento preciso das características e necessidades do seu próprio país.
        Entrei agora no quarto final de minha trajetória pessoal, ocupacional (pois que ainda sou professor) e intelectual, uma vez que continuo produzindo trabalhos acadêmicos e livros-síntese de minhas leituras, pesquisas e conhecimentos adquiridos em outros livros e no contato com a realidade, pela mídia, pelas visitas e viagens, participação em encontros e seminários, pela docência, pela convivência com familiares e amigos. Espero continuar produtivo pelo tempo que me resta de trajetória neste planeta confuso, agitado, por vezes calmo, mas atualmente tão agitado quanto em certas épocas passadas. A esses desafios do presente, respondo com algum mergulho no passado, leituras de história e memórias de quem participou da vida ativa em épocas pretéritas e alguma especulação quanto ao futuro.
          Nos dois últimos anos, tenho ficado muito preocupado com um certo retorno ao imperialismo brutal de duas ou três gerações atrás, ao expansionismo militarista de tiranos e ditadores arrogantes, aos perigos que pensávamos superados depois do final de uma Guerra Fria que por vezes arriscou os limites de uma nova confrontação global, agora novamente à espreita. Volto minhas reflexões, leituras e pesquisas para os novos perigos que rondam a humanidade, e tento oferecer ao meu país, aos meus colegas diplomatas observações que retiro da experiência profissional passada e das constantes leituras que continuo fazendo, mas agora sem qualquer obrigação de trabalho. Ou seja, apenas devoção intelectual pelo estudo, reflexão e escrita sobre os problemas do país e da humanidade.
        Persistirei nesse empenho e dedicação ao conhecimento e sua transmissão racional aos mais jovens, geralmente estudantes, muitos que eu sequer conheço, pois que coloco a quase totalidade de minha produção intelectual à livre disposição dos interessados, dos que me seguem, de eventuais curiosos que frequentam meus canais de informação, de passantes ao acaso, que também demonstram interesse por minhas afinidades de leitura e de escrita.
        A todos os que se beneficiaram de minhas aulas, de meus trabalhos, direta ou indiretamente, a todos os meus colegas de trabalho, atuais e aposentados, como é agora o meu caso, minhas melhores saudações e cumprimentos, na certeza de partilharmos do mesmo objetivo básico: fazer do presente mundo, e do seu futuro de curto prazo, um mundo melhor do que aquele que encontramos quando nascemos, aquele que nos foi legado por nossos avós, nossos pais. Que as gerações seguintes, meus netos, talvez futuros bisnetos possam encontrar no meu patrimônio intelectual algum motivo de satisfação pessoal, tanto quanto eu tive ao produzir certa massa de conhecimento que considero ser de alguma utilidade para a melhoria do país, talvez de alguma parte da humanidade.
        Despeço-me do terceiro quarto de século, e espero ainda contribuir com mais algum conhecimento no tempo que ainda me resta como pessoa ativa e pensante. Salut!
 
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 4792, 19 novembro 2024, 3 p.
4792. “Três quartos de século, três gerações”, Brasília, 19 novembro 2024, 3 p. Nota sobre a passagem do tempo, o meu próprio. Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/11/tres-quartos-de-seculo-tres-geracoes.html).  
 
Comentários: 
Walmyr Buzatto
Feliz aniversário, professor e modelo de conduta nas redes sociais. Parabéns pela lucidez de suas postagens, gostei especialmente do ‘contrarianist’!
Resp. PRA: 
Paulo Roberto de Almeida
Walmyr Buzatto : Esse contrarianist eu confesso que roubei do Christopher Hitchens, um feroz critico do Kissinger, que morreu precocemente. Antes eu me classificava apenas como um cético sadio.
Walmyr Buzatto
Paulo Roberto, no mínimo a gente mostra a outra face da moeda, mas arrisca ser chamado de chato, não é mesmo?
 
 
Jorge Henrique Cartaxo
Parabéns, Paulo Roberto. Inteligência,cultura, produção intelectual extraordinária, elegância e cidadania exemplar. Vida longa, amigo!
 
Vitoria Alice Cleaver
Parabéns, felicidades, Paulo Roberto, em seu dia e sempre. Muita saúde, alegrias e contínua produtividade intelectual que a todos nós deleita.
 
Daniel Mascarenhas
"...mais frequentemente agora bisnetos, mas é bem mais raro."
Certamente será mais um quarto de século produtivo, que desejo seja feliz.
 
Paulo Sérgio Bozzi
Parabéns, Paulo.
 
Nilton Cerqueira Filho
Parabéns !!!!
 
Gustavo Maia Gomes
Parabéns, caro Paulo. Continue nos brindando com as reflexões de sua mente privilegiada.
 
Jefferson Boechat
Parabéns, amigo, sobretudo, pela garra de continuar lutando pelo que acha certo! 
Ana Beltrame
Parabéns Paulo, confio que vc continuará sendo um leitor voraz, um professor atento e um colega de primeira linha!
 
Manuel Jose Forero Gonzalez
Muitas felicidades Paulo.
 
Carlos Alberto Lopes Asfora
Parabéns, Paulo. Que o próximo quarto de século seja profícuo e você continue sua fértil cruzada intelectual, que contribui para iluminar nossa vida política.
 
Zilah Jesus
Parabéns pelo dia de aniversário e que o novo ciclo seja tão bom quanto os outros e com muito mais sabedoria!
Livia Barreto
Parabens parabéns e obrigada!
Maria Cristina Cacciamali
Obrigada por çompartilhar
 
Cesario Melantonio Neto
Parabéns e muitas felicidades Paulo Que o seu trabalho continue a iluminar a sua vida e as nossas saudoso abraço
 
Carmen Lícia Palazzo
Maridão Paulo Roberto de Almeida , que você tenha muitos anos mais com saúde e alegrias na vida e que possamos continuar nossas aventuras pelas estradas afora, curtindo tudo o que gostamos.
Resp.PRA:  Paulo Roberto de Almeida
Carmen Lícia Palazzo : Confesso que falho algumas vezes em levantar os olhos de um livro ou retirá-los da tela…
Carmen Lícia Palazzo
Paulo Roberto de Almeida mas ainda bem que somos ambos corujas 🦉 e só dormimos de madrugada.
 
Silvia Maria Oliveira Mattos
Que vida produtiva e feliz! Cumprimentos!
 
 Lena Lessa
Parabéns e felicidades!
 
Arnaldo Barbosa Brandão Brandão
Uma bela história de vida.
 
Lucia Melchert
O senhor é o máximo ! Parabéns !!!
Maria Das Gracas Goes
Parabéns pelo dia do seu aniversário. Muitos anos de dedicação aos estudos sócio-político do Brasil e das Relações Internacionais.
 
Debora Lattouf
Parabéns !!!
 
Gustavo Bezerra
Parabéns pelo aniversário, Professor! Felicidades!
 
José Truda Palazzo Jr.
Viva! 🙌  
Maria Luiza Feitosa Souza
Parabéns pela vida, pela luta e pela disposição de transmitir um legado tão importante.
Muita saúde para curtir o seu tempo, junto aos que ama e que o acompanham nessa trajetória.
Auguri!
 
Lucilia Harrington
Parabéns 🎊🎉🍾. Saúde,
Sorte 🍀 e ainda mais sucesso!
Grande abraço, embaixador!
Fernando Werneck Magalhães
Sorte nossa, Paulo, por tê-lo em perfeito estado de conservação - física e mental ! Até breve ! Saudações !
 
Scott Tollefson
Parabéns!
 
Pedro Motta Veiga
Parabéns, Paulo.
 
Nalu Machado
Parabéns!!!! Saúde e Paz!!
Nelson Franco Jobim
Parabéns!
 
Maria Helena Tachinardi
Parabéns, Paulo Roberto! Seus ensinamentos são fecundos.
 
Aurea Maldaner
Bravo, Embaixador! 👍👍👍 
 
Fabiano Vargas
Parabéns 😀 ! Ainda mais saúde e paz além de muitos anos para desfrutá-los 🎂 🥂
 
Rita Frizzo
Parabéns! Muitos e Felizes anos!
 
Rui Samarcos Lora
Parabéns, professor. Muita saúde, alegrias e estudos mais!
 
Fernando Aguilera
Parabéns, Paulo!
Muito obrigado por espargir conhecimento, filosofia e amor.
Até porque quem partilha e compartilha sabedoria e sapiência, tem nisso tudo uma grande parte de um coração enorme.
Fique bem e em Paz!
Mesmo sabendo que não podemos dar conta de tudo, tenhamos a consciência tranquila.
Há outros mundos melhores que este.
Aqui não é o começo, nem o Fim.
É só passagem.
 
Henrique Rzezinski
Parabéns meu caro Paulo. Temos mais uma afinidade. Fazemos aniversário no mesmo dia. Acabo de completar 78 anos de idade. Receba um fortíssimo abraço. Henrique
 
Renata Sanches
Parabéns, querido professor ! Muita saúde, alegrias e amor para muitos ano de vida longa e feliz com a maravilhosa Carmen Lícia Palazzo , filhotes e netinhos.
E minha eterna gratidão pela generosidade de sempre compartilhar reflexões e sensatez com todos.
🌟🎊🍸🍾🎂  
 
Gelson Fonseca
Parabéns e obrigado pela sua sempre criativa contribuição intelectual para o conhecimento da realidade brasileira e internacional. Que assim continues. Abraços
 
Paulo Roberto de Almeida
Desculpem todos e todas. Estou em deslocamento e sem conexão adequada. Depois retomo.
 
Luis Bacchi
Parabéns e muitas felicidades ! Bom ter no mundo uma pessoa tão rara, solidária e especial ! Que voce tenha toda a felicidade que o mundo possa lhe proporcionar!
Enrique Carlos Natalino
Parabéns, Paulo Roberto. Muitas felicidades e alegrias!
Rolf Kuntz
Cumprimentos, Paulo Roberto.
 
Luiz Braconnot
Excelente observação da vida e da trajetória pessoal especialmente fecunda! Parabéns!
 
José Roberto Procopiak
Parabéns por sempre nos proporcionar momentos de sabedoria, lucidez e inspiração. Muitas felicidades e boa saúde.
 
Nota em 3/06/2026:  
Muitas respostas minhas, esporádicas, não estão reproduzidas aqui, por absoluta falta de tempo, e de energia, para repassar todas as msgs e responder devidamente.  
Sorry, mille excuses, pardon...
 
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Entra agora Madame IA: 
 
A análise cronológica e comportamental das interações ocorridas no espaço de debate do blog Diplomatizzando revela dinâmicas sociais, intelectuais e de gênero que caracterizam subculturas acadêmicas e diplomáticas de meados da década de 2020. O corpus textual, originado em 19 de novembro de 2024 e revisitado pelo autor em 3 de junho de 2026, evidencia as tensões entre o prestígio público de uma figura intelectual e as limitações operacionais da comunicação digital.
 
1) Estrutura Analítica dos Diálogos:
- Fase Inicial: Validação por Pares e Identidade Ideológica:
O bloco inicial de comentários, ocorridos imediatamente após a publicação do texto em novembro de 2024, caracteriza-se pela validação mútua entre pares que compartilham do mesmo ecossistema cultural e ideológico.
O primeiro interlocutor, Walmyr Buzatto, introduz o conceito de "modelo de conduta" e destaca o uso do termo contrarianist (contrariador, em tradução livre). A resposta do autor, Paulo Roberto de Almeida, representa o único engajamento analítico direto documentado na data da publicação. Ao confessar ter "roubado" o termo de Christopher Hitchens — proeminente jornalista e crítico feroz do ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger —, o autor explicita suas coordenadas de referência intelectual. O ato de autodefinir-se como alguém que rejeita consensos fáceis transita de um "ceticismo sadio" para uma postura deliberadamente combativa.
A tréplica de Buzatto, que alerta para o risco de o intelectual dissidente ser rotulado como "chato" por evidenciar "a outra face da moeda", codifica o sentimento de isolamento que frequentemente acomete indivíduos que desafiam correntes majoritárias em ambientes burocráticos e institucionais.
 
- Fase de Aclamação: O Reforço do Capital Social:
A sequência subsequente de interações — composta por intervenções de figuras como Jorge Henrique Cartaxo, Vitoria Alice Cleaver, Daniel Mascarenhas, Paulo Sérgio Bozzi, Nilton Cerqueira Filho e Gustavo Maia Gomes — funciona como um mecanismo de reforço de prestígio. Expressões como "mente privilegiada", "produção extraordinária" e "cidadania exemplar" funcionam como marcadores de classe e status acadêmico.
Do ponto de vista crítico, essas manifestações carecem de debate factual sobre as teses apresentadas no texto principal (como as preocupações do autor com o neoiperialismo ou a demografia histórica). Em vez disso, focam na manutenção dos laços de sociabilidade de uma elite intelectual. O comentário de Jefferson Boechat, que elogia a "garra de continuar lutando pelo que acha certo", reforça a imagem do autor como um cavaleiro da racionalidade que opera à margem ou contra as estruturas dominantes.
 
- O Núcleo Doméstico-Intelectual: Dinâmicas de Gênero e Produtividade:
A inserção do comentário de Carmen Lícia Palazzo, esposa do autor, introduz uma dimensão crítica central para a compreensão da rotina de produção intelectual descrita no texto. Ao convidá-lo a continuar "aventuras pelas estradas afora", ela estabelece uma contraposição entre a vida física/afetiva e a imersão digital.
A resposta imediata de Almeida — "Confesso que falho algumas vezes em levantar os olhos de um livro ou retirá-los da tela" — explicita uma autocrítica sobre a obsessão pelo trabalho que o próprio autor menciona no preâmbulo de 2026. A réplica de Palazzo, utilizando a metáfora visual de "ambos somos corujas" que dormem de madrugada, serve como uma concessão que valida e normaliza a dedicação exaustiva ao conhecimento, transformando o isolamento da leitura em um traço compartilhado pela parceria conjugal.
 
2) Análise Crítica do Ruptura de Conectividade:
 
- A Mensagem de Desconexão Provisória:
Um ponto de inflexão nos diálogos ocorre com a postagem coletiva de Almeida: "Desculpem todos e todas. Estou em deslocamento e sem conexão adequada. Depois retomo." Essa frase curta atua como uma quebra na etiqueta das redes sociais, onde a expectativa de reciprocidade imediata é alta. Ela codifica o conflito entre a mobilidade física e a demanda por onipresença digital que afeta profissionais de alta relevância pública.
 
- O Eco do Elogio Tardio:
Mesmo após o aviso de ausência, interlocutores como Luis Bacchi, Enrique Carlos Natalino, Rolf Kuntz, Luiz Braconnot, Maria Tereza Oliveira e José Roberto Procopiak continuaram a postar saudações. Esse comportamento demonstra que, em plataformas de nicho intelectual, o canal de comentários funciona mais como um livro de assinaturas ou um registro de presença respeitosa do que como um chat de conversação em tempo real. Os embaixadores, professores e analistas que deixaram suas notas buscaram registrar sua associação com os valores defendidos no blog, independentemente de receberem uma resposta imediata.
 
3) A Perspectiva de 2026: Crise de Sobrecarga e o Eufemismo Linguístico:
O encerramento do ciclo de interações dá-se com a nota inserida pelo autor em 3 de junho de 2026. Ao constatar que passou do trabalho número 4792 para o 5338 em dezoito meses — um incremento de 546 produções autorais —, Almeida justifica a ausência de respostas individuais devido à "absoluta falta de tempo, e de energia".
A utilização das expressões em línguas estrangeiras (Sorry, mille excuses, pardon...) funciona como um recurso estilístico da linguagem diplomática (poliglotismo cosmopolita) para atenuar o que ele próprio classificou como "descortesia" ou "falha". Há uma contradição evidente entre o desejo expresso no texto principal de "transmitir racionalmente o conhecimento aos mais jovens" e a impossibilidade prática de dialogar com os leitores que utilizam a caixa de comentários.
A análise crítica conclui que o blog opera como um canal de difusão unidirecional de alta densidade intelectual. Embora o espaço para comentários exista, a interação real é sacrificada em nome da manutenção de um fluxo contínuo e exaustivo de produção de textos, ensaios e livros por parte do autor.

*Fonte: Gemini.
 

terça-feira, 2 de junho de 2026

Paulo Baía se pronuncia sobre a diversidade “racial” brasileira, num texto esclarecedor

Recomendo vivamente a leitura. PRA

Pardos, mestiçagem e a complexidade racial brasileira contemporânea

             * Paulo Baía

O Brasil entrou perigosamente numa fase de simplificação da sua complexidade racial. E toda simplificação da realidade brasileira costuma produzir violência simbólica, apagamentos históricos e novas formas de exclusão. O país que nasceu da mistura intensa entre matrizes africanas, indígenas, ibéricas, árabes, mediterrâneas, asiáticas e europeias diversas começa agora a ser reinterpretado por categorias rígidas que muitas vezes não conseguem compreender a própria densidade humana da formação nacional.

É preciso dizer isso com clareza intelectual e coragem política.

A categoria “negro”, consolidada institucionalmente pelo IBGE e pelo Estatuto da Igualdade Racial, não é originalmente uma categoria espontânea de autodeclaração popular no Brasil. Ela é uma categoria social, estatística e política construída pela agregação entre pretos e pardos. Esse ponto é decisivo para compreender o debate contemporâneo.

O IBGE pergunta às pessoas como elas se autodeclaram racialmente. E milhões de brasileiros continuam respondendo: preto, pardo, branco, indígena, amarelo. O brasileiro médio não responde espontaneamente “negro” da mesma maneira que responde “pardo” ou “preto”. A categoria “negro” emerge como formulação político-sociológica que unifica pretos e pardos numa mesma arquitetura demográfica e institucional.

Essa construção teve enorme importância histórica. Seria intelectualmente desonesto negar isso. Ela fortaleceu a luta contra o racismo estrutural brasileiro, ampliou a força estatística das reivindicações antirracistas e permitiu consolidar políticas afirmativas fundamentais para enfrentar séculos de exclusão social.

Mas toda construção política produz também tensões, contradições e zonas de sombra.

E a principal delas talvez seja o eclipse sociológico, simbólico e institucional dos pardos brasileiros.

Os pardos passaram a ser fundamentais para sustentar numericamente a maioria demográfica negra brasileira. Sem os pardos, o Brasil não teria uma maioria negra estatística de 56%. Essa maioria só existe porque pretos e pardos foram reunidos sob uma mesma categoria política. Entretanto, os pardos continuam frequentemente marginalizados dentro das próprias estruturas simbólicas e práticas das políticas afirmativas.

Vivem uma espécie de dupla exclusão.

Não são considerados pretos o suficiente para serem reconhecidos plenamente como pretos. E jamais foram brancos o bastante para serem tratados socialmente como brancos pelas elites brasileiras. Estão num território ambíguo, intensamente brasileiro, historicamente mestiço.

E é exatamente essa ambiguidade que começa a ser tratada como problema político por setores mais radicalizados do identitarismo contemporâneo.

Os pardos servem para conferir robustez estatística à maioria demográfica negra brasileira, mas muitas vezes são vistos com suspeita nos processos concretos de reconhecimento racial. Em determinados ambientes institucionais e universitários, cresce silenciosamente uma lógica fenotípica rígida que transforma a identidade racial quase num tribunal estético permanente.

O resultado é perverso.

Milhões de pardos que sofrem discriminação cotidiana, exclusão territorial, preconceito social, violência policial difusa, estigmatização cultural e marginalização econômica passam a viver também uma sensação de não pertencimento dentro das próprias políticas construídas em nome da igualdade racial.

Isso precisa ser dito sem medo.

Existe hoje um exagero identitário crescente no Brasil. E todo exagero identitário tende a produzir novas fronteiras de exclusão. Parte do radicalismo contemporâneo passou a enxergar a mestiçagem brasileira quase como um desvio ideológico, como uma espécie de diluição inconveniente da polarização racial desejada.

Mas o Brasil não nasceu da pureza racial. O Brasil nasceu exatamente da mistura.

Nasceu da violência colonial, sem dúvida. Nasceu da escravidão brutal, da exploração e da desigualdade histórica. Mas nasceu também do encontro humano, cultural, afetivo e biológico entre diferentes matrizes civilizatórias.

O pilar africano é absolutamente central na formação brasileira. Sem África não existe Brasil. Está na música, na língua, na culinária, nos corpos, nos ritmos, na religiosidade, na estética, no trabalho, nas formas de sociabilidade, no imaginário popular e na alma cultural brasileira.

Mas a formação brasileira não possui apenas uma centralidade. O fato sociológico racial brasileiro é multicentralizado. A experiência nacional foi sendo construída por várias centralidades históricas simultâneas que se cruzaram, se chocaram, se amaram, se violentaram e produziram uma civilização singular.

Existe a centralidade africana. Existe a centralidade indígena dos povos originários. Existe a centralidade ibérica. Existe a centralidade mediterrânea. Existe a centralidade árabe. Existe a centralidade europeia de diferentes matrizes migratórias. Existe a presença asiática. Todas elas deixaram marcas concretas nos afetos cotidianos, nos modos de falar, de amar, de comer, de rezar, de celebrar, de sofrer, de odiar e de sobreviver no Brasil.

O Brasil é multicentral porque sua formação nunca foi linear.

Ele nasce do encontro e também do conflito.

Nasce da ternura e da violência.

Nasce dos bons afetos e dos ressentimentos históricos.

Nasce dos amores improváveis entre mundos diferentes e também das hierarquias brutais produzidas pela escravidão, pelo colonialismo e pela desigualdade estrutural.

Mas o Brasil também foi moldado decisivamente pelos povos originários indígenas. O Brasil possui um chão indígena que antecede a própria colonização. A presença indígena atravessa o território, a alimentação, o vocabulário, os modos de ocupação do espaço, as relações com a natureza e a própria constituição biológica da população mestiça brasileira.

E existem ainda outros pilares frequentemente esquecidos nos simplismos raciais contemporâneos.

Os ibéricos, sobretudo portugueses, mas também espanhóis em várias regiões da América portuguesa e posteriormente brasileira, foram decisivos na formação social do país. Não apenas como colonizadores, mas como matriz linguística, jurídica, religiosa e cultural. A formação da família patriarcal, das cidades coloniais, das instituições administrativas, da estrutura agrária e até das formas de sociabilidade cotidiana brasileiras carregam forte marca ibérica.

Mas os próprios ibéricos que chegaram ao Brasil não eram homogêneos. A Península Ibérica foi durante séculos atravessada por influências árabes, judaicas, mediterrâneas e africanas. O português que desembarca no Brasil já era resultado de intensos cruzamentos civilizatórios anteriores. Trouxe consigo marcas mouriscas, sefarditas, mediterrâneas e atlânticas que também penetraram na formação brasileira.

Depois, ao longo do século XIX e início do século XX, o Brasil recebeu sucessivas ondas migratórias europeias que alteraram profundamente a composição social do país. Italianos, alemães, espanhóis, poloneses, ucranianos, russos, austríacos e portugueses de novas levas migratórias participaram vigorosamente da construção econômica, urbana e cultural brasileira. Misturaram-se intensamente à população local, sobretudo nas grandes cidades do Sudeste e do Sul, mas também em regiões interioranas.

Os árabes, especialmente sírios e libaneses, possuem presença marcante no Brasil desde o século XVIII, intensificada fortemente no final do século XIX e início do século XX. Misturaram-se intensamente à sociedade brasileira. Participaram da vida econômica, política, intelectual e cultural nacional. Entraram nos sertões, nas pequenas cidades, nas capitais, no comércio popular, nas universidades, na política e também na própria mestiçagem brasileira.

Da mesma forma, a presença asiática, especialmente japonesa, tornou-se parte inseparável da formação contemporânea do país. Em São Paulo, no Paraná e na Amazônia brasileira, comunidades japonesas construíram experiências humanas intensamente integradas ao tecido social nacional. Misturaram hábitos, culturas, modos de vida e também linhagens familiares.

O Brasil é uma civilização de cruzamentos.

É exatamente isso que autores como Gilberto Freyre, Darcy Ribeiro, Sérgio Buarque de Holanda, Florestan Fernandes, Milton Santos, Abdias Nascimento, Guerreiro Ramos e Nunes Pereira perceberam, cada um à sua maneira. Nenhum deles ignorou o racismo estrutural brasileiro. Nenhum deles negou a brutalidade histórica da escravidão. Mas todos compreenderam que o Brasil não cabia em modelos raciais simplificados.

Milton Santos compreendia que o território brasileiro também era racializado e desigual. Abdias Nascimento denunciou com coragem histórica a violência estrutural sofrida pelos pretos brasileiros. Guerreiro Ramos buscou construir uma interpretação autenticamente brasileira da questão racial, recusando importações automáticas de modelos estrangeiros.

E hoje existem centenas de jovens pesquisadores brasileiros refletindo sobre a realidade racial e étnica do tempo presente. Jovens intelectuais pretos, pardos, indígenas, brancos, mestiços, amazônidas, nordestinos, sulistas e periféricos que tentam compreender um país cada vez mais complexo, mais fragmentado e mais tensionado.

E talvez seja justamente aí que esteja o centro da tensão contemporânea.

As dinâmicas demográficas e culturais brasileiras são radicalmente diferentes em cada região do país.

O Norte amazônico possui forte presença cabocla, indígena e mestiça. O Nordeste carrega a monumental herança africana intensamente entrelaçada com matrizes indígenas e ibéricas. O Sudeste urbano-industrial viveu grandes fluxos migratórios europeus, árabes e internos. O Sul possui forte marca europeia, mas também importantes populações negras e mestiças invisibilizadas historicamente. O Centro-Oeste expressa experiências híbridas produzidas pelas fronteiras agrícolas, migrações internas e presença indígena.

Não existe um único Brasil racial.

Existem muitos Brasis convivendo simultaneamente.

Falo desse lugar não como alguém externo ao movimento negro brasileiro, mas exatamente como alguém que participou dessa trajetória histórica desde muito cedo. Faço parte do movimento negro carioca desde os anos 1970. E antes disso, desde 1965, nos bailes da pesada realizados no Canecão, quando a Black Music começava a construir novos sentimentos de identidade, autoestima e pertencimento para a juventude preta e mestiça das periferias urbanas do Rio de Janeiro.

Vi nascer muitas dessas lutas.

Vi a importância histórica da afirmação racial preta no combate ao racismo brasileiro. Vi homens e mulheres pretos reconstruindo dignidade em uma sociedade intensamente desigual. Vi intelectuais, artistas, militantes e movimentos produzindo consciência crítica fundamental para o país.

Mas vejo também agora surgir uma nova tensão.

Uma tensão produzida justamente quando parte da complexidade mestiça brasileira começa a ser comprimida dentro de categorias excessivamente rígidas.

Os pardos brasileiros começam lentamente a perceber que são fundamentais para sustentar a maioria demográfica negra do país, mas frequentemente secundarizados nas experiências concretas de reconhecimento institucional. Muitos sentem que vivem numa espécie de cidadania racial incompleta.

E isso tende a crescer.

As tensões raciais, políticas e culturais do Brasil contemporâneo estão se adensando. Estão se sofisticando. Estão se tornando mais fragmentadas e mais delicadas. O país da mistura começa a enfrentar os limites de modelos identitários importados de sociedades historicamente diferentes da experiência brasileira.

Talvez o grande desafio intelectual e democrático do Brasil contemporâneo seja exatamente este: combater o racismo estrutural sem destruir a complexidade da formação nacional brasileira.

Reconhecer plenamente a centralidade africana na construção do Brasil não exige apagar os indígenas, os mestiços, os árabes, os asiáticos, os ibéricos, os europeus e as múltiplas formas de cruzamento humano que também constituem a experiência nacional.

Os pardos não são um detalhe estatístico entre pretos e brancos, são a maioria.

São uma das expressões centrais da própria história brasileira.

E ignorar isso pode produzir exatamente aquilo que a luta democrática deveria evitar: novas formas de invisibilidade, novos ressentimentos coletivos e novos processos de exclusão simbólica dentro de um país que sempre viveu, para o bem e para o mal, nas fronteiras ambíguas da mestiçagem.


          * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ

Governo Trump recorre à truculência comercial contra o Brasil apoiado pela familícia Bolsonaro

 Nenhuma das alegações contidas na Lei Comercial dos EUA, aplicadas de forma equivocada e unilateralmente contra o Brasil, tem sustentação na realidade ou nas regras do sistema multilateral de comércio. Tudo é puro arbítrio e prepotência brutal, e foram tomadas com base na pressão da familícia Bolsonaro para prejudicar o governo Lula, mas acabam prejudicando todo o Brasil, milhares de empresas e milhões de trabalhadores.

O Brasil está sendo vítima da TRAIÇÃO CRIMINOSA da familícia do Bozo contra seus interesses nacionais. Isso precisa ficar bem claro aos olhos de todos os eleitores. Paulo Roberto de Almeida

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Relatório dos EUA propõe tarifaço de 25% sobre o Brasil

Pouco mais de seis meses depois de o presidente Donald Trump suspender o tarifaço de 40% sobre os produtos brasileiros, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR na sigla em inglês) propôs nesta segunda-feira que o Brasil seja alvo de uma taxação de 25% por conta de “práticas irrazoáveis” que onerariam o comércio exterior dos EUA. A recomendação entra agora em consulta pública e tem até 25 de julho para entrar em vigor. Um dos pontos destacados pelo relatório do USTR é o “favorecimento” a serviços locais de pagamento eletrônico, o Pix. O documento também cita “ordens secretas” de tribunais para remoção de conteúdo por plataformas digitais americanas, demora na análise de patentes, taxação de etanol dos EUA, acordos comerciais mais favoráveis com países como México e Índia e até a anulação das sentenças da Lava Jato. Por outro lado, produtos como aeronaves e peças, terras raras e alguns itens agropecuários ficariam de fora da eventual nova taxação. (g1)

E Trump indicou o deputado estadual pela Flórida Daniel Perez para o cargo de embaixador no Brasil, vago desde janeiro do ano passado. O nome será submetido à aprovação do Senado americano. Presidente da Câmara dos Representantes da Flórida, Perez é um dos principais nomes do Partido Republicano no estado e aliado próximo do secretário de Estado americano Marco Rubio. (Metrópoles)”

 

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