segunda-feira, 20 de julho de 2026

Tarifaço de Trump mostra que ‘relações comerciais entre países ficaram menos previsíveis’, avalia pesquisador - Vitelio Brustolin (O Globo)

 Tarifaço de Trump mostra que ‘relações comerciais entre países ficaram menos previsíveis’, avalia pesquisador - O Globo

Professor da UFF e pesquisador em Harvard avalia que, em vez de se basear em regras estáveis, o comércio internacional tem sido utilizado como instrumento de pressão política

 

Por João Sorima Neto — São Paulo

O Globo, 20/07/2026 


RESUMO: A possibilidade de uma tarifa de importação ser alterada por uma decisão política num país importante como os Estados Unidos — algo que o presidente Donald Trump tem feito recorrentemente — leva empresas a adiar investimentos, revisar cadeias de suprimentos e elevar estoques para se protegerem dessas mudanças bruscas.

Esse cenário de insegurança aumenta custos e reduz a eficiência dos negócios no mundo, avalia Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais na Universidade Federal Fluminense (UFF), que também atua como pesquisador de Direito e História da Ciência em Harvard (EUA).

 

Na semana passada, a Casa Branca confirmou a decisão de aplicar novas tarifas de importação de 25% sobre o valor de produtos brasileiros que entram no mercado americano, o que na prática os torna muito mais caros naquele país, a despeito dos esforços diplomáticos do governo brasileiro.

No entanto, houve uma lista de exceções ainda maior que a do tarifaço anterior,

estimada em 60% da pauta de exportação do Brasil para os EUA, mas manufaturados como máquinas, calçados e têxteis não foram isentos.

O Brasil não é o único na mira da metralhadora tarifária de Trump desde o início de seu segundo mandato — 60 países estão sob a ameaça dos EUA de uma tarifa de 12,5% por supostamente comercializarem produtos fruto de trabalho forçado.

Ainda assim a sobretaxa aos produtos brasileiros ilustra bem como fatores políticos se misturam em discussões técnicas na atual escalada protecionista de Trump, que acaba se refletindo na forma como os outros países se colocam no mercado global.

Em entrevista ao GLOBO, Brustolin avalia que Trump usa a política comercial como instrumento de pressão política e geopolítica, trocando a estabilidade das regras regidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC) por um ambiente de incerteza na relação econômica entre os países, onde prevalece uma “lógica  mais transacional e personalista”. Veja a seguir os principais trechos da conversa.

 

As negociações comerciais entre países, que antes dependiam menos de governos específicos e mais de acordos de Estado, estão mudando?

 

Sim, há uma mudança importante. O comércio internacional do pós-guerra foi

estruturado justamente para reduzir a dependência das preferências de governos específicos. Então, o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), de 1947, para reduzir barreiras alfandegárias, e depois a própria Organização Mundial do Comércio (OMC), além de acordos bilaterais e regionais, buscavam dar previsibilidade, não só às empresas, mas à economia em geral dos países, através de regras previament e estabelecidas, além de mecanismos de solução de controvérsias. A estratégia adotada pelo governo Trump representa um deslocamento desse modelo para uma lógica mais transacional e personalista.

 

E quais são as consequências?

Em vez de privilegiar negociações baseadas em regras previamente estabelecidas, a política comercial passou a ser utilizada como instrumento de pressão política egeopolítica. Isso aumenta a margem de discricionariedade do Executivo americano e reduz a previsibilidade das relações econômicas internacionais. Ainda que, no caso brasileiro, a Casa Branca tenha fundamentado a medida em uma investigação conduzida sobre a Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.


Isso está acontecendo especificamente no governo Trump?

Isso não vem apenas do governo Trump, porque a OMC passou a ser desmantelada nos Estados Unidos, ainda em governos anteriores ao dele, e inclusive de Barak Obama, quando o país deixou de indicar juízes para o mecanismo de apelação da OMC. Claro, o governo Trump intensificou esse tipo de estratégia.

 

Qual o dano que esse tipo de abordagem causa para as relações comerciais não só Brasil-EUA, mas também para o multilateralismo, para o comércio global?

O principal dano é o aumento da incerteza, e com isso, há uma escalada do

protecionismo. O investimento privado depende da previsibilidade. Quando as tarifaspodem ser alteradas rapidamente por decisão política, significa que empresas adiam investimentos, revisam cadeias de suprimentos, elevam estoques. Tudo isso como forma de proteção. Isso aumenta custos e reduz eficiência.

Numa escala global, há redução do crescimento do comércio, menor investimento produtivo, perda de produtividade, maior inflação em alguns setores. Esse efeito sobre o PIB mundial não decorre apenas da tarifa em si, mas da fragmentação das cadeias globais de valor. Quando aumenta a percepção de risco, o custo do capital sobe e a economia internacional cresce menos.


Também há impacto no emprego?

Estudos recentes mostram também que há evidências de que escalada tarifária pode produzir perdas relevantes de emprego em escala global, especialmente quando acompanhada de retaliações. Há menor geração de empregos ligados às exportações, por exemplo.Hoje as empresas não analisam apenas custos de produção ou logística, elas passaram a incorporar o chamado risco geopolítico. Isso significa avaliar a possibilidade de novas tarifas, de sanções, de restrições tecnológicas, controles de exportação, até mudanças regulatórias decorrentes de disputas entre governos. Então tem que ter muito cuidado com o direcionamento que o Brasil vai dar para isso.

 

Nesse contexto, há uma reorganização das cadeias globais de produção?

Essa tendência ficou evidente, primeiro na disputa entre Estados Unidos e China, e se ampliou após a guerra na Ucrânia. Agora ela alcança parceiros tradicionais dos Estados Unidos, como o Brasil. Sim, o resultado é uma reorganização das cadeias globais de produção, baseada não apenas na eficiência econômica, mas também na segurança política. Ou seja, passa-se a mensurar, quando é possível, se há segurança ou insegurança entre uma relação comercial e outra.

 

Como isso afeta os planos das empresas?

As empresas trabalham com planejamento de longo prazo. Uma indústria que decide instalar uma fábrica ou desenvolver fornecedores locais, projeta investimentos para dez ou vinte anos. Quando Trump impõe tarifas, ele quer que as empresas mudem as suas fábricas para os Estados Unidos. É o que vimos acontecer com a Toyota, que se mudou do México para os EUA. Agora, quando existe a possibilidade de mudanças abruptas nas regras comerciais, há adiamentos de investimentos, diversificação de fornecedores, realocação de fábricas, aumento dos custos de logística e redução do comércio internacional. Na prática, o mundo passa a operar com menor eficiência econômica.

 

Qual é a importância de diversificar mercado neste atual cenário de

protecionismo?

O Brasil precisa diversificar mercados, não só por causa dos Estados Unidos. Qualquer democracia estabelecida, e que siga o direito internacional, vai buscar diversificar mercados o tempo todo, vai buscar o comércio. No caso atual, isso se intensifica. E não é só o Brasil, a China diversificou muito os seus parceiros comerciais. O acordo Mercosul e União Europeia, que está provisoriamente em vigor, é fundamental que seja aprofundado. Também é preciso ampliar o comércio com a Índia, com o Sudeste Asiático, com a própria China, e fortalecer relações com países do Oriente Médio e da África.

Estou falando de uma perspectiva do nosso país. Nenhuma economia de porte

continental pode depender excessivamente de um único mercado consumidor. E não é o caso do Brasil, que não é absolutamente dependente dos Estados Unidos. A diversificação reduz vulnerabilidades externas e aumenta o poder de negociação dopaís. Isso não significa substituir os Estados Unidos pela China, significa ampliar alternativas para reduzir riscos.

 

Fonte: https://oglobo.globo.com/economia/noticia/2026/07/20/tarifaco-de-trump-

mostra-que-relacoes-comerciais-entre-paises-ficaram-menos-previsiveis-avalia-pesquisador.gtml 

Alexandre Melnik et les relations Chine-Russie, Xi et Putin

 PRA: à la fin, j’ajoutte une info sur Alexandre Melnik.

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Mon interview à Atlantico , publiée ce matin, sur la Chine qui prépare l’après-Poutine

Pour faciliter votre lecture, voici là retranscription de l’interview faite par la rédaction avant sa publication . 

Entretien avec Alexandre Melnik 

Atlantico : Un article du Wall Street Journal, publié il y a deux jours, contient une petite phrase en fin de texte selon laquelle la Chine tisserait plus ou moins ouvertement des liens avec des responsables et des élites russes bien au-delà du seul entourage de Poutine, en anticipant une transition politique au Kremlin. En tant que professeur et ancien diplomate, comment analysez-vous cette démarche chinoise ?

Alexandre Melnik : Je trouve cela extrêmement pertinent : cela illustre la sagesse de la stratégie chinoise. Il ne faut jamais oublier que la Chine est l'une des plus anciennes civilisations continues du monde — ses origines remontent à environ 5000 ans avant Jésus-Christ. Cette accumulation de sagesse débouche sur une vision à très long terme, en contraste total avec le "courtermisme" [ndlr : le jeunisme historique] de la Russie, un pays né seulement au Xe siècle. Il y a donc un choc de deux temporalités : celle de la Chine, qui s'inscrit dans la continuité de l'histoire, et celle de la Russie, dont la stratégie manque de socle historique.

Le renversement du rapport de force entre les deux pays a été fulgurant. Quelques années avant la chute de l'URSS, la Chine était encore considérée comme le "petit frère" de l'Union soviétique — je me souviens qu'à l'école diplomatique où j'ai été formé, les étudiants chinois n'étaient pas pris très au sérieux, les Russes se jugeant supérieurs. Puis la situation s'est inversée : la transition de la Russie vers le capitalisme a été chaotique, tandis que la transition chinoise a été réglementée, pensée, réfléchie — avec des résultats probants. La Chine est devenue en quelques années le leader de la globalisation économique mondiale, tandis que la Russie prenait du retard. Pékin a immédiatement compris que la Russie n'est plus un partenaire valable à long terme, mais un colosse aux pieds d'argile.


Atlantico : Vous avez souvent décrit un Poutine qui ne connaît aucune limite, qui n'est freiné par aucune contrainte morale ou politique. Mais un dirigeant de ce tempérament peut-il vraiment, psychologiquement, admettre — publiquement ou même en privé face à ses proches — qu'il est devenu le partenaire junior de la Chine ?

Alexandre Melnik : Non, il ne le peut pas. Il ne peut pas non plus arrêter la guerre qu'il a lui-même déclenchée : cela fait partie du dispositif, cela sert à maintenir la façade de la propagande sur la prétendue puissance de la Russie. Mais cette façade cache un colosse aux pieds d'argile. La Chine, elle, incarne la stabilité et la vision à long terme. C'est un jeu qui s'est installé entre deux dirigeants du même âge, mais qui n'ont ni le même pouvoir, ni la même puissance, ni la même vision du monde.

La direction chinoise n'a d'ailleurs jamais compris cet impérialisme belliqueux et sanglant de la Russie, car la Chine préfère gagner les guerres sans les faire, par la voie économique. Xi Jinping a d'ailleurs suggéré à plusieurs reprises qu'il existe des limites — notamment autour du bouton nucléaire. C'est la ligne rouge fixée à Poutine dès le début du conflit : c'est la Chine qui a posé le garde-fou contre l'emploi de l'arme nucléaire.

Aujourd'hui, le rapport de force n'est plus comparable. La Chine est un géant économique qui joue le jeu de la globalisation et de la modernité technologique — elle vise le leadership mondial sur l'intelligence artificielle. La Russie, elle, s'est coupée du monde : Poutine a lui-même coupé son pays, y compris dans le domaine numérique. Les Russes sont aujourd'hui privés d'un internet mobile complet, au point que certains matchs de football internationaux ne sont même plus retransmis chez eux. La Russie est devenue un facteur de nuisance, tandis que la Chine impose le tempo des relations internationales.

Atlantico : Je reviens sur la presse, qui évoque des contacts discrets de Pékin avec plusieurs responsables russes — on parle de Patrouchev, de Kirienko…

Alexandre Melnik : J'y viens. Ce que je voudrais ajouter, c'est ce qui a fait déborder le vase, si je puis dire : la rencontre entre Poutine et Xi Jinping où Poutine a évoqué l'éternité — vous vous souvenez peut-être de cette formule sur le fait qu'il serait bien de vivre éternellement. Xi Jinping a compris à ce moment-là que son interlocuteur dérapait : quand on parle d'éternité, c'est qu'on essaie de sauver sa propre peau, qu'on voit la fin arriver. C'est ainsi que le message a été perçu côté chinois. Xi a compris que le régime de Poutine — extrêmement personnalisé, une verticale du pouvoir reposant sur un seul homme — n'a pas de fondamentaux, pas de pivots. C'est un dérapage personnel qui reflète le dérapage d'un régime tout entier.

Il a donc estimé qu'il était temps de se projeter vers l'avenir, dans la continuité de cette sagesse stratégique chinoise de long terme. Et pour se projeter vers l'avenir, il faut passer aux actes : nouer des relations. Mais avec qui ? Quand on regarde l'entourage de Poutine, ce n'est pas évident de savoir avec qui nouer des liens qui pourraient se révéler utiles après lui. Il faut donc comprendre que l'après-Poutine a déjà commencé, pour la Chine. Xi Jinping a compris que le pronostic du régime était déjà engagé — un régime qui peut certes durer encore longtemps, mais dont l'avenir doit être anticipé, comme la Chine sait toujours le faire.

Je parle évidemment avec beaucoup de précaution, car je n'ai aucune source à l'intérieur du Kremlin. Je rappellerais volontiers le mot de Churchill sur les luttes de pouvoir au Kremlin, qu'il comparait à des bouledogues se battant sous un tapis : on ne voit rien depuis l'extérieur. Mais on commence tout de même à percevoir quelques "oreilles de bouledogues" qui dépassent. Le nom que je surveillerais en priorité, c'est celui de Patrouchev. Il fait partie du clan le plus proche de Poutine, qui l'accompagne depuis le début. C'est un homme intelligent, qui commence — et cela reflète l'état d'esprit de nombreux affidés dans l'entourage du Kremlin — à comprendre que cette guerre est une impasse, qu'elle ne peut être gagnée, et que Poutine y conduit son pays. Ce qui est intéressant avec Patrouchev, c'est qu'il s'agit d'une dynastie. C'est ce nom-là — Patrouchev — que je serais prêt à avancer, avec prudence, comme quelqu'un qui aurait été approché par les dirigeants chinois — pas nécessairement comme un successeur potentiel, mais comme un interlocuteur capable de renseigner Pékin.

Il faut ajouter un autre élément : les Chinois n'ignorent pas que la Russie dispose d'une constitution. On oublie souvent qu'elle a été rédigée, dans ses fondamentaux, par des juristes français — j'avais moi-même été sollicité par le président Eltsine au début des années 1990 pour prendre contact avec des juristes français, notamment à Sciences Po Paris, afin d'en écrire les bases. Cette constitution ressemble comme deux gouttes d'eau à celle de notre Ve République : verticalité du pouvoir, président élu au suffrage universel, pouvoir législatif faible, pouvoir exécutif fort.

Ce qui est intéressant, c'est ce que prévoit cette constitution en cas d'incapacité du président à exercer son mandat : contrairement à la France, ce n'est pas le président du Sénat qui assure l'intérim, mais le Premier ministre. Or l'actuel Premier ministre s'appelle Mikhaïl Michoustine — un nom qui ne dit sans doute rien au grand public, car c'est un technocrate qui reste dans l'ombre de la grande politique du Kremlin. C'est exactement le modèle par lequel Poutine lui-même est arrivé au pouvoir : Eltsine, incapable d'exercer son mandat, lui avait transmis le relais alors qu'il était Premier ministre ; Poutine a d'abord géré l'intérim, puis organisé une élection. La particularité de Michoustine, c'est qu'il n'a aucune ambition politique propre : il pourrait constituer une sorte de solution transitoire, une figure assurant la stabilité pendant la période d'après-Poutine — celle-là même vers laquelle se projettent les Chinois, pour éviter toute rébellion ou tout chaos. C'est avec ce type de technocrates restés dans l'ombre, qui ne s'engagent pas ouvertement aux côtés de Poutine, que la Chine essaie, à mon avis, de nouer des relations à long terme.


Atlantico : D'après votre connaissance des mécanismes du pouvoir russe, parmi tous les profils évoqués, y en a-t-il un qui vous semble plus instrumentalisable par Pékin que les autres ?

Alexandre Melnik : D'abord, la condition posée par les Chinois, c'est la stabilité. Ils veulent éviter à tout prix un effondrement brutal de la Russie — c'est un exercice extrêmement traumatisant pour eux, en référence à la perestroïka et au chaos qu'avait engendré la glasnost de Gorbatchev. Ils veulent une transition stable, quels que soient les noms : ce n'est pas tant une question de personnes qu'un concept — celui de la stabilité comme condition. J'ai déjà cité Patrouchev. Il y a aussi des technocrates, comme la présidente de la Banque centrale, récemment mise à l'écart par les représentants des structures de force russes, ou encore la direction de Sberbank. Ce sont des profils de technocrates plutôt que de politiques, à l'image de ceux qui, en France, sont passés par les grandes administrations d'État.

C'est plutôt sur ce type de profils que les Chinois se concentrent : ils cherchent à retrouver, en miroir, leur propre vision du monde — une vision désidéologisée, fondée sur une technocratie efficace, pour éviter le pire, c'est-à-dire le chaos. Je ne m'aventurerai pas plus loin sur les noms, au-delà de ceux déjà cités : Patrouchev, c'est du sérieux ; Michoustine peut représenter un strapontin de stabilité avant d'éventuelles échéances électorales — car il y aura sans doute des élections après Poutine, la dépoutinisation de la Russie ne se faisant pas vers une dictature à la nord-coréenne, mais probablement vers un retour à une certaine forme démocratique. Par déduction, je pense qu'il faut exclure les noms qui ne présentent aucun intérêt pour la Chine : Choïgou, qui n'est qu'un pantin du passé ; Medvedev, pantin du passé également ; Peskov et les autres figures les plus médiatiques. Les Chinois sont des gens sérieux et pragmatiques, qui ne s'embarrassent pas de précautions comme on le fait souvent en France : ils creusent plus profondément à l'intérieur du régime, qu'ils comprennent mieux que les Occidentaux, du fait d'une certaine similitude entre régimes autoritaires.


Atlantico : Pensez-vous que la Chine puisse téléguider une succession russe ?

Alexandre Melnik : Non, pas vraiment "téléguider" — je ne pense même pas que les Chinois en aient la prétention. Ils accompagnent, tout en restant en coulisses, et s'adaptent aux fluctuations d'une situation imprévisible, car ce changement viendra de l'intérieur. Je n'ai jamais cru à la possibilité d'un changement exogène. Le changement sera endogène : ce système fondé sur la peur, le mensonge et la propagande n'est pas fiable — il commence déjà à vaciller, sous les coups des déconvenues militaires en Ukraine.

C'est exactement ce qui s'est produit lors de l'effondrement du système soviétique : ce système était déjà moribond, mais il fallait lui donner l'estocade finale, ce qu'avaient fait les Américains à l'époque. La Chine, à un moment donné, pourrait donner cette estocade — non pas militaire, mais économique : en coupant les vivres à la Russie, ses exportations. Ce n'est pas de l'intervention de type "hard power" — c'était plutôt la méthode Reagan, à la fin des années 1980. La Chine se positionne de plus en plus comme un acteur du changement, mais un acteur extrêmement prudent, qui intervient en coulisses sans jamais se montrer.

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Professeur à ICN, Business School

Alexandre MELNIK is an Associate Professor. He holds a PhD in Political Science and Diplomacy from MGIMO in Moscow, as well as a Master’s degree in Journalism from the same university. He teaches Geopolitics (Key Issues of 21st-Century Globalization), Intercultural Management, the Development of Europe and the European Union, French Economy and Culture, Foreign Cultures and Civilizations, and the History and Current Affairs of Russia and Ukraine. Alexandre is also an international speaker, delivering numerous lectures on current international affairs, particularly the war in Ukraine and the broader geopolitical context of the contemporary world (French Senate, City Hall of Nancy, Council of Europe, National Assembly, Sciences Po, French Ministry of Foreign Affairs, Ministry of Defense, the Sorbonne, Westminster College, World Forum for Sustainable Development, etc.). He is the author of numerous articles and books on geopolitical issues and regularly appears in audiovisual media (LCI TF1, BFM TV, France 24, Europe 1, RTL, BFM, Sud Radio, RCF, Belgian Radio 1, Radio Algeria, Radio J, Judaïques FM), digital platforms (YouTube, Le Crayon, Atlantico, etc.), and print media (Le Monde, Cités, Les Echos, Le Nouvel Observateur, Revue Défense Nationale, Le Figaro, Politique Internationale, Constructif, Passages, etc.). He previously served as Press Attaché at the Russian Embassy in Paris and took part in United Nations disarmament negotiations in Geneva. He also held a senior position at the Ministry of International Relations of the USSR.


A Universidade pública e a democracia do conhecimento - Paulo Baía (Facebook)

 A universidade pública e a democracia do conhecimento


            * Paulo Baía 


O Brasil jamais foi uma sociedade simples. Sua história não nasceu da uniformidade nem da repetição de uma única tradição cultural. Ao contrário, constituiu-se pelo encontro, muitas vezes marcado pela violência, pela resistência, pela negociação e pela criação, entre povos que jamais imaginaram compartilhar um mesmo destino histórico. Povos indígenas, africanos escravizados e seus descendentes, portugueses, espanhóis, italianos, alemães, sírio-libaneses, judeus, japoneses, chineses e inúmeras outras correntes migratórias participaram da construção de uma das experiências civilizatórias mais complexas do mundo contemporâneo. Dessa longa formação nasceram negros, pretos, pardos, indígenas, mestiços, quilombolas, caboclos, caiçaras, ribeirinhos, sertanejos e descendentes de diferentes povos, culturas e religiões. A dinâmica demográfica distribuiu essa extraordinária diversidade pelas diferentes regiões brasileiras, fazendo da Amazônia, do Nordeste, do Centro-Oeste, do Sudeste e do Sul expressões singulares de uma mesma identidade nacional. A diversidade nunca representou um obstáculo à construção do Brasil. Sempre constituiu sua maior riqueza.

Uma sociedade construída dessa maneira não pode produzir universidades homogêneas. A universidade pública somente realiza plenamente sua missão quando consegue representar a pluralidade da sociedade que a sustenta. Não porque deva reproduzir mecanicamente a realidade social, mas porque sua função consiste em compreender essa realidade em toda a sua complexidade. A universidade não é apenas um espaço de formação profissional. É uma instituição civilizatória. Nela, a diversidade da sociedade transforma-se em inteligência coletiva, em investigação científica, em reflexão crítica e em produção de conhecimento. É justamente nessa capacidade de transformar diferenças em conhecimento que reside sua maior contribuição para a democracia.

Essa missão, entretanto, começa pelo ensino. Antes de produzir ciência, a universidade forma inteligências. Antes de ampliar as fronteiras do conhecimento, ela transmite os fundamentos que tornam possível a produção de novos saberes. Ensinar permanece sendo sua responsabilidade primeira. Pesquisa e extensão completam essa vocação, ampliam seu alcance e fortalecem sua relevância social, mas não substituem sua natureza essencial de instituição de ensino.

Por essa razão, toda universidade pública comprometida com a democratização do conhecimento precisa assegurar que seus estudantes tenham acesso aos conteúdos propedêuticos que estruturam cada área científica e profissional. Os primeiros semestres de cada curso devem cumprir também a função de promover políticas permanentes de nivelamento acadêmico, oferecendo condições para que estudantes provenientes de trajetórias escolares distintas possam desenvolver plenamente suas capacidades intelectuais. A democratização do acesso somente encontra sentido quando acompanhada da democratização das condições de aprendizagem. Incluir significa abrir as portas. Ensinar significa garantir que todos possam percorrer, com autonomia intelectual, o caminho que se abre depois delas.

Essa compreensão torna ainda mais importante a defesa das políticas públicas de cotas sociais e étnico-raciais. Elas representam uma das mais importantes conquistas democráticas da história recente do Brasil porque ampliam direitos e aproximam a universidade da sociedade brasileira. Não diminuem a excelência acadêmica. Ao contrário. Fortalecem-na ao incorporar experiências históricas que durante séculos permaneceram afastadas dos espaços de produção do conhecimento. A presença crescente de negros, pretos, pardos, indígenas, mestiços, quilombolas, estudantes oriundos da escola pública e de famílias trabalhadoras ampliou o repertório de perguntas, diversificou os objetos de pesquisa e renovou a capacidade da universidade de interpretar a sociedade brasileira.

Durante muito tempo, a universidade refletiu muito mais a estrutura das elites do que a composição da população nacional. O escravismo, o patriarcalismo, a concentração da riqueza e as desigualdades educacionais produziram um sistema persistente de exclusão. O racismo estrutural consolidou esse processo ao limitar oportunidades, influenciar trajetórias escolares, restringir o acesso aos bens públicos e transformar privilégios históricos em aparentes méritos individuais. Ignorar essa realidade significa ignorar parte significativa da formação do Brasil.

Por isso, a universidade pública deve cultivar uma postura antirracista permanente. Não como adesão circunstancial a uma corrente política, mas como compromisso ético com a Constituição, com a igualdade de oportunidades, com a dignidade humana e com a própria produção do conhecimento. A ciência não se fortalece quando invisibiliza desigualdades. Fortalece-se quando é capaz de compreendê-las criticamente. A postura antirracista permanente amplia a inteligência da universidade porque amplia sua capacidade de compreender o país real.

Entretanto, a democratização da universidade não depende apenas da diversidade de pessoas. Depende igualmente da diversidade das ideias. A pluralidade social e o pluralismo intelectual não competem entre si. Constituem as duas grandes colunas da universidade democrática. Uma instituição que acolhe diferentes grupos humanos, mas restringe a circulação das ideias, empobrece sua inteligência. Da mesma forma, uma universidade que proclama liberdade acadêmica enquanto permanece distante da diversidade da sociedade brasileira limita sua legitimidade pública.

É justamente nesse encontro entre diversidade humana, excelência do ensino, pesquisa, extensão e liberdade intelectual que a universidade pública se afirma como uma das maiores realizações da democracia brasileira. Ela demonstra que o conhecimento não nasce da uniformidade. Nasce da convivência entre diferenças, da curiosidade, da crítica e da permanente disposição de aprender.


A universidade existe porque o conhecimento humano é, por natureza, incompleto. Nenhuma teoria encerra todas as respostas. Nenhuma disciplina esgota a realidade. Nenhuma tradição intelectual possui o monopólio da verdade. A ciência avança precisamente porque admite a possibilidade do erro, da revisão e da descoberta. A filosofia permanece viva porque continua formulando perguntas para as quais não existem respostas definitivas. As ciências humanas renovam continuamente sua capacidade de interpretar a sociedade porque reconhecem que a vida social muda, produz novos conflitos e exige novas categorias de compreensão. A inteligência, portanto, nunca é uniforme. Ela é necessariamente plural.

É nesse ponto que o pluralismo das ideias deixa de ser uma reivindicação corporativa da universidade para transformar-se numa exigência da própria democracia. O pluralismo não existe para proteger opiniões. Existe para proteger o processo pelo qual o conhecimento é produzido. Nenhuma sociedade consegue compreender a si mesma escutando apenas uma única voz. Nenhuma universidade pode cumprir sua missão quando determinadas perguntas deixam de ser formuladas, quando certos autores deixam de ser lidos ou quando interpretações passam a ser previamente interditadas. A liberdade acadêmica não protege ideologias. Protege o direito da sociedade de produzir conhecimento por meio da livre circulação das ideias.

A democracia não elimina conflitos. Ela constrói instituições capazes de civilizá-los. A universidade pública talvez seja a mais sofisticada dessas instituições. Seu papel não consiste em apagar diferenças, mas em oferecer condições para que diferenças sociais, culturais, científicas e políticas sejam transformadas em reflexão, investigação e aprendizagem. A universidade é um espaço de encontro entre argumentos, não entre unanimidades. Sua grandeza não está em produzir consenso, mas em ensinar que o dissenso, quando orientado pelo rigor intelectual e pelo respeito democrático, constitui uma das maiores fontes de criação humana.

Por essa razão, toda forma de censura é incompatível com a vida universitária. A censura não protege o conhecimento. Protege o medo. Não fortalece a inteligência. Fortalece a insegurança diante do pensamento livre. Quando livros deixam de circular, pesquisadores evitam determinados temas, palestras são impedidas, estudantes silenciam suas perguntas ou professores passam a medir palavras pelo receio da intolerância, instala-se um processo silencioso de empobrecimento intelectual. A curiosidade cede lugar à conformidade. A investigação transforma-se em repetição. A universidade deixa de ser espaço de descoberta para converter-se em ambiente de confirmação de certezas previamente autorizadas.

A história demonstra que o pensamento único jamais produziu sociedades mais inteligentes. Ao longo do tempo, diferentes projetos políticos procuraram converter determinada visão de mundo em verdade oficial. Em alguns momentos, isso ocorreu para preservar estruturas conservadoras de poder. Em outros, para impor projetos radicais de transformação social e política. Mudaram os discursos, permaneceram os métodos. A convicção de que apenas uma interpretação da realidade seria legítima revelou-se sempre intelectualmente estéril. O pensamento único reduz a criatividade porque elimina a surpresa. Empobrece a inovação porque transforma perguntas em respostas definitivas. Enfraquece a produtividade científica porque converte a pesquisa em confirmação de dogmas. Deteriora a civilidade democrática porque substitui o diálogo pela obediência e a crítica pela submissão.

Nada disso significa relativizar valores fundamentais. A universidade pública deve permanecer comprometida com os direitos humanos, com a igualdade, com a dignidade da pessoa, com a democracia constitucional e com o combate permanente ao racismo estrutural, ao preconceito e a todas as formas de discriminação. Esses compromissos fortalecem a universidade porque ampliam seu horizonte ético. O que não podem produzir é o abandono da liberdade intelectual que constitui a própria condição de existência da ciência. Uma universidade verdadeiramente democrática consegue ser, ao mesmo tempo, socialmente inclusiva, antirracista, intelectualmente exigente e radicalmente comprometida com a liberdade de pensar.

Essa talvez seja a maior responsabilidade das universidades públicas brasileiras no século XXI. Transformar a extraordinária diversidade da sociedade brasileira em conhecimento rigoroso, formar profissionais competentes, produzir ciência de excelência, promover a extensão universitária como compromisso com a sociedade e ensinar, diariamente, que nenhuma inteligência floresce onde existe medo de pensar. A excelência acadêmica e a democratização caminham juntas. O ensino, a pesquisa e a extensão constituem dimensões inseparáveis de uma mesma missão pública.

As universidades públicas não existem para fabricar unanimidades. Existem para impedir que elas se transformem em dogmas. Foram criadas para ensinar, pesquisar, criar, discordar, experimentar e inovar. Foram criadas para fazer da dúvida um método, da liberdade um princípio e da diversidade uma força criadora. Defender simultaneamente a excelência do ensino, os conhecimentos propedêuticos, as políticas de nivelamento acadêmico, a pesquisa, a extensão, as políticas públicas de inclusão, a postura antirracista permanente, a liberdade de cátedra, a liberdade de pesquisa, a rejeição de toda forma de censura e o pluralismo das ideias não significa reunir causas distintas. Significa afirmar um único projeto de civilização.

Esse projeto tem nome. Democracia do conhecimento.

Quando pessoas diferentes deixam de ocupar a universidade, ela deixa de representar o Brasil. Quando ideias diferentes deixam de circular, ela deixa de representar a inteligência. Preservar esses dois patrimônios inseparáveis, a extraordinária diversidade do povo brasileiro e a liberdade de pensamento que a transforma em conhecimento, significa preservar a própria capacidade da República de produzir ciência, criatividade, inovação, civilidade e esperança. É nesse encontro entre inclusão, excelência acadêmica e pluralismo que a universidade pública continua sendo uma das mais belas realizações da democracia brasileira e uma das maiores garantias de seu futuro.


         * Sociólogo, cientista político, ensaísta e professor da UFRJ


A universidade pública e a democracia do conhecimento - Agenda do Poder https://share.google/wEnhMZnmPmHJaEBv2

OS MÉDICOS RESPONSÁVEIS PELA SOBREVIVÊNCIA DE CUBA - Sarah Esther Maslin (The Economist)

 Um artigo de Sarah Esther Maslin na revista 1843, do The Economist, em 17/07/2026, Walmyr Buzatto

OS MÉDICOS RESPONSÁVEIS PELA SOBREVIVÊNCIA DE CUBA 

Os médicos são o artigo de exportação mais valioso do país. Agora Trump está de olho neles


No início deste ano, um médico cubano chamado Jorge recebeu uma mensagem no WhatsApp de um funcionário de saúde oferecendo-lhe a chance de trabalhar na zona rural do México. Se ele quisesse a posição, disse o funcionário, ele teria apenas algumas horas para fazer as malas. Jorge concordou imediatamente.


Não foi a primeira vez que Jorge, um homem de 40 anos com olhos castanhos intensos, foi enviado para o exterior. Nas últimas seis décadas e meia, Cuba transformou sua abundância de médicos e enfermeiros bem treinados em um item de exportação valioso. Em grande parte do mundo em desenvolvimento, as pessoas associam o país não a mísseis ou ao marxismo, mas aos profissionais de saúde que vivem e trabalham em lugares que seus colegas locais evitam: aldeias rurais, favelas urbanas, a floresta amazônica. O programa médicos é uma iniciativa humanitária, uma expressão de poder brando e uma tábua de salvação para o governo comunista de Cuba - é a maior fonte de moeda estrangeira do país, trazendo cerca de US$ 4 bilhões por ano.


A primeira missão médica de Jorge foi durante a pandemia, quando ele foi colocado em uma unidade de terapia intensiva para pacientes com covid-19 na Cidade do México. Foi a primeira vez que ele deixou Cuba, e o choque cultural o balançou. Tendo crescido em um país empobrecido por uma economia de comando e um embargo americano, ele estava acostumado a infraestrutura envelhecida, roupas de segunda mão e prateleiras vazias. No México, ele passava horas olhando de olhos arregalados para as vitrines; não acostumado a saciedade, ele comia tanto que se sentia doente. Ele pensou em quanto tempo havia perdido em filas, consertando eletrodomésticos antigos e caminhando para o trabalho quando não havia gasolina. Agora ele descobriu a calma que veio com não ter que dedicar toda a sua energia à sobrevivência.


Mas assim que Jorge voltou para casa, ele se sentiu esgotado novamente. A escassez de alimentos estava piorando e havia apagões frequentes. No passado, ele conseguiu se safar com seu salário mensal, complementado com rações do governo. Mas no final do ano passado, quando o presidente Donald Trump intensificou sua campanha para estrangular o regime de Cuba, as bodegas do governo estavam funcionando vazias e os 6.600 pesos cubanos que Jorge recebiam a cada mês valiam apenas US$ 14. Jorge e seu parceiro Bryan (ambos pseudônimos) sobreviveram com remessas de parentes no exterior e presentes de seus pacientes: um saco de feijão, alguns tamales.


Quando foi oferecida a Jorge a chance de voltar ao México, foi uma decisão financeira direta. Ele estaria ganhando o equivalente a US$ 1.700 por mês, trabalhando em um pequeno hospital em uma região devastada pela pobreza e violência. “Não foi por humanismo”, ele me disse. “Qualquer um que te diga isso está mentindo. Eu preferiria muito mais estar em Cuba com minha família.”


Como seus colegas, Jorge envia a maior parte do dinheiro que recebe para casa, onde financia painéis solares e salsichas e inúmeras outras coisas que tornam a vida mais confortável. A casa que ele e Bryan compartilham, em uma província rural longe de Havana, tem painéis solares e pisos de azulejos rosa e verde, e está cheia de coisas que faltam a outras famílias cubanas: uma scooter elétrica, um disco rígido cheio de entretenimento pirateado, uma fotografia que Bryan fez com IA do casal parecendo elegante em ternos de negócios.


Jorge ficou feliz por poder fornecer essas coisas a Bryan, e ele gostou da experiência de trabalhar no exterior. Seus pacientes no México gostavam dele; ele era descontraído e um bom ouvinte. Ele estava ganhando cem vezes seu salário cubano e vivendo de forma simples, mas sem aluguel, com água quente e internet rápida. Ele frequentemente trabalhava menos do que o contratado 35 horas por semana porque alguns membros da equipe tendiam a ir para casa mais cedo, antes que a noite se instalasse e a cidade se tornasse um playground para narcotraficantes.


No entanto, ele estava sempre pensando em Cuba. Sempre que Bryan tinha sinal de internet, ele atualizava Jorge sobre a tragédia que se desenrolava em casa: sobre as luzes apagadas com mais frequência do que estavam acesas; sobre as bodegas do governo negando pão a qualquer pessoa com mais de seis anos e menos de 65 anos; sobre pessoas morrendo por falta de antibióticos.


Jorge nunca se considerou comunista, mas, como muitos cubanos, aprendeu a ser a linha oficial. “Mesmo que você pense de uma maneira, você age de outra”, ele me disse. “Você diz 'Viva a revolução!' Você vai para a marcha.” Sua conformidade lhe rendeu um lugar nesta missão. Mas ele começou a se preocupar que seu trabalho estivesse sustentando o regime que ele responsabilizava pela crescente crise de Cuba. Às vezes, ele desejava que o México acabasse com seu apoio ao programa de médicos; ele estaria desempregado, mas tal medida poderia ajudar a derrubar os líderes comunistas de Cuba. Ele orou para que a América lançasse uma “greve cirúrgica”, embora se preocupasse com seus entes queridos.


Este ano, pela primeira vez, Jorge se permitiu considerar desertar - algo que vários de seus colegas fizeram durante sua missão anterior. Isso significaria abrir mão do apoio que ele deu à sua família e expô-los a retaliação. Ele lembrou o vitríolo que um desertor recebeu no bate-papo da missão no WhatsApp, geralmente cheio de emojis de coração e mãos rezando. “Nós temos um rato”, escreveu o chefe da missão, pedindo a todos que enviassem seus pensamentos sobre o contra-revolucionário. “Eles escreveram horrores sobre ele”, disse Jorge. “Eles o chamaram de desertor, traidor, escória.” Cada vez mais, no entanto, ele lutou para imaginar retornar a um país que estava desmoronando. À noite, ele ficava acordado se perguntando: devo ficar ou devo ir?


Os médicos têm sido fundamentais para a ideia de Cuba sobre si mesma desde a revolução. Che Guevara era um médico antes de trocar seu jaleco por trajes de combate. Depois de derrubar a ditadura de direita de Fulgêncio Batista em 1959, o governo revolucionário de Fidel Castro se estabeleceu para construir um sistema de saúde para uma população pobre e doente. Desde então, o país consagrou o direito à assistência médica gratuita em sua constituição e foi pioneira em uma abordagem baseada na prevenção da medicina, que se mostrou extraordinariamente eficaz na prestação de cuidados em um piscar de olhos. Na década de 2010, as taxas de mortalidade infantil de Cuba estavam no mesmo nível das dos países desenvolvidos, apesar de gastarem muito menos do que em serviços de maternidade, e a expectativa de vida era igual à dos Estados Unidos. (Alguns se perguntam se as estatísticas oficiais são confiáveis.) Em 2021, havia 9,5 médicos por mil cubanos—cinco vezes a média mundial e mais do que o dobro do que nos Estados Unidos.


Hoje, os médicos de Cuba são responsáveis pela sobrevivência não apenas de seus pacientes, mas também do próprio regime. Está em péssima forma, econômica e diplomática. Trump e seu secretário de Estado, Marco Rubio - um cubano-americano que construiu sua carreira, em parte, assumindo uma posição de linha dura sobre Cuba - seguiram políticas que têm ecos do imperialismo americano no século XX, quando o país apoiou golpes e guerras por procuração em uma tentativa de dominar o hemisfério ocidental. Eles aumentaram as sanções a Cuba, esmagando sua indústria do turismo e cortando outros fluxos de moeda forte, e derrubaram seu aliado mais importante na região: Nicolás Maduro, o ditador da Venezuela, que costumava manter a ilha abastecida com petróleo a preços reduzidos. O governo Trump também impôs um bloqueio de fato de combustível de outras fontes, ameaçando aplicar tarifas em qualquer país que venda petróleo para Cuba. O presidente se gaba de que, de uma forma ou de outra, trará uma mudança de regime. Ele não descartou uma invasão militar.


Trump e Rubio discerniram - como as administrações americanas anteriores - que o programa médico é um ponto sensível para o governo de Cuba. Inicialmente, Cuba enviou seus médicos para países anfitriões sem custo ou com uma taxa fortemente subsidiada. Mas depois que a União Soviética entrou em colapso em 1991, ela perdeu seu principal financiador. A economia, já tensa pelo embargo de décadas, entrou em crise. O regime cubano silenciosamente começou a usar uma escala móvel para cobrar milhões de dólares na maioria dos países pelos médicos. Logo a exportação de serviços profissionais superou o turismo, o açúcar e o tabaco como a principal fonte de dinheiro de Cuba.


À medida que as missões médicas do país cresciam em importância econômica, as tentativas da América de frustrá-las também cresceram. Em 2006, a administração George W. Bush estabeleceu o Programa de Liberdade Condicional Médico Profissional Cubano, que oferecia residência permanente a médicos que desertavam. Quase 10.000 profissionais de saúde abandonaram seus postos antes que o esquema fosse encerrado em 2017. Mas tentativas passadas de intimidar os países anfitriões para expulsar seus médicos foram em grande parte malsucedidas. “O problema era que os EUA não estavam em posição de oferecer seus próprios médicos”, disse Tom Shannon, um diplomata de carreira e ex-alto funcionário do Departamento de Estado. “Nossa posição era, não use os médicos cubanos, e para o inferno com seu povo.”


No ano passado, o segundo governo Trump descobriu uma maneira particularmente eficaz de interromper o programa: restringir vistos para funcionários de países com missões médicas cubanas. Desde meados de 2025, pelo menos dez países anfitriões disseram para seus médicos para fazer as malas. O México é o resultado mais significativo, mas seu governo de esquerda parece interessado em manter a implantação dos médicos o mais discreta possível. Jorge foi levado de avião para a Cidade do México no meio da noite e levado para seu pueblo, ou cidade, na manhã seguinte - parecia uma operação secreta. “Só faltava o capuz sobre nossas cabeças”, ele me disse.


O Departamento de Estado de Rubio justificou sua cruzada contra as missões médicas dizendo que elas são uma forma de escravidão moderna. Enquanto os médicos são roubados por seu próprio governo - que normalmente embolsa entre 50% e 80% do que os países anfitriões pagam por seus serviços - os motivos da administração Trump dificilmente são humanitários. “Eles criaram essa narrativa para justificar o estrangulamento de um pequeno país”, disse Johana Tablada, uma diplomata cubana de ponta na Cidade do México, quando conversamos em junho.


Não está claro se Trump e Rubio seguirão suas ameaças de invasão. Mas eles provaram estar mais motivados do que qualquer administração americana anterior para encerrar o programa médico de Cuba. O objetivo deles, ao que parece, é enfraquecer o regime a ponto de ser forçado a fazer um acordo com Trump, ou abdicar do poder.


Médicos no exterior se encontram na ponta dessas manobras geopolíticas. A renda que eles fornecem para suas famílias em casa é cada vez mais essencial. A miséria dentro de Cuba está piorando a cada dia. Quando a visitei em maio, parecia que a ilha estava viajando para trás no tempo - as pessoas estavam estudando à luz de velas e cozinhando com carvão. Fora de Havana, algumas estradas tinham mais carroças do que carros.


Como a luta do governo cubano parece cada vez mais fútil, alguns médicos, como Jorge, estão começando a se perguntar: eles devem continuar ajudando a perpetuá-la, ou devem abandonar o navio enquanto podem? A ironia é que a única maneira de o regime em Havana ganhar a moeda que precisa para se manter vivo é expor seus médicos ao mundo capitalista do qual, de outra forma, tenta isolar seus cidadãos. No entanto, ao contrário de outras exportações cubanas, como café e tabaco, os médicos têm mentes próprias.


O governo revolucionário começou a enviar seus médicos para o exterior em 1960, depois que um terremoto no Chile deixou quase 2.000 pessoas mortas. Nas décadas seguintes, Cuba enviaria mais de 500.000 funcionários médicos para mais de 165 países, refletindo o compromisso do estado com os cuidados de saúde como um direito humano. A Escola Latino-Americana de Medicina em Havana treinou mais de 31.000 médicos de 122 países, principalmente no sul global; A Operação Milagre forneceu cirurgia ocular gratuita para cerca de 3 milhões de pessoas em todo o mundo.


A ajuda pode ser medida de diferentes maneiras, mas com base no capital humano, “a contribuição desta pequena ilha para a saúde global supera a de todos os outros países industrializados”, escreveu John Kirk, um acadêmico canadense e especialista em Cuba. Na década de 1980, a América enviou para o exterior um trabalhador de ajuda para cada 34.700 cidadãos - Cuba enviou um para cada 625.


Nos últimos seis meses, conversei com mais de 30 médicos e enfermeiros cubanos que serviram em missões médicas. Cerca de metade vive em Cuba; a maioria dos outros desertou de seus postos. Dois, incluindo Jorge, estão atualmente servindo no exterior e estão tecnicamente proibidos de falar com jornalistas. Seus motivos para ir em missões variaram, desde um desejo de estabilidade financeira, avanço na carreira ou aventura, até um desejo genuíno de ajudar. Assim como as experiências deles. Muitos, particularmente de gerações mais velhas, sentiram maior apreço pelo sistema de saúde de Cuba, uma vez que viram o sofrimento de seus pacientes estrangeiros.


Elisa, a meia-irmã mais nova de Jorge, se juntou ao programa de médicos em 2013. Estava então no seu auge, trazendo cerca de US$ 8 bilhões por ano - cerca de 10% do PIB de Cuba - e colocando quase um terço dos médicos do país no exterior. Depois de se formar na faculdade de medicina, Elisa recebeu uma oferta de vaga no Barrio Adentro, na Venezuela. Foi a maior missão cubana na época, com cerca de 32.000 profissionais de saúde, juntamente com outros profissionais, como professores, arquitetos e engenheiros.


Elisa (também um pseudônimo) tinha então 24 anos, com um físico de duende, cabelo loiro tingido e uma reserva aparentemente infinita de energia e idealismo. Tanto ela quanto seu irmão cresceram saudando a bandeira na escola todas as manhãs, cantando: “Pioneiros do comunismo, seremos como Che”. Mas enquanto Jorge foi criado por seus avós paternos que eram céticos em relação ao comunismo, Elisa foi influenciada por seu pai. Ele supervisionou uma cadeia de fábricas estatais e incutiu nela uma crença fervorosa de que o comunismo era a melhor coisa que já havia acontecido com Cuba.


Partindo em sua missão, Elisa estava cheia “com a ideia de que eu ajudaria o povo venezuelano”. Ela estava animada para colocar em prática os valores de solidariedade e sacrifício que aprendeu na faculdade de medicina. Ela também queria ganhar dinheiro. Na Venezuela, ela ganhava US$200 por mês, dez vezes seu salário como médica de terapia intensiva em Cuba, onde parecia normal economizar por um ano para comprar um único par de Crocs.


Elisa foi designada para um hospital pobre e movimentado no vasto estado de Bolívar. Ela manteve um cronograma exaustivo - 24 horas de trabalho, 24 horas de folga - e tratou de 60 a 100 pacientes por dia na sala de emergência. Uma vez, um membro de uma gangue local levou seu líder inconsciente, que estava sangrando de um ferimento de bala. “Salve-o ou vamos matar você”, disse ele.


No dezembro seguinte, Elisa retornou a Cuba para um mês de férias. Ela ficou na casa da mãe e do padrasto, que tinha um telhado com vazamento e um chiqueiro no quintal. Depois de um ano economizando em refeições para economizar o máximo possível de seu salário, ela pesava apenas 90 libras (41 kg). Mas com os US$ 2.000 que ela havia reservado, ela comprou para sua família uma unidade de ar condicionado, uma máquina de lavar e uma televisão. Ela se sentia tonta toda vez que usava o cartão de débito emitido pelo governo que lhe dava um desconto de 30% em utensílios domésticos - um privilégio reservado para membros de missões médicas. “Eu nunca tinha visto um cartão bancário antes”, disse ela. “Eu senti que poderia mudar o mundo.”


No Natal, Elisa montou uma pequena árvore artificial. Em retrospecto, ela disse, essa foi sua primeira rebelião, já que tanto o cristianismo quanto o consumismo eram contrários aos valores da revolução. Seu fervor de infância a deixou preparada para a desilusão quando ela descobriu o mundo além das costas de Cuba. Ela começou a questionar se o comunismo era realmente tão igualitário quanto pretendia ser. Na Venezuela rica em petróleo e socialista, ela notou um abismo entre a pobreza de seus pacientes e a riqueza de comparsas do governo e oficiais do exército. Ela também aprendeu que o valor do petróleo subsidiado que a Venezuela estava pagando a Cuba pelos serviços médicos excedeu em muito a quantia que os próprios médicos levaram para casa. O governo cubano justifica tais discrepâncias dizendo que o dinheiro é canalizado de volta para o sistema de saúde pública, incluindo escolas de medicina gratuitas.


Elisa não estava convencida. Durante toda a sua vida, ela ouviu as pessoas culparem a América e seu embargo pelos hospitais deteriorados e a pobreza de Cuba. Mas agora ela lutou para se sentir grata a um governo que pedia tanto dela, mas era incapaz de suprir suas necessidades básicas. Embora Raúl Castro, o presidente da época, tivesse introduzido reformas econômicas cautelosas, a maioria dos cubanos ainda tinha problemas para sobreviver. As rações estavam sendo reduzidas, as escolas estavam perdendo professores e até mesmo o amado sistema de saúde estava mostrando sinais de tensão. (Elisa disse que sua mãe recebeu pontos após uma queda que foram tão mal costurados que não pararam o sangramento.) Elisa sempre foi inteligente e curiosa, mas cresceu sem a internet. “Eu deixei Cuba com minha mente em uma gaiola”, disse ela. “Na Venezuela, eu comecei a acordar.”


O serviço de Elisa na Venezuela ocorreu em um interlúdio incomum nas relações América-Cuba. Barack Obama buscou uma reaproximação com os Castros e havia uma grande esperança de que o isolamento da ilha pudesse acabar. Durante sua visita a Havana em 2016—a primeira vez que um presidente americano em exercício foi ao país desde a revolução cubana—Obama elogiou o programa médico e seu serviço “para os pobres e os que sofrem”. Ele afrouxou as restrições às remessas e viagens para a ilha. O governo cubano, por sua vez, tornou mais fácil para os estrangeiros investirem e para os cubanos administrarem pequenas empresas e comprarem e venderem casas.


Obama acreditava que uma maior liberdade econômica, juntamente com a rápida disseminação do acesso à Internet, faria os cubanos questionarem sua falta de direitos democráticos. Até certo ponto, uma revolução aconteceu—mas não entre aqueles na ilha. Em vez disso, ocorreu entre os médicos que vivem no exterior, que enfrentaram menos repercussões por falar. Uma revolta notável ocorreu no Brasil, onde os médicos, em vez de desertar silenciosamente como no passado, reclamaram à imprensa sobre suas experiências de retenção de salários. Eles também entraram com ações judiciais contra o governo brasileiro e a Organização Pan-Americana da Saúde, que estava agindo como intermediária financeira e também embolsando parte de seus salários.


O governo cubano e seus defensores alegaram que tais revoltas foram o resultado de uma conspiração entre associações médicas xenófobas em países anfitriões, exilados cubanos financiados pelo Departamento de Estado e políticos reacionários. Para conter o fluxo crescente de deserções, o regime reprimiu os profissionais de saúde. Confiscou os passaportes daqueles que servem em missões; os encorajou a espionar uns aos outros; congelou parte de seus salários como um incentivo para voltar para casa; e se recusou a deixar suas famílias acompanhá-los no exterior. A ferramenta mais cruel foi a “proibição de oito anos”, que impede aqueles que abandonaram missões internacionais de retornar à ilha por quase uma década. Tablada, o diplomata cubano, me disse que as leis de imigração do país estão “em revisão”, mas também que “Cuba tem o direito de se defender” contra “roubo de cérebros”.


As restrições fizeram Elisa se sentir sufocada. Depois de suas férias em Cuba, ela retornou à Venezuela, onde vivia em alojamentos apertados nos fundos de uma delegacia de polícia com outros 14 cubanos. Eles não tinham permissão para sair depois das 18h, ou para dirigir, ou viajar para fora do estado. Havia regras rígidas sobre com quem eles se relacionavam: eles não podiam namorar um local sem permissão, ou ter “amizades ou relacionamentos” com aqueles que tinham “visões hostis ou contrárias”. Quando os chefes de Elisa descobriram que uma pessoa estava planejando abandonar a missão, eles o mandaram para casa e interrogaram seus colegas de casa. “É uma sensação horrível”, ela me disse. “Você começa a desconfiar de todos, até mesmo de seus próprios compatriotas.”


Havia pressões externas também. A má gestão catastrófica e a queda dos preços do petróleo levaram à escassez de alimentos, hiperinflação e protestos violentos em toda a Venezuela. Como os médicos cubanos às vezes faziam campanha em nome do governo de Maduro, eles se tornaram alvos de raiva antigovernamental. Elisa entendeu a raiva dos manifestantes e se sentiu responsável pelo papel que seu país desempenhou no colapso da Venezuela.


Finalmente, ela colapsou. “Eu não aguento mais”, ela confessou a um colega simpático. Acabou que o colega tinha um amigo que abandonou sua missão e desertou para a Colômbia; ele foi o primeiro a contar a Elisa sobre o programa de liberdade condicional médica da América. O homem a colocou em contato com um coiote, ou contrabandista, que prometeu levar-a através da fronteira venezuelana. Elisa foi informada de que sua viagem começaria em apenas quatro dias. “Eu não tive tempo de processar o quão perigoso era”, disse ela. “Parecia ser a única opção.” Ela deu seus pertences ao seu colega e vendeu seu celular. Depois de uma longa viagem até a fronteira, ela se juntou a um grupo de migrantes venezuelanos e cruzou, com água na altura da cintura, o rio que separa a Venezuela da Colômbia.


Quando o governo cubano descobriu sobre sua fuga, eles enviaram agentes para a casa de sua mãe todos os dias durante três semanas. Alguns dias, eles criticavam sua mãe por criar uma traidora; em outros, eles imploravam para que ela convencesse Elisa a retornar à Venezuela. “Quando ela se arrepender, vamos recebê-la de volta”, disseram eles. Enquanto isso, US$ 4.800 em fundos congelados desapareceram da conta bancária de Elisa. Amigos e familiares escreveram mensagens ferventes em sua página do Facebook, chamando-a de inimiga da revolução, uma desertora, um verme. A melhor amiga dela parou de falar com ela. O mesmo aconteceu com Jorge, que viu suas próprias esperanças de ir em uma missão frustrada como resultado das ações de Elisa.


Esse fanatismo só fortaleceu a determinação de Elisa. Uma vez na Colômbia, ela foi à embaixada dos Estados Unidos em Bogotá e anunciou que era uma médica que queria desertar. Ela teve sorte: não muito tempo depois, Obama anunciou o fim do programa de liberdade condicional. Quatro meses depois, ela embarcou em um voo para Miami.


Hoje, com o fim da era Obama, o programa médico é uma sombra do que era quando Elisa o deixou. Os países anfitriões começaram a devolver seus profissionais de saúde cubanos durante o primeiro mandato de Trump. Em 2018, Jair Bolsonaro, presidente populista de extrema-direita do Brasil, usou a revolta dos médicos de lá como desculpa para forçar todos os 8.300 deles a sair. Bolívia e Equador seguiram o exemplo. Agora, após a última campanha de pressão de Trump, há menos de 20.000 profissionais de saúde cubanos no exterior, uma queda em relação a mais de 50.000 há uma década. Essa perda prejudicará os países anfitriões. Alguns confiaram em médicos cubanos por 50 anos; outros contam com Cuba para 20% de sua equipe médica. Os médicos cubanos que estão atualmente tratando vítimas de terremotos na Venezuela em breve voltarão para casa.


Cuba, enquanto isso, se transformou em um lugar semelhante aos países para onde enviava médicos. Quando visitei um hospital na cidade natal de Jorge e Elisa, os corredores estavam escuros e as salas de exame não tinham suprimentos e equipamentos. Geradores estavam mantendo as luzes acesas nas salas de cirurgia, mas os frequentes cortes de energia haviam queimado vários ventiladores envelhecidos e máquinas de raios-x. Ninguém sabe quantos cubanos morreram como resultado do bloqueio de combustível, que especialistas da ONU consideraram uma violação do direito internacional. Mas o governo disse que os procedimentos críticos foram interrompidos para dezenas de milhares de pessoas. Os pacientes estão sendo solicitados a trazer seu próprio medicamento, que atingiu preços exorbitantes no mercado negro.


Tais circunstâncias desesperadas alienaram muitos profissionais de saúde. Conheci pessoas por toda a ilha que deixaram a medicina para se tornarem taxistas, lojistas ou garçons, porque esses empregos são muito mais lucrativos (Cuba perdeu mais de 77.000 profissionais de saúde entre 2021 e 2024).


Para os médicos que aguentaram, a crise do país criou um forte incentivo para ir para o exterior e um profundo estado de ambivalência sobre um programa que já foi a fonte de orgulho de Cuba. Muitos médicos da geração de Elisa tinham motivações idealistas e experiências gratificantes, mas hoje em dia a razão para trabalhar no exterior é esmagadoramente econômica. Embora ainda seja o caso de que apenas uma pequena minoria de médicos deserta, falei com vários que foram em missões com esse propósito explícito, e o fizeram nas primeiras 24 horas.


Em Havana, conheci uma mulher que chamarei de Yasmín, uma enfermeira obstétrica negra de 63 anos. Na década de 1950, seus pais pertenciam a um movimento de resistência urbana que ajudou a levar Fidel Castro ao poder, e ela credita a revolução por reduzir as disparidades raciais. Ela havia servido em várias missões médicas e recentemente entregou sua papelada para ir para o exterior novamente. Mas a gratidão dela se transformou em desencanto. “Eu fiz tanto pelo meu país”, disse ela, abaixando a voz do jeito que os cubanos fazem sempre que criticam o governo. “Mas onde está todo o dinheiro?” Ela tentou se aposentar no final da pandemia, mas teve que voltar ao trabalho porque sua pensão não era suficiente para viver. "Você olha para o estado dos hospitais..." ela disse, sua voz desaparecendo. Seus irmãos, que deixaram Cuba há décadas, a têm incentivado a se juntar a eles na Flórida. Pela primeira vez, ela está considerando isso.


Contra todas as probabilidades, algumas pessoas em Cuba conseguiram permanecer otimistas. Durante um apagão de 18 horas, o parceiro de Jorge, Bryan, me levou a um restaurante na cobertura com luzes de  elas e coquetéis congelados - seu proprietário, disse ele, tinha renda estrangeira e contatos com o governo. Bryan é uma década mais novo que Jorge. Apesar de nunca ter vivido no exterior, ele parece urbano e informado. Ele mistura inglês em suas conversas; ele sabe sobre anime e musicais da Broadway. A internet permitiu que ele ampliasse seus horizontes desde jovem de uma maneira que Jorge e Elisa nunca poderiam.


Perguntei se ele achava que os médicos eram heróis humanitários ou escravos de um regime autoritário, como afirma o Departamento de Estado. Bryan riu: “Ambos são verdadeiros.” O governo cubano explora o desespero dos médicos, mas chamá-los de “escravos” é um exagero, disse ele, especialmente em um país que foi moldado pela escravidão (estudiosos acreditam que mais da metade dos cubanos têm ascendência africana). Os médicos deveriam receber mais, ele pensou, mas é justo que se espere que eles retornem. “Eu sou filho de uma pobre mulher negra que limpava o chão para viver”, disse Bryan. “Graças à revolução, consegui me tornar um engenheiro. Eu nunca paguei um centavo.”


De muitas maneiras, Elisa é uma história de sucesso americana. Depois de desertar, ela fez uma nova vida em Miami, onde um terço da população é cubana. Como a maioria dos médicos que desertaram, Elisa desistiu do árduo processo de recertificação necessário para praticar medicina na Flórida. Em vez disso, ela conseguiu um emprego como codificadora médica, trabalhando entre médicos e seguradoras de saúde. Ela se saiu melhor do que muitos médicos com quem conversei, especialmente chegados mais recentes: um me disse que está entregando pacotes para a Uber, outro está lutando contra um processo de deportação. Elisa mora em uma casa de quatro quartos em um bairro arborizado com seu marido, um veterano da guerra do Iraque, seus filhos, de seis e quatro anos, e sua sogra polonesa. “Nós nos unimos por causa de nossos traumas compartilhados do comunismo”, brincou Elisa.


Quando a visitei, Elisa se desculpou por seu espanhol—não apenas porque era ultrarrápido, como o da maioria dos cubanos, mas porque estava salpicado de palavras em inglês como “so”, “hum” e “well”. Em nossas conversas, ela se lembrou de seu orgulho quando jovem médica, mas lutou para lembrar o que a impressionou sobre o sistema de saúde de Cuba. Como quase todos os médicos que entrevistei que haviam desertado, Elisa concordou com a caracterização do Departamento de Estado das missões médicas como “escravidão moderna”. Ela ficou frustrada com um relatório recente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, que concluiu que elementos das missões equivaliam a trabalho forçado e tráfico de pessoas. Foi a condenação mais forte do programa de médicos até o momento por um grande órgão regional de direitos humanos, mas na opinião dela, não foi longe o suficiente. “Em nenhum lugar”, disse ela, “eles usaram a palavra 'ditadura'.”


As opiniões de Elisa foram inegavelmente influenciadas por uma década na estridente comunidade de exílio cubano anticomunista e firmemente republicana de Miami, que vê a perspectiva de intervenção americana com entusiasmo. Ela e seus filhos passaram a chamar o presidente de “Papa Trump”. É uma prova da profundidade do desencanto dos médicos desertores de que muitos se tornaram apoiadores de Trump, embora seu governo os tenha tratado com o mesmo desdém que mostra a outros grupos de migrantes. As regras de imigração draconianas em ambos os lados do Estreito da Flórida afetaram a família de Elisa. Embora sua proibição de oito anos tenha terminado, ela não retornou à ilha; ela teme que, se o fizer, possa ser sinalizada como médica e proibida de sair.


Como resultado, ela e Jorge não se veem há uma década, e ele nunca conheceu os filhos dela. Mas ela se reuniu com sua mãe, que se juntou a ela em 2022 (seu padrasto, que tem espinha bífida e artrite, ficou para trás em Cuba). Na minha última tarde em Miami, encontrei os dois no pequeno apartamento que a mãe dela, a quem chamarei de Teresa, divide com um dos primos de Elisa. Cheirava a cebolas douradas e a mistura terrosa de especiarias usadas no arroz cubano. Enquanto conversávamos, gritos e risadas vieram do quarto, onde os filhos de Elisa estavam brincando com seu primo. Teresa pega seus netos na escola todas as tardes e cuida deles até Elisa chegar em casa do trabalho.


A reunião de mãe e filha não saiu como esperado. Em Cuba, eles estavam tão próximos que até dividiam uma cama. Mas em Miami, eles brigavam constantemente. “No começo, eu senti ciúmes dos meus netos”, explicou Teresa. Elisa levantou as sobrancelhas; esta foi a primeira vez que ela ouviu falar disso. “Eu não estava aqui para as gestações de Elisa, para seus primeiros anos”, disse Teresa. “Eu senti como se eles tivessem tirado minha filha de mim.”


Teresa virou-se para Elisa. “Eu não sei se você se lembra,” ela disse. “Você tinha essas sandálias surradas. Um prego estava segurando a alça. Eu segurei eles por anos depois que você saiu, eu não podia jogá-los fora.”


Elisa riu. “Quando cheguei aos EUA pela primeira vez, minha mãe me ligou e disse: 'Eu tenho seus livros, suas roupas, seu leite em pó.' Eu fiquei tipo, 'Mamãe, eu não vou voltar!'” Ela fez uma pausa e olhou para sua mãe, como se a visse pela primeira vez. “Quando eu saí, eu era uma garota ainda bebendo leite em pó”, ela finalmente disse. “Minha mãe chega aqui e encontra uma mulher adulta com dois filhos.”


Apesar do abraço de Elisa à vida americana, ficou claro que ela também se sentia nostálgica. Ela me pediu para fazer uma visita à sua casa quando eu estava em Cuba e enviar fotos por mensagem de texto de tudo o que eu vi. A sala de estar quase não tinha móveis, e na cozinha havia os mesmos eletrodomésticos que Elisa havia comprado há mais de uma década. Um furacão havia arrancado parte do telhado, que foi coberto com uma lona desde então. Nas paredes havia fotografias desbotadas: Jorge em uma fralda com uma bola; Elisa na escola primária usando um lenço de pescoço estilo soviético na frente da bandeira cubana; Elisa se formando na faculdade de medicina com um vestido rosa e um jaleco branco. “Chorando aqui,” ela respondeu quando viu minhas mensagens. “É exatamente o mesmo de quando eu saí.”


Algumas semanas depois de ver Elisa em Miami, viajei para o pueblo de Jorge no México. Enquanto dirigia para a cidade, passei por cartazes anunciando uma banda famosa por baladas de narco e cartazes prometendo “vistos de trabalho rápido” para os Estados Unidos. Quando nos encontramos na praça do lado de fora da igreja católica, Jorge ainda parecia dividido sobre a perspectiva de deserção. Por enquanto, seu salário lhe deu um forte incentivo para ficar, mas ele previu que “cargas” de médicos partiriam logo antes do término da missão em dezembro. Ele havia feito planos para falar com um advogado sobre a residência mexicana - mas também adicionou seu nome a uma planilha de voluntários para missões em 2027.


Jorge admitiu que às vezes invejava Elisa. “Ela era tão jovem quando saiu, ela dá por certo que pode pensar livremente”, disse ele. Ele se sentiu mal pela maneira como a evitou quando ela desertou, mas disse que sofreu como resultado de sua decisão; levou anos para o governo confiar nele o suficiente para enviá-lo em uma missão. “Ela não pensou no resto de nós”, disse ele.


Em maio, o Departamento de Justiça indiciou Raúl Castro por seu suposto envolvimento na derrubada de dois aviões que transportavam exilados cubanos em 1996. Os especialistas especularam que o caso poderia ser usado como pretexto para uma intervenção militar no estilo da operação para capturar Maduro, que também foi precedida por acusações criminais. Em resposta, os chefes de Jorge no México convocaram uma reunião por vídeo com todos os médicos da missão, dizendo-lhes para estarem prontos para voar para casa “a qualquer momento” porque Cuba estava “em guerra”.


Ele entrou em pânico. “Eles fazem isso em todas as missões”, seus colegas o tranquilizaram. Com certeza, a conversa sobre uma invasão logo morreu. Mas isso forçou Jorge a pensar sobre o que ele faria se de repente fosse chamado para casa. “Eu não quero voltar,” ele confessou.


Elisa não tem certeza se ele terá coragem de fugir. Quando Jorge morou no México pela primeira vez, ela se ofereceu para pagar um coiote para trazê-lo pela fronteira, mas ele se opôs. “Às vezes, quando você abre a porta da gaiola, o pássaro não sai”, disse ela. Teresa tinha outra explicação. “Meus filhos são bons filhos”, disse ela. “Mas minha filha é mais corajosa do que meu filho.”


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