terça-feira, 3 de novembro de 2026

A diplomacia brasileira em mutação (2011) - Paulo Roberto de Almeida

  

A diplomacia brasileira em mutação

 

Paulo Roberto de Almeida (31/05/2011)

 

Toda política externa, ou toda política governamental, em geral, é feita de mudanças e continuidades. Talvez a política externa tenha bem mais continuidades do que mudanças, pela própria natureza do “negócio”: não se muda o sistema de relações internacionais, a política regional, as relações bilaterais e menos ainda a agenda de trabalho de grandes organismos internacionais da mesma forma ou com as mesmas “facilidades” com que se pode imprimir mudanças de direção, algumas até repentinas, no plano das políticas domésticas.

Partindo, portanto, do pressuposto de que as continuidades são mais frequentes do que as mudanças, podemos, talvez até mais facilmente, detectar mudanças de ritmo, de estilo e até de orientação na política externa de um estado emergente como o Brasil. Vendo o mundo como uma ordem em transição, o Brasil está interessado, justamente, na mudança de padrões nas relações internacionais, que sejam suscetíveis de acomodar suas novas pretensões ou seus pleitos quanto ao estabelecimento de uma nova agenda mundial e quanto ao funcionamento desse sistema, ou seja, no quadro de medidas operacionais.

As primeiras mudanças que podemos detectar, entre a diplomacia de Lula e a de Dilma se situam, obviamente, no plano do estilo. O ex-presidente se envolvia pessoalmente na condução, e até na definição de posições negociadoras, em vários dos mais importantes assuntos da diplomacia oficial, a começar pela política regional, as questões da integração, a presença do Brasil em diversos foros, ou fóruns internacionais – a diplomacia dos Gs: G3, G4, Brics, o G20 financeiro e vários outros – sem esquecer as muitas visitas bilaterais e encontros regionais (como os com dirigentes sul-americanos e destes com os africanos e árabes).

É previsível que a presidente Dilma conduza os assuntos externos bem mais através da própria chancelaria, o que já constitui uma mudança substantiva. Essa mesma conformação permitirá restaurar a unidade da formulação e implementação da política externa, anteriormente fragmentada numa espécie de tríade constituída pelo assessor especial da presidência em assuntos internacionais, pelo secretário-geral das relações exteriores e pelo próprio chanceler. Já se trata, portanto, de uma grande mudança.

No plano da forma, mas isto também tem a ver com a substância, outras são as prioridades e outro é o estilo da presidente Dilma Rousseff, a começar pelas suas preocupações naturais com a política interna e com a economia doméstica, sobretudo em termos de gastos públicos e a consequente deterioração orçamentária, bem como a aceleração inflacionária em função da expansão exagerada do crédito.

Mas, formada a base parlamentar do governo, para assegurar boas condições de governança interna, e anunciados os cortes orçamentários e outras medidas de ajuste para combater a inflação, o governo Dilma pode então dedicar uma parte dos seus esforços a questões de política externa. Ela o fez, aliás, ainda antes de tomar posse, pois sua primeira entrevista à imprensa foi concedida ao jornal Washington Post, em novembro de 2010, quando ela justamente se distancia da política de direitos humanos do governo Lula ao declarar sua total contrariedade com o apoio que o Brasil concedia, então, ao Irã. Essa é, pode-se dizer, a principal diferença, ou inovação diplomática, do governo Dilma em relação ao governo Lula, postura confirmada recentemente quando o governo brasileiro votou a favor do envio de um consultor em matéria de direitos humanos para investigar violações no Irã, objeto de decisão específica, para imenso desprazer dos iranianos, no Conselho dos Direitos Humanos da ONU em Genebra.

Outra inovação foi observada no relacionamento com os EUA e em temas da agenda multilateral que possuem uma grande interface com a política dos EUA, como nos recentes episódios envolvendo a guerra civil na Líbia e questões de natureza econômica envolvendo comércio, moedas e a China. Existe uma evidente boa vontade e até iniciativas concretas para melhorar o diálogo e o relacionamento com os EUA. A intenção, manifestada explicitamente pela presidente e seu chanceler, é a de criar novos espaços de cooperação entre o Brasil e os EUA, podendo incluir até a revisão do processo de compra de novos caças para a FAB e outros áreas de interesse mútuo no comércio, investimentos, energia, G20, etc.

O outro sinal de distanciamento, ainda a ser confirmado, seria na relação com a China, potência com a qual o governo anterior entreteve diversas ilusões de aliança estratégica, declarando-se a favor do reconhecimento desse país como economia de mercado e esperando receber dela apoio para suas pretensões exageradas a um grande papel internacional, a começar pela reforma da Carta da ONU e a inclusão do Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança das Nações Unidas. A presidente Dilma estaria descontente, ao que parece, mas aqui pressionada pelos industriais brasileiros, com o papel reservado pela China ao Brasil, de simples provedor de matérias primas e de grande mercado para suas manufaturas baratas, que estão competindo fortemente com equivalentes brasileiros não apenas no plano doméstico mas também em terceiros mercados, especialmente na América Latina.

Também ainda resta esperar pelos testes da nova política externa no contexto regional, campo por excelência do que tinha sido designado, na gestão anterior, de exercício de liderança brasileira, para grande desconforto dos profissionais do Itamaraty. Este talvez seja o elemento crucial a fornecer elementos mais concretos para se avaliar se a diplomacia de Dilma se distingue, ou não, da diplomacia de Lula. Onde também ocorreu descontinuidade na agenda da política externa herdada pelo governo Lula de FHC foi na área reputada estratégica e prioritária por ambos governos: o processo de integração sob a égide do Mercosul. Sua vertente econômica e comercial, que constitui o cerne mesmo do processo, ficou praticamente intocada, ou talvez tenha até retrocedido, a partir das inúmeras salvaguardas abusivas e ilegais introduzidas pelo governo argentino contra produtos manufaturados brasileiros, em total contradição com o espírito e a letra do Tratado de Assunção, e com a complacência leniente demonstrada pelo governo brasileiro. Em seu lugar, foram impulsionadas as vertentes políticas e sociais da integração, que podem até ser interessantes em seu mérito próprio, mas não constituem propriamente uma base sólida sobre a qual ancorar a integração.

Não parece haver continuidade com a política de “compreensão generosa” das violações argentinas em relação a seus compromissos sob o Tratado de Assunção: o governo Dilma parece ter optado por uma política de cobrança de resultados. O ingresso da Venezuela no Mercosul também deve constituir um teste, já que o país andino liderado pelo coronel socialista ainda não atendeu aos requisitos básicos do processo de integração, que são a internalização da Tarifa Externa Comum do Mercosul e a aceitação das demais regras de política comercial.

Finalmente, o que deve ser visto também como uma mudança para assegurar a continuidade é o restabelecimento da unidade conceitual e operacional da política externa, antes fragmentada e dividida entre diversos atores, formuladores e executores, agora aparentemente retomando seu leito natural, de unidade de comando, uniformidade de propósitos, homogeneidade na execução. Previsibilidade, credibilidade, estabilidade e legitimidade são condições e elementos importantes para a qualidade de qualquer diplomacia, desde sua fase de concepção e planejamento, até o momento de sua execução e implementação. Certas mudanças são a melhor garantia de continuidade, ou vice-versa.

 

Paulo Roberto de Almeida

(31/05/2011); Mundorama (01/04/2011);

divulgado no blog Diplomatizzando (3/11/2026; link: ).

Relação de Originais n. 2259. Relação de Publicados n. 1024.

Balanço do governo Lula (2007-2010): evolução do setor externo - Paulo Roberto de Almeida

  

Balanço do governo Lula (2007-2010): evolução do setor externo


Paulo Roberto de Almeida


O presente ensaio dá continuidade à série iniciada com o trabalho anterior, publicada sob o título “Balanço do governo Lula, 2003-2010: uma avaliação não complacente”, que se ocupou basicamente do crescimento da economia e dos dados macroeconômicos no plano interno. Este aqui pretende realizar o mesmo tipo de exercício para os desafios que se apresentaram ao governo Lula na frente externa da economia. Os elementos factuais e analíticos relativos, de um lado, às políticas sociais e, de outro, à governança, serão deixados para ensaios adicionais na mesma categoria de balanço, a serem realizados oportunamente. Para os interessados em dados numéricos, as cifras mais importantes a respeito do desempenho comparado dos países nos principais campos da atividade econômica, ranqueados por país, podem ser conferidas neste site: http://www.indexmundi.com/g/r.aspx?v=65&l=pt.

 

Navegando na bonança como nunca antes na história mundial

Nunca antes na história econômica mundial, pelo menos desde o início da crise dos anos 1970 – que começou com a ruptura unilateral americana, em 1971, do sistema monetário estabelecido em Bretton Woods (1944), seguido logo depois pela primeira crise do petróleo, em 1973 – se tinha registrado na economia mundial um crescimento tão rápido, e tão disseminado em diversas regiões, quanto no período posterior aos ataques terroristas contra os Estados Unidos, em 2001. Reagindo ao que poderia ter sido um desastre econômico de proporções razoáveis, as autoridades monetárias americanas reduziram rapidamente as taxas de juros (mais de 3 pontos de uma única vez) e as mantiveram em patamares ínfimos durante muito tempo, pelos três anos seguintes pelo menos. Elas garantiram, assim, um retorno quase imediato ao crescimento, ao preço, porém, do incentivo ao consumo e aos investimentos imobiliários que iriam se refletir mais à frente, com a criação de bolhas no setor da construção civil, repercutidos e realimentados pela alavancagem financeira excessiva.

Muitos economistas alertaram para a insustentabilidade, no médio prazo, dos padrões de expansão, entre eles Nouriel Roubini – chamado, nos meios financeiros, de Mister Doom, ou Senhor Apocalipse – mas pode-se também dizer que o processo beneficiou o mundo inteiro, enquanto durou. Lula foi um dos muitos “profetas do passado” que se apressaram em criticar os “especuladores de Wall Street” e os erros da política econômica dos Estados Unidos como responsáveis pelo desastre, esquecendo-se, porém, de agradecer aos mesmos atores econômicos pela excepcional fase de expansão da economia mundial que beneficiou enormemente o Brasil. Com efeito, a prodigalidade consumista americana e a disposição chinesa em financiar os déficits gêmeos dos Estados Unidos, investindo grande parte do saldo conquistado na relação comercial bilateral em bônus do Tesouro americano – o que nada mais era do que as duas faces da mesma moeda – foram os responsáveis pelo grande crescimento econômico mundial e pelo aumento vertiginoso dos fluxos comerciais e financeiros.

Foi, portanto, menos por virtudes da política econômica do governo do que pela conjuntura econômica favorável no plano externo que o Brasil surfou nessa onda de crescimento como poucas vezes tinha tido a oportunidade de fazê-lo em sua longa história como exportador de commodities. De fato, o Brasil foi mais comprado do que vendeu nos mercados internacionais, em especial em sua relação com a China, convertida em primeiro parceiro comercial ao longo de vários anos de crescimento contínuo – embora desequilibrado – da relação comercial bilateral. Prova disso é que o aumento das exportações se deu mais pelo lado dos valores do que dos volumes, em função de altas extraordinárias nos preços das principais matérias-primas exportadas pelo Brasil. O crédito incumbe, portanto, mais ao agronegócio e à principal empresa privada de mineração do Brasil, do que ao governo Lula, embora ele tenha procurado se vangloriar de estar criando uma “nova geografia comercial internacional”.

Na verdade, essa “nova geografia”, que o governo Lula pretendia impulsionar do lado do comércio Sul-Sul, já existia há muito tempo, representada pelo aumento maciço de exportações de manufaturados a partir de emergentes dinâmicos, em especial os asiáticos, em direção dos mercados desenvolvidos, oportunidades perdidas pelo Brasil, empenhado politicamente em aumentar suas exportações para países africanos e latino-americanos (o que não é errado, em si, desde que não represente uma concentração indevida em mercados pouco dinâmicos ou apresentando eventuais problemas de liquidação de créditos comerciais, como ocorreu no boom brasileiro de exportações de manufaturados dos anos 1970, para os mesmos mercados, e que resultaram em diversos calotes comerciais na década seguinte).

A demanda externa representou, de fato, um grande estímulo ao crescimento econômico no Brasil. Ainda assim, numa fase de grande expansão da economia mundial, o Brasil cresceu, na média, menos da metade das taxas do crescimento do PIB global e três vezes menos do que os emergentes mais dinâmicos. O único motivo, obviamente, é o tradicional estrangulamento macro e microeconômico do Brasil, representado pela insuficiência de investimentos e de infra-estrutura e pelo chamado “custo-Brasil” – a enorme carga tributária, o custo do capital e as dificuldades burocráticas que penalizam as atividades produtivas de maneira geral e a indústria de manufaturados em particular. O governo Lula pouco ou nada fez para remover esses obstáculos a um crescimento mais vigoroso da economia, limitando-se a anunciar planos de estímulo à indústria e ao comércio exterior que raramente foram implantados de maneira consequente ou continuada.

 

Comércio exterior: avanços e recuos num setor de forte competição

A política comercial do governo Lula começou, na verdade, por um esforço de contenção de comércio, não do seu aumento, representado pela tentativa, aliás bem sucedida, de “implodir” a Alca, o projeto americano de uma zona de livre comércio hemisférico. Alegando “assimetrias” entre os países e desequilíbrios nas relações econômicas – o que objetivamente existe em quaisquer outras relações econômicas, com quaisquer outras regiões e parceiros – a atitude do governo consistiu em travar essas negociações – no que foi ajudado pela Venezuela e pela Argentina – na ingênua esperança de que um acordo entre o Mercosul e a União Europeia resultasse mais favorável ao Brasil, esquecendo-se de que os europeus só estavam negociando um acordo comercial justamente para compensar eventuais vantagens de acesso aos mercados latino-americanos a serem obtidos pelos Estados Unidos. Era óbvio a qualquer observador mais atento – mas talvez não a certos círculos do poder – que, uma vez retirada a “ameaça” do acesso preferencial e da perda de mercados, os europeus se mostrariam bem mais relutantes em fazer aos países membros do Mercosul as concessões agrícolas que os americanos relutavam igualmente em efetuar – sendo que os europeus sempre foram muito mais protecionistas nessa área do que os próprios americanos.

O fato é que, a despeito do aumento contínuo nos valores acumulados das exportações brasileiras, essas foram sendo crescentemente representadas pelas matérias-primas e perdendo espaço nos mercados mais dinâmicos, embora ganhando em concentração no mercado chinês, que aliás reproduz o típico padrão Norte-Sul condenado por gerações de economistas “progressistas”. O aumento do comércio com parceiros não tradicionais – na África e no Oriente Médio em especial – foi apresentado pelo governo como resultado de sua política de diversificação das exportações do Brasil e de implantação da “nova geografia comercial”, sem mencionar que esse crescimento se dava a partir de patamares muito baixos, envolvia valores nem sempre muito expressivos e, mais importante, quem estava exportando, na verdade, eram empresários privados, não agências governamentais. Todo governo, em qualquer país, tem como obrigação desvendar novos mercados para as empresas privadas, se esforçando ao mesmo tempo para não perder os espaços já conquistados, o que infelizmente ocorreu no caso do Brasil nos mercados mais tradicionais.

Cabe registrar, igualmente, o tratamento leniente concedido pelo governo no caso do protecionismo argentino, abusivo e ilegal, segundo as normas do Mercosul e da própria OMC, redundando em perdas para os exportadores brasileiros. O governo também teve a infeliz ideia de criar um “programa de substituição de importações” de âmbito regional, pretendendo realizar um esforço de promoção comercial ao contrário, isto é, cumprindo funções que deveriam ser assumidas pelos governos dos países vizinhos desejosos de conquistar o mercado brasileiro. Apoiando-se nos saldos desfavoráveis aos países vizinhos no comércio bilateral – o que também é o resultado de um protecionismo inerente à política comercial do Brasil – o presidente chegou inclusive a propor uma sugestão esdrúxula aos importadores brasileiros, a de que eles importassem mais dos parceiros regionais, mesmo que os produtos fossem comparativamente mais caros, apenas para demonstrar “generosidade” para com países supostamente “menos desenvolvidos” do que o Brasil: obviamente, nenhum deles se deixou seduzir por tão estapafúrdia proposta.

 

Convergência macroeconômica: o Brasil no contexto mundial

Nem tudo foram tropeços na área econômica, sobretudo porque o governo teve o bom senso de preservar as escolhas fundamentais feitas no governo anterior quanto aos principais pilares da gestão macroeconômica: metas de inflação, flutuação cambial e responsabilidade fiscal, que são aliás critérios básicos utilizados por dezenas de outros países na condução de suas políticas fundamentais. O Brasil ganhou em respeito e audiência internacional justamente porque foi preservada a estabilidade econômica, embora durante a maior parte do período o crescimento tenha permanecido lento e instável; a inflação também continuou controlada, ainda que a taxas superiores ao dobro da média mundial, graças bem mais aos esforços do Banco Central do que à colaboração do resto do governo; deve-se registrar que grande parte das pressões inflacionárias é “encomendada” pelo próprio governo, ao manter revisão tarifária de setores administrados e metas de inflação persistentemente altas.

As contas fiscais estão relativamente ajustadas, mas ao preço da constante elevação dos tributos, cuja carga sobe a cada ano; os gastos correntes do governo, mas não os seus investimentos produtivos ou em infraestrutura, seguem elevados, inclusive porque o governo tem sido generoso com os seus próprios mandarins; alguns economistas e mesmo setores do governo ainda se revoltam contra o superávit primário, como se existisse a opção de não pagar a dívida interna, ainda em expansão, mas com níveis maquiados por expedientes contábeis pouco recomendáveis no âmbito do Tesouro.

Na área cambial, o governo atual pratica o que, no precedente, seus economistas chamavam de “populismo cambial”, ou seja, a valorização contínua da moeda, mesmo sob protesto de industriais e exportadores. Todo governo, diga-se de passagem, aprecia essa valorização cambial, pois dá a impressão de que todo mundo ficou mais rico – e a classe média adora viajar ao exterior, para tentar escapar de preços que são abusivos no mercado interno – e ajuda no combate à inflação, sempre uma ameaça aos mais pobres. O governo tenta contornar o problema da valorização cambial acumulando reservas absurdamente altas, que trazem um enorme custo fiscal, espertamente obscurecido por ele. No computo geral, considerando-se o estímulo dado às importações e o desestímulo criado contra as exportações, essa situação provoca elevação do déficit em conta corrente, apenas compensado temporariamente pela entrada vigorosa de investimentos estrangeiros. Grande parte desses recursos é de natureza puramente financeira, e pode reverter facilmente num momento de aumento da desconfiança. O futuro, aqui, é incerto, portanto, embora se possa prever uma futura desvalorização com base nos déficits que vem sendo acumulados atualmente.

No plano da governança mundial, prevalece a ilusão – não apenas no Brasil, mas partilhada igualmente por outros países – de que o G20 financeiro será capaz de restabelecer as bases do crescimento mundial com base na coordenação das políticas econômicas nacionais, objetivo que jamais foi alcançado pelo G7 e que por óbvias razões tampouco será logrado pelas duas dezenas de economias com objetivos conflitantes. A chave do sucesso econômico, como sempre ocorre, são ganhos contínuos de produtividade, com base na boa gestão das contas públicas, boa infra-estrutura e ambiente microeconômico – dotado, sobretudo, de capital humano de alta qualidade – e preservação do valor de compra da moeda nacional. Como sempre ocorre, também, abertura ao comércio internacional e aos investimentos estrangeiros são bem vindos, dois traços que o Brasil ainda precisa reforçar em sua economia.

 

 

Dados macroeconômicos do Brasil, setor externo: 2007-2011

 

2007

2008

2009 e

2010 p

2011 p

PIB nominal (US$ bi.)

1410.6

1641.1

1548.2

1960.6

2103.0

PIN per capita (US$)

7448

8545

7950

9948

10544

Atividade econômica

Crescimento real PIB (% anual)

6.1

5.1

-0.2

7.6

4.5

Crescimento. das Exportações

6.2

-0.6

-10.3

9.7

6.7

Crescimento das Importações

19.9

18.0

-11.4

32.2

10.1

Câmbio

Taxa de câmbio (real / dólar)

1.77

2.34

1.74

1.80

1.85

Taxa de câmbio (variação ano)

-10.5

-5.8

8.9

-10.2

1.5

Balanço de Pagamentos

Balança Trans. Correntes (% PIB)

0.1

) -1.7

-1.6

-2.5

-3.5

Bal. Trans. Correntes (US$ bi.)

1.6

-28.2

-24.2

-48.1

-72.7

Balança Comercial (US$ bi.)

40.1

24.8

25.5

16.0

-0.6

Exportações FOB (US$ bi.)

160.6

197.9

153.0

199.4

221.0

Exp. de manufaturados (US$ bi.)

83.9

92.7

66.6

86.8

96.1

Outros produtos (US$ bi.)

76.7

105.3

86.4

112.6

124.8

Importações CIF (US$ bi.)

120.6

173.1

127.5

183.4

221.5

Serviços (saldo US$ bi.)

-13.2

-16.7

-19.2

-29.1

-32.1

Transferências (saldo US$ bi.)

4.0

4.2

3.3

3.3

3.6

Invest. Estrang. Direto (US$ bi.)

34.6

45.1

25.9

35.0

45.0

Termos do Intercâmbio (% ano)

2.2

3.4

-3.1

7.8

-2.9

Reservas Internacionais (US$ b)

180.3

206.8

239.1

252.0

252.0

Cobertura Importações (meses)

13.7

11.3

16.4

12.3

15.9

Dívida Externa

Divida Externa Total (% PIB)

13.7

12.1

13.2

10.1

9.8

Dívida Externa Pública (% PIB)

6.1

5.1

6.2

4.6

4.5

Dívida Externa Privada (% PIB)

7.6

7.0

7.0

5.5

5.3

Amortização Dív. Ext (US$ bi.)

39.7

22.4

30.1

25.0

24.2

Juros Dívida Externa (US$ bi.)

-7.3

-7.2

-9.1

4.5

4.3

Serviço Dív. Externa (% Export.)

17.6

6.6

11.7

12.6

12.2

Serv. Dív. Ext. Públ. (% Export.)

10.9

5.3

7.4

5.0

4.8

Serv. Dív. Ext. Pública (% PIB)

1.4

0.7

0.9

0.5

0.5

Fonte: Citi Investment Research and Analysis, Latin America Macro and Strategy Outlook (23 Julho 2010), p. 25; e = estimado; p = previsã

 

Paulo Roberto de Almeida (pralmeida@me.com)

Postado no blog Diplomatizzando (3/11/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/11/balanco-do-governo-lula-2007-2010.html)

 

 

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