Opinião
A alardeada política externa altiva de Lula negou fogo justo quando era mais necessária
A posição difícil em que se meteu o governo Lula decorreu de longa sucessão de erros do passado, que o deixou implicado até o pescoço na sobrevida de Maduro como presidente da Venezuela
Por Rogério Werneck
O Estado de S. Paulo, 15/01/2026 | 22h00
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A intervenção militar do governo Donald Trump na Venezuela, seguida de ameaças à Colômbia, justo no início do ano eleitoral, trouxe enorme desconforto ao presidente Lula. Tudo indica que não se trata de um desgaste pontual. Muito pelo contrário, é bem provável que notícias da Venezuela continuem a assombrar o presidente a cada dia da longa campanha de reeleição que tem pela frente.
O mais grave do episódio é ter marcado extemporânea volta à América do Sul da gunboat diplomacy dos Estado Unidos, um termo cuja tradução modernizada deveria passar a ser diplomacia de porta-aviões.
Para o Brasil, que jamais escondeu suas pretensões de proeminência na região, o episódio se revestiu de gravidade redobrada. Em condições normais, o que se deveria esperar era a liderança brasileira em protestos veementes dos países da região à volta da diplomacia de porta-aviões à América do Sul.
Não foi o que se viu. Ao final de longa reunião de emergência da cúpula do governo, descrita por um participante como um “desfile de dúvidas”, a montanha pariu um rato: uma nota frouxa e tímida em que o Planalto nem mesmo se arriscou a mencionar os nomes de Trump e Nicolás Maduro.
O próprio governo deixou claro que se metera numa saia justa. E que o oportunismo prevalecera: a esta altura, não estava disposto a botar a perder a suposta “boa química” que o presidente Lula conseguira desenvolver com o presidente Trump, da qual pretendia fazer bom uso na campanha da reeleição.
Na verdade, a posição difícil em que se meteu o governo Lula decorreu de longa sucessão de erros cometidos no passado, que o deixou implicado até o pescoço na sobrevida de Maduro como presidente da Venezuela.
Ao final de muitos anos de absurda contemporização com toda sorte de abusos dos governos chavistas, o Brasil simplesmente perdeu o respeito de outros países sul-americanos quanto à questão venezuelana.
Basta lembrar as espinafrações, à direita e à esquerda, que Lula teve de ouvir dos presidentes Lacalle Pou, do Uruguai, e Gabriel Boric, do Chile, no final de maio de 2023, quando se permitiu declarar, em uma reunião de países da região, em Brasília, que a questão dos direitos humanos na Venezuela não passava de uma “construção narrativa”.
Justo agora, quando sua alardeada política externa altiva se tornou mais necessária, Lula, entalado com está, se vê sem condições de desempenhar o papel que a gravidade do momento exige. Chegou a conta da forma irresponsável com que, por anos, o Planalto se dispôs a respaldar os desmandos do chavismo.
Opinião por Rogério Werneck
Economista, doutor pela Universidade Harvard, é professor titular do departamento de Economia da PUC-Rio

ANDRÉ GUSTAVO STUMPF, jornalista
Correio Braziliense, 17/01/2026
A espetacular ascensão de Donald Trump à condição de dono do mundo modifica o entendimento de muitos observadores e coloca alguns especialistas na embaraçosa condição de aprendizes diante de tanta novidade. O presidente dos Estados Unidos não hesita em utilizar a força para sequestrar um presidente da República, anunciar a incorporação da Groenlândia, como Hitler fez com a Áustria nos anos 1930, além de ameaçar bombardear aliados que não façam comércio com seu país. Prática curiosa, semelhante a que os portugueses utilizaram contra cidades da Índia no século das grandes navegações.
Mas há uma vantagem nesse novo cenário. Trump tirou a fantasia. Ele não defende o livre comércio, que foi um ponto central e básico na argumentação norte-americana de como os países deveriam organizar seu mercado interno. Os chineses são mais ágeis, produzem mais e com menor preço. Se houver concorrência livre e aberta, os americanos perdem. Então, o melhor é recorrer ao poder dos formidáveis porta-aviões. Cada um com mais de 50 aviões de última geração, helicópteros maravilhosos e tripulação de 5 mil marinheiros. Essa brincadeira custa mais de US$ 1 bilhão por mês. O governo dos Estados Unidos mantém 11 porta-aviões, com suas respectivas defesas navais, em operação no mundo, ao mesmo tempo. É muito dinheiro para manter abertas as trilhas do comércio internacional.
O mundo está de joelhos diante da formidável demonstração de força, agilidade, capacidade de articulação em território inimigo ocorrida na Venezuela. Os aviões norte-americanos desligaram os radares do inimigo, apagaram a luz de Caracas, neutralizaram os sinais de geolocalização e mataram, com incrível rapidez, os cubanos que defendiam Nicolás Maduro. Material de última geração chinês e russo foi silenciado. Tudo ocorreu em questão de minutos. Vale a comparação: a poderosa Rússia está há longos e tortuosos quatro anos tentando dominar a pequena Ucrânia. Perdeu uma quantidade enorme de soldados, aviões, carros de combate, navios e até submarinos. No entanto, Volodymyr Zelensky continua no poder negociando a improvável paz. Putin não conseguiu demonstrar qualquer tipo de eficiência na sua guerra. Ele é um perdedor perante a história.
A conclusão é simples. Acabou a era da inocência. O mundo retornou ao mercantilismo brutal e objetivo. O negócio é grana, ganhar dinheiro, fazer caixa em dólares. Todo resto é fantasia. No caso brasileiro, talvez os observadores acordem da letargia histórica e abram os olhos para a realidade. Os americanos estão na Venezuela. Dentro em breve, estarão na Colômbia. Muito perto da tão discutida Margem Equatorial. E de frente para a Amazônia, região que tem tudo o que eles mais desejam: terras raras, minérios em profusão, ouro em grandes quantidades, diamantes e, também, petróleo em generosos e extensos lençóis. É o paraíso capitalista na terra.
O longo debate sobre a utilização da Amazônia, a preservação da floresta, a manutenção da grande faixa verde, tudo isso perde importância diante da possibilidade de traduzir o vasto cenário em dólares. Os norte-americanos têm larga experiência em exterminar povos originários, devastar o meio ambiente em busca do minério precioso. Nada os detém. Eles chegaram às margens da Amazônia. O Brasil não possui poder militar. O país depende da negociação possível dos diplomatas, o chamado soft power. Ocorre que a conversa agora perde espaço para bombardeios seletivos e manobras militares específicas. O sonho acabou. O Brasil desembarcou na realidade. A América Latina, que era a terra de grandes prosadores, poetas geniais, e de traficantes abusados, agora está no centro da disputa do capitalismo internacional.
A eleição presidencial que deverá ocorrer neste ano vai se processar dentro desse novo cenário. Um superpoder emergiu no Norte. Silenciou tudo o que havia ao seu redor. Ele determina o futuro no Irã, em Israel, na Ucrânia, na Groenlândia e em toda política internacional com virulência, objetividade e despreparo de um adolescente frente ao mundo. As relações de Washington com Brasília são, no mínimo, tensas. Um não gosta do outro. Americanos, que há muito namoram com a ideia de manter uma base militar no Brasil, gostariam de ter aqui um governo mais favorável a seus objetivos. Não é impossível que eles movimentem meios e modos para influenciar no resultado da eleição. Não é preciso consultar os astros para prever possível interferência estrangeira no pleito nacional.
Não é o fim do mundo. E também não é novidade. Os americanos já andaram por aqui em outros tempos. Agora, sem a fantasia e sem a alegada defesa dos princípios democráticos, a interferência poderá ser mais explícita. O jogo é objetivo e claro. É preciso ter olhos abertos. Olhos de ver. E descer das ideologias para o território da realidade.
