Terras raras e soberania
Rubens Barbosa
Interesse Nacional, 6/02/2026
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A política externa de Lula terá o desafio de alinhar-se ou não a um claro movimento anti-Pequim, promovido por Trump e, tendo em mente a dependência em relação à China, manter uma posição de independência entre os EUA e a China
As terras raras tornaram-se um tema central na política externa e de segurança nacional dos Estados Unidos, com vistas a reduzir a dependência da China, que controla cerca de 90% do refino desses materiais. A administração Trump, em 2026, intensificou essas ações com projetos bilionários e a busca de parcerias internacionais.
Nesta semana, o governo dos EUA convocou reunião sobre terras raras em Washington com o objetivo de construir uma aliança contra a China. Quarta-feira passada, cerca de 55 países foram convidados para encontro liderado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, com a presença do alto escalão norte-americano, inclusive do vice-presidente Vance. O objetivo do encontro é a negociação de um acordo que crie um sistema de controle de preços, a garantia de que barreiras não serão estabelecidas e que seja permitido o acesso às reservas do país que aceite o entendimento com a Casa Branca.
O Mexico, a União Europeia, o Japão e a Argentina já concordaram e assinaram o acordo.
‘A iniciativa de Trump visa reduzir a dependência dos EUA em relação à China’
A iniciativa de Trump visa reduzir a dependência dos EUA em relação à China para materiais essenciais a veículos elétricos, sistemas de defesa e tecnologia avançada.
Nesse contexto, Trump anunciou o plano para construir um estoque estratégico de minerais críticos, avaliado em US$ 12 bilhões. A proposta, conhecida como Projeto Vault, lançará um estoque estratégico inédito de minerais críticos. O plano soma US$ 1,67 bilhão em capital privado com um empréstimo de US$ 10 bilhões do Banco de Exportação e Importação dos EUA.
O governo brasileiro aceitou convite da Casa Branca para participar do encontro que incluiu os países do G7, além da Austrália, Coreia do Sul, Índia, entre outros. A representação brasileira ficou a cargo da embaixada do Brasil em Washington, que se limitou a receber a proposta e encaminhá-la a Brasília. Surpreendentemente, o governador do Goiás, Ronaldo Caiado também esteve presente.
‘Membros do Departamento de Estado norte-americano relatam ainda que estão tendo dificuldades para ter acesso aos tomadores de decisão no Brasil para consolidar uma agenda sobre o tema de terras raras’
Segundo se informa, membros do Departamento de Estado norte-americano relatam ainda que estão tendo dificuldades para ter acesso aos tomadores de decisão, principalmente no Ministério de Minas e Energia, para consolidar uma agenda sobre o tema de terras raras. O ministro das Minas e Energia confirmou as reuniões com representantes do governo de Washington. Segundo o ICL Notícias apurou, contatos estão sendo feitos entre diplomatas americanos e governos estaduais, como o de Minas Gerais e Goiás.
A busca por um mapeamento de onde existiriam reservas importantes e atores que poderiam estabelecer um diálogo também foi iniciada. O trabalho de identificação não ocorre por acaso. Em documentos, a Casa Branca ainda instruiu a CIA a mapear na América Latina onde estariam as reservas de recursos naturais que poderiam ser vitais para os EUA nas próximas décadas. Não seria surpresa se drones externos já estejam detectando reservas de terras raras na Amazônia e em outras partes do território nacional. A embaixada dos EUA em Brasília está organizando um seminário sobre minérios críticos em São Paulo em março com a presença de mineradoras que atuam no Brasil e o IBRAM.
‘O governo brasileiro deverá atuar com cautela e informar o governo de Washington que qualquer acesso de empresas dos EUA ou de empresas de outros países às terras raras nacionais deve incluir um compromisso de investimentos no país para a geração de maior valor agregado’
Segundo o Itamaraty, não houve ainda um convite formal para integrar o grupo. O governo brasileiro deverá atuar com cautela e informar o governo de Washington que qualquer acesso de empresas dos EUA ou de empresas de outros países às terras raras nacionais deve incluir um compromisso de investimentos no país para a geração de maior valor agregado, conforme legislação aprovada recentemente pelo Congresso. Por isso, o melhor seria tratar da matéria de forma bilateral e não oferecer uma resposta imediata para aguardar a visita presidencial aos EUA na primeira semana de março.
O tema de terras raras deve, assim, entrar na agenda bilateral do encontro de Lula com Trump, incluído pelo lado americano, e poderá servir de base de negociação para a eliminação das tarifas de 50% sobre 22% das exportações brasileiras para os EUA. A preocupação do governo brasileiro tem de ver com eventuais condicionantes comerciais, riscos de exclusividade e possíveis impactos sobre a autonomia da política comercial, da necessidade de compatibilizar o convite com outros acordos e parcerias estratégicas em curso.
‘A China se manifestou oficialmente contrária à proposta de Washington, insinuando consequências para quem participar’
No mesmo dia do encontro sobre terras raras, Trump conversou com Xi Jinping para tratar do acordo comercial que ainda não foi aprovado, para conversar sobre Taiwan e a guerra da Ucrânia. Nas informações sobre a conversa, não há referência a política de isolamento da China nas terras raras, mas certamente de alguma maneira o tema deve ter sido tratado. Trump anunciou que, na questão comercial, a China vai comprar 20 milhões de toneladas de soja em 2026 e 25 mil em 2027. Depois da conversa com Trump, a China se manifestou oficialmente contrária à proposta de Washington, insinuando consequências para quem participar.
A política externa de Lula terá o desafio de alinhar-se ou não a um claro movimento anti-Pequim, promovido por Trump e, tendo em mente a dependência em relação à China, manter uma posição de independência entre os EUA e a China. Tudo isso, terá de ser sopesado pelo governo brasileiro para ver o que será mais favorável aos interesses do governo e do setor privado.
Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.
Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional
Uma revolução no pensamento internacional brasileiro
Texto: Christian Edward Cyril Lynch
Ilustração: Greg
02 de Fevereiro de 2026
Livros de Dawisson Belém Lopes, Elizeu Santiago, e Luiz Feldman produzem uma refundação da literatura diplomática brasileira
O ano de 2025 assistiu à publicação de três livros que, tomados em conjunto, representam uma inflexão decisiva na maneira de compreender a política externa brasileira – não apenas enquanto prática estatal, mas enquanto problema intelectual. São eles: De Bonifácio a Amorim, de Dawisson Belém Lopes, Formação do pensamento internacional brasileiro, de Elizeu Santiago, e Sobre Hemisférios, de Luiz Feldman. O que une essas obras não é um método comum nem uma escola compartilhada, mas o fato de operarem, cada uma a seu modo, uma crítica sistemática à literatura diplomática oficial consolidada e às interpretações estabilizadas do lugar do Brasil no mundo. Mais do que revisões pontuais, esses livros produzem uma verdadeira refundação do campo, permitindo falar, com justiça, no surgimento de um pensamento internacional brasileiro, distinto tanto do pensamento político brasileiro clássico quanto da historiografia diplomática tradicional.
Dois aspectos gerais merecem destaque. O primeiro diz respeito à redefinição do objeto; o segundo, à mudança de horizonte histórico e normativo que informa essa redefinição.
Em sentido forte, as três obras representam uma inflexão estrutural no campo do pensamento político brasileiro aplicado às relações internacionais. Essa inflexão opera uma dupla ruptura. De um lado, no plano do conteúdo, rompe-se com uma longa monomania interpretativa que marcou o pensamento político brasileiro: a centralidade quase exclusiva da questão da identidade nacional – verdadeira, necessária ou frustrada – em detrimento das representações do Brasil no sistema internacional. O Brasil foi pensado obsessivamente como problema interno, como formação social incompleta ou Estado inacabado, enquanto sua inserção no mundo aparecia como derivação quase automática dessas carências. De outro lado, esses livros também ultrapassam os limites do que, mais recentemente, passou a ser chamado de pensamento diplomático brasileiro. Essa literatura, embora meritória ao deslocar o foco da dimensão interna para o plano externo, acabou por se fixar quase exclusivamente nos discursos e formulações produzidos por diplomatas profissionais, tomando o Itamaraty como locuspraticamente exclusivo da reflexão internacional. A noção de pensamento internacional brasileiro, tal como emerge nesses três trabalhos, vai além. Ela incorpora não apenas diplomatas, mas também políticos, intelectuais públicos, juristas, sociólogos e teóricos sociais que, em diferentes momentos, contribuíram de maneira decisiva para a elaboração das imagens do Brasil no mundo – frequentemente com impacto igual ou superior ao dos próprios operadores diplomáticos. Trata-se, portanto, de uma ampliação simultânea do objeto, dos atores e dos registros intelectuais considerados legítimos.
O segundo aspecto comum às três obras diz respeito ao horizonte histórico que as informa. Elas são representativas do esgotamento da era liberal da globalização como chave interpretativa da política externa brasileira. A partir desse esgotamento, torna-se possível – e necessário – reler o passado internacional do Brasil sem os filtros normativos que naturalizavam certas continuidades, supostas tradições e consensos imaginários. Subvertem-se, assim, vários clichês duradouros: a historiografia diplomática excessivamente centrada no Prata, no Barão do Rio Branco ou na República; a ideia de uma política externa consensual, tecnocrática e imune ao conflito ideológico; e uma narrativa frequentemente inofensiva, anedótica ou autorreferente, produzida por diplomatas sobretudo para consumo interno. A consequência mais profunda dessa virada é a recuperação da distinção intelectual entre partidos e correntes ideológicas na formulação da política externa. Questiona-se o Rio Branco como fiat lux – foi ele um começo ou um fechamento? – e recupera-se o século XIX como terreno de disputas intelectuais reais. Ao mesmo tempo, rompe-se o monopólio diplomático sobre o tema, recolocando a política externa no campo mais amplo das políticas públicas e do pensamento social. Nada disso é feito por curiosidade erudita. A preocupação dos autores é eminentemente prática: trata-se de mostrar como interpretações consolidadas do passado continuam a informar, muitas vezes de maneira acrítica, as concepções contemporâneas de política externa. A mesa está posta não para uma história anedótica, mas para uma reflexão sociológica, histórica e teoricamente informada sobre os cânones vigentes.
Professor do Departamento de Ciência Política da UFMG, Dawisson Belém Lopes reúne em De Bonifácio a Amorim um conjunto de trabalhos que opera uma crítica consistente à visão insulada, burocrática e estatista da formação da política externa brasileira. Seu ponto de partida é a recusa da ideia de que a política externa possa ser compreendida como produto quase exclusivo de uma racionalidade técnica ou de uma tradição corporativa do Itamaraty. O autor trabalha com uma perspectiva de sociologia histórica, interessada em mostrar como a política externa refletiu – e, em certa medida, continua refletindo – representações de interesses oligárquicos ou elitistas da sociedade brasileira, projetadas ao longo do tempo para além do plano estritamente interno. Um de seus méritos centrais é recolocar o papel das ideias no centro da análise da política externa brasileira. Dawisson identifica sucessivas formas de bovarismo internacional – o europeísmo, o americanismo e, mais recentemente, o bricsanismo– marcadas pela disparidade recorrente entre aquilo que o Brasil aspira a ser e aquilo que efetivamente pode ser no sistema internacional. A política externa aparece, assim, como espaço privilegiado de manifestação dessa tensão estrutural entre aspiração e realidade, frequentemente resolvida por meio de projeções simbólicas que excedem as capacidades materiais do país. Ao fazê-lo, o autor abre o campo da política externa à análise das ideologias, das autoimagens e das crenças coletivas, afastando-se tanto do institucionalismo estrito quanto de leituras economicistas ou sociologizantes que tendem a reduzir o político a mero epifenômeno.
Professor do Cefet e atual presidente do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Elizeu Santiago apresenta, em Formação do pensamento internacional brasileiro, um trabalho de natureza eminentemente histórica, baseado em extensa e minuciosa pesquisa de arquivo. Seu alvo principal é o lugar-comum segundo o qual a política externa do Império teria se baseado na conciliação partidária, no consenso entre elites ou na neutralização ideológica – interpretação associada a autores como Amado Cervo e José Honório Rodrigues, e frequentemente mobilizada para justificar a ideia de que apenas a política externa republicana, a partir do Barão do Rio Branco, mereceria exame substantivo. Contra essa leitura, Santiago demonstra que o século XIX brasileiro foi marcado por um campo intelectual intensamente disputado, no qual partidos e correntes divergentes formularam projetos internacionais distintos e, por vezes, incompatíveis. A política externa não foi simples consequência automática de vícios sociais ou de pressões estrangeiras — tanto que figuras como o Visconde do Uruguai desejavam que assim fosse, precisamente porque não era. Ao longo do tempo, ela se liberaliza, se ideologiza e se pluraliza, acompanhando as transformações do próprio Estado imperial. O autor identifica dois grandes paradigmas de política internacional no século XIX, antecipando em quase um século a linguagem normalmente reservada ao período republicano. De um lado, o paradigma saquarema, centrado na unidade nacional, na centralidade política do Estado e no intervencionismo circunstancial; de outro, o paradigma luzia, associado ao americanismo, ao federalismo, ao normativismo jurídico, ao pacifismo doutrinário e à primazia de soluções comerciais e jurídicas. Com isso, Santiago desmonta a ideia de monolitismo e devolve densidade histórica ao Império, recolocando-o como momento decisivo da formação do pensamento internacional brasileiro.
Deixo de aqui me aprofundar na análise dos dois trabalhos. O livro de Dawisson Belém Lopes já foi objeto de exame extensivo em resenha publicada recentemente em revista especializada, o que dispensa retomá-lo neste espaço. Quanto ao livro de Elizeu Santiago, tive ocasião de discutir seus argumentos centrais no prefácio que escrevi para a obra, ao qual remeto o leitor interessado.
Enquanto o livro de Dawisson tem inclinação mais sociológica, e o de Elizeu, histórica, Sobre Hemisférios, de Luiz Feldman, embora também recorra à História, apresenta de forma mais nítida uma dimensão própria da teoria política. No interior desse registro, adota uma visão objetiva e realista da política no campo das relações internacionais, mais ajustada à aspereza do mundo atual do que os moralismos dominantes da já defunta época da última globalização. Esse realismo, ademais, aplica-se a uma concepção das relações internacionais pensadas espacialmente – daí o subtítulo do livro: Capítulos de geopolítica brasileira.
Ao contrário, porém, do que possa parecer à primeira vista, essa geopolítica nada tem a ver com o pensamento geopolítico brasileiro do século XX associado à Escola Superior de Guerra, de Eduardo Backheuser ao general Meira Mattos. Não se trata de produzir um pensamento geopolítico brasileiro como doutrina a ser seguida, mas de torná-lo visível por meio do recurso à história do pensamento internacional produzido em ato pela política externa brasileira ao longo dos últimos 180 anos. Também não estamos diante de uma história geral e desinteressada desse pensamento. O propósito do autor é desmontar a interpretação hegemônica segundo a qual o Brasil possuiria uma identidade internacional fixa e duradoura, erigida por seus cultores ao patamar de “tradição diplomática”, supostamente seguida de forma estável e coerente por ícones da nossa política externa, como o Barão do Rio Branco, Oswaldo Aranha, Santiago Dantas e Araújo Castro. Essa leitura tende a frisar a escassez de excedente de poder do Brasil e a necessidade invariável de recorrer à brandura como princípio orientador da política externa.
Pois bem. Luiz Feldman pretende desmentir essa interpretação por meio do recurso rigoroso à historiografia contextualista da chamada Escola de Cambridge, com o objetivo de evidenciar, ao contrário, o caráter equivocado e ideológico de semelhante construção. Para tanto, reconstrói, com grande erudição, os debates travados no âmbito político e diplomático desde o reinado de Dom Pedro II até o governo Castelo Branco, mostrando que jamais houve constância na forma pela qual a política externa brasileira respondeu ao desafio de pensar o Brasil no mundo, articulando, de um lado, o interesse nacional e, de outro, os constrangimentos da ordem internacional – e demonstrando que essa suposta identidade brasileira, na verdade, sempre esteve em disputa. Para se desincumbir dessa tarefa, ao longo dos quatro capítulos do livro, o autor subverte deliberadamente o referido cânone “oficial” dos estadistas e formuladores da política externa: em lugar do Barão do Rio Branco, o Visconde do Uruguai; em vez de Oswaldo Aranha, Joaquim Nabuco; no lugar de Santiago Dantas, Gilberto Freyre; em substituição a Araújo Castro, Afonso Arinos de Mello Franco.
Não se trata de reduzir a importância daqueles personagens, mas de evidenciar a existência de outros, até hoje mantidos na sombra, que se revelam tão relevantes para a formulação de nossa política externa quanto os primeiros – que, aliás, também comparecem na obra, embora em posição secundária e igualmente submetidos à reinterpretação. Cada um dos autores examinados em cada capítulo teria avançado, ao longo do tempo, em diferentes momentos da história, bem como do desenvolvimento brasileiro, na formulação de um tipo específico de paradigma da política externa brasileira: Uruguai, como aquele que fixou a América do Sul como espaço privilegiado de atuação do Brasil para a preservação de sua grandeza; Nabuco, como aquele que definiu a América, ou o hemisfério (latitude), em aliança com os Estados Unidos; Freyre, como aquele que estabeleceu o espaço tropical, lusófono, em articulação com o império português ou com seu sucessor; por fim, Afonso Arinos, como o responsável pela fixação do Sul, ou hemisfério sul (longitude), entendido como Terceiro Mundo ou, no jargão atual, o Sul Global.

