sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump? - Paulo Roberto de Almeida (Revista Será?)

O que muda para o Brasil na geopolítica da desordem de Trump?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Consequências geopolíticas do ataque trumpista à Venezuela.

        Começo por revisar o título deste artigo, dedicado às consequências para o Brasil da abdução trumpista do líder chavista da Venezuela, nos primeiros dias de 2026. O conceito de “geopolítica da desordem” tem sido geralmente aplicado ao desmantelamento da ordem construída a partir de Bretton Woods (1944), com seguimento em San Francisco (Carta da ONU, 1945) e em Genebra (acordo do Gatt, 1947), tendo como principal responsável o presidente Trump, desde o primeiro, mas sobretudo no seu atual mandato. Na verdade, essa ordem tem um destruidor bem mais efetivo do que o dirigente americano: Putin. O líder russo vem conduzindo, com especial ímpeto, a destruição dessa ordem política global vigente até há pouco. As sucessivas etapas desse processo desagregador podem ser indicadas.
        Sua obra revisionista começou por um discurso na Dieta russa em 2005, no qual Putin lamentou a dissolução da URSS como tendo sido “a maior catástrofe geopolítica do século XX”. Ela continua por um outro, na Conferência sobre Segurança de Munique, em 2007, quando Putin contesta a ordem global ocidental, que teria pretensões à hegemonia universal, em detrimento, é claro, da Rússia. O projeto alternativo a essa ordem prossegue na prática, pela aliança com a China, na Organização de Cooperação de Xangai. Fundada imediatamente após os ataques terroristas de setembro de 2001 nos Estados Unidos, seu estatuto foi assinado em São Petersburgo, em 2002, tornando-se operacional a partir de 2003, com o objetivo de promover a segurança regional e a cooperação econômica entre seus membros: China, Cazaquistão, Quirguistão, Rússia, Tajiquistão e Uzbequistão na origem; vários outros países aderiram desde então, incluindo Índia e Paquistão (2017), Irã (2023) e Bielorrússia (2024).
        Independentemente desses vínculos, Putin começou a criar a sua própria geopolítica da desordem desde 2008, invadindo a Georgia (que tentava aderir à Otan), a Transnístria, em 2010, território da Moldova setentrional, e mais adiante, no seu golpe mais audacioso, aproveitando uma nova revolução na Ucrânia em 2013-14 para se apossar ilegalmente da península da Crimeia, ao mesmo tempo em que usou a população russa do Donbas (Ucrânia oriental) para promover um movimento separatista que levaria, mais adiante à proclamação de duas “novas repúblicas independentes” na região, Donetsk e Luhansk, que, obviamente, só a Rússia de Putin reconheceu. Foram etapas preparatórias à invasão da Ucrânia, o que sempre figurou em sua agenda revisionista, não obstante acordos de garantias firmados pela Rússia.
        Esses avanços agressivos da nova geopolítica de Putin não receberam a devida atenção por parte da comunidade internacional, a não ser, após a tomada da Crimeia, a imposição de sanções moderadas por poucos países ocidentais e sua expulsão do G7-G8, uma admissão feita em 1998, no otimismo da reintegração da Rússia ao mundo ocidental. O Brasil de Dilma Rousseff sequer se dignou a honrar a tradição diplomática brasileira de estrito respeito ao direito internacional, pois a presidente considerou a invasão russa uma “questão interna da Ucrânia”. A geopolítica da desordem já estava, portanto, criada desde meados dos anos 2010, antes até que Putin empenhasse ativamente seu apoio secreto na primeira eleição de Trump, em 2016, presumivelmente convertido em asset russo antes mesmo do fim da URSS.
        No seu primeiro mandato, Trump foi relativamente “moderado”, operando a conversão do Nafta – o tratado de livre comércio entre os EUA, Canadá e México – num acordo tripartite, com muitas restrições protecionistas, assim como a elevação unilateral de tarifas sobre aço e alumínio contra todos os fornecedores externos, inclusive o Brasil. Já tinha demonstrado, então, seu desprezo pelo sistema multilateral de comércio, assim como sua total ignorância do lado operativo do mecanismo aduaneiro, afirmando que milhões de dólares seriam pagos pelos estrangeiros ao Tesouro, quando o são pelos importadores e consumidores americanos. No segundo mandato, a despeito de um documento relativamente robusto, feito pela Heritage Foundation (Project 2025), continuou demonstrando que não possuía nenhuma noção clara de estratégia geopolítica, ainda que o documento fosse um roteiro expressamente preparado para iniciar uma nova ordem global a partir de janeiro de 2025. Todos os novos assessores, à diferença de 2017-2020, acatam sem contestação suas piores loucuras.
        Em 2025 se chegou, finalmente, não apenas a uma geopolítica da desordem, mas a uma verdadeira opção pelo caos, pois é isso o que vem resultando de todas as iniciativas de Trump, nos terrenos econômico, político e militar, nos planos bilateral, multilateral e dos blocos ou alianças nos quais os Estados Unidos participam de maneira mais ampla desde o final da Segunda Guerra Mundial. Observa-se uma curiosa convergência, provavelmente uma submissão pouco secreta, em relação ao primeiro destruidor da ordem mundial, Putin, o personagem mais influente na própria ascensão política de Trump. Isso explica, em grande medida, sua postura em relação à Ucrânia, feita de uma evidente opção pela sua derrota no terreno militar e por um favorecimento inequívoco das demandas russas.
        A opção de Trump por uma ruptura com a trajetória diplomática americana, sempre imperial, mas rigorosamente alinhada às tradições e valores ocidentais, é revelada por inteiro, por vezes de forma cabal, na nova Estratégia Americana de Segurança (2025), em clara oposição às orientações seguidas desde o imediato pós-guerra, em especial no contexto hemisférico e certamente no confronto com os aliados europeus, que são objeto não apenas de seu desdém, mas de uma virtual animosidade. Já efetuei, neste mesmo espaço, uma breve análise da estratégia de Trump para o “quintal” do Hemisfério Ocidental (Será?, 12/12/ 2025; https://revistasera.info/2025/12/a-estrategia-de-trump-para-o-quintal-do-hemisferio-ocidental/). Cabe agora examinar as implicações mais vastas dessa geopolítica do caos.
        Desde os desafios colocados nos anos 1930, quando as potências fascistas europeias empreendiam uma ofensiva em direção da América do Sul – o que motivou uma reação do então hesitante império americano e do próprio regime varguista –, o Brasil e a América do Sul não enfrentavam desafios tão relevantes quanto esse projeto de reconquista hemisférica. Ele não tem precedentes na história do continente, desde a doutrina Monroe original (1823), passando pelo “corolário Roosevelt” (1903), o do Big Stick, empunhado sobretudo no Caribe e na América Central, chegando agora ao mal chamado “corolário Trump” à doutrina Monroe, quando ele é, efetivamente, um retorno à era da colonização do mundo pelas grandes potências. Não se trata apenas de impedir a ação de adversários ou competidores no “quintal hemisférico”, mas de redesenhar o mapa do mundo no sentido do “triunvirato”, projeto examinado em outro artigo aqui mesmo: “Rupturas nas relações internacionais no contexto do triunvirato imperial” (Será?, 7/11/2025: https://revistasera.info/2025/11/rupturas-nas-relacoes-internacionais-no-contexto-do-triunvirato-imperial/).
        O “ato fundador” da nova geopolítica trumpista pode ter sido a operação de abdução do ditador chavista, mas ela não se deterá provavelmente nesse simples episódio militar, ainda que seus desenvolvimentos sejam ainda imprecisos. Despiciendo examinar a evolução futura do triunvirato imaginado por Trump, que talvez sonhe com uma repetição de Yalta, para discutir as novas zonas de influência sobre o mundo (o que não ocorrerá, não por falta de vontade de Putin, mas por provável oposição de Xi Jinping). Cabe, sim, examinar a postura do Brasil em face dos complexos desafios lançados pelo imprevisível presidente americano. Essa postura pode ser guiada por nossas tradições diplomáticas, bastante bem representadas pelas orientações básicas de uma corporação profissional comprometida fundamentalmente com o interesse nacional, dentro dos parâmetros oferecidos pelo Direito Internacional. Mas ela também precisa levar em conta as novas realidades criadas pelos diktats de Trump.
        Na concepção trumpista, aliados são os países submissos, no continente americano ou na própria Europa, representada por vários iliberais, sem descartar evidentemente a Rússia de Putin, que precisaria ser reintegrada aos negócios do mundo, especialmente em favor da família Trump. Os “inimigos”, por outro lado, ademais dos europeus “decadentes”, são alguns rebeldes do Sul Global, sendo o grande adversário representado pela China. Na perspectiva desse “ato fundador” da geopolítica trumpista, cabe, portanto, examinar os principais atores dessa “novela” venezuelana e as relações do Brasil com cada um deles.
        Nesse campo concreto das relações exteriores do Brasil, os principais atores são, pela ordem: a Venezuela, os Estados Unidos, a China, a Rússia e Cuba. A China é, atualmente, o principal parceiro econômico não só da Venezuela, como do próprio Brasil. A China compra a maior parte do (pouco) petróleo produzido na Venezuela, tendo já investido fortes somas na restauração da sua capacidade produtiva, valores a serem amortizados em petróleo ao longo de décadas à frente. A Rússia é o principal fornecedor de armas ao país caribenho, tendo feito promessas não honradas de garantir sua segurança. O Brasil foi um dos principais parceiros da Venezuela, desde a preeminência chavista no governo e no país, mas perdeu espaços para essas duas grandes autocracias nos últimos anos; ela tem uma enorme dívida, não paga, para com o Brasil, que permanece ainda no limbo. Os EUA, desde o início de 2025, se tornaram o principal ator interno e externo, para o bem e para o mal, para a Venezuela e, também, para o próprio Brasil, sendo que a agenda das ações comerciais e outras, tomadas pelo Big Brother hemisférico, são unilaterais, podendo ser brutais. Cuba será apenas a próxima vítima na lista.
        Não parece haver qualquer perspectiva de alguma unidade na América Latina, no sentido dos países se contraporem aos atos abusivos tomados pelo império recolonizador, tendo em vista a total incapacidade de coordenação no âmbito da Celac, da OEA, ou sequer emergindo a partir de uma hoje inexistente capacidade de liderança brasileira na região. O primeiro gesto do presidente Lula, depois de protestar contra o “sequestro” do ditador venezuelano, foi telefonar para sua sucessora antes mesmo que ela tomasse posse. Sua proximidade política com as duas grandes autocracias do Brics, assim como as íntimas relações do PT com os líderes chavistas são fatores que pesam na falta de credibilidade do presidente brasileiro para qualquer esforço de mediador eventual no tratamento da novela venezuelana.
        Nem a China, nem a Rússia, ademais de protestos puramente retóricos, ousarão criar alguma contenda com os EUA por causa das agruras atuais do país caribenho. Mas a postura do Brasil para com a China e em relação ao drama venezuelano é um dos critérios pelos quais a diplomacia personalista de Lula será vista por Trump e pela equipe trumpista. O fato é que Lula e a diplomacia profissional, independentemente de defenderem, por interesse próprio ou por adesão aos fundamentos doutrinais de uma diplomacia que remonta a Rio Branco e a Rui Barbosa, o primado do Direito Internacional nas relações bilaterais e em foros multilaterais, terão de se haver, doravante, com as investidas da nova geopolítica trumpista da desordem.

Brasília, 7 de janeiro de 2026.
Relação de Publicados n. 1616.


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