Alguém aí falou em dispensar o dólar -- uma moeda certamente arrogante, que dispõe de um "privilégio exorbitante", como diria um francês -- e passar a usar moedas nacionais para as mais diferentes transações e investimentos, enfim, como um ativo como outro qualquer?
Ah, parece que foi num recente encontro em algum lugar deste nosso planetinha redondo...
Quando eu ouço certas coisas, vocês me desculpem, mas me dá um comichão, desses que ficam coçando no cérebro, eu eu me pergunto onde foi mesmo que eu ouvi a mesma coisa antes?
Ah, me lembrei: foi aqui mesmo, neste cantinho irrelevante de inteligência, neste quilombo de resistência intelectual contra certas ideias, as ruins e as más, as desajeitas e as feias...
Em 2009, vejam vocês, algum desses gênios da Unicamp deve ter falado novamente em comércio em moedas locais.
Eu logo saquei do meu coldre o meu Moleskine e uma caneta e anotei a sugestão; chegando em casa perpetrei essa peça de desatino que segue abaixo, e que por acaso encontrei hoje, no pré-cambriano deste blog (OK, foi um pouco mais tarde, foi no Ordoviciano, não importa).
Transcrevo novamente agora, sem sequer ler o que escrevi antes. Não devo ter mudado muito de ideias. Os outros é que continuam repetindo bobagens...
Paulo Roberto de Almeida
O
grande retrocesso Monetário e cambial:
comércio em moedas locais
Paulo Roberto de Almeida
18.06.2009
Existem coisas que escapam à compreensão de economistas, ou até de pessoas
normais.
Refiro-me, por exemplo, à febre ou frenesi em torno do comércio internacional
feito em moedas locais, ou seja, dispensando o dólar, que desde a Segunda
Guerra Mundial converteu-se no padrão de referência e veículo efetivo da maior
parte das transações monetárias, financeiras, cambiais e, sobretudo, comerciais
no mundo.
Isso não impede, obviamente, que outras moedas sejam usadas, como é o caso do
euro nos países membros da UE e entre esta e uma multiplicidade de parceiros. O
iene, a libra e algumas outras moedas também são utilizadas para determinadas
transações ou entre número seleto de países.
O dólar não foi imposto a todos os demais países do mundo por alguma medida de
força, ou de direito, dos EUA. Trata-se apenas do simples reconhecimento da
importância econômica dos EUA, da confiança que os agentes econômicos e os
próprios países têm na sua manutenção como instrumento confiável, que responde
aos três critérios básicos de uma moeda.
Não custa nada lembrar quais são:
1) unidade de conta
2) instrumento de troca
3) reserva de valor
Ponto. Apenas isso. Claro, toda moeda é antes de mais nada uma questão de
confiança: se você acredita que aquele papel pintado possui efetivamente poder
de compra, que você poderá utilizá-lo de diferentes formas, para as mais
variadas transações, ao longo do tempo, isto é, preservando o seu poder de
compra, então você decide, em total liberdade, utilizar aquele papel pintado.
Se você não confia, faz qualquer outra coisa, mas se desfaz desse papel pintado
que não merece a sua confiança.
Pois bem: o mundo demorou anos, décadas, para construir um sistema multilateral
de pagamentos e um regime de trocas que facilite as transações entre os países,
com o mínimo de restrições possível. O multilateralismo monetário, por
imperfeito que seja -- posto que as autoridades monetárias americanas podem
decidir dar um calote no mundo, deixando de honrar seus compromissos externos,
com os compradores de títulos do Tesouro, por exemplo -- é o melhor sistema
possível, pois permite que a mesma moeda seja usada com os mais diferentes
parceiros em todas as transações que eles desejem, sem se amarrar em um
instrumento único, como ocorria ainda com o bilateralismo estrito dos anos
1930, baseado em compensações diretas entre os países.
À luz destas reflexões, eu não consigo compreender como se deseja recuar do
multilateralismo -- ou seja, da liberdade cambial e monetária -- para o
bilateralismo, no qual só poderemos utilizar a moeda de um parceiro com esse
mesmo parceiro.
Me desculpem os mais bem informados, mas não consigo encontrar nenhuma
explicação racional para esse tremendo equívoco conceitual, para esse imenso
retrocesso econômico, para essa servidão voluntária, como já disse um filósofo.
Será que a inteligência econômica está recuando no mundo, ou em determinados
países?
Paulo Roberto de Almeida
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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