Não tenho vocação para inteligência, isto é, para serviços de inteligência. Por inclinação e caráter, prefiro trabalho intelectual, do tipo analítico e dialético, isto é, debates sobre questões relevantes do país e do mundo.
Mas não deixo de ler meus romances, de vez em quando, um John Le Carré aqui, um Graham Greene ali, e vários outros mais, mas na dimensão realista, não fantasias à la Ludlum...
Pois eis que me chega um comentário "chocante" de um leitor de meu post:
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
1468) O passado sinistro do Itamaraty, segundo um anti-imperialista de ocasiao...
o que justifica retirar o comentário de seu insignificante "rodapé" para lhe dar o devido destaque. Não conheço (suponho) o autor e não tenho por que questioná-lo mais do que ele revela neste pequeno trecho de um livro, que traz algo de que eu jamais tinha ouvido falar. Confesso minha completa ignorância sobre o tema, mas vou procurar saber mais a respeito do:
Um espião (diplomata brasileiro) a serviço da União Soviética?
Alat disse...
Caro PRA,
Aproveitando o assunto dessa postagem, você conhece o história do Vasili Mitrokhin, o arquivista da KGB que copiou trechos dos documentos por décadas a fio e fugiu para o Ocidente logo que a URSS acabou? Estou lendo o livro dele e há algumas menções interessantes ao Brasil, que copio abaixo. Any guesses sobre a identidade de IZOT e ALEKS?
Abraço,
Alat
“Among the DGI operations in Angola carried out to assist the KGB was a penetration of the Brazilian embassy to obtain intelligence on its cipher system. A technical specialist from KGB’s Sixteenth (SIGINT) Directorate flew out from Moscow with equipment which enabled a DGI agent to photograph the wiring of the embassy’s Swiss-made TS-803 cipher machine” (k-22, 150, apud Andrew & Mitrokhin 2005:96).
“The KGB’s best intelligence on Brazil probably came from its increasing ability to intercept Brazil’s diplomatic traffic. By 1979 the radio-intercept post (codenamed KLEN) in the Brasilia residency was able to intercept 19,000 coded cables sent and received by the Foreign Ministry as well as approximately 2,000 other classified official communications” (k-22, 128 apud Andrew & Mitrokhin 2005:105)
“SIGINT enabled the Center to monitor some of the activities of probably its most important Brazilian agent, codenamed IZOT, who was recruited while serving as Brazilian ambassador in the Soviet bloc. As well as providing intelligence and recruitment leads to three other diplomats, IZOT also on occasion included in his reports information (probably disinformation) provided by the KGB” (Andrew & Mitrokhin 2005:105).
“IZOT is the highest-ranking Brazilian agent identified in the files noted by Mitrokhin. He provided recruitment leads on three fellow diplomats, including the ambassador of a NATO country in Prague. IZOT had himself been talent-spotted for the KGB by another Brazilian ambassador, an agent codenamed ALEKS; k-22, 235-7, apud Andrew & Mitrokhin 2005:521, n. 68).
A referência é
ANDREW, CHRISTOPHER & MITROKHIN, VASILI.
The World Was Going Our Way: The KGB and the Battle for the Third World
New York: Basic Books, 2005.
========
Bem, só resta comprar o livro, conferir, realizar uma pequena investigação sobre sua veracidade, e depois pedir aos arapongas da Abin que movimentem os seus fundilhos e pelo menos dois neurônios.
Aliás, o livro deve constar da biblioteca da Abin: vou pedir emprestado...
Paulo Roberto de Almeida
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
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Um comentário:
Prezado PRA, talvez você nem publique meu comentário sobre a possível identidade do agente de codinome IZOT, mas aí vai. Pelo que consta nos trechos do livro transcritos acima, está claro que ele exercia a função de Embaixador do Brasil num país do bloco soviético nos anos 70. Também está claro que essa representação era a Embaixada do Brasil na antiga Tchecoeslováquia, posto que um dos trechos transcritos diz que IZOT ajudou a KGB a recrutar "o embaixador de um país da OTAN em Praga". Então, por uma questão de lógica, IZOT foi Embaixador do Brasil em Praga nos anos 70. Quem exerceu esta função durante a maior parte daquela década foi Pedro Sette Câmara (dezembro de 1972 até meados de 1978). Será que era ele PRA? Supondo que fosse, seria um escândalo, já que trata-se de um dos "totens" da história do Itamaraty. O nosso versátil Sette Câmara. Será que era ele? Ou será que era outro? Só Deus sabe.
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