sexta-feira, 6 de novembro de 2026

A derrota de Trump e dos republicanos nos EUA - Rubens Barbosa (Editorial Interesse Nacional)

 Editorial do portal Interesse Nacional, do embaixador Rubens Barbosa, nesta sexta-feira 6/11/1016. Acertadamente, ele afirma que não se tratou exatamente de uma vitória democrática, mas de uma retumbante derrota do trumpismo, assim como no Brasil não ocorreu, prioritariamente, uma vitória do lulopetismo, mas uma fragorosa derrota das mentiras bolsonaristas. PRA

A derrota de Trump e dos republicanos nos EUA
Rubens Barbosa

Editorial Interesse Nacional, 6/11/2026 

Governo de Washington foi repudiado nas urnas, que deram vitória à oposição democrata, que vai controlar as duas casas do Congresso e deve interferir nas políticas do presidente. Mudança pode tornar relações com o Brasil mais pragmáticas
Foto: Casa Branca

Os resultados das eleições desta semana para o Congresso dos EUA mostraram uma forte rejeição das políticas internas e externas de Trump pela expressiva maioria da sociedade norte-americana.

A eleição foi um referendo sobre os dois primeiros anos do governo de Washington, durante os quais promessas de campanha não foram cumpridas, em especial a queda do preço do combustível e dos alimentos e a recusa de entrarem em nova guerra.

O país continua dividido, mas a credibilidade de Donald Trump foi contestada. A imprevisibilidade, a arrogância, forma de governar foi rejeitada de maneira enfática. A maioria na Câmara de Representantes e no Senado foi avassaladora.

‘O sentido de mudança geral, nacional e local, transpareceu na eleição’

O sentido de mudança geral, nacional e local, transpareceu na eleição. Pela primeira vez, foram eleitos governadores negros em Wisconsin, na Georgia e na Flórida. Na Califórnia, pela primeira vez na história, e no Texas foram eleitos governadores latinos. No Novo México foi eleita a primeira governadora indígena e em Minessota a primeira senadora indígena, em Michigan foi eleito o primeiro muçulmano no Congresso, no Texas, a primeira mulher governadora e em New Hampshire o primeiro homem abertamente gay eleito para o Senado.

Sete brasileiros foram eleitos para assembleias legislativas de quatro Estados.

Os bilhões de dólares de Elon Musk não impediram a vitória democrata no Texas, sede de suas empresas.

As primeiras manifestações do presidente norte-americano também foram surpreendentes. Disse que iria respeitar o resultado das urnas, que iria trabalhar com os democratas, mas que, se seu nome estivesse nas células eleitorais, teria vencido. O lema dos próximos dois anos será veto às iniciativas dos democratas.

‘Sem uma estratégia e sem uma liderança forte dos democratas, o resultado da eleição indica mais uma derrota dos republicanos do que uma vitória construída pela oposição’

Sem uma estratégia e sem uma liderança forte dos democratas, o resultado da eleição indica mais uma derrota dos republicanos do que uma vitória construída pela oposição. Com maioria nas duas casas do Congresso, o Partido Democrata, mais jovem e mais à esquerda, poderá criar grandes constrangimentos a Donald Trump nos restantes dois anos de mandato e se fortalecer com novas lideranças para disputar a presidência em 2028, contra JD Vance ou Marco Rubio, do lado republicano.

Com o controle das duas casas do Congresso, o partido democrata tomará iniciativas de políticas, como no tocante às tarifas, que serão vetadas por Trump. Dentro de suas competências, os congressistas democratas promoverão investigações sobre corrupção presidencial, de toda família e amigos próximos, a convocação de membros do governo para explicar certas decisões, como os contratos de petróleo na Venezuela, a instalação de data centers, a busca de mudanças na dura política de imigração e certamente alguns setores do partido tentarão aprovar o impeachment de Trump, o que dificilmente será conseguido.

‘A Comissão de Relações Exteriores do Senado procurará interferir nas políticas de Trump’

A Comissão de Relações Exteriores do Senado procurará interferir nas políticas de Trump com a Rússia e com a Ucrânia para favorecer Zelensky, com Israel com mudança parcial de ênfases na relação política com o premiê israelense e a suspensão do apoio financeiro dos EUA a Israel, além de se opor a qualquer tentativa de Trump para escalar a guerra com o Irã.

Pressionado nas questões globais, o presidente norte-americano pode querer concentrar sua atuação externa, com prioridade, na implementação da Estratégia de Segurança Nacional no que se refere à área de influência e dominação do Western Hemisphere (Cuba pode ser o próximo alvo). Caso os rumores de saída de Marco Rubio do governo Trump, a prioridade para a América Latina poderia diminuir.

Não se deve esperar, contudo, o enfraquecimento da defesa dos interesses de Washington no exterior, apoiada tanto pelos republicanos quanto pelos democratas. Nesse contexto, não deverá haver mudança significativa quanto as tarifas, ao combate ao narco terrorismo, na busca de minérios críticos e nas ações para conter a crescente presença da China na América Latina.

‘No tocante ao Brasil, uma primeira consequência é o enfraquecimento político da direita bolsonarista que tinha no apoio trumpista sua principal carta’

No tocante ao Brasil, uma primeira consequência é o enfraquecimento político da direita bolsonarista que tinha no apoio trumpista sua principal carta. Trump não deverá se envolver, nem apoiar ações de Flávio nos EUA. Caso isso venha a ocorrer, terá de ser atribuído à atitude ideológica do Departamento de Estado, com Marco Rubio.

Quanto às tarifas, estava prevista reunião bilateral depois das eleições no Brasil para negociar uma redução da tarifa de 37,5% e a inclusão de novos produtos na lista de exceções. A notícia do governo Lula, de que o encontro será realizado em novembro, como programado, pode indicar a disposição dos EUA de ter uma relação mais pragmática com o Brasil, mas ainda é cedo para mostrar os próximos passos na relação bilateral.

Caso o governo de Washington decida intensificar suas ações no contexto da Doutrina Donroe, surgirão novos desafios para a política externa do governo Lula, em especial no tocante a ações pontuais norte-americanas contra grupos narcoterroristas, inclusive o PCC e o CV, a exploração de minérios, a regulamentação das plataformas digitais e das Big Techs.

Presidente e fundador do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE). É presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Trigo (Abitrigo), presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e fundador da Revista Interesse Nacional. Foi embaixador do Brasil em Londres (1994–99) e em Washington (1999–04). É autor de Dissenso de Washington (Agir), Panorama Visto de Londres (Aduaneiras), América Latina em Perspectiva (Aduaneiras) e O Brasil voltou? (Pioneira), entre outros.

Artigos e comentários de autores convidados não refletem, necessariamente, a opinião da revista Interesse Nacional

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