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sábado, 19 de setembro de 2026

Bola de Cristal - Cláudia Laitano (Zero Hora)

Bola de Cristal

Cláudia Laitano

Zero Hora, 15/09/26

Artigo, Crônica, Política

“… hoje ninguém precisa de bola de cristal para imaginar como seria um segundo governo do clã Bolsonaro”.

Em outubro de 2018, dias depois do primeiro turno das eleições, escrevi uma coluna falando sobre tudo que me preocupava em um futuro governo Bolsonaro. O texto era uma resposta a uma pergunta feita pela minha filha. Eu não devia andar com uma cara muito boa naqueles dias, e ela queria entender do que exatamente eu estava falando quando dizia que a vitória da extrema direita seria um desastre para o Brasil.

Relendo aquela coluna, percebo que não errei nos traços de caráter do então candidato que tornariam excruciantes os intermináveis quatro anos em que ele permaneceu no Palácio do Planalto – já eram evidentes o despreparo, o destempero verbal, o fetiche pela violência, o desprezo por tudo que ele não entendia (muita coisa), a arrogância, a falta de noção -, mas falhei miseravelmente na futurologia. Mesmo se tivesse previsto uma pandemia, não conseguiria imaginar um presidente atrapalhando a chegada das vacinas ou fazendo troça com doentes. Mesmo conhecendo a visão predatória do futuro presidente em relação à Amazônia, não calculei que a política de “passar a boiada” seria tão escancarada, diligente e criminosa. Mesmo sabendo que o capitão era fã do regime de 64, não esperava que ele tivesse a insolência de tramar um golpe militar. A realidade, quem diria, superou meu pessimismo.

Para o bem e para o mal, hoje ninguém precisa de bola de cristal para imaginar como seria um segundo governo do clã Bolsonaro. Basta observar como Donald Trump tem se comportado em seu retorno à Casa Branca para conferir, na prática, a tese que os cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt desenvolveram no best-seller Como as Democracias Morrem: líderes populistas autoritários usam o primeiro mandato para testar os limites do sistema, mapear os nós institucionais e identificar quem oferece resistência. No segundo mandato, eles já sabem exatamente onde e como atacar. Azar da torcida.

Desde que tomou posse, o ídolo dos Bolsonaro não deu um segundo sequer de descanso para o planeta. Em sua versão turbinada de mal temperado com pitadas de psicopatia, Trump avança com suas (muitas) pautas particulares ao mesmo tempo em que mete o louco com a agenda da extrema direita norte-americana: guerras, tarifaços, ataques à liberdade de expressão e à democracia, negacionismo – sem falar do objetivo confesso de transformar a América Latina na casa da Mãe Joana. Eleger um candidato que não apenas bajula, mas se espelha no maior amigo da onça com o qual o Brasil já teve a infelicidade de lidar não seria apenas um desastre, como em 2018, mas o mais melancólico harakiri moral que o nosso país poderia cometer. (Publicado por Zero Hora, dia 15/09/2029)

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Leia também “A cortina de fumaça e o que realmente está em jogo na eleição de 2026“, de Ignacio Godinho Delgado.

 

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Resistindo ao Espírito do Tempo: a Confraria PAZ (no RS) - Marcos Rolim et ali (Zero Hora)

Um artigo, publicado no jornal gaúcho Zero Hora, da RBS (Rede Brasil Sul) de Comunicações, a propósito dos quatro anos de criação e operações da Confraria PAZ, à qual tive o prazer, junto com Carmen Lícia Palazzo, de estar associado desde que seu funcionamento passou a ser feito de maneira virtual, em virtude da pandemia, atendendo ao convite de nosso amigo comum, o historiador gaúcho Gunter Axt (com quem eu já havia colaborado anos atrás num livro co-organizado com Fernando Schuler sobre Os Construtores do Brasil, com um capítulo sobre Hipólito da Costa).

Paulo Roberto de Almeida

 Resistindo ao Espírito do Tempo 

Daniela Sallet, Cláudia Laitano, Gunter Axt, Juliano Corbellini e Marcos Rolim

Zero Hora   (Porto Alegre), 15/10/2020

 

Nesse dia 16, terão se passados quatro anos desde a morte de Plínio Alexandre Zalewski. Muito provavelmente, ele não suportou um tipo de ataque que passou a ser comum desde que a intolerância se converteu em paisagem. Plínio havia acumulado uma importante experiência na militância política e se construído como um quadro qualificado na gestão pública. Ao longo de sua vida, se envolveu intensamente com a ideia da renovação ética das práticas políticas, articulando projetos e iniciativas que valorizavam a democracia e a participação cidadã. Leitor apaixonado, era tranquilo, gentil e comprometido em superar as superfícies por onde o autoritarismo constrói a cultura do “cancelamento” e por onde começam todas as ameaças.  

Logo após o trágico evento, um grupo de amigos do Plínio, que prezavam especialmente a disposição pelo debate respeitoso, propuseram a formação de uma confraria, algo como uma associação de homens e mulheres livres. A expressão evoca o convívio fraterno, aquele que se realiza na medida em que reconhecemos no outro a humanidade que nos define. A ideia, tão simples, foi a de aproximar pessoas interessadas em temas relevantes - da política, da cultura, das ciências - independentemente de suas inclinações político-ideológicas, para encontros mensais de debate franco, quase sempre aberto por pessoa convidada, especialista no tema selecionado.  

E para que objetivo tais pessoas deveriam se reunir? Com que propósitos políticos? Nenhum propósito além do prazer em interagir, em transitar por uma zona não marcada por interdições, e deslocar-se pela força de argumentos sólidos. Nenhuma estratégia, salvo a firme determinação de resistir ao “espírito do tempo” (Zeitgeist) e à distopia que vai se tecendo a cada vez que a estupidez é normalizada.

Tomamos, então, as iniciais do nome de nosso amigo ausente, e chamamos nossos encontros de “Confraria Paz”.  A paz pressupõe a lei civil e se traduz, em sua forma mais avançada, na construção desse magnífico artifício que costumamos identificar pelo nome de democracia. Em um Estado Democrático de Direito, como se sabe, todos possuem garantias fundamentais que não podem, aliás, ser suprimidas por maiorias eventuais; compreensão corporificada no instituto das chamadas “cláusulas pétreas” da Constituição Federal (art. 60, § 4º).

Por conta desses direitos, não há “ponta de praia” aos dissidentes, nem metralha para os hereges. Pelo contrário, nos interessa os olhares desviantes, as sensibilidades diversas e, sobretudo, as dúvidas pertinentes já que elas originam o pensamento.  

Com esses pressupostos, temos nos reunido há quatro anos, ouvindo pessoas das mais diversas formações e posicionamentos, todas, claro, dentro do campo civilizatório demarcado pela Constituição Federal de 1988. A experiência tem nos oferecido ensinamentos que emergem da diversidade e permitido, a cada um dos professores, pesquisadores, servidores públicos e profissionais liberais que integram a confraria, o convívio em uma pequena polis – desde o início da pandemia, virtual - onde a reflexão é sempre bem-vinda. 

É preciso reconstruir espaços públicos para que as palavras transitem por sobre os muros que resguardam o poder e a mentira. Nesses espaços, podemos nos reconhecer politicamente como iguais e legitimar a razão dissonante. A Confraria Paz é uma gota em um oceano turbulento cada vez mais avesso ao debate e à razão. Nada impede, entretanto, que experiências como ela se disseminem, semeando o respeito, ao invés do escárnio; as evidências, ao invés dos dogmas; a solidariedade ao invés do egoísmo e a compaixão ao invés da indiferença.  Plinio, por certo, apreciaria muito essa missão. 


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