Duas opiniões contrarianistas
Paulo Roberto de Almeida
Existe muita imaginação no mundo acadêmico e mesmo no jornalismo analítico, geralmente de opinião, a partir dessa mesma imaginação.
Vou dar apenas dois exemplos.
Acadêmicos enchem a boca ao falar de um tal de Sul Global, como se se tratasse de uma respeitável entidade pronta para agir em uníssono em favor do seu desenvolvimento e da cooperação entre os seus múltiplos povos. Na sequência, jornalistas respeitados acatam essa opinião e os politicos em busca de algum discurso estimulante se põem a falar graciosamente dessa nova e prometedora entidade.
Não é uma gracinha? Mas algo realmente mudou na assemblagem de Estados, paises, nações e povos que compōem essa entidade?
Deixo a resposta com vcs.
Segunda opinião. Pouca gente está disposta a reconhecer que o tão propalado BRICS é apenas e tão somente um Frankenstein, ou seja, um novo ser, que não se sabe bem se tem algum cérebro, mas que é apenas uma assemblagem voluntarista (e, na verdade, oportunista) de, na origem, quatro partes retiradas de quatro fontes diferentes, apenas “soldadas” por um acrônimo atraente, mas concebido simplesmente para produzir retornos financeiros interessantes, para fundos institucionais, a partir de quatro economias independentes que, na época, apresentavam taxas expressivas de crescimento (o que não é mais o caso de duas economias das quatro originais).
Zut! Por um golpe diplomático que teve pouco a ver com os fundamentos subjacentes a quatro Estados possuindo interesses nacionais próprios se constituiu uma nova entidade aparentemente prometedora na geopolítica mundial, mas que, no fundo, não deixa de ser, continua sendo, um Frankenstein. Depois, ainda acrescentaram uma quinta peça, sem muito a ver com os propósitos originais do inventor do acrônimo, mas, que importa?, o Frankenstein pode sempre receber novas partes e peças, segundo os desígnios imaginativos do Dr. Viktor Frankenstein.
E assim fizeram: o Frankenstein original a quatro incorporou sua quinta parte e, mais adiante, inventaram de costurar mais meia dúzia de novas partes e peças e mais outros tantos componentes, penduricalhos que foram sendo acrescentados ao Frankenstein do início (apenas econômico em sua concepção, vale lembrar).
Pronto! O Frankenstein agora chamado de BRICS+ está tão “assemblado” que já não consegue obter uma nova Declaração conjunta que recolha os interesses nacionais, e as eventuais contrariedades, de todas as suas partes e peças componentes (que são de tamanhos, formatos, cores e sabores muito diferentes entre si).
O novo Frankenstein (ainda não sabemos precisamente quais centelhas que se movimentam em seu cérebro) está aí, se deslocando mais ou menos pesadamente, sob os olhos preocupados do Dr. Viktor (que já declarou não reconhecer a criatura).
Fico por aqui com essas duas opiniões contrarianistas, que sempre surgem para desafiar certos consensos opinativos. Desculpo-me pelo fato de abalar algumas convicções simples!