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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

George Bernanos em Barbacena: 1940-1945 - Francisco Braga

 George Bernanos em Barbacena: 1940-1945

VAMIREH CHACON brilhou como um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros.
Tive a oportunidade de privar da amizade de Vamireh Chacon, um assíduo frequentador da Biblioteca do Senado Federal e funcionário do ILB-Instituto Legislativo Brasileiro (que goza de status de escola de governo do Legislativo, através das plataformas Saberes e Interleges), enquanto eu exercia o cargo de Consultor Legislativo. Mais tarde, mantivemos profícua correspondência e tive a honra de acolher seus comentários a muitas matérias de meus dois blogs.
Neste post, apreciaremos o ensaio desse grande jurista e cientista político sobre a estada de GEORGES BERNANOS em Barbacena (de agosto de 1940 a junho de 1945), enriquecida pela pesquisa de Chacon na correspondência do pensador católico francês e no testemunho de vários de seus amigos no Brasil.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/09/bernanos-em-barbacena.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

BERNANOS EM BARBACENA

 Por Vamireh Chacon *

Transcrevemos o ensaio intitulado Bernanos em Barbacena pelo notável pensador pernambucano, extraído do seu livro “O Humanismo Brasileiro”, São Paulo: Summus Editorial: Secretaria da Cultura, 1980, pp. 248-257.
 
VAMIREH CHACON de Albuquerque Nascimento (✰ Recife, 01/02/1934 ✞ Brasília, 18/09/2023)
 
A Serra da Mantiqueira atinge um pouco mais de dez mil metros de altura em Barbacena. Hoje, quase à beira da estrada entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, aos pés do monte Grogotó, onde agora se situa um moderno hotel, encontra-se o antigo Sítio Cruz das Almas, no qual se asilou Georges Bernanos, durante quase toda a Segunda Guerra Mundial. A Prefeitura local, nos tempos de Simão Bias Fortes, desapropriou o pequeno conjunto de casas brancas, com janelas verdes e uma área circundante, centro da propriedade antigamente rural. Ali morou o Unamuno ¹, católico e francês, Bernanos. 
Quem chega à residência, cercada de arame farpado em postes tortos, logo se defronta com o nicho da Virgem de Lourdes sobre o portal da entrada, devoção francesa antes de universal. No interior, poucos móveis, de escasso valor e menor gosto; livros mal conservados pela umidade e pior pela apresentação desarrumada. O que vale, aqui, são essas paredes nuas, esse piso rijo, esse teto ascético; a seu modo, retratos do próprio Bernanos. Dele, que pretendera fazer da sua casa mineira "algo que se parecesse a uma fazenda nossa" (da França). ²
Certo dia, Afonso Arinos de Melo Franco e Anah almoçaram ali, "que ele arranjara carinhosamente, um pouco ao jeito de uma casa rural de Lorena."E ouviram da sua boca longos poemas... ³
O escritor francês vivia apenas na companhia da sua família. Visitantes, raros; visitas ao Rio de Janeiro, ou Belo Horizonte, menos ainda. O cidadão curtia a vergonha da desordem do mundo, com apelos quase desesperados para transformá-lo. 
Mas guardava a intimidade daquele lar rústico, camponês mesmo, na comunhão da Fé e da Terra. Nos últimos dias de permanência no Brasil, escrevia:
“Felizmente nossa casinha acha-se longe dessas agitações políticas, sobre uma colina solitária, como se ela tivesse vindo pousar naquele ponto, uma noite por acaso, depois de uma longa viagem aérea, esperando abrir as asas e retomar o voo àquela hora da madrugada em que os grandes eucaliptos fremem, antes de enrubescer até o cimo, ao levantar do sol.”
A vida era monotonamente simples, para alegria de solitário Zaratustra ⁴ humano, demasiado humano, apesar de também peregrino do absoluto:
“Cada manhã, ao levantar, logo depois do café, o meu bom cavalo Osvaldo me esperava na porta. Como o frade ao seu ministério; como o soldado ao exército, ou mais exatamente, como o empregado ao escritório, íamos nós — um levando o outro — até a cidade, para de lá voltar ao meio-dia com o único fim de nos dar o prazer de retornar às três horas e não vir para a casa senão à noite — a noite seca, fria e penetrante de inverno ou essas admiráveis noites de verão; essas noites quentes de perfume selvagem como o flanco de uma fera.”
Depois de meditar e escrever em bares pobres, no meio da algazarra que o unia ainda mais à Vida, retornava na mesma cavalgada de silêncio.
“Caros amigos: se algum de vós passar um dia por Barbacena e quiser se lembrar de mim, lance um olhar sobre esse café minúsculo e reflita que eu ali fiz a experiência de quase todas as formas de solidão; ali me achei muitas vezes — ali à beira da calçada, no vaivém dos transeuntes — só — sim, tão só! Como o meu país.” ⁵
O itinerário fora longo. 
Georges Bernanos nasceu e morreu em Paris, antes e logo após os dois conflitos mundiais. Esteve no Brasil de 1938 a 1945, em seguida a apenas onze dias no Paraguai. Entre nós habitou, de início, no Rio de Janeiro, Itaipava, Juiz de Fora, Vassouras, Pirapora, Belo Horizonte e Barbacena, onde se fixou durante quatro anos. Em Vassouras, escreveu Nous autres Français; em Pirapora, na fazenda Santo Antônio, perto do rio São Francisco, redigiu Les enfants humiliés e completou Monsieur Ouine; finalmente, no último pouso, Lettre aux Anglais, Le Chemin de la Croix-des-Âmes, Écrits de Combat e La France contre les Robots; ampla bibliografia de ensaios, nela se destacando um romance. 
E ao relê-los, nos dias atuais, não se pode reprimir o protesto que Bernanos tenha sido, com frequência, apresentado como pequeno-burguês neurótico, ele que escrevera La grande Peur des bien Pensants. Daí se ter tornado tão pouco lido e sua casa ainda menos visitada... 
A nós, brasileiros, o escritor que repelia os dois extremismos máximos da Guerra Civil espanhola, em Les grands Cimétières sous la Lune, interessa em particular, pois raros os estrangeiros que tanto sentiram e sofreram o Brasil. No seu "Salut au Brésil" ⁶, com entusiasmo exclamava, naquele seu tom mais oratório que retórico, porque espontâneo e límpido:
“Do alto de nossa pequena colina da Cruz das Almas, vemos, há semanas, fundirem-se, pouco a pouco, nossos maus caminhos, como manteiga numa panela queimante. A graciosa cidade branca, a meia légua, parece tão perto, porém nenhum carro ousaria arriscar-se até nós e os próprios cavalos percorrem, com desconfiança, esta estrada arrasada que deslisa, pouco a pouco, sobre sua inclinação mesma.” 
E, entendendo, ao mesmo tempo que denunciava, concluía, num ímpeto de amargor e solidariedade:
“O trabalho da terra foi reservado aqui — pelo menos em parte — desde longo tempo, aos escravos. Claro, que não tenho qualquer título para dirigir-me aos intelectuais brasileiros, senão, talvez, a profunda gratidão que lhes devo, pelo generoso, magnífico acolhimento, que quiseram por bem dar ao meu livro, escrito no exílio...”
Mas, em seguida, numa advertência com frequência pouco do agrado dos bem pensantes de qualquer tipo:
“Que eles me permitam, contudo, uni-los hoje, no meu pensamento, a estes homens obscuros, cuja missão não é garantir a Liberdade, e sim assegurar à sua Miséria um bem ainda mais precioso, a Consciência da Liberdade. Pois não é a Servidão que faz os escravos, é a aceitação da Servidão. E há algo pior que a aceitação da Servidão: a ela conformar sua vida, a ponto de nela se achar à vontade e, enfim — ignorá-la.” (grifo nosso)
A bela paisagem montanhesa não o hipnotizava. Nem o induzia a esquecer a tragédia do mundo, naquele momento culminando na dominação fascista da França:
“Foi no sertão que tomei conhecimento da Queda de Paris. A tarde já empalidecia, o sol vermelho do curral entrava na pobre casa, com o voo dos primeiros morcegos. A floresta imensa, a floresta anã e disforme, torturada pela sede, estendia-se ao Infinito em torno dos nossos muros de argila. Lá estávamos sós, verdadeiramente sós, sós como mortos, enquanto a horrenda voz nasal de uma estação de rádio, alimentada por uma bateria fora de uso, anunciava-nos que a bandeira alemã flutuava sobre Notre-Dame... Tenho o direito de escrever que o Povo brasileiro odeia a Servidão, pois, desde a primeira notícia do desastre, eu o vi odiar a nossa...” ⁷ (grifo nosso)
Por que não se evoca este Bernanos, também o profeta contra a mecanicista tecnização do Homem, o mesmo que insistia na repulsa às condições degradantes dos trabalhadores rurais, ao seu redor? O Bernanos que bradava, no prefácio à Lettre aux Anglais, em 15 de janeiro de 1942:
“O Brasil não é, para mim, o hotel suntuoso, quase anônimo, onde depositei minha valise, esperando retomar o oceano e regressar à minha terra: é meu lar, é minha casa...”
O povo brasileiro, mais do que as suas elites, tornou-se a fonte de inspiração de Bernanos, vez por outra, saindo de casa para escrever numa taberna de beira de estrada de Barbacena, melhor do que se estivesse numa confeitaria carioca ou num café parisiense.
“Foram vossos camponeses que me fizeram compreender vossos intelectuais — eis a verdade. Compreendi que vossos intelectuais se serviam da nossa cultura contra uma certa concepção da vida, que vosso povo repele instintivamente... Vossos intelectuais se servem da nossa cultura, porque ela é, para eles, o instrumento mais apropriado à defesa comum; porém é do fundo popular que têm o sentimento quase psíquico do perigo corrido, a vontade de vencê-lo.” (grifo nosso)
Diante até mesmo dos brasileiros impacientes em compadecerem-se com o suposto Paraíso europeu perdido pelos ancestrais imigrantes, Bernanos respondia:
“A terra do meu país é uma terra amiga do homem. A vossa não é vossa inimiga, certamente, mas ela vos ignora; estais sós diante dela, sem aldeias, sem vizinhos, com vossas pobres famílias. Aqui, o homem conquista a terra selvagem pelas suas próprias forças, as mãos nuas.Que isto faça rir os mercadores de quinquilharia mecânica, bem o espero. Eles não rirão sempre. 
Pois é assim que se formam os grandes povos, os povos livres; é assim que todas as forças e toda a paciência da terra passam aos músculos e corações dos homens. Assim o ritmo de vosso esforço não é o mesmo daquele nosso, ou melhor, vosso esforço guardou um ritmo que o nosso perdeu. Assim podeis sofrer e durar, lá, onde qualquer outro, além de vós, esgotaria em pouco tempo sua coragem. Porém este segredo de vossa força é também o de vossa incomparável resignação.” (grifo nosso)
Após todas as dificuldades, "tereis dado ao mundo um tesouro mil vezes mais precioso que as pastagens e os vergéis, ter-lhe-eis dado um povo livre, formado para a Liberdade." (grifo nosso)
No Sítio de Cruz das Almas, que ele traduzia para Croix-des-Âmes, com ressonâncias ao mesmo tempo tão brasileiras e francesas, Bernanos passou quase cinco anos, repensando o que sentira nas cidades e nos campos, na Serra ou no vale do São Francisco, sobre o seu e o nosso país. Desde agosto de 1940 a junho de 1945, tempos de meditação e participação, analisando e escrevendo sobre o drama do vizinho e a tragédia do mundo, a paz dos arredores e a guerra distante. O pensador católico, escrevendo em ficção e não só ensaio, é o panfletário da Resistência, publicando nos jornais franceses clandestinos ou que, no exílio, desabrochavam no trópico mineiro. Ali Georges Bernanos amadureceu tanto a reflexão quanto o estilo. 
Os brasileiros ajudaram-no com desafios e até injustiças, não apenas com apoio e amizade. 
Parecia insólito um escritor católico que não fosse beato. Catolicismo tinha um sentido tradicional, conservador, querendo justificar seus Antiliberalismo e Anti-Socialismo como respostas ao anticlericalismo. Para Bernanos, estes problemas não existiam. 
Daí que, logo à sua chegada, ouviu-se o protesto. Guilherme Auler — historiador depois diretor do Museu Imperial de Petrópolis, membro do grupo Fronteiras que reunia a fina flor monárquica, à direita do próprio Fascismo — apresentou-se como porta-voz. Escreveu dois violentos artigos de recepção ao auto-exilado. 
No primeiro, começava indagando-se:
“Por que Georges Bernanos, escritor de relativa fama, abandona a França, a Europa enfim, para vir residir no Brasil? Motivo de simpatia intelectual com os brasileiros é argumento de caça-níqueis. Bernanos é um difamador e um espião comunista (sic). Não são palavras nossas. É o arcebispo de Majorca, Dom José Miralles Sbert, quem o afirma publicamente em documento irrespondível.” ⁸
Pois, em julho Bernanos atacara Franco e o clero que o apoiava, na revista New Statesman. O prelado respondeu-lhe, no mês seguinte, pelas páginas de America, ambas nos Estados Unidos. O fiel, que assistira na Espanha às violências em nome de Cristo contra os anticristãos, desentendia-se com o conivente hierarca. 
Não deixando o ódio esfriar, Auler logo voltou à carga, contra o autor de Les grands Cimetières sous la Lune, "um nojento livro" (sic). E arrolava a lista de adversários católicos de Bernanos. ⁹
Na realidade, insultando-o em fins de 1938 e princípios de 1939, Auler e asseclas brasileiros uniam-se aos nazi-fascistas dedicados a tarefas idênticas. Entre eles Karl Epting, lançando anátemas contra Bernanos de Berlim, em pleno auge do conflito mundial logo em seguida. ¹⁰
Os tempos depois mudariam. À calúnia seguir-se-ia o silêncio dos bem pensantes, ironizados por Georges Bernanos em livro que marcou época. Bem pensantes a serviço ora dum ora doutro extremismo, que os desobriguem de distinguir, que é a substância do pensamento. 
Enquanto isto, Bernanos meditava na noite tropical. Em carta publicaada no jornal parisiense Le Figaro, em 27 de dezembro de 1942, escrevia do Rio de Janeiro:
“Este país, esta cidade, não se podem crer. Esta cidade tão bela, tão prodigiosamente bela, tão bela e tão humilde. Tem o ar de deitar-se a vossos pés, com suas jóias, seus perfumes e seu olhar de inocência e a docilidade dos animais. O ar é uma doçura selvagem. E agora, graças ao Céu, estou como um velho guerreiro, curtido pela guerra, no meio de crianças.” ¹¹
E, de Pirapora, no sertão do Alto São Francisco:
“Estranho país! À primeira vista se é fortemente tentado de retomar o trem e fugir. Depois, acostuma-se pouco a pouco, e creio que se termina por amá-lo. O horizonte assemelha-se ao de certas províncias francesas, colinas bastante parecidas com as de Tours... Quanto à cidade, é uma autêntica aldeia de desbravamento, muito cinematográfica, com casas em construção por toda parte, uma desordem surpreendente.” ¹²
Para ver melhor e não esquecer, ao contrário do que dizem alguns críticos. Bernanos internara-se na distante fazenda Santo Antônio, de Virgílio de Melo Franco, "companheiro ideal" na definição do seu irmão Afonso Arinos de Melo Franco, cercado durante oito meses por imensos rebanhos, no cerrado a perder de vista. Virara feitor de animais, já não quisera ser de homens, a serviço de ideologias totalitárias. Daquela distância remota, podia entender, na plenitude, a grandeza da tragédia humana em sua Europa nativa e do próprio Brasil dos campos, ignorados pela sofisticação urbana dos intelectuais seus amigos. 
Pouco a pouco o velho leão — "grande, gordo, moreno como um cigano, os bigodes bastos e a juba leonina", "aleijado de uma perna", com "aspecto rebarbativo" se não fossem "os olhos rasgados e azuis, olhos puros de criança, que pareciam sempre à espera do prêmio ou do castigo", no retrato vivido por Afonso Arinos de Melo Franco ¹³ — o sofrido leão foi aceitando aproximar-se dos católicos brasileiros. 
Alceu Amoroso Lima começaria falando em Maritain, quando o que o aproximava de Bernanos era a evocação da morte de um amigo desconhecido. ¹⁴ Jorge de Lima perturbava-lhe a paz, pedindo-lhe que intercedesse por votos na sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, para decepção de Bernanos. ¹⁵ As comparações dele com Léon Bloy também o desagradavam, apesar do que supunham os críticos. ¹⁶
E quando Georges Bernanos teve de retornar à França, atendendo a apelo pessoal do General De Gaulle, precisou vender seu único bem ¹⁷, aquela casinha de Barbacena, quase no fim da Mantiqueira, quando a Serra principia a descer na direção do mar. 
De volta a Paris, escrevia a Virgílio de Melo Franco solicitando assinaturas do Correio da Manhã, então o mais prestigioso jornal carioca, pedindo a Deus para não morrer sem rever o Corcovado no horizonte... ¹⁸ E, a Fernando Carneiro, mal comparava sua nova casa, perdida nas montanhas francesas, sem água nem eletricidade, quase sem vidros, com a que construíra e deixara sob trópicos que acabaram sendo tão acolhedores. ¹⁹
E, perto de morrer, já em 1948, escrevendo do interior da Tunísia para onde fugira na busca de um rude sertão mais próximo da França, dizia a Georges Duhamel, companheiro de glória literária e sem conexões lisonjeantes com o além-mar, quanto sofria por ter abandonado Cruz-das-Almas: "Como lamento ter deixado o Brasil! Se ainda estivesse lá, teria pelo menos a certeza de ser útil ao meu país." Era a possibilidade de trabalhar com dominicanos franceses e intelectuais brasileiros familiarizados com Bloy e Péguy. ²⁰
Perto de morrer, voltaram-lhe as lembranças dos amigos fiéis: Alceu Amoroso Lima, Virgílio e Afonso Arinos de Melo Franco, Pedro Octavio Carneiro da Cunha, Carlos Chagas Filho, Jorge de Lima, Edgar da Mata Machado, Augusto Frederico Schmidt, Fernando Carneiro, Álvaro Lins, Raul Fernandes, Oswaldo Aranha, Otto Lara Resende, Murilo Mendes, Assis Chateaubriand, Dario de Almeida Magalhães, Austregésilo de Athayde e Miguel Osório de Almeida, para lembrar só alguns dos privilegiados pelo seu convívio. 
No Brasil, Bernanos pensara ter vindo curtir sua vergonha pelo descalabro europeu, que levaria à II Guerra Mundial, porém aqui reencontraria seu orgulho e "foi este povo que mo devolveu." ²¹
As ruínas de que ele fugia eram, de resto, mais as invisíveis do que as visíveis, as de um mundo que desabara mais dentro dele do que em torno. Assim como os sentimentos que o levaram a evadir-se eram os de nojo e cólera; não os do interesse ou do temor. 
Nas páginas também escritas no Brasil continuaria ressoando, para sempre, sua voz:
“Aquela voz apaixonada ressuscitava bravuras extintas, coragens de outras eras, teimosamente, como quem recusava nivelar-se ao morno conformismo das derrotas...” ²²
Georges Benanos descobrira, nos intelectuais encontrados nas ruas do Rio de Janeiro e principalmente nos camponeses perdidos pelos sertões, a certeza da universalidade do drama humano, em carne viva na Espanha dilacerada por uma Guerra Civil, prelúdio doutra mundial, anúncios do fim de um mundo insensato. A cujo naufrágio e redenção é preciso enfrentar com coragem e esperança. 
Daí a validade das últimas palavras de Bernanos em nosso país, dirigidas à juventude:
“Moços e moças do Brasil, o que hoje vos escrevo é tudo o que vos deixarei de mim e, quando vos lembrardes do velho escritor de Cruz das Almas, dentro de vinte anos, de trinta anos — se vossa memória, por um impossível, me for fiel até então — estas palavras, desde muito esquecidas, é que se levantarão talvez, a despeito de vós mesmos, das profundezas de vossa consciência. 
Moços e moças, escutai-me bem, eis a minha última mensagem. A Liberdade não deve apenas ser amada, a Liberdade pouco se incomoda, atualmente de ser amada, ela deve ser salva, ela exige a sua salvação. Jovens amigos meus, é antes de tudo em vós mesmos, e em vossos espíritos, que salvareis a Liberdade. A Liberdade vos impõe uma clarividência heróica de que seríeis certamente dispensados numa sociedade digna desse nome. Se a exigência é de algum modo inumana, a culpa é de uma sociedade inumana. Pois, as místicas sanguinárias do Nacionalismo, do Racismo e do Partido substituíram as fidelidades tradicionais, as fidelidades humanas da Família e da Pátria, a obediência absoluta, totalitária, a idolatria do Estado ou do Partido. ²³  (grifo nosso)
Atentai para que essas opiniões e esses credos não sejam senão fórmulas de segurança. Católicos, vós vos assegurais contra os riscos do inferno. Socialistas, contra os riscos desse outro inferno, não menos cruel e inflexível, que se chama o determinismo econômico. Comunistas, contra o Fascismo. Fascistas, contra o Comunismo. 
Por que haveis de vos assegurar contra o amanhã? O amanhã, sois vós!” ²⁴
Mais que um francês, um escritor de todos os tempos falava não só à juventude brasileira, aos moços e moças de todas as épocas.
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹ Nota do gerente do Blog: Miguel de Unamuno(1864-1936) foi um ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo espanhol católico, cuja obra é frequentemente estudada em conjunto com a de Bernanos por tratarem ambos os autores, na literatura comparada católica ou existencial, de temas ligados à angústia espiritual, a fé agoniada e o sentimento trágico da vida.
² Carta ao Coronel X, Rio de Janeiro, abril, 1945, in Correspondance, recolhida por Albert Béguin e escolhida e apresentada pela Irmã Jean Murray O. P., Paris: Plon, tomo II, 1934-1948, 1971, p. 561.
³ A Alma do Tempo (Memórias: Formação e Mocidade) por Afonso Arinos de Melo Franco, Rio de Janeiro: Livr. J. Olympio Edit., 1961, p. 384. 
⁴ Nota do gerente do Blog: Zaratustra (também conhecido como Zoroastro) foi um antigo profeta e reformador religioso persa que fundou o zoroastrismo, uma religião seguida pelos Aquemênidas e uma das religiões monoteístas mais antigas da história humana.
Sua existência real é objeto de debates entre historiadores, mas sua figura moldou profundamente a espiritualidade do Oriente Médio Antigo e, séculos mais tarde, inspirou a filosofia ocidental. 
Entre seus principais ensinamentos, estão os seguintes resumidamente:
- Deus Supremo: Há um único deus criador, Ahura Mazda (o "Senhor da Sabedoria"), que representa a luz, a verdade e a ordem cósmica;
- Dualismo ético: O zoroastrismo apresenta o universo como um campo de batalha entre o bem (representado por Ahura Mazda) e o mal (representado por Angra Mainyu ou Ahriman)
- Livre arbítrio: Para Zaratustra, os seres humanos possuem a liberdade de escolher entre o caminho da verdade (Asha) e o da falsidade/caos (Druj), sendo responsáveis por suas escolhas morais.
O pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) usou o nome do profeta na famosa obra Assim Falava Zaratustra (1883). No livro, Nietzsche utiliza Zaratustra como um alter ego fictício para proclamar o niilismo, a "morte de Deus", a chegada do Além-do-homem ou Super-homem (Übermensch) e o anúncio da crise dos valores do Ocidente (a transvaloração dos valores tradicionais). O eterno retorno é outro conceito central do livro, segundo o qual toda a existência se repetiria infinitamente.
⁵ "A Liberdade não deve apenas ser amada II", Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1945. E noutros Diários Associados. 
⁶ Nota do gerente do Blog: Não se trata de um poema, nem de um livro independente; trata-se na realidade, de um artigo ou texto de combate (ensaio/crônica) escrito em janeiro de 1943.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Bernanos exilou-se no Brasil, de onde escreveu diversos textos de resistência e de reflexão política. Esse texto específico foi posteriormente compilado e publicado em suas coleções de escritos de guerra e correspondências, notadamente na obra póstuma Le Chemin de la Croix-des-Âmes.  
⁷ Lettre aux Anglais, Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 1942, pp. IV, V, I, VII e IX-XI. 
⁸ "O indesejável 'Monsieur' Bernanos. Um novo embaixador dos soviets?", Fronteiras, Recife, ano VII, nº 10, outubro, 1938. Curiosamente, um ano antes, quando as posições, de Bernanos contra Franco na Guerra civil espanhola, eram menos notórias, a mesma revista Fronteiras publicava uma recensão de João Vasconcelos, favorável à Nouvelle Histoire de Mouchette ano VI, nº 28, setembro de 1937). Ainda Fronteiras promoveria violenta campanha contra Jacques Maritain, por conta de idênticos motivos, sendo então ecoada por muitos outros setores.
⁹ Ainda "O indesejável 'Monsieur' Bernanos", Fronteiras, Recife, ano VIII, nº 2, fevereiro, 1939. 
Pode ser um paradoxo, mas o certo é que Bernanos admirava o Conde de Paris, herdeiro do Trono da França, então muito em evidência, conforme se vê na sua carta a René Prouvot, em 9 de julho de 1939, in Correspondance, ob. cit., p. 255. Os monarquistas brasileiros ignoravam-no...
¹⁰ "Georges Bernanos", Frankreich in Widerspruch, Hamburgo, Hanseatische Verlargsanstalt, 1943, p. 65. 
¹¹ Carta recohida por André Rousseaux, inCorrespondance, ob. cit., p. 225. 
¹²  Carta a René Prouvot, em 5 de julho de 1939, in idem, pp. 254 e 255.
¹³ Melo Franco, ob. cit., p. 384. 
¹⁴ Carta a Amoso Lima, em 26 de setembro de 1938, in Correspondance, ob. cit., p. 227. 
¹⁵ Carta a Jorge de Lima, em 5 de janeiro de 1945, ob. cit., pp. 557 e 558. 
¹⁶ Carta novamente a Jorge de Lima, idem, pp. 558 e 559. 
¹⁷ Carta ao Coronel X, ibidem, pp. 551 e 552. 
¹⁸ Carta a V. Melo Franco, em 24 de dezembro de 1945, ibidem, pp. 594 e 595. 
¹⁹ Carta a F. Carneiro na mesma data, ibidem, p. 593. 
²⁰Carta a G. Duhamel, 15 de março de 1948, ibidem, p. 751. 
²¹ Lettre aux Anglais, ob. cit., p. I.
²² Alma do Tempo, ob. cit., pp. 384 e 385. 
²³ "A Liberdade não deve apenas ser amada!", Diário de Pernambuco ( e todos os Diários Associados), 10 de junho de 1945. 
²⁴ Idem, nº II, 13 de junho de 1945, ob. cit.
Ficou um registro sinótico dos amigos brasileiros de Georges Bernanos in Bernanos no Brasil, ed. por Hubert Sarrazin, com depoimentos de Jorge de Lima et alii, Petrópolis, Vozes, 1968. 
O Humanismo Brasileiro por Vamireh Chacon (272 p.)

* Vamireh Chacon foi um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros. Nascido no Recife, Pernambuco, dedicou sua vida ao estudo profundo da identidade nacional, da história política e das ideias sociais do Brasil. Sua formação acadêmica incluiu: graduado simultaneamente em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco e em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (FDR) em 1956. Concluiu seu doutorado em Direito também pela FDR em 1959. Obteve pós-doutorado pela Universidade de Chicago, nos EUA em 1960, tendo no mesmo ano concluído o ciclo de pesquisa focada na área de Sociologia do Desenvolvimento. Retornando ao Brasil, obteve o título de livre-docente na FDR. Posteriormente, realizou estudos de Sociologia na Alemanha, onde morou por cerca de quatro anos. Foi na UnB que consolidou grande parte de sua carreira, tornando-se Professor Emérito, tendo atuado como chefe do Departamento de Ciência Política e Decano de Extensão. Publicou mais de 30 livros ao longo de sua vida. Sua obra é caracterizada pela análise da formação da sociedade brasileira, com forte influência da Escola do Recife e do pensamento de Gilberto Freyre. Chacon era considerado um defensor do "iberismo brasileiro", analisando as raízes culturais ibéricas do Brasil em diálogo com a modernidade universal. Membro titular e fundador da Academia Brasileira de Filosofia (cadeira nº 39) e membro da Academia Pernambucana de Letras, Chacon recebeu as maiores honrarias das letras nacionais. Em 2014, foi o grande vencedor do Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto de sua obra. A cooperação intelectual de Vamireh Chacon com o Senado e com os órgãos de editoração do parlamento remonta à década de 1970 e passando pela publicação de suas grandes obras oficiais nos anos 1990. Sua atuação como servidor em comissão do ILB encerrou-se em março de 2019. 

5 comentários:

  1. Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

    Prezad@,
    VAMIREH CHACON brilhou como um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros. 
    Tive a oportunidade de privar da amizade de Vamireh Chacon, um assíduo frequentador da Biblioteca do Senado Federal e funcionário do ILB-Instituto Legislativo Brasileiro (que goza de status de escola de governo do Legislativo, através das plataformas Saberes e Interleges), enquanto eu exercia o cargo de Consultor Legislativo. Mais tarde, mantivemos profícua correspondência e tive a honra de acolher seus comentários a muitas matérias de meus dois blogs.
    Neste post, apreciaremos o ensaio desse grande jurista e cientista político sobre a estada de GEORGES BERNANOS em Barbacena (de agosto de 1940 a junho de 1945), enriquecida pela pesquisa de Chacon na correspondência do pensador católico francês e no testemunho de vários de seus amigos no Brasil.

    Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/09/bernanos-em-barbacena.html

    Cordial abraço,
    Francisco Braga
    Gerente do Blog de São João del-Rei


quarta-feira, 23 de julho de 2025

A TEORIA DA MINEIRIDADE - BENÍCIO MEDEIROS (Blog de São João Del-Rei, de Francisco Braga)

 A Mineiridade e outras manias...

Não sou muito afeto a essas manias de peculiaridades regionais: "Ah, o carioca é assim, sempre chiando; o paulista insiste no "né"; o gaúcho tem aquelas manias farroupilhas; o baiano é isso mais aquilo; o pernambuco sabe se lá o quê. Acho tudo isso muito subjetivo. Mas não deixo de apreciar a boa literatura, como esta que fala de Otto Lara Resende e a Mineiridade.
Mineiridade, o que seria isso? Vamos ver... PRA

A TEORIA DA MINEIRIDADE
Por BENÍCIO MEDEIROS *
Blog de São João Del-Rei, de Francisco Braga
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domingo, 20 de julho de 2025

A TEORIA DA MINEIRIDADE
Por BENÍCIO MEDEIROS *
Blogdomingo, 20 de julho de 2025

"O mineiro é velhíssimo, é um ser reflexivo, com segundos propósitos e enrolada natureza."
João Guimarães Rosa

Otto Lara Resende (✰ São João del-Rei, 1º/05/1922 ✞ Rio de Janeiro, 28/12/1992) ocupou a cadeira nº 39 da Academia Brasileira de Letras.

Minas assumiu o poder com a Revolução de 30. Não o poder político. O poder cultural. Embora o movimento tenha sido liderado pelos gaúchos, com Getúlio Vargas à frente, coube a um mineiro, Gustavo Capanema, dirigir a política educacional e cultural do governo Vargas, na qualidade de ministro da Educação e Saúde Pública.


Muito já se falou da luminosa passagem de Capanema pelo MES. Decerto favorecido pela ditadura estadonovista, que tornou de fato efetiva a carta-branca a ele conferida por Getúlio, Capanema, durante a sua gestão, promoveu a sua revolução particular, espanando, com extraordinário vigor, o empoeirado universo cultural da época.

Com o poder que lhe foi delegado, ele introduziu nos sistemas oficiais conceitos e pontos-de-vista ao gosto dos modernistas de 22 que não haviam no entanto, àquela altura, merecido o crédito da sociedade e, menos ainda, das chamadas autoridades constituídas. O Brasil, culturalmente falando, era ainda um país tacanho, dos saraus pseudoliterários e das conferências meloparnasianas, comandado, esteticamente, pelos cânones mais retrógrados das beaux arts.

Mineiro, Capanema cercou-se de mineiros. Pôs como seu chefe de gabinete Carlos Drummond de Andrade (como o ministro, de uma geração anterior à de Otto ¹), o que por si só equivalia a uma tomada de posição. O poeta, tido como comunista, não era benquisto pela nata da sociedade conservadora, incluindo-se aí os velhos mandarins dos círculos literários oficiais e os representantes da direita católica.

Eram conhecidas, por exemplo, as diferenças entre o poeta de Claro Enigma e o crítico Alceu Amoroso Lima ². Em março de 1936, Drummond recusou-se a assistir a uma conferência de Alceu, "A educação e o comunismo", no MES. Por causa disso, o poeta-funcionário-público se viu obrigado a por o cargo à disposição do ministro, que, no entanto, desconsiderou sua atitude.

O episódio pode parecer estranho à luz da atualidade. Mas fazia parte da guerra ideológica que se travava no período. Cruzado e patrulheiro da causa do catolicismo, embora com os anos tenha arrefecido sua posição no que esta tinha de mais intolerante, Alceu Amoroso Lima foi, na mesma época, o responsável pela demissão do cronista Rubem Braga do Diário da Noite, de Assis Chateaubriand. Irreverente e anticlerical, Braga escreveu, num momento infeliz, que a Igreja espanhola "não passava de uma pinóia". Só por causa disso Alceu, indignado, pediu a cabeça do jornalista. Chateaubriand a concedeu.

Outro mineiro ilustre no MES foi o jovem advogado, escritor e jornalista Rodrigo Melo Franco de Andrade. Para não fugir à regra da tradição da sua terra, tinha publicado um livro de contos tristes, Velórios, do qual aliás não gostava. Rodrigo foi o criador, em 1937, do antigo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (hoje Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN), voltado, pioneiramente, para a preservação do patrimônio cultural brasileiro.

A perspectiva do MES era a de reconhecer e identificar os valores notáveis do nosso passado, através do SPHAN, e, ao mesmo tempo, projetá-los ao futuro, a partir do reconhecimento de certas propostas da vanguarda que ainda causavam ojeriza tanto ao senso comum como às elites renitentes. Algumas das cabeças mais brilhantes da época se associaram a essa tarefa de redescobrir, com novos olhos, o passado cultural brasileiro.

Mário de Andrade, por exemplo, foi um colaborador incansável de Rodrigo desde os primeiros tempos, tendo redigido o anteprojeto de criação do SPHAN e, mais tarde, como um caçador de relíquias, saído pessoalmente à cata de dados pelo país, particularmente o interior de São Paulo, que enriqueceriam o repertório conceitual da instituição e engrossariam as suas primeiras listas de bens tombados.

Mário de Andrade se tornaria uma espécie de mentor e orientador intelectual do grupo de mineiros de que Otto Lara Resende fazia parte. De espírito aberto e extrovertido, entusiasta dos esforços literários da juventude, o autor de Macunaíma, a partir da sua obra e de suas passagens por Belo Horizonte, influenciaria de forma decisiva a carreira de Otto e de seus amigos, que, durante anos, mantiveram correspondência com o escritor, já então consagrado.

O MES, ou melhor, Gustavo Capanema, acolheu e prestigiou artistas que encontrariam, naquela época, pouco espaço de atuação fora do abrigo da estruturas oficiais. Encomendou painéis ao incompreendido Portinari. Esculturas aos malditos Celso Antônio, Bruno Giorgi e Lipchitz, cujo talhe moderno incomodava a muitos. E até um edifício inteiro, a superenvidraçada sede do MES, a um grupo de arquitetos liderados por Lúcio Costa, achando-se entre estes um jovem especialmente talentoso, porém ainda desconhecido: Oscar Niemeyer.

Tanto Lúcio Costa como Niemeyer — conduzidos logo depois, pelas mãos de Juscelino Kubitschek, a Belo Horizonte — teriam papel destacado no sentido de arejar um pouco a então fechada, e mesmo opressiva, sociedade mineira. Por volta de 1940, no entanto, os jovens mais esclarecidos de Belo Horizonte, entre os quais Otto Lara Resende, só tinham olhos para a guerra na Europa. E, apesar dos feitos vanguardistas do conterrâneo Capanema na Capital Federal, todos detestavam Getúlio.

Mais de uma vez, Otto Lara Resende valendo-se, em geral, de opiniões alheias pautadas no determinismo geográfico, descreveu o mineiro como um ser à parte no contexto das psicologias regionais. Se o brasileiro do litoral, por exemplo, tendia à comunicabilidade e à extroversão, o homem da montanha era, em geral, um ser reservado, desconfiado e muito cioso do seu universo individual.

Num artigo sobre Carlos Drummond de Andrade "O mel oculto, o áspero minério", na tentativa de explicar a personalidade do poeta, Otto se refere a um texto de Guimarães Rosa sobre o "enigma mineiro" (expressão de Otto). Nele, ao seu estilo, o autor de Tutameia arrola algumas características que lhe pareciam fundamentais do montanhês:

“Seu gosto do dinheiro em abstrato. Sua desconfiança e cautela. Sua honesta astúcia meandrosa, de regato serrano, de mestres na resistência passiva. Seu vezo inibido, de homens aprisionados nas manhãs nebulosas e noites nevoentas de cidades tristes, entre a religião e a regra coletiva, austeras, homens de alma encapotada, posto que urbanos e polidos.”
A opinião de Drummond não é muito diferente:
“O Estado mais tipicamente conservador da União abriga o espírito mais livre. Sua aparente docilidade esconde reservas de insubmissão, às vezes convertida em ironia, e de algum modo chocada na pachorra de esperar, que tanto ilude o observador apressado, incapaz de perceber a chama latente do borralho. As revoluções liberais em Minas ilustram isso.”
A teoria da mineiridade explicaria em parte, assim, a Inconfidência e outros episódios históricos. A ironia e a dicotomia de espírito a que se refere Drummond estariam também na base do extenso anedotário envolvendo alguns políticos mineiros ilustres, de Benedito Valadares a José Maria Alkmin e Tancredo Neves. Valadares foi o interventor escolhido por Getúlio para governar Minas no Estado Novo. A notícia da sua nomeação causou surpresa à própria mãe, que não confiaria muito nos dotes intelectuais do filho. "Mas será o Benedito?" ³ — teria ela exclamado, introduzindo assim no repertório popular uma nova interjeição.
Outra anedota envolvendo Benedito Valares versa sobre um discurso que o político teria feito numa cidade do interior de Minas, conhecida pelo cultivo de uma fibra vegetal chamada pita. Começava assim: "Nesta região, onde a pita abunda..." Percebendo o cacófato, ele voltou atrás, tentou corrigir, mas a emenda saiu pior que o soneto: "Nesta região, onde abunda a pita..."

A julgar até pela sua frase mais famosa, Otto Lara Resende, apesar da fidelidade às suas raízes, não cultivava bairrismo em relação a Minas. Disse ele:

“O fato de Minas produzir muito escritor e muito banqueiro tem certamente a mesma explicação pela ecologia e pela sociologia. Mineiro é o povo que se deixa cortar o pescoço para não pagar imposto, porque não acredita no Estado. A própria formação de Minas, com aquelas levas de aventureiros de diferentes etnias que procuravam vender pastéis e miçangas aos arruinados do ouro, determinou uma economia de reflexos fechados, à base do pé-de-meia individual.”
A mudança de eixo no poder, com a consequente abolição da "política do café-com-leite", pela Revolução de 30, gerou certamente, entre os mineiros, ressentimentos e preconceitos em relação ao governo central. Essa sensação de esvaziamento explicaria, em certa medida, o horror que Getúlio Vargas despertava em Minas, ao qual Otto e o seu grupo não eram indiferentes. Anos depois, já entendendo melhor os complicados meandros da política nacional, o escritor mudaria de ideia.
Como jovem repórter, já no Rio, cobrindo a instalação da Constituinte de 1946 para O Globo, Otto Lara Resende teve a oportunidade de conhecer de perto Getúlio Vargas, então um ex-presidente retornando ao poder, dessa vez ao poder legislativo, na qualidade de senador dos mais votados. Essa entrevista renderia a Otto, mais tarde, algumas de suas melhores páginas.

Ele encontrou-se com Getúlio no apartamento deste, no Morro da Viúva. Em vez do repulsivo tirano da sua adolescência, deparou-se com um homem algo bonachão, às vezes mesmo meio tímido, disposto a ouvi-lo paternal e pacientemente, sempre com um atencioso sorriso nos lábios. Deu até espaço para que Otto, um mero foca ³, explicitasse todas as suas furibundas críticas acumuladas contra o Estado Novo. Depois disse: "Tu és ainda muito jovem e não sabes que um ditador não pode fazer tudo. Um dia saberás."

Curioso, anotou o repórter, é que o ex-presidente chamava-se a si próprio de "ditador", mesmo termo usado pela imprensa de oposição para ofendê-lo. Anos depois, anotaria o escritor maduro:

“A despeito de seu estilo caudilhesco, de sua formação pouco inclinada ao prestígio das instituições democráticas, é possível que a História venha um dia a reconhecer, sem paixão, que Getúlio Vargas foi um momento importante em nossa trajetória republicana.”
Nos tempos da juventude de Otto, no entanto, eram poucos os mineiros que pensavam assim.


* Jornalista e escritor, nasceu em Niterói-RJ em 1947 e faleceu no Rio de Janeiro em 11/10/2019. Estreou na imprensa em 1970 como repórter do jornal Última Hora. Trabalhou como editorialista no Jornal do Brasil, no Estado de S. Paulo; foi repórter e crítico literário da revista Veja, redator da revista Isto É, editor do Jornal da Globo e redator-chefe da revista Manchete. Também foi diretor de jornalismo da Academia Brasileira de Imprensa (ABI), editor da Revista do Livro da Biblioteca Nacional, tendo participado do conselho editorial da Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. É autor de “A poeira da Glória” (Relume Dumará, 1998), “Brilho e sombra” (Bem-Te-Vi, 2006), sobre a vida e obra de Otto Lara Resende, e “A rotativa parou” (Record, 2010), que relata a história do jornalista Samuel Wainer à frente do jornal Última Hora.


II. NOTA EXPLICATIVA do gerente do Blog


¹ Efetivamente, é da vida e obra de Otto Lara Resende que trata o livro "A Poeira da Glória" de Benício Medeiros, de cujo terceiro capítulo intitulado "A teoria da mineiridade", esse texto foi extraído.

² O célebre pensador e crítico literário brasileiro, Alceu Amoroso Lima, adotou o pseudônimo de Tristão de Athayde, ao se tornar crítico em O Jornal (1919).

³ Na gíria brasileira, "foca" significa jornalista novato, sem experiência.

⁴ Marcelo Duarte, in Guia dos Curiosos, dá a seguinte versão para o dito popular: "A expressão "Será o Benedito?" nasceu em 1933, quando o presidente Getúlio Vargas demorou muito para escolher o interventor de Minas Gerais. Todos temiam que ele escolhesse o pior candidato, Benedito Valadares. Por isso, a população se perguntava: "Será o Benedito?" E o Benedito foi o escolhido."


III. REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA


MEDEIROS, Benício: OTTO LARA RESENDE: a poeira da Glória, integrante da série “Perfis do Rio”. Rio de Janeiro: Ed. Relume Dumará: Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro, 1998, 141 p.

__________________: À SOMBRA DO CARAÇA, 2º capítulo do livro A POEIRA DA GLÓRIA, postado no Blog de São João del-Rei em 08/01/2025
Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2025/01/a-sombra-do-caraca.html
Postado por Francisco José dos Santos Braga às 17:01

segunda-feira, 21 de abril de 2025

Stefan Zweig e o país que não chegou ao futuro - Paulo Roberto de Almeida (blog São João del-Rei)

 Divulgando o que acabo de receber, aproveitando também para convidar todos os cariocas, fluminenses, assemelhados, passantes ao acaso, navegantes, turistas, curiosos, zweiguianos fanáticos, a prestigiarem o simpósio que se realizará na Biblioteca Nacional, em cooperação com a Embaixada da Áustria no Brasil, a ABL e a própria Casa Stefan Zweig de Petrópolis, na próxima sexta-feira 25/04, sobre o maior escritor austríaco (e um dos maiores do mundo), a propósito do livro que lhe é dedicado e com o qual colaborei.

A colaboração abaixo foi divulgada pelo blog São João del-Rei, por iniciativa do colega blogueiro, o intelectual Francisco Braga:


“Stefan Zweig e o país que não chegou ao futuro


Prezad@,

Tenho o prazer de apresentar ao leitor (à leitora) do Blog de São João del-Rei seu novo colaborador, Dr. PAULO ROBERTO DE ALMEIDA, diplomata e professor, entre outras especializações, que estreia com o artigo sobre o último livro de STEFAN ZWEIG, Brasil, um país do futuro.

O autor é um dos colaboradores de um livro lançado neste ano, intitulado Stefan Zweig no caleidoscópio do tempo. Aproveito a oportunidade para convidá-lo(la) para participar de um simpósio na Biblioteca Nacional na sexta-feira, dia 25/04/2025, em que será debatido o conteúdo do livro.


Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2025/04/stefan-zweig-e-o-pais-que-nao-chegou-ao.html


Cordial abraço,

Francisco Braga

Gerente do Blog de São João del-Rei”

terça-feira, 15 de abril de 2025

Stefan Zweig, pacifista, escreveu sobre Jean Jaurès, o socialista humanitário - via Francisco Braga (Gerente do Blog de São João del-Rei)

 Mensagem recebida de Francisco Braga, Gerente do Blog de São João del-Rei: 

Enquanto viveu JEAN JAURÈS, o socialista, o seu argumento a favor da paz prevaleceu sobre o antigermanismo francês e a pressão interna por uma declaração de guerra contra a Alemanha. Com o seu assassinato, a Alemanha formalizou as hostilidades contra a França. O antigermanismo francês foi uma das consequências da Guerra Franco-Prussiana (1870-71), em que, derrotada, a França foi obrigada a entregar aos vencedores as regiões de Alsácia e Lorena, região rica em minério de ferro, marco inicial da unificação alemã, sob o comando de Bismarck.
Neste seu ensaio, STEFAN ZWEIG dá uma interpretação muito pessoal para a causa que teria levado a Alemanha a declarar guerra à França, dando início à Primeira Guerra Mundial em 1914, embora soubesse das muitas outras questões geográficas e políticas envolvidas.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2025/04/jean-jaures-o-socialista.html


JEAN JAURÈS, o socialista


Por STEFAN ZWEIG (1881-1942)
A responsável pelo encontro não foi a vontade, mas a casualidade — designada miticamente como Destino. Viviam em mundos separados, seus países se encontrravam em rota de colisão, nada sugeria pontes, aproximação. Zweig viu-o uma vez na rua, num fim de tarde em Paris, e de outra vez, também na capital francesa, esteve ao seu lado algumas horas numa reunião em casa de amigos comuns (provavelmente o círculo do gravador Leon Bazalgette).
O convívio com o belga Émile Verhaeren convertera o esteta vienense Stefan Zweig num caçador de utopias e aquele tribuno que empolgava as multidões na França encarnava uma delas: o socialismo democrático e humanitário. Antes mesmo de fundar o jornal L'Humanité, Jean Jaurès (1859-1914) destacara-se como dreyfusard, militante do movimento pela reabilitação do capitão judeu Alfred Dreyfus.
Os marxistas ortodoxos entendiam que defender um militar burguês não era prioritário; Jaurès retrucava que Dreyfus fora vítima de uma tremenda injustiça e o papel dos socialistas era lutar contra todas as injustiças.
Quando a guerra parecia inevitável, conclamou os partidos socialistas europeus a colocarem-se a favor da paz porque operários, camponeses e mineiros são os principais fornecedores de carne para os canhões. “Construir escolas significa derrubar os muros das prisões”, proclamava nos comícios.
Contra Jaurès levantaram-se os conservadores, xenófobos, militaristas, monarquistas e clericais. Na noite de 31 de julho de 1914, depois de fechar a edição de L'Humanité, Jaurès foi ao bistrô Le Croissant, em Montmartre, e enquanto deleitava-se com uma torta de morangos foi assassinado com dois tiros por um nacionalista que considerava a guerra como a única solução para recuperar a querida Alsácia.
Na véspera do enterro de Jaurès, a Alemanha formalizou as hostilidades contra a França. Começara efetivamente a Grande Guerra (1914-18). Dois anos depois, 6 de agosto de 1916, integralmente comprometido com a causa pacífica, Zweig escreveu este perfil do “inimigo” Jean Jaurès no jornal Neue Freie Presse.                                                                                             Alberto Dines

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Corrigindo: sua primeira passagem pelo Brasil foi em 1936

Faz oito ou nove anos que, na rua St. Lazare, eu o vi pela primeira vez. Eram sete da noite, hora em que a estação negra como aço, com seu relógio brilhante, de um momento para o outro atrai a massa como se fosse um ímã. De uma só vez, as casas, os ateliês, as lojas vertem todos os seus ocupantes na rua, e todos, como um negro rio caudaloso, acorrem aos trens que os levarão para longe da cidade enfumaçada, para o campo. Acompanhado de um amigo, eu avançava devagar através da multidão abafada e pesada quando ele subitamente tocou o meu braço: “Olha, Jaurès!” Levantei os olhos, tarde demais para ver a silhueta do homem que passava. Vi apenas as costas largas como as de um carregador, os ombros enormes, a nuca de touro, curta e robusta, e minha primeira impressão foi a de um vigor camponês inabalável. A pasta sob o braço, o pequeno chapéu redondo na cabeça poderosa, as costas um pouco encurvadas, como o camponês empurrando o seu arado e com a mesma determinação, assim ele ia abrindo seu caminho lenta e inabalavelmente por entre a massa impaciente. Ninguém reconheceu o grande tribuno, jovens rapazes passavam por ele correndo, pessoas apressadas o ultrapassavam, atropelando-o, e seu passo continuava inabalavelmente firme em seu ritmo pesado. A resistência da massa negra que fluía se quebrava como num rochedo nesse homem baixo e forte que andava sozinho arando um campo próprio: a multidão escura e anônima de Paris, o povo que ia ou voltava do trabalho. 
 
Nada mais restou em mim desse encontro fugidio além da sensação de um vigor inflexível, telúrico, determinado. Pouco depois eu o veria mais de perto e compreenderia que essa força era apenas um fragmento de sua complexa personalidade. Amigos haviam me convidado para jantar, éramos quatro ou cinco no espaço apertado, quando ele entrou de repente, e a partir desse instante tudo passou a pertencer a ele — a sala, preenchida por sua voz sonora, e nossa atenção à sua palavra e ao olhar, pois sua cordialidade era tão forte, sua presença tão evidente, tão calorosa em sua vitalidade interior, que cada um se sentia inconscientemente estimulado e elevado. 
Ele acabara de chegar do campo, o rosto largo e aberto com os olhos fundos e pequenos, porém faiscantes, tinha as cores frescas do sol, e seu aperto de mão era o de um homem livre, não polido, mas cordial. Naquele momento, Jaurès pareceu-me especialmente satisfeito, tinha reabastecido o seu sangue com um novo vigor e um frescor vital ao trabalhar com enxada e pá no pequeno jardim, e agora distribuía esse vigor com toda a generosidade de seu ser. Para cada um tinha uma pergunta, uma palavra, uma cordialidade, antes de falar de si próprio, e era maravilhoso perceber como ele inconscientemente começava criando calor e vivacidade à sua volta para poder depois deixar fluir sua própria animação de modo livre e criativo. 
Lembro com nitidez como ele de repente se virou para mim, pois naquele segundo olhei pela primeira vez para dentro de seus olhos. Eram pequenos, mas, apesar de sua bondade, vívidos e penetrantes, agrediam sem machucar, penetravam sem importunar. Perguntou-me por alguns de seus amigos de partido vienenses, fui obrigado a responder, lamentando, que não os conhecia pessoalmente. Em seguida, perguntou-me pela baronesa Suttner, por quem parecia nutrir grande estima, querendo saber se ela tinha uma influência real e palpável em nossa vida literária e política. Eu lhe respondi — e hoje estou mais convicto que nunca de não lhe ter transmitido apenas a minha sensação pessoal, e sim uma verdade — que entre nós poucos compreendiam efetivamente o maravilhoso idealismo dessa senhora nobre e rara. Disse-lhe que a estimavam mas com um leve sorriso de superioridade, que suas convicções eram respeitadas, sem que as pessoas se deixassem convencer no âmago, pois em última instância sua persistência em uma mesma ideia era tida como algo monótono. E não escondi o quanto lamentava o fato de que justo os melhores na nossa literatura e arte sempre a tratavam de um modo algo marginal e indiferente. 
Jaurès sorriu e disse: “Mas é assim mesmo que temos de ser, como ela, obstinados e persistentes no idealismo. As grandes verdades não entram de uma vez no cérebro da humanidade, é preciso martelá-las repetidamente, prego a prego, dia a dia! Trata-se de tarefa monótona e ingrata, mas como é importante!” 
Passamos a outros assuntos e a conversa seguiu animada enquanto ele estava conosco, pois não importava o que ele dissesse, sempre vinha de dentro, caloroso, de um peito aberto, de um coração que batia forte, de uma plenitude de vida amontoada e acumulada, uma maravilhosa mistura de cultura e energia. A grande testa arredondada conferia ao seu rosto seriedade e significado, os olhos livres e alegres davam um ar de bondade a essa seriedade, esse homem poderoso exalava um ar benfazejo de jovialidade quase pequeno-burguesa, fazendo intuir que, na ira ou na paixão, seria capaz de deitar fogo como um vulcão. Sempre achei que, sem fingir, ele guardava dentro de si seu verdadeiro poder, que não havia motivo suficiente para sua total erupção (ainda que ele se entregasse inteiro na conversa), que éramos poucos para estimular toda a sua plenitude e que o espaço era apertado demais para a sua voz. Pois quando ele ria, a sala toda estremecia. Era como uma jaula para esse leão. 
 
Agora eu já o vira de perto, conhecia seus livros — que, compactos e pesados, assemelhavam-se um pouco ao seu corpo –, lera muitos de seus artigos que me permitiram intuir o ímpeto de sua fala, e tudo isso apenas aumentava o meu desejo de vê-lo e escutá-lo um dia também no seu mundo, no seu elemento, enquanto agitador e tribuno. A ocasião não tardaria a acontecer. 
Eram dias pesados na política, as relações entre a França e a Alemanha estavam carregadas de eletricidade. Algum incidente tinha ocorrido, a superfície de fósforo da suscetibilidade francesa se inflamara novamente em algum incidente fugidio, não sei mais se foi o caso do navio Panther em Agadir, o zepelim na Lorena, o episódio de Nancy; o fato é que havia eletricidade no ar. Em Paris, nessa atmosfera de eterna efervescência, esses sinais meteorológicos eram percebidos então muito mais intensamente do que sob o céu azul político idealista da Alemanha. Os vendedores de jornal dividiam as multidões nas avenidas com seus gritos agudos, os jornais atiçavam com palavras ardentes e manchetes fanáticas, exacerbavam a agitação com ameaças e palavras de persuasão. Embora os manifestos fraternais dos socialistas alemães e franceses estivessem grudados nos muros, não ficavam ali mais de um dia, pois à noite os “camelots du roi” os arrancavam ou sujavam com palavras de escárnio. Nesses dias agitados vi anunciado que Jaurès faria um discurso: nos momentos de perigo ele estava sempre presente. 
O Trocadéro, maior salão de Paris, haveria de servir-lhe de tribuna. Esse prédio absurdo, esse “nonsense” em estilo oriental-europeu, resto da antiga Exposição Universal, que com seus dois minaretes saúda na outra margem do Sena o outro vestígio histórico, a torre Eiffel, oferece em seu interior um espaço vazio, sóbrio e frio. Em geral serve a eventos musicais e raramente à palavra falada, pois o ambiente vazio absorve quase todos os sons. Só um gigante de voz, um Mounet-Sully, conseguia projetar suas palavras da tribuna até o alto das galerias, como quem lança uma corda por sobre um precipício. Era ali que Jaurès falaria, e a sala gigantesca cedo começou a encher. Já não lembro se era um domingo, mas todos vieram vestindo trajes de dia de festa, eles que normalmente fazem seu trabalho em camisas azuis nas caldeiras e fábricas, os trabalhadores de Belleville, de Passy, de Montrouge e Clichy, para ouvir seu tribuno, seu líder. O enorme salão estava negro de gente que se acotovelava já muito antes da hora, sem aqueles sons impacientes como nos teatros da moda, sem aqueles gritos reivindicatórios, rítmicos, pedindo que as cortinas logo se abrissem. A massa apenas ondulava, poderosa e agitada, cheia de expectativa, mas também de disciplina — imagem que por si só já era inesquecível e profética. Então surgiu um orador, uma faixa atravessada no peito, para anunciar Jaurès; mal se conseguia ouvi-lo, mas imediatamente fez-se o silêncio, um imenso silêncio que respirava. E ele entrou. 
Com os passos pesados e firmes que eu já conhecia nele, Jaurès subiu à tribuna, subiu do silêncio absoluto para um trovão extático e tonitruante de boas-vindas. A sala inteira ficara de pé e as aclamações eram mais do que vozes humanas: eram a ansiosa gratidão acumulada, o amor e a espe- rança de um mundo que geralmente se encontra dividido e disseminado, individualizado em silêncio e gemidos. Jaurès precisou esperar minutos e mais minutos antes de conseguir fazer sua voz se distinguir dos milhares de gritos que o rodeavam. Teve de esperar e esperava sério, persistente, consciente do momento, sem o sorriso amigável, sem a falsa resistência que os comediantes nesses momentos costumam colocar em seus gestos. Só começou a falar quando a onda se apaziguou. 
Sua voz não era a mesma daquela vez, uma voz que misturava amigavelmente brincadeiras e palavras significantes. Era outra voz, forte, lacônica, entrecortada pela respiração, uma voz metálica como minério. Nada havia nela de melódico, nada daquela maleabilidade vocal que tanto seduz no caso de Briand, seu perigoso companheiro e rival; a voz não era polida e não agradava os sentidos. Só se percebia nela acuidade — acuidade e determinação. Às vezes, arrancava uma única palavra da fornalha fogosa de sua fala como se fosse uma espada e a enfiava de um só golpe na multidão que gritava, atingida no fundo do coração. Não havia modulação nesse pathos, talvez lhe faltasse o pescoço flexível para amenizar a melodia do órgão vocal, parecia que sua garganta ficava no peito — mas por isso mesmo percebia-se tão intensamente que a sua palavra vinha de dentro, forte e excitada, diretamente de um coração forte e excitado, muitas vezes ainda arfando de ira, vibrando como a batida do coração em seu peito largo e forte. E essa vibração passava da sua palavra para todo o seu ser, quase o fazia perder o equilíbrio, ele caminhava de um lado para o outro, erguia o punho cerrado contra um inimigo invisível e o deixava cair sobre a mesa, como se fosse destruí-la. Toda a máquina a vapor de seu ser trabalhava com cada vez mais força nesse sobe e desce de touro enfurecido, e involuntariamente esse poderoso ritmo de uma excitação obstinada contagiava a multidão. Os gritos respondiam a seu chamado com uma força crescente, e sempre que ele cerrava o punho muitos o acompanhavam. 
De repente, a sala fria, ampla e vazia estava repleta da excitação trazida por esse homem único, forte, que sua própria força fazia tremer, e sempre aquela voz aguda passava de novo por cima dos regimentos escuros de trabalhadores, qual um trompete, conclamando seus corações para o ataque. Eu mal conseguia escutar o que ele dizia, apenas percebia para além do sentido o poder dessa vontade e sentia que também me aquecia, por mais estranhos que fossem a mim, o estranho, tanto o ensejo quanto a hora. Mas eu percebia o homem de maneira tão forte como jamais percebera alguém, sentia-o, e sentia o imenso poder que dele exalava. Pois por trás desses poucos milhares que agora estavam enfeitiçados por ele, sujeitos à sua paixão, havia ainda milhares e milhares que sentiam o seu poder de longe, transmitido pela eletricidade da vontade contínua, da magia da palavra — as incontáveis legiões do proletariado francês e mais ainda seus companheiros além das fronteiras, os trabalhadores de Whitechapel, de Barcelona e Palermo, de Favoriten e St. Pauli, de todas as direções e cantos da Terra, que confiavam nesse seu tribuno e estavam dispostos a doar a sua vontade a ele a qualquer momento. 
 
Com seus ombros largos, robusto, o corpo compacto, Jaurès podia dar, àqueles que só ligam ao tipo do francês as noções de delicadeza, sensibilidade e maleabilidade, a impressão de não ser da estirpe de um verdadeiro gaulês. Mas só se pode compreendê-lo enquanto francês, em sua terra, só no contexto, só como representante, último de uma estirpe. A França é o país das tradições, raras vezes um grande fenômeno ou uma pessoa importante é inteiramente novo; todos são resultado de coisas já intuídas e vividas, cada acontecimento tem a sua analogia (e não é difícil identificar analogias entre o atual fanatismo, esse sangrar por uma única ideia, e 1793). Eis o grande divisor de águas em relação à Alemanha. A França está constantemente se reproduzindo, e nisso reside o segredo da manutenção de sua tradição, por isso Paris é uma unidade, sua literatura um círculo fechado, sua história interna uma repetição rítmica de maré alta e baixa, de revolução e reação. Já a Alemanha evolui e se modifica constantemente, e esse é o segredo do constante aumento de seu vigor. Na França, é possível explicar tudo com analogias, sem se tornar violento, na Alemanha nada, pois nenhum estado psíquico ali se assemelha ao outro, entre 1807, 1813, 1848, 1870 e 1914 há enormes transformações que modificaram a essência de sua arte, sua arquitetura, suas camadas. Mesmo suas personalidades são únicas e novas – não há precedentes na história alemã para Bismarck, Moltke, Nietzsche ou Wagner. E os homens desta guerra, por sua vez, são o começo de um novo tipo organizatório, e não repetições de um passado. 
Na França, o homem importante raramente é único, e esse também é o caso de Jaurès. E por isso mesmo ele é genuinamente francês, cria de uma estirpe intelectual que remete à revolução e que tem um repre- sentante em todas as artes. Sempre houve lá em meio à maioria delicada, frágil e de bom gosto esse tipo vigoroso com nuca de touro, ombros largos, sangue pesado, esses maciços netos de camponeses. Eles também têm nervos, mas seus nervos parecem ser envoltos por músculos; também são sensíveis, mas sua vitalidade é mais forte que a sensibilidade. Mirabeau e Danton são os primeiros intempestivos desse tipo, Balzac e Flaubert são seus filhos, Jaurès e Rodin, os netos. Em todos eles, surpreende a estatura larga, a robusteza do ser e da vontade. Quando Danton sobe à guilhotina, a armação de madeira estremece; quando querem baixar o gigantesco ataúde de Flaubert ao túmulo, este se revela pequeno demais; a poltrona de Balzac foi feita para o dobro do peso, e quem atravessa o ateliê de Rodin não consegue conceber que essa floresta de pedras foi criada por duas mãos terrenas. Trabalhadores titânicos, é o que todos eles são; honestos e sinceros, unidos no destino de serem empurrados para o lado pelos maleáveis, os astuciosos, os de bom gosto. O gigantesco trabalho da vida de Jaurès também foi frustrado: Poincaré foi mais forte do que ele, o mais forte, graças à sua maleabilidade. 
Mas esse francês de velha cepa, como era Jaurès, indubitavelmente, era impregnado pela filosofia, a ciência, o espírito da Alemanha. Nada autoriza as futuras gerações a afirmar que ele amava a Alemanha, mas uma coisa é certa: ele conhecia a Alemanha, e isso já é muito na França. Conhecia pessoas alemãs, cidades alemãs, livros alemães, conhecia o povo alemão e, um dos poucos no estrangeiro, o seu vigor. Por isso, pouco a pouco, a ideia de evitar a guerra entre essas duas potências tornara-se a ideia mestra de sua vida, seu temor, e tudo o que fez nos últimos anos foi apenas pensando em evitar esse momento. Não se preocupou com humilhações, deixou que o chamassem de “deputado de Berlim”, emissário do imperador Guilherme, permitiu que os chamados patriotas o ironizassem e atacou impiedosamente os que atiçavam e incitavam à guerra. Desconhecia a ambição do advogado socialista Millerand de exibir honrarias no peito; desconhecia a ambição de seu antigo camarada Briand, que passou de agitador a ditador; nunca quis enfiar seu peito largo em um fraque — sua ambição continuava sendo a de proteger o proletariado, que confiava nele, e todo o mundo da catástrofe, cujas minas e cujos túneis ele já escutava sendo escavados sob seus próprios pés em seu próprio país. Enquanto ele se lançava, com todo o dinamismo de Mirabeau, com o ardor de Danton, contra os que incitavam e inflamavam, ao mesmo tempo precisava barrar o zelo exacerbado dos antimilitaristas em seu próprio partido, sobretudo Hervé, que então conclamava aos brados para a revolta como hoje grita diariamente pela “vitória definitiva”. Jaurès pairava acima deles, não queria nenhuma revolução, porque ela também precisava ser conquistada com sangue, e ele tinha horror ao sangue. Discípulo de Hegel, acreditava na razão, na evolução sensata através da constância e do trabalho, o sangue lhe era sagrado e a paz entre os povos, a sua profissão de fé. Trabalhador vigoroso e incansável que era, assumira o mais pesado compromisso, o de continuar sendo sensato em um país passional, e mal a paz foi ameaçada, ele continuava ereto como um posto pronto para tocar o alarme no perigo. O grito que deveria conclamar o povo da França já estava em sua garganta quando eles o derrubaram, eles que já o conheciam em sua força inabalável, e cujas intenções e aventuras ele conhecia. Enquanto ele permanecesse vigilante, a fronteira estava segura. Eles sabiam disso. E só por sobre o seu cadáver a guerra foi detonada, e os sete exércitos alemães invadiram a França.
 
Fonte:  ZWEIG, Stefan: O mundo insone e outros ensaios, tradução de Kristina Michahelles; organização e textos adicionais de Alberto Dines, Rio de Janeiro: Zahar, 2013, pp. 175-184.

2 comentários:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse..
Prezad@,
Enquanto viveu JEAN JAURÈS, o socialista, o seu argumento a favor da paz prevaleceu sobre o antigermanismo francês e a pressão interna por uma declaração de guerra contra a Alemanha. Com o seu assassinato, a Alemanha formalizou as hostilidades contra a França. O antigermanismo francês foi uma das consequências da Guerra Franco-Prussiana (1870-71), em que, derrotada, a França foi obrigada a entregar aos vencedores as regiões de Alsácia e Lorena, região rica em minério de ferro, marco inicial da unificação alemã, sob o comando de Bismarck.
Neste seu ensaio, STEFAN ZWEIG dá uma interpretação muito pessoal para a causa que teria levado a Alemanha a declarar guerra à França, dando início à Primeira Guerra Mundial em 1914, embora soubesse das muitas outras questões geográficas e políticas envolvidas.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2025/04/jean-jaures-o-socialista.html

Cordial abraço,
Francisco Braga

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