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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Encontro de Stefan Zweig com Theodor Herzl (O Mundo de Ontem) - Francisco Braga

 Blog de São João del-Rei

 Francisco Braga

https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/10/encontro-de-stefan-zweig-com-theodor.html 

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

ENCONTRO DE STEFAN ZWEIG COM THEODOR HERZL


Por STEFAN ZWEIG (1881-1942)
 
 
Theodor Herzl c. 1897 (✰ Peste, Hungria 1860 ✞ Edlach, Áustria 1904)
 
I. INTRODUÇÃO PREPARATÓRIA do conteúdo do Capítulo IV - Universitas Vitae ¹ até o ponto em que ocorre o encontro com Theodor Herzl  
 
Antes de transcrever o texto contendo a íntegra dos pormenores do encontro, é preciso contextualizar o leitor sobre o momento exato da narrativa. O encontro de Stefan Zweig com Theodor Herzl é apresentado no quarto capítulo intitulado "Universitas Vitae" de suas memórias, na obra de 1942: O Mundo de Ontem ² (ou O Mundo que eu Vi). Na fala de Stefan Zweig, a expressão latina Universitas Vitae significa literalmente "A Universidade da Vida". Ao intitular o quarto capítulo de sua autobiografia com esse termo, Zweig faz um jogo de palavras irônico e filosófico para contrastar o ensino institucionalizado com o aprendizado real. Para o autor, o verdadeiro conhecimento não estava dentro das paredes da universidade tradicional (Universitas Litterarum), mas sim na vivência direta com o mundo.
 
Stefan Zweig, então com 19 anos, narra o período de transição após concluir o ensino secundário rígido e ingressar na Universidade de Viena. Longe de encarar a faculdade com rigor acadêmico tradicional, Zweig e seus contemporâneos viam o status de estudante universitário com o romantismo de uma "liberdade conquistada", aproveitando os privilégios sociais e a autonomia que a vida acadêmica proporcionava na Áustria da virada do século. Ele próprio relata que
“o verdadeiro critério para a minha escolha não foi procurar o curso que mais trabalho me desse, e sim o que mo desse menos e me concedesse o máximo de tempo e de liberdade para o que eu tinha verdadeiro pendor. Afinal me decidi pela filosofia, ou melhor, pela filosofia "exata", como em nossa terra se dizia de acordo com o esquema antigo, porém, deveras não o fiz por vocação, pois minhas aptidões para o pensar puramente abstrato são pequenas.”
Em vez de se fechar nas salas de aula, Zweig passa a frequentar os cafés e os círculos intelectuais de Viena, onde a verdadeira "universidade da vida" se desenrolava. É nesse ambiente de efervescência cultural e paixão pela literatura que ele reúne coragem para dar seus primeiros passos como autor. 
Após publicar de forma independente sua primeira coletânea de poesias, Cordas de Prata (Silberne Saiten), publicada pela editora que então era a mais representativa para a poesia lírica alemã, a Schuster & Löffler, a editora das obras de Liliencron, Dehml, Bierbaum, Mombert, Rilke e Hofmannsthal. A sua maior surpresa, porém, foi o fato de os compositores Max Reger e Richard Strauss terem se dirigido a ele a fim de pedir permissão para fazer arranjo musical para seis poemas de sua coletânea. 
O jovem escritor decide arriscar um salto maior: enviar um texto em prosa para o jornal de maior prestígio e influência da Europa Central na época, a Neue Freie Presse. O caderno de cultura e folhetim (feuilleton) desse influente diário era comandado por uma figura magnética que exercia um papel duplo fascinante na Viena daquela época: era respeitado como um brilhante jornalista e homem de letras, ao mesmo tempo em que chocava a burguesia judaica assimilada ao emergir como o líder e idealizador do movimento sionista moderno e que Zweig passa a descrever.
 
¹ Na fala de Stefan Zweig, a expressão latina Universitas Vitae significa literalmente "A Universidade da Vida". Ao intitular o quarto capítulo de sua autobiografia com esse termo, Zweig faz um jogo de palavras irônico e filosófico para contrastar o ensino institucionalizado com o aprendizado real. Para o autor, o verdadeiro conhecimento não estava dentro das paredes da universidade tradicional (Universitas Litterarum), mas sim na vivência direta com o mundo. (Nota do gerente do blog)
 
² A obra, finalizada em 1941, foi publicada de forma póstuma na Suécia, por uma editora voltada para a chamada Exilliteratur (literatura de exílio). Stefan Zweig concluiu e enviou o manuscrito datilografado para a editora apenas um dia antes de cometer suicídio com sua esposa, Lotte Altmann, em Petrópolis, em fevereiro de 1942. No ano seguinte, em abril de 1943, o livro ganhou sua primeira edição em inglês pela Viking Press.
No Brasil, o lançamento ocorreu logo após a morte do autor, por meio da Editora Guanabara, sediada no Rio de Janeiro. Posteriormente, essa mesma tradução icônica de Odilon Gallotti foi integrada ao Volume 15 das Obras Completas de Stefan Zweig, publicadas pela Editora Delta nos anos 1950. Esta última é a que estou utilizando no texto a seguir, levemente modificada em alguns poucos trechos considerados incompreensíveis. Acho que houve certa precipitação para a publicação da obra no Brasil, o que comprometeu a perfeição desejada para a tradução de uma obra de tal relevo e importância. Para essas poucas alterações, baseei-me em Le Monde d'Hier (1948), a partir da tradução de Jean-Paul Zimmermann (pp. 123-137, mencionada na Bibliografia). (Nota do gerente do blog)
 
II. TEXTO sobre o encontro de Zweig com Theodor Herzl 
 
Esses aplausos inesperados, que eram acompanhados de críticas públicas favoráveis, animaram-me a dar um passo que eu, pela minha insanável falta de confiança em mim, jamais teria dado, ou ao menos, não o teria feito tão cedo. Ainda ginasiano, publicara, além de poesias, pequenas novelas e ensaios nas revistas literárias da “Moderna” ³, nunca, porém, me atrevera a mandar uma dessas tentativas para uma revista importante e de grande circulação. Em Viena verdadeiramente só existia um órgão de publicidade de nível elevado, a “Neue Freie Press” ⁴, que, por sua atitude nobre, seu empenho em prol da cultura e seu prestígio político, era para toda a Áustria-Hungria o mesmo que o “Times” para o mundo inglês e o “Le Temps” para o mundo francês; mesmo nenhum dos jornais da Alemanha diligenciava tanto um nível cultural representativo. Seu redator, Maurício Benedikt, homem de fenomenal capacidade de organização e infatigável operosidade, empenhava toda sua energia, verdadeiramente demoníaca, para conseguir que o seu jornal no domínio da literatura e da cultura sobrepujasse todos os jornais alemães. Quando desejava de um autor de nomeada alguma coisa, não olhava despesas, enviava-lhe dez ou vinte telegramas, concedia-lhe de antemão qualquer remuneração. O número do Natal e o do dia do Ano Bom com seus suplementos literários constituíam grandes volumes, que tinha a colaboração dos maiores nomes da época; Anatole France, Gerhardt Hauptmann, Ibsen, Zola, Strindberg e Shaw nessa ocasião achavam-se reunidos nessa folha, que fez muitíssimo pela orientação literária de Viena e do país inteiro. Evidentemente “progressista” e liberal, esse jornal, em sua maneira modelar, representava o elevado padrão cultural da Áustria antiga.

Esse templo do “progresso” possuía um santuário especial, o folhetim, que, como o dos grandes diários parisienses “Le Temps” e o “Journal des Débats”, publicava os trabalhos mais substanciais e perfeitos sobre poesia, teatro, música e arte, nitidamente separados das coisas efêmeras da política e da vida diária. Nesse folhetim só podiam escrever as autoridades, os que, já havia muito, tinham dado provas de competência. Somente a solidez das opiniões, a experiência comparativa de muitos anos e a forma artística perfeita podiam colocar nesse santo lugar um autor após anos de prova de capacidade. Ludwig Speidel, mestre da descrição das minúcias, e Eduard Hanslick nesse jornal tinham em assuntos de teatro e de música autoridade papal idêntica à de Saint-Beuve em Paris nos seus “Lundis”; o seu sim ou o seu não decidiam para Viena o êxito de uma obra, de uma peça teatral, de um livro, e com isso, muitas vezes, o de uma pessoa. Cada um desses artigos constituía o assunto do dia para os círculos ilustrados, era discutido, criticado, admirado ou combatido, e a aparição de um nome novo na série dos folhetinistas desde muito reputados era um acontecimento. Da geração mais nova só Hofmannsthal com alguns dos seus magníficos trabalhos encontrava às vezes acolhida nesse folhetim; de ordinário os autores jovens tinham de se contentar com a penetração feita discretamente na página literária, uma das últimas do jornal. Quem escrevia na primeira página, tinha para Viena seu nome gravado em mármore.

Hoje já não posso compreender como tive coragem de oferecer um pequeno trabalho poético ao jornal “Neue Freie Presse”, o oráculo de meus antepassados e o domicílio dos sete vezes consagrados. Mas afinal de contas o mais que poderia acontecer-me era não aceitarem a minha oferta. O redator do folhetim só recebia uma vez por semana, entre as duas e três horas, pois graças ao turno regular dos colaboradores célebres e fixos, só mui raramente havia espaço para o trabalho de um estranho. Não foi sem palpitações que subi a pequena escada de caracol que levava à redação, e me fiz anunciar. Passados alguns minutos, voltou o porteiro, avisou-me que o redator do folhetim dissera que eu podia entrar e penetrei na pequena sala.

³ Denominação para as orientações novas da poesia e da arte, mais ou menos desde o começo do Naturalismo por volta de 1890. (N. do T.).
 
⁴ Neue Freie Presse - Nova Imprensa Livre (N. do T.). 

*   *   *

O redator do folhetim da “Neue Freie Press” chamava-se Theodor Herzl e foi o primeiro homem de importância histórica diante do qual vi — sem saber, é verdade, que enorme mudança sua pessoa iria determinar no destino do povo judeu e na história da nossa época. Sua posição, nesse tempo, ainda não estava bem definida. Ele começara com tentativas poéticas, revelara cedo um talento jornalístico fascinante e se tornara predileto do público vienense, primeiramente como correspondente em Paris e depois como folhetinista da “Neue Freie Press”. Seus artigos, ainda hoje encantadores pela sua riqueza em observações penetrantes e, muitas vêzes, sábias, pela graça do seu estilo, pelo seu encanto nobre, que, mesmo nas críticas e nas coisas alegres, nunca perdia a nobreza inata, eram o que de mais apurado se podia conceber no jornalismo, e o fascínio de uma cidade que havia cultivado o senso para o que é sutil. Também no Burgtheater Herzl lograra êxito feliz com uma peça; era nessa ocasião um homem estimado, idolatrado pela mocidade, respeitado por nossos pais, até que um dia se deu o que não se esperava. O destino sabe sempre achar um caminho a fim de buscar para si a pessoa de que precisa para seus desígnios secretos, mesmo que ela se queira esconder.

Theodor Herzl tivera em Paris um fato que lhe abalara a alma, uma dessas horas que modificam uma existência inteira: como correspondente assistira à degradação pública de Alfred Dreyfus, vira arrancarem-lhe as dragonas enquanto o infeliz exclamava: “Estou inocente”. Sabia seguramente naquele momento que Dreyfus estava inocente e que sobre ele pesava essa horrenda suspeita de traição, só porque ele era judeu. 
⁶ Theodor Herzl em sua altivez varonil e firme quando estudante já sofrera a sina dos judeus, ou melhor, graças a seu instinto profético já sofrera esta sina numa época em que ela quase não parecia ser uma sina funesta. Com o sentimento de haver nascido para chefe, sentimento a que lhe dava direito tanto sua aparência vistosa e imponente como a elevação do seu pensar e o seu conhecimento do mundo, concebera então o plano fantástico de resolver de uma vez para sempre o problema do judaísmo, propondo que esse espontaneamente se unisse ao cristianismo por um batismo em massa. Pensando sempre dramaticamente, imaginara como conduziria num grande préstito os milhares de judeus da Áustria à catedral de Santo Estêvão, a fim de ali, num ato modelarmente simbólico, libertar para sempre da maldição da segregação e do ódio o povo escorraçado e sem pátria. Dentro em pouco reconhecera a inexequibilidade desse plano. Muitos anos de outras atividades haviam-no desviado do problema principal de sua vida, cuja “solução” considerava sua verdadeira tarefa; no momento da degradação de Dreyfus, porém, a idéia da eterna proscrição do seu povo penetrou-lhe no peito como se fôra um punhal. Se a segregação é inevitável, disse ele de si para si, que seja então completa! Se o nosso fado é sempre humilhação, enfrentemo-lo com altivez; se sofremos de falta de pátria, criemos uma pátria para nós. Por isso publicou sua brochura “O Estado dos Judeus”, na qual proclamou que toda igualação assimiladora e toda esperança de uma completa tolerância seriam impossíveis para o povo judeu e que seria necessário fundar uma pátria nova, uma pátria própria na velha pátria, a Palestina.
Quando essa brochura pequena, porém provida da força de uma seta de aço em vôo, apareceu, eu ainda estava no ginásio, mas recordo-me bem da perplexidade e indignação gerais que causou nos círculos burgueses judaicos de Viena: “Que, perguntavam amuados esses judeus, se meteu na cabeça desse escritor, de ordinário tão sensato, hábil e culto? Que loucuras anda ele praticando e escrevendo? Por que razão devemos ir para a Palestina? O nosso idioma é o alemão e não o hebraico, a nossa pátria é a bela Áustria. Não nos achamos otimamente sob o governo do bom imperador Francisco José? Não temos nossa conveniente prosperidade, nossa situação segura? Não somos cidadãos do Estado com direitos iguais aos dos demais, não somos cidadãos domiciliados e dedicados desta Viena querida? Não vivemos numa época progressista, que em alguns anos há-de pôr de lado todos os preconceitos religiosos? Por que ele, que fala como judeu e quer auxiliar o judaísmo, fornece argumentos aos nossos piores inimigos e tenta segregar-nos quando cada dia nos une mais estreita e intimamente ao mundo alemão?” Os rabinos exaltaram-se nos púlpitos, o diretor da “Neue Freie Press” proibiu que em seu jornal “progressista” se mencionasse sequer a palavra sionismo. O Tersites 
⁵ do sarcasmo venenoso, Karl Kraus, escreveu uma brochura “O rei de Sião”, e quando Theodor Herzl entrava no teatro, zombeteiramente se murmurava em todas as filas: “Chegou Sua Majestade”.

No primeiro momento Herzl pôde sentir-se mal compreendido; Viena, onde ele, dada a estima que nela gozava havia muitos anos, se julgava mais seguro, o abandonara ou até se ria dele. Mas, em seguida, retumbou subitamente a resposta com tal violência e êxtase que ele quase se assustou de, com algumas dúzias de páginas, haver provocado no mundo um movimento tão poderoso e de tão grande irradiação. A resposta, sem dúvida, não partiu dos judeus burgueses do Ocidente, que viviam comodamente e tinham boa situação econômica, mas sim das enormes massas judaicas do Oriente, do proletariado dos ghettos da Galícia, da Polônia e da Rússia. Sem pressentir, Herzl com sua brochura inflamou o núcleo do judaísmo que ardia sob as cinzas do estrangeiro, o milenário sonho messiânico da promessa, confirmada nos Livros Sagrados, do regresso à Terra da Promissão — essa esperança e, ao mesmo tempo, certeza religiosa, os únicos sentimentos que ainda tornavam a vida útil para esses milhões de entes espezinhados e escravizados. Sempre que um indivíduo, profeta ou impostor, nos dois mil anos da maldição que pesa sobre o povo judeu, tangeu a corda, a alma de todo esse povo vibrou, porém nunca com tanta intensidade como dessa vez, nunca com ressonância tão ruidosa, tão retumbante. Com algumas dúzias de páginas um só homem havia formado de uma massa dispersa e desunida uma unidade.

Esse primeiro instante, em que a idéia ainda tinha formas indecisas, estava destinado a ser o mais feliz na vida breve de Herzl. Logo que este começou a fixar os objetivos no espaço real, a unir as forças, teve de reconhecer quão heterogêneo se havia tornado esse povo entre os povos e destinos mais diversos, combatendo-se uns aos outros em todas as línguas, aqui os ortodoxos, ali os livres pensadores, acolá os judeus socialistas, mais adiante os capitalistas, e pouco dispostos a sujeitarem-se a uma só autoridade. Em 1901, ano em que pela primeira vez vi Herzl, achava-se ele em plena luta e talvez também em luta consigo próprio; ainda não acreditava suficientemente no bom êxito de sua idéia para abandonar o emprego com que mantinha a si e sua família. Ainda era obrigado a dividir-se entre o pequeno serviço no jornalismo e a tarefa que constituía o ideal de sua vida. Quem então me recebeu ainda foi o Theodor Herzl redator do folhetim.

⁵ O termo Tersites (ou Térsites) possui dois significados principais que se conectam diretamente com o universo literário de Stefan Zweig: o mito grego original e a própria peça teatral escrita por Zweig. Parece, evidentemente, que Zweig usa Tersites na primeira acepção abaixo citada.
1. O Personagem Mitológico (no Canto II da Ilíada, entre os versos 211 e 277)
• Aparência e Postura: É descrito por Homero como o homem mais feio que foi a Tróia — coxo, corcunda, calvo e desajeitado.
• O "Criador de Casos": Em vez de buscar a glória militar, Tersites usava sua oratória ácida para questionar, insultar e ridicularizar os reis e comandantes gregos, especialmente Agamêmnon e Aquiles, acusando-os de ganância e egoísmo. Ele é frequentemente apontado por críticos literários como o "primeiro agitador político" ou demagogo da literatura ocidental.
• Destino: Acabou espancado por Odisseu (Ulisses) para ser calado perante as tropas e, mais tarde, foi morto por Aquiles após zombar do luto do herói pela rainha amazona Pentesileia.

2. A Peça Teatral de Stefan Zweig (Tersites, 1907)
No contexto das obras de Stefan Zweig, Tersites (Tersites. Ein Trauerspiel in drei Aufzügen) é o título da sua primeira peça teatral concluída, publicada em 1907.
• Na tragédia em versos de Zweig, a maldade e o ressentimento de Tersites são transformados em uma espécie de sabedoria dolorosa.
• O autor usa o personagem para expor a brutalidade, a vaidade e a injustiça dos "heróis" perfeitos e vitoriosos (como Aquiles), mostrando como o sofrimento e a rejeição podem refinar a alma de quem o mundo considera feio ou inferior, enquanto o sucesso cega e endurece os vencedores. (Nota do gerente do blog)
 
⁶ Na mesma ocasião, o triste episódio suscitou o manifesto jornalístico e literário J'accuse...! ("Eu acuso!") do autor naturalista Émile Zola, um dos maiores marcos da história da imprensa, no qual ele denunciou nominalmente as autoridades militares francesas por forjarem provas e encobrirem o verdadeiro culpado devido ao antissemitismo institucional da época. 
O texto, publicado em 13 de janeiro de 1898 no jornal L'Aurore, defendia a inocência e a libertação do capitão franco-judeu Alfred Dreyfus, que havia sido injustamente condenado por traição e exilado na Ilha do Diabo. Embora tenha sofrido anos de prisão degradante, Dreyfus sobreviveu, foi formalmente inocentado e reintegrado ao exército francês em 1906. 
 
*   *   *

Theodor Herzl levantou-se para cumprimentar-me, e senti que na expressão chistosa e escarninha “o rei de Sião” existia algo de verdadeiro: de fato, ele com sua fronte alta desassombrada, seus traços bem acentuados, sua barba de sacerdote, longa e muito preta, e seus olhos castanhos escuros e melancólicos, parecia um rei. Os gestos amplos e um tanto teatrais não davam a impressão de serem artificiosos, porque eram condicionados por uma nobreza natural, e não haveria necessidade dessa ocasião especial para ele me parecer importante. Mesmo junto à escrivaninha, já muito usada e cheia de papéis, naquela pequena sala de redação, em que havia uma janela apenas, parecia ele um xeique beduíno; um albornoz branco e flutuante vesti-lo-ia tão naturalmente como seu fraque preto cuidadosamente talhado, evidentemente por figurino parisiense. Após breve pausa, propositadamente feita — ele gostava desses pequenos artifícios, como muitas vezes percebi mais tarde, e certamente os estudara no Burgtheater — estendeu-me a mão condescendentemente e, apesar disso, com toda bondade. Apontando para a cadeira que estava a seu lado, disse: “Creio que já ouvi ou li algures o seu nome. Poesias, não é?” Tive de responder afirmativamente. Repoltreando-se, perguntou: “Então, que me traz?”

Disse-lhe que desejava mostrar-lhe um pequeno trabalho em prosa e passei às suas mãos o manuscrito. Ele olhou o frontispício, folheou o trabalho todo, a fim de verificar a extensão do mesmo, e refestelou-se ainda mais na poltrona. Com surpresa (eu não o esperava) notei que ele já começara a ler o manuscrito. Leu devagar, pondo de parte as folhas, sem erguer o olhar. Depois de lida a última, reuniu-as lentamente, meteu-as cuidadosamente, sempre ainda sem olhar para mim, num envelope e sobre ele escreveu com lápis azul uma nota. Só depois de com essas misteriosas maquinações me haver por bastante tempo mantido em estado de curiosidade, ergueu para mim os olhos, aqueles olhos bonitos, graves e pretos, e disse com solenidade propositada e vagarosa: “Tenho o prazer de poder declarar-lhe que o seu trabalho foi aceito para o folhetim da “Neue Freie Press”. Foi como se Napoleão no campo de batalha pregasse no peito de um jovem sargento a cruz da Legião de Honra.

Esse episódio, à primeira vista, parece pequeno, sem importância. Mas é preciso haver sido vienense, vienense daquela época, para compreender que impulso para cima esse acoroçoamento representava. Com ele, aos dezenove anos, de repente fui elevado a uma posição preeminente, e Theodor Herzl, que desde esse primeiro momento se mostrou meu amigo, aproveitou logo um ensejo casual para, em um dos seus artigos, escrever que não se deveria acreditar numa decadência da arte em Viena. Ao contrário, existia agora, escreveu ele, além de Hofmannsthal, uma série de talentos novos, dos quais se deveriam esperar as melhores produções, e citou em primeiro lugar o meu nome. Sempre considerei especial distinção o ter sido um homem da importância e preeminência de Theodor Herzl o primeiro que publicamente, num lugar de grande projeção e, por isso, cheio de responsabilidade, me protegeu, e foi para mim uma decisão difícil o fato de eu — parecendo ingrato — não me associar ativamente e até como um dos chefes a seu movimento sionista, o que ele desejaria que eu fizesse.

Mas eu não conseguia simpatizar verdadeiramente com esse movimento; causava-me má impressão a maneira desrespeitosa, hoje não mais concebível, com que os correligionários propriamente ditos de Herzl procediam em relação a este. Os judeus orientais declaravam que ele nada entendia do judaísmo, que nem sequer conhecia os costumes deste, os economistas consideravam-no folhetinista, cada qual fazia sua objeção, que nem sempre era das mais respeitosas. Eu sabia quanto precisamente então seriam úteis e necessárias a Herzl pessoas, e sobretudo pessoas jovens. Mas o espírito rixoso e altercador dessa incessante oposição e a falta de subordinação sincera e cordial dessa gente me afastaram do movimento, do qual eu me teria aproximado com curiosidade, só por causa de Herzl. Quando certa vez conversávamos sobre o assunto confessei-lhe abertamente o desagrado que a falta de disciplina em suas fileiras me causava. Ele sorriu um pouco contrafeito e disse: “Não se esqueça de que há séculos estamos habituados a brincar com problemas, a lutar contra ideias. Nós judeus, há dois mil anos, no que se refere à História, não temos o hábito de dar algo de real ao mundo. Precisamos primeiramente aprender a dedicação absoluta e eu próprio até hoje ainda não a aprendi, pois continuo a escrever folhetins de vez em quando e a ser redator do folhetim da "Neue Freie Press", e era de meu dever não pensar senão no nosso problema, não escrever uma linha sobre qualquer outra coisa. Mas já estou em caminho para me corrigir, quero primeiramente aprender eu próprio a dedicação absoluta, e talvez depois os outros também a aprendam". Sei que essas palavras me causaram profunda impressão, pois nem todos compreendiam que Herzl ainda não podia decidir-se a abandonar o seu lugar na "Neue Freie Press". Pensávamos que ele não o abandonava por causa dos encargos com a família. Só muito mais tarde veio o mundo a saber que ele não pensara assim e que sacrificara à causa do judaísmo sua fortuna particular. Quanto essa dissensão do seu espírito o fazia sofrer, fiquei sabendo não só por essa conversa, mas também por muitas notas de seus diários.

Depois ainda o vi várias vezes, de todos os encontros com êle só um ficou inolvidável para mim, talvez porque foi o último. Eu estivera no estrangeiro e não tivera com Viena outra comunicação senão por cartas. Certo dia o encontrei no Parque da Cidade. Evidentemente saíra da redação, caminhava muito devagar e um pouco curvado; seu andar já não era o de outrora, desembaraçado. Saudei-o cortêsmente e quis seguir o meu caminho, mas ele dirigiu-se célere para mim, apertou-me a mão e falou-me: "Por que se oculta? Não tem necessidade de fazê-lo!" Deu muita importância ao fato de eu frequentemente viajar para o estrangeiro. "É nosso único caminho", disse ele. "Tudo o que sei, aprendi no estrangeiro. Só nele nos habituamos a observar de longe. Estou convencido de que aqui nunca eu teria o ânimo para aventar aquela primeira concepção, ter-ma-iam destruído enquanto ela ainda estava germinando e crescendo. Mas, graças a Deus, quando eu a trouxe para aqui, tudo já estava pronto, e não puderam fazer outra coisa senão criticá-la". Queixou-se então amargamente de Viena; nela encontrara os mais fortes obstáculos, e, se não chegassem do exterior, sobretudo do Oriente e nesse momento também da América, novos impulsos, já teria desistido de tudo. "Meu erro", disse ele, “foi haver iniciado tarde demais. Victor Adler aos trinta anos, em seus melhores, em seus verdadeiros anos de luta, se tornou chefe da democracia social, e dos grandes homens da História nem quero falar. Se soubesse como sofro, pensando nos anos perdidos, pensando em que não me entreguei mais cedo à minha tarefa. Se minha saúde se achasse tão boa como a minha vontade, tudo estaria bem, mas anos perdidos não se podem reaver”. Acompanhei-o até a sua morada. Ali chegados, ele parou, estendeu-me a mão e disse: “Por que nunca vem à minha casa? Nunca me visitou em minha residência. Telefone-me antes, que arranjarei tempo para conversarmos”. Prometi-lhe fazê-lo, firmemente resolvido a não cumprir a promessa, pois quanto mais gosto de uma pessoa tanto mais respeito o seu tempo. Estava absolutamente decidido a não ir visitá-lo.

Todavia fui à casa dele e isso fiz apenas poucos meses tarde. A enfermidade que já naquela ocasião começara a curvá-lo, derrubara-o de repente, e só pude acompanhá-lo para o cemitério. Foi um dia fora do comum, um dia de julho, inolvidável para todos os que viram o que nele aconteceu em Viena. Subitamente afluíram a todas as estações de estrada de ferro da cidade, vindas por todos os trens de dia e de noite, chegaram pessoas de todos os países, judeus ocidentais, orientais, russos e turcos, de todas as províncias e cidadezinhas, trazendo ainda no semblante o espanto causado pela notícia; nunca se sentiu mais nitidamente que ali tombara o chefe de um grande movimento, cujo valor as disputas e as rixas não deixaram ser percebido. Foi um cortejo imenso. De repente, Viena notou que morrera não só um escritor ou poeta medíocre, mas sim também um daqueles criadores de ideias que só com imensos intervalos surgem triunfantes num país, num povo. No cemitério originou-se um tumulto; enorme massa de pessoas, aproximou-se subitamente do esquife, chorando, soluçando, num desespero brutal e explosivo, houve quase um acesso de loucura, de furor; toda ordem era rompida por uma espécie de luto elementar e extático como eu nunca vi, nem antes nem depois, por ocasião de um enterro. Por essa dor imensa, irrompida abruptamente do íntimo de um milhão de pessoas, pude, pela primeira vez, avaliar quanto entusiasmo e esperança aquele homem sozinho lançara no mundo mediante a força de seu pensamento.
 
Funeral de Theodor Herzl em Viena em 07/07/1904

*   *   *

A verdadeira importância da minha admissão solene para colaborar no folhetim da “Neue Freie Presse” manifestou-se na minha vida particular. Com essa admissão adquiri uma segurança inesperada diante de minha família. Meus pais ocupavam-se com literatura e não se atreviam a dar opiniões a respeito dela; para eles, como para toda a burguesia vienense, era importante o que era elogiado na “Neue Freie Presse” e não tinha importância o que ali era ignorado ou reprovado. O que estava escrito no folhetim, parecia-lhes garantido pela mais alta autoridade, pois quem ali opinava e orientava, já pela sua simples posição, despertava respeito. Imagine-se agora uma família que com respeito e expectação dirigia diariamente o olhar para a primeira página do seu jornal e certa manhã, descobriu esta coisa incrível: que o rapaz de dezenove anos, bastante desmazelado no vestir, que está sentado à mesa, que na escola de nenhum modo se distinguia e cujos escritos ela com benevolência aceitava como brincadeiras “não perigosas” (em todo caso sempre melhores do que os jogos de carta ou os namoros com meninas levianas), podia tomar a palavra nesse lugar cheio de responsabilidade, entre homens célebres e experimentados, para manifestar suas opiniões. Se eu tivesse escrito as mais belas poesias de Keats, Hölderlin ou Shelley, não teria isso produzido nos que me cercavam tão completa mudança de opinião em relação à minha pessoa. Quando eu chegava ao teatro, os espectadores mostravam uns aos outros o jovem enigmático que de maneira misteriosa penetrara no santuário reservado para as pessoas velhas e venerandas. Como eu freqüentemente e quase regularmente publicava trabalhos no folhetim, incorri em breve no perigo de tornar-me uma pessoa de respeito e de importância na localidade, perigo a que eu, porém, felizmente, me subtraí a tempo, surpreendendo, uma manhã, a meus pais com a comunicação de que queria estudar no semestre seguinte em Berlim. Minha família respeitava demasiado a minha pessoa, ou melhor, a “Neue Freie Presse”, a cuja sombra eu me encontrava, para não deixar de aceder ao meu desejo. 
 
 
III. BIBLIOGRAFIA adicional sugerida pelo gerente do blog 
 
 
ALMEIDA, Paulo Roberto de: Stefan Zweig e o país que não chegou ao futuro, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 20/04/2025
 
BIBLIOTHÈQUE NUMÉRIQUE ROMANDE: Le Monde d'Hier, traduzido do alemão para o francês por Jean-Paul Zimmermann, 1948, 522 p.
 
CHACON, Vamireh: Tragédia e Equívoco de Stefan Zweig, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 16/09/2026
 
SCHWAMBORN, Ingrid: Stefan Zweig e suas viagens pelo Brasil, publicado pelo Blog do Braga em 17/01/2018
 
ZWEIG, Stefan: O mundo insone, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 16/02/2025
 
_____________: JEAN JAURÈS, o socialista, publicado pelo Blog de São João del-Rei em 25/04/2025
 
_____________: O Rio antigo, publicado pelo Blog do Braga em 15/09/2024
 

4 comentários:

Francisco José dos Santos Braga disse...

Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

Prezad@,
Nas páginas 123 a 137 de O MUNDO QUE EU VI (1942), STEFAN ZWEIG relembra seu encontro com Theodor Herzl, editor de cultura do Neue Freie Presse (Nova Imprensa Livre) e idealizador do sionismo moderno. Esse trecho retrata a generosidade de Herzl ao incentivar jovens talentos literários, oferecendo um vislumbre da aura aristocrática e magnética do líder vienense, pouco antes de sua morte. Convido-o a desfrutar da beleza dessas páginas da autoria do autor de Brasil, um País do Futuro.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/10/encontro-de-stefan-zweig-com-theodor.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

George Bernanos em Barbacena: 1940-1945 - Francisco Braga

 George Bernanos em Barbacena: 1940-1945

VAMIREH CHACON brilhou como um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros.
Tive a oportunidade de privar da amizade de Vamireh Chacon, um assíduo frequentador da Biblioteca do Senado Federal e funcionário do ILB-Instituto Legislativo Brasileiro (que goza de status de escola de governo do Legislativo, através das plataformas Saberes e Interleges), enquanto eu exercia o cargo de Consultor Legislativo. Mais tarde, mantivemos profícua correspondência e tive a honra de acolher seus comentários a muitas matérias de meus dois blogs.
Neste post, apreciaremos o ensaio desse grande jurista e cientista político sobre a estada de GEORGES BERNANOS em Barbacena (de agosto de 1940 a junho de 1945), enriquecida pela pesquisa de Chacon na correspondência do pensador católico francês e no testemunho de vários de seus amigos no Brasil.

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Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

BERNANOS EM BARBACENA

 Por Vamireh Chacon *

Transcrevemos o ensaio intitulado Bernanos em Barbacena pelo notável pensador pernambucano, extraído do seu livro “O Humanismo Brasileiro”, São Paulo: Summus Editorial: Secretaria da Cultura, 1980, pp. 248-257.
 
VAMIREH CHACON de Albuquerque Nascimento (✰ Recife, 01/02/1934 ✞ Brasília, 18/09/2023)
 
A Serra da Mantiqueira atinge um pouco mais de dez mil metros de altura em Barbacena. Hoje, quase à beira da estrada entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, aos pés do monte Grogotó, onde agora se situa um moderno hotel, encontra-se o antigo Sítio Cruz das Almas, no qual se asilou Georges Bernanos, durante quase toda a Segunda Guerra Mundial. A Prefeitura local, nos tempos de Simão Bias Fortes, desapropriou o pequeno conjunto de casas brancas, com janelas verdes e uma área circundante, centro da propriedade antigamente rural. Ali morou o Unamuno ¹, católico e francês, Bernanos. 
Quem chega à residência, cercada de arame farpado em postes tortos, logo se defronta com o nicho da Virgem de Lourdes sobre o portal da entrada, devoção francesa antes de universal. No interior, poucos móveis, de escasso valor e menor gosto; livros mal conservados pela umidade e pior pela apresentação desarrumada. O que vale, aqui, são essas paredes nuas, esse piso rijo, esse teto ascético; a seu modo, retratos do próprio Bernanos. Dele, que pretendera fazer da sua casa mineira "algo que se parecesse a uma fazenda nossa" (da França). ²
Certo dia, Afonso Arinos de Melo Franco e Anah almoçaram ali, "que ele arranjara carinhosamente, um pouco ao jeito de uma casa rural de Lorena."E ouviram da sua boca longos poemas... ³
O escritor francês vivia apenas na companhia da sua família. Visitantes, raros; visitas ao Rio de Janeiro, ou Belo Horizonte, menos ainda. O cidadão curtia a vergonha da desordem do mundo, com apelos quase desesperados para transformá-lo. 
Mas guardava a intimidade daquele lar rústico, camponês mesmo, na comunhão da Fé e da Terra. Nos últimos dias de permanência no Brasil, escrevia:
“Felizmente nossa casinha acha-se longe dessas agitações políticas, sobre uma colina solitária, como se ela tivesse vindo pousar naquele ponto, uma noite por acaso, depois de uma longa viagem aérea, esperando abrir as asas e retomar o voo àquela hora da madrugada em que os grandes eucaliptos fremem, antes de enrubescer até o cimo, ao levantar do sol.”
A vida era monotonamente simples, para alegria de solitário Zaratustra ⁴ humano, demasiado humano, apesar de também peregrino do absoluto:
“Cada manhã, ao levantar, logo depois do café, o meu bom cavalo Osvaldo me esperava na porta. Como o frade ao seu ministério; como o soldado ao exército, ou mais exatamente, como o empregado ao escritório, íamos nós — um levando o outro — até a cidade, para de lá voltar ao meio-dia com o único fim de nos dar o prazer de retornar às três horas e não vir para a casa senão à noite — a noite seca, fria e penetrante de inverno ou essas admiráveis noites de verão; essas noites quentes de perfume selvagem como o flanco de uma fera.”
Depois de meditar e escrever em bares pobres, no meio da algazarra que o unia ainda mais à Vida, retornava na mesma cavalgada de silêncio.
“Caros amigos: se algum de vós passar um dia por Barbacena e quiser se lembrar de mim, lance um olhar sobre esse café minúsculo e reflita que eu ali fiz a experiência de quase todas as formas de solidão; ali me achei muitas vezes — ali à beira da calçada, no vaivém dos transeuntes — só — sim, tão só! Como o meu país.” ⁵
O itinerário fora longo. 
Georges Bernanos nasceu e morreu em Paris, antes e logo após os dois conflitos mundiais. Esteve no Brasil de 1938 a 1945, em seguida a apenas onze dias no Paraguai. Entre nós habitou, de início, no Rio de Janeiro, Itaipava, Juiz de Fora, Vassouras, Pirapora, Belo Horizonte e Barbacena, onde se fixou durante quatro anos. Em Vassouras, escreveu Nous autres Français; em Pirapora, na fazenda Santo Antônio, perto do rio São Francisco, redigiu Les enfants humiliés e completou Monsieur Ouine; finalmente, no último pouso, Lettre aux Anglais, Le Chemin de la Croix-des-Âmes, Écrits de Combat e La France contre les Robots; ampla bibliografia de ensaios, nela se destacando um romance. 
E ao relê-los, nos dias atuais, não se pode reprimir o protesto que Bernanos tenha sido, com frequência, apresentado como pequeno-burguês neurótico, ele que escrevera La grande Peur des bien Pensants. Daí se ter tornado tão pouco lido e sua casa ainda menos visitada... 
A nós, brasileiros, o escritor que repelia os dois extremismos máximos da Guerra Civil espanhola, em Les grands Cimétières sous la Lune, interessa em particular, pois raros os estrangeiros que tanto sentiram e sofreram o Brasil. No seu "Salut au Brésil" ⁶, com entusiasmo exclamava, naquele seu tom mais oratório que retórico, porque espontâneo e límpido:
“Do alto de nossa pequena colina da Cruz das Almas, vemos, há semanas, fundirem-se, pouco a pouco, nossos maus caminhos, como manteiga numa panela queimante. A graciosa cidade branca, a meia légua, parece tão perto, porém nenhum carro ousaria arriscar-se até nós e os próprios cavalos percorrem, com desconfiança, esta estrada arrasada que deslisa, pouco a pouco, sobre sua inclinação mesma.” 
E, entendendo, ao mesmo tempo que denunciava, concluía, num ímpeto de amargor e solidariedade:
“O trabalho da terra foi reservado aqui — pelo menos em parte — desde longo tempo, aos escravos. Claro, que não tenho qualquer título para dirigir-me aos intelectuais brasileiros, senão, talvez, a profunda gratidão que lhes devo, pelo generoso, magnífico acolhimento, que quiseram por bem dar ao meu livro, escrito no exílio...”
Mas, em seguida, numa advertência com frequência pouco do agrado dos bem pensantes de qualquer tipo:
“Que eles me permitam, contudo, uni-los hoje, no meu pensamento, a estes homens obscuros, cuja missão não é garantir a Liberdade, e sim assegurar à sua Miséria um bem ainda mais precioso, a Consciência da Liberdade. Pois não é a Servidão que faz os escravos, é a aceitação da Servidão. E há algo pior que a aceitação da Servidão: a ela conformar sua vida, a ponto de nela se achar à vontade e, enfim — ignorá-la.” (grifo nosso)
A bela paisagem montanhesa não o hipnotizava. Nem o induzia a esquecer a tragédia do mundo, naquele momento culminando na dominação fascista da França:
“Foi no sertão que tomei conhecimento da Queda de Paris. A tarde já empalidecia, o sol vermelho do curral entrava na pobre casa, com o voo dos primeiros morcegos. A floresta imensa, a floresta anã e disforme, torturada pela sede, estendia-se ao Infinito em torno dos nossos muros de argila. Lá estávamos sós, verdadeiramente sós, sós como mortos, enquanto a horrenda voz nasal de uma estação de rádio, alimentada por uma bateria fora de uso, anunciava-nos que a bandeira alemã flutuava sobre Notre-Dame... Tenho o direito de escrever que o Povo brasileiro odeia a Servidão, pois, desde a primeira notícia do desastre, eu o vi odiar a nossa...” ⁷ (grifo nosso)
Por que não se evoca este Bernanos, também o profeta contra a mecanicista tecnização do Homem, o mesmo que insistia na repulsa às condições degradantes dos trabalhadores rurais, ao seu redor? O Bernanos que bradava, no prefácio à Lettre aux Anglais, em 15 de janeiro de 1942:
“O Brasil não é, para mim, o hotel suntuoso, quase anônimo, onde depositei minha valise, esperando retomar o oceano e regressar à minha terra: é meu lar, é minha casa...”
O povo brasileiro, mais do que as suas elites, tornou-se a fonte de inspiração de Bernanos, vez por outra, saindo de casa para escrever numa taberna de beira de estrada de Barbacena, melhor do que se estivesse numa confeitaria carioca ou num café parisiense.
“Foram vossos camponeses que me fizeram compreender vossos intelectuais — eis a verdade. Compreendi que vossos intelectuais se serviam da nossa cultura contra uma certa concepção da vida, que vosso povo repele instintivamente... Vossos intelectuais se servem da nossa cultura, porque ela é, para eles, o instrumento mais apropriado à defesa comum; porém é do fundo popular que têm o sentimento quase psíquico do perigo corrido, a vontade de vencê-lo.” (grifo nosso)
Diante até mesmo dos brasileiros impacientes em compadecerem-se com o suposto Paraíso europeu perdido pelos ancestrais imigrantes, Bernanos respondia:
“A terra do meu país é uma terra amiga do homem. A vossa não é vossa inimiga, certamente, mas ela vos ignora; estais sós diante dela, sem aldeias, sem vizinhos, com vossas pobres famílias. Aqui, o homem conquista a terra selvagem pelas suas próprias forças, as mãos nuas.Que isto faça rir os mercadores de quinquilharia mecânica, bem o espero. Eles não rirão sempre. 
Pois é assim que se formam os grandes povos, os povos livres; é assim que todas as forças e toda a paciência da terra passam aos músculos e corações dos homens. Assim o ritmo de vosso esforço não é o mesmo daquele nosso, ou melhor, vosso esforço guardou um ritmo que o nosso perdeu. Assim podeis sofrer e durar, lá, onde qualquer outro, além de vós, esgotaria em pouco tempo sua coragem. Porém este segredo de vossa força é também o de vossa incomparável resignação.” (grifo nosso)
Após todas as dificuldades, "tereis dado ao mundo um tesouro mil vezes mais precioso que as pastagens e os vergéis, ter-lhe-eis dado um povo livre, formado para a Liberdade." (grifo nosso)
No Sítio de Cruz das Almas, que ele traduzia para Croix-des-Âmes, com ressonâncias ao mesmo tempo tão brasileiras e francesas, Bernanos passou quase cinco anos, repensando o que sentira nas cidades e nos campos, na Serra ou no vale do São Francisco, sobre o seu e o nosso país. Desde agosto de 1940 a junho de 1945, tempos de meditação e participação, analisando e escrevendo sobre o drama do vizinho e a tragédia do mundo, a paz dos arredores e a guerra distante. O pensador católico, escrevendo em ficção e não só ensaio, é o panfletário da Resistência, publicando nos jornais franceses clandestinos ou que, no exílio, desabrochavam no trópico mineiro. Ali Georges Bernanos amadureceu tanto a reflexão quanto o estilo. 
Os brasileiros ajudaram-no com desafios e até injustiças, não apenas com apoio e amizade. 
Parecia insólito um escritor católico que não fosse beato. Catolicismo tinha um sentido tradicional, conservador, querendo justificar seus Antiliberalismo e Anti-Socialismo como respostas ao anticlericalismo. Para Bernanos, estes problemas não existiam. 
Daí que, logo à sua chegada, ouviu-se o protesto. Guilherme Auler — historiador depois diretor do Museu Imperial de Petrópolis, membro do grupo Fronteiras que reunia a fina flor monárquica, à direita do próprio Fascismo — apresentou-se como porta-voz. Escreveu dois violentos artigos de recepção ao auto-exilado. 
No primeiro, começava indagando-se:
“Por que Georges Bernanos, escritor de relativa fama, abandona a França, a Europa enfim, para vir residir no Brasil? Motivo de simpatia intelectual com os brasileiros é argumento de caça-níqueis. Bernanos é um difamador e um espião comunista (sic). Não são palavras nossas. É o arcebispo de Majorca, Dom José Miralles Sbert, quem o afirma publicamente em documento irrespondível.” ⁸
Pois, em julho Bernanos atacara Franco e o clero que o apoiava, na revista New Statesman. O prelado respondeu-lhe, no mês seguinte, pelas páginas de America, ambas nos Estados Unidos. O fiel, que assistira na Espanha às violências em nome de Cristo contra os anticristãos, desentendia-se com o conivente hierarca. 
Não deixando o ódio esfriar, Auler logo voltou à carga, contra o autor de Les grands Cimetières sous la Lune, "um nojento livro" (sic). E arrolava a lista de adversários católicos de Bernanos. ⁹
Na realidade, insultando-o em fins de 1938 e princípios de 1939, Auler e asseclas brasileiros uniam-se aos nazi-fascistas dedicados a tarefas idênticas. Entre eles Karl Epting, lançando anátemas contra Bernanos de Berlim, em pleno auge do conflito mundial logo em seguida. ¹⁰
Os tempos depois mudariam. À calúnia seguir-se-ia o silêncio dos bem pensantes, ironizados por Georges Bernanos em livro que marcou época. Bem pensantes a serviço ora dum ora doutro extremismo, que os desobriguem de distinguir, que é a substância do pensamento. 
Enquanto isto, Bernanos meditava na noite tropical. Em carta publicaada no jornal parisiense Le Figaro, em 27 de dezembro de 1942, escrevia do Rio de Janeiro:
“Este país, esta cidade, não se podem crer. Esta cidade tão bela, tão prodigiosamente bela, tão bela e tão humilde. Tem o ar de deitar-se a vossos pés, com suas jóias, seus perfumes e seu olhar de inocência e a docilidade dos animais. O ar é uma doçura selvagem. E agora, graças ao Céu, estou como um velho guerreiro, curtido pela guerra, no meio de crianças.” ¹¹
E, de Pirapora, no sertão do Alto São Francisco:
“Estranho país! À primeira vista se é fortemente tentado de retomar o trem e fugir. Depois, acostuma-se pouco a pouco, e creio que se termina por amá-lo. O horizonte assemelha-se ao de certas províncias francesas, colinas bastante parecidas com as de Tours... Quanto à cidade, é uma autêntica aldeia de desbravamento, muito cinematográfica, com casas em construção por toda parte, uma desordem surpreendente.” ¹²
Para ver melhor e não esquecer, ao contrário do que dizem alguns críticos. Bernanos internara-se na distante fazenda Santo Antônio, de Virgílio de Melo Franco, "companheiro ideal" na definição do seu irmão Afonso Arinos de Melo Franco, cercado durante oito meses por imensos rebanhos, no cerrado a perder de vista. Virara feitor de animais, já não quisera ser de homens, a serviço de ideologias totalitárias. Daquela distância remota, podia entender, na plenitude, a grandeza da tragédia humana em sua Europa nativa e do próprio Brasil dos campos, ignorados pela sofisticação urbana dos intelectuais seus amigos. 
Pouco a pouco o velho leão — "grande, gordo, moreno como um cigano, os bigodes bastos e a juba leonina", "aleijado de uma perna", com "aspecto rebarbativo" se não fossem "os olhos rasgados e azuis, olhos puros de criança, que pareciam sempre à espera do prêmio ou do castigo", no retrato vivido por Afonso Arinos de Melo Franco ¹³ — o sofrido leão foi aceitando aproximar-se dos católicos brasileiros. 
Alceu Amoroso Lima começaria falando em Maritain, quando o que o aproximava de Bernanos era a evocação da morte de um amigo desconhecido. ¹⁴ Jorge de Lima perturbava-lhe a paz, pedindo-lhe que intercedesse por votos na sua candidatura à Academia Brasileira de Letras, para decepção de Bernanos. ¹⁵ As comparações dele com Léon Bloy também o desagradavam, apesar do que supunham os críticos. ¹⁶
E quando Georges Bernanos teve de retornar à França, atendendo a apelo pessoal do General De Gaulle, precisou vender seu único bem ¹⁷, aquela casinha de Barbacena, quase no fim da Mantiqueira, quando a Serra principia a descer na direção do mar. 
De volta a Paris, escrevia a Virgílio de Melo Franco solicitando assinaturas do Correio da Manhã, então o mais prestigioso jornal carioca, pedindo a Deus para não morrer sem rever o Corcovado no horizonte... ¹⁸ E, a Fernando Carneiro, mal comparava sua nova casa, perdida nas montanhas francesas, sem água nem eletricidade, quase sem vidros, com a que construíra e deixara sob trópicos que acabaram sendo tão acolhedores. ¹⁹
E, perto de morrer, já em 1948, escrevendo do interior da Tunísia para onde fugira na busca de um rude sertão mais próximo da França, dizia a Georges Duhamel, companheiro de glória literária e sem conexões lisonjeantes com o além-mar, quanto sofria por ter abandonado Cruz-das-Almas: "Como lamento ter deixado o Brasil! Se ainda estivesse lá, teria pelo menos a certeza de ser útil ao meu país." Era a possibilidade de trabalhar com dominicanos franceses e intelectuais brasileiros familiarizados com Bloy e Péguy. ²⁰
Perto de morrer, voltaram-lhe as lembranças dos amigos fiéis: Alceu Amoroso Lima, Virgílio e Afonso Arinos de Melo Franco, Pedro Octavio Carneiro da Cunha, Carlos Chagas Filho, Jorge de Lima, Edgar da Mata Machado, Augusto Frederico Schmidt, Fernando Carneiro, Álvaro Lins, Raul Fernandes, Oswaldo Aranha, Otto Lara Resende, Murilo Mendes, Assis Chateaubriand, Dario de Almeida Magalhães, Austregésilo de Athayde e Miguel Osório de Almeida, para lembrar só alguns dos privilegiados pelo seu convívio. 
No Brasil, Bernanos pensara ter vindo curtir sua vergonha pelo descalabro europeu, que levaria à II Guerra Mundial, porém aqui reencontraria seu orgulho e "foi este povo que mo devolveu." ²¹
As ruínas de que ele fugia eram, de resto, mais as invisíveis do que as visíveis, as de um mundo que desabara mais dentro dele do que em torno. Assim como os sentimentos que o levaram a evadir-se eram os de nojo e cólera; não os do interesse ou do temor. 
Nas páginas também escritas no Brasil continuaria ressoando, para sempre, sua voz:
“Aquela voz apaixonada ressuscitava bravuras extintas, coragens de outras eras, teimosamente, como quem recusava nivelar-se ao morno conformismo das derrotas...” ²²
Georges Benanos descobrira, nos intelectuais encontrados nas ruas do Rio de Janeiro e principalmente nos camponeses perdidos pelos sertões, a certeza da universalidade do drama humano, em carne viva na Espanha dilacerada por uma Guerra Civil, prelúdio doutra mundial, anúncios do fim de um mundo insensato. A cujo naufrágio e redenção é preciso enfrentar com coragem e esperança. 
Daí a validade das últimas palavras de Bernanos em nosso país, dirigidas à juventude:
“Moços e moças do Brasil, o que hoje vos escrevo é tudo o que vos deixarei de mim e, quando vos lembrardes do velho escritor de Cruz das Almas, dentro de vinte anos, de trinta anos — se vossa memória, por um impossível, me for fiel até então — estas palavras, desde muito esquecidas, é que se levantarão talvez, a despeito de vós mesmos, das profundezas de vossa consciência. 
Moços e moças, escutai-me bem, eis a minha última mensagem. A Liberdade não deve apenas ser amada, a Liberdade pouco se incomoda, atualmente de ser amada, ela deve ser salva, ela exige a sua salvação. Jovens amigos meus, é antes de tudo em vós mesmos, e em vossos espíritos, que salvareis a Liberdade. A Liberdade vos impõe uma clarividência heróica de que seríeis certamente dispensados numa sociedade digna desse nome. Se a exigência é de algum modo inumana, a culpa é de uma sociedade inumana. Pois, as místicas sanguinárias do Nacionalismo, do Racismo e do Partido substituíram as fidelidades tradicionais, as fidelidades humanas da Família e da Pátria, a obediência absoluta, totalitária, a idolatria do Estado ou do Partido. ²³  (grifo nosso)
Atentai para que essas opiniões e esses credos não sejam senão fórmulas de segurança. Católicos, vós vos assegurais contra os riscos do inferno. Socialistas, contra os riscos desse outro inferno, não menos cruel e inflexível, que se chama o determinismo econômico. Comunistas, contra o Fascismo. Fascistas, contra o Comunismo. 
Por que haveis de vos assegurar contra o amanhã? O amanhã, sois vós!” ²⁴
Mais que um francês, um escritor de todos os tempos falava não só à juventude brasileira, aos moços e moças de todas as épocas.
 
II. NOTAS EXPLICATIVAS
 
¹ Nota do gerente do Blog: Miguel de Unamuno(1864-1936) foi um ensaísta, romancista, dramaturgo e filósofo espanhol católico, cuja obra é frequentemente estudada em conjunto com a de Bernanos por tratarem ambos os autores, na literatura comparada católica ou existencial, de temas ligados à angústia espiritual, a fé agoniada e o sentimento trágico da vida.
² Carta ao Coronel X, Rio de Janeiro, abril, 1945, in Correspondance, recolhida por Albert Béguin e escolhida e apresentada pela Irmã Jean Murray O. P., Paris: Plon, tomo II, 1934-1948, 1971, p. 561.
³ A Alma do Tempo (Memórias: Formação e Mocidade) por Afonso Arinos de Melo Franco, Rio de Janeiro: Livr. J. Olympio Edit., 1961, p. 384. 
⁴ Nota do gerente do Blog: Zaratustra (também conhecido como Zoroastro) foi um antigo profeta e reformador religioso persa que fundou o zoroastrismo, uma religião seguida pelos Aquemênidas e uma das religiões monoteístas mais antigas da história humana.
Sua existência real é objeto de debates entre historiadores, mas sua figura moldou profundamente a espiritualidade do Oriente Médio Antigo e, séculos mais tarde, inspirou a filosofia ocidental. 
Entre seus principais ensinamentos, estão os seguintes resumidamente:
- Deus Supremo: Há um único deus criador, Ahura Mazda (o "Senhor da Sabedoria"), que representa a luz, a verdade e a ordem cósmica;
- Dualismo ético: O zoroastrismo apresenta o universo como um campo de batalha entre o bem (representado por Ahura Mazda) e o mal (representado por Angra Mainyu ou Ahriman)
- Livre arbítrio: Para Zaratustra, os seres humanos possuem a liberdade de escolher entre o caminho da verdade (Asha) e o da falsidade/caos (Druj), sendo responsáveis por suas escolhas morais.
O pensador alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) usou o nome do profeta na famosa obra Assim Falava Zaratustra (1883). No livro, Nietzsche utiliza Zaratustra como um alter ego fictício para proclamar o niilismo, a "morte de Deus", a chegada do Além-do-homem ou Super-homem (Übermensch) e o anúncio da crise dos valores do Ocidente (a transvaloração dos valores tradicionais). O eterno retorno é outro conceito central do livro, segundo o qual toda a existência se repetiria infinitamente.
⁵ "A Liberdade não deve apenas ser amada II", Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1945. E noutros Diários Associados. 
⁶ Nota do gerente do Blog: Não se trata de um poema, nem de um livro independente; trata-se na realidade, de um artigo ou texto de combate (ensaio/crônica) escrito em janeiro de 1943.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Bernanos exilou-se no Brasil, de onde escreveu diversos textos de resistência e de reflexão política. Esse texto específico foi posteriormente compilado e publicado em suas coleções de escritos de guerra e correspondências, notadamente na obra póstuma Le Chemin de la Croix-des-Âmes.  
⁷ Lettre aux Anglais, Rio de Janeiro: Atlântica Editora, 1942, pp. IV, V, I, VII e IX-XI. 
⁸ "O indesejável 'Monsieur' Bernanos. Um novo embaixador dos soviets?", Fronteiras, Recife, ano VII, nº 10, outubro, 1938. Curiosamente, um ano antes, quando as posições, de Bernanos contra Franco na Guerra civil espanhola, eram menos notórias, a mesma revista Fronteiras publicava uma recensão de João Vasconcelos, favorável à Nouvelle Histoire de Mouchette ano VI, nº 28, setembro de 1937). Ainda Fronteiras promoveria violenta campanha contra Jacques Maritain, por conta de idênticos motivos, sendo então ecoada por muitos outros setores.
⁹ Ainda "O indesejável 'Monsieur' Bernanos", Fronteiras, Recife, ano VIII, nº 2, fevereiro, 1939. 
Pode ser um paradoxo, mas o certo é que Bernanos admirava o Conde de Paris, herdeiro do Trono da França, então muito em evidência, conforme se vê na sua carta a René Prouvot, em 9 de julho de 1939, in Correspondance, ob. cit., p. 255. Os monarquistas brasileiros ignoravam-no...
¹⁰ "Georges Bernanos", Frankreich in Widerspruch, Hamburgo, Hanseatische Verlargsanstalt, 1943, p. 65. 
¹¹ Carta recohida por André Rousseaux, inCorrespondance, ob. cit., p. 225. 
¹²  Carta a René Prouvot, em 5 de julho de 1939, in idem, pp. 254 e 255.
¹³ Melo Franco, ob. cit., p. 384. 
¹⁴ Carta a Amoso Lima, em 26 de setembro de 1938, in Correspondance, ob. cit., p. 227. 
¹⁵ Carta a Jorge de Lima, em 5 de janeiro de 1945, ob. cit., pp. 557 e 558. 
¹⁶ Carta novamente a Jorge de Lima, idem, pp. 558 e 559. 
¹⁷ Carta ao Coronel X, ibidem, pp. 551 e 552. 
¹⁸ Carta a V. Melo Franco, em 24 de dezembro de 1945, ibidem, pp. 594 e 595. 
¹⁹ Carta a F. Carneiro na mesma data, ibidem, p. 593. 
²⁰Carta a G. Duhamel, 15 de março de 1948, ibidem, p. 751. 
²¹ Lettre aux Anglais, ob. cit., p. I.
²² Alma do Tempo, ob. cit., pp. 384 e 385. 
²³ "A Liberdade não deve apenas ser amada!", Diário de Pernambuco ( e todos os Diários Associados), 10 de junho de 1945. 
²⁴ Idem, nº II, 13 de junho de 1945, ob. cit.
Ficou um registro sinótico dos amigos brasileiros de Georges Bernanos in Bernanos no Brasil, ed. por Hubert Sarrazin, com depoimentos de Jorge de Lima et alii, Petrópolis, Vozes, 1968. 
O Humanismo Brasileiro por Vamireh Chacon (272 p.)

* Vamireh Chacon foi um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros. Nascido no Recife, Pernambuco, dedicou sua vida ao estudo profundo da identidade nacional, da história política e das ideias sociais do Brasil. Sua formação acadêmica incluiu: graduado simultaneamente em Filosofia pela Universidade Católica de Pernambuco e em Direito pela Faculdade de Direito do Recife (FDR) em 1956. Concluiu seu doutorado em Direito também pela FDR em 1959. Obteve pós-doutorado pela Universidade de Chicago, nos EUA em 1960, tendo no mesmo ano concluído o ciclo de pesquisa focada na área de Sociologia do Desenvolvimento. Retornando ao Brasil, obteve o título de livre-docente na FDR. Posteriormente, realizou estudos de Sociologia na Alemanha, onde morou por cerca de quatro anos. Foi na UnB que consolidou grande parte de sua carreira, tornando-se Professor Emérito, tendo atuado como chefe do Departamento de Ciência Política e Decano de Extensão. Publicou mais de 30 livros ao longo de sua vida. Sua obra é caracterizada pela análise da formação da sociedade brasileira, com forte influência da Escola do Recife e do pensamento de Gilberto Freyre. Chacon era considerado um defensor do "iberismo brasileiro", analisando as raízes culturais ibéricas do Brasil em diálogo com a modernidade universal. Membro titular e fundador da Academia Brasileira de Filosofia (cadeira nº 39) e membro da Academia Pernambucana de Letras, Chacon recebeu as maiores honrarias das letras nacionais. Em 2014, foi o grande vencedor do Prêmio Machado de Assis, concedido pela Academia Brasileira de Letras (ABL) pelo conjunto de sua obra. A cooperação intelectual de Vamireh Chacon com o Senado e com os órgãos de editoração do parlamento remonta à década de 1970 e passando pela publicação de suas grandes obras oficiais nos anos 1990. Sua atuação como servidor em comissão do ILB encerrou-se em março de 2019. 

5 comentários:

  1. Francisco José dos Santos Braga (compositor, pianista, escritor, tradutor, gerente do Blog do Braga e do Blog de São João del-Rei) disse...

    Prezad@,
    VAMIREH CHACON brilhou como um dos mais brilhantes cientistas políticos, juristas, historiadores, professores e escritores brasileiros. 
    Tive a oportunidade de privar da amizade de Vamireh Chacon, um assíduo frequentador da Biblioteca do Senado Federal e funcionário do ILB-Instituto Legislativo Brasileiro (que goza de status de escola de governo do Legislativo, através das plataformas Saberes e Interleges), enquanto eu exercia o cargo de Consultor Legislativo. Mais tarde, mantivemos profícua correspondência e tive a honra de acolher seus comentários a muitas matérias de meus dois blogs.
    Neste post, apreciaremos o ensaio desse grande jurista e cientista político sobre a estada de GEORGES BERNANOS em Barbacena (de agosto de 1940 a junho de 1945), enriquecida pela pesquisa de Chacon na correspondência do pensador católico francês e no testemunho de vários de seus amigos no Brasil.

    Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2026/09/bernanos-em-barbacena.html

    Cordial abraço,
    Francisco Braga
    Gerente do Blog de São João del-Rei


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