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domingo, 12 de abril de 2026

O petróleo, produtor de riquezas e das maldições da corrução e das guerras - The Economist, introdução e resenhas de Paulo Roberto de Almeida

O petróleo, produtor de riquezas e das maldições da corrução e das guerras

The Economist, introdução de Paulo Roberto de Almeida

Contrastes entre o “excesso” de riqueza em algumas partes do mundo e a resiliência da miséria e da pobreza em muitas outras partes do nosso planetinha redondo. A discussão da Economist se refere ao caso da Noruega, um país que saiu de uma pobreza “normal” no século XIX, para uma afluência invejável já em meados do século XX, e que depois “mergulhou” numa riqueza extraordinária, graças a uma “dádiva da natureza”, o petróleo, fonte de muita riqueza, mas também de corrupção, exageros geopolíticos e de várias guerras no Oriente Médio, a fonte por excelência do petróleo dos nosso tempo. Vai demorar ainda muito tempo para que esse nauseabundo e precioso produto deixe de produzir riqueza e de atrair a ambição dos poderosos, como sempre foi o caso do ouro no mundo.

Já escrevi um pouco sobre essas questões— e remeto aqui a minhas resenhas dos livros de Daniel Yergin, mas reproduzo abaixo a matéria da Economist sobre a Noruega. PRA

THE ECONOMIST

05 abril 26

É possível um país ficar rico demais?

A Noruega mostra os potenciais perigos de uma prosperidade incomum

A homenagem da Noruega a Edvard Munch, o pintor mais famoso da Escandinávia, é uma impressionante estrutura de 13 andares feita de alumínio e vidro reciclados, construída na orla do porto de Oslo. Concluída em 2021, ao custo de US$ 350 milhões, sua obra foi ainda mais impressionantemente atrasada (em uma década) e com um estouro de orçamento (de US$ 200 milhões). Erguendo-se acima da densa névoa que cobre o mar em uma tardede inverno, o museu encapsula o país que o financiou: sofisticado e tão rico que dinheiro não é problema.

O petróleo norueguês construiu uma economia que é a inveja de outros países ricos, para não mencionar os pobres. O PIB per capita é de impressionantes US$ 90 mil, ficando atrás apenas de cidades-Estado, paraísos fiscais e da Suíça. 

Desde 1991, o governo acumulou um fundo soberano no valor de US$

2,2 trilhões, ou US$ 400 mil para cada um dos 5,6 milhões de habitantes da Noruega. Os rendimentos sustentam um dos estados de bem-estar social mais generosos do mundo.

No entanto, nem todos os noruegueses estão satisfeitos com isso. Em 2025, o livro de não ficção mais vendido no país foi "O País que Ficou Rico Demais", uma crítica ao modelo econômico escrita por Martin Bech Holte, economista e ex-consultor da McKinsey.

 Bech Holte captou um sentimento emergente. Nas eleições de setembro passado, o partido Progresso, de centro-direita, que argumentou que a Noruega “joga mais dinheiro nos problemas” e precisa parar, foi o partido que mais ganhou terreno. A preocupação é que a riqueza da Noruega esteja distorcendo o comportamento de todos, desde políticos a trabalhadores de escritório e estudantes. Confiantes em receber generosos auxílios, poucos se preocupam o suficiente com o futuro. Será que a riqueza de um país pode comprometer suas perspectivas?

Com os lucros inesperados do petróleo e os retornos dos investimentos, que dobraram o tamanho do fundo soberano na última década, os políticos noruegueses tornaram-se perdulários, acredita Bech Holte. Embora o fundo invista apenas no exterior, para evitar prejudicar o setor privado nacional, ele canaliza dinheiro de volta para o governo, que o utiliza para cobrir a diferença entre gastos e impostos. Em 2008, esse pagamento foi de modestos 36 bilhões de coroas norueguesas (US$ 6,4 bilhões na época), ou menos de 5% das despesas. Em 2025, 414 bilhões de coroas norueguesas (US$ 40 bilhões), um quinto dos gastos, vieram do fundo petrolífero.

Isso está tendo consequências perversas. Os políticos podem adiar decisões difíceis. Os eleitores veem poucos motivos para moderar as demandas por mais gastos. Considere a saúde, a maior despesa do governo. Em média, os serviços médicos custam 30% a mais na Noruega do que na União Europeia.

Mas por que reformar hospitais quando se pode simplesmente investir mais dinheiro no problema? A Dinamarca, que gasta quase o mesmo por pessoa que a Noruega, reduziu o tempo de espera para cirurgias de rotina duas vezes mais rápido que seu vizinho do norte.

Poucos parlamentares se preocupam em avaliar os benefícios e custos econômicos de suas propostas, lamenta um deles. Essa é uma fraqueza em outros lugares, mas a Noruega parece especialmente propensa a ela. Assim como no caso do Museu Munch, as reformas do prédio do parlamento em Oslo levaram quatro anos, em vez de um, e custaram seis vezes mais do que o previsto. 

Em 2023, o governo destinou 250 bilhões de coroas norueguesas

(US$ 25,25 bilhões), metade da arrecadação de impostos sobre o trabalho e o capital, para ajuda externa e para instituições de caridade nacionais. Esse é um preço alto a se pagar para conquistar boa vontade no exterior e aliviar a culpa climática interna. No Reino Unido, esse valor é inferior a 10% dos impostos sobre o trabalho e o capital.

Os cidadãos noruegueses não são menos perdulários que seus representantes. A dívida média das famílias é de 250% da renda anual, a mais alta da Europa. Quando se pode contar com a riqueza nacional para socorrer, a necessidade de poupar para tempos difíceis parece menos urgente. 

Assim como a necessidade de gerar renda. 

Quase um em cada dez noruegueses na faixa dos 20 anos está desempregado, 

em comparação com um em cada 20 dinamarqueses. A taxa de evasão escolar no ensino médio e na universidade na Noruega está entre as mais altas da Europa. O sistema de ensino superior oferece quantos diplomas o estudante desejar, gratuitamente, além de generosos empréstimos estudantis. Isso incentiva as pessoas a adiarem seus cursos, mudarem de área e prolongarem seus estudos.

Consequentemente, a população é altamente qualificada: mais de 70% dos trabalhadores não qualificados do setor de serviços (como baristas e atendentes de call center) nascidos na Noruega possuem mestrado. Pessoas de origem imigrante ocupam 100 mil vagas de pesquisa em ciência, tecnologia e engenharia, metade do total. Outras 100 mil vagas precisarão ser preenchidas até 2030.

Esse hedonismo financeiro já está prejudicando a economia. O Banco Central reluta em aumentar as taxas de juros diante do alto endividamento das famílias, o que enfraqueceu a coroa norueguesa e afastou investidores estrangeiros. A produtividade dos trabalhadores parou de crescer. Os salários reais estão começando a cair.

Poderíamos argumentar que nada disso importa, desde que o país consiga prover para a população atual e as gerações futuras. O PIB importa, politicamente falando, porque é uma forma de garantir o bem-estar dos cidadãos: diretamente, por meio do trabalho remunerado, e indiretamente, por meio de auxílios financiados por impostos. Em teoria, esse bem-estar pode ser financiado com rendas, e não com produção. Enquanto a riqueza nacional crescer mais rápido do que os gastos do governo, isso pode continuar indefinidamente.

Esse tem sido o caso na Noruega. Embora o Tesouro tenha extraído dez vezes mais dinheiro de sua principal fonte de renda em 2025 do que em 2008, essa parcela representava uma parcela menor da avaliação total do fundo. Enquanto os retornos anuais (ajustados pela inflação) ultrapassarem 6%, o governo poderá reduzir a arrecadação de impostos e aumentar os gastos no ritmo atual, mesmo depois que seus poços de petróleo se esgotarem, o que poderá acontecer em 50 anos.

Doença norueguesa

Essa visão é complacente por dois motivos. Primeiro, na prática, a menos que a inteligência artificial impulsione drasticamente a produtividade global, retornos de 6% podem se mostrar inatingíveis.

 Segundo, e mais importante, uma economia próspera beneficia as sociedades  de maneiras que vão além da subsistência. Os políticos são mais responsabilizados se tiverem de pedir dinheiro aos eleitores por meio de impostos. Investidores estrangeiros trazem novos conhecimentos.

 Muitas pessoas encontram satisfação no trabalho. Tudo isso contribui para o florescimento humano. Ninguém deveria invejar a riqueza da Noruega - exceto, se forem sábios, os próprios noruegueses.”

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PRA: Essa matéria me faz lembrar o livro do historiador inglês Simon Schama sobre a riqueza extraordinária dos Paises Baixos no século XVII, The Embarassment of Riches (O Desconforto da Riqueza). Os neerlandeses se tornaram tão ricos que começaram a ter gastos perdulários e até a especular nos mercados de futuros (que eles inventaram), investindo em tulipas, sim, nessas simpáticas flores importadas originalmente de fora, e que se tornaram símbolos de riqueza, junto com obras de arte, quadros pessoais retratando os ricaços. A especulação sobre as tulipas causou uma febre geral e uma imensa bolha financeira que redundou na primeira crise financeira da história do capitalismo moderno, como estudado pelo historiador americano Charles Kindleberger em Panics, Manias and Crashes (várias edições). Fiz um artigo sobre isso, trazendo a história para os casos de crises no Brasil. Está em um dos meus livros

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 12/04/2026

Nota sobre minhas resenhas: 


Nota sobre minhas resenhas:

219. “O ‘Prêmio’ é o Petróleo”, Montevidéu, 24 novembro 1991, 11 p. “Review-article” sobre o livro de Daniel Yergin: The Prize: The epic quest for Oil, Money and Power (Nova York: Simon and Schuster, 1991, 877 + xxxiii p.) e referência a artigo de Edward L. Morse, “The Coming Oil Revolution”, Foreign Affairs (Winter 1990/1991). Publicado, sob o título “O ‘Prêmio’ do poder mundial é o petróleo” no Caderno Internacional do Correio Braziliense (Brasília: 3 agosto 1992, p. 6). Relação de Publicados n. 092.

337. “Odor de Petróleo”, Brasília: 25 abril 1993, 8 p. Resenha do livro de Daniel YERGIN, O Petróleo: Uma História de Ganância, Dinheiro e Poder (São Paulo: Scritta Editorial, 1992, 932 p.), com base em resenha anterior feita a partir da versão original do livro. Publicado na Revista Brasileira de Política Internacional (nova série: Brasília: ano 36, n. 1, 1993, p. 158-163). Relação de Publicados n. 138.

Ambas resenhas consolidadas nesta postagem do Diplomatizzando:

domingo, 9 de janeiro de 2011
Odor de petroleo: sempre malcheiroso, e tendente a corrupcao
Percorrendo uma livraria recentemente, o que faço de modo muito frequente, como já é do conhecimento de quem frequenta este blog, deparei com um livro que eu já tinha lido, e que tenho, em sua primeira edição original:

Daniel Yergin"
The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power
(New York, Simon and Schuster, 1991, 877 pp)

As resenhas que fiz, na ocasião, da edição americana e sua tradução brasileira, vão aqui referidas a partir da minha lista de publicados:

092. “O ‘Prêmio’ do poder mundial é o petróleo”, Correio Braziliense (Brasília: 3 de agosto de 1992, p. 6, Caderno Internacional) [Resenha crítica do livro de Daniel Yergin, The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power (New York, Simon and Schuster, 1991, 877 pp)]. Relação de Trabalhos nº 219.

138. “[Odor de Petróleo]”, Revista Brasileira de Política Internacional (nova série: Brasília: ano 36, nº 1, 1993, pp. 158-163) [Resenha do livro de Daniel YERGIN, O Petróleo: Uma História de Ganância, Dinheiro e Poder (São Paulo: Scritta Editorial, 1992, 932pp.)]. Relação de Trabalhos nº 337.

Trata-se, provavelmente, da melhor história do petróleo disponível no mercado, embora existam muitos outros livros mais.
Aliás, comprei na minha última passagem pelos Emirados, mais exatamente em Dubai, este livro que também recomendo:

Peter Maass:
Crude World: The Violent Twilight of Oil
(dispenso-me de dar os dados editoriais completos, pois este livro acaba de me ser roubado, quando eu já estava em seu final, o que me impede, temporariamente, de fazer notas e comentários mais elaborados. Voltarei a ele, oportunamente.)

Bem, voltando a livro de Yergin, a edição brasileira, uma nova, é esta aqui:

Daniel Yergin:
O Petróleo: Uma história de conquistas, poder e dinheiro
tradução de Leila Marina U. Di Natale, Maria Cristina Guimarães, Maria Christina L. de Góes; edição Max Altmann
(São Paulo: Paz e Terra, 2010, 1080 p.; copyright Daniel Yergin, 1991, 1992, 2009; ISBN: 978-85-7753-129-5)

Clique em: https://diplomatizzando.blogspot.com/2011/01/odor-de-petroleo-sempre-malcheiroso-e.html

Material completo consolidado nesta postagem de Academia.edu:
https://www.academia.edu/165638797/5277_O_petroleo_produtor_de_riquezas_e_das_maldicoes_da_corrupcao_e_das_guerras_2026_

domingo, 24 de agosto de 2025

Como a Rússia já perdeu a guerra na Ucrânia - Rodrigo da Silva (O Estado de S. Paulo) ; Introdução de Paulo Roberto de Almeida

Uma introdução necessária a esta boa matéria sobre a derrota da Rússia na sua guerra de agressão à Ucrânia.

Paulo Roberto de Almeida

Estatisticas do CDS ucraniano são bastante confiáveis: costumam colocar perdas russas na faixa de 1000 baixas por dia. Economistas dos anos 1950 costumavam falar de “unlimited supply of labor” no caso de paises pobres com altas taxas de fertilidadece de natalidade. A Rússia tem algo semelhante no caso das muitas regiões pobres da sua grande, imensa federação: jovens paupérrimos são comprados para morrer na guerra, literalmente; as famílias aceitam pois isso lhes dá um alívio financeiro inesperado.

Mas a Russia vai sair dessa guerra ainda mais depauperada economicamente e drenada demograficamente. A Ucrânia destruída materialmente e também drenada demograficamente.

Ou seja, Putin destruiu dois países, incluindo o seu próprio, para NADA!

Quem ganhou? Os produtores e mercadores de armas mais ima vez!

Quem perdeu mais? Os paises pobres, mais uma vez, que também perdem com a hostilidade insana entre China e EUA, por culpa dos EUA, um hegemon que não reconhece o seu declínio inevitável, por fatores puramente internos, nada a ver com atos predatórios da China, que simplesmente faz o seu dever de casa (que é tirar o seu próprio povo da miséria, algo que o Brasil tampouco faz, por cegueira de suas oligarquias).

Tragédia humana e mundial trazida por um reles tirano megalomaníaco.

PRA, vamos à matéria agora!

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Como a Rússia já perdeu a guerra na Ucrânia

Rodrigo da Silva

O Estado de S. Paulo, 22/08/2025 

Nesse momento, a guerra na Ucrânia está corroendo a própria estrutura da sociedade russa.

A guerra na Ucrânia é a maior guerra na Europa desde 1945.

A linha de frente do conflito se estende por mais de mil quilômetros, atravessando campos, cidades e áreas industriais – algo sem paralelo no continente desde a 2ª Guerra Mundial.

Só a Rússia já mobilizou mais de 1,5 milhão de soldados. A Ucrânia colocou outros 700 mil em diferentes funções militares.

Não há nada tão violento na Europa nos últimos 80 anos de história. E nada traduz melhor essa violência do que as estatísticas das mortes.

É verdade que a Rússia mantém em segredo os números oficiais de baixas militares no conflito – desde setembro de 2022, o Kremlin não atualiza o seu balanço. Mas as melhores estimativas nos revelam perdas extraordinariamente altas. Até o último mês de junho, pelo menos 250 mil soldados russos morreram na guerra. Os russos registraram 1 milhão de baixas.

O número de militares russos mortos em pouco mais de três anos de conflito é cinco vezes maior que a soma das mortes combinadas da Rússia e da União Soviética em todas as guerras que o país travou entre 1945 e 2022.

Só para colocar em perspectiva: os Estados Unidos perderam pouco mais de 58 mil soldados nos 8 anos da Guerra no Vietnã. A cada ano, a Rússia tem perdido um Vietnã na Ucrânia.

Na verdade, mais do que isso: em míseros 3 anos, morreram mais russos na Ucrânia do que americanos em todas as guerras que os Estados Unidos lutaram desde 1945.

Durante os 10 anos da guerra do Afeganistão, a União Soviética perdeu 15 mil soldados. A Rússia perde isso hoje em um mês de combate na Ucrânia. Com uma diferença considerável: Moscou suportou 15 mil mortos no Afeganistão, sofrendo uma pressão política que tornou o conflito bastante impopular na Rússia. Hoje, o Kremlin lida com o desafio de transportar dezenas de milhares de mortos em muito menos tempo.

O dinheiro, claro, ajuda. Hoje, uma família de um soldado russo morto pode receber, de uma vez, até 14 milhões de rublos em benefícios sociais, o equivalente a R$ 800 mil.

É certamente um dinheiro bem alto para o padrão de vida russo (8 vezes o salário médio anual do país). Só em 2024 o Kremlin destinou o equivalente a US$ 15 bilhões para pagar compensações de morte e invalidez pela guerra – 6% de todo o orçamento federal anual.

E esse buraco não parece ter fim. No ritmo atual, 440 russos estão morrendo todos os dias na Ucrânia.

E não são só os mortos que retornam em caixões: soldados com membros amputados e ferimentos graves também estão voltando para casa, provocando um aumento bem acentuado na produção de próteses na Rússia.

A indústria da morte agradece. Dados do Ministério do Trabalho da Rússia revelam que Moscou subsidiou o fornecimento de 152 mil próteses em 2024, um aumento de 53% em relação a 2023 – quando 99 mil braços e pernas artificiais foram distribuídos –, outro aumento frente às 64 mil próteses de 2022, quando a guerra começou.

Empresas de caixões também relatam crescimento nos negócios. Só nos primeiros quatro meses desse ano, as funerárias russas faturaram quase 40 bilhões de rublos (cerca de R$ 2 bilhões), um aumento de 12% em relação ao ano passado.

E já não morre mais gente com o mesmo perfil de antes.

Enquanto nos primeiros meses da guerra, a idade média dos soldados que lutavam na Ucrânia era de 20 anos, esse número agora é de 36.

Muitos dos mortos não são só soldados, mas profissionais de diversas áreas: engenheiros, médicos, professores, metalúrgicos. Se no começo a guerra era dominada pelos militares de carreira, a Rússia hoje depende cada vez mais de recrutas civis de meia-idade.

Na prática, regiões bem pobres e distantes, onde há pouco emprego e salários baixos, lotados de minorias étnicas, se tornaram o principal reservatório humano do Exército russo.

Em alguns casos, homens são literalmente sequestrados em vilarejos; abordados nas ruas, retirados das suas casas ou capturados em pontos de ônibus, sem qualquer aviso.

Na Buriácia, por exemplo, no extremo leste da Sibéria, a taxa de mortos na guerra é até 30 vezes maior do que em Moscou. Em repúblicas do Cáucaso, como o Daguestão, jovens muçulmanos são convocados em massa, muitas vezes sob pressão direta das autoridades locais.

No fim, a estratégia é coerente: as mortes russas se concentram em regiões com baixo peso político, longe dos centros de poder. O luto de mães buriates ou daguestanesas faz bem menos barulho do que o de uma mãe de Moscou.

A Rússia diz treinar essas pessoas entre 3 semanas e 6 meses, dependendo da função. Mas a verdade é que há muitos relatos de 1 mês de treinamento – e para algumas operações, a quantidade de treino fornecido varia entre dois dias e duas semanas.

A Rússia já tinha uma pirâmide etária deformada por conta da 2ª Guerra Mundial e da crise dos anos 1990. Tanto é assim que o país já vinha em declínio populacional antes da guerra. Mas a situação agora é caótica.

A população economicamente ativa russa está encolhendo. E essa escassez de trabalhadores produzirá, no curto prazo, não só uma queda da produtividade russa, mas uma possível importação forçada de mão de obra estrangeira – principalmente da Ásia Central e de países muçulmanos.

É claro que as perdas da Ucrânia também são bem altas. Em dezembro do ano passado, Zelenski revelou 43 mil soldados ucranianos mortos em combate e 370 mil feridos desde o início da invasão russa.

Além dessas mortes, quase 14 mil civis ucranianos foram mortos no conflito, e 35 mil ficaram feridos.

A Ucrânia é indiscutivelmente a grande vítima desse conflito, mas os russos são os maiores derrotados.

Nesse momento, a guerra na Ucrânia está corroendo a própria estrutura da sociedade russa. Cada caixão que retorna, a cada dia de batalha, significa não só um soldado a menos, mas um pai ausente, uma família quebrada, uma comunidade empobrecida.

Nesses três anos de conflito, centenas de milhares de crianças perderam o pai. Outras centenas de milhares de mulheres ficaram viúvas.

O resultado é uma geração marcada pelo luto.

Hoje, o Kremlin até consegue comprar o silêncio com indenizações, próteses e propaganda. Não há grandes manifestações contra Putin. Mas esse silêncio tem prazo de validade.

A Rússia pode até sustentar a guerra no campo de batalha, mas está perdendo em casa. E quando a poeira baixar, Moscou governará um país menor, mais pobre e mais velho. E nenhum triunfo militar, real ou inventado, será capaz de compensar essa derrota.

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