O petróleo, produtor de riquezas e das maldições da corrução e das guerras
The Economist, introdução de Paulo Roberto de Almeida
Contrastes entre o “excesso” de riqueza em algumas partes do mundo e a resiliência da miséria e da pobreza em muitas outras partes do nosso planetinha redondo. A discussão da Economist se refere ao caso da Noruega, um país que saiu de uma pobreza “normal” no século XIX, para uma afluência invejável já em meados do século XX, e que depois “mergulhou” numa riqueza extraordinária, graças a uma “dádiva da natureza”, o petróleo, fonte de muita riqueza, mas também de corrupção, exageros geopolíticos e de várias guerras no Oriente Médio, a fonte por excelência do petróleo dos nosso tempo. Vai demorar ainda muito tempo para que esse nauseabundo e precioso produto deixe de produzir riqueza e de atrair a ambição dos poderosos, como sempre foi o caso do ouro no mundo.
Já escrevi um pouco sobre essas questões— e remeto aqui a minhas resenhas dos livros de Daniel Yergin, mas reproduzo abaixo a matéria da Economist sobre a Noruega. PRA
THE ECONOMIST
05 abril 26
É possível um país ficar rico demais?
A Noruega mostra os potenciais perigos de uma prosperidade incomum
A homenagem da Noruega a Edvard Munch, o pintor mais famoso da Escandinávia, é uma impressionante estrutura de 13 andares feita de alumínio e vidro reciclados, construída na orla do porto de Oslo. Concluída em 2021, ao custo de US$ 350 milhões, sua obra foi ainda mais impressionantemente atrasada (em uma década) e com um estouro de orçamento (de US$ 200 milhões). Erguendo-se acima da densa névoa que cobre o mar em uma tardede inverno, o museu encapsula o país que o financiou: sofisticado e tão rico que dinheiro não é problema.
O petróleo norueguês construiu uma economia que é a inveja de outros países ricos, para não mencionar os pobres. O PIB per capita é de impressionantes US$ 90 mil, ficando atrás apenas de cidades-Estado, paraísos fiscais e da Suíça.
Desde 1991, o governo acumulou um fundo soberano no valor de US$
2,2 trilhões, ou US$ 400 mil para cada um dos 5,6 milhões de habitantes da Noruega. Os rendimentos sustentam um dos estados de bem-estar social mais generosos do mundo.
No entanto, nem todos os noruegueses estão satisfeitos com isso. Em 2025, o livro de não ficção mais vendido no país foi "O País que Ficou Rico Demais", uma crítica ao modelo econômico escrita por Martin Bech Holte, economista e ex-consultor da McKinsey.
Bech Holte captou um sentimento emergente. Nas eleições de setembro passado, o partido Progresso, de centro-direita, que argumentou que a Noruega “joga mais dinheiro nos problemas” e precisa parar, foi o partido que mais ganhou terreno. A preocupação é que a riqueza da Noruega esteja distorcendo o comportamento de todos, desde políticos a trabalhadores de escritório e estudantes. Confiantes em receber generosos auxílios, poucos se preocupam o suficiente com o futuro. Será que a riqueza de um país pode comprometer suas perspectivas?
Com os lucros inesperados do petróleo e os retornos dos investimentos, que dobraram o tamanho do fundo soberano na última década, os políticos noruegueses tornaram-se perdulários, acredita Bech Holte. Embora o fundo invista apenas no exterior, para evitar prejudicar o setor privado nacional, ele canaliza dinheiro de volta para o governo, que o utiliza para cobrir a diferença entre gastos e impostos. Em 2008, esse pagamento foi de modestos 36 bilhões de coroas norueguesas (US$ 6,4 bilhões na época), ou menos de 5% das despesas. Em 2025, 414 bilhões de coroas norueguesas (US$ 40 bilhões), um quinto dos gastos, vieram do fundo petrolífero.
Isso está tendo consequências perversas. Os políticos podem adiar decisões difíceis. Os eleitores veem poucos motivos para moderar as demandas por mais gastos. Considere a saúde, a maior despesa do governo. Em média, os serviços médicos custam 30% a mais na Noruega do que na União Europeia.
Mas por que reformar hospitais quando se pode simplesmente investir mais dinheiro no problema? A Dinamarca, que gasta quase o mesmo por pessoa que a Noruega, reduziu o tempo de espera para cirurgias de rotina duas vezes mais rápido que seu vizinho do norte.
Poucos parlamentares se preocupam em avaliar os benefícios e custos econômicos de suas propostas, lamenta um deles. Essa é uma fraqueza em outros lugares, mas a Noruega parece especialmente propensa a ela. Assim como no caso do Museu Munch, as reformas do prédio do parlamento em Oslo levaram quatro anos, em vez de um, e custaram seis vezes mais do que o previsto.
Em 2023, o governo destinou 250 bilhões de coroas norueguesas
(US$ 25,25 bilhões), metade da arrecadação de impostos sobre o trabalho e o capital, para ajuda externa e para instituições de caridade nacionais. Esse é um preço alto a se pagar para conquistar boa vontade no exterior e aliviar a culpa climática interna. No Reino Unido, esse valor é inferior a 10% dos impostos sobre o trabalho e o capital.
Os cidadãos noruegueses não são menos perdulários que seus representantes. A dívida média das famílias é de 250% da renda anual, a mais alta da Europa. Quando se pode contar com a riqueza nacional para socorrer, a necessidade de poupar para tempos difíceis parece menos urgente.
Assim como a necessidade de gerar renda.
Quase um em cada dez noruegueses na faixa dos 20 anos está desempregado,
em comparação com um em cada 20 dinamarqueses. A taxa de evasão escolar no ensino médio e na universidade na Noruega está entre as mais altas da Europa. O sistema de ensino superior oferece quantos diplomas o estudante desejar, gratuitamente, além de generosos empréstimos estudantis. Isso incentiva as pessoas a adiarem seus cursos, mudarem de área e prolongarem seus estudos.
Consequentemente, a população é altamente qualificada: mais de 70% dos trabalhadores não qualificados do setor de serviços (como baristas e atendentes de call center) nascidos na Noruega possuem mestrado. Pessoas de origem imigrante ocupam 100 mil vagas de pesquisa em ciência, tecnologia e engenharia, metade do total. Outras 100 mil vagas precisarão ser preenchidas até 2030.
Esse hedonismo financeiro já está prejudicando a economia. O Banco Central reluta em aumentar as taxas de juros diante do alto endividamento das famílias, o que enfraqueceu a coroa norueguesa e afastou investidores estrangeiros. A produtividade dos trabalhadores parou de crescer. Os salários reais estão começando a cair.
Poderíamos argumentar que nada disso importa, desde que o país consiga prover para a população atual e as gerações futuras. O PIB importa, politicamente falando, porque é uma forma de garantir o bem-estar dos cidadãos: diretamente, por meio do trabalho remunerado, e indiretamente, por meio de auxílios financiados por impostos. Em teoria, esse bem-estar pode ser financiado com rendas, e não com produção. Enquanto a riqueza nacional crescer mais rápido do que os gastos do governo, isso pode continuar indefinidamente.
Esse tem sido o caso na Noruega. Embora o Tesouro tenha extraído dez vezes mais dinheiro de sua principal fonte de renda em 2025 do que em 2008, essa parcela representava uma parcela menor da avaliação total do fundo. Enquanto os retornos anuais (ajustados pela inflação) ultrapassarem 6%, o governo poderá reduzir a arrecadação de impostos e aumentar os gastos no ritmo atual, mesmo depois que seus poços de petróleo se esgotarem, o que poderá acontecer em 50 anos.
Doença norueguesa
Essa visão é complacente por dois motivos. Primeiro, na prática, a menos que a inteligência artificial impulsione drasticamente a produtividade global, retornos de 6% podem se mostrar inatingíveis.
Segundo, e mais importante, uma economia próspera beneficia as sociedades de maneiras que vão além da subsistência. Os políticos são mais responsabilizados se tiverem de pedir dinheiro aos eleitores por meio de impostos. Investidores estrangeiros trazem novos conhecimentos.
Muitas pessoas encontram satisfação no trabalho. Tudo isso contribui para o florescimento humano. Ninguém deveria invejar a riqueza da Noruega - exceto, se forem sábios, os próprios noruegueses.”
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PRA: Essa matéria me faz lembrar o livro do historiador inglês Simon Schama sobre a riqueza extraordinária dos Paises Baixos no século XVII, The Embarassment of Riches (O Desconforto da Riqueza). Os neerlandeses se tornaram tão ricos que começaram a ter gastos perdulários e até a especular nos mercados de futuros (que eles inventaram), investindo em tulipas, sim, nessas simpáticas flores importadas originalmente de fora, e que se tornaram símbolos de riqueza, junto com obras de arte, quadros pessoais retratando os ricaços. A especulação sobre as tulipas causou uma febre geral e uma imensa bolha financeira que redundou na primeira crise financeira da história do capitalismo moderno, como estudado pelo historiador americano Charles Kindleberger em Panics, Manias and Crashes (várias edições). Fiz um artigo sobre isso, trazendo a história para os casos de crises no Brasil. Está em um dos meus livros
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 12/04/2026
Nota sobre minhas resenhas:
Nota sobre minhas resenhas:
219. “O ‘Prêmio’ é o Petróleo”, Montevidéu, 24 novembro 1991, 11 p. “Review-article” sobre o livro de Daniel Yergin: The Prize: The epic quest for Oil, Money and Power (Nova York: Simon and Schuster, 1991, 877 + xxxiii p.) e referência a artigo de Edward L. Morse, “The Coming Oil Revolution”, Foreign Affairs (Winter 1990/1991). Publicado, sob o título “O ‘Prêmio’ do poder mundial é o petróleo” no Caderno Internacional do Correio Braziliense (Brasília: 3 agosto 1992, p. 6). Relação de Publicados n. 092.
337. “Odor de Petróleo”, Brasília: 25 abril 1993, 8 p. Resenha do livro de Daniel YERGIN, O Petróleo: Uma História de Ganância, Dinheiro e Poder (São Paulo: Scritta Editorial, 1992, 932 p.), com base em resenha anterior feita a partir da versão original do livro. Publicado na Revista Brasileira de Política Internacional (nova série: Brasília: ano 36, n. 1, 1993, p. 158-163). Relação de Publicados n. 138.
Ambas resenhas consolidadas nesta postagem do Diplomatizzando:
domingo, 9 de janeiro de 2011
Odor de petroleo: sempre malcheiroso, e tendente a corrupcao
Percorrendo uma livraria recentemente, o que faço de modo muito frequente, como já é do conhecimento de quem frequenta este blog, deparei com um livro que eu já tinha lido, e que tenho, em sua primeira edição original:
Daniel Yergin"
The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power
(New York, Simon and Schuster, 1991, 877 pp)
As resenhas que fiz, na ocasião, da edição americana e sua tradução brasileira, vão aqui referidas a partir da minha lista de publicados:
092. “O ‘Prêmio’ do poder mundial é o petróleo”, Correio Braziliense (Brasília: 3 de agosto de 1992, p. 6, Caderno Internacional) [Resenha crítica do livro de Daniel Yergin, The Prize: The Epic Quest for Oil, Money and Power (New York, Simon and Schuster, 1991, 877 pp)]. Relação de Trabalhos nº 219.
138. “[Odor de Petróleo]”, Revista Brasileira de Política Internacional (nova série: Brasília: ano 36, nº 1, 1993, pp. 158-163) [Resenha do livro de Daniel YERGIN, O Petróleo: Uma História de Ganância, Dinheiro e Poder (São Paulo: Scritta Editorial, 1992, 932pp.)]. Relação de Trabalhos nº 337.
Trata-se, provavelmente, da melhor história do petróleo disponível no mercado, embora existam muitos outros livros mais.
Aliás, comprei na minha última passagem pelos Emirados, mais exatamente em Dubai, este livro que também recomendo:
Peter Maass:
Crude World: The Violent Twilight of Oil
(dispenso-me de dar os dados editoriais completos, pois este livro acaba de me ser roubado, quando eu já estava em seu final, o que me impede, temporariamente, de fazer notas e comentários mais elaborados. Voltarei a ele, oportunamente.)
Bem, voltando a livro de Yergin, a edição brasileira, uma nova, é esta aqui:
Daniel Yergin:
O Petróleo: Uma história de conquistas, poder e dinheiro
tradução de Leila Marina U. Di Natale, Maria Cristina Guimarães, Maria Christina L. de Góes; edição Max Altmann
(São Paulo: Paz e Terra, 2010, 1080 p.; copyright Daniel Yergin, 1991, 1992, 2009; ISBN: 978-85-7753-129-5)
Clique em: https://diplomatizzando.blogspot.com/2011/01/odor-de-petroleo-sempre-malcheiroso-e.html
Material completo consolidado nesta postagem de Academia.edu:
https://www.academia.edu/165638797/5277_O_petroleo_produtor_de_riquezas_e_das_maldicoes_da_corrupcao_e_das_guerras_2026_