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quinta-feira, 30 de abril de 2026

Construir a paz entre judeus e palestinos? É possivel… - Aziz Abu Sarah, Maoz Inon, Rachida El Azzouzi, Luis Favre

Construir a paz do rio ao mar exige afastar palavras

Luis Favre, 28/04/2026

https://www.mediapart.fr/journal/international/280426/nous-la-societe-civile-de-creer-une-vie-partagee-pour-les-israeliens-et-les-palestiniens 

A entrevista que reproduzo a seguir, dos autores do livro The Future Is Peace: A Shared Journey Across the Holy Land, permite uma reflexão de fundo sobre o conflito israelo-palestino. Os autores, o palestino Aziz Abu Sarah e o israelense Maoz Inon, defendem uma lógica de reconciliação, propondo uma “cultura de diálogo e de perdão” como alternativa à espiral de violência.

Ambos carregam em suas vidas o drama da guerra sem fim. Aziz perdeu seu irmão quando tinha 10 anos, durante a Primeira Intifada, preso e torturado nas prisões israelenses, falecido em consequência das sequelas. Maoz perdeu seus pais, que viviam em um kibutz na fronteira com Gaza, durante o ataque de 7 de outubro de 2023.

Na entrevista, Aziz Abu Sarah indica que: “Se você for falar com palestinos e lhes disser que o que está acontecendo em Gaza não é um genocídio, não haverá possibilidade de diálogo com eles. Os israelenses terão a mesma reação se você lhes disser que o ‘muro de segurança’ é um ‘muro do apartheid’.”

Nenhum dos dois autores se recusa a ter opinião, mas rejeita a utilização das palavras como “armas” para erigir um muro de separação em uma luta que deve ser travada juntos, israelenses e palestinos.

Para Maoz Inon, “o que importa é saber como podemos nos unir para pôr fim a isso e construir um futuro comum.”

Precisamente, são essas palavras que muitos erigem como mísseis em nome da solidariedade, sem perceber, talvez, que, longe de esclarecer o caminho necessário e difícil da luta do povo palestino por seus direitos nacionais, constituem obstáculos suplementares.

Sem dúvida, uma parcela dos que exalam ódio pretendendo defender direitos o fazem com a clara vontade de evitar que possa ser realizada a convergência entre israelenses e palestinos. Não raramente escondem, por trás de certas analogias nauseabundas, uma boa dose de antissemitismo, travestida em luta ideológica. São o espelho dos governantes de Israel, que invocam outras palavras — simples escudos para defender uma guerra sem fim, justificativa de crimes múltiplos, repressões violentas, opressão persistente.

O caminho escolhido por Aziz e Maoz, como o de outros grupos, organizações e militantes em Israel e nos territórios ocupados, é hoje extremamente minoritário, mas é o único que conduz na direção de um futuro de paz. Este é o caminho que leva a superar o impasse em que se encontram ambos os povos, desgarrados em guerras fratricidas. Porque esse caminho deverá ser percorrido pelos dois povos, juntos.

Luis Favre

*****

Cabe a nós, a sociedade civil, criar uma vida compartilhada para israelenses e palestinos”

Em um livro que acaba de ser publicado, o palestino Aziz Abu Sarah e o israelense Maoz Inon, militantes pacifistas de longa data, recusam a fatalidade da guerra. Eles conclamam a Europa a agir para conter o governo Netanyahu.

Rachida El Azzouzi

MEDIAPART, 28 de abril de 2026

Traduzido por IA ChatGPT

Centenas de israelenses e palestinos são esperados na quinta-feira, 30 de abril, em Tel Aviv, para uma “cúpula popular pela paz”. Organizada pela coalizão “É hora”, uma rede de mais de oitenta organizações da sociedade civil judaicas e árabes que atuam pela paz, “a conferência tem como objetivo recolocar a questão de uma solução política no centro do debate israelense”, explicam a Mediapart Aziz Abu Sarah e Maoz Inon.

Os dois amigos, embora pudessem ter se odiado — “Era o que todos esperavam de nós”, dizem —, não deixarão de participar do evento. Há dois anos e meio, percorrem o mundo e pregam a paz entre os povos, sobretudo entre palestinos e israelenses.

O primeiro tinha 10 anos quando seu irmão morreu, durante a Primeira Intifada, em consequência das sequelas da tortura sofrida nas prisões israelenses. O segundo perdeu seus pais, que viviam em um kibutz na fronteira com Gaza, durante o ataque de 7 de outubro de 2023.

De sua fraternidade nasceu um livro que acaba de ser publicado, A paz é o nosso futuro. Uma viagem de reconciliação na Terra Santa (L’arbre qui marche, 2026). Do deserto do Neguev a Jafa, passando por Nazaré, Belém ou ainda pela mais disputada das cidades, Jerusalém, Aziz Abu Sarah e Maoz Inon, que trabalham no turismo, partem ao encontro daqueles e daquelas que recusam as bombas e querem “construir a paz entre o rio e o mar”.

Para realizar esse percurso, eles tiveram primeiro de se reconciliar consigo mesmos e combater o desejo de vingança que os cegava.

Entrevista

“Mediapart”: Vocês defendem um projeto que muitos consideram utópico. O que respondem a eles?

Maoz Inon: Que não somos ingênuos. A paz é o nosso futuro. Estamos convencidos disso. Na minha família, acreditávamos que o muro que separa Israel de Gaza, a apenas 200 metros da casa dos meus pais, em Netiv HaAsara, nos protegeria. A única que não acreditava nisso era minha sobrinha mais nova. Ela tinha medo de passar a noite na casa dos avós porque temia o Hamas — e com razão.

É preciso transformar o desespero em esperança e enfatizar o poder de sonhar, indispensável para mudar a realidade, seja aqui em Israel e na Palestina, mas também no Irã, no Líbano, na Europa ou nos Estados Unidos. Foi isso que fizeram Nelson Mandela e Martin Luther King.

No 7 de outubro, perdi meus pais, mas ganhei um irmão, Aziz. Minha tia paterna repete a ele que ele faz parte da família. Estamos no mesmo campo: o da igualdade, da dignidade, da justiça, da paz. Mesmo que ele seja palestino e eu israelense, que o irmão dele tenha morrido após ter sido torturado em uma prisão israelense e que meus pais tenham sido mortos no 7 de outubro.

Aziz Abu Sarah: O fato de você nos entrevistar hoje contribui para a mudança. Se formos ignorados, então sim, não temos nenhuma chance de fazer as coisas avançarem. Mas, a partir do momento em que nossa mensagem é retomada, amplificada, ela se torna importante.

É preciso romper com essa visão difundida por toda parte — não apenas em Israel e na Palestina — de que bombas e guerra são a solução. Ser uma minoria não deve nos desanimar.

Quando os colonos começaram a se instalar na Cisjordânia, eles também eram uma minoria. Isso não os impediu de colonizar parte do território. E continuam. No início de abril, o governo israelense aprovou discretamente trinta e quatro novas colônias.

Qual é o seu olhar sobre esse governo, vocês que militam pela paz há anos?

Maoz Inon: Enfrentamos extremistas que impõem uma deformação do judaísmo e que estão destruindo o Estado de Israel. O exército comete crimes de guerra na Cisjordânia, em Gaza, no Líbano, no Irã. A polícia está se tornando uma polícia política.

Cabe a nós, a sociedade civil, criar uma alternativa, uma vida compartilhada para israelenses e palestinos. É assim que combateremos aqueles que desviaram nosso presente e nosso passado. Devemos nos recusar a deixá-los sequestrar nosso futuro.

Aziz Abu Sarah: É preciso denunciar o governo israelense em todo o mundo, inclusive na Europa, e exigir responsabilidades. Cada vez que ele se lança em uma nova guerra, seus aliados europeus e norte-americanos lhe fornecem armas.

Não se pode ser a favor da paz apoiando Israel guerra após guerra e dizendo: “Ah, mas não estamos envolvidos.” Para alcançar a paz, precisamos de uma posição clara na Europa e nos Estados Unidos diante desse extremismo mortal.

Quando se bombardeiam civis, como Israel faz em Gaza ou no Líbano, isso não enfraquece o Hamas nem o Hezbollah — isso os fortalece. O governo israelense sabe disso, pois deseja um conflito permanente. Mais israelenses votarão neles porque têm medo do Hezbollah e do Hamas, e assim sucessivamente.

A Faixa de Gaza hoje está destruída, mas não o Hamas. Essas guerras absurdas, que matam principalmente civis inocentes, fortalecem, na realidade, Netanyahu e Ben Gvir, o Hamas, o Hezbollah, a República Islâmica do Irã.

Um profundo desejo de vingança tomou conta de vocês com a morte de seus familiares. Como vocês se libertaram disso?

Maoz Inon: O Hamas e o governo israelense são duas faces de uma mesma moeda. Extremistas prontos para sacrificar seu próprio povo e que desumanizam o outro. O governo israelense havia prometido segurança aos meus pais e à comunidade deles. Falhou completamente. O 7 de outubro foi o dia mais mortal da história judaica desde o Holocausto.

Procurei me vingar do governo israelense por sua traição. Mas aprendi com Aziz e com outros construtores da paz palestinos que posso escolher o perdão para escapar do destino que aqueles que mataram meus entes queridos escolheram para mim. A vingança só me destruía por dentro.

Eu já não cumpria meu papel de pai, de marido, de amigo. Pensava apenas em me vingar. Seguindo os ensinamentos de Aziz, escolhi o perdão e recuperei minha liberdade.

Aziz Abu Sarah: É muito importante falar desse sentimento de vingança, que é totalmente humano. Se alguém mata seu irmão, seus pais, é normal sentir raiva, até mesmo vontade de se vingar. Maoz soube enfrentar sua luta contra a vingança.

Para mim, isso levou oito anos. Tudo mudou quando comecei a estudar hebraico e conheci, pela primeira vez, israelenses que não eram nem soldados nem colonos, mas pessoas que me viam como um ser humano pleno e não como uma ameaça existencial.

Conversando com meu professor de hebraico e com outros alunos, compreendi que a sociedade israelense, como qualquer sociedade, não é um bloco único. Percebi que podia encontrar aliados dentro dela.

Vocês insistem, no livro, na Shoah e na Nakba, pois dizem que o primeiro passo para um futuro comum é conhecer o sofrimento do outro…

Maoz Inon: Sim. Não podemos nem devemos apagar, oprimir, silenciar ou erguer um muro entre nós e o sofrimento do outro.

Somente reconhecendo isso — sem necessariamente concordar, mas aceitando que existe outra narrativa, outro sofrimento — podemos iniciar um processo de cura. E não é um processo fácil.

Aziz Abu Sarah: Há muita ignorância, muita desinformação. Os israelenses não sabem nada da Nakba, os palestinos não sabem nada do Holocausto. Queremos criar um diálogo, e parte desse diálogo consiste em falar de coisas difíceis e ignoradas: o sionismo, o movimento nacional palestino, e como tudo isso afetou a nós e às nossas famílias.

Quando contamos no livro o que aconteceu em Jafa em 1948, por exemplo, ouvimos aqueles que viveram esses eventos. Queremos que as pessoas compreendam de onde vem o passado de cada um, por meio dessas histórias, de uma forma que as leve a escutar.

Maoz Inon: Alguns israelenses ainda hoje afirmam que não existe um povo palestino! Uma das tarefas mais difíceis é libertar-se das narrativas que nos são transmitidas desde a infância. Enquanto permanecermos prisioneiros delas, não poderemos avançar.

Eu mesmo percebi isso quando descobri que, em 1948, havia 600 mil judeus e 1,4 milhão de palestinos nesse território. Dizer que a Palestina era “uma terra sem povo para um povo sem terra” é um absurdo! Mas é um absurdo com o qual cresci e que me foi inculcado.

Reconhecer que isso é falso, que existe outro povo que considera essa terra sua pátria, ligado a ela por sua herança, sua cultura, seus relatos religiosos, suas tradições, exige coragem.

Aziz Abu Sarah: Lembro-me de um grupo de turistas vindos dos Estados Unidos que se diziam pró-Israel. Pediram uma visita guiada de dupla perspectiva por meio da minha agência, mas, na realidade, não estavam prontos para ouvir o ponto de vista palestino.

Nosso guia tentou abrir seus olhos antes de desistir. Para eles, os palestinos eram a causa de todos os males. Ponto final. Ora, para avançarmos em direção à paz, precisamos poder debater o passado, sem necessariamente concordar. A Palestina não era uma terra sem habitantes — minha família vivia lá há muitas gerações! Eu não surgi do nada!

Debater o passado de forma serena exige também concordar sobre as palavras para nomear a realidade. Como fazer isso quando não há acordo?

Maoz Inon: A destruição de Gaza é uma guerra justificada ou uma guerra de vingança, um genocídio, como afirma, aliás, a ONG israelense B’Tselem? Israelenses e palestinos nunca darão a mesma resposta. O que importa é saber como podemos nos unir para pôr fim a isso e construir um futuro comum.

Aziz Abu Sarah: Sim, o mais importante é pôr fim a todo esse derramamento de sangue. Podemos discordar quanto à terminologia, desde que estejamos de acordo quanto ao objetivo: alcançar a paz.

Se você for falar com palestinos e lhes disser que o que está acontecendo em Gaza não é um genocídio, não haverá possibilidade de diálogo com eles. Os israelenses terão a mesma reação se você lhes disser que o “muro de segurança” é um “muro do apartheid”.

Rachida El Azzouzi

https://www.mediapart.fr/journal/international/280426/nous-la-societe-civile-de-creer-une-vie-partagee-pour-les-israeliens-et-les-palestiniens 

domingo, 13 de abril de 2025

Moeda chinesa e riscos sistêmicos da guerra tarifária - Luis Favre

MOEDA CHINESA E RISCOS SISTÊMICOS DA GUERRA TARIFÁRIA 

Limites estruturais da moeda chinesa e os riscos sistêmicos da nova guerra tarifária entre Estados Unidos e China.

Por Luis Favre , 12/04/2025

“A China não está prestes a substituir os EUA na sua hegemonia global, mas o sistema que os EUA construíram pode colapsar sem que nenhum outro esteja pronto para assumir o lugar.”

— Adam Tooze, historiador econômico e professor na Universidade Columbia (EUA), autor de Crashed e Shutdown, obras de referência sobre crises financeiras globais.


Yuan digital e CIPS da China 

Desde 2015, com a criação do sistema CIPS (Cross-Border Interbank Payment System), e a partir de 2020, com o início dos testes públicos do yuan digital (e-CNY), a China tem gerado a expectativa em alguns esquerdistas, de que estaria se preparando para romper com a hegemonia do dólar e do sistema SWIFT. 

Embora ambiciosas do ponto de vista tecnológico, essas iniciativas ainda operam dentro dos limites de um sistema financeiro internacional do qual a economia chinesa continua altamente dependente.

As reformas iniciadas por Deng Xiaoping em 1978 integraram a China ao capitalismo global. A introdução da propriedade privada, a abertura ao investimento capitalista estrangeiro e as facilidades outorgadas pelos Estados Unidos no acesso ao seu mercado — com a concessão anual do status de Nação Mais Favorecida a partir de 1980, transformada em status permanente em 2000, como preparação para a entrada da China na OMC — geraram um crescimento econômico espetacular, transformando o país na segunda maior economia do mundo. 

A adesão formal à Organização Mundial do Comércio se deu em 2001. Desde então, a China tornou-se um centro de manufatura global, atraiu centenas de bilhões em investimentos estrangeiros e acumulou superávits comerciais monumentais. A força da economia chinesa contemporânea deriva diretamente dessa inserção nas cadeias de valor, no comércio internacional e nas finanças globais dominadas pelo dólar.

O yuan digital representa um avanço em infraestrutura monetária, mas seu impacto prático internacional ainda é limitado e assim será por muito tempo. Em 2024, apenas 2,6% das reservas cambiais mundiais estavam denominadas em yuan. As transações comerciais liquidadas em yuan não passam de 5% do total global. Mesmo em acordos bilaterais com países como Rússia, Irã ou Brasil, o dólar ainda prevalece na prática. 

A experiência da Rússia é reveladora: após ser banida do SWIFT e isolada pelas sanções decorrentes da sua guerra de agressão contra a Ucrânia, o país passou a aceitar cerca de US$ 300 bilhões em pagamentos internacionais em yuan, mas agora enfrenta graves dificuldades para utilizar esses fundos, que estão praticamente encalhados no banco central russo, devido à baixa aceitação do yuan fora da esfera financeira chinesa.

O sistema CIPS, promovido por alguns aqui como alternativa ao SWIFT, depende amplamente da própria rede que supostamente pretende substituir. Estima-se que 80% das transações processadas pelo CIPS utilizem mensagens SWIFT. Com cerca de 1.300 instituições participantes, o CIPS ainda é pequeno frente às mais de 11 mil conectadas ao SWIFT.

A exclusão da China do SWIFT, se porventura vier a acontecer, teria consequências globais severas. Cerca de 40% das transações externas da China poderiam ser inviabilizadas. O fornecimento de bens manufaturados seria interrompido, impactando empresas e cadeias de produção nos EUA, Europa, América Latina e África. O comércio global sofreria disfunções comparáveis a um colapso do Canal de Suez.

Segundo Barry Eichengreen, para que uma moeda se torne internacional, são necessárias: estabilidade institucional, conversibilidade plena, profundidade de mercado e confiança jurídica. O yuan falha em todas. A China mantém rígido controle de capitais, um judiciário subordinado ao Partido Comunista e mercados financeiros pouco transparentes.

O dólar mantém sua hegemonia não apenas pelo tamanho da economia americana, mas por oferecer liquidez, previsibilidade e liberdade institucional. A tentativa de instrumentalizar politicamente essa hegemonia pode gerar tensões, mas reforça a centralidade do dólar em tempos de crise.

O impacto global do enfrentamento de Trump contra China, a UE e o mundo

A guerra comercial iniciada por Donald Trump se intensificou em 2025, com tarifas de até 145% sobre produtos chineses. A China respondeu com tarifas de até 125% sobre exportações americanas. Agricultores, industriais e consumidores nos EUA enfrentam aumento de custos, queda de competitividade e inflação.

Mais grave que as tarifas é a imprevisibilidade do governo Trump. A incerteza sobre novas medidas, rupturas institucionais e sanções paralisa investimentos e gera volatilidade nos mercados. O índice global de incerteza econômica atingiu recordes desde abril de 2025.

A China detém mais de US$ 775 bilhões em títulos do Tesouro dos EUA. Embora a venda em massa desses papéis prejudique também suas reservas, o efeito de desvalorização do dólar e aumento dos juros americanos seria considerável. Como alertou o economista Kenneth Rogoff: “A arma dos títulos do Tesouro não é para ser usada facilmente. Mas é como uma ogiva nuclear: o poder está em possui-la, e na ameaça crível de uso.”

Por ora, o comércio está suspenso, com contêineres parados e contratos congelados. Caso o impasse persista, a China poderá redirecionar seu excedente industrial para o Sul Global, gerando um choque competitivo devastador para economias frágeis da Ásia, África e América Latina.

A diretora-geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, declarou que uma escalada descontrolada da guerra comercial pode provocar uma queda de até 7% no PIB global, o que equivaleria a uma crise de magnitude histórica.

Para efeito de comparação:

• Durante a Covid-19, o PIB mundial caiu cerca de 3,1% em 2020, segundo o FMI.

• Na Grande Depressão (1929-1933), o PIB global caiu cerca de 15% ao longo de quatro anos.

• A projeção de queda de 7% em poucos trimestres, como alerta a OMC, situaria essa crise entre as mais profundas da era moderna — e o diferencial é que ela seria provocada deliberadamente por escolhas políticas e não por choques naturais ou sanitários.

Conclusão: Um Mundo em Suspensão, sem Hegemonia Substituta

A guerra econômica deflagrada pela administração Trump — com tarifas massivas, ameaças unilaterais e o uso político do dólar — representa um ponto de inflexão para a ordem econômica global. 

Seus impactos não se limitam à China. Para os Estados Unidos a imposição de tarifas elevadas, especialmente sobre produtos chineses, tem contribuído para o aumento da inflação, com expectativas atingindo 4,4% em abril de 2025, o nível mais alto em décadas. O crescimento econômico desacelerou, com projeções do PIB caindo para 0,5% em 2025, em comparação aos 2,8% do ano anterior. Além disso, a confiança do consumidor despencou, com o índice da Universidade de Michigan registrando 50,8 pontos, o segundo nível mais baixo desde 1972. A volatilidade nos mercados financeiros aumentou, refletindo a incerteza gerada pelas políticas comerciais imprevisíveis. Empresas como a Tesla suspenderam pedidos de veículos importados para a China devido às tarifas proibitivas, ilustrando a disjunção nas cadeias produtivas. Larry Summers, ex-secretário do Tesouro dos EUA, alertou que a escalada das tarifas pode levar o país a uma recessão, potencialmente resultando em 2 milhões de perdas de empregos e uma redução de US$ 5.000 na renda familiar média.

A China, por sua vez, também não sai ilesa. Embora o governo tenha reforçado políticas voltadas à substituição de importações e fortalecimento do mercado doméstico, esse ainda representa apenas cerca de 38% da demanda da indústria nacional. O PIB per capita chinês, de aproximadamente US$ 13 mil em 2024, é significativamente inferior ao dos países desenvolvidos — menos da metade do europeu e cerca de um quinto do norte-americano — o que limita severamente o poder de compra interno. A taxa oficial de desemprego urbano era de 5,4% em março de 2025, o maior nível em dois anos, com destaque para a faixa etária de 16 a 24 anos, que enfrenta um desemprego de 16,9%, evidenciando as dificuldades de absorção de jovens no mercado de trabalho.

O impacto da guerra comercial sino-americana não se limita aos dois protagonistas. Países como Japão, Coreia do Sul, Índia e os membros da ASEAN se veem pressionados a redefinir seus posicionamentos econômicos e estratégicos. A Índia, por exemplo, tem buscado capturar parte do fluxo de investimentos redirecionados por empresas que buscam diversificar sua presença industrial fora da China — uma política conhecida como “China + 1”. Japão e Coreia, por sua vez, mantêm laços econômicos profundos com a China, mas dependem dos Estados Unidos para sua segurança, o que os coloca em constante equilíbrio tático. No Sudeste Asiático, países como Vietnã, Indonésia e Malásia tentam atrair cadeias produtivas globais deslocadas pela disputa, ao mesmo tempo em que evitam hostilizar qualquer das partes. Já o Brasil se encontra diante de uma oportunidade delicada: reforçar sua posição como fornecedor confiável de alimentos, minerais e energia, sem se alinhar automaticamente a nenhuma potência. O governo Lula tem atuado com prudência diplomática, mantendo o comércio com a China enquanto evita gestos que possam ser interpretados por Washington como alinhamento automático. 

A combinação de guerra comercial e excesso de capacidade industrial pressiona o governo chinês a buscar novos mercados para seus produtos. Isso alimenta preocupações globais com dumping, e já levou União Europeia, Brasil, Índia e México a adotarem ou considerarem medidas antidumping contra produtos chineses — especialmente aço, têxteis, veículos elétricos e painéis solares. Um redirecionamento maciço das exportações, diante do bloqueio parcial dos EUA, pode provocar choques de competitividade devastadores nos países do Sul Global. Nesse cenário, a ideia de que o mercado interno chinês possa compensar o recuo nas exportações parece, ao menos no curto prazo, mais desejável do que plausível.

A novidade desta crise, no entanto, não é apenas a escala da destruição econômica potencial — estimada pela OMC em até 7% de queda no PIB global — mas o fato de que ela ocorre sem a perspectiva clara de uma nova hegemonia capaz de restaurar a ordem. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como potência dominante, oferecendo capital, segurança, instituições e uma moeda confiável. Mesmo com desgaste cada vez maiores esta posição dominante persiste e se Trump não recuar, a erosão desta dominação sera bem maior. Por outro lado, nenhuma dessas condições está hoje disponível em Pequim.

Em vez de uma transição de hegemonia, o mais provável é que o mundo mergulhe em um período de fragmentação econômica e instabilidade institucional. Comércio regionalizado, moedas paralelas, cadeias de suprimento menos eficientes e um crescimento global mais baixo podem se tornar a norma. 

A China pode ampliar sua influência, sobretudo sobre países do Sul Global, mas isso ocorrerá em um cenário de competição multipolar e multilateral, com desconfiança sistêmica — e não como substituta da "ordem americana".

Como escreveu o historiador Adam Tooze, “a China não está prestes a substituir os EUA na sua hegemonia global, mas o sistema que os EUA construíram pode colapsar sem que nenhum outro esteja pronto para assumir o lugar.”

Luis Favre

12/04/2025


quarta-feira, 2 de abril de 2025

A Internacional autoritária está configurada… - Luis Favre (Le Monde)

 A Internacional autoritária está configurada…

… do lado da Direita. Mas existe também a Internacional autoritária do lado da Esquerda. Acho que alguns no Brasil percebem para qual lado o governo de Lula 3 pende. PRA

EM APOIO A MARINE LE PEN

De Trump a Bolsonaro, passando por Orbán, Salvini e Wilders: a “internacional reacionária” se associa ao Kremlin em apoio a Marine Le Pen

Le Monde - Serviço Internacional - Publicado em 1º de abril de 2025

Diversos líderes políticos nacionalistas criticaram a pena de inelegibilidade imposta à deputada de extrema-direita, na segunda-feira, 31 de março. Para Moscou, a decisão marca a “agonia da democracia liberal”.

Raras são as decisões da Justiça francesa que provocam tantas reações internacionais. A condenação de Marine Le Pen a cinco anos de inelegibilidade, por desvio de fundos públicos no caso dos assistentes dos eurodeputados da Frente Nacional (FN), desencadeou na segunda-feira, 31 de março, uma enxurrada de comentários por parte daquilo que Emmanuel Macron apelidou, em janeiro, de “internacional reacionária” — com Donald Trump à frente, acompanhado nesta ocasião pelo Kremlin.

“É um grande caso. Eu sei tudo sobre isso. Muitas pessoas achavam que ela não seria condenada, mas ela foi impedida de se candidatar por cinco anos, e era a favorita. Isso se parece com o nosso país”, comentou o presidente americano durante uma de suas coletivas de imprensa improvisadas no Salão Oval. Mais cedo naquela tarde, seu filho, Don Jr., ironizou na rede X: “Eles estão apenas tentando provar que J. D. Vance estava certo em tudo?”, referindo-se às críticas reiteradas do vice-presidente americano aos europeus, à repressão supostamente exercida contra vozes dissidentes em seus países e aos ataques alegados contra a liberdade de expressão. “Vai haver um efeito bumerangue, assim como aconteceu com os ataques judiciais contra o presidente Trump”, alertou Elon Musk em seu próprio perfil na X.

Como para sublinhar a inversão das alianças entre Washington e Moscou, as manifestações de apoio também vieram da Rússia, que, fora de suas fronteiras, não se furta a dar lições de democracia. “Cada vez mais capitais europeias seguem o caminho da violação das normas democráticas”, avaliou o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, durante seu briefing diário. Embora tenha afirmado não querer interferir em “um assunto interno da França”, não deixou de comentar a decisão judicial: “Nossas observações sobre o que se passa nas capitais europeias mostram que por lá não hesitam nem um pouco em ultrapassar os limites da democracia no processo político.” Para Maria Zakharova, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, a decisão representa “a agonia da democracia liberal”.

Durante muito tempo, Vladimir Putin foi suspeito de apoiar Marine Le Pen. O presidente russo a recebeu nos salões do Kremlin em 24 de março de 2017, às vésperas do primeiro turno da eleição presidencial. Antes de romper com o Kremlin devido ao início da guerra na Ucrânia, em fevereiro de 2022, o partido de extrema-direita — FN e depois RN — havia contraído um empréstimo com um banco russo, em 2014, logo após a anexação unilateral da Crimeia pela Rússia.

“Je suis Marine!”

Na época, o partido de Marine Le Pen não cessava de criticar as sanções ocidentais impostas a Moscou. Em junho de 2023, um relatório parlamentar francês denunciou o vínculo “de longa data” do RN com a Rússia e os “contatos frequentes” entre parlamentares do partido e autoridades russas. O RN foi descrito como uma “correia de transmissão” dos interesses russos, enquanto Marine Le Pen classificou o relatório de “desonesto” e “politizado”.

Desta vez, seus problemas com a Justiça também mobilizaram rapidamente seus aliados dentro da própria União Europeia. Viktor Orbán não esperou nem mesmo a leitura completa da sentença de Marine Le Pen para declarar seu apoio. “Je suis Marine!”, escreveu em francês o primeiro-ministro nacionalista húngaro na rede X (ex-Twitter), às 12h22, quando a presidente do tribunal ainda lia seu veredicto. “As batalhas políticas devem ser decididas nas urnas, e não nos tribunais”, reforçou mais tarde seu ministro dos Assuntos Europeus, Janos Boka, ao questionar a condenação de Le Pen.

Aliado do Reunião Nacional no Parlamento Europeu, o líder húngaro aposta há tempos na chegada de Marine Le Pen ao poder na França. Foi, inclusive, um banco húngaro próximo ao governo que concedeu ao RN um empréstimo para financiar sua campanha presidencial de 2022. Soma-se a isso um sentimento de solidariedade, já que Orbán e seu entorno são suspeitos, há anos, de desviar fundos europeus em benefício próprio. No entanto, como o Ministério Público húngaro é chefiado por um aliado de Orbán, até hoje recusou-se a investigar seriamente essas alegações.

Outro aliado de longa data de Le Pen se manifestou: o vice-presidente do Conselho de Ministros da Itália, Matteo Salvini (Liga, extrema-direita), criticou a “declaração de guerra de Bruxelas”, que estaria por trás dos problemas judiciais da ex-eurodeputada. “Quem teme o julgamento dos eleitores costuma se tranquilizar com o julgamento dos tribunais. Em Paris, condenaram Marine Le Pen e querem excluí-la da vida política. Um filme ruim que também vemos em outros países como a Romênia”, declarou o membro do governo de Giorgia Meloni.

“Um novo totalitarismo”

Segundo Salvini, a inelegibilidade de Le Pen ecoa a anulação da eleição presidencial romena em novembro de 2024, após o candidato de extrema-direita, Calin Georgescu — um pró-russo até então pouco conhecido — liderar o primeiro turno. A votação foi anulada pelo Tribunal Constitucional, o que levou o vice-presidente americano, J. D. Vance, a criticar duramente as autoridades romenas, que “têm tanto medo de seu povo que tentam silenciá-lo”.

Na Alemanha, a presidente do partido de extrema-direita Alternativa para a Alemanha (AfD), Alice Weidel, não se manifestou diretamente, mas vários parlamentares do partido publicaram mensagens de apoio na noite de segunda-feira. Björn Höcke, deputado da Turíngia e influente dentro do partido por suas ideias radicais, questionou na rede X: “Onde está o princípio da igualdade de tratamento? Onde está o princípio da proporcionalidade? Marine Le Pen foi retirada da corrida presidencial mesmo sendo a candidata mais promissora. Essa sentença política abala a Europa e abre caminho para um novo totalitarismo.” Marine Le Pen havia, em maio de 2024, mantido a AfD fora do grupo Patriotas pela Europa no Parlamento Europeu, considerando o partido excessivamente radical.

Na Holanda, o populista Geert Wilders, líder do Partido pela Liberdade — que se tornou a principal força política do país em 2023 e participa da coalizão governamental — afirmou estar “chocado” com a pena imposta a Marine Le Pen, que considerou “incrivelmente severa”. Próximo há anos da dirigente do RN, o líder de extrema-direita declarou: “Estou convencido de que ela vencerá no recurso e que se tornará presidente da França.”

“Essa decisão é claramente resultado do ativismo judicial de esquerda. Em todos os lugares onde a direita está presente, a esquerda e o sistema tentam afastar seus adversários”, teorizou o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro em uma entrevista. “Parece que esse movimento está se espalhando pelo mundo. A esquerda encontrou um jeito fácil de se manter no poder usando o ativismo judicial.” O ex-chefe de Estado foi condenado a oito anos de inelegibilidade em 2023 por seus ataques ao sistema de votação eletrônica e agora está oficialmente acusado de tentar organizar um golpe de Estado em 2022, durante a reeleição de Lula. Ele deve ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal e pode enfrentar até 42 anos de prisão. É improvável, portanto, que possa se candidatar à presidência em 2026.

📷: A "internacional reacionária" se associa ao Kremlin em apoio a Marine Le Pen. (imagem e tradução do texto do Le Monde gerados pela IA ChatGPT), por Luis Favre

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