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segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Uma análise realista de Thomas Traumann

 Uma análise realista de Thomas Traumann:


“Flávio Bolsonaro saiu na frente no primeiro turno e já começou a preparar o seu governo como se o pleito de 25 de outubro fosse uma formalidade. As intrigas nas disputas pelos cargos do eventual novo governo tomam conta de Brasília.

Nesta newsletter, mostro que as condições dadas para um eventual governo Flávio Bolsonaro são muito superiores às de seu pai, desde o fato de que os erros do governo do pai estão sendo perdoados pelo eleitor, a formação da maior bancada do século e a fragilidade do PT para arranjar um sucessor para Lula. Com tanto poder, Flávio Bolsonaro anunciou que a prioridade será livrar o pai da condenação,

reduzir o poder do STF e ampliar o seu mandato para cinco ou seis anos.

A chance de uma virada de Lula está no Senado. Na quarta-feira, o plenário deve votar o fim da escala 6x1, uma proposta popular e que tem oposição dos bolsonaristas. A aprovação pode dar o fôlego para o presidente encostar nas pesquisas.

Boa leitura!

TT

Nesta edição:

1. Se vencer, Flávio chegará ao Planalto mais forte do que o pai

2. O ‘já ganhou’ do bolsonarismo

3. A aposta de Lula no fim da escala 6x1

4. O peso de Janja

5. Crítica ‘O Brasil da maioria’

6. Crítica ‘Política Sintética’

7. Fique atento


1. Se vencer, Flávio chegará ao Planalto mais forte do que o pai

Caso confirme o favoritismo no segundo turno, FlávioBolsonaro chegará ao Palácio do Planalto com mais força do que o seu pai, Jair, em 2019 e com o ambiente político mais amansado desde a vitória de Fernando Henrique Cardoso na euforia do Plano Real em 1994.

Compare as circunstâncias em que Flávio Bolsonaro pode chegar ao poder se vencer o segundo turno:

1. Legitimidade das urnas

A possível vitória de Flávio depois da derrota de Jair Bolsonaro em 2022, seu julgamento e condenação por tentativa de golpe de Estado, dará à família uma legitimidade popular similar à de Donald Trump no seu segundo governo. Ao contrário da imprevisibilidade e improvisação de 2018, os eleitores de Flávio Bolsonaro em 2026 sabem o que estão comprando. Ninguém poderá se dizer surpreendido.

2. Base no Congresso

Com 28 senadores e 121 deputados, o PL é o maior partido do Congresso neste século. Somados aos bolsonaristas do PP (6 senadores e 41 deputados), União Brasil (6 e 46), Republicanos (5 e 41), Podemos (2 e 9) e Novo (3 e 7), além da maioria do MDB (8 senadores e 36 deputados), um governo Bolsonaro poderá eleger os presidentes das duas Casas, aprovar projetos e, dependendo do tema, mudar a Constituição. Jair Bolsonaro nunca teve uma situação tão confortável.

O fato de os partidos do Centrão não terem apoiado Bolsonaro desde o início vai diminuir seu espaço no eventual governo. Ao contrário do que aconteceu no governo de Jair Bolsonaro, agora é o PL que vai delimitar o poder do Centrão na disputa por cargos.

3. Fragilidade do STF

Base da resistência a Jair Bolsonaro, o STF será a grande vítima da volta da família ao poder. Se Alexandre de Moraes não renunciar, sofrerá impeachment pelo novo Senado.

O projeto de reforma judicial vai propor transferir a competência criminal do STF para os Tribunais Regionais Federais e para o Superior Tribunal de Justiça, transformando a Corte num órgão constitucional. A mudança retira do STF quase todos os inquéritos envolvendo políticos, inclusive as investigações sobre desvios de verbas das emendas parlamentares, hoje nas mãos do ministro Flávio Dino.

4. Lua de mel do mercado

Por mais genéricas que sejam as promessas de reforma da equipe econômica, os investidores acreditam num pote de ouro ao fim do arco-íris.

Em apenas um dia, na segunda-feira (5), os investidores estrangeiros ingressaram com US$ 10 bilhões na Bolsa de Valores. De acordo com analistas, o efeito imediato de uma vitória de Flávio Bolsonaro no segundo turno será uma alta contínua na Bolsa, desvalorização do dólar e uma baixa nos juros futuros.

Se os projetos do eventual governo Bolsonaro 2 forem frágeis como aparentam ser, a euforia pode ser apenas uma bolha. Mas o otimismo do mercado assegura ao eventual novo governo uma lua de mel de mais de três meses.

5. A oposição sem rumo

Em 2018, mesmo depois do impeachment de Dilma Rousseff, a operação Lava-Jato e a prisão de Lula, a esquerda tinha um norte: a volta de Lula. Mas, se o bolsonarismo vencer no final do mês, a esquerda ficará sem perspectiva de poder. Lula está velho demais e não preparou sua sucessão. A esquerda terá que construir um novo candidato a partir da derrota.

O lulismo tem menos de 120 deputados e 20 senadores, insuficientes até para bancar uma CPI.

No caso de derrota, sem um candidato natural e com as previsíveis divisões, a esquerda estará frágil para resistir a um governo que começará forte.

A questão, portanto, é: o que Flávio Bolsonaro pretende fazer com circunstâncias tão favoráveis? Com maioria para comandar Senado e Câmara, ele elencou ao longo da campanha as seguintes prioridades:

Libertar seu pai e anular o julgamento do golpe de Estado;

Anular a condenação ao irmão Eduardo;

Reformar o Judiciário, reduzindo o poder do STF;

Reduzir a maioridade penal para 16 anos e, em alguns casos, 14 anos;

Adiar a implantação da Reforma Tributária, prevista para entrar em vigor em janeiro;

Flexibilizar o licenciamento ambiental e diminuir os poderes do Ibama;

Ampliar o próprio mandato para cinco ou seis anos, cancelando as eleições de 2030.

Jair Bolsonaro chegou ao Planalto repartindo poderes com seu mentor econômico, Paulo Guedes, uma dúzia de generais reformados e sob desconfiança do establishment político. Ao longo do mandato, ele enquadrou os militares, entrou em acordo com o Centrão e encolheu a agenda Guedes.

Flávio Bolsonaro chega a outubro de 2026 comendo um saco de sal com um grupo mínimo de pessoas fiéis: o pai, o irmão Eduardo, o coordenador de campanha Rogério Marinho, a porta-voz de economia Daniella Marques, o marqueteiro Duda Lima e o jornalista Fábio Portella — os únicos que estiveram com ele nos momentos difíceis. Ele não deve nada ao mercado financeiro e ao empresariado, que duvidaram de suas chances, e ao Centrão, que o abandonou e agora corre para agradá-lo.

Com poucas dívidas e com condições objetivas de poder mudar a Constituição, Flávio Bolsonaro tem sido evasivo sobre reformas econômicas. A sua agenda econômica segue uma parolagem de “cortar desperdícios”, reduzir o número de ministérios e vender ativos da União — medidas que não fazem cócegas no crescimento da dívida pública.

Com quase 40 senadores eleitos apenas com a promessa de impichar o ministro do STF Alexandre de Moraes, o Senado não terá tempo nem disposição para debater outra pauta no primeiro semestre do ano que vem. O encolhimento dos poderes do Supremo é a prioridade zero da volta do bolsonarismo. 

A economia a gente vê depois.

 

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