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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Uma nota sobre Paulo Roberto de Almeida

                Uma nota sobre Paulo Roberto de Almeida

Nascido em São Paulo, SP, de uma família muito modesta, frequentei a Biblioteca Infantil Anne Frank, no bairro do Itaim, onde devorei, praticamente, todos os livros infantis, em especial os de Monteiro Lobato, e metade da literatura juvenil, com destaque para obras de aventuras e de viagens. Sempre estudei em escolas públicas, ao mesmo tempo em que trabalhava para ajudar a família. Antes de ingressar na universidade, já dava aulas de História para os candidatos aos vestibulares das universidades públicas. Ingressei em Ciências Sociais da USP no final de 1968, ao mesmo tempo em que era editado o AI-5 da ditadura militar, que aposentou grande parte de meus professores ao iniciar o primeiro semestre do curso, em 1969. Deixei o curso em 1970, por estar associado aos movimentos de resistência ao regime militar, e me exilei voluntariamente na Europa. Depois de uma curta estada no socialismo – mas já oposto também a um outro tipo de ditadura – mudei-me para a Bélgica, onde trabalhei, antes de reinscrever-me na graduação em Ciências Sociais da Universidade Livre de Bruxelas (1971-1974). Meu trabalho de final de curso – mémoire de licence – versou sobre a “ideologia e a política do desenvolvimento brasileiro, 1945 a 1964”, nunca traduzido ou publicado.

Tornei-me mestre em planejamento e desenvolvimento econômico pela Universidade do Estado de Antuérpia, defendendo uma dissertação sobre os efeitos do primeiro choque do petróleo sobre o comércio exterior brasileiro (1976). Inscrevi-me imediatamente para um doutoramento em sociologia histórica na Universidade de Bruxelas, mas resolvi voltar ao Brasil ainda sob a ditadura militar. Logo ao retornar deparei-me com um concurso direto para a carreira diplomática, que resolvi usar como teste para ver se minha ficha junto ao Serviço Nacional de Informações estava limpa, pois que durante todo o meu autoexílio europeu fiquei escrevendo contra o regime militar, embora sob outros nomes. Meus primeiros artigos acadêmicos foram publicados em francês. Para minha surpresa, eu estava limpo de qualquer denúncia de oposição à ditadura. Mas, seis meses depois de ingressar na carreira diplomata, eu já estava, sem o saber, fichado no SNI como “diplomata subversivo”, por ter me associado aos movimentos pela redemocratização do Brasil (isso, só vim a descobrir anos depois, ao pesquisar a minha ficha no diretório do SNI no Arquivo Nacional de Brasília). Depois de alguns meses trabalhando na Divisão de Europa Oriental, na Secretaria de Estado, contrai casamento (metade em São Paulo, a outra em Porto Alegre) com uma economista gaúcha, com quem partilhava os mesmos gostos pelas leituras e, sobretudo, pela História, a predileção de Carmen Lícia, enquanto professora, a despeito de se ter formado economista na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

Imediatamente convidado para acompanhar um embaixador veterano em seu último posto na Confederação Helvética, assumi em Berna no final de 1979, tendo viajado para a Europa por via marítima, pois Carmen Lícia já estava grávida de nosso primeiro filho, Pedro Paulo. Na capital suíça, ademais do acompanhamento do setor econômico e comercial da embaixada, interessei-me logo pelos assuntos financeiros. Zurique sempre foi um importante centro financeiro, coordenando coalizões de bancos que financiaram a construção de Itaipu, objeto do trabalho anterior do embaixador Fernando Ramos de Alencar, em Assunção. Lia com atenção os relatórios e notas do Banco de Compensações Internacionais, sediado na Basileia. Tendo viajado à Bélgica e retomado o projeto de doutoramento junto à Universidade de Bruxelas, empreendi um vigoroso programa de leituras e reflexões sobre a história das revoluções burguesas e sua pretensa reprodução no Brasil, como estudado por um mestre da Escola Paulista de Sociologia, Florestan Fernandes. A tese de doutoramento foi finalmente concluída em 1984, quando eu já me encontrava no segundo posto, Belgrado, capital da antiga Iugoslávia, já engolfada em poderosos impulsos de fragmentação. Defendida com grande distinção, a tese foi publicada anos depois pelas Éditions Universitaires Européennes, sob o título de Révolutions bourgeoises et modernisation capitaliste: Démocratie et autoritarisme au Brésil (Sarrebruck, 2015, 496 p.).

De volta ao Brasil, no início de 1985, para acompanhar a inauguração da Nova República, dei início a uma carreira paralela, primeiro como professor de Sociologia Política no Instituto Rio Branco e no mestrado em Sociologia da Universidade de Brasília, depois em diversas outras instituições de ensino superior: foi o início de uma dedicação quase permanente às atividades acadêmicas, em várias universidades do Brasil e do exterior. Mais adiante, durante quase 20 anos, fui professor no programa de pós-graduação em Direito (mestrado e doutorado) no Centro Universitário de Brasília, mesmo com as interrupções para postos no exterior (quando eu seguia mestrandos e doutorandos à distância).

Não fiquei muito tempo em Brasília: já em 1987 eu fui removido para Genebra, primeiro na Delegação para o Desarmamento e os Direitos Humanos, depois na Delegação junto aos organismos econômicos da ONU, na qual segui os temas da Unctad, de propriedade intelectual e temas correlatos na Rodada Uruguai de Negociações Comerciais Multilaterais, sob a direção do embaixador Rubens Ricupero, um dos mais brilhantes do Itamaraty (a quem eu dedicaria, anos mais tarde, um livro, Vidas Paralelas, junto com outro pioneiro das relações internacionais do Brasil, o duplo chanceler Celso Lafer). Foi, provavelmente, o posto mais importante da minha carreira, pelo menos aquele no qual eu aprendi quase tudo o que sei sobre relações econômicas internacionais em geral e do Brasil, conhecimento complementado anos depois por nova estada na Europa, na embaixada em Paris – onde segui temas econômicos financeiros, notadamente no Clube de Paris, mas também na OCDE, em relação à qual o Brasil hesita em se associar – e em Washington, onde fiquei seguindo os temas das entidades de Bretton Woods, FMI e BIRD.

Em cada um desses postos, participei intensamente de atividades acadêmicas, inclusive na Sorbonne – à qual retornei em 2012, como professor convidado no Instituto de Altos Estudos da América Latina, para um curso de pós-graduação. De cada um deles retirei preciosas lições e experiência negociadora multilateral que me serviram de subsídios para a redação de vários dos meus livros que começaram a se acumular desde o início dos anos 1990. Nesse ano, ao deixar Genebra, segui direto para Montevidéu, não para a embaixada, mas para a delegação junto à Associação Latino-Americana de Integração, num momento de “globalização otimista” e de abertura para novos acordos de liberalização comercial. Na ALADI aprendi muito sobre os processos de integração, no mundo, em especial na Europa e na América Latina, daí resultando meu primeiro livro nessa temática: O Mercosul no contexto regional e internacional (1993); a ele se seguiu um outro na mesma área: Mercosul: fundamentos e perspectivas (1998). No ano seguinte, aproveitando o aprendizado na primeira metade de minha carreira, publiquei o livro O Brasil e o multilateralismo econômico (1999), numa perspectiva basicamente histórica. A ele se seguiram vários outros, quase que em fluxo anual.

Já conselheiro na carreira diplomática, em meados dos anos 1990, tive de preparar uma “tese” no Curso de Altos Estudos, condição para a promoção a ministro de segunda classe, o que fiz, primeiramente, em torno das relações entre o Brasil e a OCDE, objeto de meu trabalho em Paris: o trabalho submetido a uma banca pouco propensa a acatar minhas propostas, intitulado “Brasil e OCDE: uma interação necessária”, foi recusado na defesa (em 1996), mas aceito, de forma contraditória, para nova submissão no ano seguinte. Preferi deixar a “modernidade” de lado e me dediquei a pesquisas no Arquivo Histórico Diplomático do Itamaraty, no Rio de Janeiro, daí resultando um trabalho sobre a diplomacia econômica do Brasil no século XIX; apresentada com êxito em 1997, não consenti a que ela fosse publicada nas modestas 200 páginas da dissertação, e preferi esperar mais um pouco, até conseguir que um alentado volume viesse à luz em 2001: Formação da diplomacia econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (2001, 2ª edição em 2005 e 3ª, em 2017, em dois volumes). Ainda estou devendo a continuidade desse trabalho de pesquisa histórica num segundo volume, cobrindo o período de 1889 a Bretton Woods (1944), e um terceiro, até os tempos atuais.

Um dos postos mais desafiadores, no plano da carreira, intelectualmente mais gratificante, no domínio de minha atração por temas das relações econômicas internacionais, foi ter sido convidado, pelo embaixador Rubens Barbosa, para ser seu ministro-conselheiro na embaixada em Washington (1999-2003), na qual comecei por um convite a todos os brasilianistas mais distinguidos, para uma série de seminários dedicados a um balanço da produção acumulada pela geração mais de estudiosos do Brasil nos anos de nossa “substituição de importações” na área dos programas de pós-graduação, na economia, nas humanidades, em vários setores de especialização acadêmica. Desses encontros resultaram dois livros: O Brasil dos Brasilianistas: um guia dos estudos sobre o Brasil nos Estados Unidos, 1945-2000 (editado com o sociólogo Marshall C. Eakin e o próprio embaixador Rubens Barbosa, 2002), e sua versão americana, alguns anos depois: Envisioning Brazil: A Guide to Brazilian Studies in the United States, 1945-2003 (2005).

Sempre influenciado por estudos “aronianos”, um sociólogo que assumiu um papel muito importante em minha formação, junto com Marx e Max Weber, produzi, ainda em Washington, um livro que considero, modestamente, um dos mais representativos de meu pensamento em relações internacionais e em política externa do Brasil: Os primeiros anos do século XXI: o Brasil e as relações internacionais contemporâneas (2002). Ainda refletindo minha formação e meus contatos entre acadêmicos franceses, produzi, em Washington, dois livros que foram editados e publicados em Paris: Le Mercosud: un marché commun pour l’Amérique du Sud (2000), ainda refletindo meu conhecimento do processo de integração sul-americano, e Une histoire du Brésil: pour comprendre le Brésil contemporain (2002; este com a historiadora greco-brasileira Katia de Queiroz Mattoso, titular da cadeira de Histoire du Brésil na Sorbonne).

Na preparação do retorno ao Brasil e já na iminência da transição na política brasileira do tucanato ao lulopetismo, preparei, como última produção em Washington, um livro que pretendia antecipar as transformações anunciadas e prometidas: A Grande Mudança: consequências econômicas da transição política no Brasil (2003). Na volta ao Brasil não tive nenhuma oferta de trabalho na Secretaria de Estado, o que me fez colaborar por algum tempo com os novos planejadores do futuro do Brasil, o Núcleo de Assuntos Estratégicos, vinculado à Presidência da República: produzi memorandos e notas tópicas sobre o planejamento estratégico, que penso, um dia, coletar em alguma brochura, mas o exercício deve ter me vacinado contra grandes projetos estratégicos preparados por tecnocratas ligados ao governo, qualquer governo.

Seguiu-se, entre 2006 e 2016, uma longa travessia do deserto, na verdade passada, na maior parte do tempo, na Biblioteca do Itamaraty, onde encontrei subsídios e o lazer necessários para preparar muitos escritos, entre eles um da série de “clássicos revisitados”: O Moderno Príncipe (Maquiavel revisitado) (2010) e um outro de análise crítica da política externa em curso: Nunca Antes na Diplomacia...: A política externa brasileira em tempos não convencionais (2014). Essa temática foi complementada por um outro livro, que recolhia artigos iconoclastas sobre certos desvios nas relações exteriores do Brasil: Contra a corrente: Ensaios contrarianistas sobre as relações internacionais do Brasil (2014-2018) (2019).

Os dois anos e meio seguintes ao impeachment ocorrido em meados de 2016, até o início do governo demolidor, em 2019, me encontraram de volta ao Itamaraty, mas não numa função executiva, e sim num dos trabalhos mais agradáveis que me foram dados empreender por iniciativa própria: a direção do Instituto de Pesquisas de Relações Internacionais, vinculado à Fundação Alexandre de Gusmão, período no qual convidei inúmeras personalidades, brasileiras e estrangeiras, para proferir palestras que atraiam muitos diplomatas e estudiosos das relações internacionais do Brasil. Ao mesmo tempo, escrevi ou editei diversos livros, publicados pela própria Funag ou por editoras comerciais: O homem que pensou o Brasil: trajetória intelectual de Roberto Campos (2017); Oswaldo Aranha: um estadista brasileiro (2017) e A Constituição contra o Brasil: ensaios de Roberto Campos sobre a Constituinte e a Constituição de 1988 (2018). Vários outros foram compostos em formato digital, reunindo algumas centenas de artigos acadêmicos produzidos nos dez anos precedentes.

Os quatro anos do assim chamado bolsonarismo (2019-2022) representaram um enorme desafio ao Itamaraty e à diplomacia do Brasil, pelo rompimento de padrões habituais na área da política externa e de valores e princípios normalmente associados a uma diplomacia dotada de credibilidade internacional. A esse desafio respondi com pelo menos cinco livros, quatro digitais, começando por um contundente Miséria da Diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty (2019), passando por O Itamaraty num labirinto de sombras: ensaios de política externa e de diplomacia brasileira (2020) e por O Itamaraty sequestrado: a destruição da diplomacia pelo bolsolavismo (2021), e terminando por um editado comercialmente: Apogeu e demolição da política externa: itinerários da diplomacia brasileira (2021).

Nos anos recentes, que coincidiram com a minha aposentadoria do Itamaraty e uma dedicação não mais ditada pelas circunstâncias das atividades oficiais, continuei trabalhando em temas que sempre constituíram minhas afinidades eletivas, entre elas tratar da inteligência diplomática e da contribuição dos intelectuais que enobreceram a política externa do Brasil, assim como a cultura da nação. Estão neste caso, as duas últimas obras que tinham sido começadas nos anos agitados das lides diplomáticas, mas que só foram concluídas e publicadas no recolhimento da minha própria biblioteca: Vidas Paralelas: Rubens Ricupero e Celso Lafer nas relações internacionais do Brasil e Intelectuais na diplomacia brasileira: a cultura a serviço da nação (ambos em 2025).

Era o que me competia relatar numa vida dedicada aos livros e ao conhecimento.

Paulo Roberto de Almeida

 

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