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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org. Para a maior parte de meus textos, ver minha página na plataforma Academia.edu, link: https://itamaraty.academia.edu/PauloRobertodeAlmeida;

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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Hiroshima, 75 anos: reflexões sobre o papel da arma atômica - G. John Ikenberry (Princeton)

Um debate sobre o significado do primeiro, e quase único – ocorreu outro, pouco depois, sobre Nagasaki – bombardeio atômico no contexto do cenário internacional, da época e depois.

https://www.wilsoncenter.org/event/age-hiroshima-nuclear-revolution-75th-anniversary-atomic-bombings?emci=1dfdf53c-494f-ea11-a94c-00155d039e74&emdi=2490c82a-514f-ea11-a94c-00155d039e74&ceid=36813

The Age of Hiroshima: The Nuclear Revolution on the 75th Anniversary of the Atomic Bombings 


Video & key quotes

“There is a diffuse effort to blend the history and Hiroshima’s legacy into social movements, and to leverage, and remind, and have all of that feed into our politics and diplomacy,” observes G. John Ikenberry, Albert G. Milbank Professor of Politics and International Affairs at Princeton University.

On August 6, 1945, in the waning days of World War II, the United States dropped an atomic bomb on the Japanese city of Hiroshima. The city’s destruction stands as a powerful symbol of nuclear annihilation, but it has also shaped how we think about war and peace, the past and the present, and science and ethics. The Age of Hiroshima, published by Princeton University Press in January 2020, traces these complex legacies, exploring how the meanings of Hiroshima have reverberated across the decades and around the world.
Age of Hiroshima editors Michael Gordin and John G. Ikenberry, as well as contributor Alex Wellerstein, will discuss how the bombing of Hiroshima gave rise to new conceptions of our world and its precarious interconnectedness, and how we continue to live in its dangerous shadow today. Toshihiro Higuchi and Jessica Mathews, in commenting on the volume, will offer their own perspectives on Hiroshima as an historical event and a cultural phenomenon.

Selected Quotes

Michael Gordin, Wilson Center Fellow and Rosengarten Professor of Modern and Contemporary History, Princeton University
“The biggest absence…is we still have no really good idea why we haven’t had nuclear war since. We have a lot of theories about why that’s the case, but we have an n of 2 in terms of use of nuclear weapons in war to kill people. They have been used in other ways; testing, placement for deployment, there’s all sorts of ways you can use a nuclear bomb without setting it off.”
“So once you have the sense that there’s a threshold, I think it actually restructures how you think about the conventional, and makes the conventional permissible – as long as you’re not going above that.”
G. John Ikenberry, Albert G. Milbank Professor of Politics and International Affairs, Princeton University
“We try to use Hiroshima as a site for turning its history into a kind of platform for debate, for education, for activism, for bringing people together each year, with reports that people who are elsewhere during the year. Thinking about how to control nuclear weapons, how to bring back the momentum that has kind of all gone away for arms control and disarmament.”
“There is a diffuse effort to blend the history and Hiroshima’s legacy into social movements, and to leverage, and remind, and have all of that feed into our politics and diplomacy.”
“I learned of the exquisitely complex way in which Japan thinks about Hiroshima, and the broader role of the war as both aggressor and victim.”
“Hiroshima had this kind of lightning affect – illuminating a landscape of international politics”
“The social milieu, the political milieu in which governments operate is so important. And that’s why in some sense, it’s so frightening today. Because remember the 80s? Remember when Reagan was deploying new missiles of intermediate missiles in Europe? There were millions of people in the streets in Europe and the United States.”
Alex Wellerstein, Stevens Institute of Technology
“The historians I know, the practicing people who work on this actively today, most of them think the revisionist narrative is wrong…. And they also think the orthodox narrative is wrong. And the reality is some very much more complicated thing.”
“Deterrence is in people’s minds. And it’s not a lot of people’s minds. For most of the world today, you’re talking about a dozen minds in the world, who are in charge of making…. Because we’ve centralized nuclear weapons unlike a lot of things our government does, nuclear arms are centralized. Basically, one person in the American system. It’s three people in the Russian system … You’re talking about a very small number of people, and if they have the idea that using the weapon is a terrible idea, then it’s enacted in the world. And if they don’t have the idea than we are in a dangerous, dangerous place. “
 “I will say I think that there’s a lot of factors. And instead of saying, ‘we can’t know,’ I would say it seems incredibly contingent. Which is really just a very intellectual way of saying, ‘well, it depends on what happens that day.’ And that’s not reassuring.”
Toshihiro Higuchi, Assistant Professor, Edmund A. Walsh School of Foreign Service, Georgetown University
“I think of how fruitful it is to really bring together many different scholars… We have, you know, Japanese historians, literary scholars, and then political scientists, and the history of science, and the sociologists of science.”
“I think it’s about, really, if we can think about ourselves as an independent thinking citizen, as opposed to identifying ourselves completely with the state or nation.”
“I think it’s important to make them curious, so that they start asking questions, and they start exploring themselves.”

SPEAKERS


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Um debate sobre o BRICS em 2011 - Alexander Zhebit, Paulo R. Almeida

Alguém me fez retomar um trabalho hoje esquecido, mas ainda pertinente. Só preciso repostar agora o artigo de Mundorama.
Um leitor de meu blog “desenterrou” um debate que eu mantive em 2011, ou seja, oito anos atrás, com um acadêmico do RJ sobre o BRICS. A despeito da passagem do tempo, continuo pensando a mesma coisa, e não é porque a diplomacia brasileira mudou (mas continua a entreter essa maluquice do BRICS), mas os Brics (reparem na distinção) mudaram e bastante).
Convido os interessados, sobretudo Oliver Stuenkel, um dos “promotores” do BRICS, a continuar o debate.
Paulo Roberto de Almeida 
Brasilia, 5/08/2019


sábado, 22 de outubro de 2011

Brics: pequeno debate sobre seu papel mundial - Paulo R. Almeida e Alexander Zhebit
Registro aqui, em primeiro lugar, o comentário de Alexander Zhebit a meu artigo sobre o papel dos Brics na atual conjuntura mundial de crise -- neste artigo de Mundorama --, fazendo-o seguir de meus próprios comentários-resposta.
Quem desejar se associar ao debate, sinta-se livre para enviar-me comentários neste post, aos quais darei o devido destaque, em função de argumentos substantivos.
Grato ao Alexander pela atenção demonstrada, mas como se verifica pela minha resposta, ainda não sou capaz de aderir à essência de sua posição.
Paulo Roberto de Almeida

Uma resposta to “Os Brics na nova conjuntura de crise econômica mundial, por Paulo Roberto de Almeida”

Parabenizando o autor pelo ensaio conceitual e profundo e concordando com muitas teses dele, gostaria de ressaltar que a plataforma ideacional da aproximação dos BRICS não é econômica, embora a ideia da correlação entre os BRICS se origine do estudo econômico da Goldman Sachs, mas é axiológica. BRICS, uma rede transgovernamental de governança ad hoc, persegue principalmente o objetivo alternativo da reconstrução da ordem internacional que entrou em obsolência. O fato de acolher no seu grupo a África do Sul, incompatível com os outros BRIC em termos econômicos e populacionais, mas muito útil no sentido de representatidade de alter mundo, demonstra esta sua ânsia de alteratividade em nível mundial. É indiscutível que a proposta de prestar assistência financeira à Europa, descartada logo em seguida, teve uma intenção propagandística, o que em si não desmente a capacidade acrescida de auxílios financeiros pelos BRICS, devido à elevação da cota de participação e do peso de votação dos BRICS no FMI.

Comentário-resposta de Paulo Roberto de Almeida:

Agradeço ao Alexander Zhebit pelo seu comentário e como é de meu estilo -- sem qualquer floreio verbal ou hipocrisias relacionais -- vou direto ao assunto central, que se prende não às concordâncias entre ambos, mas ao ponto que nos separa.
Alexander pretende que a "plataforma ideacional dos BRICS não é econômica (...), mas é axiológica". Esta plataforma, segundo ele, "persegue principalmente o objetivo alternativo da reconstrução da ordem internacional que entrou em obsolência" (sic). Os Brics, nessa concepção, demonstram "ânsia de alteratividade em nível mundial" (sic, novamente, mas por razões substantivas).
Enfim, deixo de lado essa questão de ajudar ou não os caloteiros de fato (Grécia) e de intenção (Portugal e talvez outros) de uma Europa arrastada pela crise que ela própria criou -- e que para mim tem pouco a ver com a crise original americana -- pois esse ponto é absolutamente irrelevante para o ponto central que pretendo discutir, o que faço a partir de agora.

A questão relevante, expressa tanto na criação dos Brics e nos argumentos de certos acadêmicos, como talvez seja o caso de Zhebit, é o fato de os Brics representarem, supostamente, um modelo alternativo, uma contestação da ordem global, uma proposta de um mundo diferente, do que o existente atualmente, feito pelas potências que emergiram economicamente no meio século que decorreu desde a Segunda Guerra (algumas ascendentes, outras declinantes). 
Seria essa tal de "alteratividade em nível mundial", para construir uma "nova ordem", substituindo a velha, que teria entrado em obsolescência. Isso corresponde, em termos um pouco mais elegantes e refinados, ao que vêem fazendo os tais alternativos, o pessoal do "outro mundo possível", com sua recusa da globalização capitalista e suas demandas por um mundo menos desigual e imperfeito, mais solidário, não assimétrico, justo e humano.
Bem, se não for isso que Alexander Zhebit pretende, desde já me desculpo pela má interpretação de suas palavras, mas o fundo da questão é que ele pretende que os Brics representem uma proposta nova, supostamente melhor do que a que está aí (que aliás não foi proposta por nenhum comitê acadêmico, nem por algum diretório do poder mundial, mas que simplesmente surgiu, em decorrência de movimentos reais, nos campos militar, econômico, tecnológico, financeiro, etc.).

Meu problema com os sonhadores acadêmicos -- e desde já me desculpo pela designação, mas ela corresponde ao que imagino ser verdade, ou seja, acadêmicos passam seus conceitos e vontades acima e além da realidade dos fatos -- e também com os proponentes e sustentadores dos Brics é essa capacidade que eles têm de enganar a si próprios e de pretender, no mesmo movimento, enganar aos outros.
Como sou um realista-idealista -- depois explico o que seria isso -- fico na modesta racionalidade dos fatos, nos elementos materiais e nas expressões de poder real, de capacidade material e de determinação dos movimentos efetivos do mundo real, que constato visualmente e por leituras do que ocorre no mundo, e deixo essas elaborações mentais de lado, por mais elegantes e mais atrativas que elas possam ser.

Pois bem, qual é o meu problema com os Brics, com o conceito e com a realidade?
Eu começaria por dizer que os Brics não existem, embora isso possa parecer exagerado, e correndo o risco de que me tomem por maluco. Mas corro o risco e reincido no argumento.
Os Brics não existem, por mais reuniões de alto nível e de coordenação ministerial que tenham feito e por mais esforços que façam para afirmar sua realidade.
Em primeiro lugar se trata de uma construção artificial, feita por um analista de banco de investimentos, para justificar direcionamento de capitais e oportunidades de ganhos, com base em algumas constatações simplórias: tamanho, crescimento, influência crescente em determinados mercados, etc.
Pois foi com base nesse tipo de argumento instrumental, que responsáveis políticos de dois dos Brics -- Rússia e Brasil -- decidiram, por motivos os mais diversos, mas por vezes coincidentes, e certamente oportunistas do ponto de vista político-diplomático, decidiram transformar essa construção mental em realidade diplomática. Que seja: os homens, mormente os políticos, têm todo o direito de transformar sonhos e vontades em realidades, e de proclamar objetivos conjuntos na busca de realização de seus objetivos reais.
E quais são esses objetivos reais? Obviamente aumentar o seu poder, relativo e absoluto, tanto interna, quanto externamente. Ponto, parágrafo.
Os Brics, individualmente ou coletivamente, só pretendem isso, só sonham com isso, são dominados por essa ideia obsessiva: aumentar seu poder, ponto.
E o que se opõe a esse objetivo?
Nada, a não ser sua própria falta de capacidade.
O que fazer então?
Bem, o caminho mais lógico é crescer, inovar, aumentar seu poder financeiro, fazer investimentos em outros países, propor respostas a problemas comuns, oferecer soluções a determinados dramas planetários, enfim, se fazer forte, grande e belo, e como tal admirado por todos, suscetível de despertar invejas, ter a pretensão de ver outros imitando-o e desejando se aproximar de si, para aproveitar um pouco de todas essas bondades e felicidades.
Afinal de contas, ninguém quer ser um fracasso, objeto de desprezo, negligenciado, não é mesmo?
Como qualquer ser humano narcisista, os Brics querem ser admirados, mas também querem ter o poder de influenciar os outros.

Essa é a minha versão -- realista crua -- dessa tal de "alteridade" proclamada por alguns analistas. O que fazer com ela? Nada, pois versões de acadêmicos têm menos importância, para mim, do que a verdade dos fatos.
A verdade dos fatos é que os Brics gostariam de diminuir o poder dos atuais poderosos para aumentar o seu próprio. Tem sentido isso? Pode ter, sobretudo se não significar uma ação puramente negativa, de diminuição compulsória do poder de outrem, e sim positiva, de aumentar o seu próprio poder, em conjunção com a prosperidade conjunta, numa perfeita interdependência econômica global. Esse seria o mundo ideal.
Mas nem sempre funciona assim, pois os poderosos do momento detêm certas regras normativas e bloqueiam um processo de redistribuição do poder mundial.
Certo, mas a solução, então, é crescer e oferecer suas propostas, que precisariam ser melhores do que as existentes, para vê-las então serem aceitas pelo conjunto de participantes da ordem mundial. 

E o que têm os Brics a oferecer de melhor para a ordem mundial?
Um mundo mais feliz, e gentil, mais pacífico, mais próspero, mais respeitador dos valores democráticos, dos direitos humanos, com maior aceleração da criação de riqueza e mecanismos consensuais para sua distribuição, um mundo mais educado, mais limpo, menos poluído, mais seguro, sem bandidos, sem proliferadores, ou violadores dos direitos humanos, enfim um mundo mais perfeito do que o atualmente existente?

Se os acadêmicos, e os patrocinadores dos Brics me provarem que é isso que ambos pretendem, que essa "nova ordem", essa alteridade prometida, esse "outro mundo possível" que ele prometem ou anunciam é melhor do que o atualmente existente, então eu estou de acordo com a tal de proposta axiomática, e passarei a achar que os Brics, essa última novidade no supermercado da História, é uma maravilha, um emplastro glorioso que merece ser promovido, propagandeado e sustentado -- academicamente e politicamente -- e vou então dar a mão à palmatória e só escreverei coisas boas a respeito dos Brics.

A julgar, porém, por certas votações e propostas de resoluções no Conselho de Segurança da ONU, eu só posso chegar à conclusão de que o mundo dos Brics não é tão perfeito assim, que em face de certos problemas reais eles preferem a recusa, a inação, a omissão, em lugar de assumir certas responsabilidades, que eles são por um mundo de perfeita aceitação da soberania absoluta das nações (ou melhor, dos Estados), em oposição aos direitos dos indivíduos, dos cidadãos, dos simples direitos humanos.
Enfim, o mundo é cruel e arbitrário, todos sabemos, embora algumas situações sejam mais cruéis e arbitrárias do que outras: massacres de civis, por exemplo.
Meu critério é o do indivíduo, não do Estado, e é isso, acho, que me separa da maior parte desses analistas de Brics, que acham que a proposta deles é melhor do que a atualmente existente.
Sinto muito discordar, mas ainda não acho que o mundo dos Brics é melhor do que o atualmente existente.
Sempre quando os analistas e proponentes me PROVAREM que o mundo dos Brics é capaz de garantir tudo aquilo de bondades, que eu descrevi cinco parágrafos acima, estou pronto a revisar minhas concepções e apoiar as propostas dos Brics. Até lá, fico com a modesta racionalidade de meus argumentos.
Grato a todos pela atenção,
Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 22/102011

sábado, 20 de julho de 2019

No limiar de uma nova etapa da diplomacia brasileira: da miséria para o renascimento

No dia 4 de março passado, redigi um texto para introduzir três textos sobre a diplomacia brasileira, para convidar a um debate sério sobre as novas orientações da política externa brasileira. Eram eles uma palestra do embaixador Rubens Ricupero na Casa das Garças, no dia 25 de fevereiro, um artigo do ex-presidente e ex-chanceler FHC sobre a questão da Venezuela, no domingo de Carnaval, 3 de março, e, finalmente, um raivoso artigo do chanceler acidental respondendo acerbamente aos dois primeiros, colocado em seu bizarro blog, "Metapolítica 17: contra o globalismo", cerca de 23hs desse mesmo dia.
Juntei os três num arquivo, fiz a introdução que segue abaixo, e coloquei no meu blog cerca de 1h30 da madrugada da segunda-feira de Carnaval, 4 de março. Não durou muito o meu sono; cerca de 8hs da manhã, fui despertado pelo Torquemada do chanceler, para dizer que meus dias, na verdade horas, estavam contados à frente do IPRI. [In fine, transcrevo a nota que elaborei no dia de minha exoneração.]
Os três textos referidos estão aqui: 
https://www.academia.edu/38480507/A_politica_externa_brasileira_em_debate_Ricupero_FHC_e_Araujo

Na sequência de minha exoneração, publiquei o livro "Contra a Corrente: ensaios contrarianistas...", e fui cuidar da vida, como sempre na biblioteca. Fiquei lendo, como sempre faço, e daí resultou este meu novo livro: "Miséria da diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty", pois é isso que os novos guardiães do pensamento único estão cumprindo zelosamente.
A partir de agora, vou tratar de escrever coisas mais positivas sobre a política externa e a história diplomática brasileira, deixando a mediocridade de lado.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 20 de julho de 2019


A política externa brasileira em debate: Ricupero, FHC e Araujo

Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: textos para debate; finalidade: discutir as orientações da diplomacia]


Sumário
1) Introdução: Paulo Roberto de Almeida, 4 de março de 2019                    1
2) Rubens Ricupero, 25 de fevereiro de 2019                                                            2
3) Fernando Henrique Cardoso, 3 de março de 2019                                     13
4) Ernesto Araujo, 3 de março de 2019                                                          15


1) Introdução: Paulo Roberto de Almeida, 4 de março de 2019
Em toda a minha carreira diplomática, sempre defendi ideias próprias sobre as orientações de nossa política externa, o que aliás foi objeto de algumas controvérsias e umas tantas advertências de superiores quanto a certas posturas que mantive e mantenho em discordância eventual com as orientações oficiais. Nunca me abstive de expressar minhas opiniões a esse respeito, inclusive por escrito, o que aliás suscitou uma ou outra “punição” em certas ocasiões, e um longo ostracismo sob o lulopetismo, que sempre considerei a deformação maior de nossa política, não apenas pela sua extraordinária inépcia administrativa e formidável corrupção, mas também pelos equívocos de política econômica, que nos levaram ao que já chamei de “Grande Destruição”, a inédita recessão que ainda penaliza o povo brasileiro até muitos anos à frente.
Na área da política externa – justamente a que motivou a minha longa travessia do deserto durante toda a duração do criminoso regime –, minhas discordâncias eram conceituais, operacionais, metodológicas, substantivas e de estilo, ou seja, em toda a linha. Em qualquer hipótese, numa me eximi de manifestar essas discordâncias, de forma mais discreta ao início, de maneira aberta ao final, e atualmente. Mas, já estamos em outro regime, supostamente oposto em toda a linha ao regime lulopetista anterior.
Isso não me exime, no entanto, de continuar seguindo a política externa do atual governo, e de formular eventualmente a minha opinião sobre as orientações em curso. No momento, não disponho de nenhum texto estruturado sobre a atual diplomacia, inclusive porque não tivemos, até o presente momento, nenhuma exposição abrangente, sistemática e completa sobre os fundamentos políticos, as orientações conceituais, as prioridades e as preferências táticas da política externa do governo Bolsonaro, a não ser a emissão de alguns grandes slogans, que não constituem um documento de política, mas apenas conceitos gerais, que revelam intenções, mais do que uma estratégia precisa.
Mas, o debate já está aberto, aliás desde antes das eleições, e desde antes da posse do novo governo, em função de declarações do chanceler designado, o que suscitou uma série de reações, favoráveis e contrárias, na comunidade interessada em política externa. De minha parte não me pronunciei a respeito, mas venho seguindo atentamente essas manifestações, e postando no meu blog Diplomatizzando os textos mais relevantes. É o caso agora, com três exposições razoavelmente abrangentes sobre essas orientações gerais em política externa, e mais especificamente sobre a Venezuela; possivelmente o caso que servirá de teste para a diplomacia brasileira na presente conjuntura. Além desse test-case, permanecem questões de fundo que ainda serão mais debatidas. Transcrevo aqui os três textos mais significativos do debate atual, os dois primeiros nominalmente mencionados no terceiro, do próprio chanceler, que os acusa, de forma direta e nominal, de serem parte de uma diplomacia que ele rejeita e abomina.
O debate está aberto, e certamente teremos outros textos e outras polêmicas.
Minha função é esta: abrir meu espaço público a ideias inteligentes para o debate de pessoas inteligentes.
Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4 de março de 2019

(...)
Ler o arquivo de debate e comentários neste link: 
 https://www.academia.edu/s/70710c9869/a-politica-externa-brasileira-em-debate-ricupero-fhc-e-araujo

==========
Transcrevo a nota que fiz no momento de minha exoneração: 

Nota sobre minha exoneração como diretor do IPRI
Paulo Roberto de Almeida
 [Objetivo: esclarecimento público; finalidade: informação preliminar] 

Durante os treze anos e meio do regime lulopetista, do início de 2003 até o impeachment de meados de 2016, permaneci à margem de qualquer cargo na Secretaria de Estado, por motivos que podem ser facilmente detectáveis por todos aqueles que acompanham meus escritos e minha atividade intelectual: nunca escondi minha postura em face de uma diplomacia que eu considerava, em termos objetivos, inadequada aos interesses do Brasil. Reflexos dessa grande travessia do deserto, um ostracismo até irregular no plano administrativo, apareceram em meu livro de 2014: Nunca antes na diplomacia...: a política externa brasileira em tempos não convencionais (Appris). 
Resgatado de um exílio totalmente involuntário, que durou o dobro de meu exílio voluntário durante o regime militar, assumi, em agosto de 2016, o cargo de diretor do IPRI, Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais, e tudo o que fiz nestes dois anos e meio pode ser visto em meu blog Diplomatizzando(relatório e programa de trabalho: https://diplomatizzando.blogspot.com/2019/03/relatorio-de-atividades-do-diretor-do.html). Aparentemente, esse mesmo blog, que me serviu como quilombo de resistência intelectual durante os anos do lulopetismo diplomático, abriu a justificativa, agora, para minha exoneração, pelo fato de ter postado artigos críticos à política externa atual – do ex-ministro Rubens Ricupero, e ex-chanceler e ex-presidente Fernando Henrique Cardoso – juntamente com um artigo do próprio chanceler atual, e convidando a um debate sobre a diplomacia corrente. Adicionalmente, meu blog trouxe críticas a uma personalidade bizarra do momento político brasileiro, totalmente inepta em matéria de relações internacionais, mas ao que parece grande eleitor nas circunstâncias atuais.
Voltarei a fazer da Biblioteca do Itamaraty o meu escritório de trabalho, como foi o caso durante os longos anos de ostracismo sob o lulopetismo. Aproveito para anunciar meu próximo livro: Contra a Corrente: ensaios contrarianistas sobre as relações internacionais do Brasil, 2014-2018 (Appris). A vida continua...
Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4 de março de 2019