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Este blog trata basicamente de ideias, se possível inteligentes, para pessoas inteligentes. Ele também se ocupa de ideias aplicadas à política, em especial à política econômica. Ele constitui uma tentativa de manter um pensamento crítico e independente sobre livros, sobre questões culturais em geral, focando numa discussão bem informada sobre temas de relações internacionais e de política externa do Brasil. Para meus livros e ensaios ver o website: www.pralmeida.org. Para a maior parte de meus textos, ver minha página na plataforma Academia.edu, link: https://itamaraty.academia.edu/PauloRobertodeAlmeida

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domingo, 2 de setembro de 2018

Meu diagnostico e propostas de ação para o governo em 2003 - Paulo Roberto de Almeida

Como eu via a situação no Brasil, recém desembarcado no Brasil do PT, depois de 4 anos em Washington? 
Ainda antes de partir para Brasília, fazendo trânsito por Porto Alegre, eu redigi, e enviei ao futuro chefe, uma nota bastante crítica quanto ao momento vivido no Brasil, nos planos econômico, político e moral, sendo progressivamente pessimista em cada um deles. Esse trabalho, exageradamente intitulado de “breve diagnóstico” e de “propostas para ação”, recebeu o n. 1137, e permaneceu inédito durante todo o tempo, sendo apenas agora divulgado sem cortes.
Paulo Roberto de Almeida 
Brasília, 2/09/2018

Breve diagnóstico e propostas de ação
Nota sobre a conjuntura em outubro de 2003

Paulo Roberto de Almeida
Reservado; não copiar, não distribuir.
Porto Alegre, 26 de outubro de 2003


Concentrarei minha breve análise do momento atual, e farei minhas sugestões de atuação no futuro imediato, em torno de três dimensões, apenas, da ação governativa: a econômica, a políticae a moral (ou ética). 
Do ponto de vista da economia, ao contrário do que vêm dizendo os críticos mais renitentes (que por acaso são os antigos e/ou velhos aliados da causa), a postura assumida pelo governo parece ser, a despeito dos riscos inerentes ao baixo crescimento e o escasso potencial de criação de empregos, a única possívelnuma conjuntura de dificuldades persistentes nos planos interno e externo. 
Independentemente do fato de que a estratégia de administração econômica tem agradado os banqueiros e os economistas ortodoxos e descontentado, como é notório, os economistas “alternativos” — como aqueles que se reuniram em Brasília, entre os dias 10 e 13 de setembro de 2003, no XV Congresso Brasileiro de Economistas, e aprovaram a “Carta de Brasília”, com uma forte posição crítica sobre os rumos atuais da política econômica — ou mesmo a comunidade mais ampla de “trabalhadores acadêmicos” — como os reunidos na ANPOCS, em Caxambu, de 21 a 24 de outubro de 2003 —, a única constatação que pode ser feita nesse capítulo é a de que os propositores de uma estratégia desenvolvimentista-distributivista falharam redondamente, até aqui, em propor alguma estratégia factível de gestão econômica alternativa, que logre assegurar estabilidade e que promova o crescimento, dentro das limitações empíricas existentes (que são totalmente ignoradas por esses críticos). 
Meu diagnóstico, portanto, é o de que a estratégia econômica deve ser não apenas mantidacomo preservadade críticas internas, com a sugestãode que o governo promova nova reunião interna com a base parlamentar (e eventualmente do PR com os ministros) com o objetivo de aprofundar os esclarecimentospertinentes e lograr coesão adicional em torno dessa estratégia de ação. Poderei fornecer, em documento à parte, “respostas” às críticas formuladas pelos economistas “alternativos”.
Do ponto de vista da política, por outro lado, não há como deixar de concordar com muitos analistas políticos e jornalistas sérios, de que uma metade do governo, pelo menos, tem deixado fortemente a desejar em sua ação (ou falta de), trazendo ônus reais para o PR, assim como para a gestão política global do governo. Em parte isso deriva do “custo natural” de um processo de transição inédito para os padrões da política brasileira, mas também pode ser explicado pela inexperiência administrativada nova equipe e pela composição heterogênea do primeiro escalão, fruto de uma composição partidária necessária no momento de assunção do governo.
Meu diagnóstico é o de que o governo tem funcionado com excesso de retórica e pouca ação coordenada ou, para resumir, mais com base em Antonio Gramsci (conceitos abstratos) do que com base em Peter Drucker (gestão pragmática e focada em resultados). As sugestões não são simples, mas talvez elas passem por um enxugamento mais ou menos radical da máquina e pela definição de um conjunto de ações governativas centradas no atendimento das questões mais cruciais de interesse direto da população. Essas questões me parecem ser basicamente duas: emprego (ou renda) e segurança.
O governo não está em condições de, nem poderá, garantir o primeiro elemento, pois isso incumbe à iniciativa privada, bastando que a macroeconomia não atrapalhe indevidamente a microeconomia (o que é problemático, uma vez que o Estado continua a ser o principal despoupador líquido da economia, afetando o sistema produtivo). Mas ele tem e precisa garantir o segundo elemento da equação, segurança, junto com o provimento de serviços básicos, que são essencialmente saúde educação (este o principal garantidor de que o coeficiente de Gini poderá mover-se um pouco mais para baixo até 2006). Minha sugestão concreta seria a de que o novo governo se concentrasse nessas ações básicas nos próximos três anos. 
A questão moral, finalmente, tem a ver com a credibilidade do governo, e esta me parece estar seriamente no limite de um diagnóstico negativo por parte da população, com base em alguns eventos ou episódios bastante conhecidos no período recente (nem todos, é verdade, situados na esfera do executivo, mas a população não tem a sutileza das necessárias distinções, atribuindo-os todos ao “governo”). A experiência indica que uma vez operada a caracterização da “indiferença” ou da “conivência” do governo, torna-se difícil reverter o grau de confiança antes disponível, isso no seio de uma grande massa que pode ter votado como o fez em outubro de 2002 não com base em considerações de natureza econômica ou política, mas essencialmente em função de preceitos éticos. Minha sugestão é a de que o governo atue pronta e radicalmente nessa frente, à margem e independentemente de qualquer processo futuro ou em curso de reforma ministerial.
A governabilidade exige que a economia funcione bem (ou que pelo menos ela não provoque desgastes adicionais), que a política seja eficiente (ou que pelo menos ela aparente ser) e que os padrões éticos do governo sejam inatacáveis (aqui sem qualquer compromisso). Estes critérios devem ser escolhas do estadista. Todo o resto é secundário.

Paulo Roberto de Almeida
Porto Alegre, 26 de outubro de 2003

sábado, 1 de setembro de 2018

Criticas do alto da torre de marfim (2003) - Jose Murilo de Carvalho, Paulo Roberto de Almeida

Em 2003, houve um sentimento de frustração geral por parte de acadêmicos, no sentido em que os progressos "sociais" do governo transformador eram considerados muito lentos. O historiador José Murilo de Carvalho efetuou uma dessas críticas, reproduzida no Globo, e reproduzida no Jornal da Ciência. Eu me permiti responder à crítica: 

Críticas do alto da torre de marfim

Paulo Roberto de Almeida
Filadélfia, 30 de junho de 2003


Comentários a entrevista transcrita no Jornal da Ciência (JC E-Mail), Edição 2309, de 30 de junho de 2003, publicada, sob o título “Sociólogo comenta entrevista de José Murilo de Carvalho”, na edição nº 2311, de 2 de julho de 2003 (matéria 25)
Mensagem do sociólogo e diplomata Paulo Roberto de Almeida:

Apenas um comentario de ordem geral a respeito da entrevista de Jose Murilo de Carvalho ao Globo(29.06), transcrito no JC de 30.06.
Sua entrevista é bastante equilibrada e denota alto senso de realismo em relação aos problemas da governança, sempre difíceis em países vulneráveis à ação de forcas externas, sobre as quais não se tem controle, como o Brasil.
Mas, como muitos de seus colegas de academia (vide o manifesto dos economistas, por exemplo), ele se permite formular julgamentos a partir de uma posição relativamente confortável, pois que não assumindo funções executivas no governo.
Ele diz, por exemplo: 'Estabilizado o sistema, como já está, não há mais desculpas para a falta de resultados na área social.'
Permito-me apenas chamar a atenção para o fato de que muitos acadêmicos, num total isolamento dos problemas reais de governabilidade, estipulam metas, fixam prazos, cobram resultados, em total abstração dos problemas reais de administração da economia, como se orçamentos fossem elásticos, como se a vontade política bastasse para produzir resultados, e como se a indignação moral fosse um bom substituto da racionalidade econômica.
Ajudar o governo a cumprir as metas anunciadas durante a campanha eleitoral, quando todas as liberdades com a realidade são permitidas, implica igualmente fazer uma avaliação realista das possibilidades e limites da gestão econômica e procurar colaborar no que for possível.
Cobranças do alto da torre de marfim conseguem tão somente aumentar o grau de frustração social.

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 From: Jornal da Ciência <jcemail@jornaldaciencia.org.br
 Date: Mon, 30 Jun 2003 15:33:28 -0300

 Subject: JC e-mail 2309, de 30 de junho de 2003.
 José Murilo de Carvalho sobre o Governo Lula: 'Não há mais desculpas para a 
 falta de resultados'

 O historiador diz que o governo Lula está diante do mesmo desafio que  enfrentava ao assumir: conciliar a ortodoxia econômica com avanços sociais.  Embora diga que era preciso acalmar a "banca internacional", ele cobra  atitudes concretas, pois o desempenho no social tem sido pífio.

 Eis a entrevista com José Murilo de Carvalho, membro da Academia Brasileira de 
 Ciências, feita por Carter Anderson para 'O Globo':

 - O governo Lula sofre pressões cada vez maiores para mudar a política  econômica. Acabou a lua-de-mel e começou o inferno astral? 
José Murilo de Carlaho - A lua-de-mel está acabando, o inferno astral não  começou. O presidente ainda é popular entre o povão e ainda tem cacife no  mundo político. O que está havendo é o que observadores menos parciais, ou  menos românticos, previram: a eleição de Lula não levaria à refundação do  Brasil. A forte proposta de renovação, ancorada sobretudo no carisma do  presidente, teria que enfrentar sérios obstáculos, como a resistência do  privilégio, a impaciência dos radicais e os constrangimentos dos mecanismos  democráticos de decisão. É o que está havendo.
  - Ao avaliar o primeiro mês, o senhor disse que Lula teria que juntar duas cabeças: a da ortodoxia econômica e a da reforma social. Está conseguindo? 
  José Murilo - Não está. É óbvio para todos que, por enquanto, o governo tratou  de segurar a economia recorrendo à mesma política do governo anterior, presa à  receita do FMI, em prejuízo quase total da agenda social. A frustração é  grande. Mas deve-se concluir que Lula e o PT se transmudaram em neoliberais,  traíram o eleitor, cometeram estelionato eleitoral? Tirar tal conclusão é tão  precipitado como foi esperar mudanças radicais. Com razão ou não, a banca  internacional estava em pânico, o real despencava, o risco Brasil disparava. E  isso em boa parte devido a posições defendidas pelo próprio PT quando  oposição. Seria muito arriscado alterar o rumo sem antes estabilizar o  sistema. Há ainda três anos e meio para fazer pender a balança para o lado  social. 
  - O governo briga com setores que sempre estiveram ligados ao PT. Esses setores buscarão outras formas de representação política? 
  José Murilo - Algum realinhamento de forças deverá acontecer. Alguns petistas  sairão ou serão saídos do partido. A CUT já se dividiu entre os sindicatos do  setor privado e os do setor público. Lula arriscaria ser vaiado se aparecesse  nas universidades, onde a senadora Heloísa Helena é ovacionada. Tudo isso era  de se esperar e não é necessariamente mau. Aliás, é bom, sacode ortodoxias,  abala corporativismos. Má tem sido a atitude dos caciques do PT quando acusam  correligionários que se mantiveram fiéis ao programa do partido de fazerem o  jogo da direita. A atitude denuncia mentalidade ainda não totalmente afeita ao  jogo democrático. 
  - O desempenho na área social decepcionou? 
  José Murilo - Lula e o PT prometeram reorientar a economia e priorizar o  social para eliminar, ou pelo menos reduzir substancialmente, a persistente  desigualdade social que amarra, atrofia e envergonha o país. Os resultados até  agora são pífios. Em parte, pelas razões mencionadas acima, mas também por  erros de concepção e incompetência gerencial. O que se passa com o  assistencialista Fome Zero, lançado com tanto estardalhaço? Alguém sabe o que  faz no governo a ministra da Assistência e Promoção Social? Quais são os  planos para a melhoria da qualidade do ensino fundamental? Por que o MST  continua invadindo terras? Estabilizado o sistema, como já está, não há mais  desculpas para a falta de resultados na área social. Por eles será julgado o governo Lula. 
 - Que outros aspectos estão aquém do esperado? 
  José Murilo - Há alguma movimentação na área da segurança pública, mas ainda  muito aquém do exigido pela gravidade do problema. As propostas enviadas ao  Congresso não tocam em pontos chaves para acabar com a impunidade, como a  reforma das polícias e do Judiciário, cujos lobbies sempre derrotaram medidas  reformistas. A trombada com os artistas, sobretudo os ligados ao cinema, foi  mistura de inabilidade política com concepção stalinista do que deva ser  contrapartida social. Os improvisos do presidente, em especial aquele em que  se colocou logo abaixo de Deus, acima do Judiciário e do Congresso, também não  têm ajudado. 
  - Lula diz que o Brasil nunca foi tão respeitado no exterior. 
  José Murilo - No governo passado, o Brasil também era respeitado. O que há de  novo agora é generalizada expectativa internacional em relação ao programa de  reformas do governo e grande simpatia pela pessoa do presidente. Mas há  deslumbramento da parte de Lula. As expectativas da turma do Fórum Social, dos  grupos anti-globalização, estão murchando e os membros do G-8 já demonstraram  que simpatia não é amor. Ouviram com polidez a proposta levada pelo presidente à sua reunião mas a ignoraram na declaração final. O apoio do governo ao  início da Alca em 2005 também vai gerar muito desgaste interno, inclusive no  próprio governo. Mas, no geral, a política externa foi bem. Ajudou o fato de a Venezuela ter saído das manchetes.
  - Que outros aspectos são positivos? 
  José Murilo - O que desapontou foi em parte bom. O Brasil é muito complexo  internamente e muito frágil externamente para ter agüentado uma guinada na  política econômica, sem prévia estabilização. Os custos políticos da ortodoxia  econômica têm sido muito altos, mas seis meses de arrumação não comprometerão  necessariamente o resto do mandato. A guinada brusca é que poderia ter  comprometido tudo. O que irritou também não tem sido de todo mau. Foi corajoso  da parte do governo enfrentar de saída reformas difíceis como a da Previdência  e a tributária. Sem discutir o mérito das propostas (a da Previdência pode  atingir alvos errados) pode-se concordar que nessas áreas se localizam alguns  dos focos de nossas desigualdades, alguns dos mais resistentes núcleos de  privilégios arraigados. O exemplo mais gritante disso é sem dúvida o do  Judiciário, cujo corporativismo e apego a privilégios ofendem o país. 
 (O Globo, 29/6) 

sábado, 29 de outubro de 2016

Anpocs 2016: sociologos continuam delirando, como de habito? (FSP)

A pergunta do título desta postagem tem uma razão de ser, e foi motivada pela leitura desta matéria da FSP sobre a reunião da Anpocs em Caxambu, em outubro de 2016, mais especificamente pela resposta do sociólogo José de Souza Martins à pergunta abaixo: 

PT se transformou em partido de direita, diz sociólogo
Thais Bilenky - enviada especial a CAXAMBU (MG)

Folha de S. Paulo, 27 de outubro de 2016

Para o professor titular aposentado da USP, o PT é um partido de direita... (...)

(...)
Por isso o senhor critica o congresso da Anpocs?
José de Souza Martins: Sim, o PT esteve no poder 13 anos e a Anpocs nunca fez um debate sobre os problemas do PT, que eram óbvios. O Fernando Henrique Cardoso, que é um grande sociólogo, reconhecido internacionalmente, um teórico, inclusive, nunca foi convidado. Tem um monte de exceções aqui dentro, mas tem esse viés corporativo de não querer abrir um flanco com o PT. Foi um erro não ter aberto debate crítico, da Anpocs e das universidades.

[fim de transcrição]

Discordo do sociólogo da USP. A Anpocs sempre promoveu debates sobre as políticas públicas, mas são os sociólogos participantes (que em geral aderem à mesma religião) que evitam críticas ao PT ou à esquerda em geral, e as que por acaso ali são feitas são silenciadas ou vaiadas. Posso dar minha própria experiência, ocorrida logo no começo do lulopetismo no poder.

Fui convidado ao primeiro encontro da Anpocs pós-posse e início do governo Lula, em outubro de 2003, portanto, numa mesa que deveria justamente debater os desafios ao governo Lula, ou seja, do governo do PT, que depois de passar mais de 20 anos na oposição e criticando o "neoliberalismo" dos governantes anteriores, chega ao poder e precisa responder aos problemas concretos da governança.
Eu estava recém desembarcando de quatro anos em Washington, e meu último trabalho na capital americana, depois de promover encontros com brasilianistas americanos e ter publicado o livro (editado com o embaixador Rubens Barbosa e o sociólogo Marshall Eakin), O Brasil dos brasilianistas: estudos brasileiros nos Estados Unidos, 1945-2000 (São Paulo: Paz e Terra, 2002), foi justamente um livro dedicado às mudanças em curso no Brasil, sobretudo no pensamento da esquerda. Este aqui: 
A Grande Mudança: consequências econômicas da transição política no Brasil 
(São Paulo: Cortex, 2003; sumário e informações disponívis na plataforma Academia.edu, link: https://www.academia.edu/5546940/11_A_Grande_Mudanca_consequencias_economicas_da_transicao_politica_no_Brasil_2003_).
escrito totalmente antes das eleições, mas já prevendo não só a vitória do PT nas urnas de outubro de 2002, mas também a transformação (não declarada e não reconhecida) do PT em socialdemocracia envergonhada.

Convidado formalmente pelo comitê organizador do XXVII Encontro Anual da ANPOCS (Caxambu - MG, 21-25/10/2003), preparei, ainda em Washington, um trabalho que pretendia justamente debater, numa sessão especial "Por onde tem ido e por onde irá o governo Lula?" (Quarta-feira, 21h00, Anfiteatro Caxambu), numa mesa da qual participavam ainda, como debatedores, Luiz Carlos Bresser Pereira, da FGV-SP, Luiz Werneck Vianna, do IUPERJ, Ricardo Carneiro, do Instituto de Economia da UNICAMP (e ex-asssessor econômico do responsável pelo programa econômico do PT no início da campanha do PT em 2002, o prefeito assassinado de Santo André Celso Daniel) e este modesto escriba. 

Lembro-me perfeitamente que Bresser Pereira, o primeiro a falar, foi intensamente vaiado, a despeito de ter apoiado amplamente não só a vitória do PT e seu governo, como um programa de esquerda (nacionalista, estatizante) para as medidas de política econômica do governo Lula.
O segundo, Moacir Werneck, tipico sociólogo gramsciano, disse coisas incompreensíveis, à la Lacan, mas foi aplaudido, da mesma forma como o economista Ricardo Carneiro, que fez uma crítica de esquerda das primeiras medidas econômicas do governo Lula, desancando o neoliberalismo de Palocci, a permanência de um banqueiro (Meirelles) no Banco Central e várias outras coisas mais, que agradaram intensamente a plateia presente.
Eu, como se poderá verificar pelo meu paper, abaixo indicado, e ainda disponível no site onde ele foi posteriormente publicado, desenvolvi a tese de que o PT já tinha feito  a sua reconversão, mas não queria confessar, por diversos motivos, como indico no texto, mas que ele praticaria uma política "neoliberal" no poder.

Fui, como seria de se esperar, intensamente vaiado, tendo o conhecido sociólogo (que eu admirava muito em meus tempos juvenis) Octavio Ianni tomado do microfone para discorrer, durante pelo menos 10 minutos, contra a traição do PT no poder, e para atacar a mim e ao Bresser Pereira (por ter ter, supostamente, 'desmantelado o Estado', durante sua gestão como ministro da Administração), o que eu achei indigno e irresoluto, pois afinal de contas eu fui o único ali a defender o neoliberalismo do PT.
Tomei da palavra depois para me solidarizar com o Bresser, pois ele estava ali como defensor do PT tradicional, de esquerda, e não merecia aquelas vaias.
Para quê?! Fui novamente vaiado intensamente, o que me confirmou, mais uma vez, que nada podia ser feito, nada podia se esperar, dos masturbadores sociais da academia, seres normalmente alienados, que vivem num universo à parte.
Essas vaias estão registradas na matéria do Valor, que transcrevo abaixo.
Parti de Caxambu na mesma noite, sendo que a única pessoa que me prestou solidariedade na saída foi o jornalista do Estado Rolf Kuntz, já no momento em que eu pegava o taxi.

Dali fui direto para Brasilia, para começar meu trabalho, uma experiência de três anos e meio com o governo Lula, assessorando o ministro Kuiz Gushiken no Núcleo de Assuntos Estratégicos, período no qual eu pude perceber que a cúpula do PT tinha, sim, mudado, adotado todas as medidas que eram necessárias para se manter no poder, mas que os petistas, em geral, militantes do baixo e do alto clero, como os gramscianos da academia, não tinham mudado em nada, e permaneciam os mesmos obtusos de sempre.

Para os interessados em saber o que eu disse (em outras palavras) em Caxambu, em 2003, figura abaixo a ficha do trabalho e o link ainda disponível para leitura:


A longa marcha do PT para a socialdemocracia: Algumas ideias vencedoras, outras indefinidas e questões ainda não-resolvidas”, Washington, 9 out. 2003, 7 p. Paper para apresentação oral no XXVII Encontro Anual da ANPOCS (Caxambu - MG, 21-25/10/2003), na sessão especial SE01: Por onde tem ido e por onde irá o governo Lula? (Quarta-feira, 21h00, Anfiteatro Caxambu), tendo como coordenador César Barreira, UFC, e como debatedores: Luiz Carlos Bresser Pereira, FGV-SP, Luiz Werneck Vianna, IUPERJ, Ricardo Carneiro, UNICAMP e PRA. Publicado na revista Eletrônica Achegas (Rio de Janeiro, n. 15, jan. 2004; ISSN: 1677-8855; http://www.achegas.net/numero/quinze/pralmeida_15.htm). Relação de Originais n. 1133. Relação de Publicados n. 462.


Vou reler esse trabalho agora, apenas como curiosidade, mas minha impressão é a mesma de 13 anos atrás: não há nada a ser feita com gramscianos de academia e com petistas. 

O trabalho também tinha uma
Tabela periódica das novas partículas elementares
que não deixava de ser uma gozação com esses seres iluminados, que aproveito para transcrever aqui abaixo.

Paulo Roberto de Almeida  
Brasília, 29 de outubro de 2016.



PS1:

Governo Lula deve insistir na mudança

Valor Economico - 1º Caderno - 24/10/2003
Jamil Nakad Junior, De Caxambu (MG)

Vianna: crítica à "intelligentsia" do PT por "alimentar a mitologia da revolução"

O pior cenário seria o governo Lula "desistir da mudança, se adaptar às circunstâncias e ganhar as próximas eleições (de 2004)". Esse novo mandato colocaria no poder um partido sem projeto de mudança: "Essa é a tragédia que pode nos acontecer agora... A oportunidade (da mudança) não pode ser perdida. Não se pode esquecer que depois de Massimo D´Alema na Itália veio Silvio Berlusconi". O alerta do sociólogo do Iuperj e presidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisas em Ciências Sociais (Anpocs), Luiz Werneck Vianna, foi feito na noite de quarta-feira durante um debate acalorado de mais de duas horas sobre o governo Lula e seus rumos, no 27º Encontro Anual da entidade, em Caxambu.

Werneck Vianna não se mostrou assustado com a guinada ao centro dada pelo PT pois esse movimento já se notava às vésperas do segundo turno em 2002, há cerca de um ano. O país estava sob o risco de "argentinização", com o dólar perto de R$ 4 e até mesmo sob a possibilidade de um "Chávez à brasileira", segundo o sociólogo. "Como era possível ultrapassar aquele cabo das tormentas com aquele mapa de navegação? Iríamos direto aos arrecifes", disse Werneck Vianna.

"Houve lucidez do momento da posse até aqui no sentido de se manter o país bem alinhado em relação a determinadas políticas macroeconômicas que têm garantido a estabilidade financeira e política... Mas assim estou ultrapassando a linha da prudência, pela margem positiva. Recuo", disse Werneck Vianna, defendendo o governo, mas criticando em seguida a "intelligentsia" do PT que "não fez outra coisa senão alimentar a mitologia da revolução redentora", avaliou.

O presidente da Anpocs disse que a tarefa de fazer a mudança não cabe aos economistas, mas a estadistas e deve dirigir-se para a opinião pública. "Temos que começar a advertir que o tempo em política é como o dinheiro em economia. Não admite gastos perdulários. Não digo que o tempo já é esse, mas digo que já se aproxima. Não digo que a mudança deve ser feita de uma vez. A mudança tem que ser mantida num lugar à vista de todos e os sinais devem ser dados a cada dia", reclamou.

O economista Ricardo Carneiro (Unicamp), filiado ao PT, disse que a política macroeconômica de Antonio Palocci é "liberal" e sugeriu que o governo Lula fizesse um controle do fluxo dos capitais externos. Para Carneiro, a queda do risco-país era apenas "cíclica". "Isso da forma que vem, vai", afirmou.

A sessão especial criada para debater o governo Lula e seus rumos gerou um bate-boca acalorado entre o sociólogo Octávio Ianni (Unicamp) e o ex-ministro da Fazenda Luiz Carlos Bresser-Pereira (FGV-SP).

Como se ainda estivessem em clima de campanha eleitoral, os presentes, da comunidade acadêmica, aplaudiam ou vaiavam conforme se posicionavam contra o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ou o do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

Na mesa, o tucano Bresser-Pereira - que, ao lado do ex-senador José Serra, criticava a política do ministro da Fazenda, Pedro Malan, no governo FHC -, cobrou do governo Lula uma mudança na sua política econômica. Segundo Bresser-Pereira, a política econômica faria o país crescer apenas a taxas de 1% ou 1,5% per capita, enquanto a China cresceria 7% per capita e os países ricos de 2% a 2,5%. "O Brasil tem que enfrentar o FMI e fazer o que deve ser feito", disse Bresser-Pereira, usando uma frase que mais lembrava as ditas pelo PT antes de chegar ao governo.

Octávio Ianni, da platéia, defendeu o atual governo, afirmando que Lula não tinha alternativa neste momento por conta da herança fernandista, que, criticou, voltou as costas à sociedade civil. "O governo Lula enfrenta uma situação excepcionalmente difícil no plano econômico, social e político", defendeu Ianni, lembrando, ainda, que Bresser-Pereira fez parte do governo FHC como ministro.

Bresser-Pereira, que já havia sido confrontado por outros participantes da mesa de forma indireta, chamou a intervenção de Ianni de "patética". Por estar sem microfone e no fundo da sala, o sociólogo respondeu, gritando, que havia feito uma reflexão objetiva. As intervenções de Ianni foram respaldadas por aplausos da maioria da platéia. Bresser-Pereira foi vaiado, assim como o sociólogo e diplomata Paulo Roberto de Almeida - que não participara do debate entre Bresser-Pereira e Ianni - , quando se referiu à falta de respeito com o ex-ministro.
 


PS2:
Transcrevo abaixo matérias daquela conjuntura que figuravam num boletim da Anpocs: 


ANPOCSnews.doc

OESP, Domingo, 19 de outubro de 2003          
Intelectuais fazem primeira avaliação da Era Lula

Reunião da Anpocs já mostra integrantes divididos entre o ceticismo e a esperança

Otávio Magalhães/AE
Werneck, presidente da Anpocs: "Até agora, vi mais adaptações do que mudanças" SILVIO BRESSAN
O governo Lula enfrenta nesta semana seu primeiro grande teste frente à intelligentsia nacional. A partir de terça-feira, em Caxambu (MG), centenas de cientistas políticos, sociólogos e antropólogos estarão reunidos no 27.º Encontro Anual da Associação de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), para discutir, entre outros temas, os primeiros nove meses da chamada Era Lula. Para o presidente da Anpocs, Luiz Werneck Vianna, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP), trata-se de saber se esse governo é de mudança ou de acomodação. "Até agora, vi mais adaptações do que mudanças", afirma.
Para Werneck, que é professor do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (Iuperj), o governo tem falhado em questões importantes, como o relacionamento com o Judiciário, a política de meio ambiente e a retomada do crescimento econômico. "Não gostaria de ver um governo, eleito para mudar as coisas em sua volta, tão adaptado a essas mesmas circunstâncias", critica o presidente da Anpocs.
Atalho - Depois de lembrar que Lula prometia uma grande coalizão entre capital e trabalho, com uma expectativa de crescimento e criação de empregos, Werneck se diz um pouco decepcionado com os resultados. "O que este governo fez para descobrir um caminho, uma fenda, um atalho para o desenvolvimento?", pergunta o sociólogo. "Apesar da retórica em defesa do Estado, o governo tem acreditado muito mais no mercado, que é incapaz de fazer o País crescer nas taxas que precisa."

Também cético, o cientista político da USP Eduardo Kugelmas concorda que a tônica do governo, por enquanto, tem sido de adaptação. "Há uma lentidão muito grande para chegar ao que seria a fase dois, a do crescimento, porque a intenção de mudança encontrou dificuldades maiores do que as previstas", observa Kugelmas. "A política industrial, por exemplo, é sempre anunciada para a semana seguinte, mas nada acontece."
Embora admita que as coisas ainda estão devagar, a secretária-executiva da Anpocs, a socióloga Maria Arminda do Nascimento Arruda, acha que ainda é cedo para um diagnóstico. "Nove meses é um tempo muito curto para as ciências sociais, que têm um compromisso maior com reflexão", anota Maria Arminda. Por isso, ela se diz numa posição intermediária. "Concordo que o governo é tímido em alguns campos, como na política de desenvolvimento e na área social", admite a socióloga da USP. "Essa etapa, porém, pode projetar uma mudança. É preciso esperar um pouco mais."
Do mesmo modo, o cientista político do Iuperj Jairo Nicolau acha que o caminho ainda não está traçado de forma definitiva. Até agora, avalia ele, o governo Lula tem sido uma continuação do anterior. "É inegável que o PT não está cumprindo sua agenda social, mas acho que as condições para o início da segunda fase começam a ser dadas", observa Nicolau.
Por enquanto, ele está mais espantado com a migração dos deputados da oposição para a base governista. "O PT que sempre defendeu o fortalecimento dos partidos, de repente ajuda no seu enfraquecimento", anota. "Não deixa de ser um paradoxo."

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Domingo, 19 de outubro de 2003          
'Até Lenin fez concessões a multinacionais'

Genoino nega que PT aprofunde modelo de FHC, mas diz que é preciso ceder para atingir outro modelo

Agliberto Lima/AE
Genoino: "Nós negociamos com governadores, empresários e o Congresso. Sabemos negociar mantendo a linha central do que queremos" PATRÍCIA VILLALBA e CONRADO CORSALETTE
O presidente do PT, José Genoino, recorre a ícones da esquerda para responder às críticas ao governo de Lula e negar que, no poder, o partido esteja navegando pelos mares do neoliberalismo. Na defesa de que o PT é, de fato, um partido de esquerda, o ex-radical e agora moderado Genoino não hesita em comparar Lula a Lenin: "Depois da Revolução (Russa) de 1917, Lenin fez concessões a multinacionais sobre exploração do petróleo de Baku, porque não tinha dinheiro para explorar."
Genoino nega veementemente que o PT esteja aprofundando a política econômica do governo Fernando Henrique. Citando a tão recorrente "herança maldita", ele argumenta que a equipe econômica teve de "segurar o boi pelos chifres" para pôr o País no rumo certo. Na mesma linha, ressalta que o PT não foi eleito para fazer rupturas, mas para mudar o País gradualmente. Por isso, lamenta a atitude "precipitada" de alguns companheiros que acham que o sonho já acabou - como o deputado Fernando Gabeira, que acaba de sair do partido.
"Não adianta sonhar e ficar por isso mesmo. E para mudar, tem de sonhar com os pés no chão."
Nesta entrevista ao Estado, Genoino fala dos planos do PT para continuar na esquerda, mesmo sendo governo:
Estado - O que o sr. diria aos petistas que talvez estejam pensando como o deputado Fernando Gabeira, que sonharam o sonho errado?
José Genoino - A quase totalidade dos petistas, pelas pesquisas que nós temos e pelas plenárias que são realizadas pelo País afora, tem confiança no governo. A base entende as dificuldades que o governo está vencendo, confia na força que o partido está dando ao governo. Portanto, eu acho que o sentimento da militância do PT é de realizar o sonho. Os petistas que esperaram e que lutaram 23 anos por esse momento não vão baixar a cabeça na primeira dificuldade.
Estado - Que tipo de contribuição o governo Lula e o PT deram até agora para a mudança do pensamento hegemônico, do neoliberalismo? A política econômica manteve-se a mesma.
Genoino - Não. Nós não estamos realizando a política neoliberal. Nós estamos criando no Brasil uma maneira de governar, com responsabilidade. Fomos eleitos para fazer mudanças processuais e graduais. O PT não ganhou a eleição para fazer rupturas. E nós temos uma correlação de forças que não é maioria de esquerda. Por isso, nós governamos com a esquerda, centro-esquerda e setores de centro. Esse é o resultado do processo democrático.
Estado - Mas o que diferencia o PT no governo?
Genoino - Em primeiro lugar, é um governo de negociação. Nós negociamos com governadores, com empresários e com o Congresso. Nós sabemos negociar mantendo a linha central do que nós queremos. Sinceramente, eu imaginava que as dificuldades seriam maiores. Foi isso que eu disse pro Gabeira: 'Estamos há 23 anos esperando por esse momento e na primeira dificuldade a gente deixa de sonhar?' Estado - Em resumo, vai demorar para o senhor acordar desse "sonho"?
Genoino - Eu não tenho sonho errado. Eu sou um sonhador com os pés no chão, quero realizar o sonho. Aliás, o marxismo é que disse que pra a gente mudar o mundo, em vez de fazer abstração, tem de mudar. Não adianta sonhar e ficar por isso mesmo.
Estado - Quando o sr. imaginou as dificuldades, pensou que muitas delas viriam justamente do PT?
Genoino - Claro que sim. Nós sempre avaliávamos que haveria um tensionamento com certos segmentos do PT. É natural que tenha um tensionamento entre o ato de governar do PT e a experiência do PT. As pessoas estão se posicionando muito mais por razões político-ideológicas do que por razões técnicas.
Estado - Mas quando o PT era oposição, não praticava a oposição ideológica?
Descartar a ideologia hoje, não seria uma nova versão do "esqueça o que eu escrevi" do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso?
Genoino - Não, pelo contrário. As idéias, os valores, as causas e os sonhos compõem o ideário do PT. O PT nunca foi vinculado a uma vertente ortodoxa da esquerda, não nasceu do muro.
Estado - Mas em algumas questões não há como não ser maniqueísta. Ou você agrada aos empresários ou agrada aos trabalhadores. Por exemplo, na reforma trabalhista. Os empresários vão aplaudir a reforma trabalhista do PT?
Genoino - Eu acho que nós temos de fazer uma mudança na CLT garantindo com direitos permanentes férias, repouso semanal, 13.º salário e licença maternidade. O que a esquerda tem de pensar é que a política não é um lado destruir o outro. Você não pode fazer política moderna sem negociar.
Estado - Mas não é constrangedor os maiores aplausos para o governo virem dos empresários, dos banqueiros e até mesmo do ex-ministro Pedro Malan?
Genoino - Elogios a gente recebe de qualquer pessoa. As pesquisas que nós temos mostram que a maioria da população brasileira elogia o governo Lula. A média de avaliação positiva do PT varia 31% a 36% e a rejeição, de 11% a 13%. A hegemonia é um processo paulatino de convencimento. É o que o PT está construindo.
Estado - Está construindo ou está se aproveitando de um pensamento e se moldando a ele?
Genoino - Não. Nós somos oposição ao pensamento neoliberal, aos valores de que o mercado resolve todos os problemas. Nós estamos construindo um projeto de Brasil com outros valores e outros parâmetros. Agora, essa construção não foi feita na base de um choque nem de uma ruptura.
Estado - Mas não há como negar que na economia houve um aprofundamento da política de Fernando Henrique.
Genoino - Nós não estamos aprofundando. Tivemos de segurar o boi pelos chifres para poder sair dessa situação. Já disse para os meus companheiros que eles precisam ler uma das decisões do Lenin, depois da Revolução de 1917. Ele fez concessões a multinacionais sobre exploração do petróleo de Baku, porque não tinha dinheiro para explorar. O problema é o sentido político de tomar essas medidas. Você toma essas medidas no sentido de aprofundar o modelo ou no sentido de processualmente criar condições para outro modelo. Eu acho que faria muito bem a alguns críticos do PT a leitura de algumas decisões de quando houve rupturas e confrontos. Ainda bem que o nosso filósofo inspirador da esquerda dizia: 'A humanidade só se propõe a fazer tarefas realizáveis.' Estado - Depois das concessões de Lenin, veio uma grande mudança, o comunismo. O que vem por aí?
Genoino - Um país democrático, socialmente justo e soberano.
Estado - Isto é genérico demais.
Genoino - Nós não temos uma definição de implantar o socialismo como um projeto econômico e político. O PT está no jogo democrático, representa uma grande renovação da esquerda justamente porque saiu daquela matriz ortodoxa.
No início do governo Fernando Henrique nós fizemos uma oposição muito fechada. Qual foi o resultado? Derrota em 1996, perdemos quase todas as prefeituras. O PT aprende.
Estado - Como é que se sentiria o deputado José Genoino no Congresso tendo como aliado Roberto Jefferson (PTB-RJ), que foi da tropa de choque de Fernando Collor?
Genoino - Eu estaria muito feliz, como estou na presidência do PT, para defender um governo. Em relação a essas pessoas, você sabe que desde a minha experiência parlamentar eu era criticado porque me dava bem com todo mundo.
O deputado Roberto Jefferson apoiou Lula no segundo turno, apóia e vota com o governo. Está sendo bom pra quem? Para o PT e para o governo Lula.
Estado - O deputado Roberto Jefferson está sendo mais companheiro do que a senadora Heloísa Helena?
Genoino - Estou me referindo a aliados. Sobre esses companheiros do PT, eles deveriam manifestar suas opiniões e, na hora de votar, votar com o partido.
Se eu dissesse o que eles dizem do PT, para ser coerente, eu já teria deixado o partido. A política de esquerda tem lado, e não vamos abrir mão do nosso lado.
Estado - Apesar de Lula dizer que não é de esquerda?
Genoino - O Lula nunca foi um esquerdista e há uma diferença. Esquerda nós somos. Ser de esquerda hoje não é defender corporativismo. É defender uma sociedade justa.

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Domingo, 19 de outubro de 2003          
Gabeira, Dirceu e Genoino têm destinos cruzados


BRASÍLIA - Boa parte dos sonhos políticos da esquerda que hoje está no poder tem suas origens num período anterior, em cerca de uma década, ao surgimento de Luiz Inácio Lula da Silva no cenário político. Trata-se de uma época marcada pela luta até armada contra o regime militar, aventura da qual tomou parte gente como o deputado Fernando Gabeira (RJ), o presidente do PT, José Genoino, e o ministro José Dirceu (Casa Civil). De uma forma ou de outra, os destinos dos três sempre se cruzaram.
"Há limite até para a deselegância", queixou-se o deputado no dia 10, no Palácio do Planalto, logo depois de esperar uma hora em vão pelo início de uma conversa com o ministro, com quem discutiria a política ambiental do governo e negociaria talvez sua permanência no PT.
Curioso é que Dirceu, em 1969, dependera de uma mãozinha de Gabeira para sair da cadeia e embarcar para Cuba, onde fez curso de guerrilha. Ele foi um dos 15 presos políticos trocados pelo embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, seqüestrado por um grupo integrado por Gabeira e outros ativistas do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8). Gabeira igualmente fez curso de guerrilha em Cuba. Mas, ao contrário de Dirceu, não regressou clandestinamente ao Brasil.
Preso em 1972 por integrar o grupo de guerrilheiros do PC do B que operava no Araguaia, Genoino foi torturado por militares e só ganhou a liberdade em 77. Ao lado de Dirceu, Genoino ajudou a fundar o PT em 1980, na esteira das históricas greves de metalúrgicos comandada pelo ascendente líder Lula. Como Gabeira, acabou por abandonar as idéias revolucionárias e por se tornar um radical defensor da democracia. (J.D.)  

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Domingo, 19 de outubro de 2003          
Governo Lula embaralha sonhos da esquerda
Saída de Gabeira faz petistas avaliarem se as coisas estão indo no rumo esperado

Joedson Alves/AE
"Este governo é a aposta de nossas vidas. Chegou a hora do viravolta: vira para o governo e volta para as origens petistas", diz Chico Alencar JOÃO DOMINGOS
BRASÍLIA - Ao deixar o PT, na terça-feira, o deputado Fernando Gabeira (RJ) fez um discurso com pesadas críticas ao governo. Foi objetivo, ao apontar o que, na sua opinião, representam desvios: a omissão quanto ao desrespeito a direitos humanos em Cuba e a liberação do plantio de sementes de soja transgênica. Ao mesmo tempo, Gabeira forjou uma imagem poética para explicar sua atitude: "Sonhei o sonho errado." O governo Lula tem, de fato, tumultuado os sonhos da esquerda brasileira.
Um grupo de parlamentares petistas incomodados com os rumos da administração federal, entre os quais Chico Alencar (RJ) e Walter Pinheiro (BA), admite viver sobressaltos. Mas eles avaliam que sua missão é lutar para realizar seu sonho dentro do PT. "Este governo é a aposta de nossas vidas. Portanto, chegou a hora do viravolta: vira para o governo e volta para as origens petistas", diz Alencar. "Não dá para admitir que sonhamos errado nem para abandonar nossos sonhos. É hora de exigir correção de rumos", completa Pinheiro.
Há quem tenha desistido do sonho petista antes mesmo de Gabeira. A deputada Luciana Genro (RS), por exemplo, diz nunca ter tido muitas ilusões com o governo, pois jamais imaginou que o PT faria a revolução socialista. Só não sabia que sua decepção seria tão rápida e grande. Ao lado da senadora Heloísa Helena (AL) e dos deputados João Batista Araújo, o Babá (PA), e João Fontes (SE), ela integra a ala dos radicais, cuja perspectiva é marcada pelo pesadelo da expulsão. "Em 2001, o setor majoritário do PT, que não é esquerda, votou uma resolução que ainda dava alguma esperança, mas nada foi respeitado pelo governo Lula", ataca Luciana.

No terreno dos sonhos, as interpretações costumam ser controversas e os petistas mais ligados ao governo juram que os anseios da esquerda estão, sim, se tornando realidade. "É preciso ter paciência. As mudanças não serão feitas rapidamente. Estamos preparando o terreno para o crescimento e os avanços sociais", diz o presidente do PT, José Genoino.
"Tenho certeza de que os brasileiros vão se surpreender, porque ninguém abandonou a idéia do sonho de uma sociedade mais justa, mais humana", afirma o presidente da Câmara, João Paulo Cunha (SP). "Sei que há queixas, expectativas, mas não podemos fazer as coisas atabalhoadamente. Domamos a inflação. Agora temos todo o tempo para crescer."
O PT tem 92 deputados e 14 senadores. Destes, três deputados e um senador deverão ser expulsos, porque são contrários a tudo o que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz. Há, entre os que restarão, cerca de 30 deputados que fazem crítica e autocrítica constante - entre esses estão, além de Alencar e Pinheiro, Maria José Maninha (DF) e Ivan Valente (SP). Existem ainda os independentes, como o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), Luiz Eduardo Greenhalgh (SP).
Diferente - Como outros, Greenhalgh acha que ainda é tempo de transformar a administração Lula num "governo de sonhos".

Como? "Temos de levar a realidade para dentro do governo. É claro que o sonho que tivemos há 23 anos, quando o PT foi fundado, não pode ser o mesmo de agora, no governo. As coisas são diferentes. Mas não podemos deixar a esperança acabar."
Greenhalgh também diz que às vezes tem pesadelos. "Quando o assunto é a Guerrilha do Araguaia, aí é só pesadelo", afirma ele, advogado das famílias dos guerrilheiros que lutam para ter acesso a documentos capazes de ajudar a localizar os corpos de seus parentes.
Quando fez seu discurso de rompimento, Gabeira recorreu ao cantor e compositor Cazuza. "É um museu de grandes novidades", disse, definindo sua frustração no PT.
Os que mantêm acesa a disposição de corrigir os rumos do governo também recorrem a cantores. Chico Alencar cita Raul Seixas, num verso já repetido pelo presidente. "Sonho que se sonha junto é realidade", diz Alencar.
"Gabeira deveria ter ficado para lutarmos por nossos sonhos." Pinheiro aponta a Canção do Novo Mundo, de Beto Guedes e Ronaldo Bastos, como um hino à necessidade de brigar dentro do governo: "Quem sonhou/ Só vale se já sonhou demais/Quem perdeu/ O trem da história por querer/ Saiu do juízo sem saber/ Foi mais um covarde a se esconder/ Diante de um novo mundo."


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Domingo, 19 de outubro de 2003          
Reunião deste ano traz especialistas do Terceiro Mundo

A participação de cientistas sociais do Terceiro Mundo e o maior número de temas alternativos, como sexualidade, esporte e sociedade da informação, serão as maiores novidades do encontro da Anpocs deste ano. Entre os sete conferencistas convidados, estão um iraniano, Asef Bayat, e um nigeriano Adebayo Olukoshi. Bayat falará sobre o mundo islâmico e Olukoshi abordará a situação das ciências sociais na África.
"Essa troca de experiências não era comum na Anpocs, que privilegiava especialistas dos Estados Unidos e da Europa", lembra a secretária da associação, Maria Arminda do Nascimento Arruda. Na sua opinião, a Anpocs é mais do que uma caixa de ressonância dos grandes temas nacionais.
"Combinamos isso com a discussão de pesquisas de ponta, que vão produzir novos conhecimentos."
Serão mais de mil participantes, entre estudantes, pesquisadores e professores, divididos em 22 mesas redondas e 25 grupos de trabalho, nos quais serão discutidas 280 teses. Além das sete conferências com especialistas estrangeiros, serão ministrados três cursos e haverá duas sessões especiais, uma delas chamada "Por onde tem ido e por onde irá o governo Lula."
O governo também estará presente. O secretário nacional de Segurança Pública, Luís Eduardo Soares, fará uma conferência sobre sua área. Já o porta-voz da Presidência, André Singer, cientista político da USP, está inscrito para um debate sobre novas expressões de soberania popular. (S.B.)

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Domingo, 19 de outubro de 2003          
Escaldado, Lula 'pé no chão' muda discurso

Presidente admite limitações e reconhece dificuldades para cumprir promessas

Joedson Alves/AE
Lula: tom do discurso agora é que falta dinheiro e não será possível atender a todas as demandas DEMÉTRIO WEBER
BRASÍLIA - Passada a euforia dos primeiros meses do ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assume um estilo cada vez mais "pé no chão", admitindo que o governo tem limitações, é passageiro e está longe de cumprir suas promessas. A idéia de que a solução dos principais problemas do País dependia só de vontade política deu lugar à constatação de que falta dinheiro e não é possível atender a todas as demandas.
Lula convive com as restrições de um Orçamento apertado e já sabe que em 2004 não será diferente - a não ser pelo fato de que não poderá mais culpar diretamente seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso. Até agosto, a meta de superávit primário levou o governo a economizar R$ 36 bilhões para o pagamento de juros. O resultado são cofres vazios na Esplanada dos Ministérios e uma lista de obras e projetos sociais parados, alimentando a insatisfação - e as pressões - de ministros e políticos aliados.
"Eu sei que nós ainda não fizemos 1% daquilo que nós nos propusemos fazer", disse Lula em Corumbá (MS), no dia 11, ao lançar edital para a recuperação de rodovias na região do Pantanal. Ele voltou ao assunto quatro dias depois, na comemoração do Dia do Professor, no Palácio do Planalto. "Não conseguimos fazer ainda 10% daquilo que sonhamos fazer", discursou. "Sonhamos grande, pensamos grande. E damos apenas o passo do tamanho que a nossa perna pode dar. Não vamos fazer e prometer nada que nós não possamos cumprir."
A penúria no caixa federal tem exposto o governo a constrangimentos, como a falta de dinheiro na Embaixada no Paraguai para pagar dívidas da viagem de Lula àquele país, em agosto. "Na medida em que o dinheiro disponível para os investimentos, que todos sabemos que é necessário para o crescimento de um país, está muito pouco, eu tenho chamado a atenção para a criatividade", disse o presidente, na abertura do 3.º Fórum Internacional de Microcréditos, dia 6, expondo sua estratégia para driblar a crise.
Limitações - Lula deixou claro estar ciente também das limitações do governo. Ao falar a cineastas, na semana passada, declarou: "O governo não conhece tudo e não pode tudo. Para que a gente possa conhecer melhor e para que a gente possa fazer melhor é preciso que cada um de vocês assuma o compromisso e assuma a responsabilidade."

Ele comentou as dificuldades de promover mudanças internas na estrutura da administração pública. "Não pensem que é fácil fazer transferência de um órgão importante de um ministério para outro ministério", disse, referindo-se à Agência Nacional de Cinema, que era subordinada à Casa Civil e agora responde ao Ministério da Cultura.
No primeiro semestre, Lula demonstrava indignação sempre que ouvia cobranças da oposição. "Tem gente que passou 20 anos no poder, tem gente que está no poder desde que Cabral descobriu o Brasil e não fez o que tinha que ser feito. E agora eles querem que, com 70 e poucos dias, a gente já tenha resolvido os problemas. Não vai ser no tempo deles, vai ser o nosso tempo", disse ele, em março, em São Bernardo do Campo, na comemoração dos 50 anos da Volkswagen no Brasil.
Na primeira semana de junho, ele usou argumento semelhante, comparando o desempenho do governo a uma gestação. "O que não pode é alguém julgar uma criança quando ela ainda está no ventre da mãe. Temos apenas cinco meses de governo e, se eu fosse uma criança gerada no ventre da minha mãe, ainda faltariam quatro meses para vocês dizerem se eu seria bonito ou feio", afirmou, em discurso no 8.º Congresso da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em São Paulo.
Pressionado a baixar os juros e fazer a economia crescer, ele prometeu, no fim de maio, o "espetáculo do crescimento".
Igual - Ainda que o tom dos discursos de Lula sofra mudanças à medida que se aproxima o término do primeiro ano de mandato, muitas de suas idéias e a forma de expressá-las continuam as mesmas. Neste mês, quando admitiu ainda não ter feito sequer 1% do que se propôs, ele reafirmou seu otimismo e voltou a usar o fator tempo como desculpa: "Afinal de contas, estamos há nove meses no governo. Mas eu levanto todo dia mais otimista do que eu fui deitar."

"É muito difícil ser presidente", disse ele, em encontro com estudantes na Argentina, na quinta-feira passada.
Esse breve período, no entanto, já foi suficiente para deixá-lo inteiramente à vontade no poder. No discurso a professores, quarta-feira, ele contou que estava bastante atrasado para um encontro com senadores que o esperavam, "em casa", para discutir a reforma tributária. A reunião era no Palácio da Alvorada, a residência oficial dos presidentes.