quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Oleksandra Matviichuk, advogada ucraniana, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2022 - Roda Viva (TV Cultura, SP)

A Ucrânia luta pela ideia de liberdade, uma noção que representa o medo absoluto para o tirano que invadiu o país que queria se unir à União Europeia e, justamente, se defender daqueles que escravizaram a nação durante séculos:

(Grato a Airton Dirceu Lemmertz pela transcrição do programa)

Em 6/10/2025, o programa 'Roda Viva' (TV Cultura) recebeu a advogada ucraniana Oleksandra Matviichuk, vencedora do Prêmio Nobel da Paz em 2022:

Oleksandra Matviichuk: Advogada e ativista diz que Putin tem medo da "ideia de liberdade".
https://www.youtube.com/watch?v=vhnGAeLwKJw

Oleksandra Matviichuk: "A ordem mundial está colapsando diante dos nossos olhos".
https://www.youtube.com/watch?v=-Mg2AQo1dt0

"A guerra é uma loteria": O horror da vida civil na Ucrânia após 2022.
https://www.youtube.com/watch?v=N4DGcaGuF2s

Oleksandra Matviichuk: Brasil pode fazer mais e deve focar na dimensão humana da guerra.
https://www.youtube.com/watch?v=WjNza7fAmvE

Trump precisa de força para "paz justa", pois Putin não quer a paz, diz Oleksandra.
https://www.youtube.com/watch?v=fBrs8ppwQUs

Oleksandra Matviichuk: A Ucrânia vive uma democracia plena em meio à guerra?
https://www.youtube.com/watch?v=5iegqxfiZF4

Oleksandra Matviichuk expõe momento que transformou Zelensky em líder: "Se revelou muito corajoso".
https://www.youtube.com/watch?v=RON4guOAAXc

Ativista detalha por que mandado de prisão encolheu o mundo para o líder russo:
https://www.youtube.com/watch?v=BRoh3W0vkx8

Oleksandra Matviichuk: Cessão de território é moralmente indefensável para a Ucrânia.
https://www.youtube.com/watch?v=KmD9EWs8RsY

A Lei é a nossa carta, mas Trump diz que ela não conta, diz Oleksandra.
https://www.youtube.com/watch?v=ij0aeFqS-4w

Oleksandra Matviichuk: "O futuro da Ucrânia será decidido em Kiev, não em Washington".
https://www.youtube.com/watch?v=gOE0iICsH0w

Após falha do Memorando de Budapeste, Ucrânia exige garantias reais.
https://www.youtube.com/watch?v=rSgI1x0om9c

Oleksandra Matviichuk: "O meu idioma foi roubado": a luta da Ucrânia para reaver sua identidade.
https://www.youtube.com/watch?v=wH91Zc4Rhx4

"Não podemos competir por atenção; precisamos unir esforços para resolver conflitos".
https://www.youtube.com/watch?v=HYuUEuEUvTQ

Oleksandra Matviichuk: Mulheres ucranianas são mais do que vítimas; "bravura não tem gênero".
https://www.youtube.com/watch?v=1A_gcsqToOI

Oleksandra Matviichuk: Putin usa minoria russa como pretexto; ele só vai parar se for parado.
https://www.youtube.com/watch?v=A_Ilt0HMu9g

A caçada aos crimes de guerra e a proteção das fontes em territórios ocupados.
https://www.youtube.com/watch?v=BpIz1hnCShk

A maioria russa se priva da responsabilidade em troca da 'glória imperial', diz Oleksandra.
https://www.youtube.com/watch?v=4VOL6tigNDA

Oleksandra Matviichuk: O futuro não está escrito; é nosso dever lutar pela justiça.
https://www.youtube.com/watch?v=Vga0B_CAVQA

Mercenários brasileiros? "A intenção principal não é dinheiro, mas a luta por liberdade".
https://www.youtube.com/watch?v=2vUqjO76-6A

Liberdade de imprensa é o "núcleo da democracia" na Ucrânia, diz Oleksandra Matviichuk.
https://www.youtube.com/watch?v=FBOts946F0c

Oleksandra Matviichuk rebate Lula: "A Lei Internacional só vê agressor e vítima".
https://www.youtube.com/watch?v=R_q2IAktVkY

Oleksandra Matviichuk: Ativista não tem proteção, mas está certa de que "a liberdade vai prevalecer".
https://www.youtube.com/watch?v=quVVo4FebQk

A guerra não tem nada de bom, mas revela a melhor versão do humano, diz Oleksandra.
https://www.youtube.com/watch?v=bvVqPfiylgc

Oleksandra Matviichuk: Professor preso dava aula de filosofia para ratos para preservar a dignidade.
https://www.youtube.com/watch?v=ryHJMc-q5SU

Ativista revela que a empatia é sua maior fonte de força contra o "burnout".
https://www.youtube.com/watch?v=bJ2Ht3qaDm8

A democracia vai sobreviver? "Pessoas pararam de lutar por liberdade", diz Oleksandra.
https://www.youtube.com/watch?v=NyXBUJi4sHA

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Homenagem a Oswaldo Aranha - Samuel Malamud (blog de São João del-Rei)

 

Segunda-feira, 6 de outubro de 2025

UM ILUSTRE BRASILEIRO NA HISTÓRIA DO POVO JUDEU

Por SAMUEL MALAMUD *
Discurso em cerimônia realizada no Museu de Arte Moderna, Rio de Janeiro, no 25º aniversário da decisão da Partilha da Palestina. Novembro de 1972.
Transcrevemos com a devida vênia da Imago Editora Ltda., artigo da seção SION constante do livro Documentário, publicado em 1992, pp. 312-316.
Oswaldo Aranha (✰ Alegrete-RS, 1884 ✞ Rio de Janeiro-RJ, 1960) - Crédito: Getty Images

Estamos aqui reunidos hoje para comemorar o 25º aniversário da decisão das Nações Unidas que, no dia 29 de novembro de 1947, sob a presidência de Oswaldo Aranha, aprovou por uma maioria de 2/3 o plano de partilha da Palestina. 

Para melhor situar essa data e sua importância na história judaica, basta fazer uma retrospectiva-relâmpago dos últimos vinte séculos de dispersão, período que registra numerosas datas, todas relacionadas com episódios de sofrimento, de perseguição e de instabilidade por que passou a grande maioria das massas judaicas. São datas que lembram éditos de confinamento em guetos, de expulsão em massa, de conversão compulsória, de pogroms

Somente a partir de fins do século passado começou uma nova contagem de tempo no calendário da longa diáspora, que parecia interminável. Foi Theodor Herzl quem revolucionou a marcha da história do povo judeu. Graças à sua ousadia, sua coragem e sua visão profética conseguiu-se dar início a uma nova era na vida judaica ao se instalar, na Basileia, em agosto de 1897, o Primeiro Congresso Sionista. Foi o primeiro passo para uma solução política do problema judeu. 

Depois veio a data de 2 de novembro de 1917, conhecida como a da Declaração de Balfour, a de 29 de novembro de 1947, que ora comemoramos e, finalmente, a de 14 de maio de 1948, em que foi proclamada a independência do Estado de Israel. 

Num discurso proferido em 27 de julho de 1948, declarou David Ben-Gurion que sem as duas datas — a de 2 de novembro de 1917 e de 29 de novembro de 1947 — não teríamos chegado ao ponto a que chegamos. 

Deve-se, entretanto, salientar que, enquanto a Declaração de Balfour foi o resultado de 20 anos de ação política sionista, a decisão de 29 de novembro de 1947 representou, na realidade, um ressarcimento, uma reparação das múltiplas injustiças perpetradas contra o povo judeu, especialmente durante a última guerra mundial. 

Somente ao término da Segunda Guerra Mundial a humanidade tomou pleno conhecimento dos atos de barbárie e de vandalismo sem par, levados a efeito contra as massas judaicas na Alemanha e em todos os países ocupados pelas hordas nazistas, e que custaram o alto preço de seis milhões de vidas friamente exterminadas. 

Foi também quando o mundo pôde avaliar o heroísmo com que lutaram os soldados e voluntários judeus nas fileiras das forças aliadas em todas as frentes. 

No fim da Segunda Guerra Mundial, defrontaram-se as nações livres com os numerosos campos de concentração que abrigavam centenas de milhares de sobreviventes judeus alquebrados — física e psiquicamente — e para os quais só havia uma esperança: alcançar a Terra Prometida. 

Mas as portas de Eretz Israel ¹ encontravam-se, devido à política da potência mandatária, hermeticamente fechadas. O bloqueio estabelecido pela Inglaterra era vencido somente na calada da noite pelo movimento de imigração ilegal, que enfrentava corajosamente as armas da guarda britânica. Esse, porém, não podia ser o caminho indicado para resolver o problema. 

Todas as gestões junto ao governo de Sua Majestade, para que fossem admitidos pelo menos 100.000 sobreviventes dos campos de concentração, falharam. 

Eis que a 13 de fevereiro de 1947 resolveu a Inglaterra entregar a solução do problema da Palestina às Nações Unidas, mediante a advertência de que abandonaria, de qualquer forma, o mandato dentro de um prazo determinado. 

Em abril de 1947, com o problema da Palestina na agenda, a Assembleia Geral Extraordinária das Nações Unidas dava início aos seus trabalhos e elegia para presidi-los o chefe das delegação brasileira — o embaixador Oswaldo Aranha. 

Se o sionismo brasileiro já estava desenvolvendo, desde 1946, um trabalho ativo com a cooperação eficiente do Comitê Cristão Pró-Palestina, que tinha na sua presidência o saudoso humanista, professor Inácio de Azevedo Amaral, e na vice-presidência o nobre líder católico senador Hamilton Nogueira, no intuito de mobilizar a opinião pública em favor do estabelecimento de um Estado judeu, a atuação da Organização Sionista do Brasil e do Comitê Pró-Palestina adquiria, a partir de abril de 1947, um sentido mais importante. Presidia a organização mundial que devia decidir os destinos do povo judeu e seu direito à autodeterminação um dos vultos mais preeminentes do cenário político nacional. 

Depois de longos debates foi, a 13 de maio de 1947, nomeada a comissão especial das Nações Unidas que iria estudar o problema da Palestina e apresentar uma proposta de solução concreta para a próxima Assembleia, a reunir-se em setembro daquele ano. 

Das férias do embaixador Aranha, passadas com os seus familiares no Rio de Janeiro, vem-nos à memória um encontro havido em sua residência, à Rua Campo Belo, em julho de 1947, com o Dr. Nahum Goldman, presidente do Congresso Judaico Mundial e membro do Executivo Sionista Mundial. 

No decorrer da entrevista, o problema da Palestina e do estabelecimento do Estado judeu foi debatido em todos os seus aspectos. O dirigente judeu ficou profundamente impressionado com a familiaridade com que o embaixador Aranha discutiu o assunto. Naquela oportunidade, o embaixador Aranha inclinava-se pela ideia que preconizava a criação de um estado binacional e que contava com o apoio de uma parte da liderança árabe, da extrema esquerda sionista e de alguns humanistas judeus ingênuos. 

Embora firme na defesa de seu ponto de vista, o grande estadista e hábil diplomata ouvia atentamente os argumentos expostos pelo Dr. Goldman. Ao despedir-se do embaixador Oswaldo Aranha, o ilustre visitante disse-lhe sentir-se tranquilo e confiante, apesar da divergência de opiniões, porque a presidência da Assembleia Geral das Nações Unidas estava nas mãos de um homem objetivo, sincero e bem intencionado. 

Quando foram reabertos os trabalhos da Assembleia Geral, em setembro de 1947, a Comissão nomeada apresentou o relatório, concluindo pela criação de dois Estados, um judeu e outro árabe. Essa proposta ia ser submetida à discussão e precisava de uma maioria de 2/3 para ser aprovada. O chefe da delegação brasileira, embaixador Oswaldo Aranha, foi confirmado na presidência da ONU por unanimidade. 

A tarefa era muito árdua. Apesar de todos os argumentos expostos no relatório da Comissão, pairavam dúvidas sobre a maioria exigida. Entravam em jogo outros interesses que se sobrepunham ou antepunham aos sentimentos humanitários, aos princípios de justiça, às razões históricas e à necessidade de se darem soluções a problemas prementes e de se reconhecerem direitos incontestáveis. 

Quando os debates em Lake Success ² chegavam ao seu final e a votação se aproximava, o Comitê Político da Organização Sionista Unificada do Brasil, juntamente com o Comitê Pró-Palestina, embora convicto da atitude positiva de nosso país, sempre fiel à sua tradicional política de apoio às reivindicações judias, promoveu a visita de uma comissão de parlamentares, composta de membros de todos os partidos, ao ministro das relações exteriores, Dr. Raul Fernandes, para manifestar-lhe que o povo brasileiro, na pessoa de seus representantes eleitos, estava a favor da criação do Estado Judeu e pedia ao governo que instruísse a delegação junto às Nações Unidas no sentido de votar pela proposta da partilha. 

Ainda às vésperas da votação, a mãe do embaixador Osvaldo Aranha, então com a idade de 80 anos, telegrafou ao seu filho um comovente apelo para que tudo fizesse pela aprovação da proposta. 

Se a habilidade política do embaixador Oswaldo Aranha já era mais do que reconhecida, ele a comprovou sobejamente pela maestria revelada no dia 28 de novembro de 1947, ao conseguir, numa tática magistral, adiar a votação para o dia seguinte. Sabe-se agora que o embaixador Aranha impediu a votação porque sentiu pelo ambiente, cujos segredos lhe eram bem conhecidos, que faltaria um voto para se conseguir a maioria exigida. 

Ao falar pelo telefone internacional com o embaixador Oswaldo Aranha no dia 27 de novembro à tarde, o senador Hamilton Nogueira, seu amigo pessoal e vice-presidente do Comitê Pró-Palestina, perguntara-lhe quais eram os prognósticos e a resposta do experimentado homem público foi de que se sentia desapontado com a atitude de alguns governos latino-americanos, que estavam revendo os seus pontos de vista no momento derradeiro. Ainda guardamos na memória a voz do grande gaúcho, que assim mesmo mostrava-se otimista e assegurou ao senador empenhar-se ao máximo para se alcançar a maioria almejada. 

Está mais do que constatado que foi única e exclusivamente graças à habilidade pessoal do embaixador Osvaldo Aranha que a partilha foi aprovada na memorável Assembleia de 29 de novembro de 1947. Qualquer falha sua, qualquer descuido, a mínima desatenção, a falta de rigor na direção dos trabalhos, e poderia ter ocorrido uma modificação radical na situação, com resultados imprevisíveis. 

Poucos dias depois de encerrada a Assembleia Geral da ONU, ao regressar ao Brasil, coberto de justas glórias, merecedor do reconhecimento e da admiração tanto no meio político nacional como internacional, o embaixador Osvaldo Aranha foi recebido no aeroporto Santos Dumont por uma comissão especial, composta das mais eminentes figuras do nosso mundo político e intelectual, encabeçada pelo representante do presidente da República e também pelo Executivo da Organização Sionista Unificada do Brasil e membros do Comitê Pró-Palestina. Uma enorme massa popular compareceu ao desembarque para ovacioná-lo, e dela faziam parte agremiações judaicas que ostentavam cartazes de boas-vindas e de saudações ao Brasil, ao nosso governo e ao eminente estadista. 

O embaixador Aranha foi nessa ocasião saudado pelo deputado Prado Kelly, que falou em nome da Comissão, tendo tido eu a honra de ser o porta-voz da comunidade judaica brasileira

Na sua resposta, revelando a sua peculiar modéstia, disse o embaixador Aranha que

devia o sucesso de sua missão ao descortínio diplomático, às instruções e constante apoio do Sr. Ministro das Relações Exteriores Raul Fernandes, e à honrosa escolha do presidente Eurico Gaspar Dutra, que o fora buscar em uma agremiação partidária de oposição para confiar-lhe, assim, duplamente, o dever de imprimir-lhe toda a eficiência de que se sentisse capaz. As energias que o alimentavam no trabalho imenso a que teve de consagrar-se à delegação brasileira ele as deve sobretudo ao Brasil, em cujo espírito pacifista, de conciliação e de equilíbrio sempre procurou se inspirar.
Terminada a sua histórica missão nas Nações Unidas, continuou o embaixador Osvaldo Aranha a acompanhar com vivo interesse o desenrolar da situação em torno do Estado judeu, para cuja criação tanto contribuiu. 

Em agosto de 1948, recebia o embaixador Aranha em sua residência o então ministro plenipotenciário itinerante do Estado de Israel para a América Latina Sr. Moshé Toff, a quem já conhecia desde os memoráveis e tormentosos dias em Lake Success. 

A visita do ministro Toff tinha como objetivo principal obter do Brasil o reconhecimento de jure para o Estado recém-proclamado. 

Durante esse encontro, a que estivemos presente, ocorreu um episódio que merece ser lembrado, pois revela de novo o grande espírito desse excepcional homem público que foi Oswaldo Aranha. 

Apareceu inesperadamente na residência do chanceler Aranha o governador Otávio Mangabeira. Exclamou num ímpeto o embaixador Aranha:

Este encontro é verdadeiramente providencial, Sr. Ministro de Israel. Ninguém mais credenciado existe no Brasil para sentir o grande drama de seu povo e advogar a sua causa do que o Sr. Otávio Mangabeira.

O embaixador Aranha expôs, então, numa síntese admirável, ao governador Mangabeira toda a problemática do Estado de Israel, para concluir dizendo o seguinte:

Quando defendemos na ONU o ressurgimento do Estado de Israel, o fizemos porque sempre consideramos que ali estávamos para estabelecer uma nova ordem para o mundo. A continuação de Israel como povo sem pátria era o maior símbolo da sobrevivência da velha e injustificada ordem mundial. Israel nasceu de uma deliberação espontânea da maioria absoluta das Nações Unidas, de que o Brasil participou e que subscreveu: Israel é portanto um filho legítimo e não um filho natural das Nações Unidas. Não lhe parece absurdo que se deva solicitar a um pai o reconhecimento de um filho legítimo?
Ainda um ano mais tarde, em julho de 1949, ao fazer uso da palavra durante um almoço realizado na Associação Brasileira de Imprensa em homenagem ao mesmo ministro Moshé Toff, promovido pelo Comitê Pró-Palestina, narrou o embaixador Aranha episódios da luta nos bastidores da ONU durante as discussões em torno da partilha. Exclamou:
O medo da verdade é o mais covarde dos medos! O que ficou claro é que há um mundo que aspira à liberdade e outro que não a deseja. Não é pelos meios violentos que se fazem conquistas. O desarmamento espiritual é a base do futuro das nações. A resolução da criação do Estado judeu era uma experiência nova na vida da humanidade.
Vale citar aqui uma passagem do discurso proferido por David Ben-Gurion sobre a Partilha e que condiz muito bem com o pensamento do embaixador Aranha. Disse Ben Gurion:
A decisão tomada pelo plenário das Nações Unidas no dia 29 de novembro de 1947 foi de grande importância tanto do ponto de vista judeu como do ponto de vista geral. Mais de 30 nações decidiram em favor do estabelecimento de um Estado judeu e com a sua atitude demonstraram que ainda existe uma consciência universal e que ainda há um apoio para a justiça histórica, mesmo em se tratando de um povo a quem o mundo injustiçou no decorrer de séculos. Ficou provado que ainda não está perdida a esperança de que a ONU possa congregar a humanidade e assegurar a paz.
O último ato público ligado ao Estado de Israel, a que compareceu o embaixador Osvaldo Aranha nesta cidade do Rio de Janeiro, foi a comemoração do 10º aniversário da independência, realizada no Teatro Recreio, quando foi ovacionado de pé pela enorme massa popular que lotava o teatro. 

Vinte e cinco anos são decorridos daquele sábado inesquecível de 29 de novembro de 1947, e ainda é difícil descrever a tensão e a emoção com que os judeus do mundo inteiro acompanharam pelo rádio o desenrolar dos trabalhos em Lake Success, mantendo-se em vigília de 28 para 29, numa ansiosa expectativa, para explodir numa alegria incontrolável diante da vitória. 

Ao comemorarmos hoje o 25º aniversário da decisão das Nações Unidas que aprovou a Partilha, podemos dizer tranquilamente que no dia 29 de novembro de 1947 Oswaldo Aranha teve a grande ventura de inscrever o seu nome entre os grandes homens que fazem história, enquanto era concomitantemente inscrito e eternizado, com o carinho, o respeito e a gratidão devidos, no coração de todo o povo judeu.

Rua em Tel Aviv com o nome de Oswaldo Aranha

 

* SAMUEL MALAMUD (1908-2000), advogado, nascido na Ucrânia em 1908, chegou ao Rio de Janeiro em dezembro de 1923. A partir dos anos 30, transformou-se em um dos mais influentes representantes da comunidade judaica no Brasil. Em 1948, Malamud foi o primeiro Cônsul de Israel no país. Fundou e presidiu, entre outras entidades, a Federação Israelita do Brasil e o Clube Hebraica.

 

II. NOTAS EXPLICATIVAS

 

¹ Eretz Israel significa "Terra de Israel" e é um termo que carrega significados profundos na tradição judaica, referindo-se à terra prometida por Deus ao povo de Israel. O conceito é muito mais do que um simples lugar geográfico; é um espaço repleto de significados, tradições e histórias que ressoam ao longo dos séculos. Para muitos, esta é a terra prometida, um símbolo de esperança e fé.
Hoje, Eretz Israel é um termo que carrega muitos significados. Para alguns, está associado ao sonho sionista de um estado judaico na terra ancestral, enquanto para outros, a terra é um símbolo de disputas políticas e sociais. A atualidade de Eretz Israel pode ser entendida através dos eventos que moldaram o Estado de Israel como o conhecemos, desde a declaração da independência em 1948 até os conflitos que surgiram em torno da questão palestina.
(Crédito: https://cidesp.com.br/artigo/eretz-israel/)

² Em Lake Success, local da sede da ONU na época, as Nações Unidas decidiram dividir a Palestina em um Estado judeu e um Estado árabe, conforme previsto na Resolução 181 da Assembleia Geral da ONU. Esta localidade marcou a votação das Nações Unidas para dividir o mandato britânico da Palestina em dois Estados, judeu e árabe. Os judeus chamaram isso de "O Milagre de Lake Success", enquanto os árabes o consideraram ilegal e uma traição aos habitantes árabes da Palestina.

 

III. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


BBC NEWS BRASILQuem foi Oswaldo Aranha, o brasileiro que ajudou a criar o Estado de Israel, matéria de 04/11/2023
Linkhttps://www.bbc.com/portuguese/articles/c0wxwr76er1o
 
DRUMMOND, Pedro Silva: Oswaldo Aranha e a sua importância para a criação do Estado de Israel, artigo de 1º/10/2023

MALAMUD, Samuel: Homenagem a Oswaldo Aranha (Cerimônia promovida pela Federação Israelita do Rio de Janeiro, no dia 29 de novembro de 1972 no Salão Nobre do Museu de Arte Moderna, por ocasião da Partilha da Palestina), 1972, 24 p.

________________: DOCUMENTÁRIO: contribuição à memória da comunidade judaica brasileira. Rio de Janeiro: Imago Editora Ltda., 1992, 365 p.

SCHAM, Paul: Annapolis Versus Lake Success, artigo de 13/12/2007

4 comentários:

Francisco José dos Santos Braga disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Francisco José dos Santos Braga disse...

Prezad@,
O Blog de São João del-Rei tem o prazer de transcrever um discurso do escritor judeu-ucraniano SAMUEL MALAMUD (1908-2000) em novembro de 1972, em que presta uma homenagem à memória do brasileiro OSWALDO ARANHA (1884-1960), considerado grande homem que fez história, inscrito e eternizado no coração de todo o povo judeu, por ter presidido a sessão da Assembleia Geral da ONU que aprovou a Resolução 181 como Plano de Partilha da Palestina, que estabeleceu a criação do Estado de Israel. Por tal feito, o presidente brasileiro em exercício abre a Assembleia Geral desde 1955.
Por ser um dos fundadores do Centro Cultural Brasil-Israel e o primeiro Cônsul Honorário de Israel no Brasil, Malamud participou de reuniões com o notável brasileiro, sobre as quais revela alguns flashes sobre os atores e fatos inéditos que presenciou.

Link: https://saojoaodel-rei.blogspot.com/2025/10/um-ilustre-brasileiro-na-historia-do.html

Cordial abraço,
Francisco Braga
Gerente do Blog de São João del-Rei

Francisco José dos Santos Braga disse...

Paulo Roberto de Almeida (escritor e gerente do Blog Diplomatizzando) disse...

Grato por esse material.
Eu organizei o material “internacionalista” de Oswaldo Aranha:

3180. “Apresentação-lançamento do livro Oswaldo Aranha: um estadista brasileiro”, Brasília, 19 outubro 2017, 3 p. Correspondência aos colaboradores e auxiliares na montagem e confecção da obra documental com textos de OA e ensaios dos organizadores e autores. Texto enviado aos irmãos Corrêa do Lago e demais participantes no empreendimento, com os arquivos eletrônicos do livro. Obra disponível na Biblioteca Digital da Funag: Sérgio Eduardo Moreira Lima; Paulo Roberto de Almeida; Rogério de Souza Farias (organizadores); Brasília: Funag, 2017, volume 1, 568 p.; ISBN: 978-85-7631-696-1; link: http://funag.gov.br/loja/index.php?route=product/product&product_id=913; volume 2, 356 p.; ISBN: 978-85-7631-697-8; link:http://funag.gov.br/loja/index.php?route=product/product&product_id=914. Relação de Publicados n. 1271.

Francisco José dos Santos Braga disse...

Heitor Garcia de Carvalho (pós-doutorado em Políticas de Ensino Superior na Faculdade de Psciologia e Ciências da Informação na Universidade do Porto, Portugal (2008)) disse...
Muiro obrigado!


terça-feira, 7 de outubro de 2025

Um balanço provisório e uma promessa sempre otimista - Paulo Roberto de Almeida

Um balanço provisório e uma promessa sempre otimista

        A Humanidade avança, ou se “moderniza” (um verbo que não denota necessariamente mais qualidade, apenas sofisticação agregada e mais complexidade). Em meio aos construtores de uma vida melhor, existem os destruidores do passado, do presente, talvez do futuro.

        Já tivemos nossa cota de Hitler, de Mussolini, de Mao e Pol Pot. Por onde passaram deixaram um rastro, um fosso de destruição, de mortos e de infelicidade.

        Agora consigo pensar em pelo menos três que ainda não terminaram suas respectivas obras destruidoras: Putin, em primeiro lugar, Trump num, mas incerto segundo lugar, Netanyahu (que passou dos limites) e talvez o Bozo, que nos toca mais de perto: impossível perdoar os milhares de mortos que esse monstro estúpido produziu, além da mediocridade volumétrica, por ter atraído tantos imbecis e idiotas como ele. Trump também, conseguiu juntar a escória dos racistas, recalcados e violentos supremacistas que o seguem.

        Tiranos à parte, a Humanidade também produz artistas, poetas, cientistas e estadistas, que lutam para fazer um mundo melhor.

        Nem sempre conseguem, mas continuam tentando.

        Eu também: procuro oferecer o que aprendi ao longo da vida: conhecimento aurido nos livros e com pessoas mais espertas, e experiência, aprendida nas viagens, observando o mundo e aprendendo sendo um cético sadio, um contrarianista tranquilo e um dissidente do senso comum.

        Carmen Lícia Palazzo muito me ajudou nesse percurso, corrigindo meus erros e insuficiências, tentando fazer-me melhor do que consigo ser (e nem sempre alcanço).

        Faltam mais conhecimentos e mais experiências, mas é preciso estar aberto e ser compreensivo.

Paulo Roberto de Almeida 

Brasília, 7/10/2025

Escrever é uma mania, que se aprende na leitura precoce - Paulo Roberto de Almeida

Escrever é uma mania, que se aprende na leitura precoce

        Comecei tarde. Só fui alfabetizado na idade “tardia” de sete anos, porque em casa não havia livros ou revistas, nem jornais. Meus avós, imigrantes perfeitamente (se ouso dizer) analfabetos da Itália do sul e do norte de Portugal, assim permaneceram toda a vida: trabalhavam em fazendas. Meus pais nunca terminaram o primário, pela necessidade de começar a trabalhar. Eu também comecei a trabalhar cedo, ainda antes de aprender a ler: recolhendo restos de metais nos fundos de uma fábrica de peças de bakelite, que despejava o lixo industrial nos fundos, num terreno baldio; eu e muitas outras crianças e jovens recolhíamos pequenas peças de metal, no meio da lixaria, guardávamos em latas usadas de leite condensado, e depois levávamos para nossos pais vender na reciclagem. Era uma forma de completar o miserável orçamento doméstico, indispensável para assegurar o arroz e feijão, o pedaço de gelo, trazido por um vendedor de carrocinha, coberto de serragem, que servia de “geladeira” num armário de madeira.
        Tive a sorte, a grandíssima sorte, de morar perto de uma biblioteca infantil municipal: a Biblioteca Anne Frank, no bairro do Itaim-Bibi, em São Paulo, e que antes se chamava Chácara Itaim: ruas de terra, muitos terrenos baldios, alguns transformados em campinhos de futebol improvisado, com duas pedras, ou latas de tinta, sinalizando o gol em casa extremo. 
        Comecei a frequentar a biblioteca antes de aprender a ler: joguinho de palitos, damas, filmes da Atlântida (Oscarito e Grande Otelo), ou os estrangeiros: Tarzan, Zorro, Hopalong Cassidy, Roy Rogers, Gordo e Magro, Charlie Chaplin, Buster Keaton, o outro Zorro (o do Tonto), as chanchadas nacionais e os mais elaborados de Cinecittà: Maciste, Hércules, aquelas paródias da mitologia grega, uma delícia.
        Finalmente aprendi a ler, primeiro as revistinhas da época (Bolão e Azeitona, Capitão Kid, logo em seguida Pato Donald e Mickey, publicados pela Abril). Quando aprendi a ler de verdade, comecei direto com Monteiro Lobato, e acho que isso mudou completamente a minha vida: em lugar de ficar jogando bola, ou brincando de taco com os outros meninos na rua, eu ficava na biblioteca até fechar; mais ainda, podia levar os livros para casa, para ler na cama até minha mãe apagar a luz, nunca muito tarde, para economizar, pois éramos de verdade muito pobres, de uma pobreza especial: minha mãe lavava roupa para fora, num tanque sob o sol, meu pai era por vezes operário, outras vezes entregador de café torrado e moido. Fui uma vez com ele à torrefação: o forte cheiro de café sendo torrado me deu um enjoo tão forte, que nunca tomei café, até a idade adulta.
        A frequência assídua na biblioteca não me impedia de trabalhar: pegar bolas de tênis no Clube Pinheiros, ou empacotar as compras em sacos de papel no supermercado Peg-Pag do começo da Marechal Floriano com a São Gabriel, só por gorgetas. Olhava cobiçoso os milk-shakes ou sorvetes de taça na esquina, mas nunca comprei com os meus tostões: tudo era entregue à minha mãe, para ajudar nas despesas da casa.
        Continuei lendo, intensamente, e a partir do meio do primário comecei a escrever, primeiro os trabalhos da escola, depois os resumos dos livros que lia. Tudo se perdeu, só sobrevivendo textos esparsos da fase ginasial. O grande impulso em meu futuro quase intelectual foi dado no Ginásio Estadual Vocacional Oswaldo Aranha, no Brooklin, um verdadeiro divisor de águas em minha vida. Tudo o que sou hoje, devo ao GEVOA, entre 1962 e 1965. 
        Minha primeira resenha “séria” já foi no colegial, com 15 ou 16 anos, um livro de Erich Fromm, publicada no boletim mimeografado do Colégio Estadual Ministro Costa Manso, ainda no Itaim. Trabalhando de dia, estudando à noite. Continuei lendo e escrevendo. Nunca mais parei. Hoje estou no trabalho de número 5080, com cerca de 1500 publicados, em todas as categorias. Milhares de páginas, manuscritas, datilografadas, digitadas, ou entrevistas gravadas, filmadas. Tudo agora para inserir em meu novo site pralmeida.net. Espero ter forças para fazê-lo. Não consigo parar de escrever.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 7/10/2025

segunda-feira, 6 de outubro de 2025

Nova visão da história econômica do Brasil de 1820 a 1980 - Edmar Bacha (O Globo)

 Nova visão da história econômica do Brasil de 1820 a 1980

Não procede a frase repetida segundo a qual, entre 1900 e 1980, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo depois do Japão
Edmar Bacha
O Globo, 06/10/2025

A história econômica brasileira precisa ser reescrita. Acaba de ser publicado no Journal of Iberian and Latin American Economic History artigo sobre o século XIX elaborado com Guilherme Tombolo e Flávio Versiani. Trata-se de estudo nosso que dá continuidade a outro sobre o período de 1900 a 1980, publicado na Revista Brasileira de Economia. Nosso objetivo é rever, com novas séries estatísticas e metodologias, a trajetória do crescimento brasileiro desde a Independência até 1980.

A narrativa consagrada pela historiografia era a seguinte: no século XIX, crescimento muito lento — com estagnação ou retrocesso até meados daquele século. No século XX, ao contrário, avanço extraordinário, culminando no “milagre econômico” dos anos 1960-70.

Nossas pesquisas apontam outro quadro. No século XIX, o Brasil cresceu em linha com a Europa Ocidental e outros países latino-americanos. No século XX, até 1980, o crescimento foi robusto, mas inferior ao que mostram as séries oficiais e longe de um desempenho “milagroso”.

Em “Formação econômica do Brasil”, Celso Furtado atribuiu papel quase exclusivo às exportações no crescimento. Angus Maddison e, mais recentemente, Marcelo Abreu, Luiz Correa do Lago e André Villela reforçaram a hipótese de estagnação até 1850.

Estudos recentes mudam essa visão. Christopher Absell e Antonio Tena-Junguito (2016) revisaram as exportações e mostraram que, entre 1821 e 1850, elas cresceram 3,5% ao ano — mais que o dobro da população. Longe de estagnação, houve aumento expressivo da renda per capita.

Além disso, o mercado interno cresceu de forma vigorosa. Minas Gerais importou mais escravizados que as províncias cafeeiras na primeira metade do século XIX, não para o café, mas para a produção de alimentos e gado.

Na segunda metade do século, somaram-se o avanço espetacular do café, a expansão ferroviária e a imigração europeia, que trouxe capital humano e impulsionou setores como o têxtil. Com metodologia revisada, nossas estimativas apontam crescimento per capita positivo de 0,9% ao ano em todo o século XIX.

Para o século XX, já havia disponíveis estatísticas mais amplas. Mas, em 1969, houve mudança metodológica decisiva nas contas nacionais: setores como governo, aluguéis e outros serviços foram excluídos do cálculo, inflando artificialmente os números do crescimento.

O IBGE, ao assumir as contas nacionais em 1986, aplicou o mesmo método retrospectivamente a 1947-1980. Recalculamos a série do PIB reincluindo esses setores de serviços. Resultado: crescimento do PIB per capita de 3,3% ao ano em 1947-1980, ante 4,2% na série oficial — uma diferença para menos de 30%. Para 1900-1947, a taxa cai de 2,4% para 2,0%.

Mesmo assim, o crescimento foi sólido, sustentado pela industrialização e pela migração rural-urbana, que deslocou mão de obra de baixa produtividade no campo para atividades urbanas mais produtivas.

A trajetória de 1820 a 1980 não foi a de um século XIX estagnado seguido de um século XX milagroso, como há tempos afirma a historiografia econômica. O Brasil do século XIX cresceu em ritmo comparável ao da Europa e de outros países latino-americanos. No século XX, até 1980, o crescimento foi robusto, mas longe de excepcional.

Não procede, portanto, a frase repetida segundo a qual, entre 1900 e 1980, o Brasil foi o país que mais cresceu no mundo depois do Japão. Crescemos mais que a média mundial, mas não lideramos o ranking. Essa correção histórica é fundamental para entendermos melhor as continuidades em nossa trajetória de crescimento e deixarmos de alimentar ilusões sobre milagres econômicos que nunca existiram.

https://oglobo.globo.com/google/amp/opiniao/artigos/coluna/2025/10/nova-visao-da-historia-economica-do-brasil-de-1820-a-1980.ghtml

Algumas das minhas melhores postagens no Diplomatizzando, por Airton Dirceu Lemmertz - Paulo Roberto de Almeida

Algumas das minhas melhores postagens no Diplomatizzando, por Airton Dirceu Lemmertz

Paulo Roberto de Almeida

6 de outubro de 2025

Devo dizer que, repetindo o material "pro domo", estou gratíssimo a Airton Dirceu Lemmertz, o maior "pedagogo digital" e disseminador de materiais relevantes para conhecimento e estudo de estudantes de temas internacionais e braileiros, pelo fato de ter selecionado, como abaixo, e reproduzido em suas remessas diárias de matérias disponíveis para um público mais amplo, algumas das melhores postagens que já efetuei no blog Diplomatizzando, que estou repostando novamente neste mesmo blog, agora simultaneamente republicado como chamada em meu novo site, www.pralmeida.net, ainda sendo reconstruído aos poucos, depois que tive de descontinuar o anterior, pralmeida.org, que funcionou por anos e anos.

Só o Airton Dirceu Lemmertz para buscar coisas do “arco da velha”, das quais eu sequer me lembrava, e agregá-las numa remessa digna de visitar novamente. Sou muito grato a ele, a quem envio publicamente um grande abraço

Em 5 de out. de 2025, à(s) 19:44, Airton Dirceu Lemmertz escreveu:

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Em 2019, o Itamaraty foi o campeão em negar pedidos de acesso à informação sob a alegação de “pescaria”.
https://diplomatizzando.blogspot.com/2020/02/itamaraty-campeao-em-negar-pedidos-de.html

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A entrevista de Rubens Ricupero [ao 'Canal Livre' da BandNews TV], em junho de 2024:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/06/trechos-selecionados-da-entrevista-de.html

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Leandro Karnal recusou o convite para ser o presidente interino durante o impeachment de Dilma Rousseff:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/09/airton-dirceu-lemmertzum-mestre-na.html

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Paulo Roberto de Almeida: vídeo-entrevistas no YouTube:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/03/videos-no-youtube-em-ordem-cronologica.html
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/06/paulo-roberto-de-almeida.html

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Países e políticos:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/06/uma-colecao-de-postagens-deste-meu-blog.html

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A política externa no governo Lula:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/07/airton-dirceu-lemmertz-um-atento.html

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O encontro de Lula com Putin e outros ditadores:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/05/lula-e-seu-dia-da-infamia-visitando-um.html

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A realidade social de Israel:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/06/a-nacao-israelense-itinerario-historico.html

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Israel: entre a tradição e as contradições.
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/07/israel-entre-tradicao-e-as-contradicoes.html

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A guerra entre Hamas e Israel: definições (conceitos).
https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/06/terrorismo-guerra-hamas-israel.html

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Como surgiu e se consolidou o regime nazista na Alemanha de Weimar:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/02/como-surgiu-e-se-consolidou-o-regime.html

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Nazismo, genocídio, Holocausto, antissemitismo:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/03/nazismo-gemocidio-holocausto.html

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Um documentário [da BBC] acerca da ascensão dos nazistas, liderados por Hitler:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/04/ascensao-dos-nazistas-bbc.html

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Holodomor: o genocídio ucraniano por Stalin.
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/03/holodomor-grande-fome-o-genocidio-de.html
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/03/dossie-holodomor-o-genocidio-ucraniano.html

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Marcelo Guterman analisa a guerra na Ucrânia:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/05/em-nove-capitulos-marcelo-guterman.html

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Mapas: a ocupação russa na Ucrânia em fevereiro de 2025.
https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/02/os-mapas-que-mostram-as-areas-da.html

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O ditador venezuelano Maduro:
https://diplomatizzando.blogspot.com/2024/07/para-os-que-nao-gostam-de-ler-e.html

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 Fim das transcrições (PRA)

A neutralidade que não é imparcialidade - Palmari H. de Lucena (Mais PB); comentário de Paulo Roberto de Almeida

 Um artigo num jornal da Paraíba que argumenta sobre um dos traços mais identificadores, a despeito dos desacordos gerais em outras matérias, entre Bolsonaro e Lula, no que respeita temas de política externa, especificamente no que concerne a guerra de agressão da Rússia contra um Estado soberano, a Ucrânia: a postura objetivamente favorável a Putin e à guerra cruel e unilateral do neoczarismo russo contra o país da Europa oriental, antigamente dominado pela União Soviética.

Como já tinha argumentado Rui Barbosa desde 1916 (a propósito da agressão do antigo Império alemão contra a Bélgica neutra, na Grande Guerra, neutralidade NÃO É imparcialidade, infelizmente. PRA

A neutralidade que não é imparcialidade
Palmari H. de Lucena
Mais PB, 05/10/2025
https://www.maispb.com.br/800390/a-neutralidade-que-nao-e-imparcialidade.html

O Brasil gosta de repetir que sua tradição diplomática é a da neutralidade. Mas a guerra da Ucrânia deixou claro: neutralidade não é sinônimo de imparcialidade. Nos gestos de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, a política externa brasileira acabou beneficiando mais a Rússia de Vladimir Putin do que a paz que diz buscar.

Bolsonaro, em fevereiro de 2022, sentou-se ao lado de Putin na antessala da invasão, declarando solidariedade e reforçando laços comerciais. Justificou a posição brasileira pelo pragmatismo dos fertilizantes, como se a dependência agrícola bastasse para relativizar a violação da soberania ucraniana. A neutralidade, nesse caso, serviu de biombo para uma aproximação cúmplice.

Lula, por sua vez, herdou o conflito e procurou se vestir de mediador global. Propôs um “clube da paz”, equiparou responsabilidades de Kiev e Moscou e acusou o Ocidente de estimular a guerra. Sua retórica sofisticada, porém, esbarrou no mesmo problema: transformar agredido e agressor em equivalentes morais. Ao tentar exibir imparcialidade, acabou favorecendo Putin, ao reduzir a pressão internacional contra a Rússia e diluir a clareza de quem iniciou o conflito.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando se compara a atitude brasileira na guerra da Ucrânia com sua postura diante de Gaza e da Cisjordânia. No Oriente Médio, o governo não hesitou em condenar Israel, responsabilizá-lo por excessos e assumir posição frontal em defesa dos palestinos. Já em relação à Ucrânia, a diplomacia prefere relativizar, apelar à equidistância e suavizar a responsabilidade russa. O contraste expõe que a neutralidade, no caso europeu, é menos princípio universal e mais cálculo de conveniência.

O Itamaraty costuma invocar o princípio da não intervenção e da solução pacífica de controvérsias. Mas imparcialidade verdadeira não é fechar os olhos ao desequilíbrio das ações. Não há simetria entre quem invade e quem resiste. Ao se abster de julgamentos claros ou ao tratar Moscou e Kiev como lados igualmente responsáveis, o Brasil compromete não apenas sua credibilidade moral, mas também sua capacidade de liderar qualquer processo de mediação legítima.

No fundo, a diferença entre Bolsonaro e Lula é mais de estilo do que de substância. Um se abraçou a Putin em nome dos fertilizantes; o outro o recebe como parceiro estratégico, falando em paz enquanto relativiza responsabilidades. Ambos, porém, praticaram uma neutralidade que não é imparcialidade, mas silêncio cúmplice. Ao evitar nomear com clareza o agressor, o Brasil não apenas enfraquece sua voz moral no mundo: ajuda, ainda que de forma disfarçada, a prolongar a guerra iniciada pelo Kremlin.

* Os textos dos colunistas e blogueiros não refletem, necessariamente, a opinião do Portal MaisPB

domingo, 5 de outubro de 2025

Brasil reduz reservas internacionais em dólar

Brasil reduz reservas internacionais em dólar enquanto acumula ouro e yuan 

https://br.cointelegraph.com/news/brazil-reduces-dollar-reserves-and-increases-gold-yuan-global-de-dollarization

(…) O Brasil reduziu em 12% a participação do dólar na composição de suas reservas internacionais nos últimos sete anos, buscando diversificação em ativos como o ouro e yuan chinês, alinhado a um movimento global de desdolarização.

Em 2018, o dólar representava 89% das reservas internacionais brasileiras. Atualmente, a participação da moeda americana caiu para 78%, de acordo com dados do Banco Central (BC). No mesmo período, as reservas em ouro cresceram 400%, de 0,7% para 3,5%.

A moeda chinesa, cuja primeira aquisição ocorreu em 2019, já representa 5,3% das reservas do BC, superando o euro (5,2%) e ficando atrás apenas do dólar. (…)

sábado, 4 de outubro de 2025

Homenagem ao embaixador Alberto da Costa e Silva, traduzida e publicada em espanhol - Paulo Roberto de Almeida

Homenagem ao embaixador Alberto da Costa e Silva, traduzida e publicada em espanhol

Paulo Roberto de Almeida

4653. “Alberto da Costa e Silva: o maior africanista brasileiro (1931-2023)”, Brasília, 4 maio 2024, 4 p. Obituário solicitado por Santiago Cabrera Hanna, Editor da revista Procesos. Revista Ecuatoriana de Historia (santiago.cabrera@uasb.edu.ec). Serviu de base para a elaboração do trabalho n. 4681. Publicado como “Alberto da Costa e Silva: el mayor africanista brasileño (1931-2023)”, na revista Procesos. Revista Ecuatoriana de Historia (n. 60, julio-diciembre 2024, p. 199-202; ISSN: 1390-0099; e-ISSN: 2588-0780; link: https://revistas.uasb.edu.ec/index.php/procesos/article/view/5519). Relação de Publicados n. 1594. DOI: https://doi.org/10.29078/procesos.n60.2024.5519


Texto original em português:

Alberto da Costa e Silva: o maior africanista brasileiro (1931-2023)


Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.


        Em todas as áreas intelectuais nas quais Alberto da Costa e Silva mergulhou sua pluma, sua caneta, estendeu seu teclado, nas quais discorreu oralmente, em seminários nas academias, nos salões acarpetados dos palácios oficiais, nas pequenas tertúlias entre amigos, o poeta, ensaísta, memorialista, historiador e diplomata brilhou como poucos na República das Letras do Brasil, do mundo português, no universo africanista do tráfico escravo e das culturas africanas da sua costa ocidental, que ele conheceu muito. Ela foi a que mais forneceu escravos ao Brasil, tema do qual ele foi, provavelmente, o maior historiador e um grande divulgador no Brasil e no mundo luso-português, quiçá também em diversos outros países.
        A exemplo de seu pai, o poeta Antonio Francisco da Costa e Silva, começou sua carreira literária como poeta, ao início dos anos 1950, quando publicou sua primeira coletânea de poemas, O parque e outros poemas (Rio de Janeiro, 1953). Logo em seguida, decidiu tornar-se diplomata, apenas, segundo confidenciou mais tarde, para poder se vingar do Barão do Rio Branco, que tinha recusado o ingresso do seu pai na carreira diplomática, por este ser “pavorosamente feio”, como relatou um outro colega diplomata:
        Nos tempos do barão do Rio Branco não havia concurso para ingressar na carreira diplomática, e a seleção era feita pessoalmente por ele, que conversava com os candidatos, em geral pessoas de família conhecida, de preferência bonitos e que falassem línguas estrangeiras. Antônio Francisco da Costa e Silva, ilustre poeta, conversou com o barão sobre a possibilidade de ingresso na carreira, mas o chanceler foi taxativo: ‘Olha, o senhor é um homem inteligente, admiro-o como poeta, contudo não vou nomeá-lo porque o senhor é muito feio e não quero gente feia no Itamaraty. (Guilherme Luiz Leite Ribeiro: Os bastidores da diplomacia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2007, p. 50).

        No mesmo ano em que foi admitido no Itamaraty do Rio de Janeiro, em 1957, também publicou uma antologia: Lendas do índio brasileiro (Rio de Janeiro, 1957, reeditada diversas vezes: 1969, 1980 e 1992). Removido para o seu primeiro posto diplomático em Lisboa (1960-63), aproveitou para publicar outras duas antologias: A nova poesia brasileira e Poesia concreta (Lisboa, 1960 e 1962). No mesmo ano, inebriado como seu pai pela poesia, reincidiu no ofício paralelo, com O tecelão (Rio de Janeiro, 1962) e novamente com uma coletânea só sua: Alberto da Costa e Silva carda, fia, dobra e tece (Lisboa, 1962); quatro anos depois, volta a se dedicar ao vício de uma vida inteira: Livro de linhagem (Lisboa, 1966). Não contente em se deixar dominar por essa poderosa droga literária, entregou-se igualmente a um outro projeto ambicioso: dirigiu e foi o principal redator da parte brasileira da Enciclopédia Internacional Focus (Lisboa, 1963-1968). Nessa época, já estava removido para a embaixada em Caracas, seu segundo posto (1963-64), onde também serviu como cônsul durante três anos (1964-1967).
        De volta ao Rio de Janeiro, serviu como Auxiliar do Secretário-Geral de Política Exterior (1967-69), seguindo logo em seguida para a Embaixada em Washington (1969), de onde foi trazido logo em seguida, em 1970, para ser Oficial de Gabinete e Assessor de Coordenação do Ministro das Relações Exteriores, no ano em que o Itamaraty foi transferido do Rio para Brasília, dez anos depois de inaugurada a terceira e definitiva capital do Brasil. Serviu todo o período (1970-74), como o ministro Mario Gibson Barboza, e o acompanhou-o na primeira visita de um chanceler brasileiro à África, em 1972. Esse foi um momento importante da ação diplomática daquele período, quando o Itamaraty foi obrigado a enfrentar e contornar a rígida posição colonialista de Portugal, que insistia em transformar o governo brasileiro no avalista dessa promissória colonial que Lisboa se recusava a resgatar. (Cf. Flávio de Almeida Salles, Preto no Branco, Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2001, p. 15-16)

        Foi provavelmente nessa memorável viagem, preparada com esmero pelo jovem diplomata (mas já designado conselheiro e coordenador da missão), que nasceu em Costa e Silva a afeição pelo continente africano, como relata o mesmo jornalista:
... na missão programada pelo Itamaraty iriam enfrentar rotas, aeroportos, infraestruturas aeroportuárias e espaços aéreos desconhecidos. Passariam por situações em que as alternativas de ajuda de terra seriam precárias, sem contar que, desta vez ... [havia] uma carga preciosa a bordo: a primeira comitiva oficial da diplomacia brasileira, chefiada pelo próprio Chanceler, a visitar o continente africano. (idem, p. 22-23)

        O coordenador da viagem, escolhido diretamente pelo chanceler, aos oito países enfim escolhidos – Costa do Marfim, Gana, Togo, Daomé, Zaire, Camarões, Nigéria e Senegal, nessa ordem, todos da costa atlântica, do dia 25 de outubro a 21 de novembro de 1972 – foi assim descrito pelo jornalista Flávio de Almeida Salles:
Magro, cabelos prematuramente embranquecidos, tinha uma barba rala, que lhe cobria parte do rosto; a cada momento, penteava essa barba, caprichando no pequeno cavanhaque. Inteligente, era considerado um excelente diplomata, interessado em temas políticos e culturais e defensor da tese sobre a natural aproximação entre o Brasil e as nações do continente negro. (idem, p. 50-51)

        Foi na Costa do Marfim que Costa e Silva descobriu que o frevo brasileiro provinha daquele país, como relatou, anos mais tarde num dos capítulos de O Vício da África e outros Vícios (Lisboa: João Sá da Costa, 1989, p. 95-96; apud Salles, op. cit., p. 185). Ele deve ter aprendido muito mais coisas nesse périplo de mais de três semanas pelos principais países – à exceção de Angola, obviamente – que mais forneceram escravos para as plantações de açúcar do Nordeste e de café do Sudeste, para as muitas minas brasileiras e para todos os demais trabalhos “alocados” aos africanos. Foi o começo de “caso único de amor”, entre um poeta por vocação, improvisado historiador, e todo um continente, que se materializaria, anos mais tarde, em todos os livros que trataram o imenso continente, não como o simples fornecedor de mão de obra forçada para as Américas, mas como uma civilização original, uma cultura riquíssima, nações vibrantes, como revelado nas obras que o distinguiram como o mais conhecido dos africanistas brasileiros, um dos mais importantes em língua portuguesa, uma referência na literatura historiográfica nessa área. Enquanto estive lotado na embaixada em Washington, fui várias vezes solicitado por ele para enviar, pela mala diplomática, exemplares do Journal of African History, editado pela Cambridge University Press, assim como outros materiais de estudos africanos.
        Depois de servir como ministro-conselheiro nas embaixadas em Madri (1974-1976) e em Roma (1977-1979), Costa e Silva foi naturalmente designado como embaixador em Lagos (1979-1983), então capital da Nigéria (antes da mudança para a cidade interior de Abuja), cumulativamente com o Benim (Cotonu), seguindo depois para Lisboa, onde representou o Brasil de 1986 a 1990. No final dessa década, ele publicou o já referido O vício da África e outros vícios (1989), uma coleção de ensaios tendo o continente como fio unificador. Foi ainda embaixador em Bogotá (1990-1993) e em Assunção (1993-1995).
        O primeiro livro do ciclo africano, tão volumoso quanto o segundo, foi A Enxada e a Lança, cujo subtítulo é totalmente elucidativo: A África antes dos Portugueses (Rio de Janeiro, 1992, com reedições em 1996 e em 2006), a que se seguiu, dez anos depois, a obra que dá continuidade ao detalhado estudo das culturas africanas dessa parte da costa atlântica tão bem conhecida e visitada por ele: A Manilha e o Libambo: A África e a Escravidão, de 1500 a 1700 (Rio de Janeiro, 2002 e 2004). Esta segunda obra foi contemplada com o Prêmio Sérgio Buarque de Holanda, da Fundação Biblioteca Nacional e com o Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, em 2003. No intervalo entre uma e outra, ele publicou As Relações entre o Brasil e a África Negra, de 1822 à 1a Guerra Mundial (Luanda, 1996) e, logo em seguida ao segundo grande monumento historiográfico, um livro que simboliza as relações brasileiras com “nossos vizinhos” do outro lado do oceano: Um Rio Chamado Atlântico: A África no Brasil e o Brasil na África (Rio de Janeiro, 2003 e 2005).
        Em meio a todas essas obras únicas, altamente situadas no mesmo nível do estado da arte dos melhores estudos africanistas nas universidades de ponta, ele foi contemplado com uma cadeira na Academia Brasileira de Letras, em 2000, tendo sido acolhido pelo acadêmico Marcos Villaça. Menos de dois anos depois já se desempenhava como presidente da ABL, tendo sido ainda distinguido com o título de “Intelectual do Ano” em 2004, Prêmio “Juca Pato”, da União Brasileira de Escritores.         No mesmo ano, publicou uma biografia sobre o mercador de escravos da costa do Benim, Francisco Félix de Sousa (Rio de Janeiro, 2004), nascido em Salvador da Bahia em meados do século XVIII, e que se transformou, a partir de sua instalação na “costa dos escravos”, no início dos 1800s, num dos mais famosos e mais ricos traficantes do golfo da Guiné. Curiosamente, quando estudei na Bélgica, nos anos 1970, fui colega, na Universidade de Bruxelas, de uma togolesa chamada Leonardina de Sousa, mas que não falava uma só palavra em português; notava-se que pertencia à elite de seu país.
        Sua produção ensaística e memorialista é múltipla e a obra poética é nada menos do que copiosa, sendo que duas coletâneas, a partir de seus muito livros de poesia, foram reunidos, respectivamente, em Poemas Reunidos (Rio de Janeiro, 2000; Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro) e por André Seffrin, nos Melhores poemas de Alberto da Costa e Silva (São Paulo, 2007). Ele terminou sua carreira diplomática como Inspetor-Geral do Ministério das Relações Exteriores (1995-98), mas nem por isso deixou de colaborar com a elevação da inteligência no Itamaraty: depois de ter sido presidente da banca examinadora do Curso de Altos Estudos do Instituto Rio Branco (1983-1985), a instância institucional e quase acadêmica que afere a qualidade do trabalho intelectual dos conselheiros aspirando à promoção a ministros de segunda classe, ele foi vice-presidente da mesma banca, de 1995 a 2000.
        Eu tive o privilégio de ter sido interrogado por ele, em 1997, quando defendi minha “tese” sobre a formação da diplomacia econômica no Brasil imperial, sendo que depois ele fez questão de assinar um prefácio, quando da publicação completa dessa minha pesquisa historiográfica, cobrando-me a continuidade do trabalho no século XX (continuo devendo).
        Pela imensidão de sua obra intelectual, Alberto da Costa e Silva ainda foi distinguido com o Prêmio Camões de 2014, ademais de vários doutorados honoris causae e de uma série enorme de medalhas e comendas dos mais diversos países, uma honra acumulada que pode ter vingado plenamente o seu pai, recusado pelo Barão do Rio Branco por não ser um branco dolicocéfalo, das preferências estéticas do patrono da diplomacia brasileira um século antes.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 4653, 4 maio 2024, 4 p.; 1797 palavras.

Uma nova “guerra do Peloponeso” em sua versão global? - Paulo Roberto de Almeida

Uma nova “guerra do Peloponeso” em sua versão global?

Considerações sobre o impossível containment da China e a hipótese de um novo Peloponeso invertido.        

A um amigo que me sugere que a Rússia continua sendo uma “aldeia Potenkim” e que o principal esforço do outrora “farol da democracia” é agora o de conter a reemergência do novo Império do Meio, eu diria o seguinte.  Essa tentativa, de um novo containment, já estava fadada ao fracasso desde a sua concepção, pois a China nunca foi, jamais será, uma nova União Soviética. 

        Agora temos um novo Império do Meio sem mais imperadores absolutos — dotados do poder de vida E de morte sobre seus súditos — no seu comando. A China é uma economia de mercado diferente, com um Estado weberiano inteiramente administrado por tecnocratas competentes, teoricamente comandados por um partido leninista, mas a ideologia é o que menos importa no seu modo de dominação: este é do ideal-typus racional-burocrático, temporariamente liderado por uma personalidade carismática. 

        Na verdade, é esse novo Hegemon que terá, por sua vez, de exercer certo containment contra o Hegemon declinante, para evitar acidentes bélicos mais graves. A “armadilha de Tucídides” agora é outra: como uma “Esparta” racional-burocrática conseguirá conter os espasmos irracionais, eventualmente violentos, de uma “Atenas” insatisfeita com sua própria diminuição nos grandes espaços geopoliticos. 

        Algum Tucídides do século XXI vai ter de descrever esse novo drama geopolítico, segundo um cenário diferente, pois sabemos que a História não se repete, mas pode rimar, como dizia Mark Twain (o mesmo que tinha enorme desconfiança de políticos, preferindo pessoas práticas).

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 4/10/2025


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