sábado, 28 de março de 2026

Eleitor liberal procura - Giullia Chechia (Meio)

Eleitor liberal procura

Giullia Chechia

Meio, 28/03/2026

“Um centro mais radical.” Foi assim que o presidente do PSD, Gilberto Kassab, definiu o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, em entrevista ao Canal Livre. Na mesma fala, antes sequer de terminar a frase, classificou o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como “um centro com posições mais conservadoras, mais à direita”, e posicionou o incumbente do Paraná, Ratinho Júnior, entre ambos, com “um perfil intermediário”. Naquele momento, há cerca de um mês, Kassab ainda mantinha os três nomes na sua estratégia. Caberia a ele escolher um para disputar a Presidência, alguém capaz de encarnar uma candidatura que oferecesse ao eleitor uma alternativa fora da polarização entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). Com o terno azul escuro alinhado, o olhar firme e a sobriedade que lhe são típicos, deixou escapar pistas sobre o critério de escolha.

“O eleitor que a gente procura é aquele que quer mudar, que quer fugir da polarização, mas quer que dê certo. Ele não quer perder o voto. Nesse clima de polarização, o cara que odeia o Lula vota no Bolsonaro. O cara que odeia o Bolsonaro, se perceber que esse candidato de centro não tem chance, não vai votar. Vai ficar na polarização, vai escolher aquele que odeia menos. Então, o nosso desafio é encontrar um candidato que traga confiança de vitória ao eleitor que quer fugir da polarização.” Confiança de vitória. Era nisso que se apoiava, até então, sua principal aposta: Ratinho Júnior, o mais bem posicionado nas pesquisas eleitorais entre os três. Kassab não esperava um revés. Mas ele veio.

“O governador Ratinho Júnior decidiu concluir seu mandato no Paraná até dezembro deste ano”, dizia a nota do paranaense enviada à imprensa. A desistência pegou todos de surpresa, inclusive Kassab. A decisão só foi tomada, de fato, na noite de domingo, depois de uma conversa em família. Ali, sobre a mesa, um elemento difícil de contornar: o risco político. O alerta veio do pai. As investigações em torno do banco Master, avaliou ele, poderiam contaminar uma eventual campanha presidencial. O receio cresce à medida que avançam as negociações de delação premiada do empresário Daniel Vorcaro, ex-controlador da instituição, e de seu cunhado, Fabiano Zettel, apontado como operador financeiro. Entre os pontos que devem emergir nos depoimentos está a aquisição, por cerca de R$ 35 milhões, de uma participação no resort Tayayá, no Paraná.

Além disso, a maré política virou em casa. O senador Sérgio Moro oficializou sua filiação ao PL para disputar o governo do Paraná. Um partido que ensaiava aliança e chegou a cogitar Ratinho como vice numa chapa com Flávio Bolsonaro, abandonou o barco. Diante das águas agitadas, Ratinho Jr. optou por não zarpar rumo à disputa nacional.

Quem ficou a ver navios foi Gilberto Kassab. No mesmo dia do anúncio da desistência, recebeu Ronaldo Caiado em sua casa — que, com a saída do plano A, passou a ser lido como o favorito. Em vez de recuar, Eduardo Leite partiu para a ofensiva: concedeu entrevistas, se apresentou como alternativa viável e elevou a pressão sobre Kassab. Na quarta-feira, foi recebido pelo presidente do PSD e saiu do encontro deixando o recado: “Destaquei ao presidente Kassab, com todo o respeito que o governador Caiado merece, mas aquilo que ele procura representar já tem representante. Essa eleição precisa ter uma candidatura ao centro.” A disputa interna do PSD tem data para acabar: não passa de terça-feira, dia 31 de março.

Ainda não sabemos qual será a decisão do partido de Kassab. Mas se a escolha for Caiado, e não Leite, esta será a primeira eleição da Nova República em que uma voz liberal estará ausente da corrida. Mesmo numa eleição radicalmente polarizada, como a de 2022, esse conjunto de ideias estava lá, representado por Simone Tebet. O problema não é só o desaparecimento de um jeito de pensar o Brasil. A causa não é só a autodestruição do PSDB. O liberalismo é a ideologia fundadora do país. É o que inspirou os inconfidentes de Minas Gerais e a confederação de Frei Caneca. Quando todos os partidos concluem que o eleitorado não quer ouvir uma voz liberal, isto não é só sintoma. É causa da crise democrática.

Na tradição de Rui Barbosa a José Guilherme Merquior, do Benjamin Constant francês, do visconde de Tocqueville ou Norberto Bobbio, o que o liberalismo representa na política é seu eixo de moderação institucional. Quando numa República todos perdem a capacidade de enxergar o outro lado como adversário legítimo e o substituem por um inimigo moral, é aí que a democracia é esganada. O que o liberalismo representa, mesmo quando minoritário, é a defesa do pluralismo, da tolerância, da legitimidade que há no debate. O Brasil tem uma tradição política liberal de 250 anos. Quando ela é calada é porque todos enxergam a eleição como uma guerra na qual ou se elimina o outro com uma vitória, ou se será eliminado.

De volta às bases

O cientista político Christian Lynch, colunista deste Meio, aponta que o liberalismo, mais do que uma ideologia específica, é o regime que permitiu a convivência entre diferentes correntes ao longo do tempo. “Uma revolução liberal cria o Estado de Direito e a democracia e, a partir daí, várias ideologias passam a operar dentro desse sistema.” Aliás, o próprio percurso histórico do liberalismo ajuda a entender esse papel. Como explica Lynch, a corrente nasce entre os séculos 17 e 18, em países como Inglaterra e Holanda, associada ao surgimento de uma nova classe ligada ao comércio e à defesa de limites ao poder absoluto. “A ideia era organizar a sociedade a partir de um governo constitucional e representativo, no qual o Estado existe para garantir direitos da sociedade civil”, afirma.

Na base desse pensamento está a noção de que a ordem política deve se fundar em um acordo, um contrato, entre indivíduos livres, e não mais na autoridade hereditária ou divina. É a partir daí que emergem conceitos centrais como Constituição, representação e divisão de poderes. Esse modelo se consolida com as revoluções liberais, como a Revolução Gloriosa e, depois, a Revolução Francesa, e se espalha pelo Ocidente ao longo do século 19, período em que o liberalismo se torna a linguagem dominante da política.

Essa “sociedade civil”, no entanto, estava longe de abranger toda a população. Naquele contexto, a participação política se organizava a partir de critérios de capacidade, como escolarização, renda e inserção social, refletindo a ideia, comum à época, de que o governo deveria ser conduzido por aqueles considerados mais aptos ao debate público. “Era uma espécie de aristocracia de mérito. Não eram os melhores por nascimento, mas os que se destacavam”, explica Lynch. Nesse modelo, o parlamento não era pensado como expressão direta da vontade popular, mas como um espaço qualificado de deliberação, onde diferentes interesses poderiam ser confrontados e negociados. A ampliação desse sistema viria apenas mais tarde, pressionada por transformações sociais e pela emergência de novas correntes políticas.

“O liberal acredita em pluralismo político. Parte da ideia de que a sociedade não é unânime e, por isso, o conflito de opiniões precisa ser institucionalizado”, diz Lynch. Nesse arranjo, o parlamento se torna o centro da vida política: é ali que divergências são organizadas, debatidas e transformadas em decisões de governo. Mais do que eliminar o conflito, o liberalismo busca dar a ele regras, convertê-lo em disputa legítima, mediada por instituições. Com o surgimento de novas correntes, como o socialismo e o conservadorismo moderno, esse arranjo se torna mais complexo. O liberalismo deixa de ser a única linguagem da política e passa a conviver com projetos que enfatizam, de um lado, a igualdade e, de outro, a autoridade e a tradição. Ao longo desse processo, também se transforma, incorporando elementos democráticos e sociais. “Ele passa a funcionar como uma espécie de árbitro entre forças que puxam para mais igualdade ou para mais autoridade”, resume Lynch.

É nesse papel que, segundo ele, o liberalismo se consolida como eixo de equilíbrio do sistema. “Esse centro funciona como um ‘miolo’ que ajuda a garantir a adesão dos candidatos de direita e esquerda à democracia. Os intermediários também cumprem o papel de reduzir a distância entre os governos, entre os programas de política pública. Esse miolo não precisa ser majoritário. É que, sem ele, o sistema tende a oscilar de um lado para o outro. Sua presença ajuda a sustentar a moderação.” Moderação que floresceu, embora por vezes em campos estreitos, em terras tupiniquins no período da redemocratização.

Moderação à brasileira

Em 1989, quando o sistema político buscava se reorganizar depois de duas décadas de regime militar, na primeira eleição direta pós-ditadura militar, se apresentaram Mário Covas (PSDB) e Ulysses Guimarães (PMDB). Ulysses, símbolo da Assembleia Constituinte e da reconstrução democrática, carregava uma candidatura mais ligada à institucionalidade do que à competição eleitoral tradicional, e acabou derrotado por uma dinâmica que já apontava para a fragmentação e a radicalização daquele pleito. Mas ali a moderação se fez presente. Depois de o primeiro governo eleito pós-ditadura terminar em impeachment, com a saída de Fernando Collor e a posse do vice, Itamar Franco, em 1994 Fernando Henrique Cardoso (PSDB) se coloca no páreo — e vence. Em 1998, se reelege.

“Eu vejo o episódio Fernando Henrique Cardoso mais como uma exceção que confirma a regra. Um candidato que é uma espécie de fusão da social-democracia com liberalismo, laico, intelectual, urbano. Isso aconteceu por um alinhamento de astros muito peculiar”, analisa Sérgio Fausto, diretor da Fundação Fernando Henrique Cardoso. Na visão dele, naquele momento, abriu-se um espaço para uma “centro-esquerda reformada”, que acabou se expressando sobretudo no PSDB, em aliança com um setor liberal-conservador também reformado, que aceitou a democracia e passou a jogar o jogo não só pelas regras, mas também pelos valores. Daí, em 2002, veio José Serra. Em 2006, Geraldo Alckmin. Serra tenta de novo em 2010. Em 2014, Aécio Neves. Todos chegam ao segundo turno, mas não conseguem vencer.

O problema é que o PSDB nunca conseguiu transformar o legado do governo FHC em marca, bandeira, identidade duradoura. “O PSDB num determinado momento resolveu que não tinha nada a ver com aquele legado, o que não faz o mais remoto sentido”, pontua Fausto. Ao abrir mão de defender o próprio passado, o PSDB foi perdendo densidade programática e se esvaziando como projeto político. No vácuo, o PT se mostrou mais eficiente. “O PT foi muito hábil em, ao mesmo tempo, estigmatizar a suposta herança maldita e se apropriar de algumas bandeiras. O PSDB foi se liquefazendo do ponto de vista de densidade programática.” Sem narrativa própria, os tucanos passaram a se definir pela negação: “Virou uma identidade pela negativa. É contra o PT.”

Esse esvaziamento cobrou seu preço quando o sistema político mudou de eixo. A ascensão de uma nova direita encontrou um partido já fragilizado. “Quando veio o tsunami da extrema direita, o PSDB já estava frágil, dividido, sem cara”, resume. O resultado foi um colapso que ultrapassa a sigla. “O naufrágio do PSDB é o naufrágio também desse centro democrático”, afirma, “que tinha um componente liberal importante.” Mais do que uma crise partidária, trata-se de um problema estrutural. Na leitura de Fausto, o Brasil nunca ofereceu terreno especialmente fértil para esse tipo de projeto. “A formação da sociedade brasileira, com enorme desigualdade, uma classe média relativamente pequena e frágil, nada disso propicia candidaturas liberais como a gente entende na Europa”, diz.

Em 2018, quando a extrema-direita já tinha um novo rosto, o de Jair Bolsonaro (PL), Geraldo Alckmin e João Amoêdo (Novo) se colocaram no pleito, mas tiveram desempenho limitado. Em 2022, já com a polarização cristalizada, Simone Tebet (MDB) se apresentou ao país como a voz liberal daquele ciclo. E agora, em 2026, as perguntas permanecem: haverá algum candidato liberal? Há espaço para isso? Antes de chegar lá, porém, é preciso entender como outra tentativa de reorganização desse campo também não conseguiu se consolidar.

Novo, a empreitada liberal que fracassou

Se o PSDB foi, por duas décadas, o principal veículo institucional do liberalismo democrático no Brasil, a tentativa mais recente de reconstruir esse campo se deu concretamente com o Partido Novo. Fundado em 2011 pelo empresário João Amoêdo, a sigla surgiu como uma resposta à crise de representação, propondo uma agenda liberal mais explícita, com ênfase em responsabilidade fiscal, redução do Estado e renovação política. Em 2018, essa agenda chegou à disputa presidencial Amoêdo. Ainda que com votação modesta, sua candidatura conseguiu inserir no debate público temas que até então orbitavam mais restritos a nichos.

Havia, ali, uma tentativa de reorganizar o liberalismo como identidade política assumida. Mas, poucos anos depois, essa experiência também se fragmentou. Para Amoêdo, o esvaziamento desse espaço começa pelo ambiente político mais amplo. “A gente partiu para um cenário de polarização onde o debate foi perdendo racionalidade. Hoje é muito mais um contra o outro do que uma exposição de ideias”, afirma. “Você não discute um plano para o país. Você reage a temas pontuais, sempre de forma binária.”

Esse ambiente, segundo ele, altera também a forma como o eleitor se relaciona com a política. “Os políticos passaram a ser tratados como celebridades. As pessoas tomam partido pelas figuras, não pelas ideias. A gente virou torcedor de político.” Mas há, na avaliação dele, um fator ainda mais determinante: o desenho institucional que passou a orientar os partidos. “Com o volume de dinheiro público — fundo partidário, fundo eleitoral e emendas — os partidos passaram a priorizar a eleição de bancada. A eleição presidencial virou secundária”, diz. “Hoje, o que importa para eles é eleger deputado federal, porque isso garante acesso a mais recursos. Não existe um plano para o Brasil. Existe um plano de manutenção de poder.”

Nesse contexto, candidaturas programáticas perdem espaço antes mesmo de nascer. O processo eleitoral vai sendo afunilado muito antes de a campanha começar. A própria trajetória do Novo, que buscou ocupar esse vazio, acabou sendo atravessada por essas distorções. Amoêdo relata um momento claro de ruptura. “Para mim, a virada foi quando houve a troca de gestão. Eu já tinha receios, mas ali ficou evidente que o partido começou a se desviar dos princípios que deram origem a ele.” Segundo ele, o descolamento se manifestou em decisões concretas. “O Novo começou a usar recursos públicos, coisa que a gente tinha se comprometido a não fazer. Passou a fazer alianças com partidos que tinham visões completamente diferentes. E começou a tomar decisões muito mais ligadas à manutenção de poder.”

A mudança, diz, também apareceu na postura política. “Inicialmente, o Novo não apoiava o bolsonarismo. Depois passou a fazer um apoio envergonhado. E hoje eu diria que é um apoio convicto.” Internamente, o processo veio acompanhado de um fechamento do espaço para divergência. Amoêdo cita a própria experiência como exemplo. “Quando eu declarei meu voto no Lula, mesmo fazendo todas as ressalvas, o partido entrou com um processo para me expulsar. Um partido que se dizia liberal tentando cercear a opinião de um filiado.” Depois do episódio, ele deixou a sigla.

Ainda assim, Amoêdo faz uma distinção importante: a ausência de uma candidatura liberal competitiva não significa que o eleitor rejeite essas ideias. “Poucos se definem como liberais, mas isso não quer dizer que o eleitor não esteja disposto a ouvir. O problema é que esse debate não está sendo colocado.” Sem esse espaço, ele acredita que o sistema tende a se empobrecer. No limite, o risco é de fechamento completo do jogo político. “Cada eleição vai estreitando mais as opções. E a gente volta sempre àquela lógica de votar no menos pior”, intui. “O problema é que, a cada eleição, o menos pior vai ficando muito próximo do pior.”

Ainda existem liberais no jogo

Apesar do esvaziamento de candidaturas nacionais, o liberalismo não desapareceu da política brasileira. Ele se fragmentou, se reacomodou e, em muitos casos, deixou de ser apresentado como identidade explícita. Para o pré-candidato ao governo de Minas Gerais, Gabriel Azevedo (MDB), o erro começa justamente na forma como o debate é colocado. “Mais do que o problema de não ter um candidato liberal, o problema é achar que isso, por si só, resolve alguma coisa. Não adianta falar que você é liberal. É falar qual é a sua solução para o problema.”

Na avaliação dele, há um descolamento entre o debate político e a realidade do eleitor, o que acaba tornando rótulos ideológicos pouco relevantes fora de bolhas muito engajadas. “Vai na rua e pergunta: ‘você é liberal?’. Ninguém sabe. Isso é papo nosso. O eleitor quer saber se a estrada está esburacada, se o filho está seguro, se consegue pagar as contas.” Essa desconexão, diz, é agravada por um ambiente político dominado por extremos e por uma lógica de comunicação que premia o conflito, não a moderação. “O algoritmo premia o escandaloso, o vexatório. Não premia quem está tentando resolver problema real.”

Ao mesmo tempo, Azevedo rejeita a ideia de que não haja espaço para candidatos liberais — desde que eles saibam se comunicar. “Claro que tem espaço. Mas isso exige estratégia, investimento pesado em comunicação, em pesquisa qualitativa. Comunicação não é achismo, é ciência.” Na prática, ele próprio tenta traduzir essa lógica em campanha, evitando o discurso ideológico e apostando em problemas concretos. “Ferrovia é de esquerda ou de direita? Morte na estrada é de esquerda ou de direita? Você precisa tirar a discussão desse lugar abstrato e trazer para o mundo real.” Essa estratégia passa também por uma leitura crítica do comportamento do eleitor — que, segundo ele, está cada vez mais distante da política. “Um adversário hoje é o desinteresse brutal das pessoas. Elas estão preocupadas em pagar boleto, cuidar da vida. Política virou coisa de uma minoria muito barulhenta.”

E, nesse cenário, insistir em identidades ideológicas rígidas pode ser mais um problema do que uma solução. “Existe espaço para um candidato liberal, desde que ele não faça disso a sua principal bandeira. Porque até explicar o que é liberalismo, já acabaram os 30 segundos de TV.” Essa percepção dialoga com uma leitura mais estrutural do cenário político. Para Luis Eduardo Lelis, consultor político-eleitoral e presidente do conselho administrativo do Livres, lideranças liberais continuam no jogo, mas estão dispersas, pressionadas pela polarização e, muitas vezes, recuando. “Eu não vejo que estão surgindo lideranças. Eu vejo que estão sumindo lideranças”, diz. Segundo ele, o auge recente, especialmente entre 2018 e 2020, foi interrompido por um ambiente que penalizou candidaturas fora dos polos.

“Muita gente que batia no peito e dizia que era liberal tomou um atropelo em 2022. E simplesmente desistiu da política.” Ainda assim, esses quadros seguem presentes em diferentes níveis de poder. Lelis cita, por exemplo, nomes como Raquel Lyra, em Pernambuco, ao lado de Daniel Coelho; Pedro Cunha Lima, na Paraíba; e, no Rio de Janeiro, figuras como Pedro Duarte e Chico Bulhões. Há também nomes que orbitam ou migraram recentemente entre partidos, como Marcelo Calero e Mônica Rosenberg, além de quadros que resistem dentro do Partido Novo, como Marcela Trópia e Thiago Mitraud. O próprio Azevedo aparece, nesse mapeamento, como uma das poucas apostas competitivas no Executivo estadual. Mas há um ponto em comum entre muitos desses nomes: a dificuldade, ou a escolha, de não se apresentar explicitamente como liberais. “Tem muita gente escondendo que é liberal para não perder voto. Ou até fingindo que é outra coisa”, diz Lelis.

A consequência é um paradoxo: as ideias continuam circulando, mas sem identidade clara ou protagonismo eleitoral. Hoje, segundo ele, o movimento é mais defensivo do que expansivo. “É um processo de resistência para não perder de WO. Se ninguém colocar o nome na urna, o liberalismo sai do debate público antes mesmo do jogo começar.” E mesmo onde há tentativa de reorganização, como no PSD, o objetivo não é dominar, mas influenciar.

O futuro a Kassab pertence

Na avaliação de Lelis, liberais têm se reagrupado no PSD na tentativa de se organizar para o longo prazo e influenciar um partido que, segundo ele, tende a se tornar “um dos maiores do Brasil e o principal da centro-direita”. “A ideia é influenciar como o Pérsio Arida e o pessoal da Casa das Garças influenciavam o PSDB. Sem ilusão de que a gente vai ser dono do partido ou que seremos maioria, mas com a convicção de que podemos ser um grupo intelectual forte ali dentro com alguma influência em política pública”, afirma.

Antes disso, porém, o partido ainda precisa resolver sua definição mais imediata: quem será seu candidato à Presidência — e, a partir daí, para onde o PSD tocará o barco ideologicamente. Entre todos os entrevistados — Lelis, Sérgio Fausto, João Amoêdo, Christian Lynch e Gabriel Azevedo — há um ponto de convergência: entre Caiado e Leite, o segundo é o único capaz de manter alguma presença liberal na disputa presidencial. Ronaldo Caiado, por outro lado, é visto como um nome externo a esse campo.

Christian Lynch é quem descreve essa diferença de maneira mais direta. Para ele, Caiado representa um conservadorismo de matriz histórica e social específica. “Ele é o estereótipo do conservador. É o representante das oligarquias do interior, porque é um conservadorismo de matriz interiorana que mantém a ideia de que o interior representa o verdadeiro Brasil, o Brasil profundo, que tem o lavrador, que tem o ‘Jeca’, que tem o homem do campo em contraste com as grandes ‘capitais da Costa’, que seriam as representantes de culturas estrangeiras, do liberalismo. Caiado é de uma oligarquia, uma aristocracia rural, de propriedade de terra”, afirma. Ele sugere também uma outra hipótese de leitura: de que parte do sistema político pode estar interpretando este momento como de menor polarização, com Lula percebido como mais moderado e Flávio Bolsonaro mais distante da retórica do pai, o que reduziria a noção de espaço para candidaturas realmente liberais, explicitamente de centro liberal. Mas isso está longe de estar cristalizado.

Na avaliação dos entrevistados, portanto, o que está em jogo não é apenas uma disputa interna do PSD, mas a própria permanência de um espaço liberal na eleição presidencial. Nesse contexto, o desempenho eleitoral imediato passa a ter peso crescente. É justamente esse tipo de lógica que preocupa Gabriel Azevedo. “O risco é a democracia brasileira se resumir a pesquisas eleitorais”, afirma. Ele lembra que a construção de lideranças políticas exige tempo e repetição: “as pessoas se esquecem que Lula concorreu a cinco eleições até virar presidente”.

Sérgio Fausto também chama atenção para o efeito estrutural desse tipo de racionalidade. No sistema político brasileiro, segundo ele, partidos tendem a operar sob a lógica da maximização imediata de votos. “O político quer maximizar voto no curto prazo. E faz sentido que seja assim. Mas então você fica num círculo vicioso: um quadro ossificado, uma estratégia sempre de curto prazo. Não faz sentido lançar um candidato como o Eduardo Leite. Mas com isso você fecha a possibilidade de ter uma renovação nas lideranças do país”, avalia.

Calculando a rota com base nos números, na mesma entrevista em que delineia os critérios de sua escolha entre Ratinho Jr., Caiado e Leite, Gilberto Kassab é confrontado com um cenário hipotético: se Flávio Bolsonaro chegasse ao segundo turno, seria “natural” um apoio do PSD? “Não digo natural, mas eu acho que a conversa é bem razoável e teria naturalidade.” Pragmatismo político-eleitoral puro. Uma resposta bem mais alinhada ao cálculo de curto prazo do que a uma visão de mundo liberal, de apego às bases do que funda nossa República.

O efeito, segundo os entrevistados, é o esgarçamento de uma democracia cada vez menos representativa de projetos e identidades políticas, e cada vez mais organizada em torno de incentivos de sobrevivência eleitoral. A eleição de 2026 está, potencialmente, no seu momento mais importante.


A História dá muitas voltas... - Paulo Roberto de Almeida

 A História dá muitas voltas...


        Em 1914, os impérios centrais europeus iniciaram, de forma arrogante, operações militares contra adversários ou países recalcitrantes (ou seja, que não se dobraram às suas pretensões) que, ao início se revelaram vitoriosas e que esperavam ser de curta duração e de âmbito limitado. Aquilo precipitou o envolvimento de outros impérios da região, e até de fora dela, em episódios que se revelaram desastrosos e que, ao final, acabaram com a dissolução desses impérios centrais e até de alguns periféricos.
        Em 1939, se repetiu o mesmo cenário: a tentativa de concretizar ambições territoriais, econômicas e até pessoais por meio de uma guerra restrita aos cenários planejados inciailmente, se revelou igualmente catastrófica para as potências militares expansionistas: foram submetidas, ocupadas e humilhadas.
        No período seguinte, os impérios vencedores se julgaram capazes de quaisquer aventuras militares, e empreenderam custosas guerras de oportunidade (não de necessidade) que tambénm se revelaram desastrosas em termos de custos humanos e econômicos.
        Em 2022, um império descontente com sua diminuição territorial e geopolítica resolveu testar sua potência militar na conquista de um vizinho que outrora lhe pertencia, numa operação militar de "curta duração". Passou a enfrentar forte oposição política, econômica, diplomática, da comunidade aderente ao Direito Internacional. No quinto ano da aventura, está sendo derrotado estrategicamente, pela resistência da nação agredida.
        Em 2026, um império arrogante, comandado por um incapaz, resolveu reconstruir sua antiga hegemonia, e passou à ofensiva, sem qualquer estratégia, objetivos claros ou planejamento militar profissional, adequado às pretensoes. Está sendo derrotado, politicamente, estrategicamente, diplomaticamente. O resultado, ainda em estágios iniciais, já é desastroso.
        A História pode ser uma boa conselheira, mas apenas para os que a estudam e sabem dos limites imperiais...

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 28/03/2026

A dramática história da última (?) ditadura argentina - Oliver Stuenkel

 PRA: A despeito das tragédias passadas, o atial governo Milei pretende voltar atrás no relato histórico. 

“ Hoje, há 50 anos, em 24 de março de 1976, as Forças Armadas da Argentina derrubavam o governo constitucional da presidente Isabel Perón e iniciavam um dos períodos mais sombrios da história do país: a ditadura autodenominada “Processo de Reorganização Nacional”.

O golpe ocorreu em meio a uma profunda crise econômica, instabilidade política e crescente violência entre grupos armados de esquerda e forças de segurança. Sob o argumento de restaurar a ordem, os militares suspenderam o Congresso, proibiram partidos políticos e impuseram censura à imprensa. Na prática, inauguraram um regime marcado por repressão sistemática, perseguição política e graves violações de direitos humanos.

Durante os quase oito anos seguintes, milhares de argentinos foram sequestrados, torturados e assassinados pelo Estado. Muitos tornaram-se os chamados “desaparecidos” — pessoas levadas por forças de segurança cujo destino jamais foi oficialmente esclarecido. Organismos de direitos humanos estimam que cerca de 30 mil pessoas tenham sido vítimas do regime. O terror institucionalizado também atingiu estudantes, sindicalistas, jornalistas e qualquer cidadão suspeito de oposição.

Em meio à repressão, surgiram movimentos de resistência que se tornariam símbolos da luta por memória e justiça. Entre eles, destacam-se as Madres de Plaza de Mayo, que passaram a se reunir semanalmente em Buenos Aires para exigir informações sobre seus filhos desaparecidos, e as Abuelas de Plaza de Mayo, que buscavam localizar netos nascidos em cativeiro ou desaparecidos junto com os pais.

A ditadura argentina chegou ao fim em 1983, após a derrota do país na Guerra das Malvinas e o colapso do regime militar. Desde então, o 24 de março tornou-se uma data central na memória coletiva argentina — um dia de reflexão, luto e reafirmação do compromisso com a democracia e os direitos humanos.

Nos anos seguintes à redemocratização, a Argentina tornou-se uma referência global na responsabilização por violações de direitos humanos. Em 1985, líderes militares foram levados a julgamento no histórico “Juicio a las Juntas”, que condenou parte da cúpula do regime — um processo retratado no filme “Argentina, 1985”

Prisão por uma causa não necessariamente feminista: simplesmente humana

 O juiz lhe deu duas opções: viver com o marido com quem foi obrigada a se casar aos 11 anos… ou ir para a prisão.

Ela escolheu a prisão — e acabou mudando a história de milhões de pessoas.

Bombaim, Índia. Março de 1887.

Rukhmabai, com 23 anos, ouviu a sentença do juiz Farran.

Ela deveria ir viver com Dadaji Bhikaji — o homem com quem havia sido forçada a se casar quando ainda era uma criança. Um homem com quem nunca viveu. Um homem que ela se recusava a reconhecer como marido há doze anos.

Ou poderia enfrentar seis meses de prisão.

O tribunal aguardava sua resposta.

Rukhmabai não hesitou:

“Prefiro enfrentar seis meses de prisão a viver com um homem com quem fui casada quando ainda era uma criança.”

Suas palavras ecoaram por todo o império.

Porque Rukhmabai não estava apenas rejeitando um marido. Ela estava rejeitando um sistema que havia roubado a infância de milhões de meninas por séculos.

E estava prestes a provar que a recusa de uma única mulher podia desafiar esse sistema.

Nascida em Bombaim em 1864, Rukhmabai era filha de Jayantibai, uma jovem viúva que conhecia de perto a crueldade do casamento infantil: casou-se aos 14 anos, teve um filho aos 15 e ficou viúva aos 17.

Quando Jayantibai se casou novamente, escolheu cuidadosamente: o médico Sakharam Arjun, um reformista social que acreditava que meninas deveriam receber educação.

Ele encheu a casa de livros. Incentivou Rukhmabai a estudar. Deu a ela algo que a maioria das meninas da Índia dos anos 1870 jamais recebia: a certeza de que sua mente tinha valor.

Mas até os reformistas cediam às tradições.

Aos 11 anos, o avô materno de Rukhmabai arranjou seu casamento com Dadaji Bhikaji, que tinha cerca de 19 anos.

Ela era apenas uma criança. Não tinha voz. Não tinha escolha.

A cerimônia aconteceu, mas, conforme o costume, Rukhmabai não foi morar com o marido. Permaneceu com a mãe e o padrasto, continuando seus estudos.

Dadaji, teoricamente, deveria amadurecer e se tornar digno.

Mas isso nunca aconteceu.

Enquanto Rukhmabai devorava livros, assistia palestras e se correspondia com reformadores sociais, Dadaji abandonou os estudos, acumulou dívidas e passou a ser influenciado por um tio que viu uma solução para seus problemas: exigir a esposa.

Em 1884, quando Rukhmabai tinha 20 anos, Dadaji entrou com uma ação na Justiça.

Ele exigia seus “direitos conjugais” — um termo legal que basicamente significava uma coisa: ele queria obrigar a esposa a viver com ele.

A resposta de Rukhmabai foi inédita.

Ela argumentou que havia sido casada quando era uma criança incapaz de consentir. Que um casamento imposto a uma menina de 11 anos não poderia ser considerado válido. Que mulheres não eram propriedade.

Nenhuma mulher indiana havia feito esse tipo de argumento em um tribunal antes.

Em 1885, o juiz Robert Pinhey chocou a Índia conservadora ao decidir a favor dela.

Ele afirmou que a lei inglesa exigia consentimento adulto — e Rukhmabai era menor quando foi casada.

A reação foi imediata e feroz.

Jornais conservadores denunciaram a decisão como um ataque às tradições hindus. O líder nacionalista Bal Gangadhar Tilak culpou a “educação inglesa excessiva” de Rukhmabai. Líderes religiosos disseram que o próprio hinduísmo estava sob ataque.

O caso foi apelado.

Em 1886, um tribunal superior anulou a decisão favorável.

E em março de 1887, o juiz Farran determinou que Rukhmabai deveria se submeter ao marido — ou cumprir seis meses de prisão.

Foi então que ela disse a frase que repercutiu no mundo:

“Prefiro ir para a prisão.”

A imprensa britânica divulgou a história. Revistas femininas na Inglaterra apoiaram sua causa. O erudito Max Müller escreveu que a educação de Rukhmabai a tornava a melhor juíza do próprio destino.

Mas Rukhmabai não esperou que outros lutassem por ela.

Ela pegou a caneta.

Escrevendo anonimamente como “Uma Senhora Hindu” no jornal The Times of India, publicou textos fortes contra o casamento infantil.

Descreveu meninas forçadas a se tornarem mães antes dos 14 anos. Sonhos destruídos. Infâncias roubadas.

“Essa prática cruel destruiu a felicidade da minha vida”, escreveu. “Ela se interpõe entre mim e o que mais valorizo: estudar e desenvolver minha mente.”

Suas palavras chegaram até a rainha Vitória.

Rukhmabai escreveu diretamente pedindo uma reforma simples: que casamentos realizados antes dos 20 anos para homens e dos 15 para meninas não fossem legalmente válidos.

“O ano jubilar deveria deixar algum benefício para nós, mulheres hindus”, escreveu ela. “E nenhum seria mais agradecido do que esse.”

O governo britânico, pressionado pela repercussão internacional e relutante em prender uma mulher por se recusar a um casamento forçado, iniciou negociações.

Em julho de 1888, chegou-se a um acordo: Dadaji aceitou 2.000 rúpias para dissolver o casamento e abrir mão de qualquer reivindicação.

Rukhmabai finalmente ficou livre.

Mas sua história estava apenas começando.

Com apoio da médica britânica Edith Pechey, ela viajou para a Inglaterra para estudar medicina.

Em 1894, formou-se na London School of Medicine for Women, tornando-se uma das primeiras mulheres indianas a exercer a medicina.

Ela poderia ter permanecido na Inglaterra e levado uma vida confortável.

Mas escolheu voltar para a Índia.

Durante os 35 anos seguintes, a doutora Rukhmabai Raut trabalhou como médica-chefe em hospitais femininos em Surat e Rajkot.

Atendeu pacientes de todas as castas e classes. Treinou mulheres em enfermagem e higiene. Trabalhou durante epidemias quando muitos fugiam.

E nunca deixou de lutar pelos direitos das meninas.

Mesmo depois de se aposentar, continuou escrevendo, dando palestras e criticando práticas como o purdah, o isolamento forçado das mulheres.

Em seu testamento, doou sua casa para apoiar a educação de meninas.

A batalha judicial que travou na juventude teve consequências que mudaram milhões de vidas.

Em 1891 — apenas três anos após o desfecho de seu caso — o governo britânico aprovou a Age of Consent Act, que elevou a idade mínima de consentimento.

Foi a primeira grande reforma legal que começou a proteger meninas do casamento infantil.

Historiadores ainda discutem o quanto o caso de Rukhmabai influenciou diretamente essa lei.

Mas uma coisa é certa: sua recusa pública transformou o casamento infantil em um debate nacional pela primeira vez.

Ela obrigou a Índia e o Império Britânico a encarar uma prática que havia sido ignorada por ser tão comum.

Rukhmabai morreu em 25 de setembro de 1955, aos 90 anos.

Ela viveu mais que o marido que tentou obrigá-la a voltar.

Viveu mais que o Império Britânico que governou seu país.

E viveu mais que as tradições que tentaram silenciá-la.

Em 2017, o Google a homenageou com um doodle em seu aniversário de 153 anos.

Mas seu verdadeiro legado aparece todos os dias:

Em cada menina indiana que recebe educação em vez de casamento infantil.

Em cada mulher que escolhe seu próprio futuro.

Em cada voz que se recusa a ser silenciada.

Porque Rukhmabai entendeu algo que muda o mundo:

Às vezes, o ato mais poderoso é simplesmente dizer não.

Não se submeter.

Não se calar.

Não aceitar que uma injustiça seja inevitável apenas porque é tradição.

Rukhmabai Raut (1864–1955):

A menina obrigada a se casar aos 11 anos.

A mulher que escolheu a prisão antes da submissão.

A médica que dedicou a vida a curar.

A reformista que ajudou a mudar leis.

A prova de que uma única voz, que se recusa a se calar, pode ecoar por gerações.

O Senador Claude Malhuret denuncia novamente o bufão perigoso instalado em Washington

O Senador Claude Malhuret denuncia novamente o bufão perigoso instalado em Washington 

 (ouvir o discurso em francês, Paris, 26/03/2026)

https://x.com/yasminalombaert/status/2037231817804173404/video/1

Acabo de ouvir, em francês, o discurso do Senador Claude Malhuret desancando novamente, um ano depois, ô irresponsável dirigente que está destruindo os próprios fundamentos do Ocidente que ele pretende defender.

Um discurso primoroso, realista e irônico ao mesmo tempo, no qual o brilhante Senador desanca o dirigente irresponsável que acelera o declinio do Ocidente, a começar pelo seu próprio país, merecendo ser designado criminoso de guerra pelo TPI e escorraçado de todas as tribunas internacionais.

Paulo Roberto de Almeida 

Listen, if you’re tired of the diplomatic fluff and want someone to actually call out the chaos, you need to hear this. Claude Malhuret just went absolutely scorched-earth in the French Senate, and frankly, it’s a masterclass in truth-telling.

He doesn't hold back on the "madmen" wrecking the global order—slamming putin for his relentless, bloody ego-trip in Ukraine and dragging Trump’s new "circus" of a cabinet for treating foreign policy like a private piggy bank. 

Malhuret is basically the only adult left in the room, cutting through the MAGA noise and the Kremlin’s lies with the kind of sharp, witty clarity we desperately need right now. It’s brutal, it’s honest, and it’s a total must-watch.

Speech by Claude Malhuret regarding the situation in the Near and Middle East:

"Mr. President, Mr. Prime Minister, ladies and gentlemen of the Cabinet, in February 2022, a dangerous madman drunk on grandeur lit a fuse in Ukraine that blew up a powder keg and disrupted the world order. The war was supposed to last a week. It is now entering its fifth year. In February 2026, another dangerous madman lit another fuse in the Near East that once again threatens international balance. Was that war also supposed to last a week? One month later, the whole world is asking: 'What is going to happen?' The simple, short, and precise answer is this: God only knows.

A year ago in this very place, I compared the Trump presidency to the court of Nero. I was wrong; it is a 'Court of Miracles.' An anti-vax former heroin addict as Secretary of Health; a climate skeptic as Secretary of Econology; an alcoholic TV host as Secretary of Defense; a former agent of Qatar as Attorney General; a putin groupie as National Security Advisor. A Turkish proverb says: 'When a clown moves into a palace, he doesn't become a king; the palace becomes a circus.'

This 'fine team' decided to create a competitor to the UN. Since his Peace Council has existed, Trump has launched more military strikes than Biden did during his entire term. Every time an internal scandal resurfaces, bombs explode somewhere in the world as a diversion. Bomb more to gain more. There isn't a country where Trump hasn't taken advantage of the situation to enrich himself, never forgetting his family: a private Boeing gifted by Qatar, investments in all Gulf projects or elsewhere, manipulation of stock market prices benefiting a few insiders. A single one of these conflicts of interest would have triggered an immediate impeachment procedure here, but we are not here—we are in MAGA America: the conduct of public affairs at the service of private interests.

After the customs duties, Greenland, the abandonment of Ukraine, the humiliation of allies, the ineffective back-and-forth in Venezuela and so many others, a new senseless adventure begins.

Let me be clearly understood: I am the last to complain about the decapitation of the Mullahs' regime and the first to demand freedom for the Iranian people. But what is the strategy to achieve it? And have the collateral damages, including for the Iranians, been measured? The answer is: there is no strategy, and collateral damages are written off as losses. Just as in January, when Trump called on Iranians to take to the streets, only to leave them to be massacred by the Basij.

After the pretext of an 'imminent' Iranian atomic bomb—contradicted by the Director of American Intelligence herself—and then the argument for regime change, it is Marco Rubio who finally let the cat out of the bag: we went in because we followed Netanyahu. In other words, we have no objective of our own. Trump ignored the warnings of the few who had the courage to tell him what would obviously happen: the blocking of the Strait of Hormuz, the extension of the war to the entire Near East, and finally the global repercussions.

In one last piece of 'fake news' aimed solely at calming oil prices and falling stock markets, he announced that negotiations are underway. The Speaker of the Iranian Parliament denied this within hours. It is the first international negotiation where one of the parties discovers they are negotiating by watching the evening news. 

Tankers are blocked in the Gulf, the Emirates are closing their airspace, influencers on the beach in Dubai are begging to be repatriated, and refineries and oil fields are on fire. 

After assembling the most powerful army in the world, failing to win a war against a medium power, causing oil and gas prices to explode, and delivering nonsensical speeches, the 'golfer of Mar-a-Lago' shamelessly admits to being 'stunned' by the Iranian response—which was perfectly predictable—and calls for help from the allies he was insulting yesterday. And they respond: 'You consulted no one, you have no plan, and we have no reason to follow you blindly into the fog.'

Trump, the only elephant in the world who travels with his own china shop, is left with only two choices, both equally bad: to withdraw piteously, claiming without convincing anyone that he achieved his objectives, or to trigger an escalation with results known in advance since Vietnam, Iraq, or Afghanistan—entrenchment, and in the end, a shameful departure, leaving the field open to the Communists, ISIS, or the Taliban.

The problem for Europe is that you cannot stop a disaster with beautiful phrases, by begging Israel and Hezbollah to put away their weapons and declaring that 'Hormuz is not our war.' It is true, but it only highlights our impotence. In the short term, France's position is the right one: we do not participate in an offensive without a goal, without strategy, and without visibility. But we uphold our international commitments by protecting our allies in the Gulf and the Mediterranean and by being ready to contribute to free navigation in the Strait, because we are the only European country to have maintained operational naval aviation forces. This position must be supported.

But the 27 member states must also start resolving their urgent and serious problems. The wars in Ukraine and the Near East send us a simple and clear message: we can only count on ourselves. De Gaulle understood this first 60 years ago; his message has been forgotten by Europeans, and it is more than time to finally take it into account. Europe has three major challenges: guaranteeing its own security, producing an effective decision-making system, and joining the great technological, cognitive, and financial revolution of the 21st century. Otherwise, the alternative will be simple: vassalisation by our allies or submission to our enemies.

The objective: to become a 'Europe-Military Power' through rearmament, which implies reindustrialisation and massive investment, to become a 'Europe-Political Power' with, among other things, the extension of qualified majority voting and finally, to become a 'Europe-Economic and Commercial Power' by implementing the Draghi and Letta reports. Everyone knows this, but little is happening. 

In 2022, we were told Europe was entering a 'war economy.' Four years later, orders are not up to scale. The great European project, the Single Market, remains far from its 1993 objectives. As for the technological revolution, we are light-years away from setting up the financial instruments essential to catch up with the economies of the U.S. and China.

France occupies a paradoxical place in this issue. It is the European country that best understands the situation, the only one that has maintained an army that is more than symbolic and a deterrent force. 

But today, after 40 years of demagoguery and untenable promises, it is also in great budgetary difficulty.

John Adams, the second U.S. President, said: 'There are two ways to enslave a nation: one is by the sword, the other is by debt.' Despite these difficulties, Mr. Prime Minister, you announced a significant increase in the military programming law budgets and an update of its objectives after having already done so three years ago. This is an effort I wish to commend, but it is also a challenge.

The presidential election campaign will soon begin. The demagoguery of the two extremes, who will constantly call for financial waste and explain that we can 'have our cake and eat it too,' will place a terrible handicap on reasonable candidates. Yet, it is imperative to meet the double challenge of our security and the restoration of our public spending. The crucial question today is: how do we convince our fellow citizens? 

I thank you."


Postagem em destaque

A França e a democratização da Siria - Foreign Policy

  Unwavering Support Foreign Policy, July 7, 2026   French President Emmanuel Macron (right) shakes hands with Syrian President Ahmed al-Sha...