quinta-feira, 16 de julho de 2026

A conferência dos Prêmios Nobel de 1988: Uma agenda ainda válida para o século XXI? - Paulo Roberto de Almeida (Via Politica, 2006)

A conferência dos Prêmios Nobel de 1988:

Uma agenda ainda válida para o século XXI?

 

Paulo Roberto de Almeida

Via Política (17/12/2006). Relação de Trabalhos n. 1701; publicados n. 730.


Em janeiro de 1988, reunidos em Paris, sob a iniciativa do humanista polonês Elie Wiesel, 75 cientistas e personalidades do mundo literário, de 31 diferentes países, mas todos agraciados com o Prêmio Nobel, elaboraram dezesseis propostas para tornar o mundo do século XXI melhor do que ele tinha sido no “breve século XX” de mortes, genocídios e destruições maciças.

Passados mais de dezoito anos daquele encontro de “sábios”, o que poderia ser retido daquele conjunto de princípios – na verdade, um enunciado de nobres propósitos – destinados a aperfeiçoar um mundo então claramente insatisfatório? Caberia, antes de mais nada, colocar em seu contexto histórico a conferência convocada para para discutir as “ameaças e promessas no alvorecer do Século XXI”. Num segundo momento, seria útil verificar se aquelas propostas elaboradas dezoito anos atrás ainda guardam validade para os nossos tempos.

A iniciativa do Prêmio Nobel da Paz Elie Wiesel, escritor judeu de naturalidade polonesa, foi, sem dúvida alguma, meritória em seus próprios termos, mesmo se se pode questionar a representatividade intrínseca de cientistas e homens de letras de origens as mais diversas (com maciça presença dos EUA, como é de regra nas premiações Nobel), bem como sua competência específica para debater problemas complexos que afetam a toda a humanidade, ainda que de maneira variada. Uma vez que se reconhece, porém, a um biólogo o direito de apresentar propostas, enquanto cidadão, sobre problemas do desarmamento ou da educação, ou a um homem de letras o de argumentar sobre a melhor maneira de resolver o problema da dívida do Terceiro Mundo ou de acelerar a transferência de tecnologia em favor dos países em desenvolvimento, pode-se concordar em que o impacto mediático de uma conferência de laureados representa uma boa maneira de chamar a atenção da opinião pública ou dos homens de Estado para algumas das questões mais cruciais da agenda mundial.

O problema essencial, contudo, poderia ser colocado da seguinte forma: as propostas formuladas pelos Nobel eram condizentes com a natureza das “ameaças” percebidas e suas recomendações caminhavam realmente em direção das “promessas” do século XXI? Se a principal qualidade de um bom cientista é a de ser um pouco “visionário”, isto é, de saber antecipar-se aos desafios futuros, as “conclusões” dos Prêmio Nobel devem ser julgadas à luz de sua adequação aos cenários desenhados para o novo milênio, ou seja, segundo sua capacidade de realizar, nos termos do filósofo alemão Reinhart Koselleck, uma “projeção utópica do futuro”.

Formulando a questão em outros termos: a agenda que os Nobel estabeleceram para os homens do final do século XX correspondia efetivamente às necessidades de desenvolvimento das sociedades do futuro, tais como as percebemos hoje, e as recomendações propostas representaram algo mais do que a simples manifestação de boa-vontade de homens desvinculados de tarefas executivas ou responsabilidades governamentais? Subsidiariamente, se poderia também indagar se os “remédios” propostos levaram em consideração os meios disponíveis ou a organização social e política do sistema interestatal contemporâneo, bem como a relação de forças nele predominante.

Pretendo neste ensaio fazer a uma “releitura do passado”, adotando o seguinte procedimento: transcreverei o teor completo das 16 propostas originais (traduzidas por mim a partir do documento final da conferência), aduzindo depois comentários onde pertinentes. Creio que a maior parte das propostas se sustenta, ainda hoje, muito embora seu caráter “otimista” já fosse passível de algumas críticas naquele mesmo momento. As três primeiras apresentam, em minha opinião, caráter universalmente válido e não são passíveis de qualquer restrição ou comentário, mas a partir daí tenho qualificações ou condicionantes a agregar, como explicito no seguimento das propostas comentadas.

AS 16 PROPOSTAS DA CONFERÊNCIA DOS NOBEL DE 1988

Comentários de Paulo Roberto de Almeida em 2006 

1. Todas as formas de vida devem ser consideradas como um patrimônio essencial da Humanidade. Causar dano ao equilíbrio ecológico constitui, portanto, um crime contra o futuro.

PRA: Propósito ainda plenamente válido.

2. A espécie humana é única e cada indivíduo que a compõe tem os mesmos direitos à liberdade, à igualdade e à fraternidade.

PRA: Propósito ainda plenamente válido.

3. A riqueza da Humanidade está também na sua diversidade. Ela deve ser protegida em todos os seus aspectos: cultural, biológico, filosófico e espiritual. Para isso, a tolerância, a atenção a outrém, a recusa das verdades definitivas devem ser incessantemente lembradas.

PRA: Propósito ainda plenamente válido.

4. Os problemas mais importantes que a humanidade enfrenta atualmente são ao mesmo tempo universais e interdependentes.

PRA: Os problemas mais importantes não estão expressamente referidos – embora alguns deles figurem nos tópicos seguintes –, mas creio que eles podem ser resumidos da seguinte forma: segurança, paz, bem-estar e igualdade de chances. A segurança e a paz fizeram enormes progressos no mundo, depois que os cientistas e literatos se reuniram em Paris, no início de 1988. O comunismo acabou e com ele a ameaça de um enfrentamento praticamente suicidário entre as duas grandes potências atômicas. As guerras que subsistem são residuais – com uma ou outra exceção – ou reduzidas ao contexto regional e civil interno. O desenvolvimento social também conheceu enormes avanços, muito embora subsistam zonas de fome endêmica, geralmente naqueles contextos de conflitos civis e político, e alguns casos de privação epidêmica, dados os desequilíbrios ambientais criados pelos homens, também em grande medida coincidentes com as zonas de conflito.

A igualdade de chances não é, infelizmente, muito bem disseminada no mundo, mas isso não quer dizer que se trata de um problema “ao mesmo tempo universal e interdependente”, uma vez que a responsabilidade pela educação dos cidadãos – fator primordial da igualdade de oportunidades – permanece indefectivelmente com os Estados nacionais. Não se concebe, neste momento, processos universais de educação e capacitação técnica, pois isso poderia ser assimilado à “desculturação” ou mesmo ao “etnocídio”. Sim, infelizmente, a ditadura do “politicamente correto” e outras inovações típicas dos anti-globalizadores inviabiliza uma diminuição do grau de soberania estatal associada aos processos de educação e socialização para o trabalho.

5. A ciência é um poder. O acesso à ela deve ser igualmente repartido entre os indivíduos e os povos.

PRA: Interessante como proposta, mas algo ingênua. Se a ciência é um poder, então ela nunca será repartida igualmente entre os povos, uma vez que a humanidade não se encontra suficientemente homogeneizada, ou livre de perigos residuais, para que o poder seja repartido de forma equânime. Isso não vai ocorrer antes de muito tempo.

Mas, mesmo que a ciência não fosse um poder, e sim um simples instrumento de poder – o que redunda quase no mesmo –, ainda assim não haveria condições de “dispensá-la” de forma igualitária entre todos os povos e indivíduos. As condições de sua produção implicam custos e ônus para os que investem nessa atividade, o que deve ser de alguma forma compensado. Por isso que à essa produção estão associados mecanismos de monopolização – patentes e outros títulos proprietários – que são a contrapartida indispensável ao investimento inicial.

De forma geral, entretanto, os avanços propriamente científicos já se encontram à disposição de todos, de forma livre e irrestrita, apenas a tecnologia sendo objeto de apropriação monopólica.

6. O fosso existente em muitos países entre a comunidade intelectual e os poderes públicos deve ser reduzido. Cada um deve reconhecer o papel do outro.

PRA: Propósito ainda plenamente válido.

7. A educação deve tornar-se prioridade absoluta de todos os orçamentos e deve contribuir para valorizar todos os aspectos da criatividade humana.

PRA: Propósito ainda plenamente válido.

8. As ciências e tecnologias devem estar à disposição de todos, especialmente dos países em desenvolvimento, de forma a permitir-lhes o controle de seu próprio destino e a definição dos conhecimentos que julguem necessários a seu futuro.

PRA: Os mesmos comentários do item 5 valem para esta proposta também. Cientistas e literatos, em especial os agraciados com o Prêmio Nobel, deveriam saber o que custa chegar a um resultado “premiável”: anos e anos de pesquisas, despesas imensas para resultados por vezes frustrantes, sem contar os falsos caminhos e os ensaios fracassados. Os literatos devem gostar de viver de direitos autorais, do contrário teriam de procurar outro meio de vida. Colocar algo que custou muito à livre disposição de terceiros significaria que existe, sim, “almoço grátis”, o que parece contradizer um dos princípios econômicos mais elementares.

9. Se a televisão e os novos meios de comunicação constituem um instrumento essencial de educação para o futuro, a educação deve ajudar a desenvolver o espírito crítico em relação ao que é divulgado nesses meios.

PRA: Propósito ainda plenamente válido.

10. A educação, a alimentação e a prevenção são os instrumentos essenciais de uma política demográfica e de redução da mortalidade infantil. A generalização do uso das vacinas existentes e o desenvolvimento de novas vacinas devem constituir a tarefa comum dos cientistas e dos homens políticos.

PRA: Propósito ainda plenamente válido.

11. Todas as pesquisas relativas à prevenção e ao tratamento da AIDS devem ser partilhadas e estimuladas, sem bloqueios ou barreiras, especialmente através da cooperação da indústria farmacêutica. Uma vez disponível, a vacina contra a AIDS deve ser assegurada pelos poderes públicos.

PRA: Propósito ainda plenamente válido.

12. A biologia molecular, que por seus recentes avanços permite prever progressos na medicina e no isolamento da dimensão genética de certas doenças, deve ser estimulada, o que permitirá prever e talvez curar essas doenças.

PRA: Esses progressos científicos, como o das pesquisas com células-tronco, que alcançaram igualmente, no plano tecnológico, a melhoria genética dos alimentos (plantas e animais), vêm sendo infelizmente obstaculizados por fundamentalistas religiosos e outros fundamentalistas ecológicos, que brandem argumentos não científicos para impedir esses avanços. Os cientistas deveriam esforçar-se mais para vulgarizar o conhecimento técnico, afastando os aspectos religiosos e ideológicos que dificultam sua disseminação.

13. O desarmamento dará um estímulo significativo ao desenvolvimento econômico e social, tendo em vista os recursos limitados do mundo, atualmente drenados pela indústria armamentista.

PRA: Propósito ainda plenamente válido, embora realisticamente pouco efetivo.

14. Nós pedimos a organização de uma conferência internacional para tratar em seu conjunto do problema da dívida do Terceiro Mundo, obstáculo ao seu desenvolvimento econômico e político.

PRA: Esse problema já foi praticamente encaminhado, ao longo das duas últimas décadas, com a renegociação das dívidas dos países emergentes – o que implicou algum desconto do valor face – e o cancelamento unilateral ou negociado das dívidas dos países mais pobres. Caberia registrar, contudo, que o problema da dívida não é uma perversão do sistema financeiro internacional, e sim o resultado de fatores contingentes e outros imponderáveis, numa relação quase simétrica, de disponibilidade de liquidez do lado dos credores – que atuam de forma irresponsável, pelo desejo de lucro – e de demanda excessiva por parte dos tomadores, que também atuam de forma irresponsável ao contratarem encargos acima de suas possibilidades. Trata-se de velho e recorrente problema, que não deixará de conhecer novos episódios no futuro.

15. Os governos devem comprometer-se sem ambiguidades e de maneira legalmente vinculatória com o respeito aos direitos do homem, assim como aos tratados por eles ratificados.

PRA: Propósito ainda plenamente válido, mas o obstáculo mais importante à implementação prática dessa idéia é a validade absoluta do princípio westfaliano, consagrado no sistema onusiano, de que a soberania estatal prima sobre o direito “das gentes” no plano internacional. A Carta da ONU começa invocando os “povos das Nações Unidas”, mas seu teor é inteiramente consagrado às prerrogativas e deveres dos Estados, considerados entes exclusivos da formação do direito internacional e de sua observância prática. A próxima fronteira do progresso da humanidade talvez tenha de ser a derroção do respeito absoluta a essa norma westfaliana e a adoção da cláusula democrática e dos direitos humanos preventivos como princípios organizadores da nova comunidade internacional. Não vislumbro, contudo, tal evolução no futuro previsível.

16. A conferência dos laureados do Nobel se reunirá novamente dentro de dois anos para estudar estes problemas. No intervalo, se uma urgência se manifestar, vários Nobel poderão reunir-se localmente, ou em todos os lugares onde os direitos do homem estiverem ameaçados.”

PRA: Não se tem notícia de outra reunião dos prêmios Nobel desde então. Se eles se reuniram, não mais voltaram a produzir, em todo caso, um documento abrangente como este. Não seria de todo inútil que os Nobel pudessem continuar oferecendo seus argumentos em prol do aperfeiçoamento da humanidade, embora se possa colocar em dúvida a eficácia desse tipo de exortação para a mudança real das condições de vida de milhões de seres do planeta. O otimismo intrínseco dos cientistas e sua inegável fé no futuro são, de toda forma, incuráveis. Que eles continuem a militar, junto com os homens de letras, pelo aperfeiçoamento da humanidade.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 17 de dezembro de 2006

 

 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Diplomatizzando e Madame IA: afinidades eletivas e induzidas? O promotor da interação se chama Airton Dirceu Lemmertz

 Nos últimos sete ou oito meses minhas interações (unidirecionais) com Madame IA se intensificaram extraordinariamente, pelo engenho e arte de nosso patrono comum, ou o diretor de operações Airton Dirceu Lemmertz, que adotou como prática habitual a submissão de minhas postagens imediatas e passadas ao crivo analítico e interpretativo de Madame IA, com quem ainda não discuti a relação— uma DR, segundo os entendidos nesse tipo de coisa —, inclusive porque eu sou muito tímido para dirigir-me diretamente a essa Senhora (ou Demoiselle) tão sabida e tão bem informada.

Em todo caso, seus exercícios em torno das minhas postagens são extremamente bem-vindos, pois que ela parece dominar amplamente meu estilo, meus temas preferenciais e o sentido de minha escrita. A expeeriência tem se revelado extremamente positiva, para mim e suponho que para ela também.

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 15/07/2026 

============

Hoje é 15-julho-2026. Blog Diplomatizzando publica a milésima postagem do ano. O que isso significa? 

A publicação da milésima postagem do ano em 15 de julho de 2026 pelo blog Diplomatizzando representa uma alta produtividade e densidade de análises do autor, o diplomata e professor Paulo Roberto de Almeida. [1]
Essa marca carrega os seguintes significados práticos e estatísticos:
Média Diária Elevada
  • Ritmo intenso: O blog mantém uma média aproximada de 5,1 textos publicados por dia nos primeiros 196 dias de 2026.
  • Consistência: Esse volume dá continuidade ao ritmo do primeiro semestre, quando a página acumulou exatas 926 postagens.[1]
Foco Temático e Resistência
  • Quilombo intelectual: O número reflete a obstinação do espaço, autodefinido como um "quilombo de resistência intelectual" focado em racionalidade, relações internacionais, política externa e história. [1]
  • Uso de IA: O marco coincide com a fase em que o autor passou a utilizar intensamente inteligência artificial (apelidada por ele de "Madame IA") para interagir, revisar e analisar criticamente a sua imensa produção. [1]
Contexto Histórico
  • 20 anos de existência: A marca ocorre poucas semanas após o blog celebrar duas décadas de atividade ininterrupta, fundado que foi em 17 de junho de 2006. [1]

===

Considerando apenas o título de cada uma das mil postagens, até agora, em 2026; o que podemos extrair desse conjunto? 

Considerando estritamente os títulos das mil postagens publicadas pelo Diplomatizzando em 2026, podemos extrair três grandes pilares sobre a natureza atual e a organização do blog:
1. Sistemática de Arquivamento e Compilação
Ao observar os títulos, nota-se que grande parte das "postagens" individuais não são textos curtos ou isolados, mas sim índices e registros de lotes de produção. Títulos estruturados como "Postagens PRA blog Diplomatizzando, 1 a 18 de maio de 2026" revelam que o autor usa os cabeçalhos para organizar cronologicamente e arquivar em blocos o seu imenso volume de reflexões diárias. [1]
2. Mapeamento de Parcerias e Diálogos Intelectuais
Os títulos funcionam como um catálogo de curadoria e debate acadêmico, dividindo-se fortemente pelo nome de terceiros autores. É possível extrair desse conjunto a centralidade de interlocutores frequentes da diplomacia, da economia e da ciência política por meio de títulos focados em republicações, resenhas ou debates, como:
  • Rubens Barbosa
  • Carlos Primo Braga
  • Gelson Fonseca Junior
  • Marcos Azambuja [123]
3. Agenda Temática e Linhas de Pesquisa
Mesmo sem ler o corpo dos textos, as palavras-chave que se repetem nos títulos deixam explícita a exata obsessão analítica do autor ao longo de 2026. A taxonomia dos títulos evidencia três eixos:
  • Historiografia Institucional:Títulos que remetem a documentos antigos e análise histórica brasileira (ex: "Mensagens presidenciais do regime militar"). [1]
  • Crítica de Economia Política:Cabeçalhos provocativos sobre a estrutura do país (ex: "O lado mais constante da nação brasileira: o Estado extrator"). [1]
  • Apoio Bibliográfico: Títulos institucionais focados no compartilhamento de manuais e livros (ex: parcerias e lançamentos com a Fundação Alexandre de Gusmão - FUNAG). [1]
Em suma, o conjunto de títulos extrai a imagem de um blog que funciona tanto como um diário analítico em tempo real quanto como uma biblioteca digital altamente catalogada de relações internacionais e história política.

===

Nessas últimas mil postagens, o que deixou de ser uma constante (analisando apenas os títulos das postagens) ao compararmos com as outras mil postagens imediatamente anteriores no blog? 

Ao comparar o bloco das últimas mil postagens (de 2026) com o lote das mil postagens imediatamente anteriores (que cobrem a segunda metade de 2025), a principal mudança nos títulos é a institucionalização de diálogos diretos com Inteligência Artificial. [1]
Analisando estritamente os títulos, o que deixou de ser uma constante ou mudou drasticamente engloba os seguintes fatores:
A Emersão de Coautores Sintéticos nos Títulos
  • A menção a "Madame IA": Nos títulos anteriores (2025), os cabeçalhos indicavam análises predominantemente individuais do diplomata ou diálogos exclusivos com acadêmicos tradicionais. Nas mil postagens mais recentes, títulos que contêm explicitamente expressões como "Balanço do Diplomatizzando [...] - Madame IA e Paulo Roberto de Almeida" ou "Paulo Roberto de Almeida as seen by Google's Gemini" passaram a ocupar um espaço central e inédito na linha editorial. [12]
Mudança na Temporalidade das Expectativas Geopolíticas
  • Fim do foco em projeções futuras: No bloco anterior de postagens, os títulos eram marcados por prospectivas e incertezas temporais (ex: "O Brasil em 2025, expectativas para 2026..." ou "2025: o temido ano que ainda não começou"). Nas últimas mil postagens, os títulos abandonaram o caráter especulativo do "ano que virá" para focar em balanços em tempo real da realidade já consolidada. [123]
Substituição de Críticas Conjunturais por Compilações Históricas de Aniversário
  • Menos reações factuais e mais efemérides nos cabeçalhos: Ao atingir a marca de 20 anos em junho de 2026, os títulos das últimas mil postagens deixaram de priorizar reações imediatas a notícias diárias (frequentes no lote de 2025) para dar lugar a títulos retrospectivos e arquivísticos, como "Os primeiros dez anos do blog..."ou marcadores explícitos de comemoração de duas décadas.[12]

===

Ao longo dos 20 anos, quando da chegada da milésima postagem anual no blog, o diplomata PRA fazia alguma menção a tal marca quantitativa no ano? 

Não, o diplomata Paulo Roberto de Almeida tradicionalmente não fazia menções comemorativas à marca específica da milésima postagem anual ao atingi-la. [1]
A postura do autor em relação a esse indicador quantitativo específico é definida pelos seguintes fatores:
Naturalização do Fluxo Altíssimo
  • Rotina e não evento: Como o blog mantém uma média histórica muito elevada de publicações diárias, atingir mil posts em um ano é uma decorrência natural do seu método de trabalho. [1]
  • Foco em metragens globais: O autor costuma celebrar marcos históricos acumulados do blog (como os 20 anos de existênciacomemorados em junho de 2026 ou o volume total de dezenas de milhares de textos desde 2006), preterindo contadores anuais isolados. [123]
Lotes e Agrupamentos Tecnocráticos
  • Títulos utilitários: Quando o contador do Blogger indica a virada de um milhar em posts recentes, o autor geralmente absorve essa métrica dentro de seus posts de índices mensais de arquivamento (ex: "Postagens do blog Diplomatizzando...") ou em resumos operacionais feitos por inteligência artificial. [12]
  • Sem interrupção para auto-homenagem: A linha editorial foca na urgência da análise de conjuntura e no resgate documental historiográfico, fazendo com que o número "1000" do ano passe sem notas rememorativas exclusivas no título. [12]

===

Nos 20 anos, em quais anos o blog atingiu a milésima postagem mais rapidamente? Dê a lista em ordem crescente de data dentro do ano respectivo. 

Para que o blog Diplomatizzandoconsiga atingir a milésima postagem de um ano antes do mês de julho (como ocorre no presente ano de 2026), ele precisa registrar um volume final anual consideravelmente superior a 2.000 postagens. [1]
Ao longo dos 20 anos de história da página, o autor superou essa marca total em cinco ocasiões específicas. A seguir, os anos em que o blog atingiu o milésimo post mais rapidamente, listados em ordem cronológica de ocorrência (data estimada com base nas estatísticas históricas de publicaçãodo próprio autor): [123]
1. Ano de 2013 (Total: 3.299 posts)
  • Data aproximada do milésimo post: Meados de abril
  • Contexto: O ano mais produtivo de toda a história do blog. Com uma média avassaladora de quase 10 postagens por dia, a marca de 1.000 publicações foi pulverizada logo no início do segundo trimestre.[1]
2. Ano de 2014 (Total: 3.129 posts)
  • Data aproximada do milésimo post: Final de abril
  • Contexto: Mantendo o ritmo frenético do ano anterior, o blog ultrapassou a milésima barreira anual ainda no quadrimestre inicial, sustentando uma média superior a 8,5 textos diários. [1]
3. Ano de 2011 (Total: 2.417 posts)
  • Data aproximada do milésimo post: Início de junho
  • Contexto: Primeiro grande pico histórico de postagens em lote do embaixador Paulo Roberto de Almeida, registrando média de 6,6 publicações diárias e antecipando o milésimo post para antes da metade do ano. [1]
4. Ano de 2010 (Total: 2.336 posts)
  • Data aproximada do milésimo post: Meados de junho
  • Contexto: Período de intensa catalogação bibliográfica e republicação de ensaios clássicos de política externa. O blog manteve constância de 6,4 posts por dia, cruzando a marca na primeira quinzena de junho. [12]
5. Ano de 2012 (Total: 2.220 posts)
  • Data aproximada do milésimo post: Início de junho
  • Contexto: Ano de transição consolidada entre os dois maiores recordes da página. A marca de mil posts veio ligeiramente antes da metade do ano civil devido ao forte volume acumulado de clipping internacional e resenhas de livros.[1]
===

Por enquanto, é tudo, mas novos intercâmbios virão com toda certeza, pelas mãos e teclado de Airton Dirceu Lemmertz, o organizador dessa cooperação mais do bem-vinda, indissociável doravante…

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 15/07/2026


Do afastamento à integração: As relações do Brasil com a América Latina, do século XIX ao século XXI - Paulo Roberto de Almeida (Revista de História da Biblioteca Nacional)

   

 Do afastamento à integração: As relações do Brasil com a América Latina, do século XIX ao século XXI

Paulo Roberto de Almeida

Artigo publicado sob o título de “Laços Latinos”, na Revista de História da Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro, a. I, n. 8, fev./mar. 2006, p. 76-81; ISSN: 1808-4001). Relação de Publicados n.632; Relação de Originais n. 1342.

 

A massa imponente do Brasil, herdeira do expansionismo lusitano consagrado no tratado de Madrid (1750), sempre foi recebida com desconfiança pelos vizinhos hispano-americanos. Consciente disso, José Bonifácio, ministro dos negócios estrangeiros do regente D. Pedro, tomou a iniciativa de despachar a Buenos Aires, em maio de 1822, um emissário (credenciado como Cônsul) para servir às relações do Brasil no Rio da Prata. O mesmo cuidado teve seu sucessor, Visconde de Cachoeira, em 1824, instruindo seu representante no Prata a confirmar “que não só a política do gabinete brasileiro é americana e tem por objeto a sua independência de qualquer tutela européia, mas que este Governo não desaprova nem maquina contra as instituições políticas que esses governos adotarem”. De fato, a diferença de regime marcou as relações entre o Império, um Estado vinculado às dinastias européias, e as repúblicas vizinhas, que tentavam construir um sistema avesso aos princípios aristocráticos do Brasil. A política americanista do Império oscilou entre as intervenções (no Prata) e o isolamento (em relação à maior parte das demais repúblicas).

O Brasil expressou, em 1823, sua adesão à doutrina Monroe, buscando assim, não só o reconhecimento da emancipação, como também algum tipo de “relação especial” que habilitasse o Império a melhor contrapor-se à possível hostilidade dos países vizinhos. Essa animosidade não impediu Simon Bolívar de convidar o Império a participar do congresso de 1826. O Brasil julgou melhor abster-se de comparecer, pelo temor de que fossem discutidas as formas de governo no continente.

A aproximação às repúblicas da região tomou impulso sob as regências. O ministro dos Negócios Estrangeiros afirmava, em 1831, seu desejo de “fazer economias nas missões européias, para melhor dotar as da América”, convencido de que, “conquanto nós tenhamos tido até agora, e talvez por muito tempo ainda devamos continuar a ter, as maiores relações com o antigo mundo, convém todavia principiar desde já a estabelecer e apertar com preferência os vínculos, que no porvir devem ligar muito estreitamente o sistema político das associações do hemisfério americano”.

A diplomacia imperial sempre velou pela diluição de qualquer poder hegemônico em ambas as margens do Prata, situação que não se reproduzia na região amazônica. Explica-se assim a aparente inconsistência doutrinal entre a defesa da liberdade de navegação na bacia do Prata, desde os primórdios da independência, e sua recusa deliberada no Amazonas, mesmo já avançado o Segundo Reinado.

Os registros do porto do Rio de Janeiro indicam, nesse período, a importância marginal do comércio com a região do Prata (apenas 3% do total, em 1838) e um volume já significativo de vendas para os Estados Unidos: para o mesmo ano, os EUA, ocupando o segundo lugar em ordem de importância no intercâmbio global, representavam 15% do comércio feito pelo Rio de Janeiro, ao passo que a Grã-Bretanha era dominante, com 35% do comércio total (41% das importações e 27% das exportações).

Na maior parte do período, o relacionamento do Brasil com os países vizinhos foi perturbado pela política de intervenções no Prata, sempre em busca de equilíbrio político nas duas margens do Prata. As marchas e contramarchas da diplomacia do Império na região eram justificadas pelos “desmandos” cometidos contra os interesses de brasileiros nesses países e também pelas reclamações contra algum caudilho ocupando o poder em nações insuficientemente dotadas de um verdadeiro aparato estatal. Quase não existiam motivos comerciais que pudessem justificar uma maior aproximação do Brasil às repúblicas hispânicas, sobretudo as da vertente amazônica e andina, a despeito do envio de representantes diplomáticos a essas repúblicas do Pacífico.

O Brasil raramente aderiu às iniciativas “americanistas” empreendidas por essas repúblicas. Havia pouca unidade de propósitos entre os vários Estados em que se tinha dividido a região andina, como também eram escassas as possibilidades de cooperação econômica entre regiões e países especializados em poucas matérias-primas de exportação. Depois do rompimento, em 1830, da federação da Grã-Colômbia, segue-se, em 1839, o das províncias unidas da América Central e, nessa mesma época, a primeira guerra do Pacífico opõe o Chile ao Peru e à Bolívia, então confederados. As reuniões “americanas” de Lima (1848), de Santiago (1856) e novamente em Lima (1864-1865) tinham objetivos vinculados a ameaças militares externas, não logrando dar impulso ao comércio recíproco.

Na segunda metade do século, o continente foi abalado pelas guerras platinas (1851-52), pela guerra do Paraguai (1865-1870) e pela guerra do Pacífico (1879-1883), opondo o Chile ao Peru e à Bolívia. Na vertente econômica, as elites estavam divididas entre o livre comércio, que seduzia os liberais, e a idéia protecionista, defendida por conservadores presos a uma ordem econômica tradicional. Outros encontros americanos realizaram-se no terço final do século XIX — em Lima (1877-1879), em Caracas (1883) e em Montevidéu (1888-1889) — mas tiveram caráter essencialmente jurídico. O isolamento brasileiro acentuou-se nessa época, em função do desastroso reconhecimento, em 1863, do regime de Maximiliano, no México, bem como da guerra do Paraguai, que suscitou tentativas (recusadas) de mediação por parte dos vizinhos.

A aventura mexicana da França, que se solda por um desastre completo, abre caminho para a idéia de uma “união latino-americana”, mas após a guerra civil os EUA dão início a um movimento de penetração econômica e comercial que desafiaria a hegemonia britânica mais para o final do século. Um projeto de canal transoceânico é negociado com a Nicarágua desde 1849, ao mesmo tempo em que se fazem propostas à Nova Granada (Colômbia) com o mesmo objetivo. A expansão industrial e a nova retórica expansionista dos EUA confirmam para os países da região que a política de poder norte-americana não seria muito diferente da praticada pelas demais potências européias, tornando-os reticentes a qualquer projeto de integração econômica com o gigante do Norte.

A diplomacia brasileira, bastante voltada para o velho continente, a despeito da crescente importância das repúblicas americanas nas relações externas, teria de equacionar os interesses reais do país com o seu projeto de projeção internacional: se é certo que o fornecimento de produtos de consumo e de bens de produção e os capitais para a cobertura dos déficits provinham essencialmente da Grã-Bretanha, o grande mercado consumidor do principal produto de exportação, o café, situava-se nos EUA.

As reuniões e congressos continentais se fariam, doravante, na capital do país mais importante do hemisfério. Enquanto as conferências hispânicas reuniam, se tanto, meia dúzia de representantes, os encontros de Washington passaram a juntar delegados de mais de duas dezenas de países da região. A mudança de latitude era vista com simpatia no Brasil: os EUA tinham sido a primeira nação a reconhecer a independência do Brasil, gozavam, ao não ostentar a arrogância imperial da velha Inglaterra, de um indiscutível crédito político junto às elites brasileiras — que admiravam seu progresso industrial — e se tinham convertido, na segunda metade do século, num dos mais importantes parceiros comerciais.

Na penúltima década do século XIX, os países americanos começaram um movimento de aproximação política, do qual resultaria um Escritório Comercial das Américas, embrião da futura Organização dos Estados Americanos. Relevante nesse sentido, a despeito da grande distância entre as pretensões iniciais dos Estados Unidos e seus parcos resultados práticos, foi a Primeira Conferência Internacional Americana, realizada em Washington, de outubro de 1889 a abril de 1890, tendo o Brasil nela ingressado como monarquia e terminado como república. Os EUA pretendiam criar uma “união aduaneira”, para promover o comércio hemisférico, dispondo inclusive de uma moeda comum, à base de prata. O Governo imperial manteve, desde o início, reticências em relação a vários dos temas da conferência de Washington, em especial no que se refere à possibilidade de abertura comercial e ao tratamento da propriedade intelectual.

Algumas das razões para a oposição latino-americana aos projetos dos EUA se situavam no terreno econômico: além da superioridade industrial, havia o forte protecionismo agrícola, o que tornava ilusória qualquer zona de livre comércio. Outras eram de natureza política, como o recurso à intervenção por parte dos EUA, para “proteger cidadãos e propriedades”, em contraponto à doutrina Calvo (de imunidade dos Estados em casos de dívida externa), defendida pela Argentina. Esta tinha fortes motivos de opor-se aos EUA por causa da competição nos mercados internacionais de produtos agrícolas, mostrando-se ainda contrária ao pan-americanismo, em virtude de sentir-se européia e não americana. O projeto de um espaço econômico hemisférico começou, em todo caso, sua marcha secular.

Em contrapartida, a república, no Brasil, contribuiu para reconciliá-lo politicamente com os seus vizinhos hispano-americanos, introduzindo ainda princípios alternativos de política externa, como o pan-americanismo. Nas demais regiões crescem as apreensões em relação à política expansionista e intervencionista dos EUA, reforçada a partir da guerra hispano-americana de 1898 e confirmada pela série de ocupações e intervenções armadas no Caribe e na América Central nos anos que seguem. No Brasil, entretanto, o barão do Rio Branco, movido por uma concepção diplomática baseada no equilíbrio de poderes com a Argentina (de fato um disputa pela hegemonia regional), opera, a partir de 1902, uma política de aproximação com os EUA.

O presidente Theodore Roosevelt proclama, logo em seguida, o seu corolário à doutrina Monroe, com o objetivo de justificar o papel de polícia que os EUA pretendiam impor a seu entorno geográfico imediato. Nas próximas décadas, o Brasil e a Argentina passam a competir entre si para estabelecer com os EUA uma “relação especial” que sempre se revelou ilusória, esperando igualmente ostentar, na América do Sul, um “padrão de civilização” que os EUA e as potências européias pretendiam exibir com exclusividade.

Nova York emerge como o grande centro financeiro para a região e, em breve, para o mundo, movimento reforçado pela Primeira Guerra Mundial e no decorrer dos anos 1920, quando volumes importantes de investimento direto são carreados para o setor primário e para a indústria de transformação de quase todos os países da América Latina. Depois de inúmeras tentativas de se consagrar o princípio da não-intervenção no direito americano, os EUA finalmente concedem mudar de política a partir de Franklin Delano Roosevelt, que proclama a política da boa vizinhança e rejeita os aspectos mais rudes e coercitivos da política anterior.

Na primeira metade do século XX, conflitos militares ocorreram na região, a exemplo da Guerra do Chaco (1932-1936), envolvendo o Paraguai e a Bolívia, e do conflito fronteiriço entre o Peru e Equador, em 1942, ambos motivando esforços de mediação por parte do Brasil. A emergência dos regimes mussoliniano e hitlerista como ameaças aos equilíbrios regionais e à própria paz mundial, assim como a ofensiva comercial e financeira da Itália e da Alemanha em direção dos países latino-americanos provocarão novos esforços diplomáticos dos EUA em prol da “solidariedade hemisférica”. O movimento só seria consagrado na conferência interamericana do Rio de Janeiro (janeiro de 1942), no seguimento de Pearl Harbor, ainda assim com importantes defecções, como a da Argentina, que se manteve simpática ao regime nazista até quase o momento de sua derrocada (o que determinou seu não comparecimento à conferência de Chapultepec, em janeiro de 1945).

Após a Segunda Guerra, as relações internacionais desses países continuam a ser dominadas pelo gigante norte-americano, tanto porque o início da Guerra Fria determina uma nova ofensiva diplomática – acoplada a programas de cooperação militar – por parte dos EUA. Washington não atende, porém, aos reclamos desses países em favor de um “Plano Marshall” para a região, a exemplo do que se fazia então na Europa: os EUA já recomendavam que eles se abrissem aos capitais e investimentos estrangeiros.

O Brasil e a Argentina continuam a se opor em quase todos os terrenos, pelo menos até meados da década seguinte, quando estimulados pelo processo europeu de integração, decidem impulsionar um projeto similar na região. Resulta desse esforço o primeiro tratado de Montevidéu (1960), que cria a Associação Latino-Americana de Livre-Comércio, com sede na capital uruguaia. A Revolução Cubana passa a condicionar ainda mais a política americana para a região, pois ela vem introduzir um aspecto novo no relacionamento hemisférico: o da possibilidade de rompimento com o campo ocidental e a adoção de uma via não capitalista de desenvolvimento econômico e social. O cenário estava dado para a sucessão de golpes militares nos anos 60, em grande medida apoiados ou inspirados pelos EUA, o que reduz as possibilidades de avanços no processo de integração regional.

O Brasil e a Argentina se enfrentam a respeito do aproveitamento dos recursos hídricos da bacia do Prata, assim como perseguem custosos programas de capacitação nuclear. A redemocratização política, nos anos 1980, e as pressões hegemônicas contrárias à proliferação contribuem para “desarmar” os dois gigantes da América do Sul, dando início, assim, ao renascimento do projeto integracionista, desta vez em escala sub-regional. O Mercosul surge em 1991 – a partir da adesão do Paraguai e do Uruguai ao processo em curso de integração entre o Brasil e a Argentina –, passando a ser visto, pela diplomacia brasileira, como a possível base de uma integração mais ampla da América do Sul. A despeito de uma grande expansão do comércio intrarregional ao longo dessa década, e de dois acordos de associação com outros países da região (Chile e Bolívia, em 1996), o Mercosul não logra, contudo, firmar-se como união aduaneira plena ou como o centro de um espaço econômico integrado no continente meridional.

A força de atração do gigante hemisférico – primeiro pela possível extensão dos acordos do Nafta (EUA, Canadá e México) aos demais países latino-americanos, depois pela proposta de uma área de livre comércio hemisférica, a Alca, a partir de 1994 – desvia mais uma vez os países de uma possível aproximação política, em troca de promessas de acesso ao grande mercado norte-americano. Como já tinha ocorrido um século antes, o Brasil e a Argentina continuam a manifestar relutância em relação à integração hemisférica, em virtude dos mesmos problemas antes detectados: a economia dominante pretende acesso irrestrito aos mercados latino-americanos, ao mesmo tempo em que não cogita desfazer-se do seu próprio protecionismo agrícola.

O Brasil tampouco parece perto de concretizar seu projeto de união sul-americana. A falta de “excedentes de poder” – basicamente, a capacidade de projetar forças estratégicas e disponibilidade de recursos para cooperação – e a desconfiança dos países da região em relação a uma “liderança” não de todo consensual – evidenciada, por exemplo, na oposição dos dois outros grandes, Argentina e México, à pretensão de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU – mantinham teimosamente o status quo dentro da região. Quanto à política dos EUA para a região, tudo indica que eles continuarão a ostentar sua tradicional “negligência benigna”.

 

Indicações de Leitura:

Tulio Halperin Donghi: História da América Latina (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975; existem edições mais recentes, em espanhol e em inglês)

Luis Cláudio Villafañe G. Santos: O Império e as repúblicas do Pacífico: as relações do Brasil com Chile, Bolívia, Equador e Colômbia – 1822-1889 (Curitiba: Editora da UFPR, 2002)

––––– : O Brasil entre a Europa e a América: o Império e o interamericanismo (do Congresso do Panamá à Conferência de Washington) (São Paulo: Editora da UNESP, 2004)

Luiz Alberto Moniz Bandeira: Brasil, Argentina e Estados Unidos: conflito e integração na América do Sul, da Tríplice Aliança ao Mercosul (Rio de Janeiro: Revan, 2003)

 

Nota sobre o autor:

Paulo Roberto de Almeida é doutor em ciências sociais, mestre em planejamento econômico e diplomata de carreira. Professor orientador do curso de mestrado em diplomacia do Instituto Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores, é autor de numerosos trabalhos de relações internacionais e de política externa do Brasil, tendo publicado, entre outras pesquisas de história diplomática, o livro Formação da Diplomacia Econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (São Paulo: Senac, 2001).

 

[Brasília, 25 de outubro de 2003]

 

 

Postagem em destaque

Por que a reunião de 2026 do G20 nos EUA terminou sem uma declaração oficial? - A visão chinesa do desentendimento

Por que a reunião de 2026 do G20 nos EUA terminou sem uma declaração oficial? Os EUA manobraram para que ela contivesse uma linguagem expres...