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quarta-feira, 15 de julho de 2026

Do afastamento à integração: As relações do Brasil com a América Latina, do século XIX ao século XXI - Paulo Roberto de Almeida (Revista de História da Biblioteca Nacional)

   

 Do afastamento à integração: As relações do Brasil com a América Latina, do século XIX ao século XXI

Paulo Roberto de Almeida

Artigo publicado sob o título de “Laços Latinos”, na Revista de História da Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro, a. I, n. 8, fev./mar. 2006, p. 76-81; ISSN: 1808-4001). Relação de Publicados n.632; Relação de Originais n. 1342.

 

A massa imponente do Brasil, herdeira do expansionismo lusitano consagrado no tratado de Madrid (1750), sempre foi recebida com desconfiança pelos vizinhos hispano-americanos. Consciente disso, José Bonifácio, ministro dos negócios estrangeiros do regente D. Pedro, tomou a iniciativa de despachar a Buenos Aires, em maio de 1822, um emissário (credenciado como Cônsul) para servir às relações do Brasil no Rio da Prata. O mesmo cuidado teve seu sucessor, Visconde de Cachoeira, em 1824, instruindo seu representante no Prata a confirmar “que não só a política do gabinete brasileiro é americana e tem por objeto a sua independência de qualquer tutela européia, mas que este Governo não desaprova nem maquina contra as instituições políticas que esses governos adotarem”. De fato, a diferença de regime marcou as relações entre o Império, um Estado vinculado às dinastias européias, e as repúblicas vizinhas, que tentavam construir um sistema avesso aos princípios aristocráticos do Brasil. A política americanista do Império oscilou entre as intervenções (no Prata) e o isolamento (em relação à maior parte das demais repúblicas).

O Brasil expressou, em 1823, sua adesão à doutrina Monroe, buscando assim, não só o reconhecimento da emancipação, como também algum tipo de “relação especial” que habilitasse o Império a melhor contrapor-se à possível hostilidade dos países vizinhos. Essa animosidade não impediu Simon Bolívar de convidar o Império a participar do congresso de 1826. O Brasil julgou melhor abster-se de comparecer, pelo temor de que fossem discutidas as formas de governo no continente.

A aproximação às repúblicas da região tomou impulso sob as regências. O ministro dos Negócios Estrangeiros afirmava, em 1831, seu desejo de “fazer economias nas missões européias, para melhor dotar as da América”, convencido de que, “conquanto nós tenhamos tido até agora, e talvez por muito tempo ainda devamos continuar a ter, as maiores relações com o antigo mundo, convém todavia principiar desde já a estabelecer e apertar com preferência os vínculos, que no porvir devem ligar muito estreitamente o sistema político das associações do hemisfério americano”.

A diplomacia imperial sempre velou pela diluição de qualquer poder hegemônico em ambas as margens do Prata, situação que não se reproduzia na região amazônica. Explica-se assim a aparente inconsistência doutrinal entre a defesa da liberdade de navegação na bacia do Prata, desde os primórdios da independência, e sua recusa deliberada no Amazonas, mesmo já avançado o Segundo Reinado.

Os registros do porto do Rio de Janeiro indicam, nesse período, a importância marginal do comércio com a região do Prata (apenas 3% do total, em 1838) e um volume já significativo de vendas para os Estados Unidos: para o mesmo ano, os EUA, ocupando o segundo lugar em ordem de importância no intercâmbio global, representavam 15% do comércio feito pelo Rio de Janeiro, ao passo que a Grã-Bretanha era dominante, com 35% do comércio total (41% das importações e 27% das exportações).

Na maior parte do período, o relacionamento do Brasil com os países vizinhos foi perturbado pela política de intervenções no Prata, sempre em busca de equilíbrio político nas duas margens do Prata. As marchas e contramarchas da diplomacia do Império na região eram justificadas pelos “desmandos” cometidos contra os interesses de brasileiros nesses países e também pelas reclamações contra algum caudilho ocupando o poder em nações insuficientemente dotadas de um verdadeiro aparato estatal. Quase não existiam motivos comerciais que pudessem justificar uma maior aproximação do Brasil às repúblicas hispânicas, sobretudo as da vertente amazônica e andina, a despeito do envio de representantes diplomáticos a essas repúblicas do Pacífico.

O Brasil raramente aderiu às iniciativas “americanistas” empreendidas por essas repúblicas. Havia pouca unidade de propósitos entre os vários Estados em que se tinha dividido a região andina, como também eram escassas as possibilidades de cooperação econômica entre regiões e países especializados em poucas matérias-primas de exportação. Depois do rompimento, em 1830, da federação da Grã-Colômbia, segue-se, em 1839, o das províncias unidas da América Central e, nessa mesma época, a primeira guerra do Pacífico opõe o Chile ao Peru e à Bolívia, então confederados. As reuniões “americanas” de Lima (1848), de Santiago (1856) e novamente em Lima (1864-1865) tinham objetivos vinculados a ameaças militares externas, não logrando dar impulso ao comércio recíproco.

Na segunda metade do século, o continente foi abalado pelas guerras platinas (1851-52), pela guerra do Paraguai (1865-1870) e pela guerra do Pacífico (1879-1883), opondo o Chile ao Peru e à Bolívia. Na vertente econômica, as elites estavam divididas entre o livre comércio, que seduzia os liberais, e a idéia protecionista, defendida por conservadores presos a uma ordem econômica tradicional. Outros encontros americanos realizaram-se no terço final do século XIX — em Lima (1877-1879), em Caracas (1883) e em Montevidéu (1888-1889) — mas tiveram caráter essencialmente jurídico. O isolamento brasileiro acentuou-se nessa época, em função do desastroso reconhecimento, em 1863, do regime de Maximiliano, no México, bem como da guerra do Paraguai, que suscitou tentativas (recusadas) de mediação por parte dos vizinhos.

A aventura mexicana da França, que se solda por um desastre completo, abre caminho para a idéia de uma “união latino-americana”, mas após a guerra civil os EUA dão início a um movimento de penetração econômica e comercial que desafiaria a hegemonia britânica mais para o final do século. Um projeto de canal transoceânico é negociado com a Nicarágua desde 1849, ao mesmo tempo em que se fazem propostas à Nova Granada (Colômbia) com o mesmo objetivo. A expansão industrial e a nova retórica expansionista dos EUA confirmam para os países da região que a política de poder norte-americana não seria muito diferente da praticada pelas demais potências européias, tornando-os reticentes a qualquer projeto de integração econômica com o gigante do Norte.

A diplomacia brasileira, bastante voltada para o velho continente, a despeito da crescente importância das repúblicas americanas nas relações externas, teria de equacionar os interesses reais do país com o seu projeto de projeção internacional: se é certo que o fornecimento de produtos de consumo e de bens de produção e os capitais para a cobertura dos déficits provinham essencialmente da Grã-Bretanha, o grande mercado consumidor do principal produto de exportação, o café, situava-se nos EUA.

As reuniões e congressos continentais se fariam, doravante, na capital do país mais importante do hemisfério. Enquanto as conferências hispânicas reuniam, se tanto, meia dúzia de representantes, os encontros de Washington passaram a juntar delegados de mais de duas dezenas de países da região. A mudança de latitude era vista com simpatia no Brasil: os EUA tinham sido a primeira nação a reconhecer a independência do Brasil, gozavam, ao não ostentar a arrogância imperial da velha Inglaterra, de um indiscutível crédito político junto às elites brasileiras — que admiravam seu progresso industrial — e se tinham convertido, na segunda metade do século, num dos mais importantes parceiros comerciais.

Na penúltima década do século XIX, os países americanos começaram um movimento de aproximação política, do qual resultaria um Escritório Comercial das Américas, embrião da futura Organização dos Estados Americanos. Relevante nesse sentido, a despeito da grande distância entre as pretensões iniciais dos Estados Unidos e seus parcos resultados práticos, foi a Primeira Conferência Internacional Americana, realizada em Washington, de outubro de 1889 a abril de 1890, tendo o Brasil nela ingressado como monarquia e terminado como república. Os EUA pretendiam criar uma “união aduaneira”, para promover o comércio hemisférico, dispondo inclusive de uma moeda comum, à base de prata. O Governo imperial manteve, desde o início, reticências em relação a vários dos temas da conferência de Washington, em especial no que se refere à possibilidade de abertura comercial e ao tratamento da propriedade intelectual.

Algumas das razões para a oposição latino-americana aos projetos dos EUA se situavam no terreno econômico: além da superioridade industrial, havia o forte protecionismo agrícola, o que tornava ilusória qualquer zona de livre comércio. Outras eram de natureza política, como o recurso à intervenção por parte dos EUA, para “proteger cidadãos e propriedades”, em contraponto à doutrina Calvo (de imunidade dos Estados em casos de dívida externa), defendida pela Argentina. Esta tinha fortes motivos de opor-se aos EUA por causa da competição nos mercados internacionais de produtos agrícolas, mostrando-se ainda contrária ao pan-americanismo, em virtude de sentir-se européia e não americana. O projeto de um espaço econômico hemisférico começou, em todo caso, sua marcha secular.

Em contrapartida, a república, no Brasil, contribuiu para reconciliá-lo politicamente com os seus vizinhos hispano-americanos, introduzindo ainda princípios alternativos de política externa, como o pan-americanismo. Nas demais regiões crescem as apreensões em relação à política expansionista e intervencionista dos EUA, reforçada a partir da guerra hispano-americana de 1898 e confirmada pela série de ocupações e intervenções armadas no Caribe e na América Central nos anos que seguem. No Brasil, entretanto, o barão do Rio Branco, movido por uma concepção diplomática baseada no equilíbrio de poderes com a Argentina (de fato um disputa pela hegemonia regional), opera, a partir de 1902, uma política de aproximação com os EUA.

O presidente Theodore Roosevelt proclama, logo em seguida, o seu corolário à doutrina Monroe, com o objetivo de justificar o papel de polícia que os EUA pretendiam impor a seu entorno geográfico imediato. Nas próximas décadas, o Brasil e a Argentina passam a competir entre si para estabelecer com os EUA uma “relação especial” que sempre se revelou ilusória, esperando igualmente ostentar, na América do Sul, um “padrão de civilização” que os EUA e as potências européias pretendiam exibir com exclusividade.

Nova York emerge como o grande centro financeiro para a região e, em breve, para o mundo, movimento reforçado pela Primeira Guerra Mundial e no decorrer dos anos 1920, quando volumes importantes de investimento direto são carreados para o setor primário e para a indústria de transformação de quase todos os países da América Latina. Depois de inúmeras tentativas de se consagrar o princípio da não-intervenção no direito americano, os EUA finalmente concedem mudar de política a partir de Franklin Delano Roosevelt, que proclama a política da boa vizinhança e rejeita os aspectos mais rudes e coercitivos da política anterior.

Na primeira metade do século XX, conflitos militares ocorreram na região, a exemplo da Guerra do Chaco (1932-1936), envolvendo o Paraguai e a Bolívia, e do conflito fronteiriço entre o Peru e Equador, em 1942, ambos motivando esforços de mediação por parte do Brasil. A emergência dos regimes mussoliniano e hitlerista como ameaças aos equilíbrios regionais e à própria paz mundial, assim como a ofensiva comercial e financeira da Itália e da Alemanha em direção dos países latino-americanos provocarão novos esforços diplomáticos dos EUA em prol da “solidariedade hemisférica”. O movimento só seria consagrado na conferência interamericana do Rio de Janeiro (janeiro de 1942), no seguimento de Pearl Harbor, ainda assim com importantes defecções, como a da Argentina, que se manteve simpática ao regime nazista até quase o momento de sua derrocada (o que determinou seu não comparecimento à conferência de Chapultepec, em janeiro de 1945).

Após a Segunda Guerra, as relações internacionais desses países continuam a ser dominadas pelo gigante norte-americano, tanto porque o início da Guerra Fria determina uma nova ofensiva diplomática – acoplada a programas de cooperação militar – por parte dos EUA. Washington não atende, porém, aos reclamos desses países em favor de um “Plano Marshall” para a região, a exemplo do que se fazia então na Europa: os EUA já recomendavam que eles se abrissem aos capitais e investimentos estrangeiros.

O Brasil e a Argentina continuam a se opor em quase todos os terrenos, pelo menos até meados da década seguinte, quando estimulados pelo processo europeu de integração, decidem impulsionar um projeto similar na região. Resulta desse esforço o primeiro tratado de Montevidéu (1960), que cria a Associação Latino-Americana de Livre-Comércio, com sede na capital uruguaia. A Revolução Cubana passa a condicionar ainda mais a política americana para a região, pois ela vem introduzir um aspecto novo no relacionamento hemisférico: o da possibilidade de rompimento com o campo ocidental e a adoção de uma via não capitalista de desenvolvimento econômico e social. O cenário estava dado para a sucessão de golpes militares nos anos 60, em grande medida apoiados ou inspirados pelos EUA, o que reduz as possibilidades de avanços no processo de integração regional.

O Brasil e a Argentina se enfrentam a respeito do aproveitamento dos recursos hídricos da bacia do Prata, assim como perseguem custosos programas de capacitação nuclear. A redemocratização política, nos anos 1980, e as pressões hegemônicas contrárias à proliferação contribuem para “desarmar” os dois gigantes da América do Sul, dando início, assim, ao renascimento do projeto integracionista, desta vez em escala sub-regional. O Mercosul surge em 1991 – a partir da adesão do Paraguai e do Uruguai ao processo em curso de integração entre o Brasil e a Argentina –, passando a ser visto, pela diplomacia brasileira, como a possível base de uma integração mais ampla da América do Sul. A despeito de uma grande expansão do comércio intrarregional ao longo dessa década, e de dois acordos de associação com outros países da região (Chile e Bolívia, em 1996), o Mercosul não logra, contudo, firmar-se como união aduaneira plena ou como o centro de um espaço econômico integrado no continente meridional.

A força de atração do gigante hemisférico – primeiro pela possível extensão dos acordos do Nafta (EUA, Canadá e México) aos demais países latino-americanos, depois pela proposta de uma área de livre comércio hemisférica, a Alca, a partir de 1994 – desvia mais uma vez os países de uma possível aproximação política, em troca de promessas de acesso ao grande mercado norte-americano. Como já tinha ocorrido um século antes, o Brasil e a Argentina continuam a manifestar relutância em relação à integração hemisférica, em virtude dos mesmos problemas antes detectados: a economia dominante pretende acesso irrestrito aos mercados latino-americanos, ao mesmo tempo em que não cogita desfazer-se do seu próprio protecionismo agrícola.

O Brasil tampouco parece perto de concretizar seu projeto de união sul-americana. A falta de “excedentes de poder” – basicamente, a capacidade de projetar forças estratégicas e disponibilidade de recursos para cooperação – e a desconfiança dos países da região em relação a uma “liderança” não de todo consensual – evidenciada, por exemplo, na oposição dos dois outros grandes, Argentina e México, à pretensão de uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU – mantinham teimosamente o status quo dentro da região. Quanto à política dos EUA para a região, tudo indica que eles continuarão a ostentar sua tradicional “negligência benigna”.

 

Indicações de Leitura:

Tulio Halperin Donghi: História da América Latina (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975; existem edições mais recentes, em espanhol e em inglês)

Luis Cláudio Villafañe G. Santos: O Império e as repúblicas do Pacífico: as relações do Brasil com Chile, Bolívia, Equador e Colômbia – 1822-1889 (Curitiba: Editora da UFPR, 2002)

––––– : O Brasil entre a Europa e a América: o Império e o interamericanismo (do Congresso do Panamá à Conferência de Washington) (São Paulo: Editora da UNESP, 2004)

Luiz Alberto Moniz Bandeira: Brasil, Argentina e Estados Unidos: conflito e integração na América do Sul, da Tríplice Aliança ao Mercosul (Rio de Janeiro: Revan, 2003)

 

Nota sobre o autor:

Paulo Roberto de Almeida é doutor em ciências sociais, mestre em planejamento econômico e diplomata de carreira. Professor orientador do curso de mestrado em diplomacia do Instituto Rio Branco do Ministério das Relações Exteriores, é autor de numerosos trabalhos de relações internacionais e de política externa do Brasil, tendo publicado, entre outras pesquisas de história diplomática, o livro Formação da Diplomacia Econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (São Paulo: Senac, 2001).

 

[Brasília, 25 de outubro de 2003]

 

 

domingo, 12 de abril de 2026

Monteiro Lobato: pioneiro do petróleo no Brasil - Paulo Roberto de Almeida (Revista de História da Biblioteca Nacional)

A Revista de História da Biblioteca Nacional, enquanto existiu, me pediu um artigo de divulgação geral sobre o papel de Monteiro Lobato na história do petróleo no Brasil. Escrevi esse artigo na China, em 2010.

Monteiro Lobato: pioneiro do petróleo no Brasil

Escritor antecipou, meio século atrás, a condição do Brasil como grande produtor
Publicado sob o título “Um Agitador Petrolífero”, Revista de História da Biblioteca Nacional (Edição Especial n. 1, História da Ciência, outubro 2010, p. 40-43; ISSN: 1808-4001). Relação de Originais 2158. Relação de Publicados n. 1002.

O nome de José Bento Monteiro Lobato domina a primeira história do petróleo no Brasil. Despertado para a importância crucial do petróleo para o desenvolvimento nacional pelo exemplo dos Estados Unidos, ele começou cedo: já em 1918, fundou a Empresa Paulista de Petróleo, sem que, no entanto, dela adviessem resultados concretos, à falta de capitais, equipamentos e competências. Durante sua estada como adido comercial no Consulado do Brasil em Nova York, entre 1928 e 1931, Lobato aprofundou seus conhecimentos no setor. De volta ao Brasil, empreendeu campanhas de mobilização pública e de incitamento à ação do Estado em direção da libertação do Brasil do petróleo importado.
Suas iniciativas eram dotadas de otimismo exagerado e o que mais ele acumulou, ao longo dos anos, foram frustrações e decepções com prospecções mal-sucedidas. Os insucessos não o esmoreceram; Lobato conduziu, através da imprensa e de sua editora, um esforço intenso para conscientizar o país e as autoridades da necessidade de encontrar petróleo, contra a “má vontade da geologia”.
Em 1934, Lobato escrevia a um amigo: “Se o governo não me atrapalhar, dou ferro e petróleo ao Brasil em quantidades rockefellerianas”. Investindo contra as autoridades do setor, ele se convenceu, nessa época, que o principal culpado pela não descoberta de petróleo era o Serviço Geológico Nacional, cuja política, para ele, encampava a dos “trusts” internacionais: “não tirar petróleo e não deixar que ninguém o tire”.
As Forças Armadas, conscientes da fragilidade estratégica do País, impulsionavam os esforços nessa área. A elas foi dedicado seu livro-denúncia, O Escândalo do Petróleo, que teve três edições no mês do seu lançamento (agosto de 1936) e várias outras ao longo dos anos. O papel fundamental de Lobato, nessa fase, foi o de um agitador petrolífero, quase um panfletário. Ele chegou a exibir uma atitude conspiratória, acusando os “trusts” internacionais e as próprias autoridades nacionais de agir contra a extração de petróleo no País:
O petróleo está hoje praticamente monopolizado por dois imensos trusts, a Standard Oil e a Royal Dutch & Shell. Como dominaram o petróleo, dominaram também as finanças, os bancos, o mercado do dinheiro; e como dominaram o dinheiro, dominaram também os governos e as máquinas administrativas. Esta rede de dominação constitui o que chamamos os Interesses Ocultos. (...) Os trusts sabem de tudo [e] lá entre si combinaram: – Nada mais fácil do que botar um tapa-olho nessa gente. Com um bom tapa-olho, eles, que vegetam de cócoras sobre um oceano de petróleo, ficarão a vida inteira a comprar o petróleo nosso; enquanto isso, iremos adquirindo de mansinho suas terras potencialmente petrolíferas, para as termos como reservas futuras. Quando nossos atuais campos se esgotarem, então exploraremos os “nossos” campos do Brasil.

A origem do livro foi uma carta aberta dirigida por Lobato ao Ministro da Agricultura, denunciando dois técnicos estrangeiros do Departamento Nacional de Produção Mineral pela “venda de segredos do subsolo a empresas estrangeiras”. Diante da grave denúncia, o presidente Getúlio Vargas determinou a instalação de uma Comissão de Inquérito, à qual Lobato ofereceu um depoimento escrito, que veio a ser o núcleo de seu livro.
Para o escritor paulista, a Lei de Minas, elaborada pelo DNPM, criara embaraços “para impedir que os trusts estrangeiros se apossassem das riquezas do nosso subsolo. Mas como para embaraçar os estrangeiros fosse necessário também embaraçar os nacionais, resultou o que temos hoje: o trancamento da exploração do subsolo, tanto para nacionais como para estrangeiros – exatamente o que os trusts queriam...” Lobato desconfiava “de todas as entidades estrangeiras que se metem em petróleo no Brasil, já que a intenção confessada não é tirá-lo, e sim, impedir que o tiremos”. Curiosamente, mesmo denunciando a ação dos “trusts” internacionais, Lobato não era contra a participação do capital estrangeiro na exploração do petróleo, e lamentava a postura nacionalista do Código de Minas:
Não sou chauvinista, nem inimigo da técnica e das empresas estrangeiras. Reconheço a nossa absoluta incapacidade de fazer qualquer coisa sem recurso ao estrangeiro, à ciência estrangeira, à técnica estrangeira, à experiência estrangeira, ao capital estrangeiro, ao material estrangeiro. Tenho olhos bastante claros para ver que tudo quanto apresentamos de progresso vem da colaboração estrangeira. E nesse caso do petróleo nada faremos de positivo, se insistirmos em afastar o estrangeiro e ficarmos a mexer na terra com as nossas colheres de pau.

Frustrado com o insucesso de sua campanha junto aos adultos, Monteiro Lobato leva o tema ao público infantil: em outubro de 1937 é lançado O Poço do Visconde, apresentado como um livro de “geologia para crianças”, mas que constituía um manifesto em favor da descoberta e da exploração do petróleo no Brasil.
Não obstante o empenho das autoridades na viabilização da exploração do petróleo, Monteiro Lobato estava convencido de que o governo agia contra as companhias privadas, sabotando suas atividades de empreendedor. Escrevendo, em 1938, a Getúlio Vargas, ele investia contra o diretor do Departamento Nacional da Produção Mineral, autor do Código de Minas, acusando-o de ser “agente secreto dos Poderes Ocultos hostis ao petróleo brasileiro”. Em janeiro de 1940, o presidente sancionou o novo Código de Minas, confirmando todas as disposições nacionalistas existentes e exigindo, dos candidatos ao direito de pesquisar ou lavrar jazidas, “prova de capacidade financeira”, o que foi recebido por Monteiro Lobato como um óbice às suas iniciativas.
Em carta ao general Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, no início de 1940, ele volta às acusações: “sou obrigado a continuar na campanha, não mais pelo livro ou pelos jornais, porque já não temos a palavra livre, e sim por meio de cartas aos homens do Poder”. Ele então acusa o CNP de agir em favor dos “interesses do imperialismo da Standard Oil e da Royal Dutch”, perpetuando “a nossa situação de colônia econômica dos trustes internacionais”. Sua carta mais desafiadora, em maio de 1940, foi dirigida ao próprio chefe de Estado, quando acusou o CNP de perseguir as empresas nacionais, de criar embaraços à exploração do subsolo e de manter a “idéia secreta” do monopólio estatal.
Getúlio Vargas consultou o presidente do CNP, general Júlio Horta Barbosa, que, em agosto de 1940, desmentia as acusações de Lobato: “àqueles que se dispõem a cumprir a lei o Conselho tem tudo facilitado, mas ao que pretendem burlá-la, como é o caso do Sr. Monteiro Lobato, este organismo, como é de seu dever, vem, não só se opondo, como também dando publicamente as razões [de] porque o faz”. Entre as irregularidades das empresas de Lobato eram apontadas a insuficiente provisão de fundos e a nacionalidade estrangeira de alguns dos seus sócios. Ato contínuo, Horta Barbosa enviou ofício ao Tribunal de Segurança Nacional no qual pedia abertura de inquérito contra o escritor. Esta é a origem das duas prisões de Lobato, em janeiro e em março de 1941, por “injúrias aos poderes públicos”.
Monteiro Lobato se batia pelo petróleo nacional com todas as suas forças, movido bem mais pelo instinto do que pelo conhecimento técnico e pela boa informação geológica. Sua atividade empresarial foi quase amadora – daí a razão do não-credenciamento de suas “empresas de petróleo” pelo CNP – e sua agitação panfletária estava no limite das ofensas às autoridades governamentais. Ele tocava, porém, nos pontos que a seu ver dificultavam e atrasavam a exploração do petróleo no país. Numa carta a Getúlio Vargas de maio de 1940, ele assim se pronunciava em relação ao pretendido monopólio estatal que se cogitava criar nessa área: “Outro aspecto do monopólio é a impossibilidade de o Governo criar com ele a grande indústria do petróleo de que o Brasil precisa. O senhor não ignora a incapacidade do Estado, no mundo inteiro, para dirigir empresas industriais, incapacidade por demais evidente no Brasil. O Lóide Brasileiro e a Central do Brasil são casos típicos.”
Monteiro Lobato se insurgia contra geólogos e funcionários do governo que não estivessem de acordo com suas iniciativas empresariais, confundindo muitas vezes a cautela necessária com que eles viam seus rompantes de entusiasmo pela causa do petróleo com o que ele considerava ser uma sabotagem deliberada em torno desses empreendimentos. Grande escritor, mas dotado de conhecimentos escassos na geologia do petróleo, Lobato agitou mais do que qualquer outro homem público o problema do petróleo no Brasil. Foi um nacionalista sem ser contrário ao capital estrangeiro, e antecipou uma realidade que se materializaria meio século depois de sua morte, em 1948.

Saiba Mais:
Azevedo, Carmen Lucia de; Camargos, Marcia Mascarenhas de Rezende; Sacchetta, Vladimir. Monteiro Lobado: Furacão na Botocúndia (3a. ed.; São Paulo: Senac, 2001)
Lobato, Monteiro. O Escândalo do Petróleo (4a. ed.; São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936)
Vargas, Getúlio. A Política Nacionalista do Petróleo no Brasil (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1964)
Victor, Mario. A Batalha do Petróleo Brasileiro (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970)

Paulo Roberto de Almeida é doutor em Ciências Sociais (Universidade de Bruxelas, 1984) e diplomata de carreira desde 1977. Trabalhou no Núcleo de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (2003-2007). É professor de Economia Política Internacional no Programa de Pós-Graduação em Direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub). E-mail: pralmeida@me.com.

[Beijing, 2158: 28 de junho de 2010]
Publicado sob o título “Um Agitador Petrolífero”, Revista de História da Biblioteca Nacional (Edição Especial n. 1, História da Ciência, outubro 2010, p. 40-43; ISSN: 1808-4001). Relação de Publicados n. 1002.

Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165644966/2158_Monteiro_Lobato_pioneiro_do_petr%C3%B3leo_no_Brasil_2010_

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

Revista de História da Biblioteca Nacional: como recuperar os números?

 

Saiba como ter acesso ao site desativado da Revista de História da Biblioteca Nacional

Site da revista, que circulou entre 2005 e 2015, foi desativado há alguns anos, mas nós sabemos como acessar seu conteúdo.

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A crise financeira foi implacável para a mais importante experiência de popularização de história no Brasil. Há pouco mais de um ano, a Revista de História da Biblioteca Nacional (RHBN) deixou de circular nas bancas. E há alguns meses, um golpe ainda maior: o site da revista saiu do ar – aparentemente, de forma definitiva. Mas nem tudo parece perdido. Existe uma maneira bem fácil de acessar o conteúdo do site da revista.

Trata-se da ferramenta WayBack Machineum enorme arquivo digital criado por uma organização sem fins lucrativos chamada Internet Archive. Ela arquiva atualmente mais de 475 bilhões de páginas da internet, desde 1996. Em outras palavras, o serviço permite aos usuários visualizar versões de páginas de um determinado site mesmo que ele tenha saído do ar. Basta acessar o site da ferramenta e inserir no campo de busca o endereço eletrônico da RHBN: revistadehistoria.com.br. Pronto, você já pode voltar a navegar entre artigos e entrevistas. O serviço de recuperação do serviço é bastante satisfatório. As imagens nem sempre são recuperadas, mas os textos são arquivados perfeitamente.

sábado, 28 de setembro de 2019

Monteiro Lobato: um agitador petrolífero - Paulo Roberto de Almeida

Este artigo me foi encomendado pela Revista de História da Biblioteca Nacional, que infelizmente já não existe mais. Ao buscar hoje meus materiais sobre o escritor paulista, fui verificar o registro e constatei que ele não mais se encontrava no site original da revista, daí minha transcrição neste espaço, o que o torna disponível a um número maior de leitores pela primeira vez.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 28 de setembro de 2019


Monteiro Lobato: pioneiro do petróleo no Brasil
Escritor antecipou, meio século atrás, a condição do Brasil como grande produtor

Paulo Roberto de Almeida
Publicado sob o título “Um Agitador Petrolífero”, Revista de História da Biblioteca Nacional (Edição Especial n. 1, História da Ciência, outubro 2010, p. 40-43; ISSN: 1808-4001).

O nome de José Bento Monteiro Lobato domina a primeira história do petróleo no Brasil. Despertado para a importância crucial do petróleo para o desenvolvimento nacional pelo exemplo dos Estados Unidos, ele começou cedo: já em 1918, fundou a Empresa Paulista de Petróleo, sem que, no entanto, dela adviessem resultados concretos, à falta de capitais, equipamentos e competências. Durante sua estada como adido comercial no Consulado do Brasil em Nova York, entre 1928 e 1931, Lobato aprofundou seus conhecimentos no setor. De volta ao Brasil, empreendeu campanhas de mobilização pública e de incitamento à ação do Estado em direção da libertação do Brasil do petróleo importado.
Suas iniciativas eram dotadas de otimismo exagerado e o que mais ele acumulou, ao longo dos anos, foram frustrações e decepções com prospecções mal sucedidas. Os insucessos não o esmoreceram; Lobato conduziu, através da imprensa e de sua editora, um esforço intenso para conscientizar o país e as autoridades da necessidade de encontrar petróleo, contra a “má-vontade da geologia”.
Em 1934, Lobato escrevia a um amigo: “Se o governo não me atrapalhar, dou ferro e petróleo ao Brasil em quantidades rockefellerianas”. Investindo contra as autoridades do setor, ele se convenceu, nessa época, que o principal culpado pela não descoberta de petróleo era o Serviço Geológico Nacional, cuja política, para ele, encampava a dos “trusts” internacionais: “não tirar petróleo e não deixar que ninguém o tire”.
As Forças Armadas, conscientes da fragilidade estratégica do País, impulsionavam os esforços nessa área. A elas foi dedicado seu livro-denúncia, O Escândalo do Petróleo, que teve três edições no mês do seu lançamento (agosto de 1936) e várias outras ao longo dos anos. O papel fundamental de Lobato, nessa fase, foi o de um agitador petrolífero, quase um panfletário. Ele chegou a exibir uma atitude conspiratória, acusando os “trusts” internacionais e as próprias autoridades nacionais de agir contra a extração de petróleo no País:
O petróleo está hoje praticamente monopolizado por dois imensos trusts, a Standard Oil e a Royal Dutch & Shell. Como dominaram o petróleo, dominaram também as finanças, os bancos, o mercado do dinheiro; e como dominaram o dinheiro, dominaram também os governos e as máquinas administrativas. Esta rede de dominação constitui o que chamamos os Interesses Ocultos. (...) Os trusts sabem de tudo [e] lá entre si combinaram: – Nada mais fácil do que botar um tapa-olho nessa gente. Com um bom tapa-olho, eles, que vegetam de cócoras sobre um oceano de petróleo, ficarão a vida inteira a comprar o petróleo nosso; enquanto isso, iremos adquirindo de mansinho suas terras potencialmente petrolíferas, para as termos como reservas futuras. Quando nossos atuais campos se esgotarem, então exploraremos os “nossos” campos do Brasil.[1]

A origem do livro foi uma carta aberta dirigida por Lobato ao Ministro da Agricultura, denunciando dois técnicos estrangeiros do Departamento Nacional de Produção Mineral pela “venda de segredos do subsolo a empresas estrangeiras”. Diante da grave denúncia, o presidente Getúlio Vargas determinou a instalação de uma Comissão de Inquérito, à qual Lobato ofereceu um depoimento escrito, que veio a ser o núcleo de seu livro.
Para o escritor paulista, a Lei de Minas, elaborada pelo DNPM, criara embaraços “para impedir que os trusts estrangeiros se apossassem das riquezas do nosso subsolo. Mas como para embaraçar os estrangeiros fosse necessário também embaraçar os nacionais, resultou o que temos hoje: o trancamento da exploração do subsolo, tanto para nacionais como para estrangeiros – exatamente o que os trusts queriam...”[2] Lobato desconfiava “de todas as entidades estrangeiras que se metem em petróleo no Brasil, já que a intenção confessada não é tirá-lo, e sim, impedir que o tiremos”.[3] Curiosamente, mesmo denunciando a ação dos “trusts” internacionais, Lobato não era contra a participação do capital estrangeiro na exploração do petróleo, e lamentava a postura nacionalista do Código de Minas:
Não sou chauvinista, nem inimigo da técnica e das empresas estrangeiras. Reconheço a nossa absoluta incapacidade de fazer qualquer coisa sem recurso ao estrangeiro, à ciência estrangeira, à técnica estrangeira, à experiência estrangeira, ao capital estrangeiro, ao material estrangeiro. Tenho olhos bastante claros para ver que tudo quanto apresentamos de progresso vem da colaboração estrangeira. E nesse caso do petróleo nada faremos de positivo, se insistirmos em afastar o estrangeiro e ficarmos a mexer na terra com as nossas colheres de pau.[4]

Frustrado com o insucesso de sua campanha junto aos adultos, Monteiro Lobato leva o tema ao público infantil: em outubro de 1937 é lançado O Poço do Visconde, apresentado como um livro de “geologia para crianças”, mas que constituía um manifesto em favor da descoberta e da exploração do petróleo no Brasil.
Não obstante o empenho das autoridades na viabilização da exploração do petróleo, Monteiro Lobato estava convencido de que o governo agia contra as companhias privadas, sabotando suas atividades de empreendedor. Escrevendo, em 1938, a Getúlio Vargas, ele investia contra o diretor do Departamento Nacional da Produção Mineral, autor do Código de Minas, acusando-o de ser “agente secreto dos Poderes Ocultos hostis ao petróleo brasileiro”. Em janeiro de 1940, o presidente sancionou o novo Código de Minas, confirmando todas as disposições nacionalistas existentes e exigindo, dos candidatos ao direito de pesquisar ou lavrar jazidas, “prova de capacidade financeira”, o que foi recebido por Monteiro Lobato como um óbice às suas iniciativas.
Em carta ao general Góis Monteiro, chefe do Estado Maior do Exército, no início de 1940, ele volta às acusações: “sou obrigado a continuar na campanha, não mais pelo livro ou pelos jornais, porque já não temos a palavra livre, e sim por meio de cartas aos homens do Poder”. Ele então acusa o CNP de agir em favor dos “interesses do imperialismo da Standard Oil e da Royal Dutch”, perpetuando “a nossa situação de colônia econômica dos trustes internacionais”. Sua carta mais desafiadora, em maio de 1940, foi dirigida ao próprio chefe de Estado, quando acusou o CNP de perseguir as empresas nacionais, de criar embaraços à exploração do subsolo e de manter a “idéia secreta” do monopólio estatal.
Getúlio Vargas consultou o presidente do CNP, general Júlio Horta Barbosa, que, em agosto de 1940, desmentia as acusações de Lobato: “àqueles que se dispõem a cumprir a lei o Conselho tem tudo facilitado, mas ao que pretendem burlá-la, como é o caso do Sr. Monteiro Lobato, este organismo, como é de seu dever, vem, não só se opondo, como também dando publicamente as razões [de] porque o faz”. Entre as irregularidades das empresas de Lobato eram apontadas a insuficiente provisão de fundos e a nacionalidade estrangeira de alguns dos seus sócios. Ato contínuo, Horta Barbosa enviou ofício ao Tribunal de Segurança Nacional no qual pedia abertura de inquérito contra o escritor. Esta é a origem das duas prisões de Lobato, em janeiro e em março de 1941, por “injúrias aos poderes públicos”.
Monteiro Lobato se batia pelo petróleo nacional com todas as suas forças, movido bem mais pelo instinto do que pelo conhecimento técnico e pela boa informação geológica. Sua atividade empresarial foi quase amadora – daí a razão do não-credenciamento de suas “empresas de petróleo” pelo CNP – e sua agitação panfletária estava no limite das ofensas às autoridades governamentais. Ele tocava, porém, nos pontos que a seu ver dificultavam e atrasavam a exploração do petróleo no país. Numa carta a Getúlio Vargas de maio de 1940, ele assim se pronunciava em relação ao pretendido monopólio estatal que se cogitava criar nessa área: “Outro aspecto do monopólio é a impossibilidade de o Governo criar com ele a grande indústria do petróleo de que o Brasil precisa. O senhor não ignora a incapacidade do Estado, no mundo inteiro, para dirigir empresas industriais, incapacidade por demais evidente no Brasil. O Lóide Brasileiro e a Central do Brasil são casos típicos.”
Monteiro Lobato se insurgia contra geólogos e funcionários do governo que não estivessem de acordo com suas iniciativas empresariais, confundindo muitas vezes a cautela necessária com que eles viam seus rompantes de entusiasmo pela causa do petróleo com o que ele considerava ser uma sabotagem deliberada em torno desses empreendimentos. Grande escritor, mas dotado de conhecimentos escassos na geologia do petróleo, Lobato agitou mais do que qualquer outro homem público o problema do petróleo no Brasil. Foi um nacionalista sem ser contrário ao capital estrangeiro, e antecipou uma realidade que se materializaria meio século depois de sua morte, em 1948.

Saiba Mais:
Azevedo, Carmen Lucia de; Camargos, Marcia Mascarenhas de Rezende; Sacchetta, Vladimir. Monteiro Lobato: Furacão na Botocúndia (3a. ed.; São Paulo: Senac, 2001)
Lobato, Monteiro. O Escândalo do Petróleo (4a. ed.; São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936)
Vargas, Getúlio. A Política Nacionalista do Petróleo no Brasil (Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1964)
Victor, Mario. A Batalha do Petróleo Brasileiro (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1970)


[1] Cf. Monteiro Lobato, O Escândalo do Petróleo (4a. ed.; São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936), p. 15.
[2] Cf. Monteiro Lobato, O Escândalo do Petróleo, op. cit., p. 119-120.
[3] Idem, p. 128.
[4] Idem, p. 127-128.

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