quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O mais importante escândalo da República: o banqueiro fraudador e suas extensas relações com os mandarins da República - canal Meio

Breve nota introdutória, PRA:  

Confesso detestar fofocas e lutas políticas, mas por vezes sou obrigado a – para cumprir um dos motivos de minha atuação como coordenador e executor de dois, principais, canais de comunicação sobre temas relevantes da vida nacional – postar informações da mídia nacional sobre justamente esses temas, que não são intelectuais, tampouco sobre assuntos de política externa e diplomacia, que são meus objetos preferenciais, e postar elementos de informação que são relevantes na vida nacional, como é o atual embate entre os grandes mandarins de nossa tão atormentada República, pois que seu impacto sobre a vida nacional E INTERNACIONAL do Brasil é suficientemente relevante para que eu NÃO passe ao largo da informação.
Eis a única razão para que eu transcreva agora o que acabo de ler no Meio, um canal de notícias de fontes diversas da mídia. PRA

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Meio: 2 de setembro de 2026:

Mendonça, Moraes e Gonet em guerra no caso Master

A crise iniciada no Supremo Tribunal Federal (STF) pelas investigações sobre o Banco Master se transformou em uma guerra aberta entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. No mesmo dia em que Mendonça tornou público um relatório da Polícia Federal que expôs uma incômoda proximidade de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro e defendeu levar o caso ao plenário do Supremo, Gonet reagiu pedindo a anulação da ordem que levou à produção do documento. Para o procurador-geral, Mendonça extrapolou suas atribuições ao determinar que a PF aprofundasse a investigação e identificasse o interlocutor de mensagens encontradas no celular de Vorcaro. A polícia concluiu que se tratava de Moraes. A manifestação coloca Gonet diretamente em confronto com Mendonça. O procurador-geral também aparece nas mensagens reveladas pelo relatório cuja nulidade agora pede. A decisão de Mendonça provocou forte reação nos bastidores do Supremo. Ele quer que os demais ministros do Supremo sejam obrigados a se posicionar sobre os fatos revelados pela PF. Caberá ao presidente da Corte, Edson Fachin, decidir se e quando o caso será levado ao plenário. (g1)

O relatório da Polícia Federal publicizado por André Mendonça aponta que Daniel Vorcaro recorreu a Alexandre de Moraes em busca de ajuda no auge da crise da instituição financeira. Mensagens extraídas do celular do banqueiro mostram pedidos para tentar impedir a liquidação do banco e o avanço das investigações. Durante um período de 13 dias, Vorcaro enviou mensagens em que perguntava como deveria agir para “desarmar” e “reverter” a situação e fazia apelos para “sensibilizar” autoridades. Segundo a PF, há suspeita de que o banqueiro tenha recebido orientações de Moraes. (Globo)

Em uma das mensagens, Daniel Vorcaro perguntou ao ministro Alexandre de Moraes se deveria deixar o Brasil dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal. “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, escreveu Vorcaro a Moraes em 15 de novembro de 2025. As mensagens mostram ainda que Vorcaro marcou encontros com Moraes nos dias que antecederam sua prisão. No dia 14, Vorcaro perguntou se estava “marcado amanhã lá em casa” e, minutos depois, confirmou um encontro para as 14h30. Na noite do dia seguinte, pediu uma nova conversa com Moraes, que poderia ser “bem rápida”. No domingo (16), véspera da prisão, avisou: “Já estou em voo, vou pousar 14:20 e irei direto praí, tudo bem?”. (Folha)

Moraes ficou revoltado ao saber que Mendonça havia determinado o aprofundamento das investigações que acabaram revelando suas conversas com Vorcaro. Moraes pediu uma conversa com o colega no STF, mas o encontro terminou em uma discussão ríspida e os dois quase chegaram às vias de fato. Durante a conversa, Moraes acusou o colega de direcionar as investigações contra ele. O tom subiu dos dois lados e, por pouco, a discussão não terminou em agressão física. (Metrópoles)

Vorcaro também era extremamente próximo de Paulo Gonet, com quem conversava por telefone e trocava mensagens por celular. Os contatos eram intermediados pelo advogado Ciro Soares. Em uma das conversas, Gonet chamou Vorcaro de “máquina” e disse sentir saudades do banqueiro. As mensagens também mostram que o procurador-geral aceitou um convite para uma degustação de uísque em Londres e pediu que o filho fosse incluído no evento. (Estadão)

O ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, Fábio Faria, foi o responsável por aproximar Daniel Vorcaro de Alexandre de Moraes e participou da articulação de encontros entre o dono do Banco Master e o ministro do STF. Faria também aparece em conversas relacionadas ao contrato entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Em março de 2024, ele escreveu a Vorcaro: “O careca não pode atrasar”. Na sequência, a funcionária enviou o registro de uma transferência de R$ 3,42 milhões do Master para o escritório de Viviane. (CNN Brasil)

A investigação da PF ainda mostra que Alexandre de Moraes foi o responsável pela última modificação no contrato de cerca de R$ 130 milhões firmado entre o escritório de sua mulher e Vorcaro. A informação consta dos metadados do arquivo obtido pela Polícia Federal no celular de Vorcaro. Segundo relatório da PF, a “minuta de contrato” tinha como autor um usuário identificado como Guilherme Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, e registra a última modificação pelo usuário “Ministro Alexandre de Moraes”. (g1)

O escritório Barci de Moraes, aliás, firmou um segundo contrato de prestação de serviços com uma empresa ligada a Daniel Vorcaro, desta vez no valor de até R$ 50 milhões. Desse valor, R$ 40 milhões poderiam ser quitados com participações em duas empresas ligadas a aeronaves. Uma delas era proprietária de um avião Legacy 650. (CNN Brasil)

O Banco Master emitiu cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos de Alexandre de Moraes, em outubro de 2025. A emissão foi solicitada pelo escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. (Estadão)

Confira aqui o relatório da Polícia Federal na íntegra. (Meio)

Nos bastidores do Congresso, conta Leticia Casado, parlamentares discutem uma “saída honrosa” para que Moraes deixe o STF sem passar por um processo de impeachment. Uma das opções seria ele pedir aposentadoria antecipada em troca de não sofrer processo criminal. Fontes ligadas ao governo dizem que o melhor seria Moraes assumir um cargo em alguma instituição internacional e morar fora do país por um tempo. (UOL)

Em duros editoriais, Estadão e Folha pedem a renúncia de Moraes. Já o Globo defende que o STF deve exigir explicações do ministro.

Em outra frente do caso Master, reportagem da revista piauí revelou que, mesmo depois de Flávio Bolsonaro ter afirmado repetidamente que o último repasse de recursos de Daniel Vorcaro, supostamente pro filme Dark Horse, havia sido em maio de 2025, US$ 1,6 milhão foram enviados em setembro do mesmo ano, de acordo com documentos do Coaf. Com isso, o total conhecido até aqui do que foi enviado por Vorcaro para o filme de Bolsonaro sobe para US$ 12,2 milhões, ou R$ 65 milhões. Procuradoria, a assessoria do candidato disse “Isso não é com a gente” e sugeriu que o repórter procurasse a produtora do filme.

Malu Gaspar: “Em oito páginas e uma canetada apresentadas com rapidez atípica para seus padrões, Paulo Gonet declarou que nenhuma das provas apresentadas no relatório de mais de 200 páginas da PF vale para que se tome providências e se investigue Moraes. Como procurador da República, Gonet está se saindo um ótimo advogado de defesa”. (Globo)

Bela Megale: “A cerca de um mês das eleições, os magistrados que apoiam Moraes passaram a defender, nos bastidores, que as decisões de Mendonça sobre as mensagens trocadas entre Vorcaro e seu colega de corte teriam como pano de fundo ‘um feito político’. Em reservado, os ministros admitem que a situação é, no mínimo, ‘constrangedora’ para Moraes, mas afirmam que a melhor defesa do ministro é destacar que Vorcaro foi preso e que as investigações estão avançando a todo vapor”. (Globo)

Flávia Tavares: “Defender Moraes agora não é razoável, porque se trata de uma conduta individual que precisa ser explicada, pra dizer o mínimo. É mais do que lamentável que essa conduta coloque em risco a própria instituição, na medida em que enfraquece sua credibilidade. Mas é o que é. Toffoli e Nunes Marques devem explicação por suas condutas individuais também. E Mendonça vai precisar prestar contas da condução e dos vazamentos do caso”. A análise completa no Cá entre Nós. (Meio)

A crise deflagrada pelo avanço de Mendonça contra Moraes atravessa o Judiciário, contamina o Executivo e reconfigura o tabuleiro eleitoral a um mês do pleito. No Meio Político desta semana, exclusivo para assinantes premium, Creomar de Souza analisa esse momento sem precedentes na Nova República e avalia quem pode ou não se beneficiar eleitoralmente do caos. Faça agora uma assinatura premium e receba o Meio Político hoje, às 11h."

Link principal: https://www.canalmeio.com.br/wp-content/uploads/2026/09/pet16662_relatorio_pf_celular_vorcaro_moraes_gonet_andrei_barci.pdf?utm_source=meio&utm_medium=email  

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PRA: Não sei que resultado terão todas essas notícias, mas temo, como já aconteceu inúmeras vezes, que todos os importantes personagens citados atravessarão incólumes a presente borrasca, que no entanto, pode ter importantes repercussões eleitorais. Suspeito que a consequência possa ser uma viragem à direita das eleições, ou até o desalento geral do eleitorado em relação à classe política e aos poderosos da nossa República tão desacreditada pelos seus próprios guardiões.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Novo livro: Economia política das constituições brasileiras: seu impacto nas relações econômicas internacionais - Paulo Roberto de Almeida (ElivaPress)

 

 

Economia política das constituições brasileiras: seu impacto nas relações econômicas internacionais


        O foco central deste livro é essencialmente o impacto das constituições no itinerário econômico da nação, marcado por uma presença significativa do Estado na organização econômica da sociedade e nas inconstâncias de nosso desenvolvimento econômico. O Estado brasileiro, em suas diversas configuração, precede a nação e, de certa forma, ele a cria, a molda e a organiza. O centralismo ibérico foi preservado na institucionalidade estabelecida pelos primeiros mandatários, depois adaptada às peculiaridades da terra e do povo, como definido desde cedo pelos liberais conservadores das Regências e do Regresso, ao início do Segundo Reinado. 
        O primeiro centenário da nossa primeira Carta constitucional, em 1924, não foi devidamente comemorado, provavelmente porque se queria esquecer a monarquia. As constituições de 1934 (derivada de uma Constituinte corporativa), foi seguida pela imposta em 1937, inaugurando a ditadura do Estado Novo. A de 1946, votada democraticamente por uma Constituinte, foi “reformada” em 1961, para a introdução do parlamentarismo, mas logo revertida ao presidencialismo por um plebiscito em 1963. O golpe de 1964 a desfigurou mediante atos institucionais, até ser substituída pela de 1967, ela própria emporcalhada por um ato adicional autoritário em 1969. 
        A Carta democrática de 1988, que vem sendo acrescida de inúmeras emendas, é a mais prolixa de todas elas, o que é justamente a razão de tantos acréscimos puramente circunstanciais, quando não oportunistas; não é um exagero dizer que a maior parte desses acréscimos objetivam “redistribuir” os recursos duramente amealhados pelo Estado, seja concedendo novos “direitos” à cidadania, seja criando favores para grupos privilegiados. Elaborar e reformar constituições parece ser uma constante na história política do Brasil. Todas elas produziram impactos significaticos na vida econômica nacional e na inserção econômica internacional da nação. Este livro aborda todas essas questões.
   

Índice

 

Apresentação:

As constituições e as relações internacionais do Brasil

 

1. A representação política no Brasil até a Constituição de 1824 

1.1.              Uma longa tradição de representação política

1.2.               O controle da metrópole

1.3.               A tradição liberal de Cádiz chega no Porto

1.4.               O nascimento do federalismo

1.5.               Um parlamentarismo “presidencialista”?

1.6.               Monarquistas “republicanos”?

1.7.               Uma divisão de poderes sui generis

1.8.               O imperador dissolve a primeira Constituinte

1.9.               A primeira insurreição contra a Constituição outorgada

 

2. Formação do constitucionalismo luso-brasileiro no século XIX 

2.1. As grandes datas da evolução constitucional na Europa e nas Américas

2.2. Pré-história da Revolução do Porto de 1820: a Constituição de Cádiz (1812)

2.3. O mundo restaurado e novamente turbulento: ascensão do liberalismo

2.4. O processo liberal português e suas consequências no Brasil: nova colonização?

2.5. A constituição liberal portuguesa de 1822 e as consequências para o Brasil

 

3. Da Constituinte de 1823 à Constituição de 1824: aspectos econômicos

3.1. No Brasil, as receitas seguem as despesas, não o contrário

3.2. A Constituinte de 1823 e o seu “pai fundador”: Antonio Carlos Ribeiro de Andrada

3.3. A economia política do projeto de Constituição de 1823

3.4. A Constituição Política do Império do Brasil: seus aspectos econômicos

3.5. Uma economia comandada pelo gasto público, não pela poupança ou investimento

 

4. A economia nas constituições brasileiras, de 1824 a 1946 

4.1. A interpretação econômica das constituições

4.2. A estrutura constitucional do império liberal escravista

4.3. A República aprofunda a intervenção do Estado na economia

4.4. A União e os estados na repartição do bolo tributário

4.5. O estatismo e o nacionalismo nascentes na Constituição de 1891

4.6. O nacionalismo econômico é constitucionalizado a partir de 1930

4.7. Intervencionismo econômico constitucionalmente assegurado em 1937

 

5. Uma interpretação econômica das constituições (1986)

5.1. A constituição como instrumento econômico

5.2. A representação dos interesses na experiência de 1946

5.3. A elaboração do processo constituinte de 1987-88

5.4. A “economia política” da Constituição na perspectiva de 1987

 

6. As relações internacionais na ordem constitucional de 1988  

6.1. Constituição e sociedade no Brasil

6.2. Relações exteriores e Constituição

6.3. A Experiência histórica brasileira

6.4. As relações internacionais na nova Constituição

6.5. Implicações para a política externa do Brasil

 

7. Análise crítica do conteúdo econômico da Constituição de 1988

7.1. Introdução: sobre mudanças de regime econômico

7.2. Mudanças de regime econômico no Brasil contemporâneo

7.3. A Constituição de 1988: um novo contrato social para o Brasil?

7.4. O que a Constituição promete, e o que ela produz, na realidade?

7.5. A Constituição “cidadã”: distribuindo bondades para todos

7.6. A Constituição “estatal”: reduzindo o espaço da livre iniciativa

7.7. A Constituição “parlamentar”: muitos privilégios, baixa produtividade

7.8. A Constituição “econômica”: equívocos em cadeia

7.9. A Constituição dos “direitos sociais”: sem qualquer análise dos custos

7.10. Uma Constituição economicamente esquizofrênica

 

8. A Constituição e a integração regional  

8.1. Um país voltado para si mesmo

8.2. Uma vocação integracionista, a despeito de tudo

8.3. Supranacional vs. intergovernamental

 

9. Brasil: um país de ponta-cabeça? Sobre as propostas de Modesto Carvalhosa 162

9.1. O Brasil de ponta cabeça?

9.2. Como ficamos de pés para cima?

9.3. Como fazer o Brasil apoiar-se sobre os seus próprios pés?

9.4. O que nos diz a história sobre o papel dos municípios na administração do Brasil?

9.5. O diferencial de produtividades como indicador crucial de desenvolvimento

9.6. Um manual para colocar o Brasil sobre os pés, a partir de Modesto Carvalhosa

9.7. Há salvação para o Brasil com seu atual sistema político? A regeneração pela base

 

Referências bibliográficas 

Apêndices

Nota sobre o autor  

Livros de Paulo Roberto de Almeida   

 

O império se apossa dos recursos petrolíferos da Venezuela, assim como quem não quer nada e chega mandando... - Bloomberg News

 O império chega na Venezuela para dar ordens, não para negociar um acordo de investimentos. Ele desembarca para dizer como vão ser explorados os recursos petrolíferos do país, sem nenhuma consulta ao povo do país, sequer aos seus representantes legais, se eles de fato existem.
Um pouco como os piratas chegavam nos portos do Caribe, saqueavam e depois se retiravam. Só que desta vez, os piratas não vão partir, eles ficarão.
Se alguém quisesse fazer um roteiro de filme sobre o colonialismo, os dados já estão dados. PRA

Bloomberg News, Sept 1, 2026:

Welcome to Balance of Power, bringing you the latest in global politics.

US Energy Secretary Chris Wright is due in Caracas today, where he is expected to announce a series of oil deals.

His visit follows a blizzard of activity that suggests President Donald Trump is tightening his grip on Venezuela’s crude reserves for America’s benefit.

On Friday, Trump announced the “biggest oil deal in world history,” saying the US had secured control over more than 65 billion barrels of Venezuelan reserves.

He said the arrangement would more than double US oil reserves and in turn lower gasoline prices — a core voter concern as November’s midterm elections approach.

The deal carries more than a whiff of imperial intervention at a time when Trump is clear about wanting to assert greater US control over Latin America.

Venezuela’s acting president, Delcy Rodríguez, said the nation would retain sovereignty over its resources, and the projects could attract more than $100 billion of investment and generate double that for the state.

She cast the accord as a way to turn its vast underground reserves into “well-being, prosperity and happiness” for its people.

Happiness, however, is subjective.

The US push appears to be driven more by Washington’s priorities than developments inside Venezuela.

The Trump administration is keen to demonstrate political wins ahead of midterm elections with the president’s ratings at a low following the unpopular war in Iran and its impact on affordability.

While it will take time to ramp up Venezuelan oil production, the administration is betting that expectations of future supply can help put downward pressure on prices now.

Even if the impetus is coming from Washington, the consequences will be felt in Venezuela.

The deal may strengthen Rodríguez by giving the US a greater stake in her administration’s continuity.

Opposition figures have questioned whether an interim government has the legitimacy to commit Venezuela’s most valuable assets to long-term agreements. Government loyalists meanwhile see the pacts as a betrayal.

By pushing to lock them in, Trump has achieved an unusual convergence of anger in Venezuela.

 

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

O bobo da corte e o freio nos dentes (Executivo Fraco, Legislativo Forte, STF politizado) - Marcus André Melo (FSP)

   O bobo da corte e o freio nos dentes

Marcus André Melo

Folha de S. Paulo, segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

No 'modo sobrevivência', a relação com a base parlamentar e com o judiciário engendra erosão institucional disruptiva

Não nos depararemos com a morte da democracia, mas com sua crescente degradação institucional

 

Na sabatina da TV Globo, durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou Bolsonaro de ter capitulado: "Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do centrão". Arrematando: "Bolsonaro parece um bobo da corte, não controla o Orçamento".

A frase retornou como um bumerangue. Hoje, é o próprio Lula quem se vitimiza como refém de um Congresso que capturou o Orçamento. O que, sob Bolsonaro, era descrito como incapacidade pessoal passou, sob Lula, a ser apresentado como patologia institucional.

A revista The Economist acaba de publicar matéria intitulada: A grande democracia em que os parlamentares são mais poderosos que o Executivo. A revista parte de um paradoxo. Na última década, candidatos a autocratas, dos Estados Unidos à Turquia e à Índia, acumularam poder por meio do chamado executive aggrandizement: a expansão unilateral do Executivo em detrimento das instituições encarregadas de controlá-lo, sobretudo o Legislativo.

Mas isto não é novidade para os leitores desta coluna. Como argumentamos em 2024, em "Por Que a Democracia Brasileira Não Morreu?" (Cia. da Letras), escrito em coautoria com Carlos Pereira, o Brasil seguiu na direção contrária, o presidente perdeu poder para o Congresso e também para o Judiciário. O desequilíbrio teria chegado a tal ponto que os parlamentares e o mundo dos negócios já não parecem se importar muito com quem vencerá a eleição presidencial: qualquer que seja o eleito, será obrigado a capitular diante dos demais poderes.

A inversão histórica é extraordinária. O Executivo brasileiro já foi descrito como superpoderoso e majestoso. Em "His Majesty the President of Brazil", publicado em 1936, o diplomata britânico Ernest Hambloch descreveu o Congresso como "destituído de poderes vis-à-vis o Executivo" e os tribunais como "invariavelmente flácidos, dependendo demasiado do Executivo que os nomeia". O presidente da República conservava poderes quase imperiais.

Mas o poder formal da Presidência nunca contou toda a história. Ao examinar a crise do governo Vargas, em "Razões da Crise", de 1954, Hermes Lima —ex-membro do gabinete presidencial e ex-membro do STF— identificou a condição política da hegemonia presidencial: "Se o presidente é dotado de forte personalidade e seu partido conta com maioria no Congresso, o Executivo, já poderoso pelo seu caráter unipessoal, impõe de forma avassaladora sua vontade. Se o presidente é fraco, o Congresso toma o freio nos dentes".

Escasso poder partidário é só parte da explicação, como mostrei aqui. Apoio parlamentar se constrói com liderança e capacidade de gestão. No que chamo de modo sobrevivência, a construção de base parlamentar e a relação com o Judiciário tem sido pouco republicana. O resultado não é a morte da democracia através de autogolpe, mas a deterioração institucional dos três Poderes.

Isso não torna equivalentes um autocrata que captura as instituições, um Congresso que abocanha o Orçamento, ou tribunais que abusam de poder. O primeiro ameaça a sobrevivência da democracia; o segundo produz corrupção, irresponsabilidade fiscal e paralisia decisória; o terceiro, a perda de legitimidade e degradação institucional.

 

 

Um diplomata, um General e o Febeapá - Sergio Florencio

 Sergio Florencio deixa a geopolítica de lado e nos faz rir em torno das agruras de um general no comando de uma embaixada:


Um diplomata, um General e o Febeapá

Sergio Florencio 

 

Acolhida

Era manhã de segunda feira do ano de 1972. Um jovem diplomata de vinte e sete anos tinha chegado a Georgetown no dia anterior.  Foi se apresentar ao Embaixador - um General linha dura, ex- Comandante do Primeiro Exército, no Rio de Janeiro.

-Que dia você chegou?

-Ontem à tarde.

-E por que não me ligou? Sabia que era sua obrigação me ligar?

-Sim, sabia. Era domingo. Devia estar com a família. Não quis incomodar.

-Isso não é explicação.

-E onde está hospedado? Park Hotel?

-Não. O taxista, que me trouxe do Aeroporto, sugeriu outro hotel. Bem próximo do Park Hotel, mais divertido, mais barato, e também com piscina.

-E que hotel é esse?

-Happy Days Hotel.

-Isso não é hotel. Isso é um puteiro!

-Que pena. Não sabia.

-Está fazendo gracinha?

-Não. Fiz um comentário.

-Pode se retirar.

 

Pedro II Condenado

Foi assim o amigável primeiro encontro com o General – Embaixador, que dirigia a Embaixada como comandava um quartel. Logo nos primeiros dias soube que brigou com um Oficial de Chancelaria (Ofchan) porque esse elogiou o Colégio Pedro II, onde havia estudado. O General replicou que o melhor ensino do Brasil era no Colégio Militar, e podia provar, porque lá estudou desde o CAD -Curso de Admissão até ingressar na AMAN – Academia Militar das Agulhas Negras. O Ofchan ficou calado. O General, de índole assertiva, não acreditava no ditado popular “quem cala consente”. Exigiu definição. Silêncio. A partir o Ofchan daí virou desafeto.

 

Yogue na praça

 

Outro funcionário do quadro do Itamaraty era um divertido Assistente de Chancelaria, cargo administrativo logo abaixo de Oficial de Chancelaria na hierarquia. Negro, baixinho, magrinho, muito espirituoso, tinha a Yoga como religião.  O General não gostava nada daquele sorriso irônico de Daniel. Devia pensar que escondia sarcasmo contra sua autoridade, no que não deixava de ter alguma razão.

Mas tudo ia bem para o lado do Daniel até um incidente fortuito na praça em frente à Embaixada. Um amigo guianense do nosso funcionário pediu que ele demonstrasse umas posições de Yoga. Daniel explicou que era preciso estar num recinto mais reservado. O amigo insistiu,  Daniel resistiu mas acabou cedendo ao pedido. Ficou ereto, de cabeça para baixo, durante um bom tempo no centro da praça pública. Parecia um poste, era o homo erectus.  Mas o exercício físico-espiritual coincidiu com o olhar militarizado do General-Embaixador.  Chegou perto de seu funcionário, deu um grito “Componha-se!” De cabeça pra baixo, Daniel levou um susto do outro mundo, quase caiu, misturou Yoga com contorcionismo e se postou diante do General indignado, agressivo com a conduta indigna de um subordinado.  A partir dali conquistou a antipatia do chefe.

A primeira vez que conheci Daniel, meu grande amigo até hoje, ele sorriu e disse que queria fazer uma pergunta fundamental sobre meu currículo. Comecei a rir com aquele início inesperado de conversa. Ele estava sério, e acrescentou, pausadamente. É a pergunta mais importante para quem trabalha nessa Embaixada.

-Você estudou no Colégio Militar?

- Não, disse eu.

-Tá ferrado, Secretário. Você entrou no Quartel errado!

Ri muito. Algum tempo depois, me lembrei daquela música “O que dá pra rir dá pra chorar”. Daniel tinha razão.

 

O Presidente de pijama

 

Comecei a fazer o trabalho burocrático da Embaixada e a participar das reuniões do General com autoridades locais e com outros embaixadores. Quando saiamos de um coquetel com a presença do Presidente da República, entrávamos no carro oficial, dois comentários eram recorrentes.

-Esses negros não têm vergonha. Viu como o Presidente do país estava vestido? De pijama! Onde já se viu uma coisa dessas! Falta de compostura.

O pijama que ele mencionava, na verdade era o traje nacional da Guiana e de outros países do Caribe e da América Central - a famosa Goiabeira. Era uma espécie de blusa ou camisa, em geral branca, de manga comprida ou  curta, com diferentes rendas ou desenhos. Comecei a dar essa explicação óbvia, mas ele nem quis saber.

- Lá vem você, como seus coleguinhas, com essas explicações sem sentido. Para mim o Presidente estava de pijama! Um absurdo.

Outra cena muito comum era quando o General entrava no carro oficial e dava ordem para o motorista seguir para casa. “Home!” Olhava para mim e dizia sorrindo. “Viu como meu inglês tá bom!” Eu comecei a ver um certo humor no General.

Traduz, Pimentel!

 

Como Embaixador, o General era obrigado a oferecer jantar na Residência, em algumas datas nacionais. Nessas ocasiões, depois do jantar e dos drinks, os diplomatas ficavam conversando e com frequência passavam do horário estabelecido pelo General – rígidas 22 horas. Acontecia então algo inesperado para mim, recém-chegado a Georgetown, mas que virou uma espécie de Protocolo do General.

Aqui preciso interromper e explicar que, nos anos 1970, num país pobre como a Guiana, aparelho de ar-condicionado era objeto de luxo, muito caro, nem sempre acessível. A residência do Brasil não tinha ar-condicionado, era uma casa ampla, gostosa, com janelas enormes, justamente para trazer alguma brisa fresca. Janelas abertas era, a assim, obrigatório, sob pena de sujeitar diplomatas a suar o pão que o diabo amassou.  

Quando o antigo relógio de parede tinha seus ponteiros se aproximando das 22 horas, o General interrompia qualquer conversa, com qualquer convidado, e iniciava sua rotina nos jantares oficiais. Começava a fechar janelas. Contam as más línguas que a primeira vez que isso ocorreu, foi um alvoroço. Ninguém tinha observado o gesto inusitado do General. Todos continuaram conversando, muito depois do horário regulamentar das 22 horas. Convidados conversando, o General fechando janelas e a temperatura subindo, subindo. Um gramático diria aqui – era o gerúndio da canícula.  

Foi então que um diplomata mais atento descobriu a pólvora. Viu o General fechando janelas. Brincalhão, naquele calorão, falou aos amigos, sorrindo. “Vocês não entenderam nada. Era Ordem Unida à tropa. Bater em retirada!” A partir dessa noite, nos jantares na residência do Brasil em Georgetown, quando os ponteiros se aproximavam das 22 horas, o diplomata brincalhão circulava rapidamente dizendo. “Atenção! O Marechal Relógio deu ordens ao General. Retirar Tropa!”

Outro episódio muito revelador da irreverência autoritária do General ocorreu na data nacional brasileira, quando ele oferecia um jantar formal. Os pratos com os diversos tipos de comida foram servidos numa gende mesa central.  O General ficou postado na parte final da mesa e começou a notar alo que chamou sua atenção. Os convidados se serviam normalmente, mas quando estavam em frente de um prato, paravam, olhavam e seguiam em frente não se serviam. Era um prato brasileiro famoso – o Tutu de Feijão.

Aquela atitude de desprezo por um ícone da cozinha brasileira começou a ser sentido pelo General como uma rejeição a nosso país. Isso mexeu com seus brios nacionalistas. O jantar transcorreu em clima ameno, até que chegou a hora do discurso. O General falava em português e o Pimentel, diplomata brasileiro em Georgetown traduzia. Terminados os agradecimentos de praxe, o General entrou propriamente na substância, no sentido literal mesmo. Fez um entusiástico elogio ao Tutu de Feijão, desde sua origem – a Feijoada, prato rejeitado pelas elites, apreciados pelos escravos, até ganhar personalidade própria, apreciada pela sociedade brasileira, como Tutu de Feijão.

Tudo ia muito bem, no melhor dos mundos. Alguns convidados demonstravam visível surpresa com a origem antropológica da feijoada. Nasceu entre os escravizados, se transformou em iguaria das elites e, enfim, em prato apreciado pelo conjunto da sociedade.

Mas aquela era uma paz aparente. Submersa, havia uma rebeldia indignada com o desprezo dos convidados diante do nosso Tutu.

-Não posso deixar de manifestar minha crítica a todos vocês. Não posso aceitar o desprezo de todos diante do nosso Tutu. Vocês, que olharam para ele, provavelmente acharam muito feio e nem provaram, não sabem o que perderam.

Pimentel pediu para o General interromper a fala para a tradução. Inconscientemente, talvez quisesse desviar o foco do General que, naquela altura, estava fixado na crítica aos convidados. Nosso diplomata dourou a pílula. Não traduziu para o inglês o “desprezo pelo nosso Tutu”. Preferiu falar da “curiosa atitude de todos ao passar pelo prato de Tutu”. O General não falava quase nada de inglês. Mas achou estranho  o tom plácido do inglês de Pimentel. Esqueceu e continuou sua investida contra convidados já um pouco transformados em adversários ou rivais de um prato-símbolo de nossa nacionalidade.

-Vou dizer uma coisa a todos vocês. Com toda sinceridade.

Nesse momento, os convidados - acostumados com as boas maneiras e a  gentileza do tradutor amigo de todos – notaram nele um suspiro profundo e uma vermelhidão no rosto. O General continuou a Marcha da Sinceridade.

-Com toda sinceridade. Vocês não sabem o que perderam, meus amigos. Uma iguaria nacional! O Tutu é o manjar dos Deuses!

Mais uma vez, Pimentel pediu tempo para traduzir. Afinal, eram apenas elogios. Mas o General começou a atravessar o Rubicão.

-Noto que não consigo convencer vocês. Pois bem. Vou lembrar um ditado muito popular no Brasil. Só no Brasil! E vou fazer uma comparação do desprezado Tutu com personagem desse ditado popular. Meus amigos – o General nunca deu importância à flexão de gênero – o Tutu é como nossa Raimunda – feia de cara, mas boa de bunda.

Pimentel ficou atônito. Não podia acreditar no que estava ouvindo. O General parou de falar. O tradutor não entrava em cena. Até que veio uma Ordem Unida.

-Traduz, Pimentel!

Nosso diplomata só tinha uma certeza. Nunca traduziria, ao pé da letra, a barbaridade dita pelo General.  E começou a florear a bomba .

-We have in Brazil a very nice young lady called Raimunda. Like Brazilian black beans, she is very popular, very pretty and very nice.

O General não falava inglês. Mas sabia o significado de algumas palavras. Ouviu o nome da Raimunda, e logo em seguida palavras que conhecia, como popular, pretty e nice. Sentiu que nosso tradutor omitiu muita coisa.

-Traduz de novo, Pimentel. Acho que você não traduziu o que eu disse.

Lógico que o diplomata não ia peitar o General. Ele estava no comando, em seu território e tinha a faca e o queijo na mão. Sobretudo a faca, pensou. Tentou nova fórmula. Ampliou o texto, usou palavras menos óbvias. A esperança era enrolar o General e seu limitado inglês.

- Let me tell you a very curious Brazilian story about Tutu and Raimunda. Tutu is like Raimunda. I will repeat very clear to all of you, dear friends. Tutu is like Raimunda.

Nesse delicado momento da vida de um diplomata, Pimentel se lembrou de negociações na ONU. A persuasão pela repetição. A convicção pela repetição. E lá foi nosso tradutor, escanteado no ringue, vítima de soco no queixo de um irado General. Partiu para um blitzkrieg – muitas palavras, pronunciadas rapidamente, acompanhadas do refrão de agrado do Chefe. Tutu is like Raimunda.

-Our Ambassador said. Let me be very frank. And I repeat – let me be very frank. Our Ambassador said. Tutu is like Raimunda. And I repeat to you all. Tutu is like Raimunda. A handsome, good looking, wonderful lady, very representative of the beauty of a Brazilian woman. My ultimate message to you all, friends of our dear Ambassador, friends of Brazil, is the following. Tutu and Raimunda have so much in common, you can´t imagine the ultimate result of such deep identity. They both became symbols of a multi-cultural , multi-ethnic society, a mixed-race people. Tutu and Raimunda are a combination of black beans (Tutu) with a white woman (Raimunda). Our ambassador is very pleased with your presence here and thank you all. You made this celebration an unforgettable evening!

O General ficou silente por alguns minutos. Mas logo retomou o ataque.

- Pimentel, repete a tradução. Mas a tradução do que eu disse!

Naquele momento, um amigo uruguaio, muito versado em portunhol, juntou um pequeno grupo de diplomatas, e explicou em inglês.

-Vocês não entenderam o drama do querido Pimentel. O General está forçando nosso amigo a traduzir uma frase ultrajante. Nem vou repetir para vocês. E o General vai passar a noite repetindo. Traduz Pimentel! Mas eu tenho a solução salomônica. No inglês compreensível para o General, vamos repetir “Very well, Ambassador”. Em inglês menos compreensível, vamos acrescentar. “Pimentel. You are our hero”. Mais importante de tudo. Vamos começar a aplaudir um aplauso sem fim. Tão alto que vai silenciar o grito de guerra do General “Traduz de novo, Pimentel!”

Moral da história. A batalha do General com o diplomata terminou com efusivos aplausos e abraços entre todos. E a doce ilusão do General de ter vencido a guerra.

 

Reflexões do General no Febeapá

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