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quarta-feira, 2 de setembro de 2026

O mais importante escândalo da República: o banqueiro fraudador e suas extensas relações com os mandarins da República - canal Meio

Breve nota introdutória, PRA:  

Confesso detestar fofocas e lutas políticas, mas por vezes sou obrigado a – para cumprir um dos motivos de minha atuação como coordenador e executor de dois, principais, canais de comunicação sobre temas relevantes da vida nacional – postar informações da mídia nacional sobre justamente esses temas, que não são intelectuais, tampouco sobre assuntos de política externa e diplomacia, que são meus objetos preferenciais, e postar elementos de informação que são relevantes na vida nacional, como é o atual embate entre os grandes mandarins de nossa tão atormentada República, pois que seu impacto sobre a vida nacional E INTERNACIONAL do Brasil é suficientemente relevante para que eu NÃO passe ao largo da informação.
Eis a única razão para que eu transcreva agora o que acabo de ler no Meio, um canal de notícias de fontes diversas da mídia. PRA

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Meio: 2 de setembro de 2026:

Mendonça, Moraes e Gonet em guerra no caso Master

A crise iniciada no Supremo Tribunal Federal (STF) pelas investigações sobre o Banco Master se transformou em uma guerra aberta entre os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes e o procurador-geral da República, Paulo Gonet. No mesmo dia em que Mendonça tornou público um relatório da Polícia Federal que expôs uma incômoda proximidade de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro e defendeu levar o caso ao plenário do Supremo, Gonet reagiu pedindo a anulação da ordem que levou à produção do documento. Para o procurador-geral, Mendonça extrapolou suas atribuições ao determinar que a PF aprofundasse a investigação e identificasse o interlocutor de mensagens encontradas no celular de Vorcaro. A polícia concluiu que se tratava de Moraes. A manifestação coloca Gonet diretamente em confronto com Mendonça. O procurador-geral também aparece nas mensagens reveladas pelo relatório cuja nulidade agora pede. A decisão de Mendonça provocou forte reação nos bastidores do Supremo. Ele quer que os demais ministros do Supremo sejam obrigados a se posicionar sobre os fatos revelados pela PF. Caberá ao presidente da Corte, Edson Fachin, decidir se e quando o caso será levado ao plenário. (g1)

O relatório da Polícia Federal publicizado por André Mendonça aponta que Daniel Vorcaro recorreu a Alexandre de Moraes em busca de ajuda no auge da crise da instituição financeira. Mensagens extraídas do celular do banqueiro mostram pedidos para tentar impedir a liquidação do banco e o avanço das investigações. Durante um período de 13 dias, Vorcaro enviou mensagens em que perguntava como deveria agir para “desarmar” e “reverter” a situação e fazia apelos para “sensibilizar” autoridades. Segundo a PF, há suspeita de que o banqueiro tenha recebido orientações de Moraes. (Globo)

Em uma das mensagens, Daniel Vorcaro perguntou ao ministro Alexandre de Moraes se deveria deixar o Brasil dois dias antes de ser preso pela Polícia Federal. “Acha que segunda já tenho que estar fora?”, escreveu Vorcaro a Moraes em 15 de novembro de 2025. As mensagens mostram ainda que Vorcaro marcou encontros com Moraes nos dias que antecederam sua prisão. No dia 14, Vorcaro perguntou se estava “marcado amanhã lá em casa” e, minutos depois, confirmou um encontro para as 14h30. Na noite do dia seguinte, pediu uma nova conversa com Moraes, que poderia ser “bem rápida”. No domingo (16), véspera da prisão, avisou: “Já estou em voo, vou pousar 14:20 e irei direto praí, tudo bem?”. (Folha)

Moraes ficou revoltado ao saber que Mendonça havia determinado o aprofundamento das investigações que acabaram revelando suas conversas com Vorcaro. Moraes pediu uma conversa com o colega no STF, mas o encontro terminou em uma discussão ríspida e os dois quase chegaram às vias de fato. Durante a conversa, Moraes acusou o colega de direcionar as investigações contra ele. O tom subiu dos dois lados e, por pouco, a discussão não terminou em agressão física. (Metrópoles)

Vorcaro também era extremamente próximo de Paulo Gonet, com quem conversava por telefone e trocava mensagens por celular. Os contatos eram intermediados pelo advogado Ciro Soares. Em uma das conversas, Gonet chamou Vorcaro de “máquina” e disse sentir saudades do banqueiro. As mensagens também mostram que o procurador-geral aceitou um convite para uma degustação de uísque em Londres e pediu que o filho fosse incluído no evento. (Estadão)

O ex-ministro das Comunicações do governo Jair Bolsonaro, Fábio Faria, foi o responsável por aproximar Daniel Vorcaro de Alexandre de Moraes e participou da articulação de encontros entre o dono do Banco Master e o ministro do STF. Faria também aparece em conversas relacionadas ao contrato entre o Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. Em março de 2024, ele escreveu a Vorcaro: “O careca não pode atrasar”. Na sequência, a funcionária enviou o registro de uma transferência de R$ 3,42 milhões do Master para o escritório de Viviane. (CNN Brasil)

A investigação da PF ainda mostra que Alexandre de Moraes foi o responsável pela última modificação no contrato de cerca de R$ 130 milhões firmado entre o escritório de sua mulher e Vorcaro. A informação consta dos metadados do arquivo obtido pela Polícia Federal no celular de Vorcaro. Segundo relatório da PF, a “minuta de contrato” tinha como autor um usuário identificado como Guilherme Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, e registra a última modificação pelo usuário “Ministro Alexandre de Moraes”. (g1)

O escritório Barci de Moraes, aliás, firmou um segundo contrato de prestação de serviços com uma empresa ligada a Daniel Vorcaro, desta vez no valor de até R$ 50 milhões. Desse valor, R$ 40 milhões poderiam ser quitados com participações em duas empresas ligadas a aeronaves. Uma delas era proprietária de um avião Legacy 650. (CNN Brasil)

O Banco Master emitiu cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos de Alexandre de Moraes, em outubro de 2025. A emissão foi solicitada pelo escritório Barci de Moraes, comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. (Estadão)

Confira aqui o relatório da Polícia Federal na íntegra. (Meio)

Nos bastidores do Congresso, conta Leticia Casado, parlamentares discutem uma “saída honrosa” para que Moraes deixe o STF sem passar por um processo de impeachment. Uma das opções seria ele pedir aposentadoria antecipada em troca de não sofrer processo criminal. Fontes ligadas ao governo dizem que o melhor seria Moraes assumir um cargo em alguma instituição internacional e morar fora do país por um tempo. (UOL)

Em duros editoriais, Estadão e Folha pedem a renúncia de Moraes. Já o Globo defende que o STF deve exigir explicações do ministro.

Em outra frente do caso Master, reportagem da revista piauí revelou que, mesmo depois de Flávio Bolsonaro ter afirmado repetidamente que o último repasse de recursos de Daniel Vorcaro, supostamente pro filme Dark Horse, havia sido em maio de 2025, US$ 1,6 milhão foram enviados em setembro do mesmo ano, de acordo com documentos do Coaf. Com isso, o total conhecido até aqui do que foi enviado por Vorcaro para o filme de Bolsonaro sobe para US$ 12,2 milhões, ou R$ 65 milhões. Procuradoria, a assessoria do candidato disse “Isso não é com a gente” e sugeriu que o repórter procurasse a produtora do filme.

Malu Gaspar: “Em oito páginas e uma canetada apresentadas com rapidez atípica para seus padrões, Paulo Gonet declarou que nenhuma das provas apresentadas no relatório de mais de 200 páginas da PF vale para que se tome providências e se investigue Moraes. Como procurador da República, Gonet está se saindo um ótimo advogado de defesa”. (Globo)

Bela Megale: “A cerca de um mês das eleições, os magistrados que apoiam Moraes passaram a defender, nos bastidores, que as decisões de Mendonça sobre as mensagens trocadas entre Vorcaro e seu colega de corte teriam como pano de fundo ‘um feito político’. Em reservado, os ministros admitem que a situação é, no mínimo, ‘constrangedora’ para Moraes, mas afirmam que a melhor defesa do ministro é destacar que Vorcaro foi preso e que as investigações estão avançando a todo vapor”. (Globo)

Flávia Tavares: “Defender Moraes agora não é razoável, porque se trata de uma conduta individual que precisa ser explicada, pra dizer o mínimo. É mais do que lamentável que essa conduta coloque em risco a própria instituição, na medida em que enfraquece sua credibilidade. Mas é o que é. Toffoli e Nunes Marques devem explicação por suas condutas individuais também. E Mendonça vai precisar prestar contas da condução e dos vazamentos do caso”. A análise completa no Cá entre Nós. (Meio)

A crise deflagrada pelo avanço de Mendonça contra Moraes atravessa o Judiciário, contamina o Executivo e reconfigura o tabuleiro eleitoral a um mês do pleito. No Meio Político desta semana, exclusivo para assinantes premium, Creomar de Souza analisa esse momento sem precedentes na Nova República e avalia quem pode ou não se beneficiar eleitoralmente do caos. Faça agora uma assinatura premium e receba o Meio Político hoje, às 11h."

Link principal: https://www.canalmeio.com.br/wp-content/uploads/2026/09/pet16662_relatorio_pf_celular_vorcaro_moraes_gonet_andrei_barci.pdf?utm_source=meio&utm_medium=email  

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PRA: Não sei que resultado terão todas essas notícias, mas temo, como já aconteceu inúmeras vezes, que todos os importantes personagens citados atravessarão incólumes a presente borrasca, que no entanto, pode ter importantes repercussões eleitorais. Suspeito que a consequência possa ser uma viragem à direita das eleições, ou até o desalento geral do eleitorado em relação à classe política e aos poderosos da nossa República tão desacreditada pelos seus próprios guardiões.

segunda-feira, 29 de julho de 2024

A ditadura chavista declarou vitória na base da fraude e da intimidação (Canal Meio)

 A fraude é acintosa. O Brasil deve se preparar para mais uma onda de emigrados venezuelanos. (PRA)

Maduro declara vitória e esconde boletins de urna


Canal do Meio, 29/07/2024

O governo de Nicolás Maduro declarou vitórianum pleito em que todas as pesquisas apontavam uma derrota em grande escala. A pesquisa de boca de urna do Edison Research, feita a pedido do Wall Street Journal, sugeria que o ex-embaixador Edmundo González Urrutia venceria com 64% dos votos contra 31% de Maduro. O resultado é contestado pela oposição por falta de transparência e suspeita de fraude. Na madrugada desta segunda-feira, o chefe do Conselho Nacional Eleitoral (CNE), Elvis Amoroso, um aliado próximo de Maduro, anunciou a vitória do presidente quando, afirmou, 80% dos votos já estavam apurados. Segundo ele, Maduro tinha 51,2% dos votos, contra 44,2% de seu principal rival. A frente de oposição venezuelana alega fraude generalizada na contagem e prometeu contestar o resultado. Ela se uniu em torno de González para destituir Maduro após 11 anos no poder. “Estamos orgulhosos do que fizemos. Vamos lutar pela verdade para que prevaleça o respeito à soberania do povo venezuelano”, disseem entrevista coletiva a líder da oposição, María Corina Machado, impedida de disputar o pleito. (BBC)

Com 21 milhões de eleitores aguardados nas 30 mil mesas de votação, as eleições tiveram grande comparecimento, com extensão de até três horas do horário em várias zonas eleitorais devido às longas filas. A oposição denunciou que o CNE paralisou a transmissão de dados de diversos centros de votação e que testemunhas foram impedidas de obter os boletins de urna que certificam os votos em cada centro. Enquanto opositores faziam vigília na porta dos colégios eleitorais, esperando os boletins, forças de segurança do governo e os temidos coletivos chavistas percorreram as ruas de Caracas e do interior tentando afastá-los. O chamado para que as pessoas permanecessem na porta dos centros de votação foi motivado pelo temor de fraude eleitoral. (NTN24)

Vídeos nas redes sociais mostram episódios de violência após o fim da votação na cidade de San Antonio del Táchira e também em Guásimos. Há suspeita de que um jovem tenha sido assassinado por disparos de um coletivo chavista. Na mesma cidade, onde vivem 50 mil habitantes, houve confronto quando uma equipe de militares parecia recolher os dados de uma zona eleitoral. Antes do resultado ser anunciado, González chegou a cantar vitória em seu perfil no X: “Os resultados são inocultáveis. O país escolheu uma mudança em paz”. Em quase todos os levantamentos, a vantagem de González sobre Maduro era de 20 a 35 pontos percentuais. Nenhuma dessas pesquisas pôde ser divulgada dentro da Venezuela. (Meio)

Daniel Lozano: “Mesmo em redutos chavistas como o bairro 23 de Janeiro, território dos grupos paramilitares onde Hugo Chávez votava, Edmundo González venceu Nicolás Maduro. Porém mais uma vez o chavismo construiu a sua própria realidade a sangue e fogo, determinado a desconsiderar a vontade do povo. Antes mesmo de as autoridades eleitorais o anunciarem, diversos porta-vozes chavistas garantiram sem corar que Maduro tinha confirmado o seu terceiro mandato.” (La Nación)

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

Que liberalismo é esse? - Pedro Doria (Canal Meio)

 Pedro Doria pode ter efetivamente razão, mas a verdade é que esses jogos conceituais só ocupam mesmo os acadêmicos, pois os verdadeiros agentes da política e da economia não dão a mínima para conceitos: ele só querem mesmo defender seus interesses, indiferentes a esses rótulos!

Paulo Roberto de Almeida 


QUE LIBERALISMO É ESSE?


POR PEDRO DORIA

Canal Meio, 20/10/2022

https://www.canalmeio.com.br/notas/que-liberalismo-e-esse/

O liberalismo brasileiro cindiu, nesta eleição de 2022, de uma maneira como jamais havia ocorrido antes. A maior mostra deste movimento talvez seja a maneira como dirigentes do Partido Novo reagiram à declaração de voto, pelo seu fundador João Amoêdo, no ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. “A declaração é uma traição aos valores liberais”, escreveu Felipe D’Ávila, candidato à presidência do Novo este ano. “Amoêdo, pega o boné e vai embora.” O presidente da legenda foi no mesmo tom. “Vergonhosa, constrangedora e incoerente a declaração de voto”, afirmou Eduardo Ribeiro. Amoêdo, porém, não está sozinho. Declararam voto em Lula Pérsio Arida, Pedro Malan, Edmar Bacha, Armínio Fraga, Elena Landau, José Roberto Mendonça de Barros, Henrique Meirelles. Ao passo que inúmeros, na Faria Lima, gritam que a dupla Jair Bolsonaro-Paulo Guedes são os únicos capazes de tocar um projeto liberal no Brasil. “Hoje sou um liberal”, declarou à Veja o próprio Bolsonaro faz duas semanas.

Isto é novo no cenário político da Nova República. Se pessoas que se dizem liberais votam tanto em Lula quanto em Bolsonaro porque veem no adversário incompatibilidade com o liberalismo, algo fica evidente. Estão chamando pelo mesmo nome ideologias muito diferentes.

A confusão não é nova. A eleição de 2022 apenas a tornou evidente. Meu companheiro neste espaço, o cientista político Christian Lynch, os distingue chamando uns de liberais-democratas e, os outros, de neoliberais. José Guilherme Merquior os dividia de forma mais direta. Liberais de um lado, liberistas do outro. Uns defensores da liberdade no sentido mais amplo da palavra, outros focados apenas em liberdade econômica. A diferença entre os dois grupos não é pequena mas se tornou mais aguda, principalmente na América Latina, após os anos 1980.

Neste momento de risco à democracia, é bom que se separem para nunca mais se encontrarem.

Mas antes é importante fazer a distinção entre as duas visões de mundo — e poucos o fazem melhor do que o cientista político Michael Freeden, professor emérito de Oxford. Porque uma ideologia tão antiga e longeva quanto o liberalismo, nascida com a publicação de Uma Carta sobre Tolerânciade John Locke, em 1689, não poderia atravessar mais de três séculos sem mudar profundamente e fazer nascer muitas variantes.

Freeden não vê um único liberalismo — vê gerações de filósofos refletindo sobre seus tempos, sociedades, e reagindo às dificuldades e questões que apareciam. Foram, assim, depositando camadas de novos valores e ideias, por vezes ignorando o pensado antes, noutras recuperando o que havia se perdido. Ao todo o liberalismo, em sua descrição, foi construído uma camada após a outra ao longo dos séculos. Ao final são cinco camadas, nem sempre coerentes entre si, mas bem ou mal alicerçadas pela busca dos mesmos de princípios.

A primeira, a raiz de todas, é movida pelo impulso de ser contrário a qualquer forma de tirania. É a âncora que garante a toda pessoa, todo indivíduo, um espaço em que sua liberdade pessoal seja garantida. A liberdade de se expressar, de tomar parte no debate sobre a política, e agir sem medo de sofrer consequências pelo que pensa. Esta liberdade, Locke já via desde o início, teria inevitavelmente de ser limitada pela liberdade do outro.

É deste liberalismo mais base que nasce o instinto de formar um Estado a partir de uma Constituição na qual todos serão iguais perante a lei.

A segunda camada, que surge já com os primeiros movimentos da Revolução Industrial, trata da liberdade econômica. É o liberalismo de Adam Smith e David Ricardo. Conforme os mercados globais começam a se abrir, ainda num ambiente de governos absolutistas, o direito de poder negociar salários e determinar preços de produtos sem que o Estado se envolva começa a ser cobrado. A crença no trabalho individual, honesto, que leve ao crescimento econômico da pessoa e, assim, da nação, passam a ser defendidos com argumentos sólidos e lógicos. No entorno desta ideia surge o contrato entre duas pessoas ou empresas com valor perante a Justiça. Aquele Estado de Locke passa a ser, também, um garantidor destas relações privadas.

A partir de meados do século 19, quando a miséria que acompanhou a industrialização se tornou evidente, mais uma vez o liberalismo mudou seu foco, puxado por um de seus pensadores mais importantes — o inglês John Stuart Mill. Esta terceira camada não se opõe ao livre comércio, mas já não o vê mais central. A prioridade se torna liberar o potencial do desenvolvimento de cada pessoa. Se a primeira camada do liberalismo dizia “deixa eu ser quem sou”, esta terceira proporia “deixa eu crescer tanto quanto posso”. Há um sentido de igualdade de oportunidades e a busca por um Estado que garanta as condições para que todos possam encontrar seu melhor. O mercado já não é mais um de bens — o mercado torna-se uma metáfora para explicar as dinâmicas de como circulam ideias, valores, mesmo pessoas.

É daí que surge, na virada para o século 20, o que os ingleses batizaram de Novo Liberalismo — um que ressaltava interdependência dos indivíduos em sociedade. Por mais que existam direitos individuais, todos dependemos uns dos outros até para que possamos garantir os mesmos direitos individuais. Os agentes do Novo Liberalismo são os principais promotores da criação de uma teia de proteção social que incluísse seguro desemprego, aposentadoria, saúde pública, alimentação gratuita nas escolas. Para que a pessoa seja realmente livre é preciso garantia de dignidade para todos, diziam. Se as camadas anteriores viam indivíduos e o Estado, esta quarta camada incluiu um terceiro elemento na dinâmica. A sociedade.

Da segunda metade do século passado para cá, economistas, juristas e filósofos do liberalismo vêm criando sua quinta camada, observando que as relações humanas em sociedades livres se tornaram bem mais complexas do que se poderia imaginar. Grupos de interesses se formam normalmente para disputar suas pautas, e seu espaço deve ser garantido. Estes grupos — partidos, sindicatos, entidades de classe, igrejas, mais recentemente ONGs — todos disputam a palavra no debate e poder de ação, e nenhum deve ter seu monopólio. Uma sociedade liberal, portanto, deveria ser capaz de garantir não apenas o ambiente para livre manifestação e relação entre indivíduos, mas também entre estes grupos.

É neste momento em que pensadores como o Nobel indiano Amartya Sem florescem. Ou o americano John Rawls.

Hoje, novos debates chegam à pauta, como o da questão identitária, quando grupos se organizam na sociedade não ao redor de interesses econômicos ou no entorno de ideias, mas pelo que consideram uma identidade comum. O multiculturalismo, talvez inevitável com a ampliação daquele velho desejo liberal das fronteiras abertas, cria novas tensões e certamente, nas próximas décadas, uma sexta camada será adicionada à mais antiga das tradições de pensamento político em democracias. O liberalismo ainda não produziu um pensamento coeso sobre como lidar com as novas tensões que surgem.

As cinco camadas do pensamento liberal descritas por Michael Freeden são todas relacionadas, todas se encontram nos princípios essenciais da liberdade individual observados por Locke. Mas, a respeito dos inúmeros aspectos do pensamento liberal, temas diversos foram colocados com maior ou menor ênfase dependendo da época ou do lugar. E, ainda assim, todas estas camadas compõem a mesma tradição do que a ciência política engloba nesta palavra: Liberalismo.

Cada liberal constrói o seu liberalismo com as peças disponíveis nas prateleiras do pensamento passado, seguindo o mesmo princípio de pesar as ênfases. Os limites são sempre claros. Um presidente da República intolerante não representa aquilo que o autor de Carta sobre Tolerância pensou.

Se o presidente não tolera diversidade entre pessoas, se fala em extermínio de parte da oposição, se a atuação privilegia uma igreja sobre outras, então não descende de Locke.

Não é liberal. É iliberal.

Ou, como escreveu no Twitter Michael Reid, colunista de Américas da revista The Economist, “nenhum liberal de verdade pode achar que Bolsonaro, que não aceita restrição ao poder, é menos ruim que Lula”. Reid escreve para a revista que é o bastião do pensamento liberal britânico faz quase dois séculos e respondia ao ataque de Felipe D’Ávila a Amoêdo. “Você tem todo o direito a sua opinião mas representa qualquer coisa menos o liberalismo.”

Se não é liberalismo, o que é isso que D’Ávila, Paulo Guedes, os parlamentares ainda eleitos do Novo, empresários como Luciano Hang e Salim Mattar, e um bando de gente na Avenida Faria Lima chama por este nome? O que é isto que Christian Lynch chama de neoliberalismo em distinção ao liberalismo-democrático e Merquior batizou liberismo em contraste com liberalismo?

De volta a Michael Freeden. Há duas razões políticas para chamar de liberalismo o que não é liberalismo. Parecem contraditórias entre si mas, na verdade, são complementares. Uma parte de pensadores marxistas e militantes de esquerda, em geral, cujo objetivo é reforçar uma caricatura hostil do liberalismo. A outra vem do outro flanco, da direita, para empurrar um pacote de ideias impopulares como se fossem benéficas. A direita quer se beneficiar da marca. A esquerda pretende detrata-la. Ambos os grupos se beneficiam do mesmo movimento. O jogo de um interessa ao outro. E, na sua ação, ambos sufocam o espaço do real liberalismo.

No neoliberalismo, no liberismo, as esferas social, política e cultural são todas subordinadas ao mercado no sentido estritamente econômico do termo. O Estado serve apenas como garantidor dos fluxos contínuos de capitais e produtos, o que fere de morte a ideia essencial de Locke de que todo poder deve ser limitado. De que pessoas não podem ser oprimidas. Esta ideologia pode lembrar, à primeira vista, uma versão pura da segunda camada do liberalismo, como se a primeira jamais tivesse existido. Mas não há Adam Smith e David Ricardo sem John Locke, o Barão de Montesquieu ou Voltaire. Smith era profundamente tocado por valores humanistas. Escreveu A Riqueza das Naçõese escreveu, também, a Teoria dos Sentimentos Morais, quando reflete sobre a mútua busca por simpatia nas relações entre pessoas. Na busca por respeito entre pessoas. E mesmo quando escrevia sobre economia, assim como Ricardo, eles pensavam não nas relações entre grandes corporações que produzem anualmente mais do que o PIB de meio mundo. Pensavam, isto sim, em negociantes, em gente procurando construir suas vidas. Havia uma missão ética no pensamento de ambos com uma única direção: a construção de uma sociedade justa.

“Uma das principais características do conservadorismo é a crença nas origens extra-humanas da ordem social”, escreve Freeden. Ideologias não são conjuntos estáticos de ideias. São como linguagens. Partem de uma ideia forte — a liberdade, para o liberalismo, ou o conflito de classes, para o marxismo — e vão se adaptando aos momentos da história. A ideia forte do conservadorismo é esta, a de que a ordem social não é uma construção humana. É algo que está além do controle das pessoas. Em certos momentos do passado, sua origem foi percebida como divina. Vem de Deus. Para este grupo, a ordem social é dada pelo mercado e mexer com o mercado é sugerir que pessoas poderiam intervir na ordem social.

Para o professor de Oxford, esta filosofia, este neoliberalismo ou liberismo ou o que for, não é uma vertente liberal. É a captura da linguagem do liberalismo para vender uma forma de conservadorismo.

No fim, o conservadorismo é uma ideologia a serviço da manutenção dos privilégios de um grupo perante outros. É assim desde a Revolução Francesa, quando protegia aristocratas. Na descrição do historiador das ideias alemão Jan-Werner Mueller, em essência o conservadorismo acredita que deve haver uma hierarquia social. A existência de desigualdade entre grupos é compreendida como parte da ordem natural.

É do jogo que se pense assim. Só não é liberal. De Locke, não vem.

Liberais são poucos, no Brasil. Por um bom tempo foi conveniente, politicamente, uma aliança com conservadores e tolerância com a captura do nome. Por um tempo, até, foi possível encontrar pontos de encontro nos pensamentos e evitar os muitos atritos. Ser liberal na economia, conservador nos costumes, virou até frase corriqueira. Como se fosse coerente.

Quando aquele grupo quer cruzar a linha da democracia, o rompimento não é apenas desejável. É imperativo. Já causou dano demais.


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