sábado, 18 de abril de 2026

A guerra de agressão da Rússia contra a Ucrânia entra numa fase decisiva - Google Alerts

 


Ukraine war
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Russia-Ukraine War: Putin Unleashes Hell On Ukrainian Cities, Launches Fresh Strikes In Odesa
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Russia-Ukraine WarLIVE: Putin Unleashes Hell On Ukrainian Cities In Mass Missile Attack Overnight
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Russian Offensive Campaign Assessment, April 16, 2026 | ISW
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Gilberto Freyre nas notas de rodapé do livro de André Heráclio do Rêgo: "O Século XIX na obra de Gilberto Freyre" - Paulo Roberto de Almeida

5283. “Gilberto Freyre nas notas de rodapé do livro de André Heráclio do Rêgo”, Brasília, 18 abril 2026, 9 p. Uma resenha insólita do livro de André Heráclio sobre Gilberto Freyre no século XIX brasileiro a partir de suas notas de rodapé. Texto disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165754155/5283_Gilberto_Freyre_nas_notas_de_rodape_do_livro_de_Andre_Heraclio_do_Rego_2026_) e divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/gilberto-freyre-nas-notas-de-rodape-do.html). Serviu para discussão no debate online promovido por Bruno Cerqueira, no canal “História do Brasil Como Você Nunca Viu”, dia 18/04/2026, 19:00hs, animado pelo historiador Bruno Cerqueira (link: https://www.youtube.com/live/SC_Wp9tGtS0?si=dd30tBNQ08QPpKjE  Relação de Publicados n. 1637.

In our latest work, we explore the footnotes of André Heráclio do Rêgo's book on Gilberto Freyre, offering a fresh perspective on Freyre's multifaceted contributions to Brazilian sociology and culture. We invite you to check out our insights and reflections, and we welcome any questions or thoughts you might have!​

Gilberto Freyre nas notas de rodapé do livro de André Heráclio do Rêgo

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre o livro de André Heráclio do Rêgo: O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República (2026); com base em suas notas de rodapé.
Apresentação em debate online no site de Bruno Cerqueira, “O canal História do Brasil Como Você Nunca Viu”, dia 18/04/2026, 19:00hs.

Ao preparar o prefácio para o livro de André Heráclio do Rêgo, O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2026), eu comecei por examinar a obra pelo seu final: index, bibliografia, obras de referência do autor-personagem, só então indo à substância da obra, uma releitura fenomenal de muitas obras do grande mestre pernambucano da sociologia brasileira (e da sua antropologia, da história, das relações internacionais, da culinária etc.), enfim, um polímata que ainda continuará a ser estudado, citado, contestado e confirmado por anos à frente, em toda a academia brasileira e do mundo cultural lusófono de maneira geral. Os interessados em ler esse prefácio, assim como alguns outros trabalhos meus sobre Gilberto Freyre (poucos, por sinal, praticamente nada), podem consultar este trabalho, onde reuni, em menos de duas dúzias de páginas, as poucas coisas que escrevi sobre ele, tendo o prefácio como derradeiro trabalho transcrito:
5281. “Eu e Gilberto Freyre, ou Gilberto Freyre e este modesto sociólogo”, Brasília, 15 abril 2026, 3 p. (Introdução), + 21 p. Consolidação de meus escritos em torno do grande antropólogo e sociólogo pernambucano. Introdução e transcrição dos trabalhos n. 918, 4436, 4915 e 5108. Disponível na plataforma acadêmica Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165703160/5281_Eu_e_Gilberto_Freyre_ou_Gilberto_Freyre_e_este_modesto_sociologo_2026_); divulgado via blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/eu-e-gilberto-freyre-ou-gilberto-freyre.html).

Gostaria de dar continuidade a essa prospecção em torno da interpretação de André Heráclio sobre uma parte da obra de Gilberto Freyre – a relativa à história do nosso século XX, numa perspectiva abrangente, a partir de trabalhos esparsos, não necessariamente as grandes obras pelas quais ele é conhecido –, mas dando atenção desta vez a uma espécie de resenha não comumente examinada nesse tipo de exame crítico (a não ser em grandes teses de doutoramento), pela via das notas de rodapé. Com efeito, falar de notas de rodapé, que remetem a obras citadas pelo autor do trabalho, consiste em examinar as leituras desse autor, as obras de referência de terceiros acadêmicos, que lhe serviram de suporte na construção de seus argumentos em torno da obra do personagem central, objeto do livro.
Essa consulta é facilitada pelo fato de a edição do livro de André Heráclio ter adotado a formatação contínua das notas divididas em seus sete capítulos: da página17, pela qual começa a Introdução de André Heráclio (duas notas pertencem ao meu Prefácio), elas se sucedem do número 3 até 530, na página 208, ou seja, 527 notas de rodapé. Desse número temos de descontar dezenas de idem, ibidem, que são repetições de notas e referências precedentes. Mas, vou seguir aqui os autores representativos da chamada “fortuna crítica” de Gilberto Freyre, aqueles intérpretes do mestre de Apipucos que estão todos referenciados nas páginas 218-220, que relacionam os 38 trabalhos, de aproximadamente 30 autores (alguns escreveram mais de uma obra (artigo ou livro) sobre Freyre. Antes dessa seção, cabe referir, ainda que sumariamente, as três páginas (215-217) das “Obras de Gilberto Freyre utilizadas”, e elas, listadas em ordem alfabética do título, são em um volume de 43, entre livros próprios, capítulos em livros coletivos (entre eles sua contribuição ao primeiro Livro do Nordeste, que ele mesmo organizou, editou e publicou na obra de 1925, em homenagem aos primeiros cem anos de vida do mais antigo jornal do Brasil e da América Latina, o Diário de Pernambuco), artigos em revistas e jornais (entre eles no bicentenário Diário, discursos e conferências.
É esse universo que aparece nas 190 páginas contempladas com duas, três, quatro notas de rodapés por página, das quais algumas não são citações, mas complementos substantivos aos argumentos do próprio André Heráclio na sua exposição abrangente sobre como Gilberto Freyre tratou, escreveu, descobriu, opinou sobre nosso desenvolvimento social, político, constitucional e até internacional do Brasil monárquico e do início da República. O uso crítico das obras dessas três dezenas de autores (para ser exato 32) oferecem um suporte intelectual de primeiríssima importância a uma obra que, dentro do universo “gilbertiano”, ou “freyreano”, constitui um empreendimento original e muito rico, pois que combina o uso das obras do próprio Gilberto Freyre – grandes livros e trabalho não centrais – e as análises conduzidas por especialistas conhecidos e outros autores menos evocados.
A partir das notas de rodapé – e da lista das obras referenciadas ao final – é possível constatar que André Heráclio não só leu e absorveu toda a obra de Freyre e sua produção em torno do século XIX brasileiro, mas também os trabalhos interpretativos e críticos de três dezenas de estudiosos, abundantemente citados em sua introdução, uma verdadeira summa exegética dos grandes gilbertianos, entre eles Peter Burke, Elide Rugai Bastos e outros. Eu me contentei com José Honório Rodrigues, em meu prefácio, assim como fiz duas referências obrigatórias a Evaldo Cabral de Melo e a Oliveira Lima – aliás ausente das referências bibliográficas do próprio André Heráclio –, mas o próprio autor abeberou-se nos mais importantes intérpretes da magna obra do grande mestre da sociologia brasileira.
O corpo do livro, em seus sete capítulos substantivos (ao longo de 170 páginas), é dominado obrigatoriamente pelas obras do próprio Gilberto Freyre, mas a introdução merece ser lida com atenção, pois ela representa uma excelente síntese sobre como a obra total de Freyre revolucionou não só a historiografia brasileira, bastante tradicional até os anos 1930, mas a própria metodologia da “microhistória”, da história familiar, dos costumes, dos hábitos sexuais, da cultura popular que passaria a influenciar, por exemplo, a Escola dos Anais e a historiografia francesa de modo geral a partir dessa mesma época. O início dos anos 1930 é justamente marcado pelas grandes obras “clássicas” sobre a formação histórica, política, social e cultural do Brasil, a do próprio Gilberto, com Casa Grande e Senzala (quando ele tinha apenas 33 anos), Caio Prado Júnior, com Evolução Política do Brasil (ambos de 1933), e Sérgio Buarque de Holanda, com Raízes do Brasil (1936); ao final dessa década, Caio Prado voltaria com Formação do Brasil Contemporâneo (1939), que o consagraria como o primeiro historiador reconhecidamente adepto do materialismo histórico marxista no Brasil.
Em sua Introdução, André Heráclio faz uma exímia utilização de três grandes autores “gilbertianos” por excelência: Peter Burke, Evaldo Cabral de Melo e Elide Rugai Bastos, ademais de vários outros menos recorrentes na bibliografia. Mas ele também cita muitos outros autores de capítulos em livros coletivos, vários deles centrados exclusivamente no estudo crítico das diversas obras de Gilberto Freyre, geralmente os grandes livros, o que não é o caso dos sete capítulos sobre o século XIX brasileiro na visão de Freyre, pois que neles André Heráclio percorre não só as suas grandes obras, mas dezenas de trabalhos ditos “menores”, por vezes circunstanciais, mas não menos importantes para a confirmação da genialidade do polímata pernambucano. Ele era um verdadeiro “touche à tout”, como diriam os franceses, o que é revelado pela diversidade de assuntos abordados nos sete capítulos legitimamente freyreanos, que se dedicam ao que diz o título do livro: o Brasil do século XIX tal como retratado e discutido na produção praticamente completa do mestre pernambucano.
Já no primeiro capítulo, dedicado ao “movimento da Independência” (p. 43-63), André Heráclio faz poucas referências às grandes obras, apenas uma a Casa-Grande & senzala, embora várias a Sobrados e mucambos – que é justamente a que cobre mais extensivamente a transição da velha ordem patriarcal para a sociedade urbana do século XX, mas começa por uma referência a uma conferência de 1976, na Câmara dos Deputados, a propósito dos 200 anos da independência americana. Nossa autor retorna, então, a um trabalho de 1972, no sesquicentenário da independência do Brasil, “A propósito do Grito do Ipiranga: uma interpretação sociológica”, para depois citar Evaldo Carvalho de Mello (sobre a Restauração pernambucana do século XVII), antes de recorrer a diversos trabalhos menos conhecidos do próprio Gilberto Freyre e a um outro grande especialista, Ricardo Benzaquen de Araújo, para terminar referindo-se ao antagonismo entre “brasileiros” e “portugueses”, já tradicional, mas exacerbado a partir da chegada da Corte, “pelo privilégio dado aos lusitanos recém-chegados ao Rio de Janeiro no preenchimento de cargos públicos” (p. 63).
O capítulo 2, sobre “O processo revolucionário” (p. 64-104), evidencia a mesma amplitude de leituras feitas por André Heráclio, com poucas referências aos grandes livros de Freyre, mas começando pela mesma conferência de1976, sobre o “Grito do Ipiranga”, e depois englobando uma série de obras de historiadores conhecidos, como Kenneth Maxwell, o inevitável Evaldo Cabral de Mello e Katia de Queiroz Mattoso (com quem André estudou em Paris), e várias citações retiradas de Sobrados e mocambos. Ele menciona evidentemente as conjurações baiana e mineira, a revolução de 1817, com um destaque especial concedido a ao padre Arruda Câmara, religioso paraibano que se formou em Filosofia Natural pela Universidade de Coimbra e em Medicina pela de Montpellier (p. 75): “Tivesse sobrevivido a 1810, ano em que faleceu, possivelmente teria tido um papel marcante no movimento da Independência, e poderia ter sido de certa forma um outro ‘Patriarca da Independência’”, ao lado de José Bonifácio (p. 76). Recorrendo a Sobrados e mocambos, o parágrafo sobre Arruda Câmara evidencia sua preocupação com a igualdade entre brancos e a “gente de cor”, o que merece uma citação integral a partir de Gilberto Freyre:
Arruda Câmara, dessa forma, foi um dos doutores e bacharéis formados na Europa ao final do século XVIII que conseguiu reunir a ‘teoria europeia a qualidades de curandeiros dos nossos males sociais por processos brasileiros’. Afrancesado, o seu afrancesamento não lhe fez perder o sentido social do Brasil, um Brasil mulato e pardo, a ponto de compreender que a Independência, quando viesse, não deveria ser apenas política, mas de reconstrução inteira da sociedade, inclusive no que se refere a um melhor ajustamento de relações entre brancos e homens de cor, entre senhores e escravos. (Sobrados e mocambos, p. 719 e 721, edição comemorativa dos 70 anos, de 2006).

André Heráclio recorre ainda a um artigo de Gilberto Freyre, “Confrontos e e comentários: Revoluções gêmeas: 1817-1824”, publicado no Diário de Pernambuco em 2 de julho de 1924, cem anos depois, portanto, da primeira revolução pernambucana depois da Independência, que é resumido por André da seguinte forma, mais um parágrafo exemplar:
Nesse contexto, tanto na Revolução de 1817 quando na Confederação do Equador, de 1824, a República seria o caminho mais curto para a Independência, por ser o mais adequado à conquista de um ideal maior que uma simples mudança de forma de governo dentro de uma nacionalidade já constituída: trata-se da própria aquisição dessa nacionalidade, no contexto do estabelecimento de um regime constitucional que assegurasse os direitos imprescritíveis da cidadania. (p. 79-80)

Ambas as revoluções, como sublinhado ainda por Evaldo Cabral de Mello, agregaram aos antecedentes da inconfidência as “inspirações doutrinárias das revoluções norte-americana e francesa” (p. 80). Para esse excelente capítulo, André Heráclio remete ao Diário de Pernambuco e às suas pesquisas no Quai d’Orsay sobre as ligações de Napoleão com Pernambuco, quando o imperador derrotado intentava escapar de Santa Helena. Ele ainda se refere, nesse mesmo capítulo 2, a considerações do grande Manuel Correia de Andrade sobre as revoltas populares em diferentes regiões do país na primeira fase da independência, num estudo sobre o patriarcalismo e a vida urbana, assim como a diferentes trabalhos sobre esses primeiros “motins” da vida independente, entre eles, abundantemente citado, o de Alfredo de Carvalho, especificamente no Recife, em 1823, sem descurar as detidas observações de Gilberto Freyre em Sobrados e mocambos e em Nordeste.
André Heráclio, ao abordar essas primeiras revoltas em Pernambuco, chega à meticulosidade de citar um discurso pronunciado por Freyre em 1948, por ocasião do centenário da Revolução de 1848 (buscado num artigo publicado no Diário de Pernambuco desse ano), aventando a vinculação da revolta de 1823 com a de 1848, na qual ele lamentava que “a significação política dessa última fosse exagerada em prejuízo da social e econômica” (p. 90). O grande temor das classes proprietárias nessa primeira metade do século XIX era o de que o grande número de escravos negros, assim como o de pardos e mestiços, quase em maioria em certas localidades, provocasse uma repetição do “terror” ocorrido no Haiti. Freyre discorre sobre todos esses movimentos sociais, ressaltando suas peculiaridades nacionais, chegando a se expressar em movimentos que constituíam uma “reafirmação de valores tradicionais castiçamente brasileiros”, mas em alguns casos maciçamente antilusitanos, como examinado em Ordem e Progresso, por exemplo (p. 96 ss).
O capítulo 3, “As singularidades da Monarquia” (p. 105-122), começa as observações feitas por Freyre em um livro destinado ao público estrangeiro – New World in the Tropics (1966) –, no qual ele argumenta que, “devido à sua tradição de paternalismo e de monarquismo, havia escapado” às sinas de outras repúblicas instituídas nas Américas. O argumento merece uma transcrição dessa avaliação sobre nossa formação diferente:
Esta tradição, acrescenta Freyre, tem sempre atuado como um estímulo constante, especialmente em fases críticas da História brasileira, para a solução legalista, pacífica e civil de problemas que seus vizinhos latino-americanos resolveram por meio de ditaduras ostensivas, pela violência e pelo desrespeito às leis vigentes. (p. 105-6)

O papel de José Bonifácio é extensamente ressaltado, como “ao mesmo tempo um dom Quixote e um Sancho Pança”, tendo reunido um “equilíbrio de antagonismos, as tendências revolucionária e conservadora, a aparentemente arcaica e a potencialmente pós-moderna, ‘numa só e rara personalidade’” (p. 107). Ele teria sido, segundo Freyre, o “nexo vital” entre um “príncipe vacilante” e a “aristocracia agrária” que foi a força preponderante a favor da Independência” (idem). André Heráclio cita um trecho de Ordem e Progresso sobre ele:
Com ele só podem ser exatamente comparados um Thomas Jefferson, um Benjamin Franklin, um Alexandre [sic] Hamilton: homens públicos dos começos nacionais dos Estados Unidos da América. Nem mesmo Bolívar é da mesma rara estirpe de construtores de sistemas nacionais de organização e de convivência a que pertenceu um José Bonifácio. (p. 108)

Foi por isso, segundo Gilberto Freyre, num ensaio sobre o caráter nacional brasileiro no século XX, que “ao se tornarem politicamente independentes, os brasileiros nunca se separaram de todo de suas origens europeias, ao contrário do que havia ocorrido com seus vizinhos em relação à Espanha” (p. 110). A singularidade brasileira conviveu com anomalias como o Poder Moderador e o regime escravo durante a sua quase inteira existência, o que também foi notado por Freyre em Ordem e Progresso e outros trabalhos. Segue-se um debate sobre o tratamento dos escravos no Brasil, comparativamente aos Estados Unidos, baseando-se inclusive num livro escrito pelo famoso inglês Richard Burton, quando foi cônsul no Brasil, contemporaneamente à guerra do Paraguai. A música poderia ter aproximado brancos e negros no Brasil, como também ressaltado por Freyre no mesmo livro.
Segue-se, no capítulo 4, “Monarquia e República: continuidade e ruptura” (p. 123-152), oportunidade que Freyre aproveita para argumentar que entre um e outro regime, “as alterações de natureza sociológica foram mínimas, em comparação com as já ensaiadas pelo 13 de maio”, pois este teria provocado distúrbios sociais e sobretudo econômicos” (p. 123). Mas, o Brasil “continuava a ser uma sociedade de extremos, e nesse sentido nada se havia alterado com a Abolição e nem mesmo com a República” (p. 124). As teses de Joaquim Nabuco sobre o caráter da monarquia são discutidas na sequência, assim como as do próprio Freyre sobre as peculiaridades de D. Pedro II, um monarca burguês, quase republicano, cujo reinado foi descrito por Nabuco como uma “neocracia” (p. 139). Todo o capítulo é uma brilhante discussão sobre o caráter da monarquia, com base em diversos autores, o que se coaduna com certa “nostalgia imperial” ainda presente no Brasil.
O Brasil não era um país unificado ao início da sua fase independente, como discutido no capítulo 5, “O Império e a unidade nacional” (p. 153-167), que começa com uma citação nesse sentido retirada de uma “obra de estreia, Vida Social no Brasil nos meados do século XIX” (p. 153), constatação retomada anos depois em Sobrados e mocambos. Aqui entra a tese de Gilberto Freyre sobre a “autocolonização do Brasil”, que teria sido começada por paulistas e pernambucanos (p. 154), compatível com suas outras explicações sobre a construção da unidade brasileira, como apresentada neste trecho, apoiado em Casa Grande & senzala:
“Unidade e diversidade”, melhor dizendo, “unidade na diversidade” é um dos conceitos básicos da interpretação freyreana do Brasil. Diversidade regional num contexto de unidade nacional, que seria o segredo da identidade nacional brasileira, a de um Brasil uno e plural, em que características regionais, tão diversas e mesmo antagônicas entre si, unir-se-iam para formar um todo unitário, que é muito mais do que a mera soma das partes, constituindo uma entidade diferente, o Brasil. Trata-se talvez da consagração maior de outro dos conceitos básicos da interpretação gilbertiana, a do “equilíbrio entre antagonismos”, pelo qual se explica que a formação do brasileiro é um processo de equilíbrio de antagonismos de economia e de cultura; de cultura europeia e indígena, europeia e africana, africana e indígena. Entre economia agrária e pastoril, agrária e mineira. Entre os católicos e os hereges, os jesuítas e os fazendeiros, os bandeirantes e os senhores de engenho, os paulistas e os emboabas, os pernambucanos e os mascates. Os grandes proprietários e os párias, os bacharéis e os analfabetos, os senhores e os escravos. (p. 157)

Todo esse capítulo constitui um dos pontos mais altos e mais fecundos do livro de André Heráclio sobre a rica e lúcida interpretação freyreana do século XIX brasileiro, e deve ser lido com atenção, no qual as remissões e citações alcançam quase meia centena de notas de rodapé, como focado nesta resenha concentrada nesse aspecto da construção da obra.
O lado “internacional” desta obra sobre Gilberto Freyre e o século XIX comparece no capítulo 6, “O Oriente no Novo Mundo: os três primeiros séculos da formação brasileira” (p. 168-181), no qual a reprodução de características europeias nesta parte das Américas não impediu a influência de elementos asiáticos, vindos da formidável expansão portuguesa em várias partes do mundo: no começo do século XIX permaneciam
... costumes de fundo oriental, as casas de telhado acachapado no estilo dos pagodes da China; as colchas da Índia; as quinquilharias asiáticas e africanas; os palanquins; as esteiras; as porcelanas; os pentes de tartaruga; a árvore de fruta-pão; a caneleira; a pimenta da Índia; o cravo; a alcanforeira. Enfim, uma imensa gama de produtos, processos e costumes, que denotavam a reforçavam o que Freyre denominou um parentesco ecológico e social entre o Brasil e o Oriente pelo clima e pelo sistema de organização patriarcal da economia e de convivência entre raças e classes. (...)
Também do ponto de vista econômico, a aproximação do Brasil com o Oriente era tão grande que o comércio regular e irregular constituía, nos tempos coloniais, uma “das bases mais sólidas do sistema agrário e patriarcal brasileiro”. (p. 180, com base em Sobrados e mocambos)

O capítulo 7, o penúltimo desta obra magnífica, continua na vertente internacional: “Oriente X Ocidente: a Monarquia e a reeuropeização do Brasil no século XIX” (p. 182-197). O seu título já indica a tendência maior no período: o contato intenso com a Europa, então de um outro tipo: a Europa industrial, comercial, mecânica, a burguesia triunfante”, que foi, em certo sentido, uma reconquista, ou uma renascença, “tal como a que se processou na Europa impregnada de medievalismo, com relação à antiga cultura greco-romana. Apenas noutros termos e em ponto menor” (p. 182, com base na mesma obra). Essa impregnação se fez pela imitação de padrões ingleses, “que, espontaneamente, não teriam sido adotados”, nos planos político, econômico e sociocultural; mas também houve influência francesa, “mais romanticamente liberal, ao passo que a inglesa era de sentido mais organizador” (p. 183).
A resistência aos padrões ingleses se deu sobretudo no lado econômico-comercial (como já argumentava um artigo no Diário de Pernambuco de 1831), ao passo que a influência francesa se deu pelo lado “universalista da cultura”:
A formação intelectual brasileira foi marcada pelo espírito francês, cuja influência se exercia quase sempre sem preocupação de exclusivismo, animada de um sentimento universalista de valores humanos. (p. 184, com base em artigo de Freire no Diário de Pernambuco de julho de 1954)

Num artigo de 1925 para o livro do primeiro centenário do Diário, Freyre já apontava que a europeização do Brasil, pela imigração mais intensa no final do século XIX, teria feito do Nordeste, “um refúgio da alma do Brasil”, como anteriormente argumentado por Oliveira Lima (p. 193). Mas, no plano da indústria, “foram os ingleses, pela mão de Mauá e pelas próprias, os responsáveis pela modernização das fábricas, da técnica e do transporte” p. 195). Com base no livro de Freyre, Ingleses no Brasil, André Heráclio sintetiza:
No campo político parlamentar, os modelos dos oradores do Parlamento brasileiro era os ingleses, imitados na maneira de falar, nos gestos e no próprio feitio da barba, as suíças inglesas. As citações em inglês começaram a competir com as citações em latim. Nas academias de Direito, estudava-se a economia política de Bentham e de Stuart Mill. Mauá, Paranhos, Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Oliveira Lima, Eduardo Prado, entre outros, ‘foram elegantemente anglófilos em seus métodos de fazer ou de escrever História”. (p. 195)

André Heráclio conclui assimesse capítulo: “O Ocidente, a Europa, foi desse modo se assenhoreando do Brasil, quase como de uma semicolônia” (p. 197). E no parágrafo final:
O século XIX representou assim, no Brasil, o fim do ‘primado ibérico de cultura’, que nunca fora exclusivamente europeu, mas, em grande parte, impregnado de influências mouras, árabes, israelitas e maometanas. De influências do Oriente mescladas às do Ocidente. (Idem)

O capítulo conclusivo, “Considerações e sugestões” (p, 198-214), oferece a André Heráclio a oportunidade de resumir ensinamentos a partir das muitas obras do mestre de Apipucos e as de seus comentaristas e intérpretes, tal como lidas e apresentadas nos sete capítulos substantivos. A primeira é a de que “a independência política não basta por si só para que um povo se constitua em nação autônoma. É necessário adicionalmente que ela seja acompanhada por uma autonomia cultural ou, em outras palavras, por um estilo nacional de vida” (p. 199). Seguem-se uma série de considerações que retomam a visão de Freyre nos vários capítulos anteriores, entre elas sua “decisiva defesa da monarquia como o melhor regime em 1822 e, eventualmente, em 1889, sendo capaz mesmo de combinar ‘solicitações de ordem’ com ‘solicitações de progresso’ (...) e que foi... a responsável pela unidade nacional” (p. 201-2). Pode-se ler esse capítulo final como uma descrição geral e uma apresentação sintética dos vários “Brasis” examinados, diagnosticados, explicados pelo grande sociólogo pernambucano, que pode ser visto como o maior “explicador” de um país original num hemisfério tanto europeu quanto penetrado pelas culturas as mais diversas das diferentes partes do mundo, integradas numa sociedade compósita e quase universal.
Estas observações gerais sobre o livro, com base principalmente em suas notas de rodapé, podem ser lidas na sequência de meu prefácio publicado no livro, como registrado em minha ficha de trabalhos originais:
5108. “Gilberto Freyre no longo século XIX do Brasil”, Brasília, 8 novembro 2025, 6 p. Prefácio ao livro de André Heráclio do Rêgo: O século XIX na obra de Gilberto Freyre: entre o Império e a República (Rio de Janeiro: Letra Capital, 2026; ISBN: 978-65-5252-277-1; p. 7-15). Relação de Publicados n. 1623.

Sou grato a André Heráclio por ter renovado, e certamente completado, o meu até aqui precário conhecimento das muitas obras de Gilberto Freyre, um sociólogo que me inspirou, a partir de um dos seus livros – Como e porque sou e não sou sociólogo (Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1968) – o prefácio a um dos meus próprios livros, numa adaptação ao métier, como registrado neste trabalho: “Como e Por quê Sou e Não Sou Diplomata: (à maneira de Gilberto Freyre)” (Washington, 4 julho 2002, 2+6 p., n. 918; in: A Grande Mudança: consequências econômicas da mudança política no Brasil (disponível neste link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/eu-e-gilberto-freyre-ou-gilberto-freyre.html). Foi um privilégio e um grande prazer intelectual.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5283, 18 abril 2026, 9 p.
Ler em Academia.edu:
Emissão divulgada no blog Diplomatizzando (19/04/2026; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/04/gilberto-freyre-nas-notas-de-rodape-do.html

Especulando sobre o futuro extraordinário da América do Sul - George Friedman

Especulando sobre o futuro extraordinário da América do Sul


George Friedman, 17 de abril de 2026

Isto não é uma previsão. Uma previsão é uma estimativa, cuja validade é de responsabilidade minha e do meu ego. O que ofereço aqui é especulação – algo suficientemente provável para justificar um artigo, mas não tão provável a ponto de comprometer meu ego. É também algo que, se confirmado, se mostraria importante em termos geopolíticos e geoeconômicos.

Por quase um século, a economia global foi herdeira e executora da Revolução Industrial. Durante esse período, um ciclo se tornou evidente. A saúde da economia global dependia, em grande medida, de uma grande potência industrial emergente, que a sustentaria por cerca de 50 anos. O custo de produção para as potências industriais emergentes era significativamente menor do que para as economias mais maduras, o que mantinha os preços acessíveis e aliviava a pressão sobre as economias mais consolidadas e seus consumidores.

Três nações foram cruciais nesse aspecto. A primeira foram os Estados Unidos. Sua economia industrial começou a crescer exponencialmente na década de 1880. Por volta de 1890, tornou-se um dos principais exportadores de produtos industriais para a Europa, que na época era a potência industrial mais consolidada do mundo. Em grande medida, os EUA basearam seu desenvolvimento econômico nessas exportações, mais baratas que os produtos europeus e, em alguns casos, mais inovadoras. A economia americana prosperou até 1929, com o início da Grande Depressão. A Primeira Guerra Mundial havia limitado severamente as economias europeias, que não podiam mais comprar produtos americanos. Isso foi, pelo menos em parte, responsável pela depressão.

O segundo país foi o Japão. Antes da Segunda Guerra Mundial, era uma potência industrial significativa, mas o conflito devastou sua capacidade industrial, forçando-o a operar mais como uma economia emergente. As exportações, principalmente para os EUA, impulsionaram seu boom econômico no pós-guerra. O país teve um desempenho tão bom que, na década de 1970, começou a prejudicar as montadoras americanas e outras indústrias, oferecendo automóveis mais baratos e produtos superiores. A década de 1990 marcou o início de uma crise econômica conhecida como a Década Perdida, e somente após sua superação o Japão se tornou uma economia industrial mais madura.

O terceiro país foi a China. Sua economia cresceu rapidamente por volta de 1980 e teve um grande impulso na década de 1990, substituindo o Japão como o maior exportador mundial de produtos industriais de baixo custo e alto valor agregado. O crescimento agora desacelerou e, considerando o precedente dos EUA, deve atingir a maturidade na década de 2030. (Admitidamente, uma comparação entre os dois países não é exatamente a métrica mais confiável.) A China continua sendo o maior exportador mundial, mas, assim como os EUA e o Japão, chegará a um ponto em que seu crescimento econômico não poderá mais se basear apenas nas exportações, um sinal de uma economia ainda emergente e não madura.

Essas três nações tinham coisas em comum. A primeira era que ninguém em sã consciência imaginaria que elas se tornariam potências econômicas globais. Os EUA eram principalmente uma nação agrária que havia emergido de uma guerra civil devastadora 25 anos antes para iniciar seu período de crescimento vertiginoso. Em 1945, ninguém imaginaria que, cinco anos após a Segunda Guerra Mundial, a economia do Japão se recuperaria, muito menos se tornaria uma potência. Da mesma forma, na China, era impensável que apenas quatro anos após a morte de Mao, o país estaria trilhando o caminho para se tornar uma superpotência econômica.

É claro que tinham outras coisas em comum. Possuíam populações relativamente grandes com fortes bases agrárias. Tinham um perfil demográfico de pessoas com formação em tecnologias que se revelariam cruciais. Além disso, e de forma mais sutil, haviam desenvolvido ambições culturais e pessoais de desenvolvimento social e econômico. Todas compartilhavam uma tradição cultural de empreendedorismo, interrompida pela guerra, mas ressuscitada pelo fim ou declínio de ideologias que dificultavam, senão impossibilitavam, as aventuras econômicas. Todas surgiram em um momento em que as economias maduras do mundo necessitavam de importações de baixo custo e qualidade razoável. Finalmente, e o mais importante, todas emergiram de seu crescimento vertiginoso, baseado em exportações, durante períodos de relativa saúde e paz. Curiosamente, cada nação era o centro de gravidade das potências exportadoras, enquanto outras economias menores em suas respectivas regiões emergiram como exportadoras ao seu lado nas décadas que se seguiram à ascensão das grandes nações.

A China está se aproximando do fim deste ciclo, migrando para um modelo econômico amplo, porém maduro, com aumento do consumo interno e elevação dos preços. À medida que amadurece, a questão econômica mais premente no mundo é: quem ocupará o lugar da China? Há duas possibilidades, ambas difíceis de imaginar: África e Oriente Médio. O problema é que essas são regiões, não nações, portanto seus processos econômicos podem divergir. Além disso, elas são constantemente afetadas por conflitos em curso. Quem quer que substitua a China será uma nação que, à primeira vista, não parece provável de emergir, com uma grande população, uma base agrícola sólida e uma cultura empreendedora já estabelecida, além de uma camada, ainda que tênue, de tecnólogos sofisticados. Como regiões, a África e o Oriente Médio não se encaixam perfeitamente nesse perfil.

Isso deixa a América Latina, particularmente o Brasil, que possui a sétima maior população do mundo, uma forte base agrícola, uma significativa cultura empreendedora e um contingente necessário de mentes tecnológicas. A região à qual pertence já superou, em grande parte, seu período de instabilidade e conflito. O Brasil é cercado por outras nações com populações menores, mas com características semelhantes. Assim como os EUA tinham o Canadá e o México, e o Japão e a China tinham o restante da Ásia, o Brasil tem o Cone Sul da América Latina, que inclui Argentina, Chile e Paraguai. O Brasil (e a área brasileira em geral) já iniciou o processo de desenvolvimento econômico com uma força de trabalho de baixa renda, o que lhe permite se tornar um produtor de baixo custo, vital para economias mais maduras. Talvez o mais importante seja que o potencial de desenvolvimento do Brasil e do restante da América do Sul ainda seja subestimado, mesmo com o aumento do investimento estrangeiro na região.

Assim, nessa dimensão especulativa, supondo que o padrão econômico global iniciado com a ascensão dos EUA no século XIX continue à medida que a China amadurece, o Brasil e a América do Sul podem muito bem ser os mais propensos a emergir, assim como os EUA, a China e o Japão fizeram, estabilizando a economia global e se desenvolvendo ao longo das décadas até se tornarem uma grande economia madura. Se isso acontecer, e mantenho minha especulação a esse respeito, o processo já terá começado.

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George Friedman
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George Friedman é um analista e estrategista geopolítico de renome internacional, fundador e presidente da Geopolitical Futures. O Dr. Friedman também é autor de best-sellers do New York Times. Seu livro mais recente, A TEMPESTADE ANTES DA CALMA: A Discórdia Americana, a Crise Iminente da Década de 2020 e o Triunfo Além, publicado em 25 de fevereiro de 2020, descreve como “os Estados Unidos periodicamente atingem um ponto de crise no qual parecem estar em guerra consigo mesmos, mas, após um longo período, reinventam-se, de uma forma fiel à sua fundação e radicalmente diferente do que eram antes”. A década de 2020 a 2030 é um período assim, que trará mudanças drásticas e reformulações do governo, da política externa, da economia e da cultura americanas. Seu livro mais popular, Os Próximos 100 Anos, mantém-se relevante graças à precisão de suas previsões.

Outros livros de grande sucesso incluem Flashpoints: The Emerging Crisis in Europe, The Next Decade, America's Secret War, The Future of War e The Intelligence Edge. Seus livros foram traduzidos para mais de 20 idiomas.

O Dr. Friedman já palestrou para diversas organizações militares e governamentais nos Estados Unidos e no exterior, e aparece regularmente como especialista em assuntos internacionais, política externa e inteligência nos principais veículos de comunicação. Por quase 20 anos, antes de se demitir em maio de 2015, o Dr. Friedman foi CEO e, posteriormente, presidente do conselho da Stratfor, empresa que fundou em 1996. Friedman é bacharel pelo City College da City University of New York e doutor em ciência política pela Universidade Cornell.


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