sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A frase da semana: Jean Cocteau

Porque não sabia que era impossível, foi lá e fez!

Jean Cocteau

Gostei: preciso achar algo impossível para fazer...
Ficar rico, talvez?
Não, acho que não vai dar certo, inclusive porque vivo torrando meu dinheiro em livros.
Voilà! Encontrei: ler e fichar todos os livros de minhas duas bibliotecas.
E arrumá-las também.
Encontrei minhas duas tarefas impossíveis...
Paulo Roberto de Almeida

"Não se muda já como soía" - Camões

A frase de Camões me permite fazer uma mini-reflexão ao léu.

A diferença ente a minha postura e a de muitos que estão por aí, se posicionando adequadamente em relação aos novos tempos, aos novos ares, novas posturas e pensamentos, é que eu nunca teria sido capaz de pronunciar certas palavras, defender certas posições e acatar certas instruções, com a mesma desenvoltura -- e até desfaçatez, pode-se dizer -- com que hoje eles fazem alegremente do alto de suas tribunas.
Existem limites para certas coisas. Existe um estômago que se revolta. Existem princípios que consideramos importantes. Existe uma dignidade pessoal a defender. Existe honestidade intelectual a respeitar e honrar. Existe sobretudo vergonha na cara...

Ainda bem que Camões já tinha feito a advertência cinco séculos atrás...

Paulo Roberto de Almeida

As diferenças entre Racismo e Escravismo - José Augusto Conceição

Encontrei este texto postado como comentário a um outro texto sobre racismo, no blog da Revista Espaço Acadêmico, com a qual colaboro regularmente.
Encontrei o texto particularmente esclarecedor e por isso o estou transcrevendo aqui, como informação e como formação sobre duas questões igualmente importantes na história e no presente da sociedade brasileira.
Não consegui contactar o autor, para pedir sua autorização, mas admito que ela está dada implicitamente, já que o texto se encontrava num espaço público, ao alcance de qualquer leitor.
Paulo Roberto de Almeida

As diferenças entre Racismo e Escravismo
José Augusto Conceição

O escravismo (moderno) e o racismo nada têm em comum.
As razões porque se adotou o regime de trabalho escravo foram de ordem econômica e, repousaram, basicamente no custo da empresa colonizadora. Assalariar a mão-de-obra a inviabilizaria dado o contingente necessário a sua realização.
Convém lembrar que nas Américas espanhola e portuguesa a primeira opção foi recorrer a mão-de-obra indígena que, já disponível no lugar, poupava o valor da compra, do transporte e da tributação. No entanto, especialmente em razão da tributação, se optou, sobremaneira na América portuguesa, pela importação de mão-de-obra africana.
A questão tributária parece explicar, inclusive, a defesa que fez a Igreja contra a escravidão dos indígenas. Visto que de todo tributo pago à Coroa a Igreja obtinha uma parcela (a redízima). O africano, sendo um “produto” importado era tributado; o ameríndio (já disponível na colônia) não o era.
Não houve, pois, nenhuma razão racial nisto, mesmo porque a ideologia racial ainda não se havia desenvolvido. Até, então, os principais elementos de distinçao se fundavam na religião e no estatudo do sangue.
O racismo se liga à consolidação dos Estados nacionais e à II Revolução Industrial, posto que o primeiro evento consolidou o princípio das nacionalidades (cada povo uma nação, cada nação um território), seguido do princípio da não-intervenção (nos assuntos internos dos Estados estrangeiros). Ao passo que o segundo evento, correspondente ao espraiamento do industralismo para a Europa continental e EUA, impôs a estes povos a necessidade de novos mercados de matérias-prima, mão-de-obra e consumo o que, no limite, obrigava (como continua obrigando) a que um invadisse os domínios do outro, em franca ofensa aos princípios expostos acima.
As teorias do chamado racismo científico serviram de fundamento preciso à intervenção dos “mais capazes” sobre os domínios territoriais e, via de consequência, econômicos, dos “menos capazes”, sob argumentos salvacionistas.
Em países como o Brasil, o racismo científico pavimentou o caminho para a reestruturação da pirâmide social no pós-abolição. Com ele se pode retardar, em coisa de 50 anos, o impacto que a igualdade legal concedida aos ex-escravos teria sobre a estratificação social, mais especificamente sobre a distribuição de benefícios sociais, renda e riqueza.
A questão mais importante para as populações negras na atualidade se situa precisamente neste ponto que trato agora. Já a partir da década de 1920 se vêem sinais de esgotamento das teorias racistas. A publicação de Macunaíma é um exemplo disto. Porém, de 30 em diante este processo ganha vigor, de um lado pelos trabalhos de Gilberto Freyre e seus pares, de outro pela política getulista, notadamente a que se desenvolveu durante os anos do Estado-Novo.
Já em fins da década de 50, especialmente em virtude do desfecho da guerra racial que consumiu o mundo entre 1939 e 1945, o racismo já havia perdido quase que totalmente sua força como demarcador social.
Ocorre que somado os séculos que o escravismo impediu os negros de participar do processo de acumulação primitiva de capitais, com o século que o racismo obstou ao negro o mesmo empreendimento, o tempo de que dispomos para tanto foi muito curto. A bem dizer, se restringe ao período que se inaugura em 1960 e que se estende aos dias de hoje. Isto explica a exclusão social do negro, sua ausência dos postos de comando do setor público e privado, sua recente ascenção à classe média etc.
Com isso, estou a afirmar que não é mais o racismo o que oblitera a mobilidade social ascendente das populações negras. O racismo é, sim, um problema que persiste no âmbito do imaginário social brasileiro exigindo, pois, instrumentos psicossociais para seu enfrentamento. Por exemplo, ações educativas e culturais como a inclusão, no currículo escolar, de conteúdos sobre a história da África e dos negros no Brasil. No entanto, o problema da mobilidade social das populações negras não se vai resolver com medidadas anti-racistas, posto que tal problema já não se relaciona mais com o racismo, desde os fins da década de 50. Tal problema só se resolverá quando completado o processo de acumulação primitiva de capital por parte desta população que por 4 séculos dele ficou excluída.
Sem termos clareza da distinção destes dois problemas que ora enfrentam as populações negras brasileiras, tendemos a propor soluções inócuas. Pior de tudo isso, tem sido acreditar que soluções bem-sucedidas em países estrangeiros serão, igualmente, bem-sucedidas no Brasil. Sem se considerar, por exemplo, que os EUA (de onde vem a idéia de affirmative action [ação efetiva]) teve, até o movimento dos direitos civis, um racismo de natureza institucional (jurídico/legal); enquanto o Brasil, desde sempre tem um racismo de natureza estrutural (psicossocial/cultural).
Por fim, devemos ainda atentar para o dado de que as populações negras já se encontram bastante diversificadas em classes, o que implica em variações expressivas de demandas sociais. Pois que a toda evidência, as demandas dos negros proletários não são as mesmas da classe média negra.

José Augusto Conceição

Ortografia também é cultura: a despedida do Trema (engraçadinho...)

Recebido do José Marcos, um leitor deste blog...

Despedida do TREMA

Estou indo embora. Não há mais lugar para mim. Eu sou o trema. Você pode nunca ter reparado em mim, mas eu estava sempre ali, na Anhangüera, nos aqüíferos, nas lingüiças e seus trocadilhos por mais de quatrocentos e cinqüentas anos.

Mas os tempos mudaram. Inventaram uma tal de reforma ortográfica e eu simplesmente tô fora. Fui expulso pra sempre do dicionário. Seus ingratos! Isso é uma delinqüência de lingüistas grandiloqüentes!...

O resto dos pontos e o alfabeto não me deram o menor apoio... A letra U se disse aliviada porque vou finalmente sair de cima dela. Os dois pontos disseram que eu sou um preguiçoso que trabalha deitado enquanto eles ficam em pé.

Até o cedilha foi a favor da minha expulsão, aquele C medroso que fica se passando por S e nunca tem coragem de iniciar uma palavra. E também tem aquele obeso do O e o anoréxico do I. Desesperado, tentei chamar o ponto final pra trabalharmos juntos, fazendo um bico de reticências, mas ele negou, sempre encerrando logo todas as discussões. Será que se deixar um topete moicano posso me passar por aspas?... A verdade é que estou fora de moda. Quem está na moda são os estrangeiros, é o K e o W, "Kkk" pra cá, "www" pra lá.

Até o jogo da velha, que ninguém nunca ligou, virou celebridade nesse tal de Twitter, que aliás, deveria se chamar TÜITER. Chega de argüição, mas estejam certos, seus moderninhos: haverá conseqüências!

Chega de piadinhas dizendo que estou "tremendo" de medo. Tudo bem, vou-me embora da língua portuguesa. Foi bom enquanto durou. Vou para o alemão, lá eles adoram os tremas. E um dia vocês sentirão saudades. E não vão agüentar!...

Nós nos veremos nos livros antigos. Saio da língua para entrar na história.

Adeus,
Trema.

China: o longo começo de uma queda inevitavel - David Pilling

De fato, 26 dinastias chinesas já ruíram. O mandarinato da atual tirania comunista também vai ter um fim, em algum momento do futuro próximo. Como e quando isso vai ocorrer, não sabemos como exatamente, mas vai ocorrer.
Paulo Roberto de Almeida

What could bring down China’s rulers?
By David Pilling
Financial Times, February 24 2011

Sooner or later, all dynasties, even Chinese ones, come to an end. The Qin dynasty, which marked the start of imperial China in 221BC, lasted but 15 years. The Han, Tang, Song, Ming and Qing dynasties were far more enduring. But even they came and went. The same will happen to the latest dynastic incarnation – the People’s Republic of China, which has held for 62 years.

No one knows when, or how, the Communist party will lose power. China’s burgeoning wealth and growing international clout contain little obvious portent of imminent crisis. By the standards of its tumultuous and tragic history, China is having its best run in hundreds of years. But the Communist party itself – forever jumping at shadows – remains ultra-vigilant to the slightest hint of opposition. Its jitteriness was on full display this week in its heavy-handed crackdown on human rights lawyers and on last Saturday’s sub-Tahrir “Jasmine revolution”. In a previous column, I argued that the events in Egypt – and now Libya – did not resonate much in China. That was partially borne out by the scant response to an online call for a protest in cities across China. My colleague said the gathering outside a McDonald’s in Beijing – of all the places to start a Mickey Mouse revolution – was more like a meeting of the Foreign Correspondents’ Club, so heavily did journalists outnumber protesters.

But the state’s reaction – thuggish and out-of-proportion – makes me wonder. If there is really no appetite for rebellion in China, what is there to be so afraid of? More than 100 lawyers and activists have had their freedom curtailed, according to human rights groups. Jason Ng, a Beijing-based blogger, compared the authorities to “ants in a hot wok”. He reported that Renren.com, a social networking site, designated the word “tomorrow” sensitive the day before the aborted “revolution”. On the big day itself, “today” was treated as suspect. Now the call has gone up for weekly protests.

What could go wrong for the Communist party? Its legitimacy, at least in the past 30 years, stems almost entirely from its spectacular economic performance. That makes a faltering economy, and the social unrest that might follow, by far its biggest concern. With 10 per cent growth, you would have thought it could relax. But there are underlying concerns. One is inflation. The consumer price index, which rose 4.9 per cent in January, has stayed stubbornly above its 4 per cent target. Although the pace moderated last month, a persistent rise in food prices is a big concern in a country where food makes up 30 per cent of an average household’s spending.

The government has brought inflation under control before. It is taking aggressive action again, raising interest rates three times since October. But inflation could be stubborn. Labour shortages, partly due to demographics, threaten accelerated wage rises. The head of one company complained, with a touch of hyperbole, that “workers are God now”.

Another inflationary threat comes from ballooning money supply. Despite recent efforts to rein in lending, M2, which includes money in circulation and bank deposits, has risen more than 50 per cent in two years. Banks have been shovelling out credit, increasing off-balance sheet lending as a way around tighter controls. A slowing economy could expose non-performing loans. The building binge has moved decisively inland. Like dozens of other cities, Zhengzhou, capital of the poor inland province of Henan, is alive with cranes. A recent elevator ride inside one of its sleekest towers revealed a near-total absence of occupants. On most floors, the elevator shaft was blocked with wooden boards.

Much credit is going to infrastructure. A high-speed rail link has opened between Zhengzhou and Xi’an, in Shaanxi province, cutting the six-hour journey to two. But the sleek train ejects its passengers 18km outside Xi’an itself. The assumption is that Xi’an will spread out towards the station. If it does, China’s planners will be hailed as geniuses. But if growth slows, such Pharaonic projects might look a tad ambitious. The dismissal of the railway minister on suspicion of “severe disciplinary violations” does not look good.

The Communist party is hypersensitive to the problems that could arise if credit-fuelled growth stalled. The so-called “Wen Jiabao put” – the assumption that the government will ensure high growth until the political transition in 2012 – is likely to hold. Growth at 10 per cent covers numerous sins. But even at this pace, it cannot hide the concomitant social ills: land confiscations that are vital to state finances, corruption and a yawning wealth gap.

One woman in Chongqing complained that the ideal of taxation – “kill the rich, nurture the poor” – had been abandoned by a state that was spoiling its wealthy progeny. An academic said: “I believe more and more people realise this economic success cannot be sustained.” If that is true – even with the economy growing at full pelt – imagine what might happen in a slowdown.

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