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terça-feira, 30 de junho de 2009

1181) Richard Dawkins: A Inutilidade da Teologia

Meu pequeno lado racionalista me leva a reproduzir este artigo que recebi em 30.06.2009 de um correspondente, sem poder determinar a publicação original. No seguimento formulo alguns comentários rápidos.

A Inutilidade da Teologia
Richard Dawkins

Um editorial infeliz e ingênuo do jornal britânico Independent recentemente pediu uma reconciliação entre ciência e “teologia”. Dizia que “As pessoas querem saber o tanto quanto possível sobre suas origens”. Com certeza, espero que elas queiram, mas o que, diabo, faz alguém pensar que a teologia tem algo de útil para dizer sobre esse assunto?

A ciência é responsável pelas seguintes informações sobre nossas origens. Nós sabemos aproximadamente quando o Universo surgiu e porque ele é, em sua maioria, de hidrogênio. Nós sabemos por que as estrelas se formam e o que acontece no interior delas para converter hidrogênio em outros elementos, dando origem à química em um mundo físico. Nós sabemos os princípios fundamentais de como um mundo químico pode se transformar em biologia através do aparecimento de moléculas auto-reprodutoras. Nós sabemos como o princípio da auto-reprodução deu origem, através da seleção darwiniana, a toda a vida, incluindo os humanos.

Foi a ciência e apenas a ciência que nos ofereceu esse conhecimento e, além disso, o ofereceu em detalhes fascinantes, preponderantes e que se confirmam mutuamente. Em cada um desses aspectos, a teologia tem mantido uma visão que se mostrou definitivamente errônea. A ciência erradicou a varíola, pode imunizar contra a maioria dos vírus e matar a maioria das bactérias que anteriormente eram mortais. A teologia não tem feito nada a não ser falar das doenças como punições para nossos pecados.

A ciência pode prever quando um cometa em particular irá reaparecer e, de quebra, quando o próximo eclipse irá ocorrer. A ciência colocou o homem na Lua e lançou foguetes de reconhecimento ao redor de Saturno e Júpiter. A ciência pode lhe dizer qual a idade de um fóssil específico e que o Santo Sudário de Turim é um embuste medieval. A ciência sabe as instruções precisas no DNA de vários vírus e irá, durante a vida de muitos leitores presentes, fazer o mesmo com o genoma humano.

O que a teologia já disse que teve qualquer valor para alguém? Quando a teologia disse algo que foi demonstrado como verdadeiro e que não seja óbvio? Tenho ouvido os teólogos, lido o que escrevem, debatido com eles. Nunca ouvi algum deles dizer algo que tivesse alguma utilidade, qualquer coisa que não fosse trivialmente óbvio ou categoricamente errado. Se todas as realizações dos cientistas forem apagadas do mapa no futuro, não haverá médicos, e sim xamãs; não haverá meio de transporte mais rápido que o cavalo; não haverá computadores, nem livros impressos e, muito menos, agricultura além das culturas de subsistência.

Se todas as realizações dos teólogos forem apagadas do mapa no futuro, alguém perceberia a mínima diferença? Até mesmo as realizações negativas dos cientistas, como as bombas e navios baleeiros guiados por sonar funcionam! As realizações dos teólogos não fazem nada, não afetam nada, não significam nada. Afinal, o que faz alguém pensar que “teologia” é um campo do conhecimento?

Richard Dawkins é professor de entendimento público da ciência na Universidade de Oxford, e autor de "O Gene Egoísta", "A Escalada do Monte Improvável" e "Desvendando o Arco-Íris".

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Meus comentários rápidos:
Dawkins tem razao, em última instância.
O problema, para ele e todos os ateus militantes, é que a Teologia é aliada objetiva da ignorância. Como esta ainda é o estado natural da maior parte dos seres humanos, em qualquer época, deduz-se que a teologia -- e as explicações ingênuas, de modo geral -- ainda tem um brilhante futuro pela frente. Infelizmente esta é a verdade.
Cada ser humano precisa realizar, cada vez, um esforco enorme para alçar-se à altura do conhecimento científico e de uma explicação racional para a natureza das coisas. A teologia, como concorrente potencial, oferece uma explicação muito mais simples, ao alcance da mão, se podemos dizer. É a saída inercial pela ignorância auto-infligida. Tem sucesso, ou pelo menos resiliência...

9 comentários:

Rubens disse...

Caro professor PRA, concordo com Dawkins e com seus comentários em espírito, mas não consigo deixar de pensar que essa interpretação é pouquinho míope.

Apesar de ateu, acho que a teologia de Lutero foi uma das melhores coisas que pintou por aí nos últimos séculos. Ou não? Aquile papo de ler a Bíblia sem intermediários era rebeldia pura.

E a teologia de Cristo? Outra loucura que deu certo: sua afirmação da alma e da subjetividade diante do poder ajudou a fundar uma das bases do que depois seria a afirmação do próprio indivíduo.

Enfim, Dawkins às vezes me irrita.

Um abraço.

Paulo Roberto de Almeida disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Paulo Roberto de Almeida disse...

Rubens,
De fato, o ultra-darwinista e o exageradamente ateista, radical e militante, Richard Dawkins pode ser por vezes irritante, mas não se pode negar que ele segue rigorosamente a lógica formal, os preceitos da pesquisa científica e não faz nenhuma concessão aos ilogismos anti-científicos e subjetivistas que frequentam todas as religiões.
Se você é ateu, pode soar como contraditório apreciar a teologia de Lutero. Acredito que a base dessa apreciação se funde no princípio metodológico da exegese, essencial para se escapar da interpretação literal dos textos ditos sagrados e iniciar um processo de racionalização das crenças religiosas, o que deveria normalmente levar rejeição da religião enquanto explicação do mundo.
Não existe propriamente teologia de Cristo e sim alguns preceitos recolhidos por devotos e seguidores que fundaram a religiao cristã, sem dúvida uma das mais importantes deste nosso mundo. Os valores cristãos representaram, de certa forma, um progresso em relação aos valores do mundo antigo.

Sandro Brusch disse...

Caro professor Paulo Roberto de Almeida , gostaria de ler a sua opinião e comentários a respeito de uma passagem da Biblia Sagrada ,
o livro de 2 Timóteo cap. 3 vers. 1 a 17 .
Lendo as cartas do Apostolo Paulo , cada vez mais, me resta admirá-lo profundamente pela sua sabedoria ; lucidez ; e revelação que , muitas vezes me deixam assombrado .
A Palavra de Deus é ,sem dúvida ,um Grande Manual de Vida para o ser humano .
Dawkins , incorre em erro , ao confundir A Revelação de Deus com os atos falhos de homens : "teólogos medievais" e ao colocar todos os cristãos no mesmo "balaio de gatos" , pois existem muitos cristãos intelectuais , estudiosos e que não veem a ciência de forma isolada e sim , parte de um todo , em que até mesmo os avanços tecnológicos/científicos estão previstos de forma clara em algumas passagens da Biblia .
Richard Dawkins , novamente associa de forma errada a teologia à ignorância ,não vendo nenhuma utilidade para a Humanidade .Poderia destacar que, não pode haver comparação entre a Ciência e a Palavra de Deus ,pois ambas possuem diferenças profundas , enquanto uma é conduzida somente pela razão a outra é pela fé , dicernindo espiritualmente daquela .
Obrigado, professor
Sandro Brusch
Formando de Letras e acadêmico de Relações Internacionais no UNILASSALE/Canoas
Cristão Evangélico
Pré-candidato a Diplomata
Morador de Viamão /RS .

Paulo Roberto de Almeida disse...

Meu caro Sandro,
Não tenho nenhum comentário a fazer sobre esse trecho do apóstolo Paulo, pois se trata de literatura sagrada e eu não sou exegeta ou estudioso de literatura sagrada.
Sou apenas um modesto irreligioso que não deixa de se guiar por elevados preceitos morais e se orienta para o bem comum. Acredito que este possa ser alcançado no seio de várias religiões e mesmo sem religião alguma, que não me parece uma condição essencial para praticar o bem. Todo ser humano pode discernir entre o que é certo e errado e entre o que é bom ou mau sem precisar se referir a uma religiao em particular.
A Ciência não tem absolutamente nada a ver com a suposta palavra de deus, que é uma hipótese totalmente fantástica, posto que não submetendo-se aos procedimentos científicos para testar hipóteses.
Estude bem para a carreira. Na bibliografia nção tem nenhum livro de religião, mas a cultura religiosa é importante em nossa vida corrente e talvez até nos exames de entrada na carreira.

Glaucia disse...

Bem, Professor, poderiamos sugerir ao sempre revolucionario MEC incorporar a teologia ao curso de letras, como interpretação de texto.

A Biblia me comove às vezes, e é tão lucida, como Dostoievski - o que não é pouco!

De todo modo, acho - com duas gotas de ironia, por favor - que a expressão de opinião do Dawkins é por assim dizer improdutiva. Apostar no confronto, ainda que nobre, pode deixar os reliosos desconfiados. Poderiam começar a achar incompatibilidades entre seus objetos inanimados sagrados e a datação por carbono 14.

Melhor que continuem assim, meio lulistas, achando que existiria assim uma compreensão superior a justificar Edir Macedo, Sarney e Aldo Rebelo fazendo ohhhmmm em unissono diante do Grande Misterio.

Paulo Roberto de Almeida disse...

Glaucia,
Seu comentário é um tanto confuso.
O MEC faria muito bem se assegurasse que todo estudante saisse da escola -- em qualquer nível -- sabendo pelo menos a língua pátria (o que é sofrível, hoje em dia, mesmo em nível universitário), matemáticas elementares e ciências básicas, apenas isso já estaria suficiente.
Ao contrário, as pedagogas do MEC e os militantes de causas raciais ficam inventando desvios ao conhecimento histórico como a introdução de algo bizarro chamado "estudos afro-brasileiros" (uma ilusão completa), ou tornando obrigatorias as disciplinas de Sociologia e Filosofia (que são uma reserva de mercado para sociologos desempregados) e outras coisas mais (como Espanhol obrigatorio no Primário, quando nenhum dos nossos sócios do Mercosul tornou o Portugues obrigatorio em suas escolas).
Sou radicalmente laico e contrário a qualquer aula de religião em qualquer nível, a não ser como estudos de tipo cultural, filosófico, ou nas faculdades de Teologia.
A Bíblia não é lúcida, é apenas literatura, como folclore ou contos fantásticos. Não acredito que seja melhor do que Dostoievski, mas é certamente mais rica e mais instrutiva, se a soubermos ler pelo lado das narrativas lendárias, com algum fundo histórico e sociológico.
De fato Dawkins pode ser contraproducente em seu militantismo ateista, mas não discordo de nenhum de seus argumentos, pois eles simplesmente se atém rigorosamente a fatos, não a lendas fantásticas.
Não vejo o que o lulismo faz neste tema, mas certamente o fenômeno pode ter a mesma origem: a ilusão e o culto da ignorância...

Maria do Espírito Santo disse...

Paulo,

O Tambosi fez um post sobre seu comentário. Você já viu?

Entre dogmas e ideologias é lamentável que a curiosidade científica seja rotineiramente sufocada.

André disse...

Pode-se distinguir dois tipos de teologia: a natural e a sobrenatural, a primeira sendo de domínio dos filósofos que não se valem senão da razão natural para propor postulados, e a segunda pendendo de escrituras reveladas ou que se tomam como sagradas. Assim, pode-se dizer que, no fundo, os esforços históricos de construção de teologias naturais são um só, na medida em que têm como critério articulador comum o uso da razão, ao passo que as teologias sobrenaturais são variadas em função das escrituras que se tomem como sagradas em cada época e lugar. A crítica de Dawkins se aplica à teologia sobrenatural, da qual ele, pela ciência natural, se pretende inteiramente desembaraçado. Quem gosta de fatos verificáveis, sobretudo os históricos, mais do que de conversa mole, não poderá senão ficar satisfeito lembrando-se de que toda a ciência moderna, por mais natural que pretenda parecer, não deixa de se fundar em teologias sobreturais, com o detalhe de que tomam como sagradas não palavras reveladas, mas palavras ocultas, visto que seus principais fundadores, como Francis Bacon, foram organizadores de sociedades ocultistas. Para facilitar a memória, aqui vai uma referência: "De Arquimedes a Einstein: A face oculta da invenção científica", do professor e historiador francês Pierre Thuillier. A "ciência" ilude Dawkins...