Um leitor recente de meu livro "A Grande Mudança" (escrito em 2002, antes das eleições presidenciais, e publicado no início de 2003), escreveu-me o seguinte:
Uma curiosidade: você é muito audacioso em seus textos! Nunca sofreu retaliações por isso? Não me parece nada "comum", alguém falar tão livremente dos problemas do país, sendo um diplomata...
E quanto às dez propostas ao governo...Algum dia sentiu vontade de segurar as "rédeas do poder"? Ainda que fosse como o acessor do Príncipe...?
Respondo de imediato: de fato, esse meu livro foi escrito justamente com essa intenção, provocar, ou pelo menos apresentar propostas audaciosas para tentar "consertar" o Brasil num momento eleitoral. Não que eu tivesse qualquer ilusão de que minhas "propostas" de políticas públicas fossem ser lidas e menos ainda acatadas. Mas não posso evitar essa responsabilidade cidadã que me impeliu a também apresentar algumas novas soluções a velhos problemas que amarram o Brasil no baixo crescimento e no subdesenvolvimento político.
Foi o meu único livro polêmico, já que todos os demais são de pesquisa, ou classicamente acadêmicos.
De fato, esse livro me trouxe retaliações, imediatas, se ouso dizer, sem que eu lamente especialmente esse fato. Cada um deve assumir responsabilidade pelo que fala, escreve, divulga, e eu assumi plenamente a minha parte de responsabilidade, por propor coisas manifestamente heterodoxas (em relação ao pensamento temporariamente dominante, quero dizer).
Como transcrevi no frontspício:
“A inconsciência de certos homens os faz por vezes levantar-se contra algumas verdades evidentes da vida humana e da ordem natural das coisas (natura naturans). A estupidez de alguns outros os faz pretender opor-se a essas verdades verdadeiras, abatendo-se com fúria sobre aqueles que delas se fazem portadores.
A uns e outros, a Divina Providência (Mente divina) há de aconselhar e a Ordem dos Justos corrigir, desde que lhe seja dada a oportunidade de assim fazer.”
Apud Giordano Bruno, Dei segni dei tempi (Veneza, 1576)
Singela homenagem ao filósofo cuja religião era a da “pacifica convivenza tra le religioni, fondata sull’unica regola della mutua intesa e della reciproca libertà di discussione”, e que, na hora decisiva, pronunciou estas palavras: “Tremate forse píù voi nel pronunciar la sentenza, ch’io nel riceverla” (1600).
Tributo a Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça (1774-1823), o homem que criou a imprensa livre brasileira, fora do Brasil, colocando este dever ao cidadão redator de idéias públicas:
“O primeiro dever do homem em sociedade é ser útil aos membros dela, e cada um deve, segundo suas forças físicas ou morais, administrar, em benefício da mesma, os conhecimentos ou talentos que a natureza, a arte ou a educação lhe prestou. O indivíduo, que abrange o bem geral de uma sociedade, vem a ser o membro mais distinto dela: as luzes que ele espalha tiram das trevas da ilusão aqueles que a ignorância precipitou no labirinto da apatia, da inépcia e do engano. Ninguém mais útil, pois, do que aquele que se destina a mostrar, com evidência, os conhecimentos do presente e desenvolver as sombras do futuro. Tal tem sido o trabalho dos redatores das folhas públicas, quando estes, munidos de uma crítica sã e de uma censura adequada, representam os fatos do momento, as reflexões sobre o passado, e as sólidas conjecturas sobre o futuro.”
Abertura do número inaugural do Correio Braziliense (1808)
Capa, sumário e algumas partes desse livro podem ser vistos neste link.
Provavelmente vou escrever um novo livro, numa próxima transição presidencial, no mesmo estilo deste, mas com conteúdo bem diferente, oferecendo um balanço e propondo novas medidas. Sei que não adianta muito, mas não posso me impedir de pensar e de dizer o que penso. Difícil é cultivar a mediocridade.
Dependendo de quem ganhar, vem retaliação, mas espero pequena melhoria dos costumes políticos em nossa terra...
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
Brasil e México, amigos distantes: a busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010 - Sérgio Abreu e Lima Florencio
Brasil e México. Amigos Distantes A busca de um ALC Brasil-México em 2008-2010 Sérgio Abreu e Lima Florencio Brasil e México têm ...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
Personagens Bíblicos / História do Profeta Samuel: Quem foi Samuel na Bíblia? https://estiloadoracao.com/historia-do-profeta-samuel/ Histó...
-
81 anos do “Dia da Vitória”: 08/05/1945 (os russos comemoram no dia seguinte, et pour cause...) Mas é o dia da vitória sobre os nazistas par...
-
Recorrências … (não, não acredito que a História se repete; os homens se repetem, alguns de forma delirante): Paulo Roberto de Almeida O...
-
_*A iminente derrota de Trump no Irã é uma crise pessoal e política.*_ _*"Ele está postando de forma mais descontrolada do que nunca – ...
-
Onde será que se esconde Putin? Seu amigo Trump vai aparecer para o desfile da "vitória"? Creio que será, ou já está sendo, um 9 d...
-
9 de maio de 2026: o "Dia da Derrota" Todos os dias 9 de maio, a cada ano desde 1946, é reputado representar o maior feriado nacio...
-
Rogerio Pinto, aka Roger Pinto, me envia suas considerações de economista sobre a questão das tarifas, da política comercial, e seus efeit...
-
Um professor catedrático convidado numa universidade portuguesa consultou-me sobre a dívida externa do Brasil na interação com Portugal na é...
-
A história econômica brasileira na pena de Afonso Arinos de Melo Franco Versão abreviada de meu capítulo no livro *Nos 120 Anos de Afonso Ar...
Um comentário:
Voltaire vai dizer que ' Os livros governam o mundo', ' quando uma nação começa a pensar, é impossível detê-la'.
Continue construindo isso, aos poucos a nação começa a pensar no que o senhor tanto escreve em relação aos problemas do Brasil e mundo.
Good job!!!
Postar um comentário