É o que dizem nesta matéria sobre a Lei Geral do Acesso à Informação, em debate no Congresso.
O Itamaraty, alegam, estaria fazendo obstrução por causa de bisonhos papéis da guerra do Paraguai. Não creio que seja isso: coisa velha demais não impressiona muito, mesmo no plano diplomático. Não acredito que revelações espetaculares venha a luz para envenenar nossas relações com os vizinhos.
Deve ser coisa mais recente, de gente ainda viva, e muito viva, por sinal...
Aposto mais na ditadura e após, e não apenas por razões políticas...
Paulo Roberto de Almeida
INFORMAÇÕES PÚBLICAS
Os inimigos da transparência
Por Luiz Egypto
Observatório da Imprensa, 25/5/2011
Por acordo de líderes, não foi a exame no plenário do Senado, na terça-feira (24/5), o projeto de lei número 41, de 2010, a Lei Geral do Acesso à Informação. Trata-se de mais uma tentativa de regulamentar dispositivos da Constituição de 1988 que aparecem bonitos no texto, mas não têm efeito prático algum. Este, em especial, trata dos "procedimentos a serem observados pelos órgãos públicos para garantir o acesso à informação previsto na Constituição", de acordo com a ementa do projeto.
O texto regulamenta critérios de sigilo aplicáveis a documentos oficiais e o acesso a informações públicas de todos os poderes e esferas de governo. É matéria cuja aprovação significa avanço considerável do direito à informação no Brasil. Prevê providências como a obrigação de os órgãos públicos informarem na internet sua estrutura organizacional, suas despesas e processos licitatórios. Estabelece prazo de 20 dias para responder aos pedidos de informação e estipula punição ao servidor que se negar – injustificadamente – a fornecê-la.
Trâmite espinhoso
O projeto foi aprovado na Câmara estava pronto para ser votado no Senado em sessão de 3 de maio, Dia Internacional da Liberdade de Imprensa, mas ficou retido na comissão presidida pelo senador Fernando Collor de Mello.
Um acordo de líderes aprovou requerimento de urgência para que a votação ocorresse na quarta-feira (18/5), mas outra vez o senador Collor brecou a tramitação. Ele pediu prazo para negociar emendas que pretende propor. Estas, se acatadas, obrigarão o projeto a voltar à Câmara para ser rediscutido, como manda o regimento.
Resistência do Itamaraty
A imprensa abandonou a cobertura do assunto no final de abril. Noticiou-se, então, a intenção da presidente Dilma Rousseff de ver o texto aprovado em 3 de maio. Mencionavam-se resistências do Ministério da Defesa – repressão política foi exercida durante a ditadura por militares em instalações militares, o que incluiu torturas, assassinatos e "desaparecimentos" − e do Itamaraty, que estaria preocupado com a abertura dos arquivos da Guerra do Paraguai (1864-1870) e de documentos relativos às relações com a Bolívia. Em 1903, como se sabe, esse país perdeu para o Brasil o atual estado do Acre.
O Ministro da Defesa, Nélson Jobim, declarou que a pasta não opõe qualquer restrição ao texto enviado pela Câmara ao Senado. A resistência efetiva, comenta-se em Brasília, viria do Itamaraty, e não apenas devido às relações com Paraguai e Bolívia, mas principalmente em função do envolvimento do Ministério das Relações Exteriores na Operação Condor, que uniu na troca de informações e na repressão as ditaduras de Brasil, Paraguai, Argentina, Uruguai, Chile e Bolívia.
O punho e a renda
Esse capítulo sombrio da história da diplomacia brasileira é o pano de fundo político do romance O punho e a renda, publicado em 2010 pelo diplomata aposentado [corrijo, PRA: ainda não está aposentado] e escritor Edgard Telles Ribeiro. No livro, diplomatas colaboram com militares dos chamados "órgãos de informação" na perseguição a exilados.
Outro processo ficcionalizado por Telles Ribeiro é o de negociações secretas relativas a contrabando de material sensível, no contexto do acordo nuclear Brasil-Alemanha, do qual resultou a construção das usinas de Angra dos Reis.
O diplomata e professor Paulo Roberto de Almeida, no ensaio "Do alinhamento recalcitrante à colaboração relutante: o Itamaraty em tempos de AI-5" (Tempo negro, temperatura sufocante – Estado e sociedade no Brasil do AI-5, org. por Oswaldo Munteal Filho, Adriano de Freixo e Jacqueline Ventapane Freitas, 2008), menciona, entre outros episódios, o papel do Ministério das Relações Exteriores na invasão da República Dominicana, promovida em 1965 pelos Estados Unidos com a participação de tropas de diversos países, Brasil inclusive, e, ao longo de vários anos, um esforço sistemático junto a países escandinavos para impedir que o Prêmio Nobel da Paz fosse concedido a D. Hélder Câmara, adversário do regime militar. [Corrijo: No caso da República Dominicana, o papel mais importante foi dos militares, não do Itamaraty,]
Collor, Sarney
Outra fonte de resistência é o próprio relator Fernando Collor. Ele estaria preocupado com documentos do período em que foi presidente da República (1990-1992). Soma-se ao grupo dos obstrucionistas o presidente do Senado, José Sarney, igualmente ex-presidente da República (1985-1989).
Sarney não fez nada para acelerar a tramitação da lei, e, segundo a Agência Senado, apoia a proposta, feita por Collor, de que seja formado um conselho de ex-presidentes da República "para colaborar [com a presidente Dilma Rousseff] na decisão sobre os níveis de acesso a informações sigilosas de documentos oficiais".
Em bom português, o nome disso é manobra diversionista. Dá bem a ideia do poder da resistência a um projeto democrático.
Com a colaboração de Mauro Malin
Leia também
Mídia subestima acesso à informação pública
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
Os trabalhos de Paulo Roberto de Almeida mais citados em Academia.edu nos 30 dias passados
Os trabalhos de Paulo Roberto de Almeida mais citados em Academia.edu nos 30 dias passados Link: https://www.academia.edu...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
O Equador, talvez "mal acostumado" com a prática de asilo diplomático em países tão instáveis e conturbados quanto os latino-ameri...
-
Brasil dá as costas ao futuro Editorial da The Economist (25/09/2026) Nota preliminar PRA: Não concordo inteiramente com este editorial ...
-
Carreira Diplomática: respondendo a um questionário Paulo Roberto de Almeida ( www.pralmeida.org ) Respostas a questões colocadas por gradua...
-
Uma preparação de longo curso e uma vida nômade Paulo Roberto de Almeida A carreira diplomática tem atraído número crescente de jovens, em ...
-
PORQUE NÃO VOTAR EM FLÁVIO Artigo da revista Fórum, copiado por Walmyr Buzatto . ************************** Em 2007, Flávio Bolsonaro subi...
-
H-Diplo: New posted content Hume on Ludwig, 'Unwelcome Shores: Black Refugees in America' [Review] H-Net Reviews Ludwig, Bernadett...
-
O Google me ofereceu carregar o Gemini na lista de programas favoritos. Preciso primeiro testar para detectar algum erro clamoroso. Acho qu...
-
Uma nova ameaça ao Itamaraty? Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor Nota sobre a ameaça de “caça às bruxas” no Itamarat...
-
Madame IA analisa as razões de Lula para apoiar Putin e sua guerra de agressão contra a Ucrânia Brazilian President Luiz Inácio Lula da Silv...
Nenhum comentário:
Postar um comentário