Aos milhares de manifestantes -- OK, milhares não dá, apenas dois ou três -- que saem às ruas de Atenas, de Madri, de Roma, de Lisboa, protestando contra as políticas de austeridade, os cortes de gastos, o aumento de impostos, enfim, as políticas recessivas e ortodoxas -- exatamente aquelas políticas condenadas como insuficientes, ineficazes, ou inadequadas, ou tudo isso ao mesmo tempo, por uma presidente que adora dar lições aos outros governantes, como se estes gostassem de aplicar voluntariamente essas políticas, como se eles fossem néscios, ingênuos ou perversos --, a todos esses, ou a dois ou três, eu gostaria de perguntar o seguinte:
-- Vem cá, ô meu chapa: como é que você faz, na sua casa, quando você gasta mais do que ganha? Você pede para uma tia rica pagar o seu cartão de crédito? Você pede dinheiro emprestado ao seu banqueiro? Assim, indefinidamente? E ele empresta, bonzinho que é, com juros camaradas? Mas isso por quanto tempo? Ou você vende as jóias e o casaco de pele de madame? Vende a bicicleta das crianças? Vende o seu carro? Enfim, diminui o seu patrimônio para continuar gastando? É isso mesmo, que você faz? Assim, sem qualquer limite de valor ou de tempo?
Pois é, eu me pergunto o que essas pessoas esperam do governo que elas não praticam consigo mesmo, em relação a seus próprios ativos. Será que elas só sabem fazer contabilidade individual, ou familiar, mas não social, coletiva, estatal?
Ou será que elas pensam que o governo possui uma árvore de dinheiro, ou uma cornucópia, de onde jorra leite e mel indefinidamente?
Elas acreditam em milagres, em viver acima dos meios?
Será ingenuidade, ou estupidez, mesmo?
Enfim, não quero ofender ninguém, mas quando vejo dezenas de milhares de pessoas nas ruas protestando contra políticas de austeridade, eu me pergunto se elas se perguntaram, a si mesmas, ou aos seus representantes políticos, de onde elas acham que sai o dinheiro para todas as bondades do governo?
Quando elas fizerem o raciocínio completo, e descobrirem que, cada vez que elas pedem aos políticos que lhes dêem um "vale-isso" e mais um "vale-aquilo outro", os políticos aceitam, alegremente, e depois vão buscar nos seus bolsos, e no caixa das empresas, os recursos para fazerem essas bondades, quando elas conseguirem completar o círculo do pensamento, acho que elas vão despertar, e parar de pedir coisas ao governo e parar de manifestar também.
Tempo de trabalhar, e de não mais entregar o seu dinheiro ao governo.
Pescaram?
Ou preciso desenhar, como diria o outro?
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 30 de setembro de 2012
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
The Russia-China Axis - Stuart Reid (Foreign Affairs)
The Russia-China Axis Stuart Reid Senior Fellow for History and Foreign Policy and Associate Vice President of Studies Foreign Affairs, Au...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
Carreira Diplomática: respondendo a um questionário Paulo Roberto de Almeida ( www.pralmeida.org ) Respostas a questões colocadas por gradua...
-
Uma preparação de longo curso e uma vida nômade Paulo Roberto de Almeida A carreira diplomática tem atraído número crescente de jovens, em ...
-
Sobre os “boiolas” do Itamaraty (Desculpem a grosseria, não é minha) Um sujeitinho de sobrenome Figueiredo, descendente do último ditador ...
-
FAQ do Candidato a Diplomata por Renato Domith Godinho TEMAS: Concurso do Instituto Rio Branco, Itamaraty, Carreira Diplomática, MRE, Diplom...
-
Nota preliminar ulterior (se isso não é contradição, não sei o que é): Coloquei aqui uma aparente matéria de -- digo aparente pois foi dessa...
-
Um aniversário que me é relembrado pelo registro de minha trajetória universitária Paulo Roberto de Almeida Dentro de aproximadamente tr...
-
Repostando uma análise das relações internacionais numa fase de sua fragmentação ampliada Paulo Roberto de Almeida Um texto de OUTUBRO DE 20...
-
Um post, aqui colocado originalmente em julho de 2006, muito visitado, desde então, com muitos comentários, perguntas e dúvidas, não sei se ...
-
Pensadores, atores, estadistas de que o Brasil precisa: O sucesso chinês: educação, tecnologia e abertura Pena que educação e saúde não par...
Um comentário:
Hehehehe PRA modalidade Friedman.
Em defesa dos "protestantes" gostaria de dizer que a arrogância, a desigualdade, ignorância e indiferença de parte da elite econômica induz os mesmos a achar que o governo pode fazer o papel de "Robin Hood"'
Existe muita riqueza nao merecida no "fake" capitalism praticado nos países menos desenvolvidos. Muitas empresas nao inovam, nao atendem bem, só calharam de conhecer as pessoas certas e ter o din-din inicial.
Motivados por esse impulso dá para entender o manifestantes contra reformas de austeridade ("os ricos que paguem as contas, já que ganham sem merecer", a noticia da França vai nesse sentido).
Para falar a verdade eu ainda estou formando minha opinião sobre essas questões, me parece bom o argumento a favor de um sistema de governo pequeno e credito abundante para competir nos mercados livres (de forma que as empresas com mérito possam competir com as máfias).
Tenho muito que estudar ainda antes de formar minha opinião e o povo leitor aí, o que acha?
Postar um comentário