domingo, 12 de abril de 2026

O Seguro Vorcaro, o melhor e mais generoso do mercado (até há pouco)

Não tenho condições de aferir se os números são corretos ou completos, mas suponho que possuam certa confiabilidade, dado o profissionalismo da PF e do jornalismo brasileiro (e respeito a consistência das informações de Julio Benchimol). Eu diria que se trata de um seguro quase universal na política brasileira, tão promiscua quanto eu sempre imaginei que ela fosse. PRA

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Eis a lista dos que comprovadamente apareceram como recebedores de dinheiro de Vorcaro, com valores e vínculos. (Compilação de Julio Benchimol)

Em ordem decrescente:

 • Viviane Barci de Moraes - cerca de R$ 80,2 milhões. Advogada, esposa de Alexandre de Moraes.

 • Grupo Massa - R$ 24 milhões. Empresas ligadas à família de Ratinho e Ratinho Jr., do PSD.

 • Henrique Meirelles - cerca de R$ 18,4 milhões. Ex-presidente do Banco Central de Lula e ex-ministro da Fazenda de Temer.

 • Marconi Perillo - R$ 14,5 milhões. PSDB.

 • Guido Mantega - R$ 14 milhões. PT.

 • Empresa ligada à nora de Jaques Wagner - R$ 12 milhões. Vínculo familiar com um dos principais nomes do PT.

 • Michel Temer - cerca de R$ 10 milhões. MDB.

 • Antônio Rueda - cerca de R$ 6,4 milhões. Presidente do União Brasil.

 • Ronaldo Bento - cerca de R$ 6,2 milhões. Ex-ministro de Bolsonaro.

 • Ricardo Lewandowski/escritório ligado à família - cerca de R$ 5,93 milhões. Ex-STF e ex-ministro da Justiça de Lula.

 • ACM Neto - cerca de R$ 5,45 milhões. União Brasil.

 • André Valadão/Amando Vidas - cerca de R$ 3,9 milhões. Forte trânsito no meio evangélico e bolsonarista.

 • Fabio Wajngarten - cerca de R$ 3,8 milhões. Ex-Secom de Bolsonaro e ligado ao PL/bolsonarismo.

Deu para captar?

A lista passeia pelo entorno do STF, PT, PSD, PSDB, MDB, União Brasil e circuito dos grandes operadores de influência de Brasília. Vorcaro não escolheu um campo; escolheu todos os campos úteis.

Minha entrevista sobre o bolsolavismo diplomático, em abril de 2020 - Gustavo Nogy (GP)

 Gosto muito desta entrevista que eu dei ao jornalista Gustavo Nogy, em 2020, no máximo do poder do Bolsonarismo diplomático e do chanceler acidental…

Como era bizarro o bolsonarismo diplomático: entrevista com o jornalista Gustavo Nogy (Gazeta do Povo) - Paulo Roberto de Almeida

Saudades daqueles tempos? Certamente não, mas cabe sempre recordar para que o Brasil não venha a cair novamente nessa trampa. Reproduzo abaixo uma entrevista dos anos sombrios da diplomacia brasileira: 

sábado, 11 de abril de 2020

A diplomacia brasileira em tempos de olavo-bolsonarismo: um ponto fora da curva: Entrevista com o diplomata Paulo Roberto de Almeida - Gustavo Nogy (Gazeta do Povo)

[A diplomacia brasileira em tempos de olavo-bolsonarismo: um ponto fora da curva]
Entrevista com o diplomata Paulo Roberto de Almeida

Gazeta do Povo, 11/04/2020


Por Gustavo Nogy
·        [11/04/2020] [15:44]

Sede das Nações Unidas em Nova Iorque Foto ONU Manuel Elias

Paulo Roberto de Almeida é diplomata de carreira, historiador das relações internacionais e estudioso da economia política, além de escritor e organizador de diversos livros. Graduou-se em Ciências Sociais, fez Mestrado em Planejamento Econômico na Universidade de Antuérpia e Doutorado em Ciências Sociais na Université Libre de Bruxelles. Publicou dezenas de livros, muitos dos quais podem ser encontrados para compra nas livrarias virtuais ou baixados gratuitamente de seu blog pessoal, Diplomatizzando.

1 Primeiro, as apresentações: poderia falar sobre sua trajetória intelectual e no Itamaraty?
Sem qualquer intenção de parecer diferente ou melhor do que os colegas, devo começar por dizer que minha postura e minha trajetória na carreira diplomática são, efetivamente, originais, talvez únicas, no Itamaraty, e cabe, portanto, começar pela formação e perfil de vida para ressaltar minha distinção vis-à-vis o diplomata mediano. Venho de uma família muito modesta, de pais sem formação primária completa, sem livros no lar de origem, mas beneficiado por uma biblioteca pública infantil nos arredores da casa, o que determinou de forma decisiva minha trajetória intelectual pelo resto da vida. Politizado precocemente em função do golpe militar de 1964, passei a cumprir uma trajetória típica de jovem de esquerda de meados dos anos 1960: protestos contra o governo militar, estudos de ciências sociais e alinhamento com os movimentos de resistência à ditadura, antes de decidir sair do país por absoluta inocuidade daquela forma de oposição.
Os sete anos de autoexílio na Europa, entre 1970 e 1977, confirmaram a vocação intelectual no trabalho acadêmico, com um grande conhecimento e experiência adquiridos em viagens, leituras e atenta observação do mundo real, praticamente todos os socialismos realmente existentes, e capitalismos centrais e periféricos. A volta ao Brasil se deu pela vertente acadêmica, mas rapidamente alterada pelo ingresso na diplomacia, mais pela curiosidade da profissão do que por uma verdadeira vocação de ser um servidor do Estado. O que posso dizer é que nunca cultivei e sequer me dobrei àquilo que diplomatas seniores não cansam de repetir como sendo os dois princípios básicos da diplomacia, em similitude com o que ocorre nas FFAA: hierarquia e disciplina. Nunca deixei de exercer minha própria capacidade de arbítrio individual, como de seguir meu próprio julgamento – sempre embasado em sério estudo das questões – na avaliação de políticas públicas e nas posturas assumidas pelo Brasil no plano internacional. Com isso, posso ter confrontado mais de um chefe ocasional, ao valorizar mais a autoridade do argumento do que o argumento da autoridade, talvez em função de minha predisposição a me guiar bem mais pelo ceticismo sadio do que pela adesão irrestrita a quaisquer dogmas de uma Casa estilo Vaticano.
Minha carreira se desenvolveu normalmente, sem que eu jamais tivesse de pedir favores aos superiores para promoção, remoção ou cargos: apenas dedicação ao trabalho. Meu primeiro “memorandum” lido na Casa foi a respeito da escolha de Karol Wojtilla como novo papa, e o papel da Igreja na Polônia e no socialismo em geral. Depois tive alguns livros e ensaios parcialmente censurados pelas chefias, o que fez com que, a partir de conselheiro, eu decidisse não mais submeter meus textos para autorização institucional antes de publicar. Mas evitei muitas críticas à política externa oficial, até que os companheiros me vetassem para dirigir o mestrado em diplomacia do Instituto Rio Branco, logo no início de 2003, o que me levou a permanecer toda a longa duração do regime lulopetista sem qualquer cargo na Secretaria de Estado das Relações Exteriores. Aproveitei os anos de lazer involuntário passados na biblioteca do Itamaraty para escrever livros, fazer pesquisas, dedicar-me a meus afazeres intelectuais nunca interrompidos: tenho de ser grato aos meus algozes pelo limbo.
Só fui chamado a trabalhar – não na SERE, mas no IPRI – com o impeachment de 2016, e tive dois anos de intensas atividades e publicações claramente refletidas em meu relatório de gestão (feito ao final de 2018, pois já antecipava o desfecho, tendo observado o que se passou na campanha); ele pode ser lido nesta postagem da plataforma Research Gate. Uma breve síntese sobre minha trajetória de carreira desde 2003 figura em duas cronologias que ofereci no blog Diplomatizzando (aqui e aqui). Creio que isto já atende ao pedido de informações sobre minha trajetória no Itamaraty.

2 O Brasil passa por um momento curioso: um governo com plataforma econômica liberal que detesta o liberalismo. Como o senhor, que é estudioso de economia e leitor atento da obra de Roberto Campos – além de organizador de livros sobre ele – vê o atual governo?
O atual governo é um animal estranho, uma espécie de ornitorrinco brasileiro, só surgido em virtude das circunstâncias excepcionais criadas pela trajetória julgada gloriosa do lulopetismo – crescimento econômico, distribuição social, projeção internacional etc. –, mas, a partir de certo momento (2013 em diante), avaliado como corrupto e incompetente pela classe-média, que é quem determina grandes mudanças políticas e eleitorais no país (como aliás em quaisquer outros países). A atmosfera otimista cercando o partido e seus principais protagonistas veio abaixo sob os golpes combinados da recessão econômica e da luta contra a gigantesca corrupção empreendida por eles. A partir daí, infelizmente, tivemos a trajetória de ascensão de uma direita conservadora, mas sem qualquer doutrina, sem ideias claras de governança, movimento lamentavelmente simbolizado por um dos piores representantes do chamado baixo-clero do sistema político brasileiro, um outcast do estamento militar, sem qualquer capacidade de governança, menos ainda de liderança.
O atual governo representa uma assemblage daquilo que emergiu na fase de “resistível ascensão” do nosso “Arturo Ui”, um personagem medíocre, mas que teve a agregação em torno de si de tudo o que possa haver de “bom, de mau e de feio” na política e na economia brasileira. A rejeição absoluta dos eleitores ao lulopetismo corrupto e inepto entregou a sociedade a uma outra coalizão de corruptos e ineptos – de certo modo também alucinados, pelas outras vertentes a ela agregados –, mas que conseguiu cooptar elementos razoáveis das elites, do estamento burocrático, dos meios políticos. O governo é esse animal estranho, que pode ter os seus burocratas competentes, certos técnicos de nível, nos quais se incluem alguns elementos militares, mas também representantes alucinados desse amálgama que se convencionou chamar de olavo-bolsonarismo, mas que não corresponde a nenhum pensamento claramente formulado, apenas aos instintos mais primitivos que possam existir.
Eu não considero sequer que o governo tenha uma “plataforma econômica liberal”, mas “que detesta o liberalismo”, pois este aspecto foi apenas um subterfúgio ocasional usado pelo capitão – orientado por políticos hábeis – para conquistar poderosos apoios – e que serve de resguardo para ingênuos ou oportunistas. O fato é que o governo, pela absoluta falta de concepções sobre qualquer coisa do dirigente máximo – a não ser o instinto primitivo do capitão, impulsionado por filhos ambiciosos –, é uma nau sem rumo, que ora voga para algumas reformas possíveis, impulsionadas pela ala dita “racional”, mas que bem mais frequentemente tende a singrar sem rumo num mar encapelado. Não se poderá esperar nada de muito diferente nos meses, e talvez anos, à frente, infelizmente para o país desgovernado.

3 Aproveitando que falamos de Roberto Campos, uma pergunta necessária: existe uma tradição consistente de ideias liberais no país? Quem são, o que fizeram, nossos grandes liberais? E em que eles são diferentes daqueles que se pretendem anunciadores de novidades velhas? Porque Campos e Merquior, por exemplo, já liam e divulgavam Mises e Hayek há tempos...
Não creio que exista, no Brasil, uma “tradição liberal”, pois isso significaria a existência de uma corrente, uma escola, uma tendência, movimentos, partidos agregados em torno de doutrinas, ideias, propostas liberais, e não consigo detectar nada semelhante em toda a nossa história. O que temos, de tempos em tempos, são expoentes que não sei se poderiam ser chamados de liberais, pois sua formação, sua atuação social, sua influência pública são no mais das vezes ocasionais, intercaladas, aos repentes de certos momentos ou de algumas lideranças identificadas com essas ideias, mas que agem mais por pragmatismo, ou em reação a trajetórias problemáticas, que adotam “algumas” (não todas) soluções mais ou menos liberais em função de necessidades urgentes ou de ensaios de curta duração nessa linha. Se juntássemos todos os liberais do Brasil veríamos que geralmente foram trabalhadores do mundo acadêmico, pensadores independentes, absolutamente únicos em seus respectivos meios acadêmicos ou governamentais. O nacionalismo instintivo, o protecionismo recorrente e o patrimonialismo explícito e implícito têm sido as características mais frequentes de nossa governança e do “pensamento” acadêmico.
É uma ironia da nossa trajetória nacional que as propostas consistentemente liberais tenham sido recorrentemente derrotadas pelas coalizões de escravistas, de industriais liztianos e por militares nacionalistas ao extremo. É também uma ironia que as poucas fases de ação mais ou menos tendentes a um horizonte liberal tenham sido feitas em reação aos desastres criados pela trajetória errática da maior parte dos governantes. É outra ironia o fato de que os poucos liberais que tenhamos tido em nossa história tenham atuado a contrario sensu do que se poderia esperar – e permito-me aqui citar alguns exemplos históricos.
Bonifácio construindo um governo forte para evitar o fantasma da desagregação nacional; Mauá tendo de fazer apelo a concessões do Estado para sustentar seus negócios privados; Campos Salles e Murtinho tendo de aumentar a proteção para resolver urgentes problemas fiscais e de endividamento; Oswaldo Aranha condescendendo com o autoritarismo de Vargas na falta de qualquer alternativa de governança; Gudin tentando colaborar com políticos antivarguistas para impulsionar políticas que nenhum deles, de fato, queria defender; Otavio Gouvêa de Bulhões e Roberto Campos construindo as bases do Estado todo-poderoso ao pretender reformar o Brasil e eliminar todas as mazelas existentes; Collor (um despreparado) tentando abrir o Brasil a golpes de martelo; FHC (que não era liberal) tendo de compor com a direita reacionária, pois a esquerda sectária recusou qualquer proposta reformista socialdemocrata; e agora um inepto, um destrambelhado, um alucinado capitão sabotando o trabalho dos poucos tecnocratas liberais existentes no seu governo.
É também evidente que o liberalismo não se sustentará, no Brasil, apenas pelo movimento das ideias, pelo número de professores (ou até políticos) que citam Mises e Hayek, ou quaisquer outros doutrinários liberais. Se o liberalismo não possuir uma conexão firme com a governança prática, com o oferecimento de soluções aos problemas reais do Brasil, com vida dos cidadãos, ele não terá muita chance de prosperar no Brasil.

4 Apesar de todo o justificado pesar com a condução da política externa no atual governo, o PT não era lá flor que se cheirasse no cenário das relações internacionais. Tinha, digamos, amigos bastante suspeitos. Como o senhor analisa aquele período, agora em perspectiva?
Creio poder dizer que sou mestre nesse tipo de análise, e talvez seja por isso que fui rejeitado pelo lulopetismo em geral, e pelo lulopetismo diplomático em especial. Muitos anos antes que se começasse a imaginar que os petistas pudessem chegar ao poder – embora todos os “progressistas” no Brasil, como entre os italianos nos tempos do PCI eurocomunista, desejassem a chegada da esquerda ao governo, pela suposta mensagem ética, contra a politicalha corrupta –, eu já escrevia sobre partidos políticos e política externa, e já identificava no PT um típico partido esquerdista latino-americano, com seus cacoetes e equívocos econômicos e diplomáticos. Pior: como antigo “aprendiz” dos movimentos de resistência à ditadura, sabia do que eram feitos os antigos guerrilheiros que se reciclaram na luta política e que se tornaram os “neobolcheviques” que passaram a controlar o partido, ao lado dos sindicalistas mafiosos, na irresistível ascensão do partido ao poder. Sabia que o apoio castrista ao partido desde o início, a existência de aparelhos clandestinos dentro do partido, nos levaria a um outro tipo de Nomenklatura, a uma cleptocracia improvisada, e desorganizada, mas gramscianamente capaz de controlar os “aparelhos do Estado”, e assim monopolizar o poder durante bastante tempo (e quase o conseguiram, não fossem por esses acidentes de percurso que sempre ocorrem, delatores e incompetentes que atrapalham).
Fui isolado desde o início, pois os companheiros – inclusive dentro do Itamaraty – sabiam disso, o que eu poderia fazer para desacreditá-los, por isso me colocaram no limbo. Foi bom para escrever, mas minha carreira ficou irremediavelmente destruída; não que isso me causasse qualquer depressão, mas fiquei isolado no meu blog, o quilombo de resistência intelectual de onde eu disparava petardos contra a política externa oficial. Resumi o essencial de minhas críticas no livro Nunca Antes na Diplomacia (2014), depois complementado pelo Contra a Corrente (2019), onde estão minhas análises mais consistentes sobre o lulopetismo diplomático. A editora quis fazer uma segunda edição do Nunca Antes, a que me opus, por achar que agora, sim, chegamos a um “nunca antes” jamais ultrapassado em nossa história diplomática, por razões que não posso expor detidamente neste espaço. Caberia, talvez, um novo livro, sobre os desvios de governança e de política externa desde o início do século.
Se me permito uma simples imagem gráfica sobre o que significa o “antigo regime” lulopetista comparativamente ao “novo regime” bolsonarista, em matéria de política externa e de diplomacia, poderíamos dizer o seguinte: partindo de uma dessas “pizzas” de economistas, que sinalizam o peso relativo das diferentes porções de um todo (o “bolo” completo), pode-se dizer que na pizza diplomática do lulopetismo diplomático apenas uma, ou no máximo duas fatias correspondiam às ações “cubano-bolivarianas” do assessor presidência da área e seus aliados no partido e na diplomacia. Todo o resto era puro Itamaraty: multilateralismo, adesão ao Direito Internacional, nacionalismo grudado na pele, regionalismo e integracionismo, desenvolvimentismo cepaliano ou unctadiano, terceiro-mundismo onusiano, o tradicional antiamericanismo moderado, o progressismo nos temas politicamente corretos e o novo ambientalismo, que emergiu progressivamente, após o desenvolvimentismo exacerbado de sempre. O que temos agora, na EA – a Era dos Absurdos –, é um horrível molho olavista que se espalha e contamina toda a pizza, mesmo se não consegue impregnar a “massa” da diplomacia profissional, pois falhou em conquistar a adesão de pessoas sensatas, dentro ou fora do Itamaraty, salvo, obviamente, os fanáticos já devidamente identificados com a mais alucinante trajetória de nossa história diplomática.

5 O que pensa a respeito da diplomacia brasileira hoje, sob a influência de Olavo de Carvalho; o voluntarismo dos filhos presidenciais; a estreita (subserviente?) relação com os EUA; o aceno a conflitos que não são nossos, como a questão de Israel; e, em especial, o recente desconforto com a China?
Cabe começar por uma precisão: NÃO existe, atualmente, NENHUMA diplomacia digna desse nome, pelo simples fato de que não tivemos, nunca tivemos, desde o início e até agora, uma EXPOSIÇÃO clara, explícita, do que seria essa diplomacia, ou do que deve ser uma POLÍTICA EXTERNA para o Brasil. Isto por algumas razões muito simples: está claro que o capitão é um inepto total para formular e apresentar qualquer ideia coerente a esse respeito; seu guru expatriado também é um completo inepto nessas questões; o conselheiro internacional do PSL, guindado à condição de assessor presidencial, é um mero aprendiz, um fanático olavista, totalmente despreparado em questões diplomáticas. O único indivíduo que poderia formular algumas ideias em política externa e diplomacia, o chanceler acidental, é um completo boneco nas mãos (e nos pés) da Bolsofamília e, sobretudo, do Rasputin da Virgínia. Ele se revelou incapaz de expressar qualquer postura coerente na sua área, se contentando apenas em agradar e obedecer a seus amos, além de apresentar alguns traços pessoais de desequilíbrio emocional merecedores de registro. Ou seja, estamos atuando no vácuo absoluto, a não ser pelos poucos instintos primitivos dos antimarxistas no poder e por sua adesão sabuja e incompreensível (já que contrária aos seus próprios interesses no comando de um país com postura própria nas relações internacionais), não aos Estados Unidos em geral, mas à figura do Trump em particular, ademais dos arautos da nova direita que ascende em alguns países, os poucos parceiros da diplomacia atual.
Todas as escolhas, opções e orientações determinadas por esse bando de alucinados foram invariavelmente equivocadas e prejudiciais aos interesses nacionais, tanto é que foram sabotadas, contidas ou revertidas e amenizadas pelos indivíduos racionais do governo e pela pressão dos lobbies econômicos interessados mais em defender seus negócios do que as políticas ou doutrinas consistentes com aqueles objetivos. O fato é que vivemos, no Brasil dos Bolsonaros, um apagão da inteligência e uma destruição de qualquer base racional para uma política externa razoável, como já tive a oportunidade de expor em meu livro Miséria da diplomacia: a destruição da inteligência no Itamaraty(2019, livremente disponível no blog).
Mas esse livro ainda é uma crítica “intelectual” da esquizofrenia diplomática, e não uma exposição pragmática dos problemas por ela acarretados, o que talvez eu faça numa obra futura. Em síntese, existe, sim, uma influência nefasta do sofista expatriado sobre o que se poderia chamar de “diplomacia olavo-bolsonarista”, mas cabe registrar, mais uma vez, que não existe nenhuma coerência nos seus fundamentos e diretrizes de atuação, pois ninguém ali está em condições de fazê-lo, e o chanceler acidental treme de medo de expor qualquer ideia própria. Daí que esses “incidentes” criados erraticamente pelos bolsonaristas mais radicais sejam apenas a expressão da completa indigência de raciocínio desses elementos, pois não se lhes pode imputar nenhum conhecimento ou inteligência a respeito de questões internacionais.
Resumindo: não existe NENHUMA política externa atualmente no Brasil, e se formos admitir que existe alguma diplomacia – o que também é algo duvidoso, embora o Itamaraty não pode deixar de funcionar –, ela simplesmente representa um ponto fora da curva, de fato, algo JAMAIS visto em toda a nossa história bissecular. Vai ficar no registro histórico como o período mais sombrio da diplomacia profissional e o ponto mais baixo da credibilidade do Brasil no exterior, atualmente já rebaixada de forma indigna em função dos néscios, loucos e submissos que temos atuando em torno de ambas no momento.

6 Por fim: o senhor tem sofrido represálias do ministro Ernesto Araújo? De alguma maneira, sua atuação crítica lhe tem trazido prejuízo ou complicações?
Como, por espírito e vocação, eu sou o único “contrarianista de plantão” no Itamaraty – e isso desde sempre, daí a longa travessia do deserto que me foi imposta pelos lulopetistas –, era inevitável que eu fosse sancionado pela tribo de alucinados que se apossou do controle do Itamaraty. Registro que o chanceler acidental se situa apenas em terceiro ou quarto escalão da cadeia decisória naquele ministério, pois todas as ordens vêm de fora, e ele só requer submissão (pois sabe que nunca terá adesão) aos novos déspotas temporários. Eu já deveria ter sido expurgado desde o primeiro dia do governo, e só não o fizeram porque não tinham um substituto para o cargo; fui, contudo, proibido, desde o dia 2/01/2019, de empreender qualquer atividade, até a aprovação de nova chefia. Sempre soube que seria exonerado. Alguns colegas me diziam, em 2018, para requerer um posto no exterior, como fizeram vários outros, prevendo a tempestade. Não quis fazê-lo, pois nunca fui de pedir nada a ninguém. Na verdade, gosto do mundo das ideias e das leituras, de reflexão e de produção intelectual. Era o que pretendia fazer, até o chanceler ordenar “retaliação maciça”.
Com efeito, o chanceler e o seu chefe de gabinete deram ordens à administração para seguir escrupulosamente minha “catraca eletrônica”. Sem qualquer aviso prévio ou demanda de compensação, publicaram no Boletim de Serviço “faltas injustificadas” e “atrasos e saídas antecipadas”, para a partir daí passar a ordenar descontos punitivos no contracheque, assim como “reposição ao Erário” por “pagamentos a maior” por “horas não trabalhadas”. A ironia de toda essa história é que estou lotado, mas apenas formalmente, na Divisão do Arquivo – respondendo a um primeiro secretário, a quem tenho de pedir autorização para sair de férias ou qualquer outra providência administrativa; sem qualquer função precisa, as “horas não trabalhadas” seriam para ficar olhando as paredes oito horas por dia, cinco dias por semana.
Por todas essas razões, meu caso pode ser assimilado ao de K, no Processo de Franz Kafka, como sugeriu o embaixador Rubens Ricupero: deu o título ao meu artigo “Kafka no Itamaraty”. Como os descontos já foram feitos, e outros se prenunciam – sendo que a intenção real, do chanceler acidental e do chefe de gabinete, seria um processo administrativo para demissão sumária por “inassiduidade habitual” –, meu único recurso, na presente fase, foi o de abrir uma ação na Justiça para obstar às manobras intimidatórias e punitivas da dupla. Parafraseando o camponês da Prússia, acredito que ainda existam juízes em Brasília.


Gustavo Nogy
**Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



2 comentários:

Anônimo disse...


Como a história do Brasil pode ajudara a entender o atual contexto político do país. 

Aula Ao Vivo com o Professor Marco Antônio Villa: 

https://www.youtube.com/watch?v=0fnmNnN5gHo&feature=youtu.be 

Programado para 22 de abril de 2020. 

Anônimo disse...

Fico admirado com o espírito de independência que você tem, Paulo. De fato, são tempos de exceção; mas é inacreditável que tenhamos que nos submeter a indivíduos tão lunáticos e fora de órbita - somos mais fortes, eu não tenho dúvida. Nós temos a inteligência e a militância verdadeiramente democrática do nosso lado, o que explica vermos a destruição escancarada das instituições, entre elas o Itamaraty (o que diria, o que faria o Barão do Rio Branco?) ante nossa letargia? 


sábado, 11 de abril de 2026

As várias guerras do Golfo - Paulo Roberto de Almeida

As várias guerras do Golfo:
Bush pai conduziu a primeira guerra do Golfo, em 1991, devidamente autorizado pelo CSNU, para liberar o Kuwait da dominação iraquiana. Derrotou o exército de Saddam Hissein, mas não conduziu "regime change". Parou antes de chegar a Bagdá.
Bush filho conduziu uma segunda guerra do Golfo, em 2003, sem autorização do CSNU, e totalmente desastrosa, para os EUA e todos os países da região e fora dela.
Trump, o único no bestialógico americano a caminho da decadência, conduziu uma terceira guerra do Golfo ainda mais desastrosa do que todas as besteiras que os americanos já fizeram em matéria de guerras imperiais: não tinha objetivos claros (ou os que tinha eram inalcançaveis), nunca soube o que fazer, só obedecia as ordens de seu amigo Netanyahu. Merece a confusão que criou. Perdeu a confianças do mundo inteiro. Está afundando os EUA.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 11/04/2026

sexta-feira, 10 de abril de 2026

A Política Externa do Próximo Governo: o que NÃO fazer? - Paulo Roberto de Almeida (revista Será?)

A Política Externa do Próximo Governo:
o que NÃO fazer?

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor
Revista Será?, ano xiv, n. 705, abr 10, 2026

Sobre a preparação de uma nova diplomacia

O Instituto Ética e Democracia, associado a esta revista Será? – em parceria com o Movimento Roda Democrática e o Ateliê de Humanidades –, empreendeu, neste ano particularmente relevante para a política nacional, um processo de reflexão, de debates e de propostas, chamado Projeto Brasil, que pretende ser um espaço devotado à reflexão qualificada, ao diálogo e à formulação de políticas para o futuro do país. Suas atividades públicas tiveram início na noite de 9 de outubro por uma exposição e debates em torno da política externa do próximo governo, animado pelo embaixador Rubens Barbosa em interação com três dos membros do projeto: o cientista político Marco Aurélio Nogueira, o economista Sergio C. Buarque e este mesmo sociólogo que aqui escreve.

Clique no link para assistir o debate >>>
https://www.youtube.com/live/nFxJ2fVtOqU

Não apenas o mundo atual está fragmentado, instável e incerto, em função do unilateralismo agressivo de duas das três superpotências, como a própria política nacional também se encontra angustiosamente dividida no que já foi descrito pelos observadores como uma “polarização resiliente”, ou seja, uma divisão mais ou menos rígida das forças políticas, e do eleitorado, nos dois extremos que já dividem a política brasileira desde aproximadamente duas décadas. Nessas condições, fica difícil sugerir, determinar, ou sequer aventar, qualquer linha diretriz mais específica para as relações exteriores do governo que tomará posse em janeiro de 2027, uma vez que o país e a sua diplomacia poderão ser novamente arrastados para um dos dois polos antagônicos que marcam hoje o cenário político-partidário.

Uma alternativa a um enunciado de orientações positivas para a política externa e a diplomacia do próximo governo – supondo-se que um dos dois extremos assumirá o comando do país – consistiria numa listagem de diretrizes “negativas”, ou seja, políticas não desejáveis para a nação e para a sua presença internacional. Uma relação desse tipo vai necessariamente incidir sobre posturas e opções já presentes, no presente imediato ou num passado próximo, que se revelaram inadequadas do ponto de vista da autonomia de nossa política externa, assim como no plano das alianças e opções menos atraentes ou até negativas para o processo de desenvolvimento econômico e social do país.

Vamos começar pelo lado mais estapafúrdio, evidenciado no governo de Jair Bolsonaro, quem, mesmo antes de tomar posse, já prometia total subserviência ao presidente Donald Trump, no primeiro mandato deste. A campanha eleitoral começou por uma viagem, no início de 2018, à Coreia do Sul, um dos mais avançados bastiões tecnológicos do mundo, seguida, logo após, por uma visita a Taiwan, numa expressa demonstração de recusa da “China comunista” e seus supostos perigos à segurança do Brasil, refletindo as mais alucinantes obsessões da extrema-direita americana. Durante a campanha, o candidato da direita mais reacionária prestou demonstrações seguidas de futuro alinhamento às políticas do presidente Trump (mesmo nos casos opostos ao interesse nacional, como a repressão aos, e a expulsão sumária dos imigrantes ilegais).

No seguimento da vitória, já conectado ao ideólogo-mor do trumpismo, Steve Bannon, o presidente eleito recebeu a visita interessada do então conselheiro de Segurança Nacional de Trump, John Bolton, velho falcão da diplomacia americana e um consistente inimigo das posições independentes da diplomacia profissional brasileira, “desalinhada” em relação aos desejos da direita americana desde os tempos da primeira Guerra Fria. Ele tinha vindo “esquentar os motores” de uma aventura prioritária na agenda de Trump: a derrubada do governo chavista da Venezuela, já sob o comando de Nicolas Maduro. Aparentemente, a visita colocou em marcha a primeira incursão da diplomacia bolsonarista em matéria de intervenção externa na política interna de um outro Estado, iniciativa expressamente proibida pela Carta da ONU e pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas. O patético chanceler acidental escolhido pelo presidente eleito – sob indicação do guru Olavo de Carvalho –se coordenou com o Secretário de Estado de Trump para montar uma “ofensiva fronteiriça” contra a Venezuela, a partir da Colômbia e do próprio Brasil (em Roraima). Foi um fracasso, obviamente, mas os intervencionistas não se limitaram a isso.

Um episódio ridículo, a todos os títulos, foi o “I love you, Trump”, disparado por Bolsonaro num fugaz e rápido encontro com o seu objeto de amor, no ingresso de um e na saída de outro na tribuna da Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2019. Mais grave ainda, antes e depois disso, foi o total alinhamento da política externa, e por definição da diplomacia, com as posturas regressistas, até mesmo reacionárias (do ponto de vista das posições anteriores do Itamaraty), em relação aos temas sociais, ambientais, de gênero, de redução de desigualdades e de promoção e defesa de minorias, todos eles pautados pelas obsessões mais alucinantes da extrema-direita americana. Os foros do multilateralismo – ONU, Unesco, Conselho de Direitos Humanos, COPs, até a OMS, o que produziu milhares de mortes excedentárias, pelo negacionismo vacinal – passaram a ser desprezados e hostilizados, em primeiro lugar esse próprio conceito e mecanismo, recusado liminarmente. O chanceler acidental protagonizou, assim como o próprio presidente, aparições burlescas (ao mesmo tempo tristes, do ponto de vista da diplomacia profissional), chegando a admitir a condição de “país pária”, para o Brasil, no cenário internacional. Não cabe aqui reproduzir os mais bizarros exemplos da diplomacia submissa de Bolsonaro com respeito às posturas de Trump (de 2019 a 2020), que eu já tive a ocasião de repercutir em quatro livros digitais discutindo esse período sombrio da política externa, mas também da diplomacia brasileira.

Continuando na vertente do que “não fazer”, mas na direção oposta, nem seria preciso relembrar aqui a afeição especial que a política externa lulopetista sempre dedicou a regimes de esquerda, mesmo ditaduras execráveis, ou até aquelas deploráveis de direita, quando convenientemente antiamericanas, o que sempre foi uma opção preferencial dos “neobolcheviques” do PT. Votações sensíveis no âmbito do Conselho de Direitos Humanos, normalmente pautadas pela abstenção da diplomacia profissional – para não “politizar a questão”, alegavam os diplomatas –, passaram a receber opções incompatíveis com nossa tradição de respeito aos direitos humanos, mesmo quando relativas às ditaduras mais vistosas, como a Birmânia (Mianmar) dos generais e a Coreia do Norte da dinastia Kim.

China e Rússia assumiram um lugar especial no panteão da “diplomacia ativa e altiva” dos companheiros, especialmente a partir da conformação do Bric (2006-2009), depois promovido a Brics (2011) e a Brics+ (2024-2025). Poucas evidências desse novo alinhamento foram tão vergonhosamente escandalosos de uma mínima decência no plano dos direitos humanos quanto a entrega imediata à ditadura castrista de dois boxeadores cubanos que pediam asilo no Brasil, por ocasião dos Jogos Panamericanos de 2007, remetidos de volta à ilha-prisão graças a um providencial jatinho enviado rapidamente por Chávez com rota direta para Cuba. O próprio chanceler ordenou vetar a avaliação pela OEA do fuzilamento de opositores cubanos, sob a justificativa de que Cuba havia sido excluída da OEA (o que é incorreto; ela tinha sido apenas suspensa)

O lado mais escabroso do ponto de vista da tradição doutrinal brasileira – que vem de Rio Branco, de Rui Barbosa, de Oswaldo Aranha, de San Tiago Dantas, entre outros juristas e diplomatas que construíram os fundamentos da adesão irrestrita da diplomacia brasileira ao Direito Internacional – veio a ser a total indiferença do governo Dilma Rousseff em relação à Carta da ONU quando da invasão e da anexação ilegais da península ucraniana da Crimeia em 2014, dizendo tratar-se de um “problema interno” à Ucrânia. O governo Bolsonaro adotou postura pusilânime quando da invasão total da Ucrânia, em 2022, uma semana depois de ter feito visita não recomendada pelo Itamaraty, afirmando até ser “solidário” à Rússia, postura seguida (e até exacerbada) na gestão Lula 3, a partir de 2023. Em declarações oficiais, tanto no governo Bolsonaro, quanto sob Lula 3, a diplomacia oficial jamais fez qualquer distinção entre o agressor e o agredido, repetindo as mentiras russas a propósito das “preocupações de segurança de ambas as partes”, como elas fossem reciprocamente equivalentes em potencial ofensivo.

Levado em visita à cidade de Bucha, o chanceler recusou-se a admitir os crimes de guerra russos cometidos contra civis, alegando tratar-se “apenas de fotografias”. Lula chegou ao cúmulo de pretender trazer Putin – procurado pelo TPI por crimes contra a humanidade, por sequestro de crianças ucranianas– ao Brasil, mesmo ao preço de fazer o país denunciar o Estatuto de Roma e abandonar o TPI. A conivência da diplomacia petista com as posições russas em relação a uma solução negociada para a guerra de agressão à Ucrânia chegou a ser patética, com Lula recomendando que o país agredido cedesse territórios ao país agressor, como “solução” para “acabar com a guerra”.

Dois precedentes da diplomacia brasileira, numa era até anterior à carta da ONU, oferecem um testemunho sobre outros tempos e outros princípios. O Estado novo, até conhecido por simpatias fascistas, não aceitou a usurpação territorial da Polônia pela Alemanha nazista, em 1939, assim como jamais reconheceu, no ano seguinte, a absorção dos três Estados bálticos, países com os quais tínhamos relações diplomáticas, pela União Soviética (postura mantida até 1961). Ou seja, até a ditadura varguista se mostrou fiel a princípios que seriam consagrados na Carta da ONU, em 1945, e que hoje estão inscritos nas cláusulas de relações internacionais do artigo 4º da CF-1988.

Em síntese, o que não cabe fazer, no próximo governo, seria exibir uma política externa e uma diplomacia comprometedoras de nossa autonomia decisória, ao apoiar qualquer uma das grandes potências em suas infrações ao Direito Internacional, seguir posturas notoriamente contrárias aos valores e princípios de nossas tradições jurídicas ou escusar-se de expressar uma opinião conforme aos fundamentos doutrinais de nossa adesão aos direitos humanos, consagrados solenemente em tratados ratificados pelo Congresso e seguidos judiciosamente pelas nossas altas cortes. Enfim, não é difícil identificar o que NÃO DEVE SER FEITO em matéria de política externa: basta seguir o bom senso e a história pregressa de nossa diplomacia.

Brasília, 5273: 9 abril 2026, 4 p.



Questões sobre a guerra perdida de DJT - Paulo Roberto de Almeida

Um site de notícias econômicas consultou-me a respeito de questões de atualidade. Enviou-me três perguntas, às quais respondi da seguinte maneira:


Respostas a questões de agência de notícias.
Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.
Nota sobre questões do universo trumpiano

⁠1) Por que os EUA decidiram entrar na guerra?

PRA: Nem os EUA, nem Trump decidiram entrar na guerra; foi Netanyahu quem convenceu Trump de que o Irã ainda representava um “perigo iminente” para os EUA, a despeito do presidente americano ter declarado, anteriormente, que “ele” havia “obliterado” o programa nuclear iraniano, nos bombardeios pesados de junho de 2025. Como se sabe, Netanyahu PRECISA de guerras para se manter no poder e evitar assim a continuidade do processo na Suprema Corte israelense por acusações de corrupção contra si. Aproveitou, assim, a megalomania de Trump, e seu excesso de confiança depois de ter “extraído” o ditador da Venezuela e começado a tutelar o regime chavista, que continua praticamente intacto. Nunca foi tão fácil enganar um presidente inepto, narcisista maligno e paranoico, como já classificado por psiquiatras, e cercado por assessores ineptos e totalmente submissos ao seu poder irrestrito, até inconstitucional, como evidenciado diversas vezes. Trump pensava reeditar a experiência venezuelana no Irã, o que é um trágico erro em detrimento dos recursos econômicos e humanos dos americanos, a começar pelas suas Forças Armadas, cujos generais correm o sério risco de serem acusados de crimes de guerra, pelos ataques indiscriminados a alvos civis no Irã.

2) O que Washington busca conquistar com o conflito?

PRA: Os objetivos originais eram grandiosos, como “mudança de regime” no Irã, eliminar não só a capacidade ofensiva e dos “proxy agents” do Irã (Hezbollah no Líbano, Hamas na Faixa de Gaza, Houthis no Yemen), mas também a própria capacidade defensiva do regime dos aiatolás. Todas essas metas eram virtualmente impossíveis de serem eliminadas sequer diminuídas, a despeito dos duros bombardeios, mas NENHUM desses objetivos poderiam ser alcançados por bombardeios aéreos, o que o pessoal da inteligência americana e do Pentágono deve ter dito aos incompetentes assessores do presidente, a começar pelo bizarro Secretário da Guerra, um incompetente e alucinado total. Trump já mudou diversas vezes de objetivos, inclusive o de obter facilmente a abertura do estreito de Ormuz, que já estava aberto e desimpedido antes dos ataques. Ele se subordinou, então, aos dez pontos apresentados pelo Irã, que representam uma derrota total para os seus objetivos. Mas o processo agora vão entrar numa dupla via: negociações caóticas em Islamabad e bombardeios esparsos aqui e ali. Persistem dúvidas sobre a “parte libanesa” do conflito, que contemplam unicamente os objetivos de Netanyahu, o que vai dificultar qualquer acordo em torno das questões do Golfo.

3) Quais os riscos e consequências dessa decisão?

PRA: Depois de 1929, da Depressão dos anos 1930, da crise dos países em desenvolvimento do final dos anos 1990 e da crise financeira de 2008-2009, ademais das duas crises do petróleo (1973 e 1979), o mundo pode estar no limiar de numa nova grande crise, que pode receber o nome de “crise Trump”, pois todos os indicadores econômicos, domésticos e internacionais dos EUA, assim como as evidências para TODOS os países do planeta, refletem a iminência de uma crise latente, se arrastando por diversos meses, em função, EXCLUSIVAMENTE, da irracionalidade, da opção pelo CAOS, provocadas pelas ações piromaníacas do presidente desequilibrado, incompetente, doentio, e cercado de assessores medíocres, incompetentes e submissos.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5274, 10 abril 2026, 2 p.

Um diplomata herói nas primeiras incursões pela América andina no século XIX: Duarte da Ponte Ribeiro - Paulo Roberto de Almeida

Um diplomata herói nas primeiras incursões pela América andina no século XIX: Duarte da Ponte Ribeiro

Paulo Roberto de Almeida

        Meu amigo e colega historiador Luiz Cláudio Villafañe Gomes Santos prepara uma nova biografia do grande diplomata da primeiríssima fase da independência e afirmação da diplomacia brasileira nascente, Duarte da Ponte Ribeiro, em substituição à tradicional de um descendente seu, dos anos 1950. Eu tinha feito um primeiro artigo, parcial, sobre a vida dele, sem abordar, propriamente, seu imenso labor na diplomacia brasileira, apenas suas agruras e aflições de uma vida muito sacrificada. Ele vai aqui reproduzido como possível estímulo aos que se interessaram por esse diplomata excepcional, pela bravura e pela competência, um dos formuladores da diplomacia das negociações fronteiriças desde o primeiro Reinado.

           Divulgado novamente na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/165604401/1381_Um_diplomata_a_cavalo_Duarte_da_Ponte_Ribeiro_2005_


Laurence Badel, professora da Sorbonne, historiadora das relações internacionais com ênfase na participação das mulheres (H-Diplo)

Laurence Badel, professora da Sorbonne, historiadora das relações internacionais com ênfase na participação das mulheres:


H-Diplo|Jervis Forum Article Review 191: Pierre on Badel, "'Auxiliary' Jobs?"

https://networks.h-net.org/group/discussions/20146045/h-diplojervis-forum-article-review-191-pierre-badel-auxiliary-jobs

christopher ball
The Jervis Forum

H-Diplo | Robert Jervis International Security Studies Forum

Article Review 191

Laurence Badel, “‘Auxiliary’ Jobs? French Women’s Multiple Entry Pathways into Diplomacy, 1900–1947,” Diplomacy & Statecraft 35:3 (2024): 432-455. DOI: https://doi.org/10.1080/09592296.2024.2383001.

9 April 2026 | PDF: https://issforum.org/to/JAR-191 | Website:rjissf.org

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Editor: Diane Labrosse
Commissioning Editor: Lori Maguire
Production Editor: Christopher Ball
Pre-Production Copy Editor: Mia Tellmann



Marine Pierre, Saxo Institute, University of Copenhagen

The scholarship of Laurence Badel focuses on modern diplomatic practices, women’s roles in diplomacy and international relations, and the relationships between diplomacy, economic actors, and European integration, while also contributing to the historiography of international relations and offering reflexive perspectives on the field as a discipline.[1] This article offers a significant and methodologically innovative contribution to the historiography of diplomacy, gender, and the state in the first half of twentieth-century France. By adopting a broad sociological definition of diplomacy as a socio-professional sphere rather than a narrowly institutionalized career, Badel challenges the dominant narrative that has long confined women’s entry into French diplomacy to a handful of exceptional figures who succeeded in passing the diplomatic competitive examination. Instead, she reconstructs a far more complex landscape of female participation that is structured around multiple entry pathways, which are often informal, precarious, and officially classified as “auxiliary,” and nonetheless involved substantial political, administrative, and cultural responsibilities.

The article situates itself explicitly within the historiographical renewal initiated by gender history, the New Diplomatic History, and the New Consular History.[2] Responding to Emily Rosenberg’s call to move beyond celebratory histories of “pioneering women,”[3] Badel proposes a shift in analytical focus from formal titles and examinations to practices, functions, and trajectories. In doing so, she questions the analytical validity of the dichotomy between “diplomatic professions” and “auxiliary professions,” a distinction which is deeply embedded both in administrative taxonomies and in the self-representations of diplomatic actors themselves. To replace this binary, she advances a functional mapping of the diplomatic sphere that was structured around four broad categories of activity—logistics, support, communication, and political work—within which women were present in far greater numbers and with far greater responsibilities than conventional narratives suggest.

The core argument of the article is that throughout the first half of the twentieth century, women were not marginal actors waiting passively for formal inclusion in the diplomatic corps. Rather, they were already deeply embedded in the functioning of the French diplomatic apparatus, both at headquarters and abroad, through a wide range of positions that were officially classified as auxiliary. These roles (typists, clerks, translators, cipher specialists, archivists, and rédactrices) often entailed responsibilities that went well beyond the supposedly subordinate nature of their status. In practice, many women drafted diplomatic notes, managed services, conducted cultural diplomacy, and assumed political responsibilities indistinguishable from those of male diplomats, albeit without the corresponding recognition, remuneration, or career security.

One of the article’s major strengths lies in its careful deconstruction of the dominant narrative surrounding the “first women diplomats,” particularly the figure of Suzanne Borel (later Suzanne Bidault), the first woman diplomat in France prior to 1945. Through a critical reading of autobiographical sources, Badel demonstrates how Borel’s memoirs contributed to a heroic and individualized account of women’s entry into diplomacy, one that minimized both the collective dimensions of feminist mobilization and the pre-existing presence of women in the diplomatic sphere.[4] By contrasting these narratives with archival documentation and contemporary press sources, Badel reveals the extent to which autobiographical memory itself participated in the symbolic construction of a male-dominated professional identity, even when articulated by women.

Methodologically, the article is grounded in an impressive and original corpus of sources. Particularly noteworthy is Badel’s use of a previously unpublished photographic register of Quai d’Orsay personnel from 1938–1940, which provides a rare and concrete snapshot of the gendered composition of the ministry on the eve of the Second World War. This source allows her to move beyond abstract categories and to reconstruct the actual distribution of tasks, revealing that women were present across all four functional categories, including political work. Personnel files, recruitment regulations, competitive examination records, and ministerial correspondence further enable Badel to trace individual trajectories and institutional constraints with remarkable precision. One of the most striking results of this approach is the way in which it brings back into view a large number of women whose names, careers, and biographies had largely disappeared from the historiography, thereby opening up rich avenues for future prosopographical and comparative research.

The article convincingly shows that auxiliary status functioned both as a barrier and as an opportunity. While the precarious nature of auxiliary employment exposed women to job insecurity, salary discrimination, and limited prospects for advancement, it also constituted one of the primary gateways into diplomatic work at a time when formal examinations were closed or restricted. Technological changes, particularly the introduction of the typewriter, played a crucial role in feminizing administrative labor and creating new points of entry into the diplomatic sphere. Yet Badel demonstrates that these technical positions were rarely confined to purely mechanical tasks and often evolved into substantive political and administrative responsibilities.

The article also examines how the disruptions produced by the Second World War, the Vichy regime, the Resistance, and the Liberation reshaped women’s access to diplomatic careers within the French institutional context. Badel analyzes the creation of the cadre latéral in 1944 as an exceptional recruitment mechanism designed to integrate Resistance fighters into a diplomatic corps affected by purges and regime change. Although not conceived as a gendered policy, this mechanism enabled a limited number of women to obtain diplomatic or consular appointments. At the same time, the article emphasizes the uneven and often contradictory outcomes of this process, including blocked careers, downgrading, and the persistence of institutionalized gender discrimination.

The analysis of postwar trajectories further underscores the structural limits of these wartime openings. Restrictions on married women’s employment,[5] conflicts over reclassification, and unequal access to the newly created corps of civil administrators reveal the resilience of gendered hierarchies within the French state. Even women whose Resistance credentials were indisputable encountered institutional resistance, which illustrates the fragility of gains obtained under exceptional circumstances. In this respect, Badel’s article contributes not only to diplomatic history but also to a broader understanding of how gendered inequalities were reconfigured rather than eliminated during moments of political rupture and administrative reconstruction.

While the article’s empirical richness is one of its greatest strengths, it also raises questions that invite further discussion. Its focus on France allows for a finely grained institutional analysis, but it limits the scope for systematic international comparison. Badel gestures toward parallels with Switzerland and Britain, yet a more explicit comparative framework might further clarify the specificity, or representativeness, of the French case.[6] At the same time, the article opens multiple promising avenues for future research, notably on transnational circulations of female diplomatic labor, comparative recruitment regimes, and the long-term effects of auxiliary careers on professional identities.

These limitations do not detract from the article’s overall contribution. By foregrounding auxiliary careers and subaltern positions, Badel successfully contests conventional definitions of diplomacy and invites historians to reconsider the boundaries of the diplomatic profession itself. Her work demonstrates that the history of diplomacy cannot be fully understood without integrating the gendered division of labor, the role of administrative support functions, and the impact of exceptional political contexts.

In sum, “Auxiliary” Jobs? French Women’s Multiple Entry Pathways into Diplomacy, 1900–1947” represents a major contribution to the social history of diplomacy and to the historiography of gender and the state. It will be of particular use to scholars working on diplomatic history, gender studies, and the sociology of public administrations, and it provides a compelling methodological model for future research on subaltern actors in international relations.



Marine Pierre is a postdoctoral researcher at the Saxo Institute, University of Copenhagen. Her work focuses on the social and diplomatic history of international organizations, with particular attention to expertise, transnational careers, and bureaucratic cultures. She is currently conducting research on the League of Nations.




[1] Laurence Badel is Professor of Modern History and International Relations at Université Paris 1 Panthéon-Sorbonne. Her previous publications include Écrire l’histoire des relations internationales: genèses, concepts et perspectives XVIIIe-XXIe siècle (Armand Colin, 2024); “Au défi des mots, des émotions et des « non-lieux » Écrire l’histoire des relations internationales contemporaines au 21e siècle,” 20 & 21. Revue d'histoire, 162:2 (2024): 47-62, DOI: https://doi.org/10.3917/vin.162.0047; “Les enjeux de la ‘diplomatie féministe’. Représentation de l’État et promotion des droits,” Annuaire français de relations internationales (2023): 927-942, DOI: https://doi.org/10.3917/epas.ferna.2023.01.0927; “De La capitale au forum. Fonctions, usages, hiérarchies de la capitalité diplomatique (XIXe-XXIe siècle),” Revue Historique 703:3 (2022): 625-662, DOI: https://doi.org/10.3917/rhis.223.0625; Diplomaties européennes XIXe-XXe siècle (Presses de Sciences Po, 2021); Histoire et relations internationales. Pierre Renouvin, Jean-Baptiste Duroselle et la naissance d’une discipline universitaire (Éditions de la Sorbonne, 2020); Un milieu libéral et européen. Le grand commerce français 1925–1948 (Institut de la gestion publique et du développement économique. Comité pour l’histoire économique et financière de la France, 1999).

[2] In addition to the already rich historiography mobilized by Badel, it is also possible to point to a broader body of scholarship on diplomacy and gender, including: Nevra Biltekin, “Unofficial Ambassadors: Swedish Women in the United States and the Making of Non-State Cultural Diplomacy,” International Journal of Cultural Policy: CP, 26:7 (2020): 959-972, DOI: https://doi.org/10.1080/10286632.2020.1823975; Jennifer A. Cassidy, Sara Althari, “Introduction. Analysing the Dynamics of Modern Diplomacy through a Gender Lens,” in Jennifer A. Cassidy, eds., Gender and Diplomacy (Routledge, 2017): 1-31; Cynthia Enloe, Bananas, Beaches, and Bases: Making Feminist Sense of International Politic (University of California Press, 2014 (1990)); Helen McCarthy, Women of the World. The Rise of the Female Diplomat (Bloomsbury, 2014).

[3] Emily Rosenberg, “Gender,” The Journal of American History, 77:6 (1990): 116-124.

[4] Suzanne Bidault, Par une porte entrebâillée ou comment les Françaises entrèrent dans la Carrière (La Table ronde, 1972), 219.

[5] While marriage is often invoked as a constraint on women’s diplomatic careers, a growing literature has also shown that the diplomatic sphere, and the men who officially embodied it, relied heavily on the informal yet essential labor of diplomats’ spouses in sustaining diplomatic representation, sociability, and everyday diplomatic practice: Isabelle Dasque, Le pouvoir des femmes de diplomates. XIXe-XXIe siècles (Nouveau Monde Éditions, 2025); Alexandra Penler, The Quiet Diplomats: American Diplomatic Wives and Public Diplomacy in the Cold War, 1945–1972, PhD Thesis (2023); Erlandsson Susanna, Personal Politics in the Postwar World. Western Diplomacy Behind the Scenes (Bloomsbury Academic, 2022); Molly M. Wood, “’Commanding Beauty’ and ‘Gentle Charm’: American Women and Gender in the Early Twentieth-Century Foreign Service,” Diplomatic History 31:3 (June 2007): 505-530, DOI: https://doi.org/10.1111/j.1467-7709.2007.00629.x.

[6] On other national cases of women and diplomatic career, we can note the following: Brigitta Niklasson, “Introduction: Approaching Gender and Ministries of Foreign Affairs,” The Hague Journal of Diplomacy 17 (2022), 339-369, DOI: https://doi.org/10.1163/1871191x-bja10123; Philip Nash, Breaking the Protocol: America’s First Female Ambassadors, 1933–1964 (The University Press of Kentucky, 2020); Elise Stephenson, “Domestic Challenges and International Leadership: A Case Study of Women in Australian International Affairs,” Australian Journal of International Affairs 73:3 (2019): 234-253, DOI: https://doi.org/10.1080/10357718.2019.1588224; Molly M. Wood, “Wives, Clerks, and ‘Lady Diplomats’: The Gendered Politics of Diplomacy and Representation in the US Foreign Service, 1900–1940,” European Journal of American Studies 10:1 (2015): DOI: https://doi.org/10.4000/ejas.10562.


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