Mostrando postagens com marcador Monica De Bolle discute alguns aspectos competição eleitoral no tocante à política externa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Monica De Bolle discute alguns aspectos competição eleitoral no tocante à política externa. Mostrar todas as postagens

sábado, 12 de setembro de 2026

Monica De Bolle discute alguns aspectos competição eleitoral no tocante à política externa

Monica De Bolle discute alguns aspectos competição eleitoral no tocante à política externa:

"Política externa e a submissão ao governo Trump como o tema real das eleições

O que mais me preocupa, e venho dizendo isso há meses nestas lives, é a postura brasileira em relação à sua própria política externa e o que os candidatos à Presidência estão oferecendo nesse terreno, se é que estão oferecendo alguma coisa. Acompanhei, por alto, o discurso do presidente Lula neste 7 de setembro. Gostei em parte do conteúdo, mas faltam esclarecimentos e visões sobre política externa num mundo que muda muito rapidamente e diante de uma política americana extremamente hostil à América Latina e, para usar um termo de que não gosto, desenvergonhadamente imperialista.

Entendo que política externa é um tema difícil para o eleitorado. Mas, neste instante, não é tão complicado explicar às pessoas que o Brasil precisa ter entre suas lideranças gente capaz de tratar com os Estados Unidos com a devida altivez. Isso significa que não podemos ter na Presidência e em outros altos cargos da República pessoas que queiram ser submissas ao governo Trump. Isso será péssimo para o Brasil, e esse péssimo não tem ideologia: atingirá a todos, a população como um todo e o próprio empresariado. Como estamos vendo há pelo menos vinte meses, o governo americano não é um parceiro confiável. Não tem aliados, não tem amigos, e entra para fazer valer os seus interesses a qualquer custo. Sabemos que há candidatos à Presidência que vão querer submeter o Brasil aos Estados Unidos, e não haverá tratamento amigável para um Brasil submisso. O Brasil será tratado como capacho, sobretudo na economia. Portanto, estas eleições também são sobre a capacidade do Brasil de ditar suas próprias regras, formular suas próprias políticas e conduzir o país sem a ingerência de terceiros.
 

A Venezuela como Estado-fantoche e o uso dos instrumentos do Pentágono

Não é difícil olhar para o entorno da América Latina e ver o que está acontecendo. O Brasil não é a Venezuela e é completamente diferente dela. Mas o dito acordo que o governo Trump acabou de fazer com o governo que instalou na Venezuela — o governo chavista e madurista de Delcy Rodríguez e adjacências — submete o petróleo, recurso soberano de um país, aos Estados Unidos. Desde a remoção de Maduro em janeiro, a Venezuela tem um governo que continua não democrático, sem legitimidade e autoritário, e que hoje está completamente nas mãos de Trump e de seu entorno. A Venezuela é hoje um Estado-fantoche dos Estados Unidos, o que significa que o termo “venezuelização”, tão usado no passado para denotar cenários de domínio da “extrema esquerda”, tem hoje outra conotação. “Venezuelização”, hoje, significa ser laranja do Laranjão, ser marionete do octogenário truculento que ocupa a Casa Branca. Há um candidato nessa corrida que já fez de tudo para dizer a todos que seu objetivo é venezuelizar o Brasil. O nome dele é Flávio Bolsonaro.

“Venezuelização”, hoje, significa ser laranja do Laranjão, ser marionete do octogenário truculento que ocupa a Casa Branca.

Há um aspecto institucional dessa história do petróleo venezuelano que vale a pena registrar. O uso de instrumentos do Pentágono para pôr as mãos no petróleo alheio vem ocorrendo sem qualquer governança. Os mecanismos internos do Pentágono que vêm sendo usados foram definidos pelo Congresso americano para empréstimos, e não para a aquisição de participação acionária direta em projetos. Ou seja, o próprio uso desses mecanismos não está de conformidade com a governança dos Estados Unidos. Há eleições legislativas aqui em novembro e, caso os democratas recuperem uma participação maior na Câmara e talvez no Senado, deve haver muita controvérsia em torno disso. Nós não precisamos herdar esse tipo de problema, tampouco criá-lo para nós mesmos. Já estamos criando problemas de magnitude suficiente com a crise institucional pré-eleitoral que se avoluma a cada dia.
 

Serra Verde, terras raras e o objetivo militar do investimento americano

Estava hoje escrevendo um artigo sobre a Venezuela e sobre o acordo recém-firmado com a Serra Verde, a empresa de Goiás que opera a mina de Pela Ema e que é hoje a única empresa fora da Ásia a fazer, ainda em pequena escala, algum processamento e refino de elementos de terras raras. Os antigos acionistas e fundos de private equity venderam-na à USA Rare Earth, uma empresa privada norte-americana. O ponto que ainda não chegou ao Brasil, sobretudo àqueles que repudiam o papel do Estado na economia, é que o governo Trump é extremamente intervencionista. Ele faz exatamente o que os críticos da intervenção estatal condenam. O governo americano é hoje acionista de uma porção de empresas, no setor de minerais críticos e em diversos setores, inclusive no de inteligência artificial. No caso da USA Rare Earth, o governo americano detém entre 8% e 16% do capital. Logo, o governo Trump é acionista da Serra Verde.

Além disso, tal como fez na Venezuela, o Pentágono criou um veículo de propósito específico, um special purpose vehicle, para direcionar recursos à extração de terras raras em Goiás. Os depósitos de Pela Ema contêm precisamente os elementos mais pesados, usados nos ímãs com os quais se fabricam mísseis guiados e outros armamentos. O investimento do Pentágono nessa empreitada tem um objetivo militar, assim como o investimento do Pentágono no petróleo venezuelano. Não há depósitos significativos de terras raras nos Estados Unidos, e esses elementos são estratégicos tanto para a indústria de defesa quanto para a de tecnologia e para o desenvolvimento de inteligência artificial. É por isso que o Brasil tem hoje essa importância para os Estados Unidos: temos recursos que eles querem e precisam.

Nós temos a oportunidade, se assim quisermos, de desenvolver esses setores de forma mais bem pensada, com mais possibilidades de gerar empregos e desenvolvimento econômico daqui a alguns anos, porque esses projetos são de longo prazo. Para isso, precisamos de parcerias reais, com países cujos interesses e objetivos estejam alinhados aos nossos. Os objetivos do governo Trump nada têm a ver com os nossos, e não pensem que ele tem qualquer interesse em reconstruir a economia da Venezuela. A questão da soberania nacional, que agora todo mundo joga para lá e para cá sem discuti-la a fundo, está, de fato, posta nestas eleições. Esse tema não está sendo pautado com a devida urgência por ninguém.
 

O que é soberania econômica e o que parcerias exigem

Como economista, meu entendimento de soberania limita-se ao ponto de vista econômico. Soberania é a capacidade de um país fazer suas próprias escolhas de acordo com seus interesses e implementar suas diretrizes de política pública e econômica, sem a interferência de outra nação nesse processo. Há discussões muito mais amplas sobre soberania na literatura de relações internacionais.

É muito importante não confundir parcerias com perda de soberania. Se o Brasil quiser fazer acordos com a China, com os europeus, com os australianos ou com quem for para exploração, refino e processamento de recursos naturais, ótimo, desde que existam instituições e marcos regulatórios e legais que garantam que isso ocorra de acordo com as nossas leis e com o que queremos para o país. Com a presença de instituições minimamente sólidas, as parcerias não comprometem a soberania econômica, pelo contrário. O problema é que os Estados Unidos atuam hoje na América Latina com completo desprezo pelas leis e pelos marcos regulatórios dos países em questão. Vimos isso nas negociações comerciais de agosto, quando, antes dos novos tarifaços aplicados sob a Seção 301 do Trade Act de 1974, os Estados Unidos pediram ao Brasil coisas que o país não podia entregar sem violar suas próprias leis. Esse é o tipo de parceria que o governo Trump oferece. Fazer parceria sem marco institucional é simplesmente submeter-se às exigências desse governo, e o que tipicamente acontece na ausência de institucionalidade e governança é corrupção, história que nós conhecemos muito bem.

A ingerência não poupa países amigos dos Estados Unidos. Contei na live anterior, às férias, a propósito do artigo sobre o Mercosul que publiquei com Philip Yang, o caso de uma empresa argentina de fibra ótica que havia firmado um acordo com a Huawei. O embaixador americano na Argentina mandou uma mensagem de WhatsApp ao dirigente da empresa, dizendo que, caso o acordo não fosse desfeito, os vistos dos dirigentes seriam revogados. O visto para os Estados Unidos tornou-se mais um instrumento de coerção em matéria de soberania econômica. Qualquer movimentação dos Estados Unidos no nosso entorno, no Paraguai ou na Venezuela, é preocupante para nós, e nada disso está sendo feito às escondidas. É feito com base na truculência transparente, pois é assim que Trump opera.

Os Estados Unidos, que durante tantos anos quiseram exportar ao mundo seus modelos de governança e institucionalidade, resolveram dizer que não estão mais interessados em governança em lugar algum, inclusive em casa. Para países de instituições frágeis como o Brasil, isso cria uma situação praticamente sem precedentes: não há hoje nenhuma liderança no mundo defendendo regras e instituições como deveriam ser defendidas. Tenho dito aos meus colegas no Peterson Institute for International Economics que o que está acontecendo aqui é uma latino-americanização dos Estados Unidos. Nós, que já temos uma situação ruim, queremos mesmo piorá-la ficando submissos a isso?
 

O exemplo canadense e a organização dos exportadores de nióbio

O Canadá é a economia mais dependente dos Estados Unidos do planeta, mais do que o México, e, ainda assim, resolveu enfrentar o governo Trump. Não foi à toa. O Canadá tem muitos recursos naturais, e Trump começou o mandato, no início de 2025, dizendo que ia anexar o país. O que Trump diz tem de ser levado a sério. Os canadenses entendem que baixar a cabeça é um perde-perde na certa, e formaram um consenso político e social interno para o enfrentamento. As atitudes de Mark Carney na atual guerra comercial receberam apoio, inclusive, de adversários políticos, gente que tinha alguma simpatia pelo trumpismo antes de Trump começar a agredir o Canadá. O Brasil não precisa fazer exatamente o que o Canadá faz, porque os países e os interesses são diferentes, mas precisa de uma visão um pouco mais clara sobre si mesmo e sobre o que quer, e isso é para ontem.

No Brasil, não há consenso sobre nada, porque tudo é movido pelos interesses de cada um. Quando Philip Yang e eu propusemos a retaliação por meio de um imposto de exportação, as críticas vieram sobretudo de pessoas vinculadas a setores produtivos com interesses próprios. A partir do momento em que todo mundo tem agenda e defende sua própria posição, perde-se a noção de país. Poderíamos adotar outra atitude se tivéssemos uma consciência coletiva que transcendesse essas agendas privadas.

Durante as férias, lendo sobre o dia em que a equipe canadense interrompeu as negociações com a equipe americana, e pensando no artigo que Philip Yang, Robert Muggah e eu publicamos no The Hill Times, publicação muito lida por parlamentares canadenses, propondo que Brasil e Canadá unissem forças nesse enfrentamento, ocorreu-me que os dois países bem poderiam fundar a OPEN, a Organização dos Países Exportadores de Nióbio, nos moldes da OPEP. Brasil e Canadá detêm, juntos, a totalidade da produção global de nióbio. Com isso, a indústria de defesa dos Estados Unidos seria estrangulada. Claro que seria bem complicado do ponto de vista das reações americanas, mas é uma divagação praiana que não deixa de ser relevante para esta discussão.

(Em tempo, OPEN é a sigla em português. Em inglês, seria ONEC – Organization of Niobium-Producing Countries)."

Monica De Bolle, 10/09/2026

Postagem em destaque

Paul Kennedy, The Rise and Fall of the Great Powers: Economic Change and Military Conflict from 1500 to 2000 - Forum de debate sobre um livro seminal

Paul Kennedy, The Rise and Fall of the Great Powers: Economic Change and Military Conflict from 1500 to 2000 Forum de debate sobre um livro ...