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terça-feira, 14 de julho de 2026

Tese de Caio Prado Junior para concurso na USP é lançada em livro Roberto C. G. Castro (Jornal da USP)

Tese de Caio Prado Junior para concurso na USP é lançada em livro 

 Diretrizes para Uma Política Econômica Brasileira (1956)

Roberto C. G. Castro 

Jornal da USP, 15/07/2026

https://jornal.usp.br/cultura/tese-de-caio-prado-junior-para-concurso-na-usp-e-lancada-em-livro/ 

Em 1956, o historiador Caio Prado Júnior (1907-1990) – então já respeitado como um importante intelectual comunista – concorreu ao cargo de professor da cadeira de Economia Política da Faculdade de Direito da USP. Para isso, ele apresentou a tese Diretrizes para Uma Política Econômica Brasileira. O historiador não obteve o primeiro lugar no concurso, que coube ao jurista José Pinto Antunes, embora tenha sido aprovado e recebido o título de professor livre-docente – cassado pela ditadura militar em 1968. Já sua tese foi praticamente esquecida. Publicada na época pela gráfica Urupês, em tiragem reduzida, ela não voltou a ser impressa – nem mesmo pela célebre Editora Brasiliense, fundada por Caio Prado Júnior e outros intelectuais mais de dez anos antes. Agora, 70 anos depois, a tese de Caio Prado Júnior foi finalmente lançada pela Boitempo Editorial.

Em sua tese agora disponível em livro, Caio Prado Júnior aborda temas presentes em suas obras clássicas que então já estavam publicadas, como Evolução Política do Brasil (1933), Formação do Brasil Contemporâneo (1942) e História Econômica do Brasil (1945).

Um desses temas é a questão do mercado interno e externo. Para Caio Prado Júnior, a reestruturação econômica do Brasil – que, segundo o historiador, vivia ainda sob um sistema colonial, assentado na produção primária e na exportação – deveria se dar com o deslocamento da base econômica do mercado externo para o interno. Para isso, era preciso dotar o Estado da capacidade de fortalecer o capital privado, a fim de dar condições adequadas para que as “forças produtivas” do País possam realizar as necessárias mudanças na economia. Essas “forças produtivas” são a burguesia industrial e comercial –”livre de compromissos para com o imperialismo e o capital financeiro internacional” –, o proletariado e o campesinato. “Trata-se de cuidar com a maior atenção do movimento de nossas transações externas, tirando delas o máximo e necessário proveito para que elas representem cada vez com menos destaque o papel de fulcro da economia brasileira que atualmente constituem”, escreve Caio Prado Júnior.

O livro que traz a tese de Caio Prado Júnior escrita nos anos 1950 - Foto: Reprodução/Boitempo Editorial
O livro que traz a tese de Caio Prado Júnior escrita nos anos 1950 - Foto: Reprodução/Boitempo Editorial
A Faculdade de Direito da USP - Foto: Wikimedia Commons/Domínio Público

Fiel à sua formação marxista, o historiador percebia que era preciso, antes, considerar os fatos econômicos para, depois, sugerir a política econômica mais adequada. Essa é a razão por que ele recusava a visão idealista e utópica de propostas econômicas revolucionárias e defendia uma ação reformista, ainda no espaço de uma economia de base colonial e dependente do sistema internacional do capitalismo. “Uma política social, e a política econômica em particular, não se pode propor fora e acima dos fatos históricos”, escreve Caio Prado Júnior, justificando a adoção, em suas análises, da dialética marxista – o método de interpretação desenvolvido pelo pensador alemão Karl Marx (1818-1883) que prioriza a realidade, em detrimento das ideias.

reforma agrária é outro tema discutido por Caio Prado Júnior em Diretrizes para Uma Política Econômica Brasileira. Para ele, o baixo índice econômico e de consumo da população rural e as limitações do mercado brasileiro em geral se devem, em boa parte, à estrutura do campo no Brasil e à grande concentração de terras em torno de poucos proprietários. “A grande propriedade agrária, em regra geral, dificilmente se afasta dos limites da monocultura extensiva, e em particular da monocultura destinada à exportação”, nota o historiador. “A facilitação do acesso da massa da população rural brasileira à propriedade fundiária é uma das premissas essenciais, se não a essencial, da transformação econômica do campo brasileiro, tanto no que diz respeito à intensificação e diversificação das atividades produtivas como à correlata extensão do consumo, o que significa extensão do mercado para as indústrias”, acrescenta, lembrando que a reforma no campo deve ser acompanhada de um programa de aparelhamento técnico adequado para a agropecuária.

Alicerce para uma nação mais justa

O livro publicado pela Boitempo Editorial traz uma nota do professor Luiz Bernardo Pericás, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Nela, Pericás lembra que Caio Prado Júnior só se inscreveu no concurso para professor da Faculdade de Direito por insistência de seus camaradas do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que, com a candidatura do historiador, buscavam confrontar o conservadorismo da Congregação da faculdade. Para esta, era inconcebível um comunista como docente de Economia Política, segundo Pericás. Cinco dos 14 integrantes do Congregação chegaram a se opor à inscrição de Caio Prado Júnior no concurso. “A tese deve ter assustado os juízes da banca examinadora, com suas proposições arrojadas com fundamento na dialética”, escreve o professor da FFLCH. “Para Caio Prado Júnior, o magistério não significava o emprego, o meio de vida – não precisava dessa fonte –, mas a oportunidade de divulgar suas ideias.”

Como introdução, Diretrizes para Uma Política Econômica Brasileira publica ainda um texto dos professores Alexandre de Freitas Barbosa, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, e Gilberto Bercovici, da Faculdade de Direito da USP. Nele, Barbosa e Bercovici dão informações sobre a cadeira de Economia Política da Faculdade de Direito da USP – inaugurada em 1829 pelo catedrático Carlos Carneiro de Campos (1805-1878) –, o concurso do qual Caio Prado Júnior participou, em 1956, e a tese apresentada pelo historiador. “Apesar de ter o título de professor livre-docente, Caio Prado Júnior nunca foi chamado para lecionar na Faculdade de Direito do Largo São Francisco”, escrevem os professores. “Como costuma acontecer na história, a ‘revolução brasileira’ seguiria caminhos tortuosos. Setenta anos depois do concurso, sua obra é ensinada e praticada na Faculdade de Direito e em outros departamentos e institutos da Universidade de São Paulo, ocupando papel de destaque nas universidades públicas brasileiras e servindo de referência para movimentos sociais e partidos de esquerda do País. Seu pensamento serve de alicerce para a construção de uma nação mais justa e soberana.”

Diretrizes para Uma Política Econômica Brasileira, de Caio Prado Júnior, Editora Boitempo, 208 páginas, R$ 62,10.

*Estagiária sob orientação de Simone Gomes

 

 

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