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quarta-feira, 25 de março de 2026

Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade - Paulo Roberto de Almeida (Revista CNT Transporte Atual)

Uma entrevista a um jornalista da revista CNT Transporte Atual (ano xxxii, n. 356), sobre o acordo Mercosul-UE, publicada apenas parcialmente. Publico no blog Diplomatizzando a íntegra das minhas respostas ao jornalista Gustavo Falleiros, meu ex-aluno do Mestrado em Direito no Uniceub.
5214. “Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade”, Brasília, 12 fevereiro 2026, 7 p. Respostas a questões colocadas por Gustavo Falleiros, editor da revista da CNT. Publicado parcialmente na revista CNT Transporte Atual (ano xxxii, n. 356, março 2026, p. 57; link: https://www.cnt.org.br/revista-cnt ;
Divulgado integralmente no blog Diplomatizzando (25/03/20226; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/03/acordo-mercosul-uniao-europeia-questoes.html )

Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade

Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor
Respostas a questões colocadas por Gustavo Falleiros, editor da revista da CNT.
Publicado parcialmente na revista CNT Transporte Atual (ano xxxii, n. 356, março 2026, p. 57; link: https://www.cnt.org.br/revista-cnt). Divulgado integralmente no blog Diplomatizzando (25/03/20226; link: ). Relação de Publicados n. 1628.


1. Antes de tudo, o senhor poderia nos informar sobre a real estatura do que foi assinado em 17 de janeiro. É algo que impressiona, pelo tamanho ou pelas possibilidades, ou é mais modesto? Ainda demorará muito a produzir efeitos, dada a complexidade do processo de internalização dos termos por cada Estado Parte?


        PRA: O acordo é complexo, ambicioso, e coroa um relacionamento de praticamente 30 anos entre os dois blocos, como eu já estudei num longo artigo terminado ainda antes da assinatura definitiva do acordo: “Mercosul e União Europeia: a longa marcha da cooperação à associação”, Brasília, 4829: 18 janeiro 2025, 21 p. Revisão e atualização do trabalho 4322 (15 fevereiro 2023), para submissão, em 18/01/2025, à revista Monções, Revista de Relações Internacionais da UFGD; não publicado por exigências de revisão. Disponibilizado via Academia.edu (12/2025): https://www.academia.edu/145502682/4829_Mercosul_e_Uniao_Europeia_a_longa_marcha_da_cooperacao_a_associacao_Mercosur_and_European_Union_the_long_march_from_cooperation_to_association_Mercosur_y_Uni%C3%B3n_Europea_la_larga_marcha_de_la_cooperaci%C3%B3n_a_la_asociaci%C3%B3n_2025_ ); blog Diplomatizzando (21/12/2025; link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/12/mercosul-e-uniao-europeia-longa-marcha.html).
        Trata-se de um tema que eu venho seguindo praticamente desde o início, como aliás revelado no artigo acima citado. Outros trabalhos meus podem ser conferidos nesta lista também divulgada em meus canais de informação: “Lista atualizada de trabalhos sobre o Mercosul e a integração regional”, Brasília, 5034: 18 agosto 2025, 33 p. Atualização da lista 4655, de 06/05/2024, incorporando os trabalhos ulteriores. Disponível na plataforma Academia.edu (link: https://www.academia.edu/143507026/5033_Lista_atualizada_de_trabalhos_sobre_o_Mercosul_e_a_integracao_regional_2025_); informado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2025/08/lista-atualizada-de-trabalhos-sobre-o.html).
        Se ele demorou tanto tempo para ser definitivamente assinado, a despeito de ser relevante no plano das relações comerciais do Brasil e do Mercosul, bem como para a inserção econômica internacional do bloco e a de seus países membros, a “razão” está justamente no fato de que a diplomacia lulopetista, por preconceito anacrônico e irracional contra o “imperialismo americano”, sabotou (até implodir) o processo negociador da Área de Livre Comércio das Américas, proposto pelo governo Bill Clinton em dezembro de 1994, na cúpula das Américas em Miami, recusada pelos petistas por implicações puramente ideológicas, o que ocorreu na cúpula de Mar del Plata, em novembro de 2005, por pressão conjunta de Lula, de Chávez e de Kirchner.         Retirada a “concorrência” americana, pelo mercado do Mercosul, os europeus contiveram seu entusiasmo e o assunto se arrastou durante 20 anos, até que a guerrilha comercial entre os EUA e a China, desde o primeiro mandato de Trump, induziu novamente a UE e o Mercosul a retomarem as negociações finais. Uma primeira versão do acordo tinha sido finalizada em Bruxelas, em junho de 2019, mas ficou carente de apoio europeu desde as primeiras horas, basicamente em função das políticas antiambientais de Bolsonaro e seu total desprezo pelo multilateralismo, assim como por outros componentes essenciais da associação entre Mercosul e União Europeia, nos terrenos sociais e de direitos humanos.
        O acordo é importante, mas o fato de intervir mais de duas décadas após os primeiros acenos recíprocos por essa interação entre os dois blocos deixa de lado alguns importantes desenvolvimentos (não só comerciais) ocorridos no sistema econômico internacional desde o início do século, notadamente a acessão da China ao Gatt-1994 e pela sua inserção no sistema multilateral de comércio, ademais de novos fenômenos no espectro mais amplo da economia mundial, como a enorme ascensão da Ásia Pacífico ao primeiro plano dos grandes intercâmbios mundiais. Isso é particularmente verdade para o Brasil, que tem na China o seu principal parceiro comercial desde 2009, com a qual existe um turnover comercial superior ao que existe com os dois outros principais parceiros, isto é, Estados Unidos e União Europeia justamente.
        Ele é relevante, e quando foi assinado definitivamente, em dezembro de 2025 na capital paraguaia, foi anunciado como o maior acordo comercial do mundo, pelas suas dimensões de população, de PIB e de comércio conjuntamente, apenas para ser suplantado, um mês depois, pelo acordo concluído entre a UE e a Índia, também em virtude do novo protecionismo americano. O protecionismo é, aliás, uma pedra no sapato desses dois mega-acordos, como em geral em diversos outros acordos do mesmo tipo entre diferentes países ou blocos. Depois da década otimista com a globalização, na implosão do socialismo e na integração dos ex-países socialistas à OCDE, à própria UE e a outros esquemas existentes nos planos econômico e político (Otan, por exemplo), os países reverteram o processo, primeiro conduzindo uma “desglobalização” moderada, depois retrocedendo ao near-shoring, ou mesmo à produção puramente doméstica, sobretudo depois da pandemia e dos problemas revelados com a segurança no abastecimento interno de materiais críticos.
        O acordo Mercosul-UE, por mais relevante que ele possa ser para a economia de ambos os blocos, não deixa de “pagar um imposto” às forças protecionistas internas de cada um deles, geralmente no terreno da produção primária (agricultura e pecuária) do lado europeu, e no da indústria e serviços no caso dos países do Mercosul (sobretudo da parte dos dois grandes, Brasil e Argentina). Assim, restrições continuam a existir, assim como cláusulas especiais de proteção, em caso de “desequilíbrio nas trocas”, o que é naturalmente esperado quando se colocam na linha de frente assimetrias produtivas e diferenças de competitividade em virtude das dotações naturais e adquiridas de cada um dos lados.
        Em decorrência desses “cuidados protecionistas” o acordo tardará certo tempo – pelos prazos de phasing-out e outras disposições retardatárias e quantitativamente limitadoras – para produzir efeitos plenos nos terrenos da abertura econômica e da liberalização comercial, que podem continuar limitadas em diversas áreas. Quando os prazos vierem finalmente a termo se poderá verificar que as condições de mercado se terão alterado em algumas áreas de maneira significativa, em virtude, por exemplo, de pressões competitivas vindas da Ásia Pacífico.

2. Quando cobri este assunto em 2019 (tratado de associação), falava-se muito em impulso ao agro brasileiro. Desta vez, ouço que itens brasileiros de valor agregado podem ter melhor desempenho. É isso mesmo? Nesse caso, nossa combalida indústria poderá florescer em alguns segmentos?

        PRA: Existem diferenciais de competitividade nos diversos setores da economia de cada parte, tanto na agricultura, quanto na indústria e nos serviços, e isso não se dá apenas pelos efeitos macro dos termos do acordo, mas em virtude das capacidades micro de cada ramo econômico e, por vezes, de cada unidade produtiva nos diversos países. A indústria brasileira, talvez mais do que a da Argentina, poderá também se beneficiar em setores específicos, mas muito vai depender da modernização e incorporação de novas tecnologias e capitais vindas da Europa, ou até de outros países, como a China, por exemplo, que já passou de simples comerciante principal com o Brasil, para uma das principais potências investidoras em muitos ramos de nossa economia.

3. No longo prazo, fala-se em “integrar cadeias de valor”. Não é um objetivo demasiado ambicioso?


        PRA: Aparentemente sim, tendo em vista que o Brasil é um país ferozmente protecionista praticamente desde os tempos coloniais, mas sobretudo desde o segundo reinado e intensamente durante todo o período republicano, quando os principais vetores da industrialização tardia foram o fechamento do mercado e o protecionismo explícito e implícito. O Brasil foi o campeão absoluto em tarifas altas durante toda a história da nação independente, preservando ainda tais características, a despeito de algumas reformas comerciais nos últimos 40 anos, em especial devido ao Mercosul, precisamente. O Brasil, o Mercosul e outros países da América do Sul estão singularmente ausentes dos “mapas” de cadeias de valor existentes em outras partes do mundo, e as poucas existentes se devem justamente aos investimentos estrangeiros diretos em setores notoriamente associados a esses investimentos, como a indústria automotiva, a eletrônica e poucas outras.
        Uma das principais virtudes desse acordo seria justamente estimular e concretizar a inserção de empresas do Mercosul em cadeias internacionais de valor, e não apenas as europeias, pois elas tendem geralmente a ser multinacionais em sua essência. O fator principal seria que a condução das etapas seguintes da entrada em vigor do acordo inter-blocos seria fazer com que ele transbordasse dos simples intercâmbios comerciais, para associações empresariais visando os mercados globais, não apenas os recíprocos.

4. O que podemos esperar em termos de cooperação técnica e transferência de tecnologia? E ainda, de controle fitossanitário e boas práticas ambientais?


        PRA: Cooperação técnica, controle fitossanitário e práticas ambientais dependem, talvez, dos governos e dos administradores do acordo, mas transferência de tecnologia é um catch-word para acesso a tecnologias de ponta, o que depende basicamente de iniciativas no plano micro, isto é, puramente privadas, portanto empresariais. Esse aspecto depende essencialmente das próprias empresas abertas às interações recíprocas.

5. O factsheet divulgado retrata o acordo como um contraponto ao “crescente protecionismo e unilateralismo comercial”. Esse acordo tem o dom de despertar esse tipo de esperança? O senhor poderia falar um pouco sobre o contexto anterior, que envolvia a Alca?

        PRA: O acordo representa, de fato, uma resposta, ao desmantelamento do sistema multilateral de comércio protagonizado pelo atual presidente americano, unilateralista ao extremo. O protecionismo parece ser uma “virtude” partilhada por setores menos competitivos em várias regiões do mundo e existe em variadas circunstâncias em quase todos os países do mundo, menos impulsionado por governos específicos e mais por lobbies setoriais – da indústria, agricultura, serviços – que existem em consonância com a união do poder econômico com interesses políticos, o que viabiliza certos poderes regulatórios, geralmente existentes no parlamento, que nas democracias se rendem ao protecionismo por pressão desses interesses corporativos. O unilateralismo comercial pode existir nas grandes economias, as únicas em condições de impor suas regras a um número amplo de países, seja no âmbito do sistema multilateral de comércio (Gatt-OMC), seja diretamente nas relações comerciais à margem desses acordos amplos.
        A Alca encarnava ambos os aspectos das políticas comerciais dos grandes atores da economia mundial: foi uma oferta do governo americano sob Bill Clinton, em 1994 (mas partia da Iniciativa das Américas de George W. Bush, em 1990), que visava o livre comércio nas Américas, pela via das negociações de boa fé e a conclusão de um acordo abrangente. Não pôde ser concluído pela sabotagem de três líderes antiamericanos, nacionalistas e protecionistas: Lula, Chávez e Kirchner. Não teria sido um acordo perfeitamente igualitário, em direitos e obrigações (dado o grande poder intrínseco dos EUA), mas teria sido, se concluído, um bom exercício de globalização administrada no hemisfério, e teria também oferecido a oportunidade, à União Europeia, de competir, do seu lado, oferecendo condições tão “vantajosas” quanto as da Alca, para não perder um mercado tão relevante para suas empresas quanto o da América Latina. Infelizmente, não foi o caso, e por causa de três antiamericanos anacrônicos, o hemisfério perdeu uma dupla oportunidade de figurar entre as regiões de maior inserção econômica mundial, competindo com a Ásia Pacífico. Ou seja, a ignorância, o preconceito ideológico e o antiamericanismo primário impediram um primeiro exercício, certamente difícil na prática, não necessariamente equânime em vantagens e obrigações, mas interessante, de globalização econômica quando isso ainda podia ser feito. Perdeu-se, e essa chance não vai voltar mais.

6. Da parte do Mercosul, que tipo de dever de casa precisa ser feito para o bloco ser funcional (Brasil x Argentina)?


        PRA: Existem dezenas de coisas que os países membros deveriam fazer para viabilizar o bloco do Mercosul, se isso ainda pode ser feito, o que é duvidoso no momento atual e nos próximos anos. Os países deveriam simplesmente tratar de colocar em vigor as obrigações do Tratado de Assunção que estão no Artigo 1º: zona de livre comércio efetiva, sem maiores restrições, uma união aduaneira efetiva e funcional, sem as exceções nacionais que fazem da TEC uma colcha de retalhos, e sobretudo os requerimentos da convergência macroeconômica e nas políticas setoriais, o que parece impossível nas circunstâncias atuais. Brasil e Argentina são os maiores “pecadores” nessas muitas inadimplências, e não parecem existir condições para que os dois grandes se entendam numa agenda de reconstrução do Mercosul.
        A opção seguinte seria a preparação de uma conferência diplomática, com vistas a fazer o Mercosul retroceder a uma simples zona de livre comércio, o que já é difícil, na prática, e não se sabe se o acordo inter-regional com EU sobreviveria a essa mudança. Em suma, o cenário de futuro imediato e mediato (ou de médio prazo) para o Mercosul permanece indefinido, sobretudo em virtude do acordo de livre comércio entre a Argentina de Milei e os EUA de Trump (que não se sabe se será efetivamente implementado). Esse acordo “bilateral”, puramente político, mas com efeitos econômicos e comerciais, contrariando a postura pelo menos formalmente mercosuliana do Brasil, promete ter algum impacto dentro e fora do bloco do Mercosul.

7. O senhor enxerga alguma implicação do acordo para a cadeia logística global, por exemplo, alterando o fluxo de contêineres (chineses hoje têm preferência de rotas) ou reduzindo certas dependências (componentes eletrônicos, chips, certos minérios etc.)?

        PRA: A China já é a grande parceira da América do Sul e dos seus principais países, e o acordo pode afetar alguns ramos industriais, que é onde essa interface intervém, mas não mudará a atratividade da China para as exportações agropastoris do Brasil e da Argentina, sem contar investimentos do gigante asiático na exploração dos grandes recursos naturais dos dois países. O acordo UE-Mercosul será uma pequena concorrência aos fortes laços existentes com a China, mas tudo se jogará nos demais aspectos de integração industrial, de extração mineral, de acordos de financiamento. Difícil prever todas as consequências, em virtude do caráter errático das políticas comerciais dos grandes atores, como impulsionado pelo unilateralismo comercial dos EUA sob Trump: não sabemos se haverá uma reversão depois que ele se for.

8. Algo importante ficou descoberto?

        PRA: Sim, as implicações do acordo de “livre comércio” da Argentina de Milei com os EUA de Trump: ainda não sabemos suas implicações efetivas e reais, sobretudo em termos de rompimento com a cláusula de nação mais favorecida e o total abandono das regras de política comercial estabelecidas no âmbito do sistema multilateral de comércio e seus efeitos sobre acordos existentes: o do próprio Mercosul (TA) e o que deve entrar em vigor entre este e a UE.
Muitos outros aspectos permanecem no limbo, pois o cenário atual do comércio mundial pode mudar pelo efeito de medidas políticas adotadas pelos EUA e outros grandes parceiros.

Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5214: 12 fevereiro 2026, 7 p.
1628. “Acordo Mercosul-União Europeia: questões sobre sua efetividade”, Brasília, 12 fevereiro 2026, 7 p. Respostas a questões colocadas por Gustavo Falleiros, editor da revista da CNT. Enviado via WhatsApp. Publicado na revista da CNT (vol. xxxii, n. 356, março 2026, p. 57). Relação de Originais n. 5214.









quarta-feira, 4 de agosto de 2021

Acordo Mercosul-UE: sem a menor chance de ser aprovado, por causa da política antiambiental de Bolsonaro - Janaina Figueiredo (Globo)

 Desde junho de 2019, quando o acordo foi assinado em caráter preliminar, que eu afirmo que ele não tem qualquer condição de entrar em vigor, exclusivamente devido às políticas de DESTRUIÇÃO ambiental de Bolsonaro.

A situação, na verdade, continua piorando, com o projeto de “Lei da Grilagem”. A UE vai bloquear o acordo.

Paulo Roberto de Almeida 


Comissão Europeia indica que mudança em regras ambientais no Brasil prejudicará acordo UE-Mercosul
Janaina Figueiredo
O Globo, 04/08/2021 

RIO - Com o processo de ratificação do acordo para a criação de uma zona de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE) paralisado, a pressão da esquerda europeia para impedir que o entendimento saia do papel é cada vez mais intensa.

Na última segunda-feira, a Comissão Europeia, que tem a prerrogativa de submeter ou não o acordo ao Conselho Europeu e ao Parlamento para sua eventual confirmação e assinatura, indicou que o avanço do projeto que altera as regras do licenciamento ambiental no Brasil avançar no Legislativo brasileiro pesará em sua decisão.

A manifestação foi uma resposta a uma consulta do eurodeputado Miguel Urbán, líder do Anticapitalistas e membro destacado da bancada de esquerda no Parlamento da UE.

O órgão da UE assegurou que, se o Projeto de Lei 3.729/2004 for aprovado e "tiver um impacto negativo na proteção do meio ambiente", como denunciam diversas ONGs, antes da entrada em vigência do acordo, "isso poderia influenciar a avaliação da Comissão sobre as condições adequadas para a apresentação do acordo para sua ratificação".

Ou seja, se o projeto já aprovado na Câmara obtiver sinal verde do Senado brasileiro antes da assinatura do acordo entre Mercosul e UE, cenário mais provável, a Comissão Europeia deixou claro que seria criado mais um impedimento para o acordo avançar.

Na noite desta terça-feira, o texto-base de um outro projeto de lei que é muito criticado por ambientalistas foi aprovado na Câmara. É o PL 2.633/2020, que flexibiliza a regularização fundiária em terras da União.

Segundo ambientalistas, o "PL da grilagem", como é conhecida a proposta, servirá como anistia a invasores de terra, já que autoriza o aumento de propriedades passíveis de regulamentação sem vistoria prévia, bastando a análise de documentos e a declaração de seu ocupante de que segue a legislação. O texto segue agora para o Senado.

Desde que as negociações entre Mercosul e UE foram concluídas, em junho de 2019, a política ambiental do governo de Jair Bolsonaro se tornou a principal pedra no sapato do acordo comercial.

Em recente entrevista ao GLOBO, o embaixador da UE no Brasil, Ignacio Ybáñez, afirmou que o Brasil "precisa reconstruir a confiança com resultados concretos em matéria de desmatamento".

Projeto enfraquece licenciamento ambiental
O projeto flexibiliza o licenciamento ambiental e simplifica processos. Na visão de críticos da iniciativa, em discussão há 17 anos, o projeto pode aumentar a destruição de biomas, colocar em risco populações tradicionais, como os indígenas, e piorar ainda mais a imagem do Brasil no exterior.

Também se questiona o fato de que a fiscalização continuará sendo executada por órgãos enfraquecidos pelo governo, como o Ibama.

— Se esta lei for aprovada, desastres ambientais como Brumadinho serão a norma e não a exceção — disse Urbán ao GLOBO.

Segundo o eurodeputado, que fez recentemente duríssimas críticas ao governo Bolsonaro sobre a administração da pandemia, o PL "contradiz as cláusulas sobre meio ambiente do acordo entre Mercosul e UE".

— As políticas do governo Bolsonaro contra o meio ambiente, os povos originários e os direitos humanos demonstram o que estamos denunciando há algum tempo. Com genocidas do meio ambiente, o que chamamos de ecocidas, como Bolsonaro não há nada a ser negociado — assegurou o eurodeputado.

Diplomacia brasileira vê dificuldades em 2022

Entre diplomatas brasileiros, existem baixíssimas expectativas de que o acordo entre Mercosul e UE seja ratificado antes de 2023. A explicação para traçar esse panorama de médio prazo é política: com eleições na Alemanha este ano e na França no começo de 2022, o crescimento dos partidos verdes é um claríssimo complicador para qualquer tipo de avanço.

Depois virão as eleições brasileiras e, em palavras de uma fonte diplomática, "nenhum europeu vai querer assinar um acordo que seria usado por Bolsonaro na campanha".

A criticada política ambiental brasileira, disse outra fonte diplomática, "caiu omo uma luva para os interesses dos setores protecionistas europeus, que nunca quiseram o acordo".

Para vizinhos, Bolsonaro dá desculpa perfeita a UE
Nas chancelarias de Argentina, Uruguai e Paraguai predomina a certeza de que o entendimento com a UE continuará hibernando até que passem as eleições europeias e brasileiras. O protecionismo europeu é visto como o maior obstáculo, e a política ambiental de Bolsonaro a desculpa perfeita para travar o processo.

Existe na UE um debate interno sobre a possibilidade de se fatiar o acordo, para permitir um avanço mais rápido.

Haveria um acordo comercial e outro político (o que seria mais difícil de ser ratificado, porque envolveria questões como meio ambiente e direitos humanos), que poderiam entrar em vigência separadamente, após sua assinatura. Mas as conversas não estão progredindo, tampouco a elaboração de um documento paralelo, uma espécie de adendo ao acordo, no qual o Mercosul assumiria compromissos mais firmes sobre diversos aspectos, entre eles a proteção ambiental.

 O que levou à não assinatura do acordo (com a UE) foi o comportamento do governo brasileiro, que foi acumulando empecilhos políticos para que se pudesse avançar. Temos um presidente que toma atitudes sobre agendas prioritárias para a Europa que vão na contramão do que a Europa está fazendo — avalia Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima.

Na última terça-feira, Astrini se reuniu em Brasília com representantes de outras ONGs atentas à questão ambiental no Brasil. Entre os presentes estava Alok Sharma, presidente da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas de 2021, que também terá um encontro com o ministro do Meio Ambiente, Joaquim Leite.

Astrini menciona o projeto que legaliza posse de terras, apontado como favorável a grileiros, como outro complicador:

— Existe uma reação de investidores, empresários, boicotes a produtos brasileiros em países como Alemanha e Reino Unido.A Europa acaba de anunciar um plano para cortar 55% de suas emissões até 2030. Eles estão taxando carbono e nosso governo enviando projetos que favorecem o desmatamento — aponta o especialista.

As razões para que o acordo entre Mercosul e UE, peça central do programa de abertura comercial do ministro Paulo Guedes, não se torne realidade no atual governo acumulam-se cada vez mais. Se não fosse a política ambiental brasileira e a péssima imagem do país na Europa, concluiu uma fonte diplomática, "o centrão europeu apoiaria o entendimento, apesar das pressões dos setores protecionistas".

https://oglobo.globo.com/economia/comissao-europeia-indica-que-mudanca-em-regras-ambientais-no-brasil-prejudicara-acordo-ue-mercosul-25138946

terça-feira, 12 de maio de 2020

Desafios do acordo Mercosul-União Europeia - Rubens Barbosa (OESP)

A situação do acordo entre o Mercosul e União Europeia independe da posição da Argentina, pois ele está de toda forma condenado: Bolsonaro se tornou um sujeito intragável para os europeus, apenas isso. Não tem como aprovar no Parlamento europeu ou nos nacionais. 
Paulo Roberto de Almeida

DESAFIOS DO ACORDO MERCOSUL E UNIÃO EUROPÉIA

Rubens Barbosa
O Estado de S. Paulo, 12/05/2020

Um fato novo complica o entendimento entre os países do Mercosul. Em abril, a Argentina informou que não mais acompanharia Brasil, Paraguai e Uruguai nas negociações em curso do Mercosul com outros países, como Canadá, Cingapura, Coreia do Sul, Líbano e Índia. Mas que manteria sua participação nos acordos, já concluídos e não assinados, com a União Europeia (UE) e com a Área de Livre Comércio da Europa (EFTA). Na semana passada, o governo argentino voltou atrás, num confuso comunicado, no qual ressalta que decidiu manter-se nas negociações conjuntamente, mas sempre levando em conta as sensibilidades dos setores menos competitivos (industriais). Embora querendo participar de todos os trabalhos e demandando a inclusão de cláusulas que resguardem os interesses argentinos futuros, Buenos Aires não se compromete com a conclusão das negociações em curso. O Chanceler Felipe Sola diz favorecer um regime de dupla velocidade, no qual a Argentina não fica fora dos acordos, mas quer ter a palavra final sobre como e quando passaria a fazer parte deles. Até meados do ano, o acordo Mercosul-UE deverá ser assinado. Como o governo argentino reagirá durante o processo de ratificação, se forem solicitadas modificações no texto do acordo, como ocorreu no caso do tratado UE-Canadá? Nuestros hermanos querem um Mercosul à la carte, o que aumenta a incerteza para todos, pela insegurança jurídica na aplicação dos compromissos assumidos. Flexibilização, se houver, tem de ser para todos.
Além dessa incerteza, menciono duas questões do lado brasileiro para o acesso ao mercado europeu: competitividade e meio ambiente.
Para aproveitar as preferências tarifárias, os produtos industriais deverão melhorar significativamente sua competitividade e passar a receber um tratamento isonômico em relação ao produzido em outros países. Sem que isso ocorra, apesar de a UE abrir seu mercado com tarifa zero de imediato para 75% de suas importações, será difícil competir no mercado europeu com produtos importados de outras áreas, como EUA, China e Coreia. A aprovação da reforma trabalhista e a da previdência social foram avanços importantes no caminho da modernização do Estado brasileiro. De modo a que o custo Brasil seja reduzido, é imperativo que sejam aprovadas a reforma tributária, a reforma do Estado e um amplo programa de desburocratização, simplificação e facilitação de negócios e de melhoria na logística (portos, estradas, ferrovias). Em paralelo, um eficiente programa de inovação por parte das empresas e de políticas públicas ajudaria a modernizar a operação das companhias que produzem para o mercado doméstico e também exportam. Estudo recente da Fiesp, mostra que a indústria nacional, antes da pandemia, estava lenta na busca para alcançar o nível de 4.0. (1,3% tinham investimento em 4.0 (em faturamento) 
O segundo desafio são os compromissos na área de meio ambiente que o Brasil deverá cumprir. O capítulo de desenvolvimento sustentável, incluído no acordo, talvez seja o mais desafiador, em vista da atual política de meio ambiente e mudança de clima do governo brasileiro. A crescente força política dos partidos verdes nos parlamentos dos países europeus poderá representar um obstáculo para a ratificação do acordo caso a atual política ambiental brasileira não se modifique, como exemplificado pela crise em relação ao Fundo Amazônico, que resultou na suspensão de recursos financeiros recebidos da Alemanha e Noruega. Os compromissos assumidos pelos países membros no tocante ao desenvolvimento sustentável estão incluídos em 18 artigos que cobrem acordos relacionados a comércio e meio ambiente, comércio e biodiversidade, comércio e preservação de florestas, da ONU, além de regras da Organização Internacional do Trabalho, inclusive a Resolução 169, que trata a exploração de terras indígenas. O descumprimento dos dispositivos dos acordos poderá acarretar boicotes e mesmo restrição de importação de produtos agrícola do Mercosul. São mencionados explicitamente os principais acordos internacionais como os derivados da Conferência da ONU sobre meio ambiente e desenvolvimento, Conferência Quadro da ONU sobre mudança do clima, Convenção sobre diversidade Biológica, Convenção da ONU de combate à desertificação, o Acordo de Paris de 2015, regras da OMC e Resoluções de outros organismos internacionais. Além disso, por insistência da UE, foi aprovado o princípio da precaução, pelo qual o não cumprimento de acordos de meio ambiente, energia ou trabalho forçado ou infantil, poderia acarretar restrição à importação de determinado produto.
O mundo mudou e as preocupações com o meio ambiente, a mudança do clima, a preservação das florestas entraram definitivamente na agenda global. A falta de informação interna objetiva dos compromissos internacionais assumidos pelos diferentes governos nas últimas décadas e a crescente percepção externa negativa sobre as políticas ambientais criam uma incerteza adicional para o setor produtivo, em especial o do agronegócio. Com o fim do COVID 19, as questões ambientais vão ressurgir com toda força e os governos do Mercosul não poderão ignorar essa agenda incluída no acordo com a UE.

Rubens Barbosa, presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)

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