Recebo, com imenso prazer, do meu amigo e colega Paulo Antonio Pereira Pinto, o anúncio de seu livro mais recente: China de 1980 a 2025:
Em 14 de junho passado, publiquei texto no qual sugiro a reflexão sobre o fato de que, até a visita do Presidente Trump à China, em abril de 2026, a “Questão através do Estreito de Taiwan” era colocada no contexto da confrontação de nova “Guerra Fria” que oporia os EUA e a RPC quanto à soberania sobre aquela ilha. Em suma, a contradição entre Washington e Pequim era “simplificada” à escolha de qual destas capitais seria sede de melhor “forma de governança”, a ser adotada para um futuro formoso taiwanês.
Nessa perspectiva, acredito que os que buscavam entender a importância dos diferentes argumentos, sobre a reincorporação da ilha ao continente, julgavam que caberia avaliar se o alardeado estabelecimento de uma “democracia” em Taiwan constituiria uma “contradição principal”, que dificultaria a solução da disputa de soberania sobre aquela “província rebelde”, conforme se refere Pequim ao território administrado por Taipé.
Em 29 do mesmo mês de junho passado, sugeri em outro texto publicado que, tanto no plano interno, quanto no externo, identificam-se, na década de 1980, alterações resultantes de condicionantes históricas de forma de pensar chinesa, capazes de influenciar o cenário atual da RPC.
Isto é, para o entendimento do momento presente naquele país, cabe abandonar raciocínios e equações, a partir de modelos fora do contexto cultural da China. Assim, o discurso chinês teria evoluído da imagem crítica de que, quando, na década de 1970, a PRC se inseria no cenário internacional, haveria “desordem sob os céus”, para atual devoção a um “multilateralismo com características chinesas”.
No exercício de reflexão a seguir, passo a apresentar argumentos publicados em meu livro mais recente, China de 1980 a 2025 – Da Busca pelo “Caminho Real” ao “multilateralismo chinês”, editado pela editora AGE em 2026, no qual busco escrever sobre a evolução recente da China, não de acordo com metodologia adotada por centros acadêmicos ocidentais, nem seguir orientação de formas de pensar o país seguindo lógica gerada fora de suas fronteiras.
Assim, a partir de vivência pessoal e da frequência a centros de estudos asiáticos, procuro mapear tendências e identificar atores que as conduziriam, no momento de inflexão histórico chinês, durante o “processo de modernização” ocorrido a partir do final da década de 1970.
DA BUSCA DO “CAMINHO REAL” À “MULTIPOLARIDADE COM CARACTERÍSTICAS CHINESAS” – O LIVRO.
Quando cheguei à China, no início da década de 1980, para servir na Embaixada do Brasil em Pequim, costumava-se dizer que: ao aterrizar na capital chinesa, o visitante queria logo escrever um livro com o título “a China, hoje, ontem e amanhã”, pois achava que já entendera o país de história milenar, em apenas um dia; seis meses depois – não existindo então o internet – o ainda recém chegado, já teria dificuldades de escrever uma carta de cinco páginas, pois começaria a perceber que se demora muito tempo para entender a China; ao final de um ano, nem as três linhas de um “cartão postal” (lembram o que era isso, antes dos e-mails) o já “experiente observador” se animaria ainda a escrever.
Tendo servido 21 anos na área de influência cultural chinesa, me animo a efetuar exercício de reflexão sobre o cenário vigente naquele país, quando iniciei minha missão em Pequim.[1]
Meu sétimo livro, DA BUSCA DO “CAMINHO REAL” À “MULTIPOLARIDADE COM CARACTERÍSTICAS CHINESAS” é composto por artigos publicados no LinkedIn, durante o ano de 2025. Não busco, nestes ensaios, conforme já mencionado na introdução acima, escrever sobre a história da China, de acordo com metodologia adotada por centros acadêmicos ocidentais, ou seguir orientação de formas de pensar o país seguindo lógica gerada fora de suas fronteiras.
Isto é, procuro, inicialmente, mapear tendências e identificar atores que as conduziriam, no momento de inflexão histórico chinês, durante o “processo de modernização” ocorrido a partir do final da década de 1970.
Para tanto recorro, principalmente, a experiências e interpretações pessoais, informações colhidas durante a participação de seminários ou visitas a Centros de Estudos na China e Sudeste Asiático, bem como à literatura por eles produzidas.
Tratava-se, então, de vivenciar a retomada chinesa do “Caminho Real”[2], como recomenda aquela civilização milenar.
Por outro lado, a maioria dos textos do livro foram reescritos, após a publicação no Linkedin, a partir do estímulo proporcionado pelo primeiro ano da atual administração do Presidente Donald Trump. Isto é, a superficialidade com que decisões do governo estadunidense com respeito à Ásia-Pacífico foram tomadas, neste período – sempre em busca de “deals” (negócios) - me incentivaram a recorrer a reflexões já publicadas, como resultado do impulso de procurar corrigir interpretações incompletas, segundo minha percepção.
O objetivo é, modestamente, contribuir para que se pense melhor a situação presente e cenários futuros da República Popular da China (RPC). Entre as evoluções consideradas possíveis, cabe registrar:
- A China estaria no caminho certo. Sua economia está florescendo e sua população ficando mais rica, o que levaria a reformas políticas e estabelecimento de regime de governo liberal e “democrático”;
- A RPC está “a caminho do desastre”, incluindo a falência de seu sistema econômico e desintegração política;
- E, a terceira hipótese, os chineses seriam capazes de manter seu crescimento econômico, enquanto seu sistema político continuaria autoritário, na forma atual, conduzida por partido único, com a mesma repressão a críticos, como acontece hoje. Isto é, economicamente, cresceria a “conectividade” com o resto do mundo, enquanto, internamente, o Partido Comunista Chinês (PCC) manteria seu rígido controle político sobre o país.
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No capítulo inicial, reflito sobre a possibilidade de que a experiência em curso, no começo da década de 1980, tenha contribuído, de forma significativa, para a atual inserção internacional chinesa.
Em capítulos seguintes, retorno a observações colhidas durante o período em que servi em Pequim e proponho reflexão sobre a abertura para o exterior da República Popular, enquanto seguia em seu processo de modernização.
Persisto na tese de que, tanto no plano interno, quanto no externo, identificam-se, na década de 1980, alterações resultantes de condicionantes históricas de forma de pensar chinesa, capazes de influenciar o cenário atual da RPC.
Isto é, para o entendimento do momento presente naquele país, cabe abandonar raciocínios e equações, a partir de modelos fora do contexto cultural da China. Assim, o discurso chinês teria evoluído da imagem crítica de que, quando se inseria no cenário internacional, haveria “desordem sob os céus”, para atual devoção a um “multilateralismo com características chinesas”.
Nessa perspectiva, dedico, no livro, diferentes textos à análise de que a cooperação atual e resolução de possíveis conflitos, entre a China e países do Sudeste Asiático, possam ser conduzidas e resolvidas no contexto de sua própria cultura.
A propósito, ressalto que é fundamental o protagonismo da ASEAN, que, no âmbito de herança cultural chinesa, disporia de mecanismos próprios para “construir um futuro de progresso compartilhado”.
Fundada em 8 de agosto de 1967, a ASEAN[3] foi entendida como a expressão de países que pretendiam apresentar-se ao Ocidente industrializado como área dedicada aos propósitos de uma economia de mercado. Além de não se situarem em região diretamente inserida na fronteira ideológica dos Estados Unidos da América - como acontecia com a Coréia do Sul, Taiwan e o então Vietnam do Sul - Indonésia, Malásia, Filipinas, Cingapura e Tailândia não desejavam, tampouco, aparecer como promotoras de bloco militar semelhante à SEATO[4].
Nesse sentido, práticas agressivas e contrárias ao correto relacionamento diplomático, evidentes em 2025, incentivaram reflexões sobre o papel agregador que a ASEAN exerceu na evolução das relações entre o Sudeste Asiático e países da Ásia Pacífico, conforme procuram ressaltar artigos publicados no livro. Tal percurso foi repleto de contradições, quase todas superadas pelo conceito de “resiliência”.
Em artigo sobre o assunto, relato conclusões obtidas – sobre o conceito de “resiliência” - durante périplo que efetuei, por centros de estudos estratégicos, em países do Sudeste Asiático, China e Hong Kong, em 1994, por instruções recebidas do Itamaraty. Relembro, a propósito, conclusões trazidas dos diálogos com estes estabelecimentos de pesquisas quanto aos aspectos de segurança regional, que influenciam, ainda hoje - em minha opinião - decisões políticas tomadas naquelas cidades visitadas.
Texto específico trata das relações preferenciais entre Malásia e Singapura – dois países fundadores da Associação dos Países do Sudeste Asiático – com a República Popular da China, nos anos seguintes a seu estabelecimento, em 1949.
A complexidade do relacionamento entre a China e o Vietnã é tratada em capítulo seguinte.
Reitera-se, a propósito, que a estabilidade, hoje alcançada, na Ásia-Pacífico, deve-se à formulação de objetivos nacionais claros, tanto na China, quanto nos países ao Sul, e à coerência em sua implementação.
De sua parte, a ASEAN desenvolveu o conceito de “regional resiliance”, enquanto o Presidente Xi Jinping tem afirmado o compromisso da China com a construção de paz duradoura, com prioridade atribuída ao Sudeste Asiático. O conceito da “comunidade de destino da humanidade”, que Xi tem proposto, articularia a experiência chinesa “de convívio pacífico” e solução negociada de conflitos com sua própria retórica de cooperação econômica.
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Entre os artigos publicados no livro, há também os que tratam da “questão de Taiwan”, no contexto das relações da RPC com os Estados Unidos da América.
Incluo reflexão sobre diferenças na evolução das formas de convivência entre a República Popular da China e os chineses que incluem significativa população no Sudeste Asiático (“overseas chinese”), e as dificuldades nas relações da Rússia, com países vizinhos onde vivem, como herança da União Soviética, “russos do exterior próximo”.
Encerro com texto sobre a parceria entre Pequim e Brasília. Isto porque a estonteante velocidade com que evolui a atual dinâmica das relações internacionais parece explicar o fato de que análises, sobre a inserção do Brasil no mundo, vejam o país apenas a partir de estímulos do exterior.
Pouca reflexão é feita iniciando-se com nossa mais próxima realidade nacional e regional. Nesse contexto, seria oportuna a recapitulação, inicialmente, da importância do Atlântico Sul, em cenário futuro de prosperidade compartilhada, entre Brasil e África, através deste oceano.
Em seguida cabe considerar como a África poderia ser incluída, em nossa parceria com a China.
A título de conclusão, reforço a proposta de que se deva olhar nossa inserção internacional, tanto com países asiáticos, quanto com os menos distantes, sempre com visão a partir do entorno imediato brasileiro.
Concluo com citação do Sr. Juri Ferrario, que tem sido um de meus interlocutores no intercâmbio de reflexões que venho publicando no LinkedIn. Segundo o Sr. Ferrario, “Talvez as rotas comerciais se transformem ao longo dos séculos, mas as ligações culturais, linguísticas e humanas tenham uma capacidade muito maior de atravessar o tempo.”
Nesse sentido - refiro-me ao texto que publiquei em 4 de fevereiro de 2026, sob o título de “REFLEXÕES SOBRE A INSERÇÃO INTERNACIONAL DE UM BRASIL TRI-OCEÂNICO E A PROSPERIDADE COMPARTILHADA ATRAVÉS DO ATLÂNTICO” - lembro que a busca pelo entendimento da evolução histórica de antigas civilizações, conforme compreendida por seus próprios povos e por vínculos que liguem o Brasil à África e à Ásia, possam contribuir não apenas para preservar heranças culturais compartilhadas, mas também para construir novas formas de diálogo e intercâmbio comercial entre sociedades que hoje enfrentam desafios semelhantes, embora em contextos atuais diferentes.
Título: CHINA DE 1980 A 2025: da busca pelo Caminho Real ao multilateralismo chinês; Autor: Paulo Antônio Pereira Pinto. Peso: 315 g. Páginas: 184.ISBN: 9786558634249. Amazon.com – Estante Virtual – Livraria Inovação – Livraria A Página (Paraná e São Paulo) – Leitura Livraria – Zamboni Books (São Paulo) – Livrarias Cameron (Porto Alegre) – Vanguarda (Pelotas RS).
[1] Esclareço que, após ter trabalhado durante seis anos e meio, na África, sucessivamente, em Libreville, Gabão; Maputo, Moçambique; e Pretória, África do Sul, entre 1976 e 1982; servi em Pequim, entre 1982 e 1985; fui subchefe da Divisão de Ásia do Ministério de Relações Exteriores, em Brasília, entre 85 e 86; trabalhei em Embaixadas no Sudeste Asiático, sucessivamente, Kuala Lumpur, Singapura e Manila, entre 86 e 95; fui designado para a Secretaria de Assuntos Estratégicos, da Presidência da República, entre 95 e 98; e nomeado diretor do Escritório Econômico e Comercial em Taipé, entre 1998 e 2006. Na sequência, fui designado o primeiro Cônsul-Geral em Mumbai, Índia; Embaixador em Baku, Azerbaijão; Representante do Ministério das Relações Exteriores no Estado do Rio Grande do Sul; e Embaixador em Minsk, Belarus. Aposentei-me em janeiro de 2019.
[2] A expressão “Caminho Real” na filosofia chinesa costuma ser mencionada como uma forma de traduzir ideias centrais de harmonia, conduta correta e via justa — especialmente no Confucionismo.
[3] A ASEAN (Associação das Nações do Sudeste Asiático, em inglês “Association of Southeast Asian Nations”). Local da fundação: Bangkok, Tailândia. Documento fundador: Declaração de Bangkok. Membros fundadores: Indonésia, Malásia, Filipinas, Singapura e Tailândia. Hoje, a ASEAN conta com 10 países-membros: os cinco fundadores mais Brunei (1984), Vietnã (1995), Laos (1997), Mianmar (1997) e Camboja (1999).
[4] A “Southeast Asia Treaty Organization” (SEATO) foi fundada, em 1954, logo após a retirada da França do Sudeste Asiático. Com o objetivo de conter “a expansão comunista” naquela região e foi integrada pelos Estados Unidos, Austrália, França, Grã-bretanha, Nova Zelândia, Paquistão, Filipinas e Tailândia”. Com sede em Bangkok, a Organização teve como principal objetivo legitimar a presença militar dos EUA no Vietnam, apesar da oposição francesa e paquistanesa. Foi extinta em 1977.