Continuando em meus exercícios pedagógicos para instruir os companheiros nas artes da governança, eu formulava no artigo abaixo, um segunda série de recomendações, que encontrava importantes para um bom exercício do poder.
Eu ainda achava -- que ingênuo eu era -- que eles eram educáveis, flexíveis, e que iriam exercer o poder de acordo com o que pregavam em seus textos pré-eleitorais. Eu sabia que entre eles havia bandidos, como em qualquer partido, só não imaginava que seriam tantos, e em tão alto grau de desfaçatez no roubo, na fraude, na falcatrua. Mas isso só deu para perceber quando começaram a mentir deslavadamente logo depois de terem assegurado a vitória, quando também passaram a abusar das facilidades do poder em causa própria. O resto é história.
Mas, naquela altura – e estou falando aqui de 29 de setembro, ou seja, antes mesmo das eleições – eu pensava que eles poderiam ser educados...
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 22/10/2017
Administrando as relações econômicas
internacionais do Brasil:
As conseqüências econômicas da vitória,
2ª parte
(da série:
manual de economia política para momentos de transição)
Paulo Roberto de Almeida
Introdução: os grandes temas de “economia
internacional” da nova maioria
Depois
de ter divulgado o primeiro artigo desta série, apropriadamente intitulado
“Companheiros, muita calma: trata-se agora de não errar!” (ver postagem anterior),
no qual eu discorro sobre o novo centro político que está se formando no Brasil
a partir da transição operada na campanha eleitoral presidencial, com algumas
recomendações de política econômica pela vertente teórica ou conceitual,
pretendo, neste segundo ensaio, abordar algumas questões práticas da “economia
política externa” com as quais terá de se haver a nova maioria política. A
justificativa é a de que elas são as mais suscetíveis de introduzir elementos
de turbulência na gestão macroeconômica do País, que passa a estar sob a
responsabilidade do novo centro, uma vez que essas questões já foram
responsáveis, como se sabe, por toda uma série de tremores e suores frios nos
mercados cambial e de títulos da dívida externa durante a maior parte da
campanha presidencial.
Quais
seriam os temas que integrariam um manual de economia internacional capaz de
atender às necessidades da fase de transição a uma “nova economia política”?
Eles seriam resumidamente os seguintes:
1. Desequilíbrios das
transações correntes (“exportar é a solução?”);
2. Dívida externa (e suas
relações com a dívida pública interna);
3. Regime cambial e paridade
do real (“Chamem um operador experiente!”);
4. Controles de capital (e
outros remédios amargos);
5. Relações com o FMI e
pacotes de ajuda financeira (consenso sobre o dissenso);
6. Mercosul, Alca e OMC (malabarismos
subregionais, hemisférico e multilateral);
7. Relações econômicas e
políticas com o Império (não tem como escapar);
8. Investidores estrangeiros,
especuladores internacionais et caterva (“Hello boys”);
9. Outros assuntos pertinentes
(inclusive o valor de troca dos economistas da casa).
A
bibliografia disponível sobre um possível bridge-building
conceitual entre a nova síntese neoclássica e a “velha” teoria do valor
(iniciada por Adam Smith, retomada por Ricardo e continuada por outros nomes
mais famosos) não é muito extensa, razão pela qual seremos obrigados a operar
sem notas de rodapé, o que em contrapartida facilita muito a leitura. Por outro
lado, as bases conceituais da economia política do novo centro político estão
obviamente mais perto do pensamento prebischiano e furtadiano do que do lado da
teoria clássica do comércio internacional ou mesmo da nova teoria do comércio
estratégico. Para o primeiro, que tende a se opor à globalização na medida em
que ela ameaça as bases da soberania econômica nacional, o importante é romper
a dependência por meio de um projeto de desenvolvimento econômico que garanta
fontes autônomas de acumulação, em bases nacionais, ao passo que a segunda não
apenas aceita como também recomenda a interdependência ativa, como forma de se
lograr patamares mais elevados de avanço tecnológico. Nos últimos tempos,
contudo, a “nova economia política” tem aceito algum tipo de composição com a
abordagem liberal, muito embora ela ainda tenha dificuldades em admitir certas
implicações práticas dos (sempre erráticos, por definição especulativos)
movimentos financeiros internacionais ou as conseqüências indesejadas do
livre-comércio. A “coexistência pacífica” tem porém avançado, lenta mas
resolutamente.
1.
Desequilíbrios das transações correntes (“exportar é a solução?”):
Trata-se
de conhecido calcanhar de Aquiles da economia brasileira, desde que ela se
organizou na era independente, sendo apenas compensados pelos saldos
comerciais, o que estava difícil de se obter nos primeiros cinco ou seis anos
de gestão neoliberal da economia, que permitiu a valorização cambial e abriu
indiscriminadamente as portas às importações. A solução lógica é o aumento
contínuo das exportações, algo bem mais consensual hoje em dia, mas que se
chocava com uma antiga crença nas virtudes liberadoras do mercado interno.
Com
efeito, há não muito tempo atrás os economistas chefes do novo centro
proclamavam, com o aval da principal liderança, as “diretrizes” da “ruptura
econômica”, que deveria ocorrer em vários níveis, entre eles a “inversão das prioridades da política econômica” e a
“mudança do padrão de crescimento”, cujo
núcleo dinâmico passaria a ser: ampliação do mercado
interno, redistribuição da renda e substituição de importações, muito embora
também se previsse um incentivo dirigido às exportações. Atualmente não se faz
muita distinção entre mercado interno e externo, mas ainda subsiste o
preconceito mercantilista contra as importações. Uma das soluções não
precisaria tanto passar pela eliminação completa dos déficits de transações
correntes, mas deve-se encontrar formas de financiá-los sem sobrecarregar
demasiado a conta de capitais. Ademais da solução óbvia do aumento das
exportações, uma das receitas recomendadas pelos economistas liberais seria
aumentar a atratividade para os investimentos diretos, algo ainda não
totalmente consensual na nova maioria, por duas razões muito simples: a
sobrecarga futura sob forma de remessas relativas aos rendimentos do capital e
uma desconfiança de princípio do capitalista estrangeiro (ele seria bem vindo,
desde que aceitasse certos compromissos de desempenho ou atuasse em áreas
selecionadas administrativamente como as mais benéficas do ponto de vista do
governo, não do próprio capitalista).
Agora que a nova maioria assume o comando da economia que tal
começar pela aprovação dos acordos de proteção e promoção recíproca de
investimentos? Eles estão mofando há quase dez anos no Congresso porque incluem
também ativos financeiros e porque ainda se acredita que cláusulas de arbitragem
são lesivas à “justiça nacional”.
2.
Dívida externa (e suas relações com a dívida pública interna):
O
problema está mais na geração de divisas para o seu serviço – quase metade das
exportações – do que na sua magnitude, pois se reconhece que a dívida externa é
hoje em dia majoritariamente privada (a despeito do crescimento da dívida
interna indexada em dólar). Em todo caso, parecem longe os dias da moratória
soberana, da renegociação unilateral ou mesmo da auditoria dos contratos, tendo
sido contudo proclamado o ponto central da redução da fragilidade financeira
externa. Não há muito consenso sobre como fazê-lo, além do ponto óbvio da
redução da demanda por empréstimos externos, mas essa questão também está
ligada aos níveis internos dos juros, o que se constitui em outro aspecto,
necessariamente mais complexo, da mesma realidade.
O
Estado é um “despoupador” líquido, daí a necessidade de superávits primários,
que quanto maiores, menor pressão sobre a taxa de juros provocará, mas os
economistas do novo centro continuam proclamando a necessidade de se reduzir os
patamares desses superávits, como forma de aumentar os investimentos e os
gastos sociais, o que atua obviamente contra a redução dos juros e a diminuição
da pressão sobre o real, cuja paridade está bastante ligada à crença (ou à
suspeita) em torno da capacidade do governo em honrar os pagamentos da dívida
externa. A boa notícia do ponto de vista prático está na aceitação da
intangibilidade dos contratos externos e na assunção da responsabilidade fiscal
como norma de administração pública, o que certamente contribuirá para a
gradual superação desse nó financeiro e monetário em médio prazo.
Notável
aqui como as antigas divergências de enfoque no tratamento da questão das
dívidas deram lugar a um razoável consenso conceitual e prático sobre o “que
fazer”. O aspecto bizarro é continuarem os economistas do novo centro achando
que o governo argentino ficou aplicando políticas neoliberais durante todo o
período, esquecendo-se eles que ele nunca conseguiu cumprir com o requisito
mínimo, até recomendado pelo FMI, de redução dos déficits públicos. As
diatribes ainda remanescentes sobre o pagamento de juros altos aos banqueiros
devem ser debitadas à preservação de velhos cacoetes verbais.
3.
Regime cambial e paridade do real (“Chamem um operador experiente!”):
A
condenação da valorização cambial é absoluta, com toques de vingança pessoal e
proclamações do tipo “nós cansamos de avisar” (o que economistas de direita
também fizeram). O estruturalismo e a esquerda, de modo geral, sempre
encontraram virtudes no modelo de desvalorização cambial, algo aliás
recomendado pelo FMI em 99% dos casos de ajuste macroeconômico desde 1973. Se
esquece, por outro lado, como o expediente deixa a todos mais pobres e diminui
a pressão por ganhos de competitividade no setor produtivo. Todo mundo está
portanto de acordo com a flutuação “suja” hoje praticada.
Caberia
deixar o passado em paz e tentar olhar para o futuro, isto é, um naquele em que
o real conseguisse não apenas sobreviver saudavelmente como moeda nacional
independente, como constituir-se também em base da futura moeda comum do
Mercosul, como proclamam os integracionistas mais afoitos do novo centro
(esquecendo-se, por certo, da tremenda renúncia de soberania econômica e política
que isso implica). Para que isso se faça, seria interessante assegurar que o
objetivo principal do Banco Central seja a defesa da moeda (isto é, a luta
contra a inflação), não a perseguição do pleno emprego ou outros objetivos
ainda mais esdrúxulos (como a “taxa de desconforto” trabalhista).
Que
tal começar por dar independência ao Banco Central e constituir um comitê de
política monetária mais amplo e realmente independente? Quem se dá ao trabalho
de ler as minutas das reuniões do Copom sabe como a política de metas de
inflação constitui uma aproximação bastante razoável daquele objetivo
primordial. A tentativa de fazer o Banco Central cumprir outras finalidades que
não essa, basicamente, resultará, a médio e longo prazo, no enfraquecimento da
moeda nacional e, com Alca ou sem Alca, na ameaça continuada de dolarização em
algum ponto do futuro.
4.
Controles de capital (e outros remédios amargos):
Alguns
economistas de esquerda falam de controles de capital com um sorriso nos
lábios, quase com uma secreta satisfação de estarem “punindo” capitalistas
fraudadores, especuladores estrangeiros e outros sócios da “volatilidade”.
Existem obviamente vários tipos de controles, e o menos pernicioso deles – na
entrada, por meio de quarentena ou imposto parcial – já foi aplicado pelo
Brasil em fases mais receptivas de ingresso de capitais. Na verdade, o que
aqueles economistas estão pensando são em controles na saída, o que apenas
contribuiria para a volta do mercado negro, ágio cambial e corrupção, sub ou
superfaturamento no comércio exterior e outras mazelas associadas.
Há
uma imensa dificuldade do pensamento dito estruturalista em reconhecer as
virtudes da livre movimentação de capitais (barateamento do custo do capital,
rápida mobilização de recursos em momentos de necessidade etc.), como se o
mundo tivesse vivido desde sempre em tempos keynesianos (cujas recomendações,
se esquece, foram concebidas para uma Inglaterra decadente e carente de
divisas). A oposição parece ser mais de caráter ideológico do que de ordem
prática, pois é possível combinar a abertura cuidadosa do setor financeiro com
o levantamento progressivo das últimas restrições à movimentação dos capitais,
objetivo de toda forma dependente de uma superação mais permanente dos
problemas crônicos de transações correntes.
Existe,
por outro lado, uma adesão quase universal, nesses meios, à Taxa Tobin,
proclamada como a “grande receita” contra a volatilidade (até por altas
personalidades da administração “neoliberal”), sem que se reconheça seus
efeitos essencialmente nefastos para países como o Brasil, que continuarão a
ser, durante algum tempo, importadores líquidos de capitais financeiros. Essa
adesão incondicional a algumas idéias progressistas que vêm de fora do País – e
que se repete igualmente no caso da Alca – revela talvez a preservação de um
certo colonialismo conceitual, que impede nossos “progressistas” de pensarem
com suas próprias cabeças nas melhores soluções para o País, a partir de uma
perspectiva do Sul, não daquela comandada pelos interesses de sindicalistas do
Norte.
5.
Relações com o FMI e pacotes de ajuda financeira (consenso sobre o dissenso):
A
situação está “maravilhosa”, comparando com a demonização do FMI que se fazia
ainda bem recentemente, com xingamentos e slogans
substituindo uma reflexão ponderada sobre o que pode e não pode fazer o FMI em
prol da saúde financeira do Brasil. Independentemente de como negociará o
futuro governo – de pé ou sentado –, o fato é que tornou-se possível aceitar
alguns parâmetros básicos desse relacionamento feito de amor e ódio durante boa
parte dos últimos 50 anos. Em todo caso, é bom que se saiba que a era dos
grandes pacotes de ajuda financeira está chegando ao fim e nem sempre será
possível ao Brasil esperar salvamento em qualquer circunstância, inclusive
porque a tolerância dos governos dos países ricos com países emergentes está
ficando menor (e as operações para eles tenderão a ficar mais caras).
Uma
coisa é certa: a política de condicionalidades deve continuar, mas se o novo
centro tiver objeções ideológicas contra esse tipo de “imposição”, a solução é
muito simples e está ao alcance de qualquer um. Basta não entrar em acordo com
o FMI e pagar tudo o que se deve do pacote anterior. Como regra de princípio, o
FMI e o BIRD acatam totalmente a soberania econômica e política dos países
membros. O mais importante no relacionamento com o FMI não é contudo o dinheiro
que ele pode emprestar (ainda que este possa ser bem-vindo em determinadas
circunstâncias), mas sim o aval a um conjunto de políticas e a transparência
que ele assegura em relação às contas públicas, hoje em dia um requisito
indispensável a qualquer país que pretenda participar dos mercados de créditos
comerciais e de financiamentos de curto prazo. Esse tipo de chancela parece ter
sido compreendida muito bem pelos “novos economistas”, ou será que não?
6.
Mercosul, Alca e OMC (malabarismos subregionais, hemisférico e multilateral):
O
terreno das políticas comerciais e das diferentes estratégias de negociação nos
foros comerciais é aquele no qual a esquizofrenia econômica parece mais
freqüente e disseminada, provavelmente por falta de (in)formação suficiente
sobre o modo de funcionamento da OMC, sobre as implicações da Alca para a
economia brasileira (e por uma visão ideológica desta última, como revelado
pela “teoria anexacionista”) e em virtude de uma avaliação otimista dos méritos
do Mercosul e seu papel em determinadas negociações (com a UE, por exemplo,
vista de forma positiva em relação à Alca não se sabe bem em função de quais
resultados esperados). Não é um campo no qual se possa recomendar um curso
rápido de políticas comerciais – tanto porque a leitura de algum manual sobre o
GATT eqüivale a tortura psicológica, melhor valendo freqüentar suas sessões –,
mas pode-se exigir mais atenção aos documentos negociadores e bem menos aos
daqueles grupos anti-globalizadores e anti-alcalinos que vivem repetindo
bobagens sem sentido por puro espírito anti-capitalista e anti-imperialista (o
que até é admissível, como brincadeirinha de jovens e discurso em assembléia da
UNE, mas não em funções de responsabilidade num governo dotado de uma
diplomacia respeitada).
O
abismo que ainda existe entre economistas da “situação” e da “oposição” (deve
haver inversão, dentro em breve) só vai ser preenchido na prática das
negociações, o que implica alguma preparação técnica muito séria no plano
interno. Em todo caso, como ocorreu com o FMI, a demonização da Alca não vai
ajudar em nada o Brasil, cabendo sim defender de forma conseqüente nossos
interesses e deixar o pessoal anti-alcalino gritando nas ruas. Uma coisa é
certa: estes últimos estão fazendo o trabalho sujo para os sindicalistas
americanos e os congressistas protecionistas, que não querem a Alca, assim como
não queriam o Nafta. Algum sindicalista brasileiro é, por acaso, contrário à
captura de empregos do Norte?: teria de dizer isso claramente para a nova
maioria política. No mais, nossos problemas são mais de ordem interna – juros,
capital, infra-estrutura, cultura exportadora – do que de ordem externa, ainda
que não seja fácil equacionar alguns deles, a reforma tributária, por exemplo.
Mas, quem sabe a Alca não consegue fazer aquilo que a classe política e os
empresários não logram obter a despeito de tanta vontade retórica?
Quanto
ao Mercosul, caberia também colocá-lo em sua dimensão própria, nem mais, nem
menos do que ele pode razoavelmente, nas condições que são dadas, cumprir em
favor da economia brasileira. Transformá-lo em “laboratório de experiências
sociais” ou em escalão avançado de uma “mercocracia comunitária” não vai ajudar
em nada na resolução de nossos atuais problemas de estabilidade macroeconômica
– que são de todos os países membros – e pode até terminar por desacreditá-lo
internacionalmente. Trata-se de um projeto relevante, talvez até mais diplomaticamente
do que economicamente, e o Brasil deveria propor as bases de sua restruturação,
com muito realismo e bom senso.
7.
Relações econômicas e políticas com o Império (não tem como escapar):
Como
diria Jean-Paul Sartre em relação ao marxismo, trata-se do “horizonte
insuperável de nossa época”. Melhor assim encontrar os termos de uma boa
convivência, respeitosa e respeitadora das soberanias e diferenças, do que
insistir em se proclamar “do contra”. Quem pode ser do contra é o próprio
Império, que tem condições de sustentar suas posições contra tudo e contra
todos. Países fragilizados como o Brasil têm de ser a favor de alguma coisa,
geralmente das soluções multilaterais, que já foram apontadas como a “arma dos
mais fracos”. Que seja: não há como não continuar proclamando o princípio da
igualdade soberana dos estados e de continuar exigindo o predomínio do direito
internacional, mas no plano da diplomacia prática é preciso encontrar alguma
forma de convivência com esse Big Brother incômodo e arrogante. De uma certa
forma, ele também cumpre o seu papel histórico, que é o de garantir a segurança
internacional, ainda que seja bastante desatento às preocupações de
desenvolvimento de uma imensa maioria de países. Excluindo o mito da “relação
especial” ou o da “divisão do trabalho”, não há muito o que se possa fazer para
compor uma agenda bilateral minimamente equilibrada, mas alguns elementos
diplomáticos e militares podem ser mobilizados na construção de um entendimento
aceitável para ambas as partes.
A
nova maioria pode, por exemplo, começar por aprovar o acordo de Alcântara
(salvaguardas tecnológicas), assim como mudar a sua atitude em relação aos
acordos de investimentos, pois ambas as posturas são totalmente ideológicas e
não têm nada a ver com o interesse brasileiro. Aliás, de forma geral,
recomenda-se mais pragmatismo e bem menos politização na conformação dessa
relação “imperial”: o bom senso em relação aos interesses nacionais deve
prevalecer em face dos julgamentos apressados que se fazem na avaliação dos
“motivos secretos” do Império (geralmente em função das famosas teorias
conspiratórias da história).
8.
Investidores estrangeiros, especuladores internacionais et caterva (“Hello
boys”):
A
especulação, junto com a agiotagem, constitui uma das mais desprezíveis ações
humanas, comportamento apenas comparável, na natureza, ao das aves predatórias,
que se aproveitam do momento em que a vítima está enfraquecida para atacá-la e,
se possível, esquartejá-la no ato. De acordo com a proposta acima? Como para a
maior parte dos economistas alternativos, não há como legitimar o comportamento
especulativo, a menos que se pare para pensar duas vezes e se constate, então,
que a especulação não é, na verdade, um alienígena que ataca o Brasil de
surpresa, aproveitando-se da instabilidade provocada pelos famosos “capitais
especulativos”. Por que existem esses capitais? Já pensou que a instabilidade,
em lugar de ser importada, pode ser um dado da realidade interna do País,
provocada por políticas erráticas, por ameaças de retrocesso no ambiente
regulatório, de nova auditoria nos contratos da dívida externa, de revisão das
regras de privatização ou de concessão de serviços públicos, enfim, pelo
discurso da “ruptura”?
Se
pensou, continue pensando, pois este também é um terreno no qual a distância
entre economistas de escolas diferentes é uma das mais profundas, constituindo
talvez a área na qual a credibilidade do País mais se vê afetada pela retórica
soberanista e de cunho nacionalista. Não que essas virtudes sejam dispensáveis,
ao contrário, mas é que nesse terreno os requerimentos de desempenho costumam
ser mais rigorosos do que as condicionalidades do FMI. Com efeito, continua-se
a repetir que os capitais externos são bem-vindos, mas apenas se for para o “desenvolvimento econômico de
qualidade”, que reforce a capacidade produtiva, impulsione a absorção de
tecnologia e estimule a inovação. Assim, se o capital estrangeiro quiser vir para produzir
com técnica defasada, sem compromisso com a superação da “fragilidade das nossas contas
externas”, talvez
já não seja mais bem-vindo, a menos é claro que aceite a orientação e a
disciplina de algum tecnocrata esclarecido.
Não
se trata aqui de uma questão de economia política, mas de um problema
psicanalítico e eu ainda não conheço algum título próximo de “Freud para
economistas”. Enquanto esse manual não aparece, recomenda-se um pouco de
convivência com essa “wild bunch” de mega-investidores: eles em geral são
cordatos e, salvo babar um pouco na gravata, não mordem na presença da própria
“vítima”.
9.
Outros assuntos pertinentes (inclusive o valor de troca dos economistas da
casa):
Quando
se fizer a crônica do transformismo político dos últimos anos, vai se constatar
o quanto ocorreu uma discreta, subreptícia, mas efetiva e profunda evolução da
nova maioria, indo dos antigos compromissos ideológicos com a “velha” economia
política em direção de uma NEP adaptada aos nossos tempos de social-democracia
algo descaracterizada por uma inconfessada adesão a premissas hayeckianas,
ainda que elas sejam inconscientes. Torna-se surpreendente, ademais, constatar
que esse largo caminho foi feito praticamente em três meses, sem manual de
bordo e sem muitos mapas para iluminar o caminho. Em todo caso, todos são
bem-vindos à realidade, cabendo agora, do ponto de vista do observador externo,
examinar os dados do problema, ver as
razões dessa “grande transformação” e
tentar discutir os efeitos que tal
atitude provocará dentro e fora da própria casa.
Em
relação aos dados, não seria preciso
grandes elaborações, bastando remeter à letra de antigos programas, de
documentos cidadãos e mesmo de diretrizes aprovadas em encontros oficiais e
como subsídios à plataforma eleitoral, e compará-los ao que está escrito
atualmente e ao que vem sendo dito expressamente: “o mundo mudou,…”. Quanto às razões, tampouco seria preciso examinar
os fundamentos teóricos da travessia, como revelados, por exemplo, nos limites
conceituais da “acumulação primitiva” da velha economia política, na teoria
sociológica da “lei de bronze” dos partidos políticos, ou na abordagem
antropológica dos “ritos de passagem” (pós-adolescentes) de uma primeira
geração de líderes políticos.
Os
critérios são aqui mais pragmáticos, estando ligados ao “prêmio” final (and the prize is power). Eles têm a ver
com o difícil diálogo com a sociedade com base nas antigas premissas pré-Bad
Godesberg, com a falta de trânsito nas altas rodas da sociedade (dos
capitalistas nacionais aos banqueiros de Wall Street), com as barreiras
eleitorais na base do “eu sozinho”, enfim, com uma série de relações
(condicionantes estruturais) que, segundo a linguagem do Manifesto, deixaram de corresponder às novas forças produtivas
(necessidades políticas) e tinham tornado-se outros tantos grilhões: esses
grilhões tinham de ser rompidos e eles foram rompidos.
No
que se refere, em terceiro lugar, aos efeitos,
ainda é muito cedo para uma avaliação precisa, mas seria preciso separar os
internos dos externos. Neste último campo, caberia constatar, de imediato, o
fim do “efeito espantalho”, pois a nova maioria passa a ter de administrar o
capitalismo velho de guerra, com os ônus e bônus da nova situação, talvez mais
dos primeiros do que dos segundos, o que não deixa de ser uma repetição
tropical de outras experiências conhecidas por alguns irmãos mais velhos (e
menos puristas). Entre os efeitos internos e externos, se situa a nebulosa dos
amigos e companheiros de viagem: do movimento social, das instâncias
internacionais (foros de São Paulo, de Porto Alegre, por exemplo) e outros
tantos amigos e aliados incômodos que seria preciso acomodar sem alienar. Vai
ser difícil aprovar resoluções e participar de plebiscitos como antigamente,
como se eles não tivessem efeito sobre a ação governativa, mas esse é o
problema dos custos ideológicos, quando se salta a barreira da prática. Existe
alguma resposta clara à décima-primeira tese sobre Feuerbach?
Abordando,
finalmente, a questão da reciclagem da “prata da casa” (manuais e resoluções
incluídos), não há como evitar uma repetição do “déjà vu” em torno do “esqueçam
o que eu escrevi”, pois é disso mesmo que se trata. Muitos acreditam, não se
sabe bem se por crença religiosa ou avaliação racional, que a “diplomacia da
cidadania” saberá como realizar a transição ideológica entre velhos hábitos e
novas necessidades.
Em
todo caso, a nova maioria tem todas as condições para realizar o que esses
foros vêm prometendo-nos há pelo menos dez anos sem nunca ter, de fato,
apresentado propostas concretas quanto às políticas alternativas que
conseguiriam retirar o lucro e a exploração do centro do sistema econômico: se
um outro mundo é possível – agora também em sua variante regional, uma outra
América – seria preciso que nos dissessem, ou melhor, nos demonstrassem que
isso pertence, não ao reino do utópico e ao domínio das exortações, mas ao
universo das realizações concretas. Trata-se, aliás, de excelente oportunidade
para demonstrar o valor de uso de tantos economistas alternativos, a menos, é
claro, que eles pretendam passar a enfatizar agora o seu valor de troca. Nunca
é tarde para a síntese metodológica e para o revisionismo nouvelle manière!
Paulo Roberto de Almeida
Washington, 29 setembro 2002, 11 pp.