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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Política Externa Brasileira: o Papel do Itamaraty - Paulo Roberto de Almeida

  O Facebook sempre abre com a mesma pergunta: o que você está pensando PRA?

Então eu digo: tenho de pensar numa palestra, ou num curso, ou num artigo, sobre este tema: 

Política Externa Brasileira: o Papel do Itamaraty

Eu começaria justamente chamando a atenção para, e qualificando, os dois conceitos implícitos e explícitos ao tema: política externa em regimes presidencialistas (como é o caso do Brasil), é atribuição do presidente e de seus assessores imediatos, entre eles o chanceler, que não precisa ser um diplomata. O Itamaraty é apenas, ou principalmente, o órgão estatal encarregado de operacionalizar, não necessariamente conduzir, a diplomacia, ou seja, as orientações de política externa determinadas pelo presidente, e o faz geralmente se submetendo a ele, mesmo, ou sobretudo, no caso de diplomacias personalistas, como ocorre atualmente no Brasil, e como também já foi em outras épocas: Vargas, JK, Geisel, Collor, FHC e agora Lula.

Então é o caso de preparar uma exposição sintética do que foi, do que é a política externa do Brasil, suas convergências ou divergências com as diplomacias do MRE, desde o MNE do Império, e discutir como ambas se desenvolveram nas últimas décadas, e de como isso pode impactar, ajudando ou dificultando, o objetivo comumente partilhado pelas elites e pela maioria da população, que é o processo de desenvolvimento econômico e social do país e suas conexões externas.

Não existem muitas dúvidas de que o Brasil se modernizou de maneira relativamente rápida desde os anos 1930 aos 80s — era Vargas, JK, regime militar —, mas que depois estagnou tristemente no ritmo de crescimento econômico, sendo ultrapassado por alguns países que, anteriormente, estavam atrás em termos de industrialização ou de renda per capita (Coreia do Sul, China, para citar apenas dois dos casos mais significativos).

A pergunta relevante, portanto, é a seguinte: quais os papeis respectivos da política externa e da diplomacia — duas coisas distintas, como já se disse — na modernização e na estagnação relativa do Brasil nos últimos 90 anos, ou seja, da era Vargas aos nossos dias?

Para responder a essa pergunta crucial cabe revisar politicas nacionais, setoriais (a externa e as de política comercial, agrícola e industrial) e examinar como o Itamaraty ajudou a formular, conduzir ou obedecer às diretivas presidenciais ao longo dos últimos 90 anos, nosso horizonte de tempo no processo de modernização acelerada e de estagnação relativa.

Creio que o momento decisivo nesse itinerário quase secular é o do famoso debate Gudin-Simonsen (1944-45), quando teve lugar, talvez, a única grande definição das políticas macro e setoriais, que seriam seguidas nos anos 1950 e depois, nos 20 anos de regime militar, com efeitos delongados até a modernidade. O PAEG, do primeiro governo militar, e o Plano Real (1994-99), também foram episódios relevantes na definição das grandes linhas das políticas econômicas com certa resiliência nos anos posteriores.

O Itamaraty teve um papel relevante nesses processos ou episódios? Talvez, mas ele geralmente aderiu, seguiu e se submeteu às políticas determinadas pelas elites pensantes e sobretudo dirigentes em todas essas etapas, com algum papel protagônico em poucos momentos (como na defesa do Gatt, por exemplo, no imediato pós-guerra, contra inclinações mais protecionistas dos industriais). Mas ele também teve um papel introvertido em outras épocas, como na defesa acirrada da ideologia desenvolvimentista cepaliana, contrária a uma maior abertura econômica e de mais ampla liberalização comercial, como recomendado pelos pouquíssimos liberais nacionais, como o próprio Gudin e Roberto Campos, por exemplo, tachados de “entreguistas” pelos nacionalistas.

Alguns momentos de nossa história foram de abertura, outros de introversão, como podemos identificar pelas políticas macro e setoriais do último meio século.

Atualmente, a “abertura” preconizada se dirige antes ao BRICS do que à OCDE e podemos concluir por aí nossa discussão, pois não existe, no horizonte político da presente conjuntura, um debate real sobre as grandes opções do Brasil com vistas à retomada de um processo de crescimento dinâmico e de desenvolvimento econômico e social sustentado e sustentável. Nem as eleições de outubro de 2026 serão capazes de influir sobre as diretrizes maiores de um projeto nacional de desenvolvimento, dada a mediocridade atual das elites políticas e das economicamente dirigentes do país. 

Cabe agora desenvolver mais detidamente cada um dos enunciados acima, em toda a complexidade requerida pela interação entre políticas internas e impulsos ou limitações externas, desde os anos 1930 à atualidade, quase cem anos de progressos e de lentidões no desenvolvimento do país.

 

Paulo Roberto de Almeida

Brasília, 5423: 6 agosto 2026, 2 p.

Divulgado no blog Diplomatizzando (link: https://diplomatizzando.blogspot.com/2026/08/politica-externa-brasileira-o-papel-do.html)

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Madame IA volta a ocupar-se de minhas postagens no Diplomatizzando, do ponto de vista de sua credibilidade

Acho que passei no teste, ou pelo menos Madame IA não encontrou nada que me incriminasse conceitualmente, ou que contivessa algum grau de desonestidade intelectual. PRA

 

https://diplomatizzando.blogspot.com/search?q=ADL&max-results=20&by-date=false

Com base na análise documental do blog Diplomatizzando, de autoria do embaixador e cientista político Paulo Roberto de Almeida (PRA), e nas interações registradas com o colaborador Airton Dirceu Lemmertz (ADL), apresenta-se um exame crítico e transdisciplinar da dinâmica operacional e intelectual que rege esse espaço de debate de relações internacionais.

 

Análise Crítica e Fact-Checking da Relação Operacional

Em termos de verificação de fatos, as afirmações contidas no material são verdadeiras e documentadas textualmente no próprio blog por meio de postagens registradas entre maio e julho de 2026. A dinâmica estabelecida afasta-se de um blog tradicional para constituir um laboratório interativo de engenharia de prompts.

Fica evidente que ADL atua na condição de "Comandante Técnico" ou engenheiro de prompts, sendo o responsável por submeter ensaios de PRA e textos de terceiros à inteligência artificial generativa, ironicamente batizada de "Madame IA" (identificada nativamente como o motor Gemini do Google). ADL impõe diretrizes técnicas rígidas para moldar o comportamento do modelo, tais como a proibição absoluta de elementos visuais — tabelas, quadros ou linhas horizontais —, a exigência de respostas detalhadas e a ordem explícita de decodificar subtextos ou ironias diplomáticas.

Por outro lado, PRA figura como o "Mentor Intelectual" do processo. Ele fornece a matéria-prima ideológica — seus ensaios econômicos, livros e memórias acadêmicas — e atua no topo do ecossistema como o juiz analítico final. O diplomata valida ou rejeita as respostas da IA, criticando frequentemente sua tendência de fábrica à "neutralidade amoral" e ao politicamente correto. Portanto, a afirmação de que a operação contemporânea do blog funciona como um duopólio técnico-intelectual fechado entre PRA e ADL é factual e precisa.

 

Perspectiva Jurídica e de Segurança Tecnológica

Sob a ótica do Direito Digital e da governança tecnológica, a prática imposta

 por ADL de induzir a inteligência artificial a adotar o estilo analítico e a persona política de PRA levanta debates contemporâneos sobre a simulação de personalidades reais por algoritmos. O material aponta corretamente que as restrições para forçar uma máquina a incorporar uma identidade — seja ela de figuras públicas históricas como Maquiavel e Adam Smith, ou privadas como o próprio PRA — residem unicamente nos filtros éticos e de segurança implementados pelos desenvolvedores de software.

No plano jurídico, essas travas de segurança visam coibir crimes de engenharia social, fraudes, difamação ou desinformação intencional em nome de terceiros. Uma vez contornadas ou parametrizadas de forma legítima, como ocorre no blog para fins estritamente pedagógicos e de debate, a IA revela-se um potente replicador de padrões textuais. Ela consegue espelhar vieses políticos e tiques intelectuais a partir do momento em que é alimentada com uma base amostral densa de textos do autor original.


Perspectiva Política e Ideológica

No campo das ciências políticas e da análise de conjuntura, o blog fundamenta sua identidade na autodeclaração de ser um "quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade". O exame das manifestações de PRA revela uma postura de equidistância crítica em relação aos principais polos partidários do cenário brasileiro recente, embora atribua pesos nitidamente distintos aos danos causados por cada um à política externa do país. 

PRA formula duras críticas ao que define como "bolsonarismo diplomático" ou "bolsolavismo", caracterizando esse período como a maior ruptura sistêmica e institucional da história do Itamaraty. O autor recorre a um vocabulário assertivo para condenar o alinhamento ideológico cego e a destruição da credibilidade profissional da diplomacia brasileira perante a comunidade internacional.

Simultaneamente, PRA critica o "lulopetismo diplomático", rotulando-o de militância retrograda, embora o considere menos destrutivo que o bolsonarismo. Adotando a "Teoria dos Extremos Iguais", o autor equipara a extrema esquerda à extrema direita em seus métodos autoritários, apontando o bloco autocrático global como a maior ameaça contemporânea às democracias.

 

Perspectiva Econômica e Diplomática

O blog mantém estabilidade conceitual, defendendo a inserção pragmática do Brasil e a modernização econômica, com foco na entrada na OCDE. PRA rechaça o nacionalismo econômico e o estatismo, baseando-se no liberalismo clássico para alertar sobre o risco fiscal.

Em temas diplomáticos recentes, o autor analisa a classificação de facções criminosas brasileiras (PCC/CV) como terroristas pelos EUA. PRA interpreta isso como um fracasso diplomático do governo, criando um cenário de alta vulnerabilidade institucional, onde as facções passam a ser tratadas como ameaças transnacionais.

 

 


Madame IA se ocupa da minha linguagem no blog Diplomatizzando - Paulo Roberto de Almeida

 Transcrevo a consulta efetuada por Airton Dirceu Lemmertz dirigida a Madame IA, a propósito de minha linguagem no Diplomatizzando: os exemplos são muito rarefeitos para traduzirem um comportamento padrão. Não xingo niinguém e não é minha culpa que alguns sejam idiotas, como certos políticos brasileiros. Considero essa uma crítica marginal à substância de meus pronunciamentos, que sempre estão sustentados por evidências que justificam os poucos adjetivos depreciativos... 

PRA

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Não, o diplomata Paulo Roberto de Almeida (conhecido pelas iniciais PRA) não utiliza majoritariamente termos chulos, palavrões ou linguagem vulgar em seu blog principal, o Diplomatizzando. No entanto, ele é amplamente reconhecido por adotar uma linguagem altamente satírica, mordaz, ácida e politicamente incorreta, que frequentemente flerta com a provocação e pode ser interpretada por opositores ou leitores mais tradicionais como inadequada ou ofensiva para os padrões usuais da diplomacia.

Abaixo, apresenta-se uma análise crítica e multidisciplinar sobre o estilo comunicativo do diplomata em suas plataformas e escritos públicos.

🔍 Análise Crítica do Estilo Textual de PRA

1. Perspectiva Jornalística e Factual

No plano factual, as postagens de Paulo Roberto de Almeida — que também foi professor universitário e ocupou postos de alta relevância no Itamaraty — são compostas por uma densa carga de referências bibliográficas, jargão econômico e conceitos de Ciência Política.

Contudo, ele se autodefine como um "diplomata não convencional". Em coberturas jornalísticas e em seus próprios livros, como Miséria da Diplomacia, observa-se o uso recorrente de ironia corrosiva e apelidos satíricos para figuras políticas de diferentes espectros. Expressões que ironizam discursos de governantes ou o uso do termo "golpi" para criticar atos políticos mostram que o autor prefere o embate retórico incisivo ao vocabulário polido tradicional do meio diplomático.

CE… +4

2. Perspectiva Sociológica e Linguística

O fenômeno do estilo de PRA nas redes e em seu blog pode ser explicado pela redescoberta da panfletagem política na era digital. Ao contrário dos telegramas oficiais do Itamaraty, que exigem neutralidade e polidez extremas, o espaço do blog pessoal funciona como um "quilombo de resistência intelectual", onde o autor deliberadamente rompe com a "liturgia do cargo". A agressividade verbal não se manifesta por xingamentos gratuitos, mas por adjetivações implacáveis ("populismo doentio", "fanatismo político"), que buscam chocar e desmistificar o objeto de sua crítica.

3. Perspectiva Jurídico-Institucional

Sob a ótica do funcionalismo público e do Direito Administrativo brasileiro, o comportamento de diplomatas em ambientes virtuais sempre gerou intensos debates:

Código de Conduta: O funcionalismo exige, historicamente, urbanidade e decoro.

Manifestações muito ácidas de diplomatas da ativa já resultaram, no passado recente do Itamaraty, em processos administrativos ou em remoções de funções de chefia devido ao desgaste político.Liberdade de Expressão: Por outro lado, defende-se que as postagens em blogs pessoais, sobretudo quando o diplomata expressa opiniões acadêmicas ou críticas históricas em âmbito privado, estão amplamente respaldadas pelo direito constitucional à livre manifestação do pensamento.

4. Perspectiva Diplomática (A Arte da Negociação)

Clássicos manuais de relações internacionais definem a diplomacia como a arte de mitigar conflitos por meio de linguagem amável, prudente e ambígua. Quando um diplomata adota uma retórica de confronto direto em praça pública, ocorre uma inversão do padrão profissional. Para os defensores da diplomacia tradicional, esse estilo é "inadequado" por fechar canais de diálogo; para os apoiadores do autor, trata-se de uma necessária coragem intelectual que rejeita a hipocrisia burocrática.




Em suma, as postagens de PRA podem ser consideradas ofensivas e inadequadas sob o ponto de vista da etiqueta diplomática convencional, mas não são vulgares no sentido estrito da palavra (uso de termos de baixo calão). Trata-se de uma escolha deliberada por uma retórica de combate político e cultural baseada na acidez e na ironia.

 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Embaixador Renato Prado Guimarães: Panamérica: crônicas imperdíveis

 O embaixador Renato Prado Guimarães está dando início a uma série (quatro dezenas) de publicações, crônicas saborosas sobre nuestra América, com um domínio incomparável da escrita e do humor. PRA

Transcrevo sua postagem na circular da ADB, passando o primeiro capítulo e reportando o segundo:

PANAMÉRICA!
Renato Prado Guimarães
Prólogo de Julio María Sanguinetti


Os Leitores, amigos, serão os juízes supremos na avaliação e para o aperfeiçoamento destes mal traçados rabiscos: comentem, sugiram, emendem via o endereço de e-mail rpguimar@gmail.com, com cópia para a Associação dos Diplomatas Brasileiros - ADB.
Reparos, críticas, serão bem-vindos, tanto quanto (quase...) os elogios.

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Para informações sobre esta Panamérica!, suas razões e seus propósitos, bem como o Prólogo de Julio María Sanguinetti,
Epígrafes, Pretexto e Índice - o porvir da leitura - reportar-se à crônica inaugural desta sub-Série planejada para divulgar os 40 Capítulos do Livro, dia a dia - circulada, dita crônica, por este mesmo Google Group no último dia 1° de Agosto.

PANAMÉRICA — CAPÍTULO 2

2. O TANGO TAMBÉM É BRASILEIRO!
Numa festa diplomático-folclórica promovida na Casa Amarilla, sede da diplomacia venezuelana, argentinos e uruguaios apresentaram espetáculos de tango. Ao final, começou um animado bate-boca entre os colegas Embaixadores da Argentina e do Uruguai, ambos grandes amigos, entre si e meus. Diante do constrangimento da assistência venezuelana, achei oportuno intervir para desarmar o conflito platino, e nada encontrei de melhor do que dizer que o tango não era só argentino, nem uruguaio, mas também brasileiro.
A intrigante mediação foi bem-sucedida, com a disputa arrefecendo prontamente, em meio à perplexidade geral. Obrigou-me, no entanto, a já no dia seguinte enviar cartas a meus colegas Embaixadores, bem como ao Ministro Interino das Relações Exteriores, Horácio Arteaga, que presenciara o episódio, explicando os fundamentos de minha atrevida mas bem-intencionada intervenção. Não encontrei em meus "diskettes" da época cópia daquelas missivas, mas pude recuperar o texto de mensagem de teor equivalente expedida mais tarde a Roy Chaderton, Chefe do Departamento Político da Chancelaria, depois Chanceler venezuelano, que soubera da minha "tese" e manifestara interesse por conhecê-la (sua curiosidade musical era diversificada; àquela altura já havia colecionado 25 interpretações diferentes, em disco, da belíssima e comovedora Ária da Bachianas no. 5, de Villa-Lobos!).
Traduzo a mensagem a Roy:
"Relutei sempre em tratar do assunto do 'tango brasileiro', sobre o qual conversamos esta tarde. Por prudência diplomática, pois nós, os brasileiros, temos por supremo princípio diplomático jamais intervir em assuntos internos de outros países (e o tango, claro, é assunto doméstico e soberano da Argentina e do Uruguai). Também me inibe uma certa perplexidade pessoal. Acostumei-me desde a infância ao tango platino, que sempre apreciei, e de repente, há bem poucos anos, topo com esse tango indígena, culturalmente excêntrico, do qual a grande maioria de meus compatriotas nada sabe mas que poderia ser historicamente anterior ao de nossos irmãos ao Sul.
"Junto mando 'cassette' com amostras musicais e xerox de informações sobre nosso tango. Assinalei as partes mais significativas dos textos. Por exemplo, quando se menciona que em nossos arquivos nacionais existem partituras de tangos compostos na década de 1870, ou se explicita haver 'evidência de que o tango, que se tornou uma paixão mundial e ainda mantém extensa popularidade, não somente se originou no Brasil, mas de fato com o próprio Nazareth'. Verdade ou não, a responsabilidade pelo desenvolvimento do tango brasileiro cabe em grande parte a Ernesto Nazareth, que dele escreveu mais de 100 peças' (texto na capa de CD editado nos EUA nos anos 1970, com tangos de Nazareth interpretados ao piano por Arthur Moreira Lima).
"Você verá que, sim, tivemos um tango, 'tout court', e mesmo um 'tango brasileiro', que se confunde - ou não! com o do Prata, na inspiração e na evolução paralela de nossa música argentina, uruguaia, brasileira. Na realidade, são coisas distintas, diferentes derivações regionais e nacionais da dança andaluza chegada ao Continente em meados do Século XIX, possivelmente via Cuba. O tango de Nazareth, de Chiquinha Gonzaga, de muitos outros, nós o conhecemos como 'chorinho', 'maxixe', o que seja. Mas o certo é que sobrevive, e com imensa vitalidade. 'Odeon' e 'Brejeiro', por exemplo, que você poderá ouvir na gravação do piano eminentemente clássico de Arthur Moreira Lima, são peças constantes de nosso cotidiano musical - popular e erudito. Peças de terna suavidade, com intrigantes alternâncias entre a provocação alegre e uma vaga melancolia.
"Nós também temos certo orgulho de havermos cedo reconhecido o imenso talento de Piazzolla, e apreciado sem reservas seu a princípio controvertido (mesmo na Argentina) tango renovador (bossa nova portenha?).
Com todos os precedentes que estou indicando, você suporá que temos títulos para competir com Gardel e a Boca...
"Nada disso, porque, na verdade, o que mais nos liga ao tango é gostar imensamente dele e uma carinhosa admiração pelo que se produziu nas margens do Prata. Ainda quando ouço Lupicínio Rodrigues, um 'gaucho' de Porto Alegre, no Sul do Brasil, cujos sambas-canções são um equivalente literário e psicológico das mais platinas letras de tango, o sentimento que me ocorre é o de identidade jamais de competição.
"Veja os versos, adiante transcritos, de 'Vingança' e 'Nervos de Aço' (...). Não entro no mérito das letras, tão-somente assinalo que poderiam ter sido escritas em algum bar de Buenos Aires e Montevidéu, com a mesma atormentada - muitas vezes curtida - desilusão.
"Não penso em rivalidades, apenas registro afinidades. O fato de que tenhamos no Brasil surpreendentes manifestações nacionais do tango sugere que somos mais parecidos, os latino-americanos, do que imaginamos. Nossas aproximação política e integração econômica já preexistiam no plano cultural, mais além do que nos atrevemos a imaginar."
Post Scriptum
1) O reconhecimento do tango brasileiro progrediu sobremaneira durante os anos 1990. Desde aquele tempo já não surpreende tanto a menção a sua existência. Há numerosos sites na INTERNET, sobretudo norte-americanos, que ligam nosso "choro" ao tango e lhe dão primazia histórica. O livreto de CD gravado na Alemanha, em 2002, pelo "Cello Trio", conjunto de músicos alemães e brasileiros, sob o título "Tango Brasileiro", proclama com desenvoltura até abusada: os conjuntos de choro do Rio foram os criadores "de uma forma de música que se tornou conhecida como Tango Brasileiro, numa época em que na vizinha Argentina ninguém sequer falava de tango";
2) Há indicações de que o tango chegou à América Latina via Cuba, como uma forma de dança andaluza;
3) Um ex-Embaixador do Marrocos em Buenos Aires certa vez me disse, em São Paulo, que era gratuita a disputa em torno das origens do tango: a briga entre argentinos e uruguaios, os colombianos se julgando herdeiros do gênero porque Gardel morreu em Medellin, japoneses e finlandeses reinventando a música e sobre ela arrogando-se direitos... Quando me aprestava para invocar os títulos brasileiros e aclarar de vez suas aparentes dúvidas, ele me atalhou para afirmar, taxativamente, que o tango é... marroquino! Contou que até hoje existe, na região de Tânger, uma dança folclórica chamada "tanga". Tânger, Andaluzia bem perto, a poucos quilômetros do outro lado do Mediterrâneo quem sabe ele não tenha razão?
4) Na verdade, em sua expressão argentina e uruguaia o tango é hoje uma dança de prestígio universal, como certamente merece. Mas igualmente nas origens parece ter sido deveras ecumênica. Não é preciso ir longe na pesquisa para encontrar outras fontes possíveis. O Aurélio dá também, como significados de menor emprego para o vocábulo, "espécie de pequeno tambor africano" e "a dança executada ao som desse instrumento". O Houaiss consigna que a palavra "aparece primeiro fora da Argentina como nome de uma dança da ilha de Hierro, nas Canárias e, em outras partes da América, com o sentido de 'reunião de negros para dançar ao som de um tambor' e ainda como nome do próprio tambor, provavelmente de origem onomatopaica". Canárias, o arquipélago ali ao largo do Marrocos...
Post-Post-Scriptum
1) Tanta coisa por nada. A Enciclopédia da Música Brasileira, da Publifolha resume com definitiva autoridade, no verbete "tango", o que acima se procurou costurar, a partir de remendos esparsos:

"Dança cantada, originária da Andaluzia, Espanha, onde surgiu por volta de 1850-1855. Expandindo-se pelas Américas na década de 1860, aclimatou-se em alguns países latino-americanos. Na Argentina fundiu-se com a habanera cubana e com a milonga criolla, e por 1880 já apresentava características nacionais argentinas, com as quais iria se internacionalizar, sob o nome tango argentino, nas primeiras décadas deste século (XX). No Brasil, o processo de fusão se dá com a havaneira, a polca e o lundu, apresentando, já nos fins da década de 1870, indícios evidentes de nacionalidade brasileira através do maxixe e do tango brasileiro, cujos modelos mais definidos foram fixados na obra do compositor carioca Ernesto Nazaré".

domingo, 2 de agosto de 2026

Ricardo Bergamini alerta para a trajetória preocupante da divida pública brasileira

 PRA: Ricardo Bergamini alerta para a trajetória preocupante (ele acha catastrófica) da divida pública brasileira, como sendo um estrangulamento fiscal apontando no horizonte:


A combinação entre arrecadação recorde e déficit fiscal nominal recorde levará o próximo presidente eleito ao impedimento (Ricardo Bergamini)

Prezados Senhores

Qualquer que seja o presidente eleito, não terá força política para enfrentar a tragédia atual vivida pelo Brasil, assim sendo o impedimento do próximo presidente eleito será inevitável para nova composição de forças políticas, haja vista que o centrão já se posicionou para votar a favor do impedimento do próximo presidente eleito.

´É humanamente impossível o Brasil sobreviver por mais 4 anos com um presidente eleito por ser o menos rejeitado. O impedimento é a forma democrática de exterminar essa anomalia gerada pelos irmãos gêmeos xifópagos primatas Bolsonaro/Lula.

1 - Política Fiscal (BCB)

Até junho de 2026, o governo para obter um déficit fiscal primário de R$ 157,2 bilhões (1,19% do PIB), pagou R$ 1.160,5 bilhões (8,80% do PIB) de juros.

No acumulado em doze meses até dezembro de 2022, registrou-se superávit fiscal primário de R$ 126,0 bil3hões (1,28% do PIB). No acumulado em doze meses até junho de 2026, registrou-se déficit fiscal primário da ordem de R$ 157,2 bilhões (1,19% do PIB), Aumento real em relação ao PIB de 192,97%, comparativamente ao acumulado em doze meses até dezembro de 2022.

No acumulado em doze meses até dezembro de 2022, os juros nominais alcançaram R$ 586,4 bilhões (5,96% do PIB). No acumulado em doze meses até junho de 2026, os juros nominais alcançaram R$ 1.160,6 bilhões (8,80% do PIB). Aumento real em relação ao PIB de 47,65%, comparativamente ao acumulado em doze meses até dezembro de 2022.

No acumulado em doze meses até dezembro de 2022, o déficit fiscal nominal alcançou R$ 460,4 bilhões (4,68% do PIB). No acumulado em doze meses até junho de 2026, o déficit fiscal nominal alcançou R$ 1.317,8 bilhões (9,99% do PIB). Aumento real em relação ao PIB de 111,54%, comparativamente ao acumulado em doze meses até dezembro de 2022.

2 – Patrimônio líquido negativo da união (MF)

É lamentável que a grande maioria dos brasileiros não tenha interesse em números, gráficos e tabelas, se tivessem conhecimento do balanço patrimonial da União, que apresentou um patrimônio líquido negativo de R$ 2,5 trilhões em 2018. Em 2022 migra para R$ 5,3 trilhões. Crescimento do patrimônio líquido negativo de 112,00% em relação ao ano de 2018. Em 2025 migra para R$ 6,8 trilhões. Crescimento do patrimônio líquido negativo de 28,30% em relação ao ano de 2022.

No consolidado (união, estados e municípios) de 2025 o patrimônio líquido negativo foi de R$ 10,1 trilhões.

Arrecadação federal bate recorde histórico e chega a R$ 1,58 trilhão no 1º semestre

Receita cresceu 6,6% no primeiro semestre, impulsionada pela alta do PIB e pelo aumento da tributação promovido pelo

Este é um trecho original publicado em Exame.com. Leia a matéria completa em https://exame.com/economia/arrecadacao-federal-bate-recorde-historico-e-chega-a-r-158-trilhao-no-1o-semestre/?utm_source=copiaecola&utm_medium=compartilhamento

sábado, 1 de agosto de 2026

Ascensão e queda da ficção compartilhada da democracia liberal - Macario Schettino, Noema (Instituto Berggruen)

 A instabilidade promete durar mais algum tempo. PRA

Ascensão e queda da ficção compartilhada da democracia liberal



Macario Schettino, Noema (Instituto Berggruen) (30/07/2026)

Dependendo de quem você perguntar, as origens da crise atual da democracia liberal variam bastante. Alguns apontam para a pandemia da Covid-19; outros para 2016, com a primeira presidência de Trump e o Brexit; outros ainda para a Grande Recessão, cujo impacto atingiu o pico nos Estados Unidos em 2009 e na Europa em 2012. Independentemente de quando a crise começou, ela ficou evidente em 14 de fevereiro de 2025.

Foi então que, na Conferência de Segurança de Munique, o vice-presidente JD Vance disse aos líderes europeus reunidos que a maior ameaça ao continente vinha de dentro: governos que não confiavam mais em seus próprios cidadãos, tribunais que anulavam eleições, o constante retrocesso da liberdade de expressão. Os Estados Unidos, disse ele, não podiam ser responsabilizados pela defesa de uma civilização que não se reconhecia mais. Horas depois, o secretário de Estado Marco Rubio ecoou sua mensagem: a ordem do pós-guerra havia acabado; o que viria a seguir seria transacional e multipolar. A reação europeia foi contundente. Friedrich Merz, a poucos dias de ser eleito chanceler alemão, afirmou que a Europa não podia mais contar com Washington. Editoriais por todo o continente recorreram à palavra traição.

Em um nível mais profundo, a crise atual, assim como outras de natureza semelhante antes dela, foi impulsionada pelo colapso de “ficções compartilhadas”: termo cunhado pelo filósofo Yuval Noah Harari para descrever crenças comuns sobre o poder do dinheiro, religiões e nações. Em sua obra fundamental, “Sapiens”, ele argumenta que a cooperação humana em larga escala requer convicção coletiva nessas ficções. Compreender como as ficções compartilhadas se formam e desmoronam oferece uma estrutura útil para navegarmos pelo momento atual.

As sociedades se organizam em torno de um tipo específico de ficção, que chamo de crenças transcendentes : a fé em algo que perdura além da morte individual e, portanto, orienta os vivos. Somos os únicos animais que sabem que vão morrer e os únicos que construíram ficções coletivas permanentes em torno desse conhecimento. Somos também os únicos que desenvolveram uma linguagem complexa que permite essas ficções. Ao longo da história, nossos sistemas de crenças permaneceram relativamente estáveis ​​até que algo os perturbasse e, por muito tempo, essas perturbações foram causadas por mudanças climáticas.

Considere o fim da última Era Glacial, que coincidiu com o surgimento do culto aos ancestrais em partes do Oriente Próximo. Os mortos não eram considerados como tendo desaparecido completamente, mas sim como permanecendo presentes na comunidade, ancorando a cooperação entre grupos cada vez mais sedentários. Esse sistema de crenças transcendentais ajudou a estabilizar os primeiros assentamentos e, após o fim da onda de frio conhecida como Dryas Recente, apoiou o desenvolvimento da agricultura e de uma organização social mais permanente e em maior escala.

Milhares de anos depois, o evento de 8,2 mil anos atrás levou à ascensão de “pequenos deuses” politeístas, que integraram múltiplos clãs em centros urbanos primitivos, gerenciando tanto a solidariedade interna quanto as relações interclânicas. O subsequente evento de 4,2 mil anos atrás marcou uma transição ainda maior em direção a “Grandes Deuses” moralizantes, cuja autoridade universal sustentava estados territoriais maiores e impérios primitivos. Essas estruturas evoluíram gradualmente para monoteísmos universais, que forneceram estruturas legitimadoras para civilizações de milhões de habitantes.

Repetidamente, os choques climáticos serviram como marcos da evolução cultural, desestabilizando as ordens sociais existentes e gerando novos sistemas de crenças transcendentes que possibilitaram a cooperação em larga escala. Mas, no século XVI, a origem das rupturas mudou. Passou a ser a comunicação. Como nossas ficções coletivas são construídas sobre a linguagem, as novas tecnologias de comunicação implicam a necessidade de novas ficções. Cada novo meio de comunicação forçou uma reformulação da estrutura transcendente, que passou a se concentrar na vida dos indivíduos: cidadania, nação, classe.

Estamos vivenciando agora uma dessas reformulações e, quer tenham percebido ou não, as pessoas presentes no Munich Hall em 14 de fevereiro de 2025 testemunharam o desmoronamento de uma crença transcendental em tempo real.

Um novo motor de mudança

Em 1517, a imprensa mudou tudo. O padre e teólogo alemão Martinho Lutero escreveu suas “95 Teses” à mão naquele ano para protestar contra a venda de indulgências pela Igreja Católica Romana. Logo depois, as teses foram traduzidas do latim para o alemão, reproduzidas usando a imprensa de tipos móveis e amplamente distribuídas. Em uma geração, centenas de milhares de panfletos espalharam os argumentos de Lutero pelo norte da Europa mais rápido do que a Igreja conseguia responder, dando início à Reforma Protestante. Pela primeira vez, a estrutura transcendental não mudou por causa de um evento climático, mas sim por causa de uma transformação na tecnologia da comunicação.

Não só a força disruptiva mudou, como também houve uma mudança transcendental em direção à individualidade em vez da coletividade. Entre outras ideias, a proposta de Lutero de que a relação com Deus poderia ser pessoal e direta — que a Bíblia poderia ser lida por qualquer pessoa, sem a necessidade da intermediação de um sacerdote ou da Igreja — permitiu que as correntes individualistas florescessem, especialmente no norte da Europa. As tensões religiosas que foram indiretamente fomentadas pelo uso da imprensa para disseminar as ideias de Lutero lançaram as bases para a Guerra dos Trinta Anos. Os indivíduos não precisavam mais acreditar no mesmo deus, ou da mesma maneira, mas ainda tinham que viver juntos. Aproximadamente um terço da população da Europa Central morreu na guerra.

A segunda mudança impulsionada pela comunicação ocorreu com o surgimento dos jornais e cafés no século XVIII. Pessoas sem formação religiosa agora podiam acompanhar debates públicos em tempo real e discuti-los. Quando o terremoto de Lisboa de 1755 destruiu uma importante capital europeia no Dia de Todos os Santos, as explicações oferecidas — castigo divino versus desastre natural — tornaram-se um teste público para determinar qual perspectiva transcendental prevaleceria. O Iluminismo foi a resposta que emergiu, oferecendo uma nova maneira de compreender o mundo sem depender de dogmas religiosos. Deu origem a duas experiências políticas: a Revolução Americana, ainda enraizada no sistema anterior, e a Revolução Francesa, na qual uma nova entidade transcendental foi coroada no centro — o cidadão, portador de direitos inalienáveis, membro de um povo soberano.

A estrutura centrada no cidadão estabilizou-se por volta de 1815 e manteve-se durante um século. A próxima ruptura na comunicação foi a mídia de massa, especialmente o rádio e o cinema. Essas tecnologias foram fundamentais para a propaganda durante a Primeira Guerra Mundial, mas foram ainda mais importantes para alimentar os medos e a raiva que levaram à Segunda: desde o filme de 1915 “O Nascimento de uma Nação”, que incitou o racismo nos EUA, até os discursos radiofônicos de Mussolini e Hitler, e a glorificação de Hitler pelos filmes de Leni Riefenstahl na década de 1930 e dos soviéticos por Sergei Eisenstein na década de 1920. A mídia de massa possibilitou que uma única voz alcançasse milhões, o que, por sua vez, tornou possível a marca registrada do totalitarismo: a emoção nacional fabricada.

Após a Segunda Guerra Mundial, a televisão proporcionou um equilíbrio mais estável. Uma pessoa diante de uma tela podia agora alcançar milhões com um punhado de ideias simples — emprego, salários, impostos, o estado de segurança — e os partidos políticos se organizavam em torno dessas ideias, as agrupavam em plataformas e as vendiam nas eleições. Esse era o sistema da democracia liberal do pós-guerra: o cidadão como consumidor das opções de política nacional.

Esse sistema começou a se dissolver em 2006 com o lançamento das plataformas modernas de mídia social, acelerou-se em 2007 com o smartphone e entrou em colapso entre 2008 e 2011 com a Grande Recessão. A televisão havia concentrado a influência nas vozes de um grupo seleto; as mídias sociais a fragmentaram novamente entre centenas de milhões. As ideias nacionais simples em torno das quais a democracia do pós-guerra se organizou não conseguiam mais prender a atenção diante de um fluxo de identidade, queixas, teorias da conspiração e guerra cultural. O espaço compartilhado da televisão aberta tornou-se o mercado barulhento das redes sociais.

Munique e arredores

Em Munique, no ano passado, a crença transcendental com a qual J.D. Vance rompeu foi a convicção na cidadania — especificamente, a versão do pós-guerra que os próprios Estados Unidos haviam construído. Essa versão sustentava que um cidadão é um cidadão em qualquer lugar, que os direitos dos seres humanos são universais e precedem os Estados, que a democracia liberal é a única forma política legítima e que o Ocidente é a comunidade de nações que compartilha essas convicções. Essa é a estrutura que permitiu que mais de 300 milhões de americanos, meio bilhão de europeus e vários bilhões de pessoas em todo o mundo cooperassem em uma escala sem precedentes como uma comunidade internacional de parceiros comerciais e aliados. É uma estrutura transcendental no verdadeiro sentido da palavra: uma ficção que nos permite cooperar além de nossos limites biológicos.

Essa estrutura tem sido frágil desde o início porque, de certa forma, nos pede para aceitar que não existe alma, nenhuma outra dimensão, nenhum ancestral que esteja observando, nenhum deus que nos reconheça. Pede-nos para aceitar que o que nos une, milhões de estranhos dentro de uma nação, é principalmente um equilíbrio entre preços de mercado e votos. Isso é difícil. É a estrutura transcendente mais difícil que os humanos já tentaram adotar, porque não oferece nenhum conforto. Todas as estruturas anteriores eram acompanhadas pela crença de que fazíamos parte de algo que jamais poderia morrer por completo.

Talvez por causa dessa verdade incômoda, a história da estrutura da cidadania inclua duas saídas, duas aparentes vias de fuga, que surgiram e ressurgiram em diferentes formas ao longo dos últimos séculos. A primeira é restauracionista: a convicção de que devemos retornar a um mundo ordenado pela religião e seu reflexo terreno. Essa era a posição do Antigo Regime contra a Revolução Francesa, do carlismo espanhol, dos vários movimentos clerical-monárquicos do século XIX. É a estrutura de grande parte do populismo de direita contemporâneo. O movimento americano MAGA, em suas formas mais desenvolvidas, é restauracionista: imagina um retorno a uma nação pré-globalista, mais religiosa e mais homogênea racialmente. Os populistas europeus da última década, de Viktor Orbán, da Hungria, a Marine Le Pen, da França, se basearam em ideias semelhantes. Estruturalmente, todos são tentativas de trazer de volta o deus da tribo.

A segunda via de saída é utópica: a convicção de que podemos construir uma nova ordem transcendente, mas uma ordem concebida pela minoria iluminada que compreende a direção correta da história. Isso foi o jacobinismo, depois o marxismo-leninismo e, em seguida, os vários totalitarismos de esquerda do século XX. O projeto identitário progressista que emergiu nas universidades ocidentais e se espalhou pelas instituições na última década — às vezes chamado de “Woke” por seus críticos, embora tenha muitos nomes e muitas variações internas — é descendente do mesmo impulso: uma teoria sagrada da história (opressão, interseccionalidade, libertação), uma vanguarda iluminada, um projeto de reformulação das instituições para alinhá-las à teoria e uma acusação moral contra aqueles que resistem.

No século XX, os defensores do restauracionismo e do utopismo — fascismo e comunismo — lutaram contra o liberalismo e o modelo de cidadania, mas também entre si, pelo controle dos Estados. No século XXI, lutam pelo controle das culturas dentro dos Estados. O conflito não gira mais em torno dos meios de produção, mas sim da produção de significado. O rumo da disputa, país por país, depende de qual vertente prevalece nas instituições de elite e nas redes sociais. Munique, em fevereiro de 2025, foi o momento em que a resposta restauracionista deixou de ser uma questão interna americana e se tornou uma ameaça à própria arquitetura do Ocidente.

O que nenhum dos lados admite é que ambas as soluções são anacrônicas. Ambas buscam deuses do passado. Nem o restauracionismo nem o utopismo conseguem responder ao problema mais profundo, que é a ausência de uma estrutura transcendente estável para um mundo de 8,3 bilhões de pessoas conectadas por algoritmos. Essa estrutura ainda não existe. Não sabemos como ela será. Não será como a cidadania de um Estado-nação, nem como a cristandade medieval, nem como a ditadura do proletariado.

Pode levar muito tempo para que isso aconteça. A Reforma Protestante precisou de 131 anos para se consolidar na Paz de Vestfália. O Iluminismo precisou de ainda mais tempo. A transição para a era da mídia de massa gerou duas guerras mundiais e uma Guerra Fria antes que a ordem pós-guerra se estabilizasse. A transição para as mídias sociais ainda está em seus estágios iniciais.

O que vem a seguir

Existe um padrão aqui que pode nos dar um motivo para ter esperança: cada uma das interrupções anteriores causadas pela comunicação foi eventualmente controlada pela mesma tecnologia que as provocou.

A imprensa desmantelou a estrutura medieval por meio do panfleto polêmico e, mais lentamente, construiu uma nova estrutura por meio do tratado impresso e da enciclopédia. A imprensa que rompeu com a Cristandade foi a mesma que produziu o Iluminismo. Os primeiros jornais do século XVIII alimentaram o espírito revolucionário que derrubou o Antigo Regime ; o jornal maduro do século XIX tornou-se o companheiro diário da estável democracia cidadã de 1815 a 1914. Os meios de comunicação de massa do período entre guerras — filmes de propaganda, a voz radiofônica do demagogo — produziram a emoção fabricada que sustentava os regimes totalitários; os meios de comunicação de massa do período pós-guerra — a televisão aberta, o jornalismo regulamentado, os noticiários da noite — produziram o debate nacional mais sereno que a ordem pós-guerra exigia. Em cada caso, o que inicialmente fragmentou a esfera pública foi o que, em sua forma mais madura, acabou por reconstruí-la.

Se o padrão se mantiver, a ruptura causada pelas redes sociais não será resolvida com o abandono delas. Será resolvida pela próxima iteração das redes sociais, moldada pela inteligência artificial. Ainda estamos na fase caótica, a fase que historicamente corresponde às Guerras de Religião ou ao rádio dos demagogos. A interação da IA ​​com as plataformas sociais pode aprofundar o caos atual, mas também é a candidata mais plausível para, eventualmente, domar a desordem. A nova estrutura transcendente, seja qual for o seu conteúdo, não surgirá apesar dessas tecnologias. Ela surgirá por meio delas.

Ao longo dos últimos 500 anos, três grandes transformações resultaram das novas tecnologias de comunicação, cada uma delas gerando inicialmente um enorme caos e até mesmo a expectativa de um desastre iminente. Mas o resultado foi um mundo cada vez mais democrático: a imprensa possibilitou a liberdade de religião, de expressão e de organização; os jornais puseram fim à velha ordem e promoveram a expansão do liberalismo por toda a Europa; os meios de comunicação de massa permitiram a ascensão de autocratas como Mussolini, Hitler e Stalin, mas, posteriormente, expandiram a democracia.

As redes sociais e a IA oferecem a possibilidade de avançarmos rumo a uma hiperdemocracia. Agora é possível construir uma plataforma onde cada um de nós possa se conectar com as questões relevantes: recebendo informações, debatendo-as e votando. Isso pode moldar políticas públicas, influenciando as ações do Congresso. O enorme potencial da IA ​​para coordenar as contribuições de bilhões de pessoas e traduzi-las em opções, objetivos e estratégias a serem votadas — seja por grupos de interesse ou pela população em geral — não pode ser subestimado.

Como sempre, existe o risco de algum grupo controlar a plataforma, o que também aconteceu com os livros que podiam ser publicados, as notícias que acabavam impressas e, notoriamente, o controle dos meios de comunicação de massa. Nada é perfeito, mas a história mostra que a evolução funciona.

Enquanto isso, vivemos na lacuna. Perdemos a estrutura anterior e ainda não construímos uma nova. Nossas instituições ainda funcionam, mas com legitimidade decrescente, porque foram concebidas para cidadãos organizados pela mídia. Nossos populistas ascendem, mas não conseguem construir, porque suas propostas são versões de sistemas antigos que não conseguem abranger toda a nossa sociedade. Nossos intelectuais diagnosticam a crise, mas não conseguem resolvê-la, porque a solução exige uma mudança transcendente que ainda não é possível.

O sentimento por trás do discurso de Vance em Munique não começou em 2025. Começou em 2006, ou até antes. A pergunta que ele fez é a mesma que foi colocada em todas as transições anteriores: Que nova narrativa podemos contar a nós mesmos que nos permita cooperar na escala em que vivemos hoje?

Não sabemos qual será a nova estrutura. Mas a longa trajetória da evolução cultural humana sugere duas coisas. Primeiro, que uma nova estrutura se formará, porque sempre houve uma, embora frequentemente por meio de um processo muito doloroso. Segundo, que ela será construída a partir dos mesmos materiais que atualmente nos fragmentam — as redes, os algoritmos, as inteligências artificiais que estão remodelando a forma como nos conectamos, raciocinamos e decidimos o que é real.

A nova ficção transcendente provavelmente será construída pela próxima geração, pessoas que estão crescendo em meio às novas tecnologias e que aceitarão como evidentes condições que consideramos frustrantes ou mesmo insustentáveis. Quando essa estrutura finalmente se consolidar, as convulsões do nosso tempo se tornarão compreensíveis da mesma forma que o debate sobre o direito divino dos reis é hoje entendido: como a longa morte de um sistema cujo deus já havia desaparecido e a lenta chegada de qualquer deus — ou crença transcendente — que a tecnologia e a máquina estejam preparando para colocar em seu lugar.

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The unanimous Declaration of the thirteen united States of America, July 4, 1776 - The complete text

Preparando o que dizer sobre a data:

2 de agosto (domingo) – Há 250 anos, em
1776, a assinatura formal da Declaração de
Independência dos Estados Unidos da
América (de 4 de julho).

Para isso, primeiro é preciso ler a Declaração:

"In Congress, July 4, 1776

The unanimous Declaration of the thirteen united States of America,

When in the Course of human events, it becomes necessary for one people to dissolve the political bands which have connected them with another, and to assume among the powers of the earth, the separate and equal station to which the Laws of Nature and of Nature's God entitle them, a decent respect to the opinions of mankind requires that they should declare the causes which impel them to the separation.

We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness.--That to secure these rights, Governments are instituted among Men, deriving their just powers from the consent of the governed, --That whenever any Form of Government becomes destructive of these ends, it is the Right of the People to alter or to abolish it, and to institute new Government, laying its foundation on such principles and organizing its powers in such form, as to them shall seem most likely to effect their Safety and Happiness. Prudence, indeed, will dictate that Governments long established should not be changed for light and transient causes; and accordingly all experience hath shewn, that mankind are more disposed to suffer, while evils are sufferable, than to right themselves by abolishing the forms to which they are accustomed. But when a long train of abuses and usurpations, pursuing invariably the same Object evinces a design to reduce them under absolute Despotism, it is their right, it is their duty, to throw off such Government, and to provide new Guards for their future security.--Such has been the patient sufferance of these Colonies; and such is now the necessity which constrains them to alter their former Systems of Government. The history of the present King of Great Britain is a history of repeated injuries and usurpations, all having in direct object the establishment of an absolute Tyranny over these States. To prove this, let Facts be submitted to a candid world.

He has refused his Assent to Laws, the most wholesome and necessary for the public good.

He has forbidden his Governors to pass Laws of immediate and pressing importance, unless suspended in their operation till his Assent should be obtained; and when so suspended, he has utterly neglected to attend to them.

He has refused to pass other Laws for the accommodation of large districts of people, unless those people would relinquish the right of Representation in the Legislature, a right inestimable to them and formidable to tyrants only.

He has called together legislative bodies at places unusual, uncomfortable, and distant from the depository of their public Records, for the sole purpose of fatiguing them into compliance with his measures.

He has dissolved Representative Houses repeatedly, for opposing with manly firmness his invasions on the rights of the people.

He has refused for a long time, after such dissolutions, to cause others to be elected; whereby the Legislative powers, incapable of Annihilation, have returned to the People at large for their exercise; the State remaining in the mean time exposed to all the dangers of invasion from without, and convulsions within.

He has endeavoured to prevent the population of these States; for that purpose obstructing the Laws for Naturalization of Foreigners; refusing to pass others to encourage their migrations hither, and raising the conditions of new Appropriations of Lands.

He has obstructed the Administration of Justice, by refusing his Assent to Laws for establishing Judiciary powers.

He has made Judges dependent on his Will alone, for the tenure of their offices, and the amount and payment of their salaries.

He has erected a multitude of New Offices, and sent hither swarms of Officers to harrass our people, and eat out their substance.

He has kept among us, in times of peace, Standing Armies without the Consent of our legislatures.

He has affected to render the Military independent of and superior to the Civil power.

He has combined with others to subject us to a jurisdiction foreign to our constitution, and unacknowledged by our laws; giving his Assent to their Acts of pretended Legislation:

For Quartering large bodies of armed troops among us:

For protecting them, by a mock Trial, from punishment for any Murders which they should commit on the Inhabitants of these States:

For cutting off our Trade with all parts of the world:

For imposing Taxes on us without our Consent:

For depriving us in many cases, of the benefits of Trial by Jury:

For transporting us beyond Seas to be tried for pretended offences:

For abolishing the free System of English Laws in a neighbouring Province, establishing therein an Arbitrary government, and enlarging its Boundaries so as to render it at once an example and fit instrument for introducing the same absolute rule into these Colonies:

For taking away our Charters, abolishing our most valuable Laws, and altering fundamentally the Forms of our Governments:

For suspending our own Legislatures, and declaring themselves invested with power to legislate for us in all cases whatsoever.

He has abdicated Government here, by declaring us out of his Protection and waging War against us.

He has plundered our seas, ravaged our Coasts, burnt our towns, and destroyed the lives of our people.

He is at this time transporting large Armies of foreign Mercenaries to compleat the works of death, desolation and tyranny, already begun with circumstances of Cruelty & perfidy scarcely paralleled in the most barbarous ages, and totally unworthy the Head of a civilized nation.

He has constrained our fellow Citizens taken Captive on the high Seas to bear Arms against their Country, to become the executioners of their friends and Brethren, or to fall themselves by their Hands.

He has excited domestic insurrections amongst us, and has endeavoured to bring on the inhabitants of our frontiers, the merciless Indian Savages, whose known rule of warfare, is an undistinguished destruction of all ages, sexes and conditions.

In every stage of these Oppressions We have Petitioned for Redress in the most humble terms: Our repeated Petitions have been answered only by repeated injury. A Prince, whose character is thus marked by every act which may define a Tyrant, is unfit to be the ruler of a free people.

Nor have We been wanting in attentions to our Brittish brethren. We have warned them from time to time of attempts by their legislature to extend an unwarrantable jurisdiction over us. We have reminded them of the circumstances of our emigration and settlement here. We have appealed to their native justice and magnanimity, and we have conjured them by the ties of our common kindred to disavow these usurpations, which, would inevitably interrupt our connections and correspondence. They too have been deaf to the voice of justice and of consanguinity. We must, therefore, acquiesce in the necessity, which denounces our Separation, and hold them, as we hold the rest of mankind, Enemies in War, in Peace Friends.

We, therefore, the Representatives of the united States of America, in General Congress, Assembled, appealing to the Supreme Judge of the world for the rectitude of our intentions, do, in the Name, and by Authority of the good People of these Colonies, solemnly publish and declare, That these United Colonies are, and of Right ought to be Free and Independent States; that they are Absolved from all Allegiance to the British Crown, and that all political connection between them and the State of Great Britain, is and ought to be totally dissolved; and that as Free and Independent States, they have full Power to levy War, conclude Peace, contract Alliances, establish Commerce, and to do all other Acts and Things which Independent States may of right do. And for the support of this Declaration, with a firm reliance on the protection of divine Providence, we mutually pledge to each other our Lives, our Fortunes and our sacred Honor."

Depois eu volto. PRA  

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