A queda do império Romano
Como acelerar a derrocada de impérios pela concentração de poder
Paulo Roberto de Almeida
Impérios são construções lentas, grandiosas, intencionais. Não se é império por acaso, sem qualquer planejamento dos elementos constitutivos. Um processo desse tipo geralmente ocupa o trabalho de duas ou três gerações de líderes resolutos, ocasionalmente até mais, e um dos principais motores para que um empreendimento tão grandioso como esse seja realizado costuma ser o dinamismo econômico de algum Estado forte; motivações adicionais podem responder a preocupações com a segurança ou até a sobrevivência em face de inimigos mais poderosos. Normalmente se parte de um Estado bem sucedido na organização de um povo uniforme, unido pela língua, costumes e formas de vida, ocupando um território delimitado, e que, numa segunda ou terceira etapa, empreende sua ampliação territorial e demográfica movido por ambições de seus dirigentes no sentido de incorporar novos recursos (riquezas já disponíveis ou a serem criadas), daí decorrendo a dominação de novos espaços e mais forças produtivas, que podem ser escravos ou povos “disponíveis” para serem submetidos.
Ocorre, assim, a criação de um império, pela ampliação do controle administrativo e militar sobre outros povos e culturas. O império romano, por exemplo, foi o resultado de acumulações graduais no próprio Lácio e no seu entorno imediato, até chocar-se, durante anos ou décadas com outros reinos estabelecidos ou impérios já constituídos, como o fenício, no âmbito do Mediterrâneo circundante. A constituição do império chinês passou pelo período dos reinos combatentes, sendo ampliado gradualmente por dinastias sucessivas. A unificação da língua, costumes, organização produtiva acaba resultando numa civilização grandiosa, como analisado numa série de obras do historiador britânico Arnold Toynbee.
A queda, ou o deslocamento, de um império existente se dá pelos fatores conhecidos do “overstretching”, a super extensão custosa de uma grande potência, como estudado por outro historiador britânico, Paul Kennedy, ambos intelectuais de um dos maiores impérios já erigidos na História universal. O império americano o sucedeu parcialmente (relutantemente, segundo o historiador escocês Niall Ferguson) na primeira metade do século XX, depois de ter ajudado a conter os impérios centrais europeus, tendo vindo em socorro dos dois maiores impérios colonialistas do mundo, justamente o britânico e o francês, confrontados à força ascendente do império alemão. O império czarista, por sua vez, se construiu na expansão sobre territórios dispersamente ocupados por povos não organizados em Estados ou contra outros impérios e reinos circundantes, em especial o otomano e pequenos reinos europeus.
O império americano teve a peculiaridade de se apoiar mais no comércio e nos investimentos do que na força bruta dos exércitos conquistadores, como foi o caso de grandes potências eurasianas dos últimos cinco séculos, um itinerário sintetizado pelo historiador americano Charles Kindleberger. O Império romano também tinha crescido na expansão econômica e comercial das novas regiões incorporadas na esteira do avanço de suas legiões, uma vez que legionários ganhavam terras nas fronteiras do império e daí passavam a tecer relações mercantis com a península, a partir desses núcleos colonizadores nos Balcãs, na península grega, na África setentrional, na Hispânia e além. Mas, o império romano, antes uma República dirigida por senadores, começou a decair quando adotou o despotismo do poder pessoal do imperador justamente, eventualmente o mesmo processo de concentração de poder, que causou o enfraquecimento do grande Império do Meio da civilização chinesa, antes visado pelos mongóis, mais adiante pelas forças manchus, sua última dinastia, que não conseguiu resistir às investidas de impérios mais agressivos nos séculos XIX e XX.
Esse mesmo império chinês que não conseguiu resistir às agressões russas e japonesas já na transição para o século XX, foi ainda mais debilitado pela extrema concentração de poderes alcançado por um imperador de um novo tipo, Mao Tsetung, um déspota que pode ter eliminado mais “súditos” do seu próprio povo, em meados do século XX, do que os imperialistas estrangeiros o fizeram, mas tudo por decisões pessoais, catastróficas. Outros pequenos e grandes déspotas, em outros continentes, também foram responsáveis por massacres e aflições pavorosas, vindas, como sempre, do próprio centro do poder.
Com isso chegamos às raízes dos mesmos fatores que estão causando não apenas a aceleração do declínio, ou eventual derrocada, dos dois grandes impérios que dominaram a história mundial na segunda metade do século XX: o russo (herdeiro do czarista e do soviético) e o americano, aparentemente o mais bem sucedido comparativamente aos anteriores, baseados mais na extensão territorial do que nos intercâmbios econômicos multilaterais dos últimos 80 anos. A fonte do “mal” parece ser, no fundo, a mesma: ela é a concentração pessoal do poder, que agrava os fatores estruturais, latentes, do lento declínio.
No caso do declínio relativo dos Estados Unidos, não se trata apenas da ascensão sempre possível de outros impérios concorrentes ao longo da história — objeto de algumas especulações históricas apressadas no modelo da “armadilha de Tucídides”, como feito recentemente por Graham Allison —, mas especialmente pela mesma concentração de poder que já tinha causado desastres anteriores, geralmente pelas improvisações conduzidas da maneira mais inábil por megalomaníacos pouco controlados por assessores submissos. Trump 1 tinha sido apenas uma amostra hesitante dessa personalização do poder, chegando até ao extremo de contestar sua não reeleição ao término do primeiro mandato. Já Trump 2, cercado por áulicos absolutamente submissos, extravasou em todos os sentidos, chegando à apoplexia ao contestar decisões da Suprema Corte que contrariam suas medidas arbitrárias, em direta contraposição à legislação e até à Constituição do país, chegando agora aos 250 anos.
O aspecto patético da turbulência interna é que várias das medidas ilegais – como no caso da política tarifária, abusivamente dirigida contra o inteiro universo dos parceiros comerciais bilaterais, e até mesmo contra o sistema multilateral de comércio – se colocam contra o próprio interesse nacional americano, ao elevar o custo de vida para o americano comum e ao não produzir o mirífico projeto de reindustrialização retroativa. O lado externo do mandonismo exacerbado é ainda mais extraordinário, pois que, entre ameaças e ações diretas, Trump já partiu do Panamá, tentou avançar sobre o Canadá, expressou abertamente seu projeto de conquista e anexação da Groenlândia, ameaçou repetidas vezes o México, a Venezuela e Colômbia por narcotráfico, e passou à ação no caso do país bolivariano, ao sequestrar o ditador-presidente numa operação militar expressamente em oposição ao Direito Internacional e às normas vigentes nas relações entre Estados soberanos. Depois se atacou ao osso duro do Irã – na verdade servindo objetivos israelenses – e ameaça Cuba na sequência.
Dirigentes autoritários não se contentam em infernizar a vida dos seus “súditos”, mas também projetam ameaças e ataques além-fronteiras, desestabilizando o sistema político internacional, ao criar crises artificialmente mantidas, que acabam sendo prejudiciais ao próprio país. Algum tempo antes de Trump, e sua notória incapacidade de gerir seus próprios negócios, o neoczar Putin já tinha enveredado pela arrogância ditatorial da super extensão imperial, precipitando uma possível derrocada do secular império euroasiático: começou pela Georgia (2008), continuou pela Transnístria (2010), aproveitou uma revolução na Ucrânia, em 2014, para se apossar da península da Crimeia, e partiu para uma guerra total de agressão e conquista do país em 2022. No quinto ano da invasão, suas forças continuavam paradas.
Putin não atingiu seus objetivos imperiais, criando, ao contrário, uma enorme sangria, inédita em “tempos de paz”, nas suas forças armadas, ao mesmo tempo em que reverteu todo o sistema produtivo do país a uma economia de guerra, fora de qualquer declaração de guerra formal. Agora é a vez de Trump criar o seu “Vietnã” ou o seu “Iraque”, ao precipitar, não uma invasão direta de territórios – boots on the ground –, mas uma possível unlimited war, uma guerra desprovida de objetivos claros e incapaz de conduzir à pretendida mudança de regime na ditadura teocrática do Irã, mas suscetível, na verdade, de provocar uma outra mudança de regime, em seu próprio país. O desenlace pode intervir antes mesmo das eleições de meio de caminho (em caso de derrocada da aventura iraniana), ou advir de uma alteração na composição do Congresso, a partir de uma nova legislatura em 2027. O “regime Trump” – o conceito se aplica, pois, sua administração não pode ser equiparada a um governo normal – não precisou de mais de um mandato para ascender e declinar, ao contrário do “regime Putin” que se estende já por uma geração inteira, ele também vocacionado a um futuro incerto.
No caso dos dois impérios, o russo e o americano, as perspectivas apontam claramente para um declínio inevitável, ao esgotarem ambos seus esforços em iniciativas militares acima de suas capacidades relativas, não exatamente na disponibilidade de “meios de matar”, mas além da capacidade financeira de cada uma das duas economias, envolvidas em dispêndios muito acima das possibilidades fiscais de cada Estado. Nos dois casos, o fulcro de processos falimentares evidentes deriva de um fator similar: a concentração absoluta de poder, não contida por qualquer outra força política dentro dos respectivos “regimes”. Lord Acton não diagnosticaria esses dois casos por outra fórmula senão a sua famosa declaração feita ao final do século XIX: “Power tends to corrupt, and absolute power corrupts absolutely”.
Em face desses dois dirigentes megalomaníacos, o líder da terceira superpotência, Xi Jinping, assiste impassível, tanto as aventuras militares do seu vizinho eurasiano das estepes, quanto o unilateralismo comercial e bélico do narcisista ocidental, convencido de que ambos conduzem seus impérios a uma derrocada inevitável, justamente pelo fato evidente de terem concentrado em suas decisões arbitrárias pessoais o destino de cada império em declínio. A China já era um “Estado weberiano” séculos antes que Max Weber sintetizasse sua tipologia sobre as várias formas de dominação política em lições que perduram na sociologia política desde um século, mas cuja formulação pode ser aplicada retroativamente a dois mil anos de história administrativa do Império do Meio.
O sucesso da “dominação leninista”, no caso do império chinês, não se deve tanto ao marxismo aparente da terminologia política – pois ele foi muito superficial no itinerário da República Popular –, mas ao carisma burocrático de um tipo de governança marcado pelo mandarinato meritocrático que deita raízes mais de mil anos atrás, pelo sistema de “concursos imperiais” do antigo Império do Meio, atualmente substituído pela rigorosa seleção de quadros do Partido, desde suas bases nas aldeias remotas. Se existe concentração de poder nas mãos do atual “imperador”, este é assistido por centenas de tecnocratas competentes. Ao contrário de Putin e de Trump, ele não toma decisões sem antes ouvir seus “companheiros”.
Paulo Roberto de Almeida
Brasília, 5246, 17 março 2026, 4 p.
Paulo Roberto de Almeida
Paulo Roberto de Almeida, é doutor em Ciências Sociais pela Universidade de Bruxelas (1984) e mestre em Planejamento Econômico pela Universidade de Antuérpia (1977); diplomata de carreira de 1977 a 2021, tendo servido em diversos postos bilaterais (Berna, Belgrado, Paris, Washington) e multilaterais (Genebra, Montevidéu). Foi professor no Instituto Rio Branco, na Universidade de Brasília e nos programas de pós-graduação em Direito do Centro Universitário de Brasília (Uniceub); é pesquisador sênior do Centro de Estudos Globais do Instituto de Relações Internacionais da UnB. Desempenhou-se como presidente do Instituto Brasileiro de Relações Internacionais (IBRI), como vice-comissário do pavilhão do Brasil na Exposição Universal de Xangai (2010) e como diretor do Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais (IPRI), do Ministério de Relações Exteriores (2016- 2019). Publicou diversas obras de relações econômicas internacionais, de política externa e de história diplomática do Brasil. É membro do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal e do seu Conselho Editorial. Entre suas obras estão: Vidas Paralelas: Rubens Ricupero e Celso Lafer nas relações internacionais do Brasil (2025); Apogeu e Demolição da Política Externa: itinerários da diplomacia brasileira (2022); Formação da Diplomacia Econômica no Brasil: as relações econômicas internacionais no Império (2001; 2004; 2017).





















