O fiasco de Copenhague
Editorial O Estado de São Paulo, Terça-Feira, 22 de Dezembro de 2009
Ninguém esperava que a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas - a chamada Copenhague 2009 - fosse resultar em decisões políticas que significassem o começo do fim do aquecimento global que ameaça a existência da vida no planeta. No máximo, a reunião de cúpula deveria estabelecer as condições para que a próxima cúpula, marcada para dezembro, no México, adotasse metas obrigatórias de redução dos gases do efeito estufa e criasse os meios para que os países pobres e em desenvolvimento pudessem custear tanto as mudanças de seus modos de produção como os processos de adaptação a elas.
Mas o que se viu em Copenhague foi uma confusão babélica, que terminou - fato raríssimo na história das cimeiras - sem que houvesse um documento final, uma declaração conjunta ou mesmo uma entrevista coletiva em que os organizadores do evento explicassem as conclusões a que chegaram. Por absoluta falta de consenso - e as decisões, no sistema da Organização das Nações Unidas, são tomadas desta forma, não sendo aprovadas se apenas um país rejeitar a proposta -, o máximo que se conseguiu foi transformar o que deveria ser o documento final num mero apêndice de uma decisão regimental.
Nem mesmo as propostas de corte de emissões de gases estufa e as ofertas de contribuições em dinheiro para o fundo comum de mudança e adaptação, levadas por vários países, foram incluídas no tal apêndice.
A cúpula de Copenhague foi mais do que perda de tempo. O fiasco certamente será determinante no esfriamento da opinião pública mundial. Nos últimos dois anos, além dos gastos na preparação da conferência, governos e entidades não-governamentais que se preocupam com o problema do aquecimento global trataram de mobilizar as respectivas populações para o que seria um esforço planetário de contenção da devastação ambiental.
Mas o resultado de Copenhague 2009 foi anticlimático. Divergências entre os dois países que mais poluem - os Estados Unidos e a China - levaram a um impasse. Antes, os organizadores da conferência haviam preparado um rascunho de documento de trabalho que, se adotado, permitiria aos países ricos continuar poluindo e condenava os países pobres a arcar com os custos econômicos e sociais do efeito estufa. Distribuído para uma dezena de países, ditos formadores de consenso, o documento causou indignação e foi engavetado. A infeliz sondagem, no entanto, mostrou que rumos a conferência tomaria. Finalmente, numa última tentativa para salvar a reunião de cúpula, os governantes do Brasil, China, Índia e África do Sul - aos quais depois juntou-se o presidente Barack Obama, sem ter sido convidado - reuniram-se numa sala fechada e elaboraram um documento que não limitava o aumento do aquecimento global a 2°C, não previa recursos suficientes para alcançar a meta e não dava caráter obrigatório às decisões da cúpula.
Em plenário, o documento foi rejeitado pelo representante de Tuvalu - o primeiro a pedir a palavra. Seguiu-se uma onda de protestos e, a partir daí, a conferência se esvaziou melancolicamente. Cada um dos 119 chefes de governo e de Estado que foram a Copenhague encontrou uma desculpa para antecipar a viagem de volta a seu país.
O fiasco da Conferência Copenhague 2009 foi, assim, maior do que o esperado. O fracasso deveu-se, em boa parte, a problemas de organização. Foram credenciados cerca de 45 mil participantes - um número absurdo, principalmente porque no recinto da conferência não cabiam mais que 15 mil pessoas. A superlotação tumultuou os trabalhos e acabou num confronto entre credenciados barrados na porta e a polícia.
Além disso, serão sempre remotas as possibilidades de consenso entre 192 países - dos quais compareceram 119 presidentes e primeiros-ministros - que têm regimes políticos diferentes, sistemas econômicos e estágios de desenvolvimento desiguais e distintas concepções de suas soberanias. Alguns, por exemplo, não admitem o monitoramento internacional das emissões.
Mais importante ainda, não havia um sólido documento técnico a partir do qual os políticos pudessem tomar suas decisões. Copenhague 2009 foi uma sucessão de erros que será preciso evitar. A ameaça ambiental é séria demais para ser tratada por amadores.
============
Meus comentários (PRA):
Anti-climatica, seria o caso de dizer.
Qualquer que fosse o resultado, ele seria um fracasso, de diversas maneiras: (a) as regras nao seriam cumpridas; (b) mesmo que fossem elas nao serviriam para os fins pretendidos; (c) o aquecimento nao vai subir ou baixar por causa de regras, nem, alias, por mudancas de padroes de impacto delongado; (d) iria (vai) se gastar dinheiro a toa.
Acho que tem formas melhores de gastar dinheiro, se o que se pretende é diminuir a pobreza e as desigualdades, fontes de sofrimentos muito maiores do que 1 ou 2 graus de temperatura.
Nunca tantos transpiraram tanto por tao poucos resultados, alias inuteis...
-------------
Paulo Roberto de Almeida
Temas de relações internacionais, de política externa e de diplomacia brasileira, com ênfase em políticas econômicas, viagens, livros e cultura em geral. Um quilombo de resistência intelectual em defesa da racionalidade, da inteligência e das liberdades democráticas. Ver também minha página: www.pralmeida.net (em construção).
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Postagem em destaque
Madame IA se pronuncia sobre a enciclica do Papa Leão XIV sobre ela mesma (via Airton Dirceu Lemmertz)
Papa Leão XIV publica encíclica Magnifica Humanitas sobre IA : https://news.google.com/search?q=intelig%C3%AAncia%20artificial&hl=pt-...
-
Minha entrevista desta sexta-feira 25/02/2022, sobre a dramática situação da Ucrânia no canal +BrasilNews. 1437. “ Entrevista sobre a Ucrân...
-
Personagens Bíblicos / História do Profeta Samuel: Quem foi Samuel na Bíblia? https://estiloadoracao.com/historia-do-profeta-samuel/ Histó...
-
Carreira Diplomática: respondendo a um questionário Paulo Roberto de Almeida ( www.pralmeida.org ) Respostas a questões colocadas por gradua...
-
Um espírito totalitário e policialesco, que não tem nenhuma vergonha de fazer ameaças fascistas, mas tem vergonha de revelar o seu nome, faz...
-
Tudo culpa de Airton Dirceu Lemmertz outra vez, que fica provocando Madame IA para examinar e interpretar minhas provocações. Ele submeteu...
-
FAQ do Candidato a Diplomata por Renato Domith Godinho TEMAS: Concurso do Instituto Rio Branco, Itamaraty, Carreira Diplomática, MRE, Diplom...
-
Madame IA analisa Paulo Roberto de Almeida a pedido de Airton Dirceu Lemmertz Paulo Roberto de Almeida, diplomata, professor.; + Madam...
-
Mercosul: estado atual, reformas necessárias Paulo Roberto de Almeida Publicado no livro O Brasil Pode Dar Certo: propostas de reformas in...
-
O Brasil precisa ingressar na OCDE para maior inserção global Paulo Roberto de Almeida 5301. “Prioridade Brasil 2030: ingresso na OCDE”, B...
-
Apresente-me uma análise (de modo detalhado e crítico), obrigatoriamente escrita em frases e parágrafos (proibido o uso de tabelas, quadros ...
Nenhum comentário:
Postar um comentário